A razão humana não é capaz de, por si mesma, alcançar essa verdade na qual o fideísta crê. Observe-se que, para o fideista, dizer “eu creio” é a mesma coisa que dizer “eu tenho certeza”



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“Eu creio” e “eu te creio”
jlcaon@terra.com.br

“EU CREIO” quer dizer “eu não sei ainda”, ou “apenas penso que”, ou ainda “poderia ser que”. Isto é, quando eu digo “eu creio”, aquilo que eu digo pode ser a verdade. Mas, o contrário também pode ser a verdade.

Então, quando eu digo “eu creio”, estou dizendo que ainda não sei. E “eu creio” equivale a um não-saber. Quando eu digo “eu creio”, estou numa situação de suspeita, de desconfiança, ainda não é científico, ciência certa e segura.

Agora, quando eu digo “eu creio”, traduzindo fé cristã ou fé religiosa, então estou a dizer que aceito aquilo em que creio, como ciência certa e segura. Aqui, não há suspeita ou hipótese. O cristão ou religioso que diz “eu creio”, apóia-se numa autoridade. Essa autoridade é o avalista ou o garante. No caso da fé cristã ou religiosa, esse avalista ou garante é uma autoridade muito especial, indiscutível e suprema, que se situa além dos horizontes da razão humana. Nas palavras do teólogo católico Martin Gelabert: “Com isto, a fé equivale a um ‘não saber’ e entra de cheio no terreno da suspeita, da desconfiança, tornando-se inconciliável com a ciência. Do ponto de vista religioso, a fé como crença seria a aceitação de uma série de verdades, estando nós apoiados em uma autoridade ‘sobre-natural’, que é aceita como suprema, mas que, justamente por isso, não está ao alcance da razão. Assim entendia, a fé se torna incompatível com a experiência humana, pois o que se sabe desta maneira não pode, de modo algum, ser verificado.” (p. 340a).



A razão humana não é capaz de, por si mesma, alcançar essa verdade na qual o fideísta crê. Observe-se que, para o fideista, dizer “eu creio” é a mesma coisa que dizer “eu tenho certeza”.

A fé cristã enquanto fé religiosa seria vivência humana, isto é, sensação, emoção ou sentimento? Como diferençar as ressonâncias afetivas que podem acompanhar a fé do cristão ou do religioso?

Quando se compara a fé cristã com o vento – o vento é coisa que a gente sente até no escuro, sem poder vê-lo – estar-se-ia psicologizando a fé cristã ou religiosa? Ora, a fé enquanto fé cristã ou religiosa é força, virtude teologal, isto é, graça e dom gratuito. Dádiva como a luz do Sol.

Portanto, o teólogo de ocasião, carente de fé, acabaria ficando carente também de psicologia, pois que faria má psicologia quando situa a fé cristã como um estado afetivo ou sensível. Essa é a resposta que, agora por escrito, devolvo a Firmino Antônio Caon, cuja participação animou significativos diálogos em fevereiro e abril de 2009.

A fé cristã ou religiosa é confiança em Alguém, isto é, enquanto confiança em Alguém é encontro intimíssimo com esse Alguém. E é um apostar todas as fichas nesse Alguém, apesar dos enigmas que esse Alguém oferece. Nessa situação, “eu creio em ti” equivale a dizer “eu te amo”, pouco importando as dificuldades que o fideísta (01) encontre para se manter nessa posição. Ora, esse “eu creio em ti” sinônimo de “eu te amo” é também o estado de enamoramento de amantes. A alta mística situa a alma sempre como amante da divindade, seja na mística essencial, na mística de conúbio ou de outro tipo. *01: Nesse contexto, fideísta deve ser entendido como é definido por Lalande, no Sentido “B”: “Por extensão, na linguagem filosófica moderna, [fideísmo] opõe-se a racionalismo , e aplica-se a atodas as doutrinas que admitem “verdades de fé”, e que lhes reconhecem um valor igual ou superior ao das verdades que constituem os princípios e a s conclusões das ciências.” (in Vocabulário Técnico e Crítico e Filosofia).

A fé religiosa, cristã ou outra, seria um “páschon”, um passivamento? (02). Sabemos que um passivamento mesmo em forma de apaixonamento, seja de qualquer tipo, não é uma deliberação ou decisão da vontade. Um apaixonamento acontece e nos pega de surpresa. Manter-se subjugados ao aocntecimento é já um passivamento, um apaixonamento. Então, seria a fé religiosa, cristã ou outra, um apaixonamento que, se, por um lado, é um motor de grandes ações que elevam o fideísta a transcender-se, pode, por outro lado, e não poucas vezes, ser condição de desgraças e perdições? *02: Uma das dez categorias aristotélicas dos acidentes (acontecimentos) é (páschon) e que costumo traduzir por passivamento.

Pensemos na pessoa que se apaixona pela pessoa errada e dessa forma, abraça uma liderança canalha, ou envolve-se com alguém que não a merece. Pensemos na fé religiosa dos terroristas que se matam para matar aqueles que eles consideram maus.

A fé religiosa, cristã ou outra, seria dádiva, presente, dom que é dado gratuitamente?

É lógico que ninguém pode presentear-se a si mesmo, pois, nesse caso, antes de receber o presente, esse presenteador já estaria na posse do presente! Presente, a gente recebe de outro e gratuitamente de outro. A vida, o nome e tantas coisas recebemos de outro/s e de presente. Essa situação nos coloca num tipo de dívida pelas nossas origens, embora nunca tenhamos contraído essa dívida. Metaforicamente, dizemos que essa dívida seria uma dívida de gratidão, uma dívida simbólica, isto é, nem econômica, nem jurídica, nem moral. Mas, dívida simbólica pelas origens não me parece ser outra coisa que responsabilidade pelo que recebemos.

Portanto, existe uma responsabilidade ética pelas nossas origens que pode nos orientar a dar conta daquilo que temos pelos dons que recebidos de nossos antepassados, da tradição e das descobertas e invenções dos cidadãos de nosso tempo. Recordemos Goethe que nos diz: “Perante a excelência do outro, não existe outra saída senão o amor”, (ou a inveja, ou pior ainda, o nem-me-importa).

Se a fé religiosa, cristã ou outra, é dádiva, presente e dom em que ela se diferencia de um apaixonamento, passivamento, que nos acontece como dádiva, presente, dom, surpresa, isto é, sem a deliberação e decisão da vontade? Fé religiosa, cristã ou outra, é apaixonamento, passiavamento, acontecimento? Mas, em que se diferenciam fé religiosa e apaixonamento ou passivamento?

Na clínica e na pesquisa psicanalítica, a paixão ou passivamento que subjuga o psicanalisante ao tratamento psicanalítico é chamada de transferência. A transferência é um estado psíquico (inconsciente) a partir do qual o psicanalisante está, na relação com o psicanalista, não enquanto o psicanalista é pessoa e cidadão, (no caso, um senhor de 68 anos, que é minha idade), mas aquilo que o psicanalisante supõe inconscientemente que o psicanalista é ou deveria ser. É para o psicanalisante aquilo que Lacan chama de sujeito-suposto-saber. Isto é, um sujeito que, para o psicanalisante supostamente teria um saber, o próprio saber do psicanalisante.

Assim, transferencialmente, o psicanalista viria a ser para o psicanalisante, ora um pai o mais bondoso, ora um ogro o mais detestável, ora qualquer ser fascinante merecedor dos mais intensos amores, ora um ser repugnante merecedor dos mais profundos ódios.

O psicanalista capaz de manter o psicanalisante confiante nos fulgores dos mais fortes amores ou nos estertores dos mais poderosos ódios permite ao psicanalisante não só perder o medo das próprias palavras, mas também poder lidar com os próprios medos provocados pelos intensos amores e ódios de que é capaz desde o berço.

Para que isso ocorra, é necessário que o psicanalista se recuse a tomar parte nas paixões amorosas e odientas do psicanalisante. É por isso que uma psicanálise jamais poderia acontecer entre amantes, familiares, parentes ou amigos.

Seria a fé religiosa, cristã ou outra, uma transferência, já que não é nem deliberação nem decisão da vontade, já que é um acontecimento e dom que viria gratuitamente de Alguém? Definitivamente, não. É claro que no tratamento psicanalítico que somente é tratamento enquanto há transferência, há subjugação do psicanalisante ao sujeito-suposto-saber. Mas, a transferência implica numa subjugação transitória e relativizada. A fé cristã ou religiosa implica uma subjugação definitiva e absoluta. Por essas e outras explicações é inviável comparar ou estabelecer analogias entre a transferência do psicanalisante ao sujeito-suposto-saber e a fé do fideísta ao seu Deus.

Uma transferência, enquanto paixão, passivamento, pode se dar, no dia a dia, com os seres humanos, levando-os a interações amorosas ou odientas, desde simpatizar, ficar, namorar, ir para a cama, casar, etc., como antipatizar, desprezar, rechaçar, etc.

Na transferência dos tratamentos psicanalíticos, as interações amorosas ou odientas não se realizam concretamente entre psicanalista e psicanalisante, enquanto pessoas ou cidadãos. Isso anularia a força e o vigor da transferência e consequentemente estragaria o tratamento do psicanalisante. Quando Christiane Torlone psicanalisante de Eduardo Mascarenhas, ficou envolvida amorosamente com o psicanalista, psicanalisante e psicanalista tornaram-se amantes e acabou-se o tratamento psicanalítico de Christiane Torlone e a escuta psicanalítica de Eduardo Mascarenhas.

Hipoteticamente, se Teresa de Ávila, noiva perpétua de Jesus, se tivesse envolvido como Madalena de Magdala, que esteve com ele enquanto homem concreto e histórico, ter-se-iam realizado e consumado as núpcias? Realizadas e consumadas as núpcias, continuaria Teresa de Ávila a ser a noiva perpétua de Jesus?

Seria então o tratamento psicanalítico da mesma natureza de uma união mística entre a alma amante e a divindade? Definitivamente, não.

Na união mística, o amante não recebe escuta ou intervenção proveniente dessa escuta a qual levaria o amante a retomar as próprias palavras e a partir delas ressituar-se na vida.

Na união mística, o amante receberia de si próprio aquilo que ele deseja ou teme, atribuindo-o a outro. E diferentemente do alucinado que ouve vozes, as próprias vozes que ele mesmo pronuncia, embora as atribua a outrem, sem se responsabilizar por elas, o místico as acolhe e as ressitua em sua relação com a divindade e, dessa forma, se responsabiliza por elas e as faz render.

O místico que não contar com a direção espiritual, o celebrado discernimento das almas ou dos espíritos, - a qual não é a confissão católica auricular dos pecados -, corre o risco de se perder nesses seus amores.

Uma direção espiritual difere de uma direção psicanalítica de tratamentos. Na direção espiritual, a relação do místico com a divindade em ato é relatada a um terceiro somente após, no relance, e não durante o ato. Nos assim chamados êxtases ou outros fenômenos místicos, como levitação, estigmatização, etc., o diretor espiritual não tem nada a fazer. Um psiquiatra hesitaria ou não hesitaria em internar uma pessoa que apresentasse semelhantes sinais ou comportamentos? Seriam conversões histéricas, transtornos factícios, etc.?

Na direção psicanalítica de tratamentos, a relação do psicanalisante com as múltiplas faces do suposto psicanalista, sujeito-suposto-saber, são relatadas em cima do lance no próprio ato do tratamento. É por isso que tratamento psicanalítico só pode acontecer in praesentia, estando presentes psicanalista e psicanalisante. Não cabe haver psicanálise semi-presencial ou à distância (por telefone, por e-mail, por carta, etc.)

Em transferência, na situação psicanalítica de tratamento, o psicanalisante situa-se entre as duas situações anteriores: a do alucinado e a do místico.

Ouve as vozes próprias que ele escuta só depois de as ter falado, graças à escuta presencial do psicanalista que, não estando morto, se faz de morto, isto é, não participante dos desejos e acontecimentos da vida passada, presente e futura do psicanalisante.

Um defunto não participa das fofocas do velório, porque é defunto e enquanto defunto não pode dirigir o velório. Um psicanalista não participa dos desejos e acontecimentos do psicanalisante não porque o psicanalista seja um defunto, mas porque se conduz como um defunto. E somente assim pode dirigir o tratamento psicanalítico do psicanalisante.

A transferência, motor do tratamento psicanalítico, é um “eu creio”, mas, um “eu creio”, tanto no sentido de “eu creio” como no sentido de “eu te creio”. Isto é, como psicanalisante “eu creio” nisso que eu pressinto vagamente ser o psicanalista e “eu te creio”, quando, nas palavras desse que vagamente pressinto, ouço aquilo que eu já disse sem me ter ouvido e dado conta do que eu dissera.

Deu para se ver que fé religiosa, cristã ou outra, não é nem uma paixão, como entendemos quando falamos de apaixonamentos, nem uma transferência, quando usamos esse termo para significar o que se passa na situação psicanalítica de tratamento, entre psicanalisante e psicanalsita. A fé cristã ou religiosa pode parecer-se a uma paixão ou a uma transferência, pois que não é fato de deliberação e decisão da vontade. Todavia, como se viu, em virtude da subjugação absoluta à verdade da fé, não pode ser uma transferência. A transferência é uma subjugação ao sujeito-suposto-saber, mas, transitória e relativa. Até na hipnose essa subjugação, malgré o hipnotizador, não consegue ser absoluta.

Dentro e fora do cristianismo, há uma função chamada de direção espiritual das almas ou discernimento dos espíritos curiosamente praticada tanto por homens como por mulheres, até mesmo dentro do cristianismo. Pelo que se saiba, a direção espiritual é bem anterior à confissão auricular de alguns cristãos. Pergunto-me se o abandono da direção espiritual não deu lugar ao aparecimento da confissão auricular.

Mutatis mutandis, as psicoterapias, como as dos magnetizadores e hipnotizadores são bem anteriores à direção psicanalítica de tratamentos. Nem me pergunto, pois dou como certo que o abandono das psicoterapias dos magnetizadores e dos hipnólogos e dos psicólogos janetistas, como bem cedo percebeu a argúcia e perspicácia do gênio de Freud, deram lugar para que aparecesse e viesse para ficar a direção psicanalítica de tratamentos.

No cristianismo e no campo psi, hoje, encontramos, respectivamente mais confessores do que diretores espirituais, mais, psicoterapeutas do que diretores psicanalíticos de tratamentos.

Todavia, o abandono das direções espirituais deu lugar ao aparecimento da confissão auricular e o abandono das psicoterapias deu lugar ao aparecimento da direção psicanalítica de tratamentos.







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