A recepçÃo bíblico-pastoral das conferências episcopais na al e a leitura popular da bíblia



Baixar 79.6 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho79.6 Kb.

Leitura Popular

A RECEPÇÃO BÍBLICO-PASTORAL DAS CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS NA AL E A LEITURA POPULAR DA BÍBLIA

Francisco Orofino


Tão importante quanto a elaboração de um documento é sua preparação e sua recepção. Na elaboração se faz necessário todo um processo de mobilização, de coleta de dados e de idéias, de discussões e de contribuições. Na recepção é importante a divulgação e a aceitação do que foi aprovado. Nesta comunicação vou apresentar um histórico das práticas bíblico-pastorais desenvolvidas a partir das quatro Conferências anteriores do CELAM. Também apresento uma tentativa em sistematizar o que chamamos de Leitura Popular da Bíblia, fruto maior do processo anterior. Assim, neste trabalho, destaco alguns eventos e fatos que podemos detectar como preparação e como resultado concreto destas mesmas Conferências. Concluo com alguns desafios colocados para a próxima Conferência de Aparecida.

1ª PARTE


UM POUCO DE HISTÓRIA

Tudo isso que hoje está acontecendo ao redor da Bíblia dentro da igreja católica tem uma história vinda de longe. Muitos fatores contribuíram para que se chegasse a esse tipo de leitura da Bíblia com suas aplicações pastorais. Destaco três fatores que não podem ser ignorados para se entender a conjuntura eclesial a partir dos anos 60 e que geraram sucessivamente Medellín, Puebla e Santo Domingo. Em seguida, veremos as três etapas que marcaram, e continuam marcando, este processo histórico da leitura popular da Bíblia, fruto maior da preparação e recepção destes documentos.

1. TRES FATORES

1. Uma nova maneira de se ver a revelação de Deus e a Bíblia

Podemos dizer que o século que vai da Encíclica Providentissimus Deus, do papa Leão XIII (1893) até o Documento “A Interpretação Bíblica na Igreja”, da PCB, de 1993, é o século de reconciliação da Igreja Católica com a Bíblia. Neste século houve grandes mudanças no uso e na interpretação das Escrituras pelas comunidades eclesiais. O momento áureo de todo este processo foi a Constituição Dogmática Dei Verbum, afirmando o primado absoluto da Palavra de Deus.

Mas este mesmo século foi marcado por grandes e violentas mudanças produzidas na humanidade. Foi um século onde se matou muita gente. Tal matança levou os cristãos das várias igrejas a olhar a realidade e a Bíblia com um olhar diferente. Por exemplo, a experiência de R. Bultmann nas trincheiras alemãs como capelão militar, durante a primeira guerra mundial (1914 a 1918), levou-o a uma nova abordagem da Bíblia que influenciou a exegese bíblica do século XX em praticamente todas as Igrejas.

Fruto deste mesmo contexto, na Bélgica, a crise entre as duas guerras e a convivência com os operários levaram o padre J. Cardijn a desenvolver o método Ver-Julgar-Agir que influenciou os vários setores da Ação Católica e trouxe uma nova maneira de se considerar e experimentar a ação reveladora de Deus na história. Antes de se procurar saber o que Deus falou no passado, procura-se Ver a situação do povo hoje, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos da Bíblia e da tradição das igrejas, procura-se Julgar esta situação. Isto faz com que, aos poucos, a fala de Deus já não vem só da Bíblia, mas também e, sobretudo, dos próprios fatos iluminados pela Bíblia e pela tradição. E são eles, os fatos, que assim se tornam os transmissores da Palavra e do apelo de Deus e que levam a Agir de maneira nova. Este método ver-julgar-agir teve uma influência muito grande nos movimentos de renovação da igreja católica no Brasil dos anos 50 e 60, particularmente nos vários setores da Ação Católica, JOC, JEC, JUC e JAC. Estes grupos provocaram uma mudança na prática pastoral e no papel eclesial do laicato, abrindo a igreja para uma postura mais ecumênica e menos confessional. Foi também formando os grupos de estudos que, na década seguinte, originarão os círculos bíblicos.

Importante para nós, aqui na América Latina, o engajamento político de uma parte da igreja batista nos Estados Unidos, sob a liderança de Martin Luther King. A pesquisa bíblica feita por N.K. Gottwald, a partir dos protestos contra a guerra no Vietnam e na luta pelos direitos dos negros, teve uma influência profunda na sua maneira de reler e interpretar a origem e a formação do Povo de Deus. Seus escritos, sobretudo o livro As Tribos de Iahweh, tiveram muita influência nos estudiosos da Bíblia aqui no Brasil, principalmente na maneira de abordar e interpretar o Êxodo.

Na América Latina, nos anos 60 e 70, o compromisso político de muitos cristãos repercutiu e continua repercutindo profundamente na maneira de se ler e de se interpretar a Bíblia. Aqui temos que destacar o trabalho de educação popular desenvolvido por Paulo Freire. A desumanidade das ditaduras militares, algumas delas feitas com apoio velado de autoridades eclesiásticas ou em nome da assim chamada civilização ocidental cristã, provocou e despertou as pessoas mais conscientes para uma nova leitura da Bíblia em defesa da vida. Surge então uma leitura mais libertadora e mais ecumênica da Bíblia, impedindo que a Palavra de Deus fosse manipulada para legitimar a opressão e a exploração do povo. Os grupos de estudo bíblico começam a desenvolver então a metodologia que origina o que hoje chamamos de Leitura Popular da Bíblia.
2. A renovação da Igreja leva a um interesse renovado pela Bíblia

A partir da mortandade causada pelas das duas guerras mundiais (cerca de 100 milhões de pessoas morreram entre 1914 e 1945), a maioria das igrejas entrou num processo de conversão e de mudança. As circunstâncias novas em que se encontrava a humanidade deixaram claro que era necessária uma releitura das coisas da fé, em vista da nova experiência de Deus e da vida que estava surgindo. Esta mudança ou conversão foi acontecendo de maneira diferente nas várias igrejas e nos vários países. Inclusive aqui na América Latina.

É dentro deste processo que devemos perceber o surgimento do CELAM a partir da primeira Conferência, no Rio de Janeiro, em 1955. É certo que o surgimento do CELAM ainda está dentro de uma eclesiologia que será abandonada a partir do Vaticano II. Mas o surgimento desta instância de articulação dos episcopados latino-americanos não deixa de ser um sinal profético para sua época.

A renovação da igreja católica aqui em nosso continente começa realmente ao longo do processo conciliar. Os Documentos do Concílio Vaticano II é que vão possibilitar um verdadeiro Pentecostes para América Latina, através das Assembléias Episcopais de Medellín e Puebla que consagraram essa nova maneira de ver e acolher a ação reveladora de Deus. A saber, Deus continua falando hoje, dirigindo-nos a sua Palavra através dos fatos e das pessoas, e nós conseguimos descobrir esta fala divina com a ajuda da Palavra de Deus escrita na Bíblia.

A partir do Concílio Vaticano II, foi crescendo o interesse dos féis católicos pela Bíblia. Uma primeira meta pastoral pós-conciliar foi colocar a Bíblia nas mãos dos fies. Através de vários canais, a Bíblia foi chegando cada vez mais nas mãos do povo. Mas é bom notar que este trabalho já começou bem antes de se falar em Concílio. Entre muitas outras iniciativas, convém destacar os seguintes canais que foram sendo pacientemente construídos (1) A renovação litúrgica. A liturgia renovada, através do uso da Bíblia na língua vernácula, trouxe uma aproximação maior da Bíblia com o povo. (2) O trabalho pioneiro do biblista frei João José Pedreira de Castro, OFM. Naqueles anos 50, ele captou os “sinais dos tempos” e sentiu a necessidade de facilitar uma aproximação maior entre a Bíblia e o povo. Em vista disso, ele traduziu a Bíblia de Maredsous para o português, hoje com mais de 150 edições sucessivas, conhecida como Bíblia da Ave Maria. (3) O trabalho da LEB, Liga dos Estudos Bíblicos. Seus membros chegaram a fazer uma tradução da Bíblia diretamente dos textos originais, atualmente publicada pela Editora Loyola. Os membros da LEB têm, além disso, o mérito de promoverem a realização de semanas bíblicas em todo canto. (4) A avanço das igrejas evangélicas de missão no Brasil na primeira metade do século XX, vindas sobretudo dos Estados Unidos, divulgou e intensificou a leitura da Bíblia. Sua ação evangelizadora contribuiu para que, na igreja católica, muita gente despertasse para a importância da Palavra de Deus. Inicialmente, era um despertar reacionário de defesa contra o que alguns chamavam de "ameaça protestante". Pouco a pouco, porém, acabou sendo vista como uma das maiores graças de Deus. Provocado pelo conhecimento bíblico dos pentecostais, o povo católico se volta para a Bíblia.

3. A situação do povo, o golpe militar e o surgimento dos círculos bíblicos.

A situação do povo era (e continua sendo) de abandono, de opressão e de exploração. Por isso, havia todo um trabalho político de conscientização para poder provocar uma mudança. Membros dos vários setores da Ação Católica participavam ativamente neste trabalho de conscientização. Chegaram a formar um grupo, Ação Popular, que teve uma atuação política muito importante. Porém, o golpe militar de 1964 mostrou, indiretamente, que o trabalho de conscientização política junto do povo não tinha sido aquilo que a vanguarda da oposição política imaginava e esperava. Não houve a reação esperada do levante popular contra os militares. Pelo contrário. Percebeu-se a necessidade de um trabalho muito mais capilar e mais paciente junto do povo, respeitando melhor a sua religião, a sua cultura e a sua caminhada.

Assim, a partir da metade dos anos 60, com o golpe dentro do golpe em 1968 instaurando o regime de Segurança Nacional entre nós, começou um trabalho renovado de base no meio dos pobres e surgiram as Comunidades Eclesiais de Base, sem dúvida a maior resposta ao Documento de Medellín. De fato, naquela situação de perseguição e de controle ideológico, as igrejas surgiram como um possível espaço de articulação da oposição, onde se podia ainda trabalhar com certa liberdade. Por isso mesmo, elas sofreram e foram vítimas da repressão política. Basta lembrar os nomes de Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, padre Henrique, Santo Dias, Margarida Alves e tantas outras lideranças, religiosas e leigas, perseguidas, presas, torturadas e assassinadas. O recente martirológio latino-americano está bem lembrado na Agenda Latino-americana.

A partir dessa necessidade de um trabalho pastoral mais respeitoso e mais capilar, foram surgindo em toda parte os assim chamados Círculos Bíblicos. O método usado nos Círculos Bíblicos, como que naturalmente, levava em conta, de um lado, a experiência adquirida nos grupos de Ação Católica com o seu método Ver-Julgar-Agir e os ensinamentos de Paulo Freire sobre a pedagogia do oprimido e, de outro lado, a tradição dos próprios evangelhos. Ou seja, a maneira de se ler a Bíblia nas Comunidades Eclesiais de Base imitava de perto o método sugerido pelo Evangelho de Lucas na descrição da caminhada dos discípulos de Emaús, onde o próprio Jesus aparece interpretando a Escritura para os seus amigos (Lc 24,13-35). O processo de interpretação seguido por Jesus tem os mesmos três passos que caracterizam também o método adotado pelos pobres nos Círculos Bíblicos das Comunidades Eclesiais de Base.

1º Passo: partir da realidade (Lc 24,13-24):

Jesus encontra um casal amigo numa situação de medo e dispersão, de descrença e desespero. Eles estavam fugindo. As forças de morte, a cruz, tinham matado neles a esperança. Jesus se aproxima e caminha com eles, escuta a conversa e pergunta: "De que estão falando?" A ideologia dominante impedia-os de enxergar e de ter consciência crítica. "Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas..." (Lc 24,21).

O primeiro passo é este: aproximar-se das pessoas, criar laços afetivos com elas, escutar a realidade delas, os problemas; ser capaz de fazer perguntas que ajudem a olhar a realidade com um olhar mais crítico.

2º Passo: usar o texto da Bíblia (Lc 24,25-27):

Jesus usa a Bíblia não para dar uma aula sobre a Bíblia, mas para iluminar o problema que fazia sofrer aquele casal e, assim, esclarecer a situação que eles estavam vivendo. Com a ajuda da Bíblia, ele os situa dentro do projeto de Deus e mostra que a história não tinha escapado da mão de Deus.

O segundo passo é este: com a ajuda da Bíblia, iluminar a situação e transformar a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim, aquilo que impedia de enxergar, torna-se agora luz e força na caminhada.
3º Passo: celebrar e partilhar na comunidade (Lc 24,28-32):

A Bíblia, ela por si, não abre os olhos. Mas faz arder o coração! (Lc 24,32). O que abre os olhos e faz os dois amigos perceberem a presença de Jesus, é o partir do pão, o gesto comunitário da partilha, a celebração. No momento em que é reconhecido, Jesus desaparece. Pois eles mesmos experimentam a ressurreição, renascem e caminham por si.

O terceiro passo é este: saber criar um ambiente orante de fé e de fraternidade, onde possa atuar o Espírito que nos faz entender o sentido das coisas que Jesus falou. É sobretudo neste ponto da celebração, que a prática das comunidades ajudou a reencontrar o antigo poço da Tradição para beber da sua água.

O resultado: ressuscitar e voltar para Jerusalém (Lc 24,33-35):

Tudo mudou na vida daquele casal de discípulos. Eles mesmos ressuscitam, criam coragem e voltam para Jerusalém, onde continuam ativas as forças de morte que mataram Jesus, mas onde agora se manifestam as forças de vida na partilha da experiência de ressurreição. Coragem, em vez de medo. Retorno, em vez de fuga. Fé, em vez de descrença. Esperança, em vez de desespero. Consciência crítica, em vez de fatalismo frente ao poder. Liberdade, em vez de opressão. Numa palavra: vida, em vez de morte! Em vez da má noticia da morte de Jesus, a Boa Notícia da sua Ressurreição!

O resultado da leitura da Bíblia deve ser este: experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito, presente no meio de nós. É ele que abre os olhos sobre a Bíblia e sobre a Realidade e leva a partilhar a experiência de Ressurreição, como até hoje acontece nos encontros comunitários.

4. A ação do Espírito Santo

São estes os três fatores que ajudam a entender a conjuntura atual. Como dissemos, há um quarto fator, o mais importante de todos, que não pode ser avaliado nem verificado, mas que atua através de todos os outros fatores. É a ação do Espírito Santo, que nunca foi pego em flagrante, mas que, invisivelmente, atua nesta caminhada e a conduz. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas!” (Ap 2,7.11,17.29; 3,6.13.22)

Assim, a partir dos anos 60 e 70, o povo começou a ler a Bíblia. Os Círculos Bíblicos tiveram uma expansão muito rápida. Em poucos anos se divulgaram em todo o Brasil. Sinal de que estavam respondendo a uma exigência real. Ninguém sabe quantos são atualmente os Círculos Bíblicos. Só mesmo o Espírito Santo. Eles foram e continuam sendo a raiz de um novo modo de ser igreja. É bom lembrar que foi a prática destes círculos que vai desenvolver o que posteriormente se chama de Leitura Popular da Bíblia.

2. TRÊS ETAPAS, TRÊS ASPECTOS

No decorrer desses anos todos, foram aparecendo três aspectos da interpretação popular, aspectos simultâneos, misturados entre si. Ao longo dos anos, cada um deles foi tendo o seu momento privilegiado. São como que três etapas. Trata-se dos três aspectos da mesma atitude interpretativa do povo frente à Bíblia. Eles indicam os três objetivos distintos, que estão presentes e misturados, às vezes conflitantes, no uso popular da Bíblia.

1. Conhecer a Bíblia - Instruir

O processo de conhecer melhor a Bíblia começou já no século XIX com o trabalho renovador dos exegetas da Europa, tanto protestantes como católicos. As novas descobertas trouxeram novos conhecimentos, abriam uma nova janela sobre o texto bíblico e sobre o contexto da sua origem.

A vontade de conhecer a Bíblia estimulou muita gente a uma leitura mais freqüente. Na igreja católica, a renovação da exegese, as encíclicas bíblicas de Leão XIII, Bento XV e Pio XII, as novas traduções da Bíblia e o trabalho de divulgação dos exegetas levaram a Bíblia para mais perto do povo. Além disso, no Brasil, como já mencionamos, o que ajudou a provocar nos católicos um interesse maior pela Bíblia foi o vigor missionário das igrejas evangélicas de missão.

Foram surgindo, em todo canto, as semanas bíblicas, cursos bíblicos, escolas e escolinhas bíblicas, gincanas e maratonas bíblicas, e tantos outros movimentos e iniciativas para divulgar a Bíblia e estimular a sua leitura como, por exemplo, o assim chamado Mês da Bíblia, que foi celebrado durante mais de 25 anos e continua até hoje em muitos lugares. Vale destacar também o surgimento do Movimento da Boa Nova (MOBON). Este movimento surgiu, inicialmente, como uma reação mais apologética, de defesa do catolicismo contra a influência crescente das igrejas pentecostais. Atualmente, é um dos movimentos de evangelização libertadora mais difundidos que anima mais de 15.000 grupos em vários Estados do Brasil. Difícil de lembrar e enumerar todas as iniciativas que a criatividade popular inventou para divulgar a leitura e o conhecimento da Bíblia.

2. Criar Comunidade - Celebrar

Na medida em que a Palavra começava a ser conhecida, ela produzia os seus frutos. O primeiro fruto foi aglutinar as pessoas e criar comunidade. Semanas bíblicas populares, difusão da Bíblia em língua vernácula, cursos, encontros, treinamentos, inúmeros grupos e círculos bíblicos, mês da Bíblia, movimento da Boa Nova: tudo isto produziu um fervilhar comunitário muito grande em torno da Palavra de Deus. O movimento da renovação litúrgica fez com que se multiplicassem e se intensificassem as celebrações da Palavra.

No período de tempo que vai de Medellín (1968) a Puebla (1979), foram surgindo e crescendo as Comunidades Eclesiais de Base que, por sua vez, suscitavam em todo canto os círculos bíblicos, grupos de reflexão, grupos de evangelho, grupos de oração, grupos de família ou como quer que sejam chamados. No anos 70 estas comunidades resolvem se articular nacionalmente. Surge a iniciativa dos Encontros Intereclesiais das Comunidades de Base, que foram acontecendo periodicamente. Agora em 2005 celebraram o décimo primeiro Encontro Intereclesial em Itabira-Coronel Fabriciano, Minas Gerais. A dimensão comunitária chegou a renovar várias paróquias que passaram a se organizar como uma comunidade de comunidades.

Aqui convém mencionar o fenômeno intrigante da grande evasão dos fiéis das igrejas tradicionais para as igrejas pentecostais, um fenômeno que tem a ver com a mudança socioeconômica havida nos últimos 50 anos. Na metade do século XX, em torno de 75% da população brasileira vivia no campo, área rural. A industrialização e o êxodo rural produziu um mudança radical. No censo de 2001, 82% da população vive na cidade e somente 18% no campo. Ora, o que antes parecia impossível, hoje se tornou um fato normal: antes, a autoridade moral maior que, no Brasil, norteava as consciências era a igreja católica. Nas pequenas cidades do interior, o vigário exercia um poder sagrado muito forte. Dificilmente, o povo tinha coragem de enfrentar ou de romper com este sistema secular. Hoje, em nome de uma experiência comunitária nos grupos pentecostais das periferias das grandes cidades, milhões de brasileiros rompem com aquela que antes era a maior autoridade moral. Por mais contraditório e ambivalente que possa parecer este fato, ele não deixa de ter um aspecto positivo: em nome da Palavra de Deus e de um encontro com Jesus, o povo tem coragem de romper e de entrar por caminhos novos que talvez não sejam novos, mas que são diferentes e têm uma dimensão comunitária muito profunda.


3. Servir ao povo - Transformar

Sobretudo a partir de 1968, com os resultados de Medellín, foi dado um passo a mais no planejamento e prática pastorais. O conhecimento da Bíblia e a preocupação comunitária discerniram mais o seu objetivo pastoral, ou seja, buscar mais o serviço ao povo. Não tendo dinheiro nem tempo para ler os livros sobre a Bíblia, os pobres nas suas comunidades e nos círculos bíblicos começaram a ler a Bíblia a partir do único critério de que dispunham, a saber, a sua vida de fé, vivida em comunidade, e a sua vida sofrida de povo oprimido. Lendo assim a Bíblia, descobriam o óbvio que não conheciam: uma história de opressão igual à que eles mesmos sofriam, uma história de luta pelos mesmos valores que eles perseguem até hoje: terra, justiça, partilha, fraternidade, vida de gente. O resultado desta prática libertadora foi explicitado na Teologia da Libertação que tenta sistematizar a vivência nova que está ocorrendo nas comunidades.

É o período em que começa a ser acentuada a dimensão política da fé. Na Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II e sobretudo desde a conferência episcopal de Medellín (1968), ocorreu uma evolução importante. Diante da situação dramática dos índios, criou-se o CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Diante da situação cada vez pior dos agricultores, criou-se a CPT (Comissão Pastoral da Terra). Diante da situação dos operários, criou-se a CPO (Comissão Pastoral dos Operários). Diante da situação dos pescadores, criou-se a CPP (Comissão Pastoral dos Pescadores). São instrumentos novos de pastoral que ajudam estas classes e grupos de pessoas a defenderem melhor sua vida, sua terra, seus direitos, sua identidade. Eles têm em comum o seguinte: surgiram por causa da fé renovada em Jesus e, como Jesus, defendem a vida, são ecumênicos, incomodam a sociedade estabelecida, provocam polêmica. Tudo isto revela a evolução que está ocorrendo na consciência que as igrejas têm de si mesmas e da sua missão: lutar pela defesa da vida ameaçada do povo. É neste mesmo período dos anos 70 que surge o CEBI, o Centro de Estudos Bíblicos, um serviço para a Pastoral Popular que tem como objetivo articular, explicitar, aprofundar, divulgar e legitimar a leitura da Bíblia que o povo vinha fazendo nas suas comunidades.

Aqui devem ser lembrados os mártires, os testemunhos da fé, essa “nuvem de testemunhas ao nosso redor” (Hb 12,1), que deram a sua vida pela causa da liberdade, da justiça e da fraternidade. Assim como o autor da carta aos hebreus faz a memória dos testemunhos da fé (Hb 11,1-40), a Agenda Latino Americana, cada ano de novo, faz a memória dos milhares de mártires latino-americanos, homens e mulheres, leigos e religiosos, conhecidos e anônimos, que imitaram a Jesus que disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”(Jo 10,10).


2ª PARTE:
A DINÂMICA INTERNA DO PROCESSO DA INTERPRETAÇÃO

Na leitura que as Comunidades fazem da Bíblia, apesar das diferenças próprias de cada país ou região, existe um método, cujas características básicas são comuns a todos. Um método é muito mais do que só umas técnicas e dinâmicas. É uma atitude que se toma frente à Bíblia e frente à própria vida. O método dos pobres se caracteriza por estes três critérios:

1. Os pobres levam consigo, para dentro da Bíblia, os problemas da sua vida. Lêem a Bíblia a partir da sua luta e da sua Realidade.

2. A leitura é feita em Comunidade. É, antes de tudo, uma leitura comunitária, uma prática orante, um ato de fé.

3. Eles fazem uma leitura obediente: respeitam o Texto e se colocam à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir.

Estes três critérios (Texto, Comunidade, Realidade) articulam-se entre si em vista do mesmo objetivo: escutar Deus hoje. Eles atualizam a seu modo o mesmo método que transparece no episódio de Emaús (Lc 24,13-35). São como três aspectos ou etapas de uma e mesma atitude interpretativa frente à Bíblia. Entre os três existe uma dinâmica interna que marca o processo da interpretação popular: conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao povo; servir ao povo, por sua vez, leva a desejar um conhecimento mais aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante. É uma dinâmica que não termina nunca. A respeito destes três aspectos é bom lembrar: um nasce do outro, supõe o outro e leva ao outro.

Não importa tanto a partir de qual dos três aspectos se inicia o processo da interpretação. Isto depende da situação, da história, da cultura e dos interesses da comunidade ou do grupo. O que importa é perceber que um aspecto fica incompleto sem os outros dois.

Geralmente, em todas as comunidades, há pessoas que se identificam com um destes três aspectos: 1. pessoas que querem conhecer a Bíblia e que se interessam mais pelo estudo; 2. pessoas que insistem mais na Comunidade e nas suas funções internas; 3. pessoas mais preocupadas em transformar a Realidade, servindo ao povo na política e nos movimentos populares.

Tudo isto produz tensões entre os vários grupos e interesses. Estas tensões são saudáveis e fecundas. Por exemplo, em alguns lugares, a prática política mais intensa dos últimos anos está pedindo, agora, um conhecimento mais aprofundado do texto bíblico e do contexto social, onde este texto foi produzido, e uma vivência comunitária mais intensa da espiritualidade da libertação. Em outros lugares, a vivência comunitária chegou no seu limite e está pedindo uma ação mais engajada nos movimentos populares. Com outras palavras, as tensões ajudam a criar um equilíbrio que favorece a interpretação da Bíblia, e impedem que ela se torne unilateral.

Às vezes, porém, estas tensões são negativas e podem levar cada um dos três aspectos a se fechar sobre si mesmo e a excluir os outros dois. O itinerário da interpretação popular, muitas vezes, é tenso e completivo, com risco de fechamento e de retrocesso.

Quando a comunidade alcança o objetivo de um destes três aspectos (conhecer, conviver ou transformar), alguns membros, por fidelidade à palavra, querem avançar e dar um passo adiante, e outros, em nome desta mesma fidelidade, recusam a abertura. É o momento da crise e também da graça. Nem sempre vence o grupo que quer avançar.

1. Todos os movimentos pastorais usam a Bíblia e nela se apóiam. Em nome da Bíblia, os fundamentalistas recusam a interpretação e a abertura para a realidade. Em alguns lugares, os grupos bíblicos que se fecharam em torno de si mesmos e em torno da letra da Bíblia, tornaram-se os grupos mais conservadores da paróquia. O próprio exegeta pode correr o risco de fechar-se dentro do estudo liberal e até progressista do texto bíblico, mas colocando-se a serviço das forças conservadoras da opressão.

2. Muitos movimentos se fecham no Comunitário, no místico, no carismático, e recusam a abertura para o social e o político. Eles se abrem para o serviço aos pobres (e muito!), mas não numa linha de transformação e de libertação. Deixam tranqüila a consciência dos opressores e não incomodam o sistema em que vivemos.

3. Existe também o fechamento do lado oposto, embora com menor freqüência. Às vezes, acontece o seguinte. Uma comunidade ao alcançar um alto grau de conscientização e de comprometimento político começa a dar menos importância à vivência comunitária, às devoções pessoais, às romarias e procissões. Tudo isso, para eles, pode ser manipulados com relativa facilidade pela ideologia dominante, e concluem, apressadamente, que tais práticas não contribuem tanto para a transformação. Por isso, eles correm o perigo de fechar-se no social, no político, no serviço ao povo, esquecendo-se da dimensão espiritual e mística da convivência comunitária.

Embora compreensíveis, fechamentos assim são trágicos, pois nenhum dos três alcança o sentido sozinho. Para superar este perigo, é importante manter um ambiente de diálogo. Pois onde a palavra humana circula com liberdade e sem censura, a palavra de Deus gera liberdade.

3ª PARTE


NOVIDADE E ALCANCE DA INTERPRETAÇÃO POPULAR

Dentro da interpretação que os pobres fazem da Bíblia existe uma novidade de grande alcance para a vida das igrejas. Novidade antiga que vem de longe e que retoma alguns valores básicos da Tradição comum! Seguem aqui sete pontos que, de uma ou de outra maneira, sinalizam o itinerário:

1. O objetivo da interpretação já não é buscar informações sobre o passado, mas sim clarear o presente com a luz da presença do Deus-conosco, Deus Libertador; é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Redescobre-se na prática a nova visão da Revelação, de que falamos acima.

2. O sujeito da interpretação já não é o exegeta. Interpretar é uma atividade comunitária em que todos participam, cada um a seu modo e conforme a sua capacidade, inclusive o exegeta que nela exerce um papel especial. Por isso, é importante ter nos olhos não só a fé da comunidade, mas também fazer parte efetiva de uma comunidade viva e buscar o sentido comum aceito por esta comunidade. Esta pertença efetiva exerce uma influência crítica sobre a função da exegese científica que, assim, se coloca mais a serviço. O mesmo vale para a teologia. Por causa das mudanças ocorridas no mundo a teologia da libertação entrou em crise e está em fase de revisão. Por outro lado, é bom constatar que a leitura popular não está em crise, mas cresce em todo canto. Pois, como dissemos, o seu sujeito não é o exegeta, mas o povo das comunidades eclesiais de base.

3. O lugar social de onde se faz a interpretação é a partir dos pobres, dos excluídos e dos marginalizados. Isto modifica o olhar. Muitas vezes, por falta de uma consciência social mais crítica, o intérprete é vítima de preconceitos ideológicos e, sem se dar conta, usa a Bíblia para legitimar o sistema de opressão que desumaniza.

4. A leitura que relaciona a Bíblia com a vida é ecumênica e libertadora. Leitura ecumênica não quer dizer que católicos e protestantes discutem as suas divergências para chegar a uma conclusão comum. Isto pode ser uma conseqüência. O mais ecumênico que temos é a vida que Deus nos deu. Aqui na América Latina, a vida de grande parte da população corre perigo, pois já não é vida. Leitura ecumênica é interpretar a Bíblia em defesa da vida e não em defesa das nossas instituições e confissões. Na atual situação em que vivem os povos da América Latina, uma leitura em defesa da vida, necessariamente, deve ser libertadora. Por isso mesmo, ela é conflitiva. Tornou-se sinal de contradição. Por ser ecumênica e libertadora, extrapolou as fronteiras das instituições e agora é lida a partir dos diferentes grupos marginalizados: negros, índios, mulheres, homossexuais. O critério básico não é mais a igreja, mas sim a vida, lida através dos olhos da raça, do gênero, da cultura, da classe. Ou seja, o critério é explicitar o mistério da igreja tal como foi definido por Paulo: “Todos vocês que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo!” (Gl 3,27-28).

5. Aqui aparece a característica própria da exegese popular. O problema maior entre nós não é, como na Europa, a fé que corre perigo por causa da secularização. Mas é a vida que corre o sério perigo de ser eliminada e desumanizada por um sistema ecumênico injusto e excludente. E o que é pior, a própria Bíblia corre perigo de ser usada para legitimar esta situação em nome de Deus. Como no tempo dos reis de Judá e de Israel, usa-se a Tradição do povo de Deus para legitimar os ídolos. A Bíblia foi usada para legitimar a conquista das Américas, a política da Apartheid na África do Sul, as ditaduras militares e a repressão. O ditador chileno Pinochet sempre se comparou com Moisés, libertador do seu povo. A interpretação popular descobre, revela e denuncia esta manipulação.

6. O método e a dinâmica, usados pelos pobres nas suas reuniões, são muito simples. Eles não costumam usar uma linguagem intelectual discursiva, feita de argumentos e raciocínios. Como a própria Bíblia, preferem a sua maneira própria que é contar fatos e usar comparações. A linguagem popular funciona por associação de idéias. Sua preocupação primeira não é fazer saber, mas sim fazer descobrir. Muito ajudou em tudo isto o método da pedagogia do oprimido de Paulo Freire.

7. Aparecem com maior clareza a função e os limites da Bíblia. Os limites são estes: a Bíblia não é fim em si mesma, mas está a serviço da interpretação da vida. Sozinha ela não funciona e não consegue abrir os olhos, pois o que abre os olhos é a partilha do pão, o gesto comunitário. A Bíblia deve ser interpretada dentro de um processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade. A Bíblia é como o coração: quando é arrancado fora do corpo da comunidade e da vida do povo, morre e faz morrer!

4ª PARTE
CAMINHOS NOVOS APARECEM, PROBLEMAS NOVOS SURGEM


Quando em 1992 foi celebrada a IV Conferência do CELAM, em Santo Domingo, a situação já era bem outra. Celebrava-se os 500 anos da chegada dos brancos ao continente latino-americano. Havia uma reação ao acontecimento por parte das populações indígenas, tão bem simbolizado no gesto dos índios peruanos de devolver a Bíblia ao papa João Paulo II. Portanto, a preparação do Documento não foi bem aceita. Na verdade, nem havia um documento. Foi a insistência de gente como D. Luciano Mendes de Almeida, que gerou o agora chamado Documento de Santo Domingo. A grande novidade deste documento foi dar destaque à questão da cultura. A cultura aparece sob dois aspectos: em primeiro lugar, voltou-se para as culturas oprimidas dos povos latino-americanos. Houve então um renascer das culturas indígenas. Fatos recentes, como a eleição de Evo Morales na Bolívia, aparecem como a coroação de todo este processo. O segundo aspecto falava de uma cultura de morte a ser combatida por uma cultura da vida, valorizando a vida e a dignidade humana. Assim, ao dar ênfase à promoção humana e à cultura cristã, esta Conferência abriu espaço para a aceitação mais ampla das reflexões bíblicas nas óticas indígena, negra e feminista.

1. A Leitura feminista ou leitura de gênero

Esta leitura questiona e relativiza a milenar leitura masculinizada feita pelas igrejas para manter o sistema patriarcal. Ela não pode ser descartada como um fenômeno passageiro nem como uma das muitas curiosidades exegéticas sem maiores conseqüências. Ela é uma das características mais importantes que vem surgindo de dentro da leitura popular da Bíblia. O seu alcance é muito maior do que poderia parecer à primeira vista. No Brasil ela adquire uma importância maior ainda por causa da esmagadora maioria de mulheres que participam ativamente nos grupos bíblicos e sustentam a luta do povo em muitos lugares. No CEBI é grande o número de assessoras que se formaram nos últimos anos e que estão aprofundando a leitura de gênero não como um novo setor, mas como uma característica que deve marcar toda a leitura popular que fazemos.

2. Como enfrentar a realidade do fundamentalismo?

Nos encontros de massa promovidos pelas redes de televisão, padres cantores aparecem. Nos encontros bíblicos promovidos pelo CEBI, abertos a pessoas dos vários setores da vida das igrejas, aparece cada vez mais o seguinte fenômeno. O estudo e a interpretação da Bíblia são feitos numa linha claramente libertadora. Mas nas celebrações, nas conversas de grupos, nas perguntas, aparece uma atitude interpretativa diferente, em que se mistura fundamentalismo com teologia da libertação. Sobretudo nos jovens! Como explicar este fenômeno? Vem de onde? Do contato com a linha conservadora, com a linha carismática, com os pentecostais? Será que também não vem das deficiências da atitude libertadora frente à Bíblia? Será que não vem de algo ainda mais profundo que está mudando no subconsciente da humanidade? Pois, a realidade do fundamentalismo não existe só nas igrejas cristãs, mas também nas outras religiões: judaica, muçulmana, budista... Existem até formas de um fundamentalismo secularizado. "O fundamentalismo é um perigo. Ele separa o texto do resto da vida e da história do povo e o absolutiza como a única manifestação da Palavra de Deus. A vida, a história do povo, a comunidade, já não teriam mais nada a dizer sobre Deus e a sua Vontade. O fundamentalismo anula a ação da Palavra de Deus na vida. É a ausência total de consciência crítica. Ele distorce o sentido da Bíblia e alimenta o moralismo, o individualismo e o espiritualismo na interpretação. É uma visão alienada que agrada aos opressores do povo, pois ela impede que os oprimidos tomem consciência da iniqüidade do sistema montado e mantido pelos poderosos" (Coleção: Tua Palavra é Vida, Vol I: A Leitura Orante da Bíblia, Publicações CRB, 1990, p. 22). Na igreja católica, pela primeira vez, o documento A Interpretação da Bíblia na Igreja, de 1993, critica fortemente o fundamentalismo como uma coisa nefasta, que não respeita suficientemente o sentido da Bíblia.

3. A busca de Espiritualidade e o nosso método de interpretação

Em todo canto se ouve e se sente o desejo de maior profundidade, de mística, de espiritualidade. A Bíblia, de fato, pode ser uma resposta a este desejo. Pois, a Palavra de Deus tem duas dimensões fundamentais. De um lado, ela traz uma LUZ. Neste sentido, ela pode contribuir para clarear as idéias, desmascarar as falsas ideologias e comunicar uma consciência mais crítica. De outro lado, ela traz uma FORÇA. Neste sentido, ela pode animar as pessoas, comunicar coragem, trazer alegria, pois ela é força criadora que produz o novo, gera o povo, cria os fatos, faz amar. Infelizmente, muitas vezes, na prática pastoral, estes dois aspectos da Palavra estão separados. De um lado, os movimentos carismáticos; de outro lado, os movimentos de libertação. Os carismáticos têm muita oração, mas muitas vezes carecem de visão crítica e tendem para uma interpretação fundamentalista, moralizante e individualista da Bíblia. Por isso, a sua oração, muitas vezes, carece de fundamento real no texto e na realidade. Os movimentos de libertação, por sua vez, têm muita consciência crítica, mas, às vezes, carecem de perseverança e de fé, quando se trata de enfrentar situações humanas e relacionamentos entre pessoas que, dentro da análise científica da realidade, em nada contribuem para a transformação da sociedade. Às vezes, eles têm uma certa dificuldade para enxergar a utilidade de longas horas gastas em oração sem resultado imediato. Já existem várias iniciativas importantes que procuram enfrentar e superar este problema para além das divergências: o projeto Tua Palavra é Vida, (Projeto de formação bíblica para religiosos e religiosas, promovido pela CRB - Conferência dos Religiosos do Brasil); A equipe de espiritualidade do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos), a iniciativa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de valorizar os quatro evangelhos e os Atos em preparação do jubileu do Novo Milênio, etc.

Neste aspecto, acolhemos com alegria a notícia de que o próximo Sínodo dos Bispos, a ser celebrado em outubro de 2008, terá como tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” É desejo que se discuta a maneira de como a Igreja se alimenta da Palavra na teologia, na catequese e na liturgia.

4. A cultura dos nossos povos

Santo Domingo abriu caminho para uma reflexão bíblica na ótica indígena. Esta reflexão nos ajuda a recuperar o sentido bíblico dos mitos de origem presentes no Gênesis. Por exemplo, no mito do Tucumã, que explica aos índios da região amazônica a origem do mal no mundo, o culpado pelos males não é a mulher, mas sim o homem. Num encontro bíblico, alguém perguntou: "Por que não usamos os nossos mitos em vez dos mitos do povo hebreu?" Não houve resposta. A mesma pergunta foi feita num curso bíblico na Bolívia em Maio de 1991. Os participantes, quase todos Aymaras, perguntavam: "Por que usar só a Bíblia? As nossas histórias são mais bonitas, menos machistas e mais conhecidas!" As religiões da Ásia, mais antigas que a nossa, levantam estas mesmas perguntas há vários anos. Qual o valor da nossa história e da nossa cultura. Será que elas não poderiam valer como o nosso Antigo Testamento, onde estão escondidas as promessas que Deus fez aos nossos antepassados e onde existe a nossa lei como "nosso pedagogo para Jesus Cristo" (Gl 3,24)? O Evangelho não veio eliminar nem substituir o Antigo Testamento, mas sim completá-lo e explicitar todo o seu significado (Mt 5,17). O Antigo Testamento do povo de Israel é o cânon ou a norma inspirada que nos ajuda a perceber e a revelar esta dimensão mais profunda da nossa cultura e história, do nosso Antigo Testamento. Neste sentido são muito importantes as diferentes iniciativas da leitura indígena, negra e de gênero.

5. Necessidade de um estudo mais aprofundado da Bíblia na América Latina

A caminhada das Comunidades avança e se aprofunda. Aos poucos, do coração desta prática popular está surgindo uma nova atitude interpretativa que não é nova, mas muito antiga. Ela tem necessidade de ser legitimada tanto a partir da Tradição das igrejas como a partir da pesquisa exegética. A leitura que se faz a partir dos pobres e a partir da causa dos pobres tem suas exigências próprias. Na medida em que se avança, cresce o desejo de maior aprofundamento científico. Há muitos assessores e assessoras populares que gostariam de ter um conhecimento das línguas bíblicas; gostariam de conhecer melhor o contexto econômico, político, social e ideológico em que nasceu a Bíblia; gostariam de levar para dentro da Bíblia as perguntas que hoje angustiam o povo na vivência da sua fé. Existe uma escassez de assessores e de assessoras acadêmicos capazes de responder a esta demanda crescente de formação bíblica dos assessores populares e de fazer frente ao problema novo que está se criando por causa do crescimento imenso do fundamentalismo (muito mais perigoso do que qualquer outro -ismo).

A prática da leitura bíblica, feita nas Comunidades Eclesiais de Base da América Latina, já adquiriu uma certa repercussão em todas as Igrejas, pois está provocando discussões, reações e adesões em muitos lugares. Isto se viu claramente nos encontros intereclesiais, realizados desde os anos 70, no Encontro Mundial da Igreja Luterana, realizado em Curitiba em janeiro de 1990, no Encontro Mundial da FEBIC, realizado em Bogotá em julho de 1990; no encontro promovido pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Porto Alegre, em fevereiro de 2006. Há muitos outros sinais do interesse que existe nos outros Continentes pela leitura que se faz da Bíblia aqui na América Latina. Por tudo isso, é importante que se comece a pensar seriamente na criação de centros de pesquisa e de formação bíblica que se orientem a partir dos problemas reais que sentimos por aqui nas nossas comunidades.

CONCLUSÃO


O que podemos esperar da V Conferência do Episcopado Latino-americano? Na perspectiva em que elaborei esta comunicação, creio que este movimento de Pastoral Bíblica, centrado no primado absoluto da Palavra de Deus, deve continuar sendo uma opção pastoral prioritária de nossas igrejas aqui na América Latina.

Assim como ensina o Vaticano II na Dei Verbum, a reapropriação da Palavra de Deus por parte dos fiéis católicos através dos círculos bíblicos, da catequese, da liturgia e celebrações, da conscientização das pessoas em seus trabalhos e suas lutas, mostra que a Escritura continuará sendo o alimento espiritual que anima a vida e a caminhada de nossas comunidades.

Assim como ensina Medellín, os agentes desta apropriação são as comunidades eclesiais de base, reunidas em torna da Palavra, construindo um novo jeito de ser Igreja. Estas comunidades são o rosto profético de nossa Igreja, anunciando uma sociedade livre, solidária, fraterna, participativa e igualitária.

Assim como ensina Puebla, temos que crescer na comunhão através da participação ativa e livre dos fiéis. A leitura da Bíblia deve fomentar esta participação através da formação contínua dos fiéis, capacitando-os para o exercício das três dimensões ministeriais inerentes ao batismo: somos todos e todas sacerdotes, reis e profetas.



Assim como ensina Santo Domingo, esta Palavra deve se encarnar em nossa realidade empobrecida, conflitiva e esperançosa. A cultura popular, a religiosidade de nossos povos, os diferentes rostos que formam a população latino-americana são os elementos que aparecem nesta imensa pluralidade de expressões de fé. Temos que acolher a religião do povo de um modo aberto e positivo.

Que a Conferência de Aparecida possa ser a continuidade deste magistério da Igreja na América Latina, expresso nos documentos produzidos pelas Conferências anteriores. Que dela possam emanar ensinamentos capazes de nos levar a enfrentar e vencer os desafios colocados pelo momento atual aos nossos trabalhos de evangelização, revelando o rosto próprio de nossas comunidades: um rosto latino-afro-indígena, tão bem revelado no rosto de Nossa Senhora de Guadalupe. Temos que aprender a evangelizar uma sociedade urbana, globalizada, possuidora de uma tecnologia de ponta, gananciosa e violenta, cercada por bolsões de miséria e de exclusão. Que possamos todos nós, discípulos e missionários de Jesus Cristo, encontrarmos alento e esperanças para continuar revelando o Caminho, a Verdade e a Vida.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal