A reflexão historiográfica em arquivos e bibliotecas privadas



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A REFLEXÃO HISTORIOGRÁFICA EM ARQUIVOS E BIBLIOTECAS PRIVADAS

The historiographic reflexion over libraries and private archives


Giselle Martins Venancio1
RESUMO

Nos últimos trinta anos o debate intelectual tem destacado os limites dos paradigmas historiográficos que concediam à História a capacidade de captar a totalidade do real. Desde meados dos anos 60, a História vem passado por mutações fundamentais, “criando” novos objetos, categorias e modelos de análises. A chamada Nova História Cultural, desenvolvida nos anos 90, vem atentando basicamente para as condições de produção dos documentos históricos e sua relação com as análises desenvolvidas pelos historiadores. Isso levou os historiadores a retornarem aos arquivos com vistas a solidificarem e embasarem mais profundamente suas análises e a desenvolverem uma reflexão sobre esses locais de guarda e produção de documentos. Neste texto, o que nos interessa especificamente é compreender os usos que os arquivos e bibliotecas privadas - registros brutos da memória individual - passaram a ter na escrita da História.


Palavras-chave: Arquivos privados, bibliotecas privadas, historiografia.
ABSTRACT
During the last 30 years the intellectual debate has highlighted the historiographic paradigms limits which would give History its capacity to express the totality of truth. Since the mid-sixties, History has been passing through fundamental mutations, "creating" new objects, categories and models. The so called New Cultural History, developed in the 90ies, has basically been giving attention to the conditions of creation of historical documents and its relations with the analyses done by researchers. This has led researchers back to archives to try to solidify and endorses their analysis and to develop a reflexion about places where documents are produced and put-away. In this specific text, our goal is to understand how private archives and libraries - which represent original inputs of individual history - have been inserted into History.
Keywords: Private Archives, private libraries, historiography.

1 INTRODUÇÃO

Nos últimos trinta anos o debate intelectual tem destacado os limites dos paradigmas historiográficos que concediam à História a capacidade de captar o real.

Desde meados dos anos 60, a História vem passado por mutações fundamentais, “criando” novos objetos, categorias e modelos de análises. Essa nova História “inventou” também novas formas de narrativa tornando-se muito mais próxima das narrativas literárias. Por esse motivo, a História foi, nos últimos anos, muitas vezes acusada de ausência de objetividade e de forte relativismo.

A ampliação dos campos de análise da História, a multiplicação de suas experiências, à diversidade das fontes utilizadas, os seus encontros (ou reencontros) com outras ciências sociais e outras formas de narrativa, criou, o que CHARTIER denominou, um estado de incertezas. A História passou a andar a “beira do abismo”. O otimismo da “nova história” foi sucedido por um tempo de dúvidas e interrogações. A perda de confiança nas certezas da quantificação e o abandono da interpretação clássica, em primeiro lugar geográfica, dos objetos históricos, ou ainda a colocação em questão das noções - tais como mentalidades, cultura popular etc - das categorias - classes sociais por exemplo - dos modelos de interpretação - estruturalista, marxista, demográfico - se deu ao mesmo tempo que aumentava o número de historiadores de profissão e ampliava-se o número de publicações na área de História.

Além disso, como denuncia ROUSSO (1996), ao mesmo tempo que se desenvolveu entre alguns intelectuais a certeza da incapacidade de se apreender o real, criou-se de forma cada vez mais explícita entre a opinião pública, o desejo de uma história “positiva”, baseada em provas irrefutáveis, especialmente para os períodos e acontecimentos trágicos do século XX. Na opinião desse autor,

(...) exatamente no momento em que toda uma corrente intelectual, inscrita na “pós-modernidade”, denunciava a possibilidade de uma restituição objetiva do passado, baseada em vestígios tangíveis, a demanda social por uma história que diga a verdade, que exija uma maior “transparência”

(...) tornou-se cada vez mais premente.
A História passou a carregar, ao mesmo tempo, a reivindicação da subjetividade do historiador e a imposição de um horizonte de real. Para CHARTIER, é necessário rejeitar as pretensões das teorias narrativistas que pretendem enfatizar o caráter literário do discurso histórico. Contra essas teorias, que colocam o discurso histórico como um jogo de figuras retóricas, ele afirma
que a ambição do conhecimento é constitutiva da própria intencionalidade histórica e funda as operações específicas da história como disciplina, quer dizer, suas dependências, seu regime de cientificidade próprio, em suma, tudo aquilo que garante à História seu direito de enunciar aquilo que foi..”
Assim, a chamada Nova História Cultural, desenvolvida nos anos 90, baseou-se na recusa da objetividade absoluta, mas ao mesmo tempo, na recusa à tentação relativista. Segundo essa tendência historiográfica, a operação histórica é um exercício controlado de imaginação. O conhecimento histórico é um saber que se organiza dentro de uma escrita, de uma narrativa. E essa narrativa, mesmo quando contém recursos literários, é um discurso científico, pois obedece às normas e técnicas desse discurso.

Assim, CHARTIER sustenta fortemente que a História é comandada por uma intenção e um princípio de verdade, que o passado que ela toma como objeto é uma realidade exterior ao discurso e que o seu conhecimento pode ser controlado. Segundo ele, abandonar essa intenção de verdade é deixar o campo livre a todas as falsificações e a todos os falsários.

Dessa forma, como ciência, a História elege seus objetos de análise, cria as suas hipóteses e ensaia suas explicações e teorias. A ciência histórica é portanto uma operação crítica aplicada à fontes disponíveis. Essa operação se realiza de modo a transformar os vestígios da memória, elementos por excelência de ligação do presente ao passado, em escrita da História, disciplina de conhecimento.

O que nos interessa especificamente, nesse texto, é compreender de que forma os arquivos e bibliotecas privadas, registros brutos da memória individual, podem ser utilizados na escrita da História

Ao reordenar os paradigmas básicos da disciplina historiográfica nos anos 90, a história cultural propôs a revalorização do indivíduo na História e, conseqüentemente, a revalorização de suas ações, baseadas em intenções que são escolhas realizadas em um campo limitado de possibilidades, mas que oferece diversas alternativas. Ao abrir espaço para modelos de análises em que os indivíduos desempenham um papel importante, a história cultural revalorizou também os vestígios escritos onde estão registrados as escolhas individuais, suas intenções e suas ações públicas.

Um retorno ao positivismo e a empiria do século XIX? De maneira nenhuma. O que o que se estabeleceu não foi um neopositivismo. Não foi a “sacralização” do documento, dos registros e das experiências individuais. E nem poderia ser. O retorno ao documento não foi feito de forma a se encontrar nele a inscrição do real. CHARTIER nos alerta: “fonte não é testemunho da realidade”. Assim, o retorno as fontes se processou de forma diferente do passado. O objetivo não era encontrar no documento a versão mais verdadeira do passado, mas sim pensar as maneiras como o real foi pensado, escrito e dado a ler pelos contemporâneos dos acontecimentos.

A volta ao arquivo, processada pela História Cultural, no início dos anos 90, não foi um retorno ao positivismo do século XIX e nem mesmo a aproximação realizada pela história social de tipo serial e quantitativa. Esse retorno, ao contrário de postular a transparência dos documentos e a dignidade teórica das grandes séries e das explicações gerais, processou-se de forma a destacar o individual e qualitativo, permitindo construir uma nova modalidade de história social atenta aos indivíduos percebidos nas suas relações com outros indivíduos.

A proposta era de reconhecer as ações de um sujeito entre outros sujeitos, conciliar a singularidade e o coletivo. A História Cultural, ao romper com a antítese entre indivíduo e sociedade, propôs uma melhor compreensão dessa relação, articulando essas duas categorias.

Assim sendo, a história passou a desenvolver-se destacando a “experiência” dos homens em seu tempo e lugar como crucial para o entendimento dos processos sociais. Isso provocou uma alteração na escala de trabalho, levando os historiadores ao encolhimento de seu campo de observação, num movimento articulado primeiramente pelos historiadores italianos em torno da micro-história.

A limitação do campo de observação permitiu ao historiador reconstituir a pluralidade de contextos e a multiplicidade das experiências e das representações sociais.

O desafio era portanto proceder a necessária articulação entre, de um lado, a descrição das percepções, das representações e das racionalidades dos autores e atores sociais e, de outro, a identificação das interdependências desconhecidas que delimitaram e informaram suas estratégias. Dessa articulação dependia a possibilidade de ultrapassar a oposição clássica entre as singularidades objetivas e as determinações coletivas. Assim, o retorno do historiador ao arquivo foi renovado e modificado. O interesse passou a centrar-se na leitura dos próprios textos. Ler os textos antigos não era mais considerado uma forma de ler o real, mas sim uma representação do real. Os documentos não eram vistos como um retrato fiel da realidade, mas um registro que deve ser analisado em si mesmo. Os documentos ganham, dessa forma, uma nova dimensão. Eles passam a ser valorizados não apenas pelas informações que fornecem, mas são também estudados na sua organização discursiva e material, nas suas condições de produção e na sua utilização estratégica.

E como a utilização de arquivos e bibliotecas privadas se inserem nesse movimento de reflexão historiográfica sobre os documentos?



2 ARQUIVOS E BIBLIOTECAS PRIVADAS - ESPAÇOS DE REFLEXÃO HISTORIOGRÁFICA

Nos arquivos, cada documento é um objeto portador de signos incorporados a um suporte material. A palavra documentos tem em sua origem o significado de ensinar, instruir. Como define POMIAN (1992), os arquivos podem ser considerados como a memória da Nação, um componente indispensável de seu patrimônio histórico, mas ao contrário dos monumentos que fazem lembrar, que remetem ao passado num simples olhar, os arquivos e documentos precisam ser decifrados e criticados. O arquivo é uma memória objetiva, porém virtual. É a leitura histórica que os reatualiza, ressignificando-os e tornando-os suportes da memória.

Os arquivos têm ainda uma outra dimensão importante. Diferentemente dos outros registros da memória da Nação, eles nem sempre são formados a partir de uma intenção de guardar. Muitos arquivos se constituíram a partir da prática de uma indivíduo ou de uma instituição no exercício de sua própria atividade. Formaram-se em função dos inevitáveis registros acumulados a medida que suas atividades eram elas mesmas acompanhadas de uma produção e de uma recepção de documentos. Não existia, necessariamente, uma intencionalidade no seu processo de formação. Sob esse aspecto, o arquivo é bastante diferente das coleções e textos publicados.

Ao contrário dos atos de colecionar e publicar, que são resultado de uma escolha e de uma decisão que determina sua orientação geral, o arquivo é muitas vezes, resíduo, restos de uma atividade, vestígios de uma prática individual ou institucional.

Os arquivos são normalmente classificados como públicos, ou ao contrário, privados. Essa classificação remete-se, fundamentalmente, a origem dos documentos, ao seu processo de acumulação. Por esse motivo, melhor seria defini-los como arquivo de proveniência pública, cujos documentos remetem-se a instâncias do estado, e/ou arquivo de proveniência privada, acumulados por pessoas físicas ou jurídicas sem relação direta com órgãos estatais. É importante destacar que arquivos privados de homens públicos, muitas vezes, apresentam problemas para a classificação de seus documentos. Nem todos os documentos do acervo são de caráter privado, pois muitos deles são relacionados às funções públicas desempenhadas pelo titular ao longo de sua vida.

Entre os arquivos privados podemos ainda identificar um tipo específico: os arquivos privados pessoais. Os arquivos pessoais definem-se, principalmente, a partir do fato de todos os documentos do acervo possuírem uma marca identitária relacionada ao nome próprio, ao titular do arquivo.

Num arquivo privado pessoal, é o nome do titular que cria a identidade fundamental do acervo constituído. E é a partir dele que se organiza a série de documentos acumulados. Os arquivos privados pessoais possuem ainda uma outra dimensão importante. Eles denunciam uma “vontade de guardar”. Dessa maneira, os arquivos privados se aproximam das coleções. Ao contrário de simples resíduos, traços brutos de existências humanas, o ato formar arquivos privados pessoais é muito semelhante ao ato de colecionar. Coleciona-se representações de si ou do outro, escritas cristalizadas em documentos que exibem uma intenção de deixar o seu registro sobre o titular do arquivo.

Quando esses arquivos são de propriedade dos chamados “homens de letras”, eles muitas vezes guardam também , uma coleção de livros, uma biblioteca privada, que assim como os documentos, podem denunciar aspectos importantes da formação e ação profissional de seu proprietário.

Podemos afirmar portanto que os arquivos e bibliotecas pessoais são organizado para anunciar e criar um pensamento, uma reflexão, uma história. A análise desse tipo de fonte permite a compreensão das relações estabelecidas entre as representações subjetivas do agente em questão (o titular do acervo) e a memória que se constrói sobre ele. Assim, a exploração de arquivos e bibliotecas pessoais pode contribuir para o trabalho do historiador revelando dimensões do “vivido” ocultas nas análises macrohistóricas.

Justamente por esse motivo, esses acervos podem exercer sobre os pesquisadores uma enorme sedução ou até mesmo, um certo feitiço. Acredita-se poder encontrar nesses arquivos o acesso seguro aos registros da atuação, pensamento e preferências do personagem pesquisado. Em outras palavras, o arquivo parece conter “aquilo que realmente aconteceu” a “forma como realmente se deram os acontecimentos”.

Cria-se assim, a noção que identifica os conjuntos documentais de origem pessoal a uma manifestação concreta e objetiva da memória individual de seus titulares.

Relativizando essa idéia, os pesquisadores podem buscar identificar o processo social de construção desses acervos documentais, atentos à idéia de que os arquivos privados pessoais podem ser lidos como uma escrita. Assim como qualquer outro texto ou documento, os arquivos



(..) não podem nunca anular-se como texto, ou seja, como um sistema construído consoante categorias, esquemas de percepção e apreciação, regras de funcionamento, que remetem para as suas próprias condições de produção”.

Ao longo da vida, muitos desses registros acumulados são descartados e o resultado dessa ação é que conservamos apenas uma parte desses vestígios. Através de uma triagem cotidiana, arrumamos, desarrumamos, classificamos os nossos papéis. Colocamos em ordem a desordem cotidiana.

Não existe nas sociedades letradas, um membro sequer que não guarde papéis que permitam provar uma identidade ou um direito. A vida cotidiana é definida e registrada por um enorme conjunto de papéis pessoais.

Nesse sentido, estudar a constituição de arquivos bibliotecas pessoais é compreender o processo de seleção desenvolvido pelo titular e pelas demais pessoas responsáveis pela organização do arquivo, na ação de arquivamento de um “eu” determinado e identificado. Perceber de que forma a prática de arquivar documentos e colecionar livros contribui para a construção de uma memória organizada através da imagem do titular diante dele mesmo e dos outros.

Falar de identidade e memória enquanto construção significa destacar o trabalho exercido no sentido de estabelecê-las. Os “modos de construção”, tanto conscientes quanto inconscientes, são importantes para compreendermos, como afirma POLLAK (1992),

a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida como quer ser percebida pelos outros.
Um arquivo e uma biblioteca pessoal expressam, sem dúvida, uma “vontade de guardar”, de exibir a exemplaridade da própria história. Assim, sua organização acentua a individualidade do titular redefinindo o seu lugar particular na pluralidade dos acontecimentos históricos.

3 CONCLUINDO...

Pode-se considerar que os arquivos e bibliotecas pessoais destacam-se como locus privilegiado de análise histórica a medida que registram uma forma de acumulação privada que possui como marca identitária específica o nome próprio do titular. Nesse sentido, eles constituem um campo profícuo para a análise histórica, permitindo, como nos fala CHARTIER, a compreensão das representações, estratégias e práticas estabelecidas pelos indivíduos num espaço de lutas de representação, onde finalmente o que está em jogo é, não somente a vida pessoal, mas a ordenação e a hierarquização da própria estrutura social.



4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER, R. 1992. A História Cultural; entre práticas e representações. Lisboa, Difel.

CHARTIER, R. 1998. Au bord de la falaise. L’histoire entre certitudes et inquiétudes. Paris, Éditions Albin Michel.

POLLAK, M. 1992. Memória e Identidade Social”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10.

POMIAN, K. 1992. Les Archives; du Trésor des Chartres au Caran. In: Pierre Nora (org) Les lieux de mémoire. Paris, Gallimard.

ROUSSO, H. 1996. O Arquivamento do eu ou o indício de uma falta. In: Estudos Históricos . Rio de Janeiro, vol. 9, n. 17.



1 Professora História, Centro de Humanidades, Universidade Estadual do Ceará.


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