A relaçÃo entre o pensamento de émile durkheim e oliveira vianna



Baixar 75.64 Kb.
Encontro08.08.2016
Tamanho75.64 Kb.




A RELAÇÃO ENTRE O PENSAMENTO DE ÉMILE DURKHEIM E OLIVEIRA VIANNA.”


Felipe Fontana1
RESUMO: Este trabalho tem a finalidade de demonstrar que há importantes relações entre o pensamento de Émile Durkheim e o de Oliveira Vianna que ainda não foram suficientemente explicadas. Neste sentido, notamos que a bibliografia sobre o tema não apresenta uma dedicada comparação entre os pensadores; instigando-nos assim, a realizar um estudo que venha suprir, mesmo que parcialmente, esta dificuldade. De maneira preliminar, podemos afirmar que há entre os dois autores algumas relações intelectuais que são melhores visualizadas, ou ficam mais explícitas, quando pensamos em dados conceitos clássicos cunhados pelo sociólogo francês, são eles: a noção de solidariedade e a de Estado Corporativo. Além disso, também podemos apreender uma relação de pensamento entre os dois autores naquilo que concerne ao método de análise da realidade social. Por fim, ao passo que investigamos as relações entre estes dois pensamentos, também conseguimos delinear quais são as contribuições de Émile Durkheim ao Pensamento Social e Político Brasileiro; ou, mais especificamente, quais os paradigmas teóricos que estão imbricados na noção de Estado Corporativo informada pelo intelectual fluminense.
PALAVRAS-CHAVE: Oliveira Vianna; Émile Durkheim; Solidariedade; Apropriações.

A RELAÇÃO ENTRE O PENSAMENTO DE ÉMILE DURKHEIM E OLIVEIRA VIANNA.”


Felipe Fontana2

INTRODUÇÃO

Oliveira Vianna estabeleceu em nosso Pensamento Social e Político uma linhagem teórica de extrema importância; a qual se ligou de maneira discreta ou contundente a diversos estudos que buscaram compreender certos aspectos do Brasil. Como lembra José Murilo de Carvalho, “A razão mais importante para uma visita desarmada [à obra de Vianna] é a inegável influência de Oliveira Viana sobre quase todas as principais obras de sociologia política produzidas no Brasil após a publicação de Populações Meridionais. Dele há ecos mesmo nos autores que discordam de sua visão política. A lista é grande: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Nestor Duarte, Nelson Werneck Sodré, Victor Nunes Leal, Guerreiro Ramos e Raymundo Faoro, para citar os mais notáveis. Até mesmo Caio Prado lhe reconhecia o valor, ressalvando as críticas. Tal repercussão indica a riqueza das análises de Oliveira Vianna e justifica o esforço de revisitá-las” (CARVALHO, 1991).

No entanto, se a influência de Oliveira Vianna em relação ao Pensamento Social e Político Brasileiro pode ser facilmente identificada, o mesmo não ocorre quando buscamos apreender as fundamentações teóricas de suas idéias. Afinal, o pensamento do sociólogo brasileiro se constituiu através de significativas influências que, por vezes, são apresentadas na bibliografia acerca do tema de maneira pouco conclusiva. Adicionado a isso, tal literatura nos revela um leque variado de autores que influenciaram o estudioso niteroiense.

Deve-se ficar claro, que nossa intenção não é a de dar um ponto final a esse debate. De fato, o que faremos é justamente o contrário: alimentaremos ainda mais o embate de idéias que circunscrevem essa discussão. Nesse sentido, ao introduzir Émile Durkheim à lista de autores que exerceram uma dada influência sobre o pensamento de Oliveira Vianna, percorremos um caminho diferenciado daquele que vem sido trilhado pelos autores que buscam, assim como nós, desvendar as raízes do pensamento do intelectual brasileiro. De maneira geral, conseguimos apreender na bibliografia que busca comentar Oliveira Vianna o apontamento constante de alguns autores que exerceram sobre o pensador uma dada influência. Entram neste registro Pierre-Guillaume-Frédéric Le Play, Alexis de Tocqueville, Alberto Torres, Mikhail Manoilesco, Friedrich Ratzel, etc. Contudo, de forma menos incisiva, também encontramos na literatura dos comentadores e na própria obra de Oliveira Vianna algumas indícios que sugerem uma relação de pensamento entre o intelectual brasileiro e o sociólogo francês. Nesse sentido, podemos dizer que reside aqui, o objeto de nossa investigação: as relações existentes entre os pensamentos de ambos os autores.

Também podemos afirmar que os indícios que encontramos para sustentar a pertinência desta relação também sugerem um contato específico entre os autores; ou seja, é na abordagem de alguns temas, na postura metodológica e na compreensão de dados objetos que podemos apreender de modo mais claro a relação de pensamento entre os dois autores. Para demonstrarmos a procedência destes indícios, tentaremos realizar um breve exame bibliográfico e comparativo.

Contudo, este trabalho não se limitará a isso, afinal, ainda buscaremos apreender de maneira mais restrita e dedicada as relações de pensamento existentes entre os dois autores naquilo que concerne ao conceito de Estado Corporativo. De antemão, podemos supor que a necessidade de um Estado conformado em corporações, dentro do pensamento de Vianna e Durkheim, só se realiza graças à especificidade dos diagnósticos sociológicos que os autores realizam em seus estudos3.


A BIBLIOGRAFIA E SEUS INDÍCIOS: os vínculos entre os dois autores.

  1. Sinais Materiais de uma Relação Entre os Autores.

A percepção de que há pertinentes relações entre o pensamento de Oliveira Vianna e o de Émile Durkheim, até o momento, foi admitida por nós de modo evidente. Entretanto, devemos mostrar como apreendemos tal modo de pensar através de um sobrevôo sobre uma dada bibliografia relacionada ao tema. Contudo, atentaremos agora para uma possibilidade que não necessariamente possui vínculos com um tipo qualitativo de análise bibliográfica. Dessa maneira, um olhar mais técnico em relação às obras de Oliveira Vianna e às de seu acervo nos possibilita mensurar um possível contato entre o autor niteroiense e Émile Durkheim. Para isso, podemos afirmar que um caminho possível é o da quantificação das citações que o autor brasileiro fez do sociólogo francês em seus diversos estudos. No entanto, outro caminho se apresenta como mais viável no momento.

Através dos anexos presentes na tese Na Trama do Arquivo: a Trajetória de Oliveira Vianna de Giselle Martins Venancio encontramos a catalogação de uma parte específica da biblioteca de Oliveira Vianna. Além das obras de Tocqueville, Comte e Le Play, também verificamos a presença de algumas obras de Émile Durkheim, o que diretamente nos revela a existência de uma absorção específica por parte do estudioso fluminense em relação às idéias do intelectual francês. As obras do sociólogo francês que foram catalogadas são: Les regles de la methode sociologique (1938) e De la division du travail social (1932) e Educação e Sociologia (1933). Ao observar o quão atualizado intelectualmente Oliveira Vianna se encontrava em sua época, Giselle Martins Venancio destaca que o sociólogo brasileiro não só recorreu a obras durkheimianas, como também a trabalhos oriundos dos discípulos do sociólogo francês. Segundo a autora, a evidência dessa afirmação é a presença de revistas francesas ligadas ao Année Sociologique.

Por fim, deve-se ficar claro que não foram catalogados pela pesquisadora os manuais de Sociologia presentes no acervo do intelectual brasileiro. Manuais estes que eram utilizados freqüentemente por intelectuais da época, que devido à dificuldade de se obter as obras diretas/originais de autores estrangeiros, recorriam a esta alternativa (MEUCCI, 2001)4. Nessa direção, também é importante atentarmos para outro meio de buscarmos uma aproximação entre Émile Durkheim e Oliveira Vianna, qual seja: a averiguação dos manuais de Sociologia que o pesquisador brasileiro possuía. Afinal, a epígrafe de Populações Meridionais do Brasil (1922), em sua primeira edição, possui em sua epígrafe uma citação de Émile Durkheim e nenhum dos livros do sociólogo francês que foram catalogados por Giselle Martins Venancio são deste período.




  1. Buscando Vestígios nos Comentadores e Pesquisadores de Oliveira Vianna.

De maneira relevante, no Pensamento Social e Político Brasileiro, já foram estudadas e evidenciadas certas apropriações feitas por alguns autores em relação aos pensamentos e conceitualizações de grandes estudiosos da Sociologia e da Antropologia Clássica. Provas disto são os trabalhos que buscam explicar e comentar as relações existentes entre o Marxismo e a teoria de Caio Prado Jr.; os estudos que abordam os vínculos existentes entre a teoria weberiana e as exposições teóricas de Sérgio Buarque de Holanda; os trabalhos que procuram traduzir as relações viventes entre o pensamento de Franz Boas e as conceitualizações de Gilberto Freyre; ou ainda, os estudos que tratam das confluências de pensamento existentes entre Oliveira Vianna e Mikhail Manoilesco ou Pierre-Guillaume-Frédéric Le Play.

Entretanto, há certa dificuldade de encontrarmos uma obra ou até mesmo um artigo que cumpra a tarefa de evidenciar, mesmo que inconclusivamente, as relações de pensamento entre Oliveira Vianna e Émile Durkheim. Não queremos negar que há citações e menções das relações existentes entre o pensamento do intelectual brasileiro e do sociólogo francês em alguns trabalhos e estudos. Na verdade, o que tentaremos realizar agora é justamente uma apresentação destas alusões.

Primeiramente, notamos que as principais alusões de uma possível relação entre ambos os autores ligam-se a noção de solidariedade; a qual foi amplamente desenvolvida nas obras de Émile Durkheim como em algumas de Oliveira Vianna. Tais alusões podem ser verificadas tanto em obras clássicas sobre o sociólogo brasileiro, como em recentes teses e dissertações sobre o tema5. Na obra O charme da ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil, Maria Stella Martins Bresciani realiza uma pequena investigação dessa questão no sentido de dialogar e mostrar como a utilização desse conceito fazia parte do cenário intelectual no qual o sociólogo niteroiense estava imerso (BRESCIANI, 2005).

A autora revela que a noção de solidariedade passou, desde seus primórdios Saint-simonianos até Émile Durkheim, por algumas transformações. No entanto, foi a partir do sociólogo francês que este conceito reverberou com maior intensidade nos estudos franceses e para além da França – inclusive nos estudos brasileiros – (BRESCIANI, 2005). Utilizando-se da argumentação de Bresciani, podemos apreender a sinalização de uma possível apropriação de Oliveira Vianna em relação ao conceito de solidariedade tal como é formulado e desenvolvido por Émile Durkheim.

Na dissertação denominada Oliveira Vianna e a Legislação do Trabalho no Brasil 1932 – 1940, Hélio Mário de Arruda afirma: “É fundamental na obra de Oliveira Viana, no que tange ao conflito capital-trabalho, a leitura e a análise de ‘Problemas de Direito Corporativo’, de 1938, ‘Problemas de Direito Sindical’, de 1943 e ‘Direito do Trabalho e Democracia Social’, de 1951, que expõem sua visão sócio-política e trabalhista. Suas idéias em muito influenciaram a formação da Justiça do Trabalho, do sindicalismo e das instituições corporativas a partir do Estado Novo. Tais obras refletem os estudos empreendidos por Oliveira Vianna em Durkheim e Laski, entre outros cientistas, historiadores e sociólogos” (ARRUDA, 2006). Esta citação também evidencia aquilo que estamos tentando apresentar até o momento. De fato, Arruda também admite uma relação de aproximação entre o pensamento durkheimiano e o de Oliveira Vianna. Porém, o pesquisador não deixa claro o modo pelo qual este vínculo se constituiu, ou ainda, a especificidade de tal vínculo.

Por fim, mais uma alusão de uma possível relação entre os autores deve ser evidenciada. Na obra Oliveira Vianna – sua Vida e sua Posição nos Estudos Brasileiros de Sociologia, Vasconcelos Tôrres, ao enaltecer a importância dos estudos sociológicos de Oliveira Vianna, afirma que não houve no Brasil um pensador anterior ao sociólogo fluminense que tratou, assim como Émile Durkheim, os fatos sociais como coisas, ou seja, objetivamente: “Sociologia como o estudo das ações e relações homens entre si e de suas condições e conseqüências, na lição de Morris Ginsberg; sociologia como ciências especial que trata das fórmulas últimas e irredutíveis em que aparece o laço psíquico que une os homens em sociedade, na tese de Vierkandt; sociologia tratando os fatos sociais como coisas, segundo ensina Émile Durkheim em ‘As Regras do Método Sociológico’; sociologia aplicada e objetivamente considerada do ponto de vista técnico, essa sociologia praticada não foi pelos antecessores de Vianna” (TORRÊS, 1956).

Levando em consideração os escritos de Vasconcelos Torrês, podemos apreender que a alusão de uma possível relação entre o sociólogo francês e o intelectual brasileiro vem condicionada por uma provável continuidade do método durkheimiano nos trabalhos de pensador brasileiro. A pertinência dessa afirmação, como veremos, é questionável. Contudo, podemos notar um contato mais ou menos preciso entre o método durkheimiano e o de Oliveira Vianna.





  1. Esquadrinhando Indícios: Reflexões e Aproximações Bibliográficas.

Ao lermos Populações Meridionais do Brasil e Instituições Políticas Brasileiras, notamos que há importantes elementos que se aproximam de dadas conceitualizações já evidenciadas por Émile Durkheim. São exemplos: a idéia de coerção dada por características morfológicas e geográficas de uma sociedade, a noção de Estado, a de Corporativismo e a de metodologia direcionada à análise da realidade social. Dessa forma, tentaremos mostrar a existência destas afinidades através de um exame comparativa entre as conceitualizações e exposições teóricas de Oliveira Vianna e Émile Durkheim.

N’As Regras do Método Sociológico, ao falar sobre o aspecto coercitivo dos fatos socais, Émile Durkheim afirma: “existe maneiras de ser coletivas, isto é, fatos sociais de ordem anatômica ou morfológica. A sociologia não se pode desinteressar daquilo que concerne ao substrato da vida coletiva. No entanto, o número e a natureza das partes elementares de que é composta a sociedade, a maneira pela qual estão dispostas, o grau de coalescência a que chegaram, a distribuição da população na superfície do território, o número e natureza das vias de comunicação, a forma de habitação, etc., não parecem, a um primeiro exame, passíveis de se reduzirem a modos de agir, de sentir e de pensar. Contudo, em primeiro lugar, apresentam estes fenômenos o mesmo traço que nos serviu para definir os outros. Do mesmo modo que as maneiras de agir que já falamos, também as maneiras de ser se impõe aos indivíduos. De fato, quando queremos conhecer como está uma sociedade dividida politicamente, como se compõem estas divisões, a fusão mais ou menos completa que existe entre elas, não é com o auxilio de uma investigação material e por meio de observações geográficas que poderemos alcançá-lo; pois estas divisões são morais, ainda quando apresentam algum ponto de apoio na natureza física” (DURKHEIM, 2002).

Essa explicação de Émile Durkheim sobre a relação coercitiva existente entre meio físico e o social que é transfigurada em padrões morais e culturais nos parece guardar semelhanças fundamentais com aquilo que foi desenvolvido por Oliveira Vianna em sua explicação sobre o Brasil colonial. Com as palavras do cientista brasileiro, notamos o quão coercitivo se apresentou as determinações morfológicas e geográficas na constituição da sociedade brasileira e principalmente na formação de um tipo individual que carrega consigo algumas especificidades morais e culturais. Deve-se ficar claro, como mostra a própria citação de Émile Durkheim, que a primazia de uma análise da sociedade levando em consideração exclusivamente observações geográficas é inviável. Entretanto, como ressalta o pensador francês, as “divisões morais” de uma sociedade também podem se pautar “na natureza física”.

Expondo sua teoria, Oliveira Vianna revela: “De um modo geral, contemplando em conjunto a nossa vasta sociedade rural, o traço mais impressionante a fixar, e que nos fere mais de pronto a retina, é a desmedida amplitude territorial dos domínios agrícolas e pastoris” (VIANNA, 1938). A análise do Brasil colônia feita pelo sociólogo brasileiro nos ajuda a perceber uma relação de continuidade existente entre as formas morfológicas brasileiras e o tipo de atividade econômica presente na colônia: “Essa excessiva latitude dos domínios rurais é, em parte, imposta pela natureza das culturas. O pastoreio, a lavoura de cana e a lavoura de café exigem, para serem eficientes, grandes extensões de terrenos” (VIANNA, 1938). Dessa forma, para o autor, cria-se no Brasil um tipo específico de sociedade, a qual tem como eixo condutor o latifúndio: “Dispersos e isolados na sua desmedida enormidade territorial, os domínios fazendeiros são forçados a viver por si mesmos, de si mesmos e para si mesmos” (VIANNA, 1938).

No Brasil colonial, segundo Oliveira Vianna, há uma autonomia exagerada do latifúndio (também dada por suas características morfológicas) que, por sua vez, impede que o país caminhe rumo à modernidade e ao desenvolvimento. Aqui, em um dado momento da colonização, diferentemente de outras colônias, a retirada de riquezas feita pela metrópole era efetivada através da exploração da terra, a qual era abundante em relação a qualquer outro tipo de riqueza presente no país. Dessa maneira, terras fartas e altamente produtivas configuraram-se como a única forma de exploração altamente lucrativa da colônia; ou seja, os investimentos nacionais ligavam-se somente com o desenvolvimento dos latifúndios e das atividades rurais. Assim, a sociedade colonial brasileira é caracterizada fortemente por possuir profundas raízes rurais, as quais dificultaram fortemente a formação de nossas zonas urbanas ou cidades.

Através de uma fala do autor niteroiense, podemos perceber a dimensão social e cultural das nossas zonas urbanas no Brasil colônia: “Villas, aldeias, arraiaes, todas não passam, ainda agora, de agglomerações humanas em estagnação, e mortiças.”, e mais adiante, “as classes urbanas não gosam aqui nenhum credito – e só a classe rural tem importância. Deante dos grandes latifundiários não se erguem nunca como organizações autônomas e influentes: ao contrario, ficam sempre na dependência delles. Não exercem, nem podem exercer aqui, a funcção superior que exerceram, deante de olygarchia feudal, as communas medievaes. Falta-lhes para isto o espírito corporativo, que não chega a formar-se. São meros conglomeratos, sem entrelaçamentos de interesses e sem solidariedade moral” (VIANNA, 1938)6.

Através das citações e da exposição acima, notamos que há tanto no pensamento durkheimiano como no de Oliveira Vianna a possibilidade de enxergarmos uma relação entre aspectos morais e culturais que são oriundos de prerrogativas ligadas às características estruturais, morfológicas e geográficas de uma dada sociedade. Nesse sentido, notamos que o intelectual brasileiro mostra que a morfologia territorial do Brasil conduziu a um tipo de economia específica da colônia, que fez com que a zona urbana sofresse um não desenvolvimento. Dessa maneira, o autor informa que os grupos sociais presentes nas cidades são presos ao poder dos latifundiários, não possuindo assim, um “espírito corporativo”, o que é extremamente deficiente, pois, não há a constituição de corporações com uma “solidariedade moral”.

“Espírito corporativo” e “solidariedade moral” são duas características ausentes da população inerente ao Brasil colônia; pois, segundo o pensador brasileiro, os domínios rurais, conformados em suas auto-suficiências, limitaram nosso desenvolvimento rumo à modernidade, fazendo com que se girasse aos seus redores todo o sentido da Brasil colonial. Através desse diagnóstico, Oliveira Vianna, posteriormente, desenvolve nesta mesma obra algumas explicações sobre aquilo que nos caracteriza, dentre elas, destaca-se a simbiose clássica na qual está fundado o Brasil: a indistinção entre o púbico e o privado. Obviamente, a caracterização morfológica do Brasil colonial não é suficiente para explicar a criação deste paradigma clássico cunhado pelo autor; afinal, paralelamente a esta caracterização, o intelectual niteroiense articula os conceitos de patriarcalismo e espírito de clã para criar tal paradigma. Contudo, não é possível compreender efetivamente essa indistinção entre o público e o privado sem levar em consideração a caracterização morfológica de nossa colônia tal como é apresentada por Oliveira Vianna.

A intenção principal destes escritos é mostrar que é possível estabelecer uma forte relação entre o pensamento de Émile Durkheim e o de Oliveira Vianna. Aliás, tais escritos também buscam constituir um diálogo entre a Sociologia Clássica e o Pensamento Social e Político Brasileiro. Dessa maneira, ao passo que o sociólogo niteroiense resgata as características morfológicas e geográficas do Brasil colonial para explicar o quão coercitivas estas foram na constituição de nossa nação, população e psiquê, parece se aproximar de dados paradigmas criados pelo sociólogo francês. Além disso, a noção de Estado, tal como é utilizada por Vianna, parece guardar uma grande semelhança com as elaborações feitas por Émile Durkheim sobre o assunto.

Segundo Émile Durkheim, o Estado é um órgão necessário capaz, dentre outras coisas, de resguardar as liberdades individuais: “Compreende-se que as funções do Estado se estendam sem que daí resulte a diminuição do indivíduo, ou que o indivíduo se desenvolva sem que, por isso, o Estado regrida, pois o indivíduo seria, sob certos aspectos, o próprio produto do Estado, pois a atividade do estado seria, essencialmente, liberatriz do indivíduo” (DURKHEIM, 1983).

Neste sentido, Márcio de Oliveira também afirma: “Durkheim retorna inicialmente ao problema, já comentado nas RMS, da indefinição do conceito de Estado. Logo em seguida, porém, propõe a seguinte definição: ‘O Estado é propriamente o conjunto de corpos sociais que têm por única qualidade de falar e agir em nome da sociedade’. Neste curto texto de apenas seis páginas, o Estado aparece novamente como ‘órgão de reflexão’ e como ‘órgão da justiça social’; é por ele que se ‘organiza a vida moral do país’: quando correntes opostas apontam caminhos diferentes, os órgãos governamentais do Estado são chamados a decidir, porque apenas eles podem melhor avaliar a complexidade da situação. Ao contrário daqueles que afirmam que o aumento do poder do Estado inibe as liberdades individuais, Durkheim responde novamente com o conhecido argumento: ele garante as liberdades individuais, defendendo o indivíduo de todo e qualquer grupamento social” (OLIVEIRA, 2010). Para nós, estas considerações sobre o Estado ligadas à perspectiva durkheimiana parecem resguardar grandes semelhanças com a noção de Estado tal como é desenvolvida por Oliveira Vianna.

Em Populações Meridionais, Oliveira Vianna constata que no Brasil colonial não há uma instituição capaz de proteger os direitos coletivos em detrimento de dados agrupamentos sociais: “O homem que não tem terras, nem escravos, nem capangas, nem fortunas, nem prestígio sente-se aqui, praticamente, fóra da lei. Nada o ampara. Nenhuma instituição, nem nas leis, nem na sociedade, nem na família existe para a sua defesa” (VIANNA, 1938). Para Oliveira Vianna, os homens que possuem uma instituição capaz de guardar seus direitos “São, por isso, autônomos. São, por isso, livres. Sob a ação permanente dessa confiança interior, o caracter se abdura, se consolida, se crystalisa e adquire a infragibilidade do granito ou do ferro” (VIANNA, 1938). Após estas duas citações do intelectual brasileiro, a inquietação que se instaura em nós é a seguinte: Ora, não está Oliveira Vianna diagnosticando a ausência de uma instituição reguladora no Brasil, ou seja, um Estado conformado nos moldes durkheimianos capaz de regatar, dentre outras coisas, a autonomia e a liberdade dos indivíduos? Nesse sentido, também acreditamos que podemos apreender uma confluência de pensamento entre os autores.

Na obra Instituições Políticas Brasileiras, Oliveira Vianna faz menções diretas a Émile Durkheim, apresentando assim, um terreno fértil para nosso exame comparativo. Especificamente no primeiro volume desta obra, o sociólogo brasileiro trata da metodologia das Ciências Sociais aplicada aos estudos do direito. Dessa forma, primeiramente, ele constata que a metodologia ligada às Ciências Sociais está cada vez mais avançada, resguardando princípios como objetividade e fuga dos paradigmas aprioristas de compreensão da realidade: “a verdade é que o método sociológico está invadindo cada vez mais o campo dos estudos jurídicos, e a preocupação da objetividade e a repulsa ao apriorismo vão dominando progressivamente os horizontes da grande ciência” (VIANNA, 1955). Através desta citação, notamos algumas semelhanças entre o método sociológico definido pelo intelectual brasileiro e a proposta metodológica dada pelo intelectual francês. A busca por objetividade é um traça marcante do método durkheimiano. Além disso, a fuga do método apriorista é fortemente defendida pelo autor em algumas de suas obras clássicas.

Ainda estabelecendo um diálogo com Émile Durkheim, Oliveira Vianna acusa o sociólogo francês de ser um dos precursores das explicações pan-culturalistas, ou seja, explicações que têm em alto conta os ditames culturais para a análise da realidade. Entretanto, o intelectual niteroiense defende o sociólogo francês dos exageros cometidos por seus discípulos: “Os pan-culturalistas haviam chegado a traços culturais e a complexos culturais, haviam chegado ao ponto de cindir a cultura e o indivíduo, tornando-a – como se a cultura pudesse subsistir por si mesma, por meios exclusivamente culturais e por processos culturais acima e fora do indivíduo – como queria Durkheim e como querem Klineberg e outros ortodoxistas do culturalismo. Eles falam de traços culturais, de padrões culturais (culture patterns), de mores, de folkways, como si os indivíduos componentes de um determinado grupo humano não passassem de uma coleção de bonecos mecânicos, movendo-se, na execução destes mores e patterns, de uma maneira uniforme e similar.” Todavia, em uma nota de rodapé, o sociólogo brasileiro pondera: “Êstes excessos e radicalismos, nota-se bem, só aparecem nos doutrinadores secundários, discípulos destes grandes mestres. Êstes são sempre prudentes e nunca exageram – como bem observa Blondel” (VIANNA, 1955).

É importante salientar que Oliveira Vianna, por mais que pondere, acredita que Émile Durkheim realiza uma explicação da realidade fortemente pautada nos ditames culturais (VIANNA, 1955). Para o sociólogo brasileiro, o método mais moderno de análise das Ciências Sociais deve levar em consideração três questões importantes: raça, meio e cultura. Dessa forma, ele recusa, em parte, a proposta de análise da realidade social dada por Émile Durkheim, afinal, para o pensador brasileiro, o francês leva em consideração efetivamente apenas um destes aspectos, a cultura.

Neste sentido, percebemos que Oliveira Vianna possui uma leitura específica de Émile Durkheim que nem sempre possibilita, como estamos tentando fazer até o momento, uma aproximação fácil entre ele e o pensador francês. Dessa forma, fica clara a necessidade de compreendermos, dentre outras coisas, qual é a especificidade da leitura feita por Oliveira Vianna das conceitualizações e da teoria durkheimiana.

Com base no que foi exposto, percebemos que há pontos de convergência e divergência entre o pensamento do sociólogo brasileiro e do intelectual francês. Contudo, nos parece que a importante tarefa que apresenta para os interessados nessa questão é a de sistematizar isso no sentido de estabelecer com mais propriedade quais são os vínculos concretos entre os dois pensamentos. Além de pesquisa comparativa e análise bibliográfica, seria extremamente importante uma análise dos arquivos do sociólogo niteroiense na direção de encontrar e compreender alguns vestígios da aproximação direta ou indireta que ele teve das idéias e teorias do sociólogo francês.


A SOCIOLOGIA POLÍTICA DE ÉMILE DURKHEIM E OLIVEIRA VIANNA: as ligações que esta possui com uma proposta corporativista.
Assim como Émile Durkheim, Oliveira Vianna também afirmava que era necessário estabelecer grupos intermediários entre Estado e Sociedade. Para o sociólogo francês, estes grupos secundários seriam necessários para estreitar a participação da sociedade e dos indivíduos em meio ao Estado; afinal, tais grupos, organizados através de categorias profissionais, singularizariam as “identidades nacionais” e limitariam uma desmedida atuação estatal. Segundo Márcio de Oliveira: “Durkheim aborda ainda a relação do indivíduo com as diversas formas de Estado. Afora a discussão sobre os regimes e suas capacidades representativas (democracia e monarquia), Durkheim insiste na ação dos grupos intermediários entre o indivíduo e o Estado, apresentando aí formas intermediárias de participação, os ‘grupos profissionais’, que estariam fadados a se ‘tornar a base de nossa representação política e de nossa organização social’. Resgatando novamente sua idéia da inevitabilidade da especialização do trabalho, tudo indica que as profissões seriam as categorias sociais definidoras não apenas das práticas sociais, mas, sobretudo, das identidades sociais. Desta forma, elas limitariam o poder do Estado, impedindo que este se fortalecesse em demasia e tiranizasse o indivíduo. Em conclusão vê-se enfim que o Estado é tanto órgão quanto instrumento de uma nova sociabilidade; sua ação transpõe o escopo da política para ser o resultado de forças sociais em eterno movimento” (OLIVEIRA, 2010).

Para Oliveira Vianna, o estabelecimento de grupos intermediários entre Estado e Sociedade também era fundamental para a efetivação de seu Estado Corporativo. Para o intelectual brasileiro, era crucial que, através da modernidade, as classes se efetivassem no Brasil; pois assim, se constituiria no país diferentes grupos profissionais capazes de atuar intermediariamente dentro do Estado. Segundo Werneck Vianna, notamos: “Como um adversário da ‘liberdade dos modernos’, Oliveira Vianna afirma a prevalência do público sobre o privado, do Estado-nação, entendido como comunidade, sobre o indivíduo, num acento holista e organicista e privilegiador das ‘virtudes públicas’. Dái que seu diagnóstico, embora difusamente influenciado pela obra tocquevilliana, alinha-se, em termos de engenharia social, com a proposta de Durkheim, principalmente no que se refere à constituição de ‘grupos intermediários’. Faltando-nos o burgo medieval e a township americana, estas escolas cívicas ‘naturais’ da livre associação, a inarticulação de uma situação de indissociabilidade deve ser transcendida pela ação racional e consciente do Estado e de suas elites comprometidas com o projeto de uma comunidade nacional” (WERNECK, 1993).

Através da citação de Émile Durkheim e a de Werneck, podemos perceber o sociólogo francês e o intelectual brasileiro apresentam uma noção de Estado que busca a incorporação de grupos intermediários em sua composição e constituição, efetivando assim, o Estado Corporativo. Tais grupos possuem a características de serem oriundos de um processo de industrialização e desenvolvimento tal que conforma efetivos conjuntos profissionais diferenciados. Para ambos, tais grupos são importantes, afinal, estes garantiriam as disputas por prerrogativas e direitos de diferenciados agrupamentos sociais. Segundo os autores, seriam estes indivíduos capazes de dar voz e singularizar as aspirações coletividades em meio ao Estado.

É vidente que essa maneira de conceber o Estado pressupõe um modo peculiar de enxergar o meio social ou a sociedade. Reside aqui, uma semelhança muito importante entre os autores: ambos concebem e conceitualizam o Estado a partir de pressupostos ligados a sociedade, ou seja, o Estado está, e deve estar, articulado à sociedade. De forma clara, a conjuntura social não é desprezada pelos autores no momento em que estes definem o que é Estado. De fato, é pela especificidade deste diagnóstico que os autores acreditam em uma proposta corporativista. Um estudo mais profundo poderia evidenciar que ambos os autores acreditam, em certa medida, que o Estado Corporativo poderia exercer de maneira regulada o poder sobre a sociedade. Pressupõe assim, um modo de participação restrito que limitaria algumas “convulsões”, problemas ou atritos sociais.

Apenas uma constatação ainda deve ser feita frente à análise bibliográfica realizada por nós sobre o conceito de Estado Corporativo encontrado tanto em Émile Durkheim como em Oliveira Vianna. Segundo Evaldo Vieira na obra Autoritarismo e Corporativismo no Brasil, a noção de Estado Corporativo ou de Corporativismo Moderno guarda profundas raízes nas definições dadas por Émile Durkheim; segundo o autor, foi o cientista francês que primeiramente definiu o Estado Corporativo ou o Corporativismo Moderno. Entretanto, na parte de sua obra que é dedicada a esclarecer quais foram as fontes teóricas da concepção de Estado Corporativo de Oliveira Vianna, não menciona a presença das conceitualizações de intelectual francês sobre o tema.

Para o autor, as fontes do sociólogo brasileiro sobre o Estado Corporativo são basicamente as formulações de Alberto Torres e Mikhail Manoilesco. Neste sentido, notamos que apesar de Evaldo Vieira mencionar o sociólogo francês e refletir sobre a importância de suas idéias em relação a este tema, ele não traça nenhum paralelo efetivo entre a conceitualização de Émile Durkheim e as formulações teóricas do intelectual brasileiro. Entretanto, o comentador também não afirma que as contribuições do cientista francês em relação ao assunto não estão presentes nos esclarecimentos dados por Oliveira Vianna. Dessa forma, parece pertinente indagar: qual é então a relação entre a conceitualização de Émile Durkheim sobre o Estado Corporativo e a explicação que Oliveira Vianna dá sobre este assunto, visto que as considerações de Émile Durkheim sobre esta questão foram, segundo o autor, as primeiras a serem feitas?


O conceito de Solidariedade e as contribuições deste para o entendimento das relações teóricas existentes entre o Sociólogo Fluminense e o Intelectual Francês: afirmações preliminares de um trabalho realizado no acervo de Oliveira Vianna.
O conceito de Solidariedade, tal como é utilizado por Oliveira Vianna, nos pareceu profundamente inspirado em formulações durkheimianas. Ao passo que analisamos as obras de Émile Durkheim existentes no acervo do sociólogo fluminense, em especial A Divisão do Trabalho Social, notamos que as principais marcações de Oliveira Vianna vão de encontro com a necessidade de mensurar com maior propriedade o significado ou o sentido deste conceito.

O conceito de solidariedade, em Populações Meridionais do Brasil, é largamente empregado pelo intelectual niteroiense. Reside nessa questão, uma importante e evidente relação entre os dois autores. Afinal, a diagnóstico sociológico de Oliveira Vianna sobre o Brasil é fundado, dentre outras coisas, na ausência de uma solidariedade entre os homens do Brasil colonial; ausência de uma solidariedade que parece ter sido moldada conceitualmente pelo sociólogo francês. Nesse sentido, ao passo que visualizamos o quão impregnado está o conceito de solidariedade em muitas das exposições teóricas e conceituais do intelectual fluminense, também podemos admitir, mesmo que indiretamente, uma dada influência durkheimianas no pensamento do sociólogo brasileiro.

Outra questão importante referente à ida ao Museu Casa de Oliveira Vianna vincula-se aos Manuais de Sociologia (os quais são, em sua maioria, franceses e com grande inspiração nos escritos de Émile Durkheim) ali presentes. Notamos que a utilização destes manuais foi feita em larga escala pelo intelectual niteroiense. Nesse sentido, observamos que pode haver por parte do pensador brasileiro uma leitura específica, ou até mesmo enviesada, em relação aos conceitos e teorias durkheimianas; nesse sentido, vale indagar: qual a especificidade da interpretação do Sociólogo Brasileiro em relação às formulações e conceitualizações do Intelectual Francês?
CONCLUSÃO
Estes escritos, antes de qualquer coisa, sinalizam a necessidade de testarmos uma hipótese, ou seja, evidenciar aquilo que traduz e sinaliza a presença do sociólogo francês nas formulações do intelectual brasileiro. Assim, um estudo que tenha o objetivo de buscar a sobreposição de tal dificuldade parece oportuno. Afinal, paralelamente a proposta em si, automaticamente emergirá o resgate de dois autores fundamentais para a Sociologia Geral e para a nossa Sociologia Política. Neste sentido, averiguar a presença de Durkheim nos trabalhos de Vianna nos parece importante para apreendermos as contribuições do francês Pensamento Social e Político; tentando contrariar assim, o pertinente e triste diagnóstico de Márcio de Oliveira: “Não é exagero dizer que a obra de Durkheim não foi suficientemente estudada pela sociologia brasileira” (OLIVEIRA, 2009).

Além disso, estudar Oliveira Vianna e as origens de seu pensamento também é compreender com mais eficácia as raízes do Pensamento Social e Político Brasileiro posterior à década de quarenta; pois são poucos os autores (depois da década de vinte) desta corrente que não se dedicaram ao entendimento dos escritos produzidos pelo intelectual brasileira; seja para elogiá-los ou para criticá-los (CARVALHO, 1991). Dessa forma, estas palavras apresentam-se como contribuições preliminares à difícil tarefa que se apresenta. Afinal, elas traduzem de maneira simples um objeto de pesquisa que ainda parece pouco estudado por nossa Sociologia.

Pensando na melhor maneira de desempenhar esse árduo trabalho que se impõe a nós, podemos delinear certos caminhos para a realização de uma futura pesquisa. Nessa direção, uma análise direta e comparativa entre algumas obras de Oliveira Vianna e Émile Durkheim parece uma boa alternativa. Outra opção seria uma pesquisa no acervo e arquivos de Oliveira Vianna, buscando ali, anotações e manuscritos que evidenciem uma relação de pensamento entre os clássicos autores, ou até mesmo, a especificidade da leitura que Oliveira Vianna fez de Émile Durkheim.

De maneira geral, percebemos que os vínculos entre os autores são mais visíveis quando pensamos especificamente em certos conceitos ou noções. Dessa forma, ao passo que Oliveira Vianna utiliza a noção de solidariedade em seus escritos, parece transpor, senão de modo preciso a conceitualização que o sociólogo francês fez do termo, o significado desta noção através de uma corrente de pensamento que utilizou tal noção profundamente inspirada em Émile Durkheim.

Quando pensamos no método analítico de Oliveira Vianna, também podemos inferir que este se encontra, de acordo com a bibliografia por nós analisada, em uma relativa consonância com a proposta metodológica durkheimiana. Levando em consideração algumas ressalvas apontadas por nós, acreditamos que princípios como objetividade e fuga de preocupações aprioristas são características do método do sociólogo fluminense que foram emprestadas de Émile Durkheim.

Ao salientar o profundo vínculo entre natureza física e pré-disposições morais, Émile Durkheim mostra o quão intercambiada pode se encontrar dados grupos sociais e o meio físico em que estão inseridos. Ressaltado que, por vezes, as próprias características físicas e naturais de uma dada sociedade são morais, o autor parece lançar um caminho de análise pelo qual Vianna perpassou em alguns de seus escritos.

Quando buscamos associar os conceitos de Estado e de Corporativismo de ambos os autores, tentamos mostrar que as duas noções são fruto de uma Sociologia Política, e que reside nessa dimensão dos pensamentos dos autores a possibilidade de também visualizarmos uma aproximação entre eles. Por fim, não queremos destituir da proposta Corporativista de Oliveira Vianna os ensinamentos de Mikhail Manoilesco e Alberto Torres; de fato, o que buscamos evidenciar é que há nessa discussão possíveis contribuições de Émile Durkheim ao pensamento de Oliveira Vianna.
REFERÊNCIAS
ARRUDA, Mário de. Oliveira Vianna e a Legislação do Trabalho no Brasil 1932 – 1940. 141f. Dissertação (Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas) – Universidade Federal do Espírito Santo, CCHN.

BASTOS, Élide Rugai e MORAES, João Quartim de (org.). O Pensamento de Oliveira Vianna. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993.

BRESCIANI, Maria Stella Martins. O charme da ciência e a sedução da objetividade. Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil. São Paulo: UNESP, 2005.

CARVALHO, José Murilo de. Estudos Históricos. A Utopia de Oliveira Viana. Rio de Janeiro, 1991, 7:82·99.

DURKHEIM, Émile. A divisão do trabalho social. Trad. Maria Inês Mansinho e Eduardo Freitas. Lisboa: Editorial Presença, 1977.

________. As regras do método sociológico. Trad. Maria Isaura Pereira de Queiroz. 17ªed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002.

________. Lições de sociologia: a moral, o direito e o estado. Trad. J. B. Damasco Penna. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1983.

MEUCCI, Simone. Os Primeiros manuais didáticos de Sociologia no Brasil. Estudos de Sociologia, V. 6, n. 10, p. 121–158, 2001.

OLIVEIRA, Márcio de. Durkheim, a política e o estado. Disponível em: Acesso em: 21/02/2010.

SANTOS, Daniele Ramos Venezia. A Judicialização na Obra de Oliveira Vianna. 93f. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Direito) – UFF, 2009.

TÔRRES, Vasconcelos. Oliveira Vianna – sua Vida e sua Posição nos Estudos Brasileiros de Sociologia. 1ªed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S.A., 1956.

VENANCIO, Giselle Martins. Na Trama do Arquivo: a Trajetória de Oliveira Vianna (1883 – 1951).

VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas Brasileiras (Primeiro Volume). 2ªed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1955.

________. Populações Meridionais do Brasil. 4ªed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.



VIEIRA, Evaldo. Autoritarismo e Corporativismo no Brasil: Oliveira Vianna & Companhia. 2ªed. São Paulo: Cortez, 1981.

1 Felipe Fontana é Mestrando de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá e Pesquisador Colaborador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Região Metropolitana de Maringá. E-mail: buthjaum@yahoo.com.br.

2 Felipe Fontana é Mestrando de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá e Pesquisador Colaborador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Região Metropolitana de Maringá. E-mail: buthjaum@yahoo.com.br.

3No caso de Oliveira Vianna, esse diagnóstico fica expresso de maneira profunda em sua obra clássica Populações Meridionais do Brasil, no entanto, ele também é ratificado em seus trabalhos posteriores.

4“O mais representativo e o mais influente sociólogo membro dessa ‘escola’ é certamente Émile Durkheim, cujas contribuições ocupam as páginas de muitos de nossos manuais. Especialmente os livros ‘Sociologia Criminal’ (1915) de Paulo Egydio Carvalho, ‘Princípios de Sociologia’ (1935) de Fernando de Azevedo, ‘O que é sociologia’ (1935) de Rodrigues Merèje, e ‘Sociologia Educacional’ (1940) de Fernando de Azevedo são importantes veículos divulgadores das idéias de Durkheim. Seus autores pretendiam, por meio da difusão dos conceitos e das investigações do sociólogo francês, legitimar a sociologia em nosso meio intelectual” (MEUCCI, 2001).

5Um exemplo de recente dissertação que traz essa discussão é a denominada A Judicialização na Obra de Oliveira Vianna, de Daniele Ramos Venezia dos Santos. Segundo a pesquisadora, “Para a compreensão da abrangência do significado de solidariedade [presente na obra de Oliveira Vianna] apresenta-se o seu conceito comum e uma noção da concepção de solidariedade em Émile Durkheim extraída da Divisão do Trabalho Social” (SANTOS, 2009).

6Nesta citação, notamos que o sociólogo brasileiro, através da dimensão morfológica existente no Brasil (latifúndio), constata peculiaridades culturais das populações urbanas existentes em nossas cidades coloniais. Tal constatação parece bem próxima daquilo que Durkheim informa na citação acima.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal