A relaçÃo entre trabalho e educaçÃo através de análise do movimento histórico nas formaçÕes sociais primitivas e escravistas helly Wilson Soares Ferreira Junior



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A RELAÇÃO ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO ATRAVÉS DE ANÁLISE DO MOVIMENTO HISTÓRICO NAS FORMAÇÕES SOCIAIS PRIMITIVAS E ESCRAVISTAS
Helly Wilson Soares Ferreira Junior1
Introdução
O presente trabalho tem por objetivo analisar as formações sociais Primitivas e Antigas, suas respectivas relações de produção e, por fim, averiguar o papel político-ideológico2 que a Educação cumpriu, ou não, na manutenção dessas relações. Para isso se fará uso do método Materialismo Histórico e Dialético, bem como de autores referentes à História da Educação, História Geral e do Trabalho. No entanto, ressalta-se que as formações sociais e as relações de produção analisadas neste artigo são as mais gerais e hegemônicas dos respectivos contextos históricos, pois partimos do pressuposto que as sociedades são compostas de diferentes formações sociais, entretanto, direcionadas por um modo de produção hegemônico.

A partir do exposto, é possível iniciar as reflexões, apontando a relação do homem e a natureza e como esta se constitui na contradição homem X homem, como também o papel que a educação cumpriu e vem cumprindo na manutenção, ou não, dessa formas de organização do trabalho.

A principal característica que diferencia o homem dos outros animais é sua relação com a natureza. Enquanto os animais se adaptam a ela, os homens a dominam, transformam a natureza segundo suas necessidades; é a partir da negação da natureza que o homem se constitui homem. E a condição que permite a ele adaptar a natureza às suas necessidades, bem como, distanciá-lo dela é o Trabalho.

O homem utiliza o trabalho para produzir os bens necessários para sua sobrevivência, e para essa produção são necessários “meios de produção” e a “força de trabalho”, sendo os primeiros constituídos pela composição dos instrumentos de trabalho e a matéria prima (ou ainda, objeto de trabalho). O conjunto dos meios de produção e da força de trabalho é denominado “forças produtivas”. O que caracteriza um modo de produção e o diferencia de outros é a forma como os sujeitos se relacionam com os meios de produção e entre si; como se dá a produção, a apropriação dos bens produzidos, e quem detém a propriedade dos meios de produção.

As formações sociais são compostas por estes elementos, ou seja, pelas formas de produção, por relações de produção e por um dado desenvolvimento das forças produtivas.

O processo de evolução do homem – desde seus precursores, os “Macacos Antropomorfos”, passando pela vida nômade, até alcançar um grau de complexidade tão grande, que só é próprio da humanidade – está diretamente relacionado com o Trabalho. Portanto, as relações sociais do nosso cotidiano não são “naturais”, são construções históricas.

Partindo desta idéia, podemos inferir que no movimento histórico de construção das sociedades não é possível afirmar que existe uma “essência” inata e imutável – no que diz respeito ao comportamento humano, visto que, este último está diretamente ligado às transformações do movimento histórico. Deste modo, se é possível apontar uma essência intrínseca à humanidade desde sua origem, esta é o Trabalho. Ele é o elemento presente em todas as organizações sociais construídas historicamente. Estes conceitos são fundamentais para o entendimento das relações de produção presentes nas formações sociais que serão analisadas a seguir.

A análise dessas formas de sociedade evidencia as diferenças entre uma sociedade sem classes – baseada na propriedade coletiva – e uma sociedade dividida em classes sociais antagônicas – baseada na propriedade privada; evidencia também como essas relações se manifestavam nas formas de educação das sociedades mencionadas.


Formações Sociais Primitivas
Nas comunidades primitivas a propriedade dos meios de produção é da tribo, da coletividade, da mesma forma que a apropriação dos produtos e das condições da produção. Isso se reflete na organização do processo produtivo, que não necessita de estruturas hierárquicas, ou de uma meritocracia, já que todos desempenham papel igualmente relevante na sociedade. Essas comunidades possuem uma divisão do trabalho segundo as condições naturais de produção.

Nessas sociedades não há um processo educativo sistematizado em escolas ou centros próprios para o ensino, a educação se dá de forma “espontânea”, baseada na vivência. As crianças acompanham os pais em suas atividades e “aprendem” dessa forma as funções que deverão ocupar na sociedade.

Há também que se relatar o baixo desenvolvimento das forças produtivas. No início das comunidades primitivas a produção tinha um caráter rudimentar, características do final da selvageria e início da barbárie (ENGELS, s/d). Essas organizações sociais não tinham como característica uma grande produção de excedentes; basicamente "duas mãos produziam para uma boca se alimentar". As relações dessas sociedades eram, portanto, marcadas principalmente pela produção dos produtos necessários para a sobrevivência, ou seja, geralmente tudo o que era produzido era consumido em seguida. Os indivíduos trabalhavam quase todo o tempo para poderem produzir e reproduzir a sua existência.

Quando as forças produtivas estavam mais desenvolvidas, paralelamente a uma crescente complexidade social e um maior domínio sobre as condições de produção, surge também uma maior divisão do trabalho – e agora não somente por sexo e idade – mas também entre planejamento e execução. De início era comum e mínima, pois, como o trabalho consumia quase todo tempo, alguns indivíduos eram eleitos dentro das tribos para coordenarem e planejarem o processo produtivo. Esta divisão foi crescendo quanto mais se desenvolviam as formas de produção e a tecnologia. Estas possibilitavam uma melhor domesticação de animais e melhores formas de agricultura.


À medida que cresciam os rebanhos, maior era a necessidade de indivíduos que cuidassem deles, mas como a reprodução dos animais era mais rápida do que a humana, era óbvio que apenas a tribo, com a sua natalidade, não poderia satisfazer a mencionada exigência de braços. (ENGELS apud PONCE, 2005, p. 25)
Essa divisão entre trabalho intelectual e manual acarreta uma elitização dos conhecimentos da produção, que ficam cada vez mais restritos aos dirigentes das organizações tribais (mostrando qual seria seu fim). A educação que antes era toda transmitida pela vivência toma um rumo diferente entre a elite intelectual. Passa a ser transmitida hereditariamente dentro de um núcleo intelectual mostrando a importância política que o conhecimento vai adquirindo no interior das sociedades primitivas.

Houve um aumento significativo das áreas cultiváveis, o que acarretou a necessidade de mais mão de obra na agricultura e no cuidado com os animais. Esse trabalho começou a ser desenvolvido pouco a pouco por indivíduos que não faziam parte das tribos consangüíneas. Essa multiplicidade de fatores referentes à produção possibilitou uma maior produção de excedentes, que começam a ser trocados entre as tribos cada vez em maior quantidade.

Paralelamente a esses fatos, vemos uma educação cada vez mais dividida entre os trabalhadores manuais e intelectuais. Estes últimos recebiam conhecimentos que possibilitavam uma articulação entre as várias esferas sociais e o processo produtivo. Por sua vez, os executores recebiam conhecimentos técnicos – específicos às atividades materiais – que não permitiam uma visão complexa da estrutura social ou sequer alguma forma de questionamento desta. Essas ocorrências são características da transição entre o Comunismo Primitivo e a Antiguidade3. Segundo Ponce,
(...) com o desaparecimento dos interesses comuns a todos os membros iguais de um grupo e a sua substituição por interesses distintos, pouco a pouco antagônicos, o processo educativo, que até então era único, sofreu uma partição: a desigualdade econômica entre os “organizadores” – cada vez mais exploradores – e os “executores” – cada vez mais explorados – trouxe, necessariamente, a desigualdade das educações respectivas. (...) Para os que nada tinham, cabia o saber do vulgo; para os afortunados, o saber de iniciação. (PONCE, 2005. P. 26-27)4
Em suma, o que se pode assimilar da estrutura social dos povos primitivos, é que, com uma produção rudimentar e um baixo desenvolvimento das forças produtivas não havia como se desenvolver relações de produção mais complexas. Estas se davam de forma espontânea o que, por sua vez era manifestado na educação, que se dava pela convivência. Com uma crescente divisão do trabalho manual e intelectual, acompanhada pelo respectivo aumento do tempo de ócio de alguns grupos, os vários formatos que gradativamente a educação do período assume, tornam-se cada vez mais instrumentos políticos e ideológicos de perpetuação da ordem vigente, ou seja, de reprodução das relações de produção, e de distanciamento entre os segmentos componentes dessas formações sociais.

A elitização e privatização do conhecimento intelectual, bem como de toda a produção, tornar-se-ão cada vez mais organizados e sistemáticos, com o surgimento da Propriedade Privada e do Estado. Como afirma Ponce,


(...) no momento em que surgem a propriedade privada e a sociedade de classes, aparecem também, como conseqüências necessárias, uma religião com deuses, a educação secreta, a autoridade paterna, a submissão da mulher e dos filhos, e a separação entre os trabalhadores e os sábios. Sem deixar, entretanto, de ter funções socialmente úteis, a administração dos bens da coletividade transformou-se na opressão dos homens, e a direção, no poder de exploração. Os defensores armados das obras de irrigação ou dos depósitos de víveres passaram a ser os servidores armados do patriarca, do rei ou do “saquem”. O soberano e a sua família, os funcionários e os magos, os sacerdotes e os guerreiros passaram, desde esse momento, a constituir uma classe compacta, com interesses comuns, em grande parte opostos ao do grupo total.

Mas ainda estava faltando alguma coisa: uma instituição que não só defendesse a nova forma privada de adquirir riquezas, em oposição às tradições comunistas da tribo, como também que legitimasse e perpetuasse a nascente divisão em classes e o “direito” de a classe proprietária explorar e dominar os que nada possuíam. E essa instituição surgiu: o Estado. (PONCE, 2005, p.32)


Formações Sociais Escravistas

O Mundo Antigo – mais especificamente Grécia e Roma – pode ser caracterizado por sociedades estratificadas entre uma classe que detinha os meios de produção e outra que não os detinha. A principal forma de produção era o Escravismo, onde a apropriação da produção é restrita a uma classe que não produz. Contanto, serão preservadas e apontadas as especificidades de cada civilização no que diz respeito às formas de transmissão dos valores familiares, da moral e virtude religiosas, como também da educação sistematizada de forma geral. Iniciaremos as análises estabelecendo relações entre ambas sociedades – no que diz respeito à organização social, e o vínculo desta com as formas de educação dos períodos, apontando posteriormente as peculiaridades de cada sociedade.

Manacorda (1989) demonstra que a documentação histórica existente sobre os tipos de educação historicamente situados, se restringe aos tipos que eram destinados às classes dominantes. Existe um número baixo de arquivos sobre a educação voltada ao trabalho intelectual, e quase nada sobre as formas da educação do trabalhador manual. Isto já possibilita uma primeira inferência: historicamente, a educação sistematizada foi transmitida para a camada dominante, ou seja, os senhores de escravos. A formação para o trabalho, por sua vez, era dividida entre: educação intelectual e técnica para os trabalhadores intelectuais e administradores do Estado – mais especificamente a partir do Império Romano5, e uma educação técnica, baseada na prática e no "espontaneísmo", destinada aos produtores manuais. A segmentação das formas de educação servia de elemento equalizador dos conflitos sociais e de "naturalização" das desigualdades. Este movimento pode ser evidenciado no trecho a seguir da obra de Ponce:
No momento da história humana em que se efetua a transformação da sociedade comunista primitiva em sociedade dividida em classes, a educação tem como fins específicos a luta contra as tradições do comunismo tribal, a inculcação da idéia de que as classes dominantes só pretendem assegurar a vida das dominadas, e a vigilância atenta para extirpar e corrigir qualquer movimento de protesto da parte dos oprimidos (PONCE, 2005, p. 36).
No entanto, é preciso esclarecer que a educação intelectual não era restrita aos trabalhadores intelectuais, isto é, a classe dominante apropriava-se desta forma de educação. Porém, o que diferenciava as duas classes era, por um lado, a razão com que ambas freqüentavam as escolas e recebiam a educação intelectual, e por outro, a forma de educação que estava restrita à elite dominante. A classe dominante se apropriava dos conhecimentos intelectuais sistematizados, porém não com o objetivo de exercer alguma função técnica e administrativa dentro do Estado, pelo fato de não produzir. Esta apropriação se caracterizava enquanto complemento intelectual de uma formação política e militar – próprias desta classe – que era transmitida de geração para geração através da família.

Os trabalhadores intelectuais dependiam dos conteúdos técnicos para desenvolverem as funções no Estado e na direção das propriedades6, ou seja, a lógica de assimilação dessa educação era voltada para o trabalho.

No processo de transição das comunidades primitivas para as sociedades escravistas, a elite intelectual vai, gradativamente se constituindo enquanto classe dominante, e, conforme o desenvolvimento das forças produtivas, marcadas, entre outros fatores, pelo crescimento das propriedades e do número de escravos, aumentando a exploração do trabalho. Com isto, as camadas dominantes vão se distanciando da produção bem como da vivência com os trabalhadores, profissionalizando cada vez mais o processo produtivo, incluindo o trabalho intelectual. Dessa forma o trabalho passa a ser desenvolvido pelos outros segmentos da sociedade.

A transmissão do conhecimento, dentro das classes dominantes, se dava no início das formações antigas, de pai para filho através da repetição e da oralidade, e era voltada para o domínio do “bem falar” e para a formação guerreira. Com o desenvolvimento e ampliação da produção do conhecimento, essa transmissão já não era possível apenas pela via oral, aparecendo então a necessidade da leitura e da escrita, o que resultou no surgimento dos profissionais responsáveis pela formação sistematizada dos dominantes. Essas profissões eram exercidas – assim como o restante da produção – por escravos, libertos e trabalhadores livres, e podiam ser divididas em: mestres de primeiras letras, gramáticos, e retores7. Os gramáticos, e retores eram categorias de mestres que ensinavam, respectivamente, as artes liberais – música e poesia – e a retórica. Nesses períodos, qualquer forma de trabalho era vista pelas camadas mais abastadas como indigna – principalmente as de caráter manual, visto que a elite escravista não trabalhava.

As escolas eram divididas em Escolas Elementares que ensinavam as primeiras letras e contas e que eram entregues a profissionais particulares. Os mestres de primeiras letras lecionavam nessas escolas. Já o Ensino Superior era mantido e coordenado pelo Estado e tinha como foco o ensino das artes militares e cívicas. Este ensino era delegado aos gramáticos, retores e à família. As relações dessas sociedades evidenciam que, até mesmo entre os profissionais da educação, bem como dos outros setores da sociedade, havia uma diferenciação e segregação sócio-econômicas. Os mestres de primeiras letras eram menos valorizados pelas camadas dominantes do que os gramáticos e retores, visto que, a educação sistematizada acompanhava a lógica de hierarquia da sociedade. As primeiras letras eram, de certo modo apropriadas por trabalhadores livres, libertos – que podiam pagar – e alguns escravos. No entanto, quanto mais alto os níveis de ensino, mais se evidenciava a elitização. Por exemplo:
O filho de um artesão, quando não continuava sendo um analfabeto (apesar da lei), apenas conseguia adquirir os mais elementares conhecimentos de leitura, escrita e cálculo. O filho do nobre, por outro lado, podia completar integralmente todo o programa de uma educação que compreendia todos os graus de ensino (PONCE, 2005, p.51).
Ou seja, havia uma elitização logo de início, pelo fato de que a educação escolar inicial era oferecida por particulares, sendo restrita a quem podia pagar. E mesmo no ensino superior, “público”, apenas os segmentos dominantes é que poderiam permanecer por tal quantidade de tempo, visto que, não eram orientados pela lógica de trabalho.

Em suma, o que se via nas sociedades antigas era uma articulação entre Estado, aristocracia latifundiária e educação. Somente os filhos dos grandes latifundiários é que chegavam ao ensino superior. Raríssimos casos de pequenos proprietários que conseguiam custear o ensino de seus filhos.


(...) só por exceção é que os pequenos proprietários conseguiam custear os estudos dos seus filhos até os 16 anos, idade em que ingressavam no ginásio, e, como só eram elegíveis para os cargos estatais os jovens que haviam passado pelo ensino do ginásio, compreende-se que o resultado do “ensino livre” tenha sido a concentração dos cargos existentes nas mãos das famílias nobres (PONCE, 2005, p.51)8
Posteriormente, o Estado passa a não somente organizar o ensino superior, como também passa a dar melhores condições de trabalho para os gramáticos e, principalmente aos retores, em detrimento de mestres de primeiras letras. Isto se dá pelo fato de que, a educação superior já era por lógica destinada à classe dominante, e esta deveria receber uma formação sistematizada que fornecesse condições de manutenção da ordem vigente, em contraposição ao restante da população. No entanto é necessário salientar a motivação política que levou o Estado – mais especificamente na Grécia – a exercer maior controle na educação. Isto se deu, dentre outros fatores, pela crescente valorização do comércio, o que acarreta o surgimento de um novo segmento9 de mercadores. À medida que este segmento cresce, ele passa a exigir não mais uma educação técnica como era o caso dos artesãos; passam a exigir uma formação intelectual e geral. Dessa forma, este segmento passa a freqüentar as escolas de gramáticos e de retores. Por este fato, a classe dominante necessitou controlar ainda mais esta formação. Em Roma a aristocracia transforma, principalmente a profissão de retor, numa profissão de Estado, dando melhores garantias e salários, bem como o desfrute de privilégios de que não gozavam outras profissões liberais.

Portanto, as classes dominantes adotam aí uma postura clara em defesa dos seus interesses, restringindo a educação de nível superior para si.

Nota-se que os senhores de escravos tinham uma formação política e militar, diferenciando-os dos trabalhadores, o que permite uma segunda inferência: a principal forma de manutenção das classes dominantes enquanto classes dominantes se dava pela via repressiva exercida pelo Estado.

No Império Romano, a expansão do escravismo trouxe ao Estado, a necessidade de profissionalizar sua gestão (criar uma burocracia estatal), sendo um exemplo deste fato, a profissionalização do exército. Se antes este era regido pelos nobres senhores, agora é descentralizado. Com isto, concomitantemente a outras mudanças, os nobres disponibilizavam cada vez mais de tempo livre e condições para se desenvolverem como bem entendiam.

Com o decorrer do desenvolvimento das referidas sociedades, a educação, enquanto aparelho ideológico do Estado vai, gradativamente se igualando aos aparelhos repressivos, nas formas de reprodução das relações de exploração. Mesmo a educação técnica sendo, no geral, transmitida por profissionais e pela família, estes não educavam os jovens como bem entendiam. O Estado tinha uma forte estrutura de fiscalização do processo educativo, bem como objetivos muito bem definidos da educação para a população. Por estes fatos, fica evidenciado que não havia liberdade de doutrina entre os vários setores da sociedade: “A ‘liberdade’ de ensino não implicava, portanto, liberdade de doutrina. O professor não moldava os seus discípulos de acordo com as suas próprias concepções” (PONCE, 2005, p. 50)10.

No entanto, as forças produtivas ao se desenvolverem, necessitam de equivalentes relações de produção, e estas, numa sociedade caracterizada pela exploração do trabalho, aumentam cada vez mais as contradições de classes. Somente o escravismo já não podia dar conta da produção e das necessidades desta.

Em suma, o que se podia verificar nessas sociedades, com relação às formas de educação era, uma educação intelectual articulada – política e militarmente – que era voltada para a classe dominante; uma educação intelectual, porém de caráter técnico para os intelectuais das camadas médias e gestores do Estado; e por fim uma educação espontânea e prática para os produtores materiais.

Portanto, o mundo antigo, era hegemonicamente baseado no Escravismo, onde o escravo era, não somente produtor, como também meio de produção.



Considerações Finais

De modo geral é possível observar diferenças estruturais claras entre as comunidades primitivas e as sociedades de classes da antiguidade – mais especificamente Grécia e Roma – no tocante ao Estado, às formas de propriedade dos meios de produção, às relações sociais, à apropriação dos produtos do processo produtivo, entre outros; e observar também que “educação” é um conceito mais amplo do que “Escola” e que possuiu, no movimento histórico de construção social, diferentes formas e características de acordo com cada contexto e suas relações de produção.

Nas comunidades primitivas a educação era baseada na vivência e nem por isso deixava de reproduzir as relações que aquelas comunidades vivenciavam. Com uma crescente complexidade da produção, acompanhada por uma maior divisão do trabalho – principalmente entre planejamento e execução – a educação passa também a ser dividida entre os saberes dos segmentos mais intelectuais e os segmentos mais manuais, sendo os primeiros cada vez mais restritos às camadas dominantes da sociedade. Entretanto, no Escravismo, o principal aparato reprodutor das relações de produção é o Aparelho Repressor, pois a condição de escravo acarreta coerção física para a manutenção do mesmo enquanto escravo. Porém, para o restante da população – escravos libertos, estrangeiros e trabalhadores livres – apenas esta coerção não seria capaz de manter a ordem vigente, visto que, era necessário um convencimento desses setores, de que a relação entre senhor e escravo era natural; uma persuasão que não permitisse que essas camadas questionassem a estrutura da sociedade. Os aparelhos ideológicos tinham por objetivo cumprir esse papel de persuasão.

A valorização do aparato ideológico pela classe dominante nesse período se deu pela necessidade de conter as tensões e contradições sociais geradas pelo conflito de classes no interior das sociedades escravistas, que precisavam aumentar cada vez mais a exploração para atender as demandas da produção, e que com o tempo, somente o trabalho escravo, mesmo que progressivamente explorado e precarizado, já não daria conta de atender.

A apropriação da produção é um outro ponto de suma importância para esta diferenciação. Nas comunidades primitivas o trabalho, o produto do trabalho, bem como as condições de trabalho eram de propriedade do produtor. A apropriação das condições de trabalho significa o sujeito ter conhecimento da realidade material a qual exerce o trabalho. Realidade esta que é, as condições naturais e as do próprio indivíduo que trabalha. Ou seja, essa forma de apropriação não pode ser conseguida através do exercício do trabalho, pois é pré-requisito para a realização do mesmo. Com o surgimento das sociedades dividas em classes essa apropriação vai sendo retirada dos produtores, da mesma forma que os produtos da produção.

Bibliografia

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. 3. ed. Rio de Janeiro. Graal. 1987.


ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder. In: MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas, Volume 3. São Paulo: Alfa-Omega, s/d.

ENGELS, Friedrich. O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem / OAKLEY, Kenneth B. O Homem Como Ser que Fabrica Utensílios. 2ª edição. São Paulo: Global Editora, 1984.


MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo. Cortez: Autores Associados, 1989.

MARX, K. Formações econômicas pré-capitalistas. 4.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1985.



PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. 21.ed. São Paulo. Cortez, 2005.

1 Aluno da Universidade de São Paulo do curso de Pedagogia da FFCLRP. Bolsista do programa “Ensinar com Pesquisa” da Pró-Reitoria de Graduação.


2 Adota-se o conceito de Aparelhos Ideológicos do Estado, bem como de Ideologia em geral de Luis Althusser: “‘a ideologia possui uma existência material’; ‘a ideologia é uma representação imaginária da relação dos indivíduos com a realidade a qual estão inseridos’; ‘a ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos’” (ALTHUSSER. 1987).


3 É necessário salientar que, tanto a análise quanto a generalização limitam-se às formações sociais inseridas neste contexto de transição. Como pudemos observar nas obras de Marx e Engels, nem todas as comunidades seguiram esta lógica, como foi o caso do Modo de Produção Asiático.


4 Grifo do Autor.


5 A partir deste período o trabalho intelectual, bem como da administração do Estado passam a ser exercidos, no geral, por escravos, libertos e homens livres.



6 Em Roma havia os Intendentes, que eram escravos ou libertos aos quais era delegado o trabalho de vigiar as terras do senhor, bem como os outros escravos que nela trabalhavam (PONCE, 2005, p. 64).

7 Esta é uma caracterização geral. Em Atenas havia outros mestres que cuidavam da educação sistematizada, como por exemplo, mestres de música (que para os gregos eram as artes liberais como literatura, poesia, canto, entre outras) bem como dialética e filosofia. Em Esparta, a educação não seguia esta lógica possuindo um caráter militar.


8 Grifo do Autor.

9 Em Roma também houve um processo de ascensão de uma nova classe de artesãos, comerciantes e financistas (PONCE, 2005, p. 66).

10


 Grifo do Autor.




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