A relação entre trabalho e educação nas obras de Makarenko, Pistrak e Kerschensteiner



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A relação entre trabalho e educação nas obras de Makarenko, Pistrak e Kerschensteiner.

Giuliana M G Bueno

Prof. Dr. Luiz Bezerra Neto
A discussão sobre a relação trabalho e educação vem sendo feita por diversos estudiosos, sobretudo, quando se fala em formar para o mercado. Neste texto, procuramos discutir esta relação nas obras de três pensadores, dois russos e um alemão, procurando compreender a importância que estes educadores deram ao tema, principalmente porque discutimos sobre a formação pelo trabalho e não para o trabalho. Neste sentido entendemos que o estudo sobre Trabalho e Educação pode contribuir para a compreensão da escola no Brasil.

Entendemos que há a necessidade de fazer com que esta questão venha a ser visualizada e discutida de uma maneira mais ampla, de forma que possamos contribuir para a reflexão sobre o direito a educação das crianças e ao trabalho dos adultos, situando-nos no debate sobre a escola pensada como aparato ideológico do trabalho e da Educação, servindo tanto para a reprodução quanto para a transformação do status quo desta sociedade.

A discussão sobre este tema avançou muito desde que os pesquisadores da área de “Educação e Trabalho” assumiram a perspectiva teórica do materialismo histórico, buscando inclusive alterar a perspectiva de análise, passando assim a denominação para “Trabalho e Educação”. É possível que alguns digam que a ordem dos fatores não altera o produto. Entendemos que neste caso alteraria, pois como dito, não pensamos em uma educação voltada para o trabalho, mas entendemos que o trabalho é deve ser utilizado para a formação, tanto do profissional como do homem, cujo caráter se dirige para a construção de uma sociedade livre e igualitária.

Para tanto, nos apoiaremos nas idéias de teóricos como Pistrak, Kerschensteiner e Makarenko que ao longo de suas vidas demonstravam muita preocupação tanto com a instituição escola como com as implicações que estas traziam para a formação humana e por isso, formularam algumas idéias acerca dela.

Optamos por discutir as idéias destes autores pelo fato deles terem vivido em realidades semelhantes e por serem contemporâneos. Assim entendemos que a contribuição que eles nos trazem é a contribuição de um período histórico, vivido em realidades distintas, mas com muitas semelhanças entre si.

Para estes autores a formação humana não estava descolada do real, por isto, suas principais obras discutem a escola e o trabalho e a estreita relação existente entre elas, dado que a escola deve ser compreendida como a base da educação de uma sociedade e conseqüentemente para a formação tanto do para o trabalhador quanto dos governantes.

Nas últimas décadas, a incorporação de novas idéias acerca do papel da escola, tem promovido um repensar enriquecedor sobre trabalho e educação, sendo a principal discussão o funcionamento e trabalho no interior da escola pública, que vai muito além de simples normatizações e regulamentos. Estas normatizações e regulamentos surgem como representações sociais e de culturas escolares e acabam remetendo para a investigação das necessárias relações que a escola estabelece com o contexto sócio-político de determinadas realidades.

Analisando o pensamento dos teóricos em questão, Pistrak, Kerschensteiner e Makarenko, percebemos que há profundas diferenças entre suas obras, embora, possamos encontrar uma ampla discussão acerca do tema, com uma rica gama de representações sociais, formadas por cada um deles acerca da escola e suas implicações no cotidiano da classe trabalhadora.

Estas obras externam suas preocupações, acerca de suas visões de mundo e de sociedade bem como a concepção de um modelo de escola não dual e não dicotômica como encontramos nas sociedades capitalistas, em que temos um ensino voltado para a elite e outro voltado para a classe trabalhadora. Comum entre estes autores é a busca de uma escola formadora da sociedade e formadora de determinados grupos sociais, que buscam a concretização de uma nova realidade, igualitária, livre e fraterna e, que através de seus trabalhos buscam reforçar os sistemas de escolas, determinando o tipo de educação que tem que ser dado nestes estabelecimentos.

Estes autores consideram fundamental enfatizar a participação do Estado, na construção da escola permitindo assim a apreensão de determinadas realidades por parte de toda a sociedade, entendendo que o Estado não pode se preocupar apenas com a formação da elite, que administra a sociedade em determinados momentos históricos. Para isto estes teóricos discutem e descrevem como deveria ser essa escola modelo, para o qual eles citam exemplos variados de escola, sem deixar de considerar a noção de cultura escolar, pois eles também buscavam uma aproximação significativa entre trabalho e o modelo de escola que se pretendia criar para a sociedade em que viviam.

As determinações referentes às construções escolares, infra-estrutura, métodos, finalidades, perfil da escola, bem como a postura do professor e do aluno e ainda a participação do Estado no funcionamento das escolas são objetos de discussão destes pensadores. Estes teóricos enfatizam ainda, a importância da fiscalização e do controle do tempo para o bom funcionamento, tanto do aparelho escolar como das oficinas em que se ensinam as técnicas do trabalho ou os locais em que se dão aulas de educação física. Estas determinações fizeram com que se projetassem escolas pensadas para a formação integral do homem, seguramente, bem diferente da escola vivenciada na atualidade por todos nós.

As experiências realizadas por Pistrak, Kerschensteiner e Makarenko nos permitem visualizar, o modelo de escolas implementadas a partir de suas discussões e conseqüentemente, estabelecer comparações de distanciamento ou aproximações entre o proposto e o executado, entre a formulação e o vivido no cotidiano da escola, sobretudo quando fazemos uma visita a história da educação ou quando andamos por algumas pequenas cidades latino-americanas e percebemos a falta de uma escola bem organizada e estruturada, comprometendo assim o alcance que a educação poderia ter para os membros dessas cidades.

Com a constatação de que a escola é o meio de difusão das idéias, chamada também de parede ideológica preponderante na nossa sociedade atual, percebemos a necessidade de se discutir sobre escola e trabalho a partir das idéias destes três pedagogos, que discutem sobre a escola e o trabalho.

A escola do trabalho na fase de transição.

Buscando compreender o que seria a formação de uma escola modelo e entender como se daria o exercício dessas práticas metodológicas é que temos discutido as idéias produzidas por Pistrak, que foram elaboradas no final da década de 1920, sendo que estas idéias tiveram forte influencia, mais especificamente na educação da República Soviética desse período.

Outro importante modelo de escola foi elaborado por Anton Makarenko, sobretudo a partir de suas experiências na colônia Gorki. As idéias deste pedagogo foram consideradas relevantes numa parte da época pré-estalinista da escola soviética que se deu no período de (1917-1924). E outra parte de sua experiência no governo em 1928. E finalmente temos o modelo de escola, elaborado por Kercheinstainer que aconteceu após a sua prática como pedagogo que se deu no período de 1866 ate 1895, sendo o precursor da escola ativa e das escolas profissionais.

Nesse sentido, buscou-se promover uma analise do processo de formação da escola do trabalho, enquanto regulamentação da escola e sua ligação com o trabalho. Começamos a nossa analise verificando as idéias de Pistrak, que formulava suas idéias sobre educação basicamente na busca da transformação da escola para o qual ele descreve algumas possibilidades de transformação.

Para Pistrak, a escola sempre foi uma arma nas mãos das classes dirigentes, mas estas não tinham nenhum interesse em revelar o caráter de classe da escola. Nesse sentido ele entende que:

as classes dirigentes não passavam de uma minoria, uma pequena minoria, subordinando a maioria a seus interesses, e é por isso que se esforçavam para mascarar a natureza de classe da escola, evitando colaborar na destruição de sua própria dominação. (PISTRAK, 2005, p30).

Muitas das idéias de Pistrak continuam atuais, pois, percebemos que ainda hoje, muitas escolas funcionam dessa forma, não deixando clara sua intenção de encobrir a dominação de uns poucos sobre vastas parcelas da sociedade, ou seja, sobre a classe trabalhadora. Também é interessante destacar, ainda segundo pistrak, que “a revolução e a escola devem agir paralelamente, porque a escola é a arma ideológica da revolução” (PISTRAK, 2005, p.30). Nesse sentido é importante ressaltar que o autor trata basicamente da centralização da escola como instituição, com um fator determinante no avanço social e cultural de uma determinada comunidade, considerando a escola um dos possíveis meios de difundir a revolução.

Esse autor enfatiza ainda a necessidade de que as novas gerações compreendam qual é a natureza da luta travada pela humanidade que vive na sociedade capitalista, qual é o espaço ocupado pela classe explorada nesta luta; e conseqüentemente qual é o espaço que deve ser ocupado por cada adolescente e ainda que cada um saiba, em seus respectivos espaços, travar a luta pela destruição das formas inúteis substituindo-as por um novo edifício (PISTRAK, 2005, p.31).

Contudo Pistrak assinala que na base da escola do trabalho devem encontrar-se os seguintes princípios:

a). Relações com a realidade atual;

b). Auto-organização dos alunos.

Segundo este autor, estas determinações são apenas alguns itens mais destacados que sustentam a escola do trabalho. Percebe-se, portanto, uma tentativa de determinar como se deve enfrentar no cotidiano escolar as atividades desenvolvidas nesse âmbito.

Para Pistrak o objetivo fundamental da escola é, estudar a realidade atual penetrá-la, viver nela. Ele entende, no entanto, que

isto não quer dizer, certamente, que a escola não deva estudar as ruínas do passado: não deve estudá-las e assim será feito, mas com a compreensão de que são apenas ruínas do passado e de que seu estudo iluminado à luz da luta travada contra o passado e da transformação da vida que deve levar à sua liquidação. (PISTRAK, 2005, p.33).

Nesse contexto é interessante, delinear que há uma busca da centralização da escola, como um importante meio de educação, tendo presente sempre o processo de transformação da escola, no sentido de que esta venha se colocar a serviço da revolução que deve partir da classe trabalhadora, que é a classe que sofre a opressão imposta pelos capitalistas. Para isso, é preciso conhecer a história da humanidade desde a antiguidade até os nossos dias, para poder fornecer, desta maneira, elementos que contribuam para o desenvolvimento do estudo histórico – educacional.

A essas determinações devemos ainda segundo este autor, acrescentar o método do trabalho. Para Pistrak, o objetivo que os alunos devem atingir é não somente estudar a realidade atual, mas também se deixar impregnar por ela e transformá-la.

Assim é preciso demonstrar que os fenômenos que estão acontecendo na realidade atual são simplesmente partes de um processo inerente ao desenvolvimento histórico geral, é preciso demonstrar a essência dialética de tudo que existe, mas uma demonstração deste tipo só é possível na medida em que o ensino se concentre em torno de grupos de fenômenos constituídos em objeto de estudo (PISTRAK, 2005, p.43 e 35).

A partir destas considerações podemos perceber claramente o controle da instrução por parte da classe que controla o Estado, destacando a importância que apresentam os sujeitos de determinados grupos que estão participando de um determinado estudo.

Por outro lado Pistrak enfatiza a importância da pesquisa dos métodos de ensino unificado.

Para isto ele diz que é preciso que as pesquisas tenham uma base teórica; sendo preciso saber claramente porque se realizam, quais são os objetivos do ensino unificado, porque ele é necessário (PISTRAK, 2005, p.35.)

De acordo com essas determinações, percebemos que se deve prestar bastante atenção, ao determinar uma base teórica, levando em consideração, alguns pontos que indiquem um ensino unificado. Portanto entendemos que este autor destaca a necessidade de desenvolver uma base teórica deixando claramente especificado os objetivos do ensino.

Finalmente Pistrak descreve de maneira resumida o conteúdo do ensino que deve servir para armar a criança para a luta e para a criação da nova ordem, que os métodos de trabalho devem permitir a utilização prática destas armas e que os objetivos do ensino e da educação devem consistir numa transformação dos conhecimentos em concepções ativas.

Assim nesse contexto Pistrak ressalta que tais determinações permitem resolver uma série de outros problemas escolares tais como, por exemplo: a necessidade da educação ativa que concretize a ciência, permitindo assimilar o método cientifico de acordo com os objetivos fixados – e isto introduz o trabalho na escola. Dentro desse contexto, para este autor o trabalho na escola enquanto base da educação, deve estar ligado ao trabalho social, à produção real, a uma atividade concreta socialmente útil, reduzindo-se, de um lado, à aquisição de algumas normas técnicas, e, de outro lado a procedimentos metodológicos capazes de ilustrar este ou aquele detalhe de um curso sistemático (PISTRAK, 2005, p. 37-38).

Nesse sentido a escola unificada de Pistrak idealizava o trabalho como base para a educação, contudo, de modo especial percebemos que ele se preocupava com a formação da escola do trabalho, buscando em todo momento a transformação da escola idealizando assim, uma escola unificada.

Se Pistrak tinha grande preocupação com a escola do trabalho, numa perspectiva de transformação da realidade, tal qual propunha os princípios marxistas, Kercheinstainer preocupava-se com a formação moral e cívica do homem.

Nesse sentido, buscaremos compreender as discussões deste autor sobre a construção e funcionamento da escola. Kercheinstainer foi um precursor da escola ativa e das escolas profissionais. A sua teoria surge de sua prática que realizou desde a juventude, exercendo o papel de professor por longos anos.

Devido a suas práticas pedagógicas, a educação passou a ser o centro de suas preocupações. Kercheinstainer introduziu na escola o trabalho manual, para que desta maneira a escola de aperfeiçoamento exercesse um papel realmente educativo. Cabe lembrar que ao contrário de Pistrak, que era um teórico marxista, Kercheinstainer negava a possibilidade do materialismo histórico dialético dar conta de interpretar a realidade.

Para Kercheinstainer a missão da educação consistia em colocar no circulo vital, os bens favoráveis a seu desenvolvimento. E, por conseguinte deveria afastar os bens desfavoráveis e vencer sempre às resistências externas e internas que se oponham a apreensão dos bens culturais. Para o qual ele descreve dois tipos de educação. Uma educação como processo e outra como uma situação de estudo. Desse modo Kercheinstainer descreve a educação como estado e diz que esta escola estado, não é mais que a capacidade, disponibilidade, união e ordem múltiplas das funções anímicas individuais desenvolvidas por meio dos bens culturais (KERSCHENSTAINER, 1932, p. 12 e 13).

Nesse sentido tal qual Pistrak, Kerscheinstainer, tinha um ideal de escola do trabalho, embora ele tenha sido confundido por muitos outros pedagogos como se ele tivesse desenvolvido a escola ativa. Mesmo assim Kercheinstainer descreve alguns princípios característicos da escola do trabalho.

Kercheinstainer define a educação, enquanto situação estado e não como processo, advertindo que o bem cultural aislado, ou melhor dito a série ascendente de bens culturais determinados, desenvolve certas funções anímicas até sua suprema realização. Nesse contexto ainda acrescenta que a educação como estado encerra em si uma multiplicidade, o maior possível e ao mesmo tempo uma conexão orgânica das funções desenvolvidas. Contudo ele ressume em poucas palavras que a educação como estado não é nada mais do que a capacidade, disponibilidade, união e ordens múltiplas das funções anímicas individuais desenvolvidas por meio dos bens culturais. (KERSCHEINSTAINER, 1932, p.13.).

Nesse sentido para ele a educação como ação da comunidade cultural, tem por elemento a formação do ser espiritual do individuo, e pretende realizar nele os valores espirituais imanentes na comunidade. Enfatizando em todo momento que essa ação é própria do ser em formação.

Este autor basicamente foi reconhecido graças a sua concepção acerca da escola do trabalho, porém como já se mencionou, foi confundido por outros pedagogos, como criador da escola ativa. No entanto, Kerscheinstainer descreve três princípios que caracterizam a escola do trabalho.

Para ele existem três princípios importantes dentro desta escola que definem que a escola do trabalho seja uma escola que capture todo o possível sua atividade educadora, as disposições individuais de seus alunos e que multiplica e desenvolva para todos os dados possíveis dessas inclinações e interesses, mediante uma atividade constante nos respectivos campos de trabalho. Acrescenta ainda que esta escola tem que tentar adaptar as forças Morais do aluno, direcionando-o a examinar constantemente seus atos de trabalho, e ver se estes expressam com a maior plenitude, o que o individuo pensou e sentiu e quis sem enganar-se a si mesmo e aos demais.

Por outro lado para Kercheinstainer esta escola do trabalho, é uma escola para a comunidade de trabalho, na qual os alunos se ajudam e apóiam de maneira recíproca e socialmente a si mesmos, deste acabam ajudando aos fins da escola, para que cada sujeito possa chegar à plenitude, da qual é capaz por sua natureza (KERSCHEINSTAINER, 1932, p14)

Esse contexto formativo, desta escola do trabalho, para Kercheinstainer teve um espírito de reformação, e introduziu o trabalho na escola, para que desta maneira a escola exercesse realmente uma influência educativa. Ele colocou basicamente o trabalho manual e desta maneira a sua originalidade consistiu em ter utilizado os interesses práticos da juventude como ponto de partida da educação e ter procurado estabelecer um laço estreito entre o ensino teórico e os exercícios práticos. Entendemos que são válidos, algumas destas determinações considerando a ambigüidade do trabalho como parte da formação de cada sujeito de uma determinada sociedade.

Seguindo com a descrição acerca da escola proposta por Kercheinstainer, é necessário destacar que com respeito as escolas primarias, ele fez uma reforma em que aumentou um ano mais de escolarização, passando de sete para oito anos o período em que as crianças deveriam permanecer na escola, neste caso as crianças estudavam de seis anos até os quatorze anos, logo sobre esta base ele empreendeu uma gigantesca mudança mudando radicalmente o espírito e a organização das escolas colocando-as sobre a base da atividade e espontaneidade dos alunos. Contudo com respeito as mudanças introduzidas por ele na educação, é importante ressaltar que estes tipos de escolas foram praticados na Alemanha de 1910 até 1914, tendo como principio básico o trabalho.

Nesse sentido podemos perceber que o trabalho manual determinava as reformas propostas por Kercheinstainer no interior do sistema escolar, tendo também, algumas características bem distintas das anteriores, tais como o cuidado e cultivo da individualidade sobre a base das necessidades ativas dos alunos, a auto-correção do trabalho por parte destes, o autocontrole, o auto-exame do trabalhador e finalmente o desenvolvimento do espírito social por meio das comunidades escolares de trabalho.

Nesse contexto é preciso destacar que Kercheinstainer ressaltava que esta escola, não devia ser totalmente de atividade manual, embora o trabalho devesse fazer parte da escola, pois para ele, como processo de formação as coisas sem trabalho têm pouco valor, e mediante o trabalho elas deixam o estado em que se encontram tornando-se um agente transformador.

Segundo este autor o ensino é paralítico sempre que não coincidir com a prática e com o costume, enfatizará que só mediante o trabalho e pelo trabalho realmente prático em uma organização da escola ou da vida publica se poderia formar o homem. Nesse sentido Kercheinstainer afirma que só na escola prática de tais organizações, que se ampliam cada vez mais, se transformam as tendências sociais em vigorosos hábitos volitivos que podem chegar a ser mais fortes que todas as tendências individuais à liberdade (KERSCHEINSTAINER, 1938, p. 32 e 33).

Conforme Kerscheinstainer, temos que introduzir organicamente o trabalho prático na totalidade do plano de ensino, pois temos que tratar mais e mais de colocar as oficinas, laboratórios, salas de desenho, cozinhas e jardins escolares, no ponto central da vida, da escola e juntar a eles o mais possível o ensino teórico.

Kercheinstainer descreve ainda, com toda convicção, que o desenvolvimento espiritual do aluno conduz à formação de uma pessoa autônoma. É interessante perceber como este teórico faz um diagnostico realista, como ele descreve de que maneira o trabalho pode ajudar na formação de um individuo, sendo que indicações formativas, profissionalizantes são dirigidas aos jovens, Kercheinstainer recomenda as escolas de trabalho, ou seja, um sistema corretivo típico das instituições escolares voltadas para a formação do trabalhador por meio do trabalho.

Considerando que a reflexão de Kercheinstainer, fornece a inteligibilidade de que necessitamos para compreender acerca da escola do trabalho ou da escola para o trabalho, devemos também analisar as idéias de Anton Semionovic Makarenko, para quem o sucesso da educação dependia da capacidade do sujeito de se autocorrigir. Nesse sentido o Makarenko dizia que a nova sociedade deveria se preocupar não só com a formação de força de trabalho jovem, mas principalmente com a formação de pessoas com iniciativa e, sobretudo, com criatividade (MAKARENKO, 2005, p.650).

Nesse contexto Makarenko lutava por uma educação que tivesse por base trabalho produtivo, e não apenas o trabalho lúdico com a finalidade de formar homens conscientes e homens de ação. Nesse contexto ele define que o trabalho criou o homem, afirma também que “ao mudarem as relações de vida entre os homens, suas relações sociais, sua existência social, mudam também suas representações, suas opiniões e suas idéias, em suma, sua consciência...” (MAKARENKO, 2005, p.651).

Para Makarenko a educação é um processo social de tomada de consciência de si próprio e do meio que o rodeia. Nesse sentido, educar para ele é socializar através do trabalho coletivo em função da vida em comunidade. Portanto a principal missão do educador, na concepção de Makarenko era a formação do novo homem e que dessa formação dependia o bem estar e a prosperidade de cada um do jovens com quem se trabalhava.

Segundo Makarenko, “a personalidade não pode ser pensada fora da sociedade”. Ele buscava a formação de um novo homem, dentro de uma sociedade mais solidária. Seu método pedagógico basicamente estava centrado na organização coletiva das atividades, na disciplina e na luta em defesa de uma sociedade livre, fraterna e igualitária.

Para Makarenko o coletivo dos professores e o coletivo das crianças não podem ser considerados dois coletivos diferentes, mas deve ser entendido como um único e mesmo coletivo pedagógico, nesse contexto ele ressalta que ele não considera necessário educar uma pessoa isolada, mas educar todo um coletivo. E ainda enfatiza que esse é o caminho para a educação correta (MAKARENKO, 1989, p. 138).

É importante destacar que Makarenko tinha a convicção de que o sucesso, da educação dependia da capacidade da pessoa de se autocorrigir. A idéia do coletivo surge sempre como respeito a cada aluno, oposta a missão de massificação que despersonalizava a criança.

Makarenko considerava que a criança devia brincar também, dizia que havia muitos brinquedos, mas que não sabia por que, mas estavam convencidos de que para o divertimento deve haver um lugar separado e é a isso que se limita toda a participação dos jogos na educação. Nesse contexto ele afirmava, que a organização infantil deveria contar com muitos jogos. Makarenko ressaltava a importância e a necessidade do jogo, e esta necessidade deveria ser satisfeita: não porque o trabalho deveria ser intercalado pelo divertimento, mas porque o trabalho da criança depende da maneira como ela brinca. Nesse sentido ele afirmava ser partidário do principio de que toda organização do coletivo deveria incluir pedagogos e que deveríamos participar dele (MAKARENKO, 1989, p 137).

Através das leituras dos textos deste autor é perceber que Makarenko desenvolveu métodos educativos que procuravam contribuir para a formação dos menores delinqüentes, buscando influenciar na sua formação, no sentido de se construir um novo homem soviético. Nesse sentido Makarenko teve a preocupação de fazer com que as crianças e os adultos tivessem o compromisso de formar um “cidadão modelo” para o mundo, como educador defendia uma educação ativa e tinha como objetivo fazer de cada indivíduo um membro ativo de seu tempo e sociedade.

Considerações finais.

A escola proposta por estes três pensadores tem como base, o trabalho como meio de formação, centrados na formação de um novo homem. Essas propostas têm como objetivo a formação dos valores fundamentais do humanismo. Isto é, da autodisciplina intelectual e da autonomia moral necessárias tanto para os estudos posteriores como para a profissão.

Ambas as propostas educacionais descrevem a necessidade de se dar instrução às crianças, jovens e adultos através de uma educação voltada para o trabalho. Ambos apresentam as escolas como um processo que se inicia na infância e se conclui na fase adulta, ressaltando que nenhuma formação está privada de exigências intelectuais e culturais, além da vida moderna sugerir um novo entrelaçamento entre ciência e trabalho.

Nesse contexto Pistrak, Kerschensteiner e Makarenko definem a escola como o lugar em que um processo de instrução permanente para formar um novo homem intelectual, preocupado com a cultura, a política e com a sociedade de seu tempo, deve acontecer. Para esses três pensadores a educação está irremediavelmente ligada com a cultura, sendo necessário criar novas formas de construção de uma nova civilização, através da construção de uma nova realidade social que venha transformar também a mentalidade das novas gerações.

Finalmente podemos afirmar que Pistrak, Kerschensteiner e Makarenko vêem a escola como uma das possibilidades de transformação da sociedade, pois ela pode ser um instrumento através do qual se pode desenvolver a questão da organização da cultura e do desenvolvimento através do trabalho e da educação.

Referencias bibliográficas.

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GADOTTI, Moacir. Historia das idéias pedagógicas. São Paulo: Ática, 1995.

MAKARENKO, Anton. Poema Pedagógico. São Paulo. Ed. 34. 2005.



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