A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelizaçÃo em moçambique



Baixar 496.63 Kb.
Página2/12
Encontro19.07.2016
Tamanho496.63 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12

Prefácio


Depois de uma experiência pastoral considerável nas diversas comunidades cristãs nas Dioceses de Chimoio (Moçambique) e de Madrid (Espanha), e de haver passado vários anos pesquisando e investigando, tomei a decisão de aventurar-me na investigação científica de âmbito teológico-pastoral sobre: «A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelização em Moçambique». É um tema bastante delicado que tem a perspectiva de criar «diálogo honesto» entre a religião tradicional africana bantu e o Cristianismo; entre o Evangelho e a cultura africana bantu; e, obviamente, entre a antiguidade e a modernidade.

Considero ser um tema delicado, porque durante a investigação constatei que o continente africano é plural; compreende culturas, religiões, línguas, etc., distintas mas que formam uma unidade. Na realidade, África é um continente que se caracteriza por diversidade cultural e plurireligioso. É um continente com várias facetas culturais e religiosas, o que nos leva a considerar este continente de ser muito complexo em abordá-lo. Esta razão nos impôs a delimitar o tema e o espaço da presente dissertação. Deste modo, a nossa atenção e investigação estará centrada no espaço de África Subsahariana, a chamada «África Negra»; região habitada maioritariamente pelo povo Bantu. Com efeito, a história global de África Negra está manchada de dor, de sofrimento, de sangue e de morte! Esta história que a África Negra nos apresenta, configura também a história de Moçambique, como veremos ao longo da presente dissertação.

Por conseguinte, constata-se que, na África Negra, durante a realização da «primeira evangelização missionária», não se tomou em consideração a cultura africana Bantu como «lugar teológico»; não se reconheceu a religião tradicional africana bantu como «resposta» à multiforme e universal revelação de Deus. Naquela época, as culturas africanas não foram valorizadas como «ponto de encontro» dos caminhos da divindade para as culturas africanas e destas para a divindade. Nestas circunstâncias, o homem negro africano ficou muito desconcertado perante o dever de assumir as concepções tradicionais do seu meio ambiente cultural e os valores evangélicos vividos desde elementos ocidentais. Esta situação tem provocado uma «crise de identidade». Aliás, alguns críticos argumentam que a «primeira evangelização missionária», de então, não considerou a «religião» como a conversação da pessoa humana individual ou colectiva com seu Deus, mas sim como um código de moral1. Perante essa realidade vivida outrora em África, vemos hoje a necessidade de uma evangelização inculturada como uma «prioridade e uma urgência pastoral» para a Igreja local africana, como foi manifestado pelos Padres sinodais do I Sínodo Africano (1994) e sublinhado por papa João Paulo II na sua exortação apostólica pós-sinodal «Ecclesia in Africa», ao afirmar:

O Sínodo considera a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares, para a real radicação do Evangelho em África, «uma exigência da evangelização», «uma caminhada rumo a uma plena evangelização», um dos maiores desafios para a Igreja no continente ao avizinhar-se do terceiro milénio”2.

Não obstante, por falta de uma síntese entre fé cristã e culturas africanas e, sobretudo, por falta de um conhecimento profundo das culturas africanas e das religiões tradicionais africanas, na verdade, não poucas vezes os teólogos ocidentais julgaram com desdém e preconceitos o vitalismo religioso africano. Segundo o estudo feito pelo historiador suiço Pe. John Baur, nos revela que, outrora, o colonialismo havia negado aos africanos a sua própria civilização e depreciou as suas tradições culturais como «bárbaras». Por sua vez, os missionários rejeitaram em bloco os valores culturais dos africanos; expulsaram aos fiéis «indígenas» de suas próprias «casas culturais», ao considerá-los como pagãos e pecaminosos, por simples ignorância e falta de honestidade e caridade pastoral. Perante essa realidade, J. Baur se interroga: “Como poderia um genuíno Cristianismo africano desenvolver-se num vazio cultural?3.

A uma preocupação evangelizadora do género, o papa João Paulo II sugeria aos membros do Conselho Pontifício da Cultura, o seguinte:

Para evangelizar eficazmente há que adoptar decididamente uma actitude de reciprocidade e compreensão para simpatizar com a identidade cultural dos povos, dos grupos étnicos e dos vários sectores da sociedade moderna. Por outra parte, há que trabalhar pela aproximação das culturas, de modo que os valores universais do homem sejam acolhidos em qualquer lugar com um espírito de fraternidade e solidariedade. Evangelizar supõe penetrar nas identidades culturais específicas e, ao mesmo tempo, favorecer o intercâmbio de culturas abrindo-as aos valores da universalidade e incluso, eu diria, da catolicidade”4.

Perante este discurso tão pertinente do papa João Paulo II, cabe nos preguntar: Quais são os desafios que a cultura tradicional africana Bantu apresenta à evangelização hoje? ¿Que significa, hoje, a evangelização das culturas? Estas e outras perguntas são necessárias no momento de tratar da «inculturação do Evangelho em África Negra», o «momento» que a Igreja em África quer professar, celebrar e viver a fé usando as culturas, as línguas e as linguagens próprias dos africcanos, respeitando a psicologia, a filosofia, a antropologia e a teologia do povo.



Em suma, a presente reflexão pretende levar-nos ao centro das questões inerentes à evangelização da África Subsahariana, sobretudo, tentando oferecer novos paradigmas sobre a pastoral que África necessita hoje. No entanto, a presente reflexão será iluminada por obras de vários autores clássicos e modernos, africanos e não africanos. Enfim, terá como objetivo essencial: fazer uma reflexão teológica articulada desde «aquí, agora e com estes», em Moçambique, daquilo que está sucedendo nas comunidades cristãs locais, procurando, obviamente, oferecer uma contribuição sistemática para uma futura evangelização profunda das culturas e desde as culturas africanas, considerando-as como «lugares teológicos».
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal