A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelizaçÃo em moçambique



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Siglas e abreviaturas


AAAAISP Associação dos Antigos Alunos e Amigos do Instituto Superior de Pastoral.

ACC Acción Cultural Cristiana (Acção Cultural Cristã).

AACC All Africa Conference of Churches (Conferência das Igrejas de Toda África), criada em 1963 em Kampala - Uganda.

AAS Acta Apostolicae Sedis (Acta da Sede Apostólica).

AMECEA Association of Member Episcopal Conferences in Eastern Africa (Associação de Membros das Conferências Episcopais da África Oriental).

A. O. Apostolado da Oração.

AOTA Association Oecumenique des Théologies Africains (Associação Ecuménica de Teólogos Africanos), fundada em 1977 em Acra (Ghana).

Apost. Apostólica (exortação).

ARPAC Arquivo de Património Cultural.

BAC Biblioteca de Autores Cristianos (Biblioteca de Autores Cristãos).

CELAM Conselho Episcopal Latinoamericano.

CEM Conferência Episcopal de Moçambique.

Ch. Christophe.

CICat. Catecismo da Iglesia Católica.

CPB Comissão Pontifícia Bíblica.

CPC Comissão Pontifícia para a Cultura.

CTI Comissão Teológica Internacional.

DDB Descleé De Brouwer (Editorial).

DS Denzinger – Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum, definitionum et declarationum de rebus fidei et forum, Ed. Herder, Barcelona 1965.

EAAT Ecumenical Association of African Theologians (Associação Ecuménica de Teólogos Africanos).

EATWOT Ecumenical Association of Third World Theologians (Associação Ecuménica dos Teólogos do Terceiro Mundo).

Filos. Filosófico.

IEM Instituto Emmanuel Mounier.

IEME Instituto Espanhol de Missões Estrangeiras.

IMBISA Inter-regional Meeting of Bishops of Southern Africa (Conferência Interregional dos Bispos de África Austral).

IMC Instituto Missionário da Consolata.

ISP Instituto Superior de Pastoral (Madrid).

M. Afr. Missionários de África (Padres Brancos).

MEC Ministério de Educação e Cultura.

PIDE Polícia Internacional e de Defesa do Estado (foi a polícia secreta do Estado Novo em Portugal, liderado durante sua maior parte por António de Oliveira Salazar).

PPC Promoción Popular Cristiana (Promoção Popular Cristã).

SACP Secretariado Arquidiocesano de Coordenação Pastoral – Beira.

SECAM Symposium of Episcopal Conferences of Africa and Madagascar (Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar), fundado a 1/8/1969 em Kampala - Uganda.

SEDIPU Secretariado Diocesano de Pastoral – Uíje.

UCM Universidade Católica de Moçambique.

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.


INTRODUÇÃO GERAL


A presente dissertação propõe-se a analisar a trajetória histórica da «presença» do Evangelho nas culturas africanas e do «encontro» entre o Cristianismo e a religião tradicional africana bantu, que durante muito tempo experimentam certas dificuldades de se familiarizarem, isto porque, no passado, os missionários ocidentais impuseram a cultura europeia e menosprezaram as culturas africanas5. Na realidade, do ponto de vista teológico-pastoral, sabe-se que o processo da evangelização tem como «objecto» anunciar a Cristo e, através d’Ele, fazer que a vida dos povos seja mais humana, conforme o projecto de Deus. Obviamente, isto supõe um «encontro directo» com as pessoas bem localizadas nos seus contextos socioculturais.

Não obstante, se verifica que na África Negra ou Subsahariana, a religião é considerada como o «piloto da vida africana», que acompanha a cada pessoa desde o nascimento até à morte e, consequentemente, dá sentido a todas as actividades públicas ou privadas. Desta forma, admite-se que a vida do homem negro-africano está enraizada no «tecido religioso», isto porque a religião impregna profundamente todos os comportamentos da vida quotidiana do homem negro-africano, de tal forma que não é normal encontrar um negro-africano sem religião. Neste contexto, obviamente, «não ter religião» equivale e supõe para a mesma pessoa uma «auto-exclusão» da comunidade humana.

No entanto, a história da evangelização católica em África Negra em geral e em Moçambique em particular nos mostra, que as relações e as mútuas repercussões entre o «Evangelho e as culturas africanas», entre o Cristianismo e as religiões tradicionais africanas, têm constituido, durante muitos séculos, um tema difícil e um problema constante devido a falta de «compreensão» ou de «síntese» das duas entidades: fé e cultura. Em outras palavras, podemos dizer que essa realidade histórica de evangelização católica em África, é reflexo de falta de um diálogo intercultural e inter-religioso, visto que a «evangelização missionária» não respondeu às particularidades e às pluralidades culturais dos negro-africanos (moçambicanos); não acolheu pastoral e teologicamente a religião tradicional africana presente em cada cultura com a que entrava em relação.

Por conseguinte, se tem verificado, que durante a época colonial, a evangelização missionária em Moçambique, e quase em todo o continente africano, não considerou a cultura africana como «lugar teológico»; não reconheceu a religião tradicional africana banta como «resposta» à multiforme e universal revelação de Deus; não via nela como um «ponto de encontro» dos caminhos da divindade para as culturas africanas e destas para a divindade. Nesta perspectiva e de uma maneira descriptiva e crítica, podíamos afirmar que essa primeira evangelização missionária de então não considerou a «religião» como a conversação da pessoa humana individual ou colectiva com seu Deus, senão como um «código de moral» que não poucas vezes o Cristianismo era considerado como uma «religião de brancos» e um sistema de civilização ocidental6.

Na verdade, estas duas entidades: fé e cultura, constituem realidades distintas que possuem, cada uma, sua própria identidade, mas são ao mesmo tempo realidades vivas que incidem sobre as pessoas que vivem num contexto bem definido e concreto. Com efeito, a necessidade por uma evangelização inculturada em Moçambique e em todo o continente africano, constitui uma «prioridade e uma urgência pastoral» para as Igrejas locais africanas, como foi manifestado pelos Padres sinodais do I Sínodo africano (1994) e secundado pelo papa João Paulo II na exortação apostólica pós-sinodal «Ecclesia in Africa», ao salientar:

O Sínodo considera a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares, para a real radicação do Evangelho em África, «uma exigência da evangelização», «uma caminhada rumo a uma plena evangelização», um dos maiores desafios para a Igreja no continente ao avizinhar-se do terceiro milénio”7.

Por falta de uma síntese entre fé cristã e cultura africana e, sobretudo, por falta de un conhecimento profundo das culturas africanas e das religiões tradicionais africanas, obviamente, não poucas vezes que os teólogos ocidentais têm julgado com desdém e preconceito, por ignorância, o vitalismo religioso africano. Aliás, o regime colonial havia renegado à África sua própria civilização, apelidando as suas tradições e crenças religiosas de bárbaras. Por sua vez, os missionários rejeitaram em bloco os valores culturais dos africanos; expugnaram aos fiéis «indígenas» de suas próprias «casas culturais» ao considera-los como pagãos e pecaminosos, por simples ignorância e falta de honestidade, justiça e caridade pastoral. Em definitiva, a teologia missionária de então havia apelidado às religiões tradicionais africanas de supertições diabólicas8. Efectivamente, com este tipo de preconceitos e teologias “pessimistas” tão pouco podiam esforçar-se em desenvolver um autêntico Cristianismo africano, como era desejado.

Perante esta mentalidade «colonizadora» da teologia missionária, alheia ao Espírito Santo e ao espírito pastoral de Jesus Cristo «o Evangelho por excelência» (cf. Act 10, 15; Mc 9, 38-40; Lc 9, 49-50), constitui, hoje, para muitos cristãos e teólogos negro-africanos a grande preocupação de «como» construir e consolidar a Igreja diocesana de Chimoio9, a Igreja local de Moçambique e a de África em geral. Com efeito, eu como «filho autóctone» desta Igreja local, sinto o «dever moral-espiritaul» e, sobretudo, «teológico-pastoral» de dar a minha contribuição «cristã teológico-científica» ao patrimônio cultural e teológico, às Igrejas locais africanas, para a emergência do desenvolvimento pleno do Cristianismo na África Subsahariana, Moçambique em particular.

Foi nesta perspectiva que, responsavelmente, escolhí o presente tema em epígrafe devido à necessidade de fazer conhecer melhor a paradoxal relação dialogal entre a fé e a cultura africana bantu e entre o Cristianismo e a religião tradicional africana bantu, consciente de que estas duas entidades (fé e cultura africana bantu) e estas duas religiões (a cristã e a tradicional africana bantu), efectivamente, deviam ser consideradas como «homogêneas» e «insepraráveis», por serem tão comuns na sociedade africana subsahariana, como veremos ao longo da presente dissertação.

Assim, sinto-me motivado e «obrigado» a «pensar de uma forma nova e problematizante» sobre as relações entre religião (fé) e cultura, entre herança tradicional nativa e legado civilizacional colonial ocidental, buscando critérios eficazes que podem ajudar, teológica e pastoralmente, aos demais agentes de pastoral e aos cristãos africanos em geral, a se despertarem de todos aqueles valores que estão a fazer falta na nossa sociedade e na nossa Igreja. Incumbe-me, porém, a tarefa de fazer (re)conhecer os valores culturais e religiosos autênticos, que estão presentes na sociedade africana bantu, que dinamizam a vida do negro-africano bantu desde o nascimento até à morte ou depois da morte, a se tornarem como «chave» para uma evangelização autêntica em África Subsahariana.



Entretanto, antes do desenvolvimento do tema em epígrafe: «A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelização em Moçambique», devemos ser conscientes de que estamos perante um tema bastante amplo, como é o próprio continente africano, que é grande e alberga povos e tradições de muitas culturas. Por isso, me limitarei a uma cultura de um povo concreto: «a cultura do povo Bantu». Reconheço, ainda, que não é possível aprofundar num trabalho como este, sequer os fundamentos desta cultura bantu, quanto mais África como um todo. Por isso procurei restringir-me a um lugar geográfico concreto: Moçambique.
  1. Motivação do tema

A presente investigação, com o tema em epígrafe, quer constituir como instrumento para aprofundar cada vez mais sobre o processo conductor da evangelização inculturada da Igreja local que está em Moçambique e da Igreja universal, procurando responder seus desafios pastorais actuais, pois todos estamos conscientes de que para que haja uma fecunda evangelização em Moçambique, e em toda parte do mundo, será necessário, como «conditio sine qua non», uma toma de consciência e uma aceitação de uma influência recíproca e de uma interacção entre fé e cultura, sem alienação, visto que a cultura influi na religião e a religião influi na cultura, reciprocamente. Assim, são três as razões que estão patentes na elaboração desta tese:

1. A primeira razão consiste em trazer à luz do dia os fundamentos e valores da cultura tradicional africana bantu e sublinhar os elementos constitutivos de sua religião tradicional, procurando estabelecer um «novo encontro» dos cristãos negrp-africanos com a sua herança cultural. Com isto, pretendo analisar, demonstrar e dar o sentido pleno da cultura africana bantu como «lugar teológico» e à religião tradicional africana bantu como «uma preparação ao Evangelho»10. Na verdade, com esta dissertação pretendo suscitar a fé cristã em Moçambique e em África em geral, para um autêntico Cristianismo e uma Igreja realmente africana, guiada pelo Espírito do Senhor, para alcançar uma verdadeira igualdade de povos e culturas diante de Deus Pai (cf. Act 10, 34-36).

2. A segunda razão prende-se, sobretudo, com a teologia do Concílio Vaticano II, que supõe uma mudança de orientação na relação entre «Igreja e mundo»; com as preocupações que foram manifestadas pelos Padres sinodais africanos durante o IV Sínodo dos Bispos (1974) que tratou sobre «Evangelização no mundo contemporâneo»; com as propostas pastorais que foram definidas durante o I Sínodo Africano (10/4-08/5/1994) e durante o II Sínodo Africano (04-25/10/2009), onde os Padres sinodais reconheceram os valores essenciais presentes nas culturas africanas e propuseram uma qualificada e completa investigação científica das culturas e da religião tradicional africana11. Na verdade, torna-se urgente e prioritário hoje, pastoralmente falando, que os elementos da religião tradicional africana bantu sejam investigados antropológica e teologicamente e sejam escrutados minuciosamente, transformando-os em «conteúdos teológicos» para que sejam encaixados na órbita da fé cristã, porque «a religião tradicional africana bantu» constitui a herança religiosa dos cristãos africanos; um fruto da intervenção do Espírito de Deus e sua «sabedoria» nos «profetas» e «sábios» africanos antepassados.

3. A outra razão, finalmente, é o que me parece pessoalmente à luz do Evangelho, consiste em impedir que a «unidade cristã» seja confundida com a «uniformidade», pois a labor da «inculturação do Evangelho» em um determinado contexto sociocultural constitui um serviço pastoral para a verdadeira unidade cristã, ou seja, para a «catolicidade» e «plenitude da Igreja», visto que a Igreja é o «ícone» e o «instrumento de salvação» para todos os homens, porque “Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade” (1 Tim 2, 4). Em suma, com a presente dissertação quero analisar, teológica e sistematicamente, o encontro do Cristianismo com a visão africana do mundo actual, fazendo finca-pé daquilo que o Concílio Vaticano II nos ensina na sua constituição sobre a Sagrada liturgia, ao dizer:

Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos” (SC, 37).

E, mais adiante, o mesmo Concílio explicita no decreto sobre as Igrejas orientais, dizendo:

Pois esta é a intenção da Igreja católica: que permaneçam salvas e íntegras as tradições de cada igreja particular ou rito. E ela mesma quer igualmente adaptar a sua forma de vida às várias necessidades dos tempos e lugares” (OE, 2).

Portanto, à luz do Concílio Vaticano II tenciono, com a presente dissertação, fazer com que a incarnação do Evangelho na cultura africana bantu, o que designamos técnica e teologicamente por «inculturação», seja entendida como a «prioridade das prioridades pastorais» em Moçambique e em toda África Subsahariana, a fim de «eliminar as lacunas» existentes entre as estruturas socio-políticas e religioso-eclesiais que, outrora, a colonização e a evangelização impuseram, na sociedade africana bantu, umas formas de organização da sociedade totalmente diferente das estruturas sociais tradicionais.

  1. Objectivos em vista

Uwo usikaziwi chaanopswaka, chaanobhodza haachiziwi” (Quem não sabe o que procura, não entende o que encontra).

Esse provérbio do povo Tewe12 nos ajuda a definir e a sermos mais objectivos, para melhor entender o que vamos a encontrar ao longo da nossa dissertação. Não obstante, a intenção dominante da presente tese não é só um assunto de demagogia para demonstrar as capacidades acadêmicas e muito menos de fazer um exercício acadêmico-filosófico-apologético, mas de honestidade perante Deus e um serviço pastoral para a minha Igreja local de Moçambique, ou melhor, de nos colocar na praxis pastoral ao serviço da Igreja que está em Moçambique, visto que a teologia se faz reflexionando à luz da Palavra de Deus a partir das experiências vividas num determinado contexto sociocultural13. Então, com o presente estudo pretendo analisar aquilo que foi o «encontro histórico» entre o Cristianismo e as crenças religiosas africanas bantu, a partir de realidade cultural bantu em Moçambique, a fim de compreender, desde dentro, os êxitos e os fracassos deste encontro. Espero fundamentalmente alcançar os seguintes objectivos:

1. Responder aquela pergunta «desafiante» do Nazareno: E vós quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15; Mc 8, 29; Lc 9, 20). Com essa pergunta, efectivamente, Jesus Cristo espera da resposta própria dos africanos bantu, não somente em línguas africanas, mas sobretudo na «linguagem africana bantu»; uma resposta que reflecte a vida destes povos africanos. Por conseguinte, é evidente que com a mesma pergunta, Jesus Cristo nos exige, a nós cristãos africanos bantu hoje, a um conhecimento cada vez mais profundo do Evangelho e um conhecimento não menos profundo da nossa própria cultura, em vista a edificar o Cristianismo africano no seio do povo Bantu.

2. Responder a questão de «como» os cristãos moçambicanos seguirão sendo cristãos sem se «alienarem» e sem «renegarem» da sua própria identidade africana, ou melhor, como os cristãos bantu viverão, sem traumas, a fé e a cultura em seu contexto quotidiano? Com esta pretensão, creio, ajudará e capacitará a tantos cristãos a saberem estabelecer o diálogo mútuo e honesto entre a cultura e o Evangelho e entre o Cristianismo com a religião tradicional africana bantu, sem cair na tentação de uma simples comparação entre as realidades vitais e das duas religiões, respectivamente.

Deste modo, a presente tese constitui «uma consciência teológico-pastoral», ou melhor, uma «consciência pastoral e uma reflexão teológica» para a consolidação do Cristianismo em Moçambique, conscientes de que “a religiosidade é patrimônio de todas as raças e de todas as culturas14. Obviamente, a Igreja não poderá realizar-se e constituir-se em África e em Moçambique em particular, como «Igreja local» se não assume os autênticos valores da cultura africana bantu15. No entanto, pretendo ajudar aos demais cristãos moçambicanos a saberem distinguir entre o essencial e o contingente; entre o bem e o mal que há em suas culturas e tradições religiosas, para evitar o «sincretismo» e as «ambigueidades», consciente de que todo o homem concreto e historicamente situado é caracterizado e definido por sua cultura. E, além disso, sabendo que toda cultura é, por sua natureza, dinâmica e não estática, se reconhece também que no mundo africano a atitude religiosa está profundamente enraizada e socializada a todos os níveis da vida humana.

3. Contribuir, teologicamente, para a possível «re-descoberta» da cultura africana e seus valores essenciais, compatíveis com o Evangelho (Jesus Cristo), mostrando e sublinhando a contribuição ou o impacto que possui a religião tradicional africana bantu na propagação do anúncio do Evangelho em Moçambique e em toda África Subsahariana. Quer, ainda, constituir uma contribuição na cientificidade da «Teologia Africana» e concretamente na área lusófona, razão pela qual a presente tese está redactada em português.

4. Apresentar propostas pastorais para a Igreja local de Moçambique e às demais Igrejas locais, que todavia clamam por um novo método da evangelização, a fim de permitir uma possível e fecunda relação entre a revelação cristã e as religiões não cristãs, especialmente a religião tradicional africana bantu, para que a fé dos cristãos bantu esteja enraizada no Evangelho e na cultura sem nenhuma ruptura, com desejo de formar cristãos maduros na fé e, ao mesmo tempo, assumindo os aspectos positivos, que estão na cultura e na religião tradicional africana bantu, mostrando a necessidade pastoral da inculturação como um desafio, uma proposta, uma prioridade e uma urgência pastoral para a Igreja local de Moçambique e de todo o continente africano, sublinhando aquelas considerações, que foram manifestadas pelos Padres sinodais do I Sínodo Africano de 1994.

Com efeito, a preocupação fundamental neste arduoso trabalho será a de pensar de uma forma nova e problematizante as relações entre a religião e a cultura, entre herança tradicional nativa e legado civilizacional ocidental, entre Cristianismo e religião tradicional africana bantu e, finalmente, entre cultura e o Evangelho. Quero assim, com a presente dissertação, estabelecer «ponte de comunhão evangelizadora» que nos permita «reconstruir» a Igreja do continente africano na lógica da «Nova Evangelização». Por isso, não tenho interesse em aprofundar as rupturas. Quero, sim, buscar meios de conciliação e de reconciliação entre «a fé e a cultura»; entre «o Cristianismo e a religião tradicional africana bantu»; entre «a tradição e a modernidade», etc., ajudando o povo Bantu a ser capaz de oferecer a Deus os seus nobres valores culturais e as suas autênticas tradições religiosas. Esta preocupação vai constituir, efectivamente, o desafio pastotal na tentativa de trazer à luz os valores essenciais do nosso povo Bantu.



Portanto, a presente tese constitui a resposta do clamor dos cristãos africanos e a concretização dos ideais nobres do Concílio Vaticano II e das subsequentes orientações teológico-pastorais emanadas no Magistério da Igreja universal, africana e moçambicana. Enfim, o objectivo fundamental da presente dissertação teológico-pastoral será precisamente: procurar responder ao «grito do homem bantu». Conseguindo este objectivo, servirá como uma contribuição para o desenvolvimento da «Teologia Africana», que, obviamente, influenciará ou impulsionará o desenvolvimento do Cristianismo africano autêntico; reflectir sobre o «como» ajudar a estabelecer uma relação entre fé e vida dos cristãos africanos em Moçambique; «como» conseguir formar cristãos maduros na fé e enraizados em seus valores culturais; «como» entender a religião tradicional africana bantu como «um caminho de salvação», segundo as directrizes da doutrina pastoral do Concílio Vaticano II, que reconhece a existência de «outras religiões» no mundo e sustenta que elas procuram, de vários modos, ir ao encontro das inquietudes humanas, propondo caminhos, isto é, doutrinas e normas de boa conducta, que em certas ocasiões são veiculadas por alguns ritos sagrados (cf. NA, 2).
  1. Método utilizado

O termo «Método», provém do grego meta: junto à, ao lado de; odos: caminho, meio. Etimologicamente, significa o «caminho» utilizado para chegar a uma determinada meta ou conseguir alcançar um certo objectivo. Por conseguinte, considerando a perspectiva multicultural e plurireligiosa que se vive em Moçambique e em África em geral, e tendo em conta que “a identidade de um indivíduo, é em função à identidade do seu povo16, então, devo deixar claro, que o método a utilizar nesta dissertação será o Método Pastoral, que consiste em Ver a realidade com os “olhos da fé”; Julgar a mesma realidade com a iluminação da Palavra de Deus; e, finalmente, Actuar teológica e pastoralmente. À luz deste método “pastoral”, vou a utilizar dois instrumentos auxiliares: por um lado utilizo o método «antropológico pastoral»; e por outro, sigo aquilo que o pedagogo brasileiro Paulo Freire chama de «círculo da práxis pastoral»17, em vista de uma evangelização inculturada.

  • Método antropológico pastoral: este método corresponde à parte de análise histórico-descritiva da sociedade africana bantu e as constatações dos valores culturais subjacentes no território moçambicano actual, sinalando sua capacidade ou possibilidade de abertura à plenitude com o Evangelho. Para dizer que será uma reflexão sistemática sobre a «religiosidade na cultura tradicional africana bantu», assunto que será o epicentro da primeira parte da presente dissertação.

  • Método de círculo da práxis pastoral: este método consistirá em uma análise sistemática da realidade e um estudo aprofundado sobre o impacto do Evangelho na cultura do povo Bantu, como forma de apoiar as perspectivas de acção evangelizadora coerente para o presente e o futuro do Cristianismo em Moçambique, no continente africano e no mundo em geral.

Como pode ver-se, em síntese, a referida tese seguirá o método que a teologia pastoral nos propõe, consistindo em ver a realidade sócio-cultural e eclesial moçambicana com os “olhos da fé”; julgar a mesma realidade com a iluminação da Palavra de Deus; e, finalmente, actuar teológica e pastoralmente, para que os demais cristãos descubram o verdadeiro caminho que lhes permita estabelecer uma relação íntima e eficaz entre fé cristã e cultura africana bantu. Em outras palavras, posso salientar que a presente tese consistirá em ver a realidade com o espírito divino, questioná-la e reflexioná-la sistematicamente à luz da experiência vivida e, por último, projectá-la para o futuro, ou melhor, «fazer teologia desde o aquí e agora» do que está passando em nosso contexto, assumindo com responsabilidade a doutrina do Concílio Vaticano II para saber ler os sinais dos tempos (cf. GS, 4).

Por isso, quanto aos destinatários da presente tese serão todos os homens e mulheres de espírito pastoral, mas preferentemente os agentes de pastoral que directa ou indirectamente lutam por uma Igreja local mais africana e plenamente cristã católica; ou melhor, os que têm a intenção e preocupação de desenvolver o Cristianismo verdadeiro e inculturado em Moçambique e em todo o continente africano, pois ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, todos nos libertamos juntos lutando pelo inimigo comum em solidariedade18.


  1. Itinerário

Como estará estruturada a presente dissertação? Para alcançar os objectivos pretendidos, a presente dissertação estará composta por sete capítulos, agrupados em duas partes, de acordo com os conteúdos e as coordenadas do trabalho que o fundamentarão.

Primeira parte: A COSMOVISÃO AFRO-CRISTÃ SOBRE A RELIGIÃO NA CULTURA TRADICIONAL BANTU. Compreenderá três capítulos. Esta parte vai constituir o «contexto» da nossa tese: «a religiosidade do povo Bantu de Moçambique». Procurarei aproximar-me mais à realidade sociocultural e histórico-eclesial, que ao longo dos séculos da colonização e da evangelização em África, configurou o actual cenário da Igreja local de Moçambique. Assim, tratarei num primeiro momento a cultura tradicional africana bantu como forma de estar no mundo. Em seguida, abordarei o estudo da religião tradicional africana bantu e, por último, apresentarei todo o processo da evangelização em Moçambique. Entretanto, nesta primeira parte procurarei justificar que, efectivamente, os bantu têm sua própria filosofia, sua própria cosmovisão referente ao sentido da vida, da morte e do mais além.

Segunda parte: A LUTA POR UMA IGREJA LOCAL MAIS AFRICANA E PLENAMENTE CRISTÃ. Será a mais ampla, relativamente, e compreenderá quatro capítulos. Constituirá a fundamentação e proposta final da pretendida reflexão teológico-pastoral. Num primeiro momento analisarei o fenómeno das Igrejas Independentes Africanas. Por conseguinte, o conteúdo do referido capítulo IV não constitui «objecto» da presente reflexão, em si mesma. Porém, constitui um assunto que exige uma reflexão especial pelo facto deste fenómeno ser um «signo profético»; um indicativo de quanto é necessária e urgente a «inculturação do Evangelho» em África. No entanto, darei a conhecer as consequências da repercussão que o fenómeno das Igrejas Independentes Africanas está a causar na luta por uma Igreja local com rostro africano, como veremos.

Posta em evidência a preocupação de edificar uma Igreja local com matiz africano, será necessário, obviamente, tratar sobre a inculturação do Evangelho como exigência pastoral para o Cristianismo em Moçambique. Seguindo o plano de fundamentação e reflexão da questão em causa, analisarei depois a emergência da Teologia Africana para o Cristianismo em África, que será o conteúdo do capítulo VI. Por último, no capítulo VII, apresentarei as perspectivas para o futuro da evangelização e do Cristianismo em Moçambique, propondo certas directrizes pastorais para uma relação «fecunda» entre a fé cristã e a cultura bantu na vida dos cristãos africanos em Moçambique.


  1. As fontes utilizadas

Para a materialização deste arduoso trabalho, foi preciso recorrer às distintas Bibliotecas: dos Missionários Combonianos (Madrid), dos Missionários de África “Padres Brancos”(Madrid), do ISP, da UCM (Chimoio), de ARPAC (Chimoio), e outras. Deste modo, consultei várias fontes literárias e orais que, obviamente, mereceram uma atenção apreciada. Das fontes literárias, foi obrigatório, pastoralmente falando, consultar a Sagrada Escritura, vários documentos do Magistério da Igreja, as obras de A. Langa, J. Mbiti, J. Baur e as obras de tantos outros autores africanos e não africanos, clássicos e contemporâneos; autores que têm estudado, do ponto de vista antropológico ou sociológico, histórico, teológico, bíblico, etc., a problemática pastoral da evangelização em África. Foi preciso, ainda, consultar vários dicionários. Foi também preciso, convenientemente, consultar as fontes orais, para melhor compreender “a teologia e a filosofia popular” manifestadas através dos contos, dos provérbios, dos mitos, do senso comum ou dizeres populares, etc., graças às entrevistas que foram efectuadas em vários sectores sociais em Manica – Moçambique, durante o período da investigação científica, nos anos 1995 à 1996 e no ano 201119.

Para além destas fontes, contarei com alguma experiência pessoal, adquirida ao longo da minha vida pastoral em vários lugares. Uma particular atenção me merecem as interpelações vindas do ambiente em que decorre esta minha reflexão teológico-pastoral: o Instituto Superior de Teologia Pastoral, em Madrid. Trata-se de um centro acadêmico internacional, pertencente à Universidade Pontifícia de Salamanca, que ensina a «saber ler os sinais dos tempos» e a «saber interpretar a linguagem de Deus» para o Homem actual.

Como se pode compreender deste itinerário, evidentemente, não se trata de uma questão puramente teórica, senão de tocar questões essenciais da vida africana bantu, analisada a partir do «húmus africano bantu», sobretudo na dimensão religiosa. Espero, portanto, que esta presente dissertação venha a contribuir massivamente para a compreensão dos cristãos bantu, na sua cultura e na sua religião, em Moçambique e em toda África Subsahariana, em prol de uma eficaz evangelização. Com efeito, eu como membro do povo Bantu e como discípulo de Jesus Cristo, me sinto preocupado tanto pelo futuro do homem africano como pelo futuro do Cristianismo em África e, sobretudo, em Moçambique.

No entanto, dou-me conta de que como ser humano que sou histórico e socialmente culturalizado, justamente, reconheço as minhas limitações de não poder atingir todos os objectivos esperados e de responder às demandas e preocupações dos cristãos africanos. Porém, prometo fazê-lo futuramente, visto que esta presente dissertação constitui um processo ou um caminho começado e não um fim. Por isso, prometo dar continuidade à investigação dos temas relacionados com o propósito da inculturação que, na sua realidade, não constitui uma «evangelização-acto», senão uma «evangelização-processo», que vai exigindo novos critérios de aproximação entre fé e vida das pessoas concretas.

Contudo, neste presente extracto reproduzimos integralmente o primeiro capítulo da tese, intitulado: “Cultura tradicional africana bantu como forma de estar no mundo”, por constituir o fundamento para compreender o povo Bantu e a sua religiosidade. Finalmente, incluimos a Conclusão geral, a Bibliografia e o Índice geral da tese.

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