A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelizaçÃo em moçambique



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CULTURA TRADICIONAL AFRICANA BANTU

COMO FORMA DE ESTAR NO MUNDO


Por sua cultura um povo morre, se mantém na penumbra durante séculos ou renasce. E é em definitiva por sua cultura, isto é, por sua interpretação do mundo como um povo se apresenta o problema do desenvolvimento e da salvação”20.

INTRODUÇÃO


Para uma efectiva evangelização contemporânea na África Negra Subsahariana, como prioridade, há necessidade de entender melhor a cultura e a filosofia bantu, para depois gravar o Evangelho na alma da gente. Essa exigência nos leva a formular duas perguntas pertinentes: Quais são os desafios que a cultura africana bantu apresenta à evangelização? Quais são os desafios que o Evangelho, hoje, coloca à cultura africana bantu?

Para responder a estas perguntas vamos primeiro reflectir sobre o povo Bantu para em seguida abordar o conceito de cultura em geral e da cultura africana bantu em particular, conscientes de que todo processo de encarnação do Evangelho requere uma profunda compreensão do contexto religioso e cultural dos povos a evangelizar. É isso que vamos tratar ao longo de toda esta dissertação.

Na verdade, a boa compreensão do conceito de cultura nos ajudará a perceber melhor o processo conductor da evangelização e, sobretudo, da inculturação da fé nos distintos povos, visto que o factor cultura se impõe como o primeiro pressuposto de toda a vida colectiva humana e se converte no dinamismo fundamental que condiciona toda forma de vida social, económica, política, religiosa, etc. Nos revela, ainda, os traços característicos e os signos distintivos e importantes de uma comunidade humana: sua mentalidade, seu estilo de vida, sua maneira própria de humanizar o meio ambiente, etc.

Se constata e se entende ainda que, na realidade, os homens olham sempre o mundo com «olhos culturais» e tratam-no com «instrumentos culturais». Aliás, os homens fazem da cultura o padrão para uma boa leitura do universo e do projecto de vida.


    1. APROXIMAÇÃO HISTÓRICA AO POVO BANTU


Para atingir os objectivos da presente dissertação, necessitamos aprofundar a cultura deste povo: o povo Bantu, porque a grande maioria dos vinte e um milhões (21.669.278)21 de habitantes que formam a população moçambicana são de origem bantu.

Os vários estudos já realizados sobre o povo Bantu, mostram que o termo «Bantu» aplica-se a uma «civilização» que manteve a sua unidade ou sua herança cultural e que foi desenvolvida por povos de raça negra. Mas nunca se deve confundir ou referir a uma unidade racial. O radical «ntu», comum para a maioria das línguas bantu, significa homem, pessoa, ser humano, e o prefixo «ba» forma o plural da palabra «muntu» (homem, pessoa, personalidade inalienável). Assim, bantu é o plural de «muntu». Portanto, «bantu» significa: seres humanos, homens, pessoas, povos, gente22.

A origem do povo Bantu, até hoje, continua sendo um tema para a investigação, pois ninguém sabe exatamente sua origem. Os etnólogos têm aquí, à sua disposição, um campo ainda por investigar. Levantam-se, contudo, as mais variadas hipóteses sobre o assunto. Assim, muitos autores admitem a hipóteses de que o povo Bantu já existia há cerca de 5000 anos a. C. na região entre os rios Ubangui e Chari, na África Ocidental, a região que é actualmente ocupada pelos Camarões e pela Nigéria (noroeste e sudoeste, respectivamente). A melhoria da produção, principalmente agrícola, provocou, entre os bantu, o aumento da população, obrigando-os a procurarem novas terras. Assim, os bantu dividiram-se em dois movimentos diferentes: para o Sul e para o Leste, sobretudo no planalto do Katanga e na região dos Grandes Lagos, criando assim a maior migração jamais vista em África. Muitos autores, ainda, julgam que os bantu provêm de uma extraordinária explosão demográfica que se deu nas mesetas do Ubangui, Nigéria e se formaram nos planaltos, ao norte dos Camarões23.

Com efeito, o povo Bantu constitui, nos nossos tempos, um terço da população negro-africana. Geograficamente, o grande grupo bantu localiza-se ao sul de uma linha imaginária paralela ao Equador. A fronteira Norte pode começar nas montanhas dos Camarões ou na foz do Níger, na margem da costa atlântica, até ao sul da Etiópia, incluindo a República Centro Africana e Sul de Sudão. A partir desta fronteira Norte, toda África Negra até ao Cabo (África do Sul), e de Oeste a Leste do Atlântico ao Índico, é considerada «África bantu ou Subsahariana»24. Aliás, actualmente os bantu vivem nos seguintes paises indenpendentes: Gabão, Congo (Brazavile), República Democrática do Congo (Kinshasa), Quénia, Uganda, Rwanda, Burundi, Angola, Zâmbia, Zimbabwe, Tanzânia, Malawi, Moçambique, África do Sul, Lesotho, Swazilândia e outros.

Depois de muitos séculos de movimentação, cruzamentos, guerras e doenças, os bantu mantiveram as raízes da sua origem comum. Assim, os dialectos bantu têm uma semelhança que só pode ser justificada por uma mesma origem comum. Suas palavras terminam quase sempre em vogal, por exemplo: kufunda (estudar, aprender), kunamata (rezar), ñganga (curandeiro), murendje (perna), nguruwe (porco), Mwari (Deus), murói (feiticeiro), mambo (rei), dziso (olho), hondo (guerra, luta armada), muntu (homem, pessoa), mukuru (maior, grande), mbeu (semente), etc. O plural das palavras forma-se logo na primeira sílaba, exemplo: miti (árvores), mapuwe (pedras), bantu (homens, pessoas), masoko (novidades)25, etc.

Os povos bantu, ainda, para além do semelhante nível linguístico, mantêm uma base de crenças, ritos e costumes muito similares. Constitui uma cultura com características idênticas e específicas que os torna semelhantes, mas agrupados, independentemente da identidade racial. Aspecto importante e caracteístico que não podemos ignorar dos bantu é a prática da religião tradicional africana, que aparece como constitutivo último e o fundamento mais nobre da cultura bantu, como veremos no segundo capítulo desta nossa dissertação.

O aspecto de comunalismo, que se manifesta no espírito de solidariedade, hospitalidade, comunhão, etc., constitui a suprema característica da cultura bantu. É a mais destacada por todos os intelectuais africanos, quando investigam os assuntos relacionados com este povo. Por conseguinte, esta suprema característica bantu, «comunalismo», surge como réplica da própria ontologia africana, como nos revela o sacerdote e teólogo anglicano de Quénia, J. Mbiti: “Eu sou porque nós somos, e visto que nós existimos eu sou26.

Outro aspecto característico é a tradição oral27, que serve de «veículo» de todo saber bantu. Sabe-se que a África Negra tradicional não possui a escrita, mas isto não lhe impede de conservar seu passado e que os seus conhecimentos e culturas sejam transmitidos e conhecidos por todos. Através da tradição oral, os bantu transmitem sua sabedoria a todos os membros do grupo. É um sistema que podemos chamar de «auto-interpretação», ou seja, contando histórias vividas aproxima-se a uma verdade ontológica. A história, para este povo, tem mais vivacidade e está mais presente no dia a dia, onde o presente se vive do passado. Ainda, na sociedade africana bantu a escrita não é o saber. A escrita é considerada como a «fotografia do saber». O saber é entendido como a «herança» de tudo aquilo que os antepassados conheceram e transmitiram vivamente às suas gerações28.

Em suma, é preciso sublinhar que o termo «Bantu» não se refere a uma unidade racial. Existem aproximadamente quinhentos povos bantu. Assim sendo, não podemos falar de uma raça bantu, mas sim de «povo Bantu». Ou melhor, falar dos bantu não é e nem significa, necessariamente, falar da raça negra, como tem sucedido frequentente, embora na sua maioria os bantu são negros. Falar dos bantu é falar dos modos de vida, dos sistemas de valores, dos costumes, das crenças, da organização, da mentalidade, etc., que caracterizam a um grupo social que vêm desde séculos e chegam até nós com mais ou menos vivência e intensidade. No entanto, falar dos bantu é falar da «civilização» de um certo povo africano que tem seu nome, sua identidade, sua cultura e sua história concreta.

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