A religião tradicional africana bantu e a sua repercussão na evangelizaçÃo em moçambique



Baixar 496.63 Kb.
Página6/12
Encontro19.07.2016
Tamanho496.63 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12

A COSMOVISÃO AFRICANA BANTU


A reflexão que apresentamos anteriormente sobre a «cultura» em geral e sobre «a cultura africana bantu» em particular, nos permite entender que o homem negro africano bantu, como qualquer outro homem ou povo, tem sua vida, sua religião, sua história e, obviamente, sua «filosofia» de como pensar, entender e interpretar a vida concreta e quotidiana. Também nos deu a entender que grande parte da atitude do negro africano bantu está concentrada em volta de um valor absoluto: «a força vital»86, visto que sua máxima aspiração é a «vida».

No entanto, uma análise pormenorizada da cosmovisão africana bantu é motivo para um trabalho de pesquisa que não cabe nesta dissertação e nem é seu objectivo. A nossa meta, aquí, é de ressaltar os elementos estruturais que nos permitem dizer que existia uma unidade cultural na África bantu antes da invasão europeia (séc. XV).

Assim, falar da cosmovisão africana bantu é falar do sentimento de colectivismo, o rítmo, a concepção sexual, a comunicação com a natureza, o culto dos antepassados, etc.; é falar da forma do homem africano bantu de ser e estar no mundo que para um ocidental, fora do contexto africano, será difícil entender, porque não possui a experiência anterior, de origem. Agora cabe-nos perguntar: Como é que o negro africano bantu se auto-compreende hoje? Que concepção do mundo ele tem? Como se situa no mundo? Que lugar ocupa Deus na sua cosmovisão? Como se relaciona com a natureza e com o Absoluto?

Antes de respondermos a essas interrogações, devemos ser conscientes de que os pensadores africanos (e não africanos) coincidem, na hora de apresentar as grandes linhas do pensamento negro africano, em constatar que uma mesma alma africana está latente em todos eles. E consideram, ainda, que apesar de existirem diferenças inegáveis, porém se reconhece cada vez mais uma cosmovisão cultural perceptível nas grandes linhas de sua concepção do homem, do mundo, da religião e de Deus87.

Mirando o homem africano bantu, na sua dimensão simbólica e real, podemos esquematizar, de acordo com o seu pensamento religioso88, «cinco mundos» distintos mas correlacionados, dado que o universo africano é «holístico», não há dicotomia de matéria e espírito, de sagrado e profano, de natural e sobrenatural, de comunidade e indivíduo, de sujeito e objecto e, em definitiva, não há distinção clara entre símbolo e realidade, entre dentro e fora89. Aliás, a representação africana do mundo é «antropocêntrica», isto é, o homem e o mundo são correlativos e complementários, chegando a considerar que o mundo sem o homem não tem sentido, e o homem não pode ser pensado sem seu vínculo corporal com o mundo90.

  1. O mundo de Deus

Na cosmovisão africana bantu, o mundo divino engloba a totalidade dos seres criados. E, através da influência religiosa, Deus é entendido como a Origem e o Sustentador de todas as coisa, o Ser Absoluto e Trascendente; a Força Vital Oculta que colocou seu espírito em todos os seres do universo91. Com estas categorias, Deus escapa a qualquer domínio dos demais seres do universo. Entretanto, a relação com o mundo divino constitui parte integrante de toda a vida e existência dos seres animados e inanimados.
  1. O mundo dos homens

Para desenvolver exaustivamente este tema, devemos ser conscientes de que o mundo negro africano bantu tradicional é um mundo unitário, onde os vivos e os mortos formam uma só comunidade de vida e de relação92. Assim, na óptica dos teólogos e dos demais pensadores africanos, o mundo dos homens tem dois aspectos: o mundo dos mortos e o dos vivos. Essa interpretação nos revela, efectivamente, que:

Depois da morte os humanos entram numa hierarquia de poder «dinâmico» superior ao de resto dos viventes93.

1. O mundo dos mortos. Na cosmovisão negro africana bantu, os mortos estão hierarquizados; há uns que são considerados «mortos viventes»94 e outros não. Em geral, os mortos pertencem a um modo de existência entre Deus e os homens, e outros seres criados. Ainda, por sua natureza, os mortos são menos poderosos que Deus, porém são mais poderosos que os homens vivos e os demais seres criados. Isto é, o mundo dos mortos goza, em certa forma, de uma superioridade que prevalece para além da morte.

2. O mundo dos homens vivos. Este mundo goza de uma certa superioridade em relação a outros mundos subsequentes: animal, vegetal e mineral, e exerce seu poderio sobre eles, salvo quando estes estão sob a acção dos mundos superiores (de Deus e dos mortos)95.

Por conseguinte, a relação e a comunhão destes dois mundos (dos mortos e dos vivos), é através do «chefe ou rei» tradicional que, gozando de sua autoridade moral-religiosa e de uma força vital que o situa na fronteira do visível e do invisível, é capaz de comunicar com os antepassados e com os espíritos96.

  1. O mundo animal

Este mundo caracteriza-se pelos seres que sentem e se movem por seu próprio impulso. Sua superioridade, em relação ao homem, está baseada na sua quantidade e, em certos casos, na força. Outros seres animados podem ser considerados «superiores» por possuirem «qualidades naturais» que lhes capacitam a tirar a vida ao homem, é o caso das cobras venenosas, dos mosquitos transmissores da malária e outros seres nocivos à vida humana. Diferencia-se do mundo vegetal por possuir a vontade, a capacidade de mover-se, etc.

Por sua vez, torna-se mais benéfico para o mundo dos homens na medida em que constitui a matéria (os animais) para o sacrifício tradicional, onde se imolam animais, com a finalidade de restaurar o equilíbrio da natureza, quando o homem experimenta desgraças97.


  1. O mundo vegetal

Este mundo possue a vida e por isso é considerado como superior em relação ao mundo mineral ou inorgânico. Também este mundo «vegetal» desempenha um papel preponderante na vida humana e religiosa tradicional, quando se constata que por baixo da copa de certas árvores, sendo considerados «lugares sagrados», se fazem orações e se oferecem sacrifícios tradicionais98.
  1. O mundo inorgânico

O mundo inorgânico constitui o inferior de todos os outros mundos já mencionados anteriormente. É um mundo completamente antitêtico a Deus que tudo pode e submete. Porém, os componentes desse mundo podem ser manipulados ou servir de «veículos» de vida ou de morte na vida humana. É o caso da trovoada, por exemplo, considerada como um objecto inorgânico mas possue uma energia dinâmica. A trovoada é considerada como «força oculta» que certos homens, espertos mágicamente, podem manipular a seu favor. É susceptível de ser utilizada pelo homem para fins obscuros. O mesmo sucede com a chuva e o vento considerados como componentes do mundo inorgânico sob o controle de Deus e dos mortos, mas alguns homens podem possuir o seu segredo e manipulá-los para o seu benefício ou em prejuizo de outrem99.

Examinando rigorosamente esta cosmovisão africana bantu, podemos resumir os «cinco mundos» em três: a) Mundo de Deus e dos antepassados; b) Mundo dos seres humanos; c) mundo da natureza, isto porque o negro africano bantu concebe o mundo como uma “rede de relações” entre o divino (os seres espirituais), a comunidade (os seres humanos) e a natureza (os seres animados e inanimados). É óbvio considerar todos estes mundos como “lugares teofânicos”, por constatar que o negro africano concebe o cosmos como portador de mensagens divinas, ou seja, há um pouco do divino em tudo o que existe. Aliás, alguns lugares como: montanhas, bosques, rios, etc., parecem privilegiados para a presença de Deus, dos antepassados e dos espíritos100. Por analogia, há que considerar que a actuação dos homens mortos é a mais actuante e efectiva, por possuir a potência de governar e controlar todos os mundos inferiores ao seu. Por conseguinte, “os mortos viventes” podem manifestar-se nos homens vivos, nos animais, nas árvores e nos seres inorgânicos101.

Com efeito, a concepção africana bantu do mundo pode ainda ser considerada, lógicamente, como “antropocêntrica”, não no sentido absolutista da filosofia ocidental que pensa que o ser humano é o centro do mundo e que ele pode tudo e pode fazer o que quiser. O “antropocentrismo africano bantu” é entendido na dimensão relativista. Isto quer dizer que o negro africano bantu sabe que nem tudo depende da sua vontade e capacidade. Reconhece ainda que a sua existência depende também da vontade dos ancestrais e de Deus. Na mesma perspectiva, no pensamento dos negro africanos, não existe a dualidade homem/natureza, porque tudo está interligado e que a força sagrada é eminente à natureza, ou seja, o uno é o todo e o todo é uno. Por sua vez, essa concepção negro africana nos faz entender, obviamente, que o ser do muntu constitui a recapitulação do mistério do mundo102. Aliás, o homem conhece-se a si mesmo enquanto estabelece relações com o mundo e mirando os fenômenos que o circunda. O homem bantu sente e pensa que só pode existir e desenvolver as suas próprias virtualidades, o seu original e próprio ser em união com Deus, com todos os outros membros espirituais, com todos os homens, com todos os outros seres do universo: animais, árvores, pedras, etc103. Dito de outra forma, o muntu existe quando é capaz de estabelecer a relação vertical e horizontal com todos os seres que povoam o cosmos.

Por conseguinte, na mesma óptica africana bantu, o valor da pessoa depende da participação no ciclo vital do universo, ordenado hierárquicamente (Deus, os espíritos, os mortos viventes, os homens e a natureza). Por isso se pode considerar o universo africano bantu como um «todo», sem dicotomia entre sagrado e profano, e aos negro africanos como eminentemente religiosos.

Esperemos, portanto, que a cosmovisão negro africana bantu seja, contemporaneamente, um suporte para a busca de alternativas reais ao processo de desenvolvimento e de evangelização em África Subsahariana. Que os elementos culturais e religiosos do povo Bantu não sejam vistos e considerados como experiências condenadas a habitar só no círculo desse contingente populacional, mas que essas experiências negro africanas bantu sejam, também, permitidas a habitarem fora das fronteiras da cultura bantu, para «africanizar»104 a outros sistemas socioculturais em qualquer parte do mundo.

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal