A religiosidade dos ludi na roma imperial ludmilla Savry Almeida



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A RELIGIOSIDADE DOS LUDI NA ROMA IMPERIAL
Ludmilla Savry Almeida

Universidade Severino Sombra

O Lúdico é uma atividade social, é o próprio conjunto de Sociedade exprimindo-se por meio de uma determinada perspectiva. Em certas sociedades, o lúdico se mostra capaz de reunir, de forma marcante, diversas esferas da vida do grupo, transformando-se num fato social total. Nos eventos lúdicos temos a oportunidade clara e concreta de observar um código visual totalizador da própria experiência humana. Eles apresentam um conjunto de relações específicas, incluindo regras, objetos, cenários, personagens, tempo e espaços próprios. Ocorre um processo de projeção, no qual várias sociedades acabam por se expressarem por atividades lúdicas características, onde se encontram moldado um conjunto de temas que lhe são essenciais. Os jogos que reúnem a sociedade como um todo são rituais – processos de simbolização que recombinam elementos do quotidiano. O culto é uma representação dramática, assim como uma figuração imaginária de uma realidade desejada. Na ocasião de grandes festividades, o grupo social celebra os acontecimentos principais de sua vida coletiva. As oportunidades cerimoniais são exemplos consensuais da efervescência coletiva ou de instâncias conflituais de mobilização.

Os espetáculos oficiais realizados em Roma durante o período imperial não eram manifestações inéditas para a sociedade. Denominados pelo termo genérico de ludi, eles existiam desde a época da Realeza. Inicialmente, eram realizados com ritos religiosos necessários para manter o bom relacionamento entre os deuses e a Cidade. Em sua maioria os eventos provinham da tradição etrusca, na qual danças e desfiles eram praticados em honra dos mortos. Partindo deste significado, certas celebrações terminaram por se adaptar ao ritual de algumas divindades, como os ludi Martiales, tendo inclusive data fixa no Calendário da Cidade.

Celebrados ao mesmo tempo diante dos deuses e dos homens, eles constituem em espaço cômodo de comunicação, no qual se inscreve formas particulares de relação dos homens com o mundo. Neles são colocados em cena um sistema ordenado de símbolos. De fato, os jogos representam uma forma constitutiva da religião romana tradicional utilizada muitas vezes com a finalidade de criar certa harmonia social indispensável sobretudo nos momentos de crise. É o caso dos ludi Apollinares, realizados em honra de Apolo, criados durante o período da Segunda Guerra Púnica. Já no Principado, após Augusto, mais divindades tiveram jogos anuais promovidos, como Hércules, Janos e Netuno. Os jogos, em quanto meio de transformação das relações entre o indivíduo ou grupo com o mundo, são inicialmente divertimentos que agem como catalizadores e criados de alegria, sendo esta expressão da paz dos deuses para com os homens. Os jogos agem, a cada momento de seu desenvolvimento, como uma maneira permanente de atualização de crenças.

O espaço sagrado dos jogos constituem um lugar privilegiado para a investigação, no qual podemos observar as ligações complexas da articulação entre as realidade simbólicas e religiosas e o funcionamento concreto das relações sociais. Os jogos sintetizam uma teologia da canalização na medida em que sua finalidade não é apenas exaltar o pertencer a uma comunidade social, política ou religiosa, mas também, assegurar sua continuidade.

Os jogos se encaixam no espírito de dialítica continuidade/renovação que funda a dinâmica religiosa do período. Perenizados sob a forma de jogos anuais, os ludi megalenses (de 04 a 10 de abril), os ludi cereales (de 12 a 18 de abril) e os ludi florales (de 28 de abril a 03 de maio) eram sem dúvida ritos agrários – realizados no início da primavera – primeiro estágio de um novo processo – destinados a obter garantias divinas de fertilidade da terra que levaria a boas colheitas ao final do ciclo.

O espaço de jogos se define também como um local de cerimonias religiosas, além dos espetáculos cênicos e circenses. Eram usuais as procissões solenes (pompa circense), os sacrificios aos deuses e as refeições sagradas (Epulum).

Concebido como um espaço mítico, o espaço cerimonial permanece, integrado à cidade, quando o corpo social se faz expectador. Nos jogos como nos rituais, e procissões em honra dos deuses, as diferenciações sociais são expressas na ocupação de lugares determinados. A multidão que assistia às celebrações ludicas apresentava-se especialmente dividida. Desde a Lei Roscia, as primeiras quatorze fileiras eram reservadas aos senadores. Esta disposição se perpetua e aperfeiçoa no Principado. Nero, por exemplo, forneceu aos cavaleiros lugares específicos a frente dos plebeus pois, até aquele momento, ambos estavam indistintamente confundidos entre si. Para a plebe estava destinada a grande parte restante do espaço.

A idéia de Roma e a necessidade de reproduções de sua dominação constituem a base de aproximação que pode criar as condições para uma confusão entre dois ciclos de cerimônias. Em Recherches sur les Jeux Séculaires, Jean Gagé tem como maior mérito o de conseguir destingui-los. O primeiro seria o dos jogos seculares – uma série canônica no Império definida por Augusto que restaurou em 17 a.C. uma tradição de eventos promovidos pelo oráculo de Cibele e organizados pelas quindecênviros em 348, 249 e 126 a.C.. Nesta série, realizavam-se espetáculos circenses e sacrifícios. É interessante ressaltar que esses eventos marcavam o fim de um século e a inauguração de um novo período. Contudo, a noção de século não apresentavam a precisão matemática atual. Existia um conceito ligado a fatos da natureza, outro fundamentado sobre cálculos humanos que possuíam medidas e pontos de referência distinto – e, ainda, um último, de caráter religioso, de concepção mais arbitrária e elástica. As comemorações de Augusto se dividiam entre sacrifícios cerimoniais e jogos oferecidos em seu nome. Com o triunfo do desenvolvimento do poder pessoal, o chefe tende à se identificar com a comunidade e se apresenta como garantia de integração. O segundo ciclo seria o dos ritos pelo Aniversário da divindade Roma, ou seja, o dos jogos de júbilo pela fundação da cidade. Os autênticos jogos seculares não apresentavam nenhuma ligação com tal fato histórico.

A partir desta diferenciação, os eventos promovidos por Cláudio, Domiciano, Antonino, Septínio Severo e Felipe foram analisados e classificados. As celebrações promovidas por Cláudio em 47 d.C. eram jogos de júbilo, segundo Aurélio Vitor (Livro dos Césares, XXVIII), já Zózimo (História Nova, II, 1, 7) os considerava como seculares. Tácito não lhes dispensou maior atenção. A dificuldade e a controvérsia quanto à natureza desta comemoração advem sobretudo de dois fatores. Cláudio refez os cálculos de Augusto por considerar que a tradição republicana tinha sido restaurada em momento equivocado. Além disso, não se cunharam moedas comemorativas da ocasião, o que poderia facilitar a identificação de seu cerimonial. Suetônio (Cláudio, XXI) argumenta que os eventos promovidos por Cláudio eram seculares, já que o seu cerimonial seguia sem o implantado por Augusto, apesar de não respeitar a datação estabelecida por ele.

No caso de Domiciano, Tácito (Anais, XI, 2) e Suetônio (Domiciano, IV) relatam espetáculos grandiosos, dentro da tradição das comemorações seculares. Entretanto, quanto ao cálculo da data de realização dos eventos, 88 d.C., ignorou-se a antecipação feita por Cláudio, para se resgatar o proposto por Augusto.

Em 117 d.C., o Imperador Adriano inaugurou uma tradição na qual os jogos de júbilo se estruturariam a partir de uma dupla comemoração anual: o natalis urbis convencional era agora celebrado juntamente com o natalis templi urbis. Tal fato se explicaria pela natureza da religião greco-romana, na qual o natalis de um templo era facilmente assimilado ao de sua divindade. Na cidade, esta equivalência foi particularmente concebível, já que a divindade Roma era possuidora de um nascimento histórico.

Os eventos promovidos por Antonino foram tratados por Aurélio Vitor (Liv. Cés. XV) como sendo realizados afim de comemorar os novecentos anos da cidade. A maioria das fontes textuais os ignorou. A datação de 147 d.C. poderia sugerir uma celebração relacionada com a de Cláudio, exatamente cem anos antes.

Contudo, segundo Gagé (p. 98) Antonio já se encontrava sob a influência da nova tradição criada por Adriano. A dupla comemoração do natalis urbis e do natalis templi urbis era realizada anualmente de forma regular. Antonino teria sido somente engrandecido a celebração daquele ano, especificamente para festejar os novecentos anos da fundação da urbis. Os espetáculos realizados por Septímio Severo em 204 d.C. são considerados como seculares, embora o texto não se detenha em sua análise.

Os jogos de Felipe em 248 d.C. tiveram a oportunidade única de comemorar os mil anos de Roma. Nenhuma das fontes que a eles se referem demonstra que os quindecênviros os tivessem dirigido, característica das celebrações seculares. O que se observa na ocasião é basicamente o emprego da mesma liturgia de Antonino, acrescida de alguns princípios ligados às celebrações seculares, ou seja, houve neste momento uma tentativa de firmar uma conciliação entre os dois ciclos distintos.

No que se refere à condenação por parte dos cristãos, aos espetáculos, podemos destacar a inexistência de reprovação explicita nos textos religiosos. Deus seria favorável ao divertimento humano, desde que não implicasse em atos notoriamente nocivos. Desenvolvendo esta abordagem, Tertuliano (De Spectaculis, I) defendeu que tudo é obra de Deus, até o momento em que se ofende ao criador. Assim, não haveria uma reprovação clara, estando sim subentendida. Várias fatores eram apresentadas como responsáveis pela condenação. Inicialmente, existia uma intrínseca relação entre os jogos e os ritos pagãos, como já destacado. Esta ligação os classificaria como idolatria (Tert. De Spect, V). Outro motivo seria o da imoralidade presente nos jogos, eles seriam um tipo de prazer e, assim como a gula e a paixão, deveriam ser proibidos. A última razão seria a crueldade presente em determinados eventos, esta atuaria na sociedade como uma forma de veneno, pois os espectadores que assistiam aos jogos desejariam sempre mais combates, cada vez mais “sanguinários”.

Certamente não se pode atribuir exclusivamente à difusão do Cristianismo, o declínio do número de espetáculos realizados na Cidade. Tal fato se dá dentro de um processo amplo no qual a aristocracia senatorial compreendia cada vez mais que as doações tradicionais não produziam os resultados de outrora. Altos funcionários civis poderiam chegar ao senado por indicação sem suportar os onerosos encargos da pretura. Essa aristocracia passou a relutar em financiar despesas, anteriormente tradicionais. O Estado apresenta-se neste ponto atrelado de forma intensa à Igreja e à burocracia. Por um bom período, as doações tradicionais e a utilidade dos jogos foram fortes o suficiente para coexistirem com a hostilidade e as proibições de caráter religioso. Ainda em fins do século IV surgiram dispositivos legais que proibiam a realização de espetáculos para o povo aos domingos (Código Teodasiano, XV, 5, 2) e o prolongamento da restrição aos dias de Natal, da epifania de Cristo, da Páscoa e de Pentecostes (Cód. Teo. XV, 55).

Os recursos que eram utilizados na realização dos jogos oficiais passam a ser utilizados em outras formas de munficiência, sejam elas públicas ou particulares. Ocorre o prolongamento do ideário de caridade cristã no qual as doações deveriam ser oferecidas a um segmento determinado – o dos mais necessitados do ponto de vista sócio-econômico – e, não mais ao conjunto da população pertencente à comunidade. A construção de igrejas e basílicas recebeu parcela dos investimentos anteriormente destinados aos jogos. Com a difusão do cristianismo, as manifestações coletivas apresentam uma natureza distinta, relacionada às modificações estruturais ocorridas. A peregrinação a locais sagrados, como túmulos de santos, por exemplo, assume um papel destacado enquanto espetáculos coletivos junto à nova sociedade que se configurava.

Os jogos e espetáculos ocorridos em Roma durante o período imperial, como cerimônias políticas e religiosas, foram pacíficas muito bem datadas. Diante de um novo contexto histórico que se formava, eles gradativamente perdem seu sentido, até desaparecerem numa formação político-social e religiosa já bem distinta da sua original.




Bibliografia

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