A revolução científica do século XVII



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A revolução científica do século XVII
O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.

Pascal


Introdução
Comecemos pelo significado da epígrafe do capítulo: “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”. A frase de Pascal faz sentido para quem, no século XVII, presenciou a substituição da teoria geocêntrica – aceita durante mais de vinte séculos – pela teoria heliocêntrica. A nova teoria não apenas retirou a Terra do centro do Universo, mas também desintegrou uma construção estética que ordenava os espaços e hierarquizava o “mundo superior dos Céus” e o “mundo inferior e corruptível da Terra”. Galileu geometrizou o Universo, igualando todos os espaços. Ao descobrir a Via Láctea, contrapôs, a um mundo fechado e finito, a idéia de infinitude do Céu.

A questão, no entanto, não é apenas científica. Se fosse, Galileu não teria sido obrigado a se retratar publicamente e a abjurar sua teoria nem seria recolhido à prisão domiciliar. Há algo mais que se quebra, além da ordem cósmica, e cujas causas antecedem a esse período.

Vimos que na Grécia Antiga e na Idade Média predominou – Com raras exceções – uma concepção de ciência desligada da técnica e desinteressada das aplicações práticas do saber. Essa situação se altera com advento da nova classe comerciante emergente, a burguesia, saída dos burgos formados por antigos servos nos arrabaldes das cidades.

A partir de então, o indivíduo se destaca não mais pela família ou linhagem, mas pelo seu esforço e capacidade de trabalho. O modo de produção que começa a vigorar é o capitalista, no qual à riqueza baseada em terras opõe-se o valor da moeda, dos metais preciosos, da produção manufatureira em crescimento, da procura por outras terras e mercados.

O renascimento científico deve ser compreendido, portanto, como a expressão da nova ordem burguesa. Os inventos e descobertas são inseparáveis da nova ciência, já que, para o desenvolvimento da indústria, a burguesia necessita de um saber que investigue as forças da natureza a fim de usá-las em seu benefício. A ciência não é mais serva da teologia; deixa de ser um saber contemplativo, formal e finalista, para que, indissoluvelmente ligada à técnica, passa servir à nova classe.



  1. Características do pensamento moderno

A religião, suporte do saber na Idade Média, a partir do final daquele período durante o Renascimento vinha sofrendo diversos abalos com o questionamento da autoridade papal, o advento do protestantismo e a conseqüente destruição da unidade religiosa. Ao critério da fé e da revelação, o indivíduo moderno opõe o poder exclusivo da razão de discernir, distinguir e comparar. Ao dogmatismo, opõe a possibilidade da dúvida. Ao desenvolver a mentalidade crítica, questiona a autoridade da Igreja e o saber aristotélico. Assume uma atitude polêmica perante a tradição. Só a razão é capaz de conhecer.

O que vemos se afirmar é uma característica importante do pensamento moderno: o racionalismo. Uma das expressões mais claras desse racionalismo é o interesse pelo método.

Embora o método tenha sido sempre objeto de discussão na filosofia, nunca o foi com a intensidade e a prioridade que lhe dedicaram os filósofos do século XVII. Até então a filosofia se debruçara sobre o problema do ser, mas na Idade Moderna se volta para as questões do conhecer. Enquanto o pensamento antigo e medieval parte da realidade inquestionada do objeto e da capacidade humana de conhecer, surge na Idade Moderna a preocupação com a “consciência da consciência”. Antes se perguntava: “Existe alguma coisa?”, “Isto que existe, o que é?”. Agora o problema não é saber se as coisas são, mas se nós podemos eventualmente conhecer qualquer coisa. Das questões epistemológicas, isto é, relativas ao conhecimento, deriva a ênfase que marcará a filosofia daí por diante.

Nessa virada temática, dá-se também outra inversão: enquanto o filósofo antigo não questiona a realidade do mundo, René Descartes (1596 – 1650), seguindo rigorosamente o caminho, o método por ele estabelecido, começa duvidando de tudo, até reconhecer como indubitável a própria existência. É na descoberta da subjetividade que residem às variações do novo tema. O filósofo passa a se preocupar com o sujeito que conhece mais do que com o objeto conhecido.

É tão importante a questão do método no século XVII que Descartes a coloca como ponto de partida do seu filosofar. A dúvida metódica é um artifício com que demole todo o edifício construído do saber para recomeçar tudo de novo. O método adquire um sentido de invenção e descoberta, e não mais a possibilidade de demonstração organizada do que já é sabido.

Outros filósofos, além de Descartes, também se dedicam ao problema do método, tais como Francis Bacon, Locke, Hume, Espinosa. O método filosófico passa por profunda transformação e até hoje não cessa de desencadear as mais diversas polêmicas.

O próprio Galileu, também no século XVII, teoriza sobre o método científico, que significou uma verdadeira revolução: é justamente nesse momento que a ciência rompe com a filosofia aristotélico-escolástica e sai em busca do seu próprio caminho.

Outra característica do pensamento moderno é o antropocentrismo. Enquanto o pensamento medieval é predominantemente teocêntrico (centrado na figura de Deus), o indivíduo moderno coloca a si próprio no centro dos interesses e decisões. Ao prevalecimento da explicação religiosa do mundo, é contraposta a laicização do saber, da moral, da política, que é estimulada pela capacidade de livre exame. Da mesma forma que em ciência se aprende a ver com os próprios olhos, até na religião os adeptos da Reforma defendem o acesso direto ao texto bíblico, dando a cada um o direito de interpretá-lo.

O que se observa nas grandes mudanças ocorridas no período é a valorização do saber ativo em oposição ao saber contemplativo dos antigos. O conhecimento não parte apenas de noções e princípios, mas da própria realidade observada e submetida a experimentações. Da mesma forma, o saber deve retornar ao mundo para transformá-lo. Dá-se a aliança da ciência com a técnica.




  1. Galileu: as duas novas ciências

Em 1638, à revelia da Inquisição, foi publicada na Holanda a obra Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências, quando Galileu, já cego, ainda se encontrava em prisão domiciliar. A partir desse último e importante trabalho, em que Galileu relaciona a hipótese copernicana às leis da mecânica, ligando a ciência da astronomia à física, pode-se dizer que nasce a física moderna.




A nova física

“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o Universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer aos caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras: sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.”

Galileu Galilei (1564 – 1642), italiano que lecionou nas universidades de Pisa e de Pádua, foi responsável pela superação pelo aristotelismo e pelo advento da moderna concepção de ciência. Escreveu O ensaiador, Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências.

Sua vida foi marcada pela perseguição política e religiosa, por defender a substituição do modelo ptolomaico do mundo (geocêntrico) pelo modelo copernicano (heliocêntrico). Condenado pela inquisição, após ser obrigada a abjurar publicamente suas idéias, foi confinado em prisão domiciliar a partir de 1633.

Além de astronomia, a contribuição de Galileu é importante também para a física. Compreendendo as falhas da física antiga, Galileu empreende uma mudança radical nos campos de óptica geométrica (lentes, reflexão e refração de luz), termologia (invenção do termômetro), hidrostática, óptica física (teoria sobre a natureza da luz) e principalmente no campo da mecânica, da qual lança os fundamentos.

Toda essa produção foi possível graças a vários fatores. Galileu tinha uma oficina com plano inclinado, termômetro, luneta, relógio de água. Embora fossem engenhocas um tanto primitivas, eram suficientes para mostrar o valor dado à observação, pela qual se torna possível abandonar a ciência especulativa e caminhar em direção à construção de uma ciência ativa.

Em oposição ao discurso formal. Galileu solicita o testemunho dos sentidos e o auxílio da técnica. Valoriza a experiência e se preocupa com a descrição dos fenômenos. Enquanto a física antiga procura o “por que” do fenômeno e o explica pelas qualidades inerentes aos corpos, Galileu se interessa pelo “como”, o que supõe a descrição quantitativa do fenômeno.

Tal descrição torna-se possível porque Galileu faz distinção entre qualidades secundárias (cor, odor, sabor) e qualidade primárias (forma, figura, número e movimento). As qualidades secundárias são subjetivas, enquanto as primárias são objetivas e passíveis de tratamento matemático, o que permite a Galileu assimilar o espaço físico ao espaço geométrico de Euclides.

Quanto ao movimento, Galileu recusa a teoria aristotélica que distingue o movimento qualitativo do movimento quantitativo, para considerar toda mudança quantitativa. Com isso, estabelece um corte entre as duas leituras do mundo, pois, onde Aristóteles via qualidades (corpos pesados ou leves), Galileu descobre relações e funções. Quando estuda Arquimedes e vê que as leis do equilíbrio dos corpos flutuantes são verdadeiras, destrói a teoria da “gravidade” e “leveza” dos corpos. “Subir” e “descer” não atestam mais a ordem imutável do mundo, a essência escondida das coisas. Por exemplo, onde está a “gravidade” da madeira quando mergulhada na água uma vez que ela de torna “leve”, a ponto de só poder mover-se para baixo se for forçada?

Ao explicar “como” os corpos caem (e não “por que” caem), Galileu descobre a relação entre o tempo que um corpo leva para percorrer o plano inclinado e o espaço percorrido. Repetidas experiências confirmam as relações constantes e necessárias, donde decorre a lei da queda dos corpos, traduzida numa forma geométrica.

Não estamos, porém, diante de uma ciência que parte apenas dos dados empíricos. O procedimento de Galileu não é sempre indutivo, não é sempre que parte dos fatos para as leis. Muitas vezes realiza “experiências mentais”, pelas quais imagina situações impossíveis de verificar experimentalmente e tira conclusões desses raciocínios. O que dá validade científica aos processos intelectuais é que os resultados devem ser submetidos à comprovação. Uma grande descoberta alcançada com esse método foi princípio da inércia, segundo o qual qualquer objeto não submetido à ação de uma força permanece indefinidamente em repouso ou em movimento uniforme. Ora, isso não acontece de fato, pois não é levado em conta o atrito, mas pode ser pensado como se ocorresse.

Galileu é um dos expoentes dos novos tempos: a ciência nascente não resulta de simples evolução, mas surge de uma ruptura, da adoção de uma nova linguagem, fruto, portanto de uma revolução científica. Embora Galileu se refira à “filosofia” (esse saber universal), já começa aí o processo de separação entre ciência e reflexão filosófica. Método, em grego, significa “caminho”. E esse caminho Galileu encontra na união da experimentação com a matemática.


O heliocentrismo e a geometrização do espaço

A teoria geocêntrica encontra-se nas obras de Aristóteles, posteriormente completadas por Ptolomeu (séc.II). Essa concepção, que perdura durante toda a Antiguidade e Idade Média, descreve um Universo finito, esférico, hierarquizado.

O geocentrismo é de certa forma confirmado pelo senso comum, percebemos que a Terra é imóvel e que o Sol gira à sua volta. No próprio texto bíblico lê-se em que Deus fez parar o Sol para que o povo eleito continuasse a luta enquanto ainda houvesse luz, o que sugere o Sol em movimento e a Terra fixa.

No século XVI, o monge Nicolau Copérnico (1473 – 1543) publica Das revoluções dos corpos celestes, obra em que se expõem o heliocentrismo. Em prefácio não assinado, a teoria é apresentada como simples hipótese, talvez por temor à Inquisição. Segundo alguns autores, porém, essa explicação seria da autoria de seu editor, o teólogo protestante Osiander, tendo sido introduzida quando Copérnico já se achava no seu leito de morte. A obra teve pouca repercussão e foi praticamente ignorada até o início do século XVII, quando suas idéias ressurgem como uma bomba com Galileu e Kepler.

O telescópio proporciona a Galileu descobertas valiosas: para além das estrelas fixas, haveria ainda infindáveis mundos; a superfície da Lua é rugosa e irregular; o Sol tem manchas; e em torno de Júpiter existem quatro luas! Como isso seria possível? Vimos que para os aristotélicos o Universo é finito, a Lua e o Sol são compostos de uma substância incorruptível e perfeita, e Júpiter, engastado em uma esfera de cristal, não poderia ter luas que a perfurassem.

Os fenômenos da física e da astronomia, antes explicados a partir das diferenças de natureza dos corpos perfeitos e imperfeitos, tornam-se homogêneos, já que não há mais como reconhecer a incorruptibilidade do mundo supralunar: desfaz-se, portanto a diferença entre Terra e Céus. Além disso, à consciência medieval de um “mundo fechado”, é contraposta à concepção moderna do “Universo infinito”.

Vimos que a noção de infinitude era um atributo divino e Giordano Bruno já pagara demasiadamente caro pela ousadia de negá-lo. Para a nova astronomia o espaço é desmistificado, dessacralizado, isto é, deixa de ser sagrado. Ora, essas concepções representam um grande abalo, pois, para os antigos, sempre houve uma mística do lugar. Havia lugares privilegiados: Hades (inferno), Olimpo (lugar dos deuses), o espaço sagrado do templo; o espaço público de ágora (praça pública); o gineceu (lugar da mulher).

O filósofo contemporâneo Alexandre Koyré, ao explicar as grandes udanças que ocorrem no século XVII, diz que elas pareciam ser redutíveis a duas ações fundamentais e estreitamente relacionadas entre si, que ele caracterizou como a destruição do cosmo e a geometrização do espaço.

Isso significa que o espaço heterogêneo dos lugares naturais se torna homogêneo e, despojado das qualidades, passa a ser quantitativo e, portanto mensurável. Podemos dizer que se dá uma “democratização” dos espaços, pois todos eles se tornam equivalentes, iguais, nenhum é superior ao outro. Não havendo mais diferença entre a qualidade dos espaços celestes e a dos terrestres, é possível admitir que as leis da física se aplicam igualmente a todos os corpos do Universo.


  1. A expansão do espírito científico

O século XVII foi testemunha do trabalho de Galileu, mas também de outros cientistas, como o dinamarquês Tycho Brahe (1546 – 1601), cujas observações astronômicas foram importantes para que o alemão Johannes Kepler (1571 – 1630) descobrisse as leis do movimento planetário (pela primeira lei, todos os planetas giram ao redor do Sol em órbitas elípticas).

Além da participação de Galileu, Kepler e Newton, outros cientistas se mostram fecundos: William Gilbert estuda os fenômenos elétricos e descobre as propriedades do ímã; Boyle e Mariotte estudam a elasticidade do gás; Von Guericke inventa a bomba à vácuo e a máquina elétrica; Pascal e Torricelli criam o barômetro e descobrem a pressão atmosférica; Huygens desenvolve a teoria ondulatória da luz.

Na matemática, surge a geometria analítica com Fermat e Descartes; o cálculo diferencial com Newton e Leibniz; o cálculo das probabilidades com Pascal.

A anatomia, desde o século XVI, tivera a contribuição de Vesalius, que, desafiando a proibição religiosa de dissecação de cadáveres, consegue desenvolver um estudo mais objetivo da anatomia humana. Suas observações fecundas se encontram em A organização do corpo humano, obra ilustrada com inúmeros desenhos e xilogravuras e na qual são identificados enganos de Galeno. Servet e Harvey explicam a circulação sangüínea, Hooke descreve a estrutura celular das plantas.
A síntese newtoniana
Isaac Newton (1642 – 1727) nasceu no ano em que morria Galileu. Em 1687 foi publicada a obra Princípios matemáticos de filosofia natural (conhecida como Principia), na qual começa tratando do ramo da física denominado mecânica até chegar à demonstração de todo sistema solar.

Os resultados obtidos por Galileu e Descartes na física e na astronomia, bem como os dados acumulados por Tycho Brahe e as leis das órbitas celestes de Kepler, possibilitaram a Newton a elaboração da teoria da gravitação universal. As leis formuladas anteriormente referiam-se apenas a aspectos particulares dos fenômenos considerados. O sistema newtoniano cobre a totalidade de um certo setor da realidade e, portanto, realiza a maior síntese científica sobre a natureza do mundo físico.

De acordo com a lenda, ao observar a queda de uma maçã, Newton teria intuído a idéia da força de atração de todos os corpos do Universo que levou à elaboração de sua teoria da gravitação, segundo a qual “a força de atração é proporcional às massas e inversamente proporcional ao quadrado das distâncias”. Dessa forma, ele relaciona a lei da queda dos corpos de Galileu e as leis planetárias de Kepler sobre o movimento dos astros. A propósito, o escritor francês contemporâneo Paul Valéry comenta: “O gênio de Newton consistiu em dizer que a Lua cai, enquanto todos bem vêem que ela não cai!”. Em outros termos, se a Lua se aproximasse um pouco mais da Terra, certamente cairia sobre ela, tal qual uma maçã...

Foram ainda importantes seus estudos sobre óptica e a contribuição para a matemática, com a teoria do cálculo infinitesimal. Além disso, como membro da Royal Society, foi interlocutor freqüente de cientistas de outras áreas do conhecimento, como os químicos.

Suas teorias foram fundamentais para o desenvolvimento da ciência e permaneceram como parâmetros indiscutíveis durante duzentos anos, até que, na primeira metade do século XX, a teoria da relatividade e a física quântica suplantaram o paradigma newtoniano.

Nunca antes na história da humanidade o saber fora tão fecundo nem desenvolvera semelhante capacidade de transformação da realidade pela técnica.





  1. As transformações produzidas pelas novas ciências

Vimos como forte impacto das novas ciências desencadeou inúmeras polêmicas até que, pressionado pelas autoridades eclesiásticas, Galileu se viu obrigado a abjurar, em 1633. Em 1705, Newton foi sagrado cavaleiro pelo governo inglês, honraria que nunca tinha sido concedida a um estudioso das ciências. Que idéias tão terríveis eram as primeiras, que pareciam ameaçar tanto a ordem estabelecida e mereciam ser sufocadas? Que revolução teria ocorrido em tão pouco tempo?

Em primeiro lugar, a antiga ordem, calcada na visão religiosa do mundo, vê-se ameaçada pelo processo de secularização da consciência. Na nova ciência não há lugar para explicações baseadas na causalidade divina, como ocorria na antiga astronomia, em que o movimento das esferas celestes era impulsionado pelo Primeiro Motor Imóvel, ou seja, por Deus.

A ciência torna-se secularizada, laicizada, o que justamente significa abandonar a dimensão religiosa que permeia todo saber medieval. Galileu separa razão e fé, buscando a verdade científica independentemente das verdades reveladas.

Outro impacto decorre da descentralização do cosmo. Enquanto o sistema geocêntrico era um todo centralizado, finito, ordenado, no novo modelo a Terra é retirada do centro do universo. Com a descoberta de outros mundos, nem o Sol é o centro. Dá-se, portanto, uma subversão da ordem e, conseqüentemente, uma ansiedade no ser humano pela descoberta do seu mundo transformado em “poeira cósmica”, a Terra como simples planeta, um grão de areia perdido na imensidade do espaço infinito. Mais: o sistema solar é apenas um dos muitos sistemas que compõem o Céu. O que passa a ser questionado é também o lugar do ser humano no mundo.

Vimos também como se deu a geometrização do espaço, que subverteu uma concepção mística dos lugares privilegiados, além de ter igualado Céu e Terra.

O mecanicismo é outro aspecto relevante na concepção científica. A ciência moderna compara a natureza e o próprio ser humano a uma máquina , um conjunto de mecanismos cujas leis precisam ser descobertas. As explicações são baseadas em um esquema mecânico cujo modelo preferido é o relógio. Ficam excluídas da ciência todas as considerações a respeito do valor, da perfeição, do sentido e do fim. Isto é, as causas formais e finais (ou teleológicas), tão caras à filosofia antiga, não mais servem para explicar: apenas as causas eficientes são utilizadas nas explicações científicas.

No entanto, as inúmeras conquistas efetuadas no século XVII, tanto no campo teórico de formulação das leis como no desenvolvimento da tecnologia, justificaram os interesses dos governos e dos homens de negócio e consolidaram o empenho nas pesquisas científicas. Assim, da mesma forma que são criados os observatórios de Greenwich e de Paris, com a intenção prática de ajudar a navegação e o comércio ultramarino, começam a proliferar as academias de ciências na Itália, Inglaterra, França e Alemanha, cujo enfoque é o estudo mais desinteressado da ciência.

Leitura complementar
[a revolução científica]
Admiti-se de maneira geral que o século XVII sofreu, e realizou uma radicalíssima revolução espiritual de que a ciência moderna é ao mesmo tempo a raiz e o fruto. Essa revolução pode ser descrita, e foi de várias maneiras diferentes. Assim, por exemplo, alguns historiadores viram seu aspecto mais característico na secularização da consciência, seu afastamento de metas transcendentes para objetivos imanentes, ou seja, a substituição da preocupação pelo outro mundo e pela outra vida pela preocupação com esta vida e este mundo. Para outros autores, sua característica mais assinalada foi a descoberta, pela consciência humana, se sua subjetividade essencial e, por conseguinte, a substituição do objetivismo dos medievos e dos antigos pelo subjetivismo dos modernos; outros ainda crêem que o aspecto mais destacado daquela revolução terá sido a mudança de relação entre a teoria e a práxis, o velho ideal da vita contemplativa cedendo lugar ao vita activa. Enquanto o homem medieval e o antigo visavam à pura contemplação da natureza e do ser, o moderno deseja a dominação e a subjugação.

Tais caracterizações não são de nenhum modo falsas, e certamente destacam alguns aspectos bastante importantes da revolução espiritual – ou crise – do século XVII, aspectos que nos são exemplificados e revelados, por exemplo, por Montaigne, Bacon, Descartes ou pela disseminação geral do ceticismo e do livre-pensamento.

Em minha opinião, no entanto, esses aspectos são concomitantes e expressões de um processo mais profundo e mais fundamental, em resultado do qual o homem, como às vezes se diz, perdeu seu lugar no mundo ou, dito talvez mais corretamente, perdeu o próprio mundo em que vivia e sobre o qual pensava, e teve de transformar e substituir não só seus conceitos e atributos fundamentais, mas até mesmo o quadro de referência de seu pensamento.

Pode-se dizer, aproximadamente, que essa revolução científica e filosófica – é de fato impossível separar o aspecto filosófico do puramente científico desse processo, pois um e outro se mostram interdependentes e estreitamente unidos – causou a destruição do Cosmos, ou seja, o desaparecimento dos conceitos válidos, filosófica e cientificamente, da concepção do mundo como um todo finito, fechado e ordenado hierarquicamente (um todo no qual a hierarquia de valor determinada a hierarquia e a estrutura do ser, erguendo-se da terra escura, pesada e imperfeita para a perfeição cada vez mais exaltada das estrelas e das esferas celestes), e a sua substituição por um Universo indefinido e até mesmo infinito que é mantido coeso pela identidade de seus componentes são colocados no mesmo nível de ser. Isto, por seu turno, implica o abandono, pelo pensamento científico, de todas as considerações baseadas em conceitos de valor, com perfeição, harmonia, significado e objetivo, e, finalmente, a completa desvalorização do ser, o divórcio do mundo do valor e do mundo dos fatos.


Koyré, Alexandre. Do mundo fechado ao Universo infinito.

Rio de Janeiro/São Paulo, Forense-Universitária/Ed. Da Universidade de São Paulo, 1979. p 13 – 14.


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