A revolução Mexicana na Obra Biografia Del Poder de Enrique Krauze



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A Revolução Mexicana na Obra Biografia Del Poder de Enrique Krauze1

Cleverson Rodrigues da Silva2

Resumo

Em 1910, o México foi sacudido pela primeira grande revolução do século XX, que levou à morte um milhão de mexicanos numa guerra civil que envolveu todas as classes sociais. A etapa armada somente foi concluída com a destruição do Estado porfirista em 1911 e a construção de um novo Estado. Em seu livro La Sucesión Presidencial de 1910, Francisco I. Madero chamou a atenção para necessidade de uma mudança pacífica e democrática na política mexicana e lançou-se candidato presidencial, juntamente com Díaz, que não havia cumprido a promessa de se retirar da política. Diante do crescimento da popularidade de Madero, o governo determinou sua prisão. As eleições foram realizadas e mais uma vez Díaz triunfou, deixando bem claro ao povo mexicano e a Madero todo o poder da máquina governamental porfirista. Madero conseguiu escapar e redigiu o Plan de San Luis Potosí, onde desconheceu o governo de Díaz e conclamou o povo a pegar em armas com a finalidade de instaurar a democracia. Com um lema que tomou conta do país, Sufrágio Efectivo, no reelección, Madero inicia a Revolução Mexicana de 1910, convocando à nação mexicana a se rebelar contra o governo de Porfírio Díaz no dia 20 de novembro às 18 horas, transformando-se na primeira e única Revolução com dia e hora marcada. Neste processo muitas bandeiras foram levantadas, principalmente a da luta por Justiça Social e Reforma Agrária. Também durante a Revolução muitos personagens destacaram-se e foram alçados à categoria de heróis e baluartes da Revolução. Para muitos atores revolucionários, era necessário uma revolução no sentido atribuído por Copérnico à astronomia, em outras palavras, a revolução como associada a um movimento regular, sistemático e cíclico das estrelas significando na política um movimento de retorno a um ponto pré-estabelecido, uma restauração. Era preciso retornar a uma época em que os camponeses estavam de posse de sua terra. A opressão e a miséria não eram mais toleradas ou atribuídas a uma ordem divina e foram entendidas como resultado das ações do homem na história. É neste cenário que Enrique Krauze situa os seus personagens e os coloca diante de um processo extremamente relevante para a história do México contemporâneo, a Revolução Mexicana. Desse modo, o recorte proposto no tempo e no espaço compreende o México revolucionário de 1910 a 1940, sob a ótica do historiador, ensaísta e editor Enrique Krauze, na obra intitulada Biografia del Poder. Esse estudo justifica-se pela relevância histórica e social que se reveste a obra Biografia del Poder e pela construção e afirmação da identidade coletiva da sociedade mexicana contida na coleção. Embora a obra apresente a biografia das personalidades da Revolução Mexicana, é a inserção destes no contexto histórico, político e social da época que torna a mesma extremamente relevante e nos permite compreender boa parte do processo revolucionário e a construção de uma nova sociedade a partir das transformações ocorridas depois de 1910.

Palavras-chave: Reforma Agrária, Democracia, Justiça Social, Francisco I. Madero e Emiliano Zapata


Introdução

A Revolução Mexicana justifica-se pela questão social, pela reforma agrária num período marcado pela concentração de terras em mãos de poucos proprietários. Esta estrutura fundiária se traduzia numa situação de penúria enfrentada pela maioria da população camponesa cuja sobrevivência dependia de pequenas porções de terra. Era necessária uma revolução no sentido atribuído por Copérnico à astronomia, em outras palavras, a revolução como associada a um movimento regular, sistemático e cíclico das estrelas significando na política um movimento de retorno a um ponto pré-estabelecido, uma restauração. Era preciso retornar a uma época em que os camponeses estavam de posse de sua terra. A opressão e a miséria não eram mais toleradas ou atribuídas a uma ordem divina e foram entendidas como resultado das ações do homem na história. No México, a opressão e a miséria foram frutos do processo da colonização espanhola e políticas de privilégios aos grandes latifúndios.

É neste cenário econômico, político e social que Enrique Krauze situa os seus personagens e os coloca diante de um processo extremamente relevante para a história do México contemporâneo, o fim da ditadura de Porfírio Díaz, a Revolução Mexicana, os governos revolucionários e o desenrolar de toda a história política mexicana do século XX.

Desse modo, o recorte proposto no tempo e no espaço compreende o México revolucionário de 1910 a 1940, sob a ótica do historiador, ensaísta e editor Enrique Krauze, na obra intitulada Biografia del Poder3 publicada pela editora Fondo de Cultura Económica no México em 1987. Esta obra compreende oito volumes e oito personalidades da Revolução Mexicana, abrindo o processo histórico com a biografia de Porfírio Díaz e a Revolução de 1910 e fechando o ciclo com Lázaro Cárdenas e o fim do seu governo em 30 de novembro de 1940.

Esse estudo justifica-se pela relevância histórica e social que se reveste a obra Biografia del Poder e pela construção e afirmação da identidade coletiva4 da sociedade mexicana contida na coleção. Embora a obra apresente a biografia das personalidades da Revolução Mexicana, é a inserção destes no contexto histórico, político e social da época que torna a mesma extremamente relevante e nos permite compreender boa parte do processo revolucionário e a construção de uma nova sociedade a partir das transformações ocorridas depois de 1910.

Segundo Heloísa Reichel5 deve haver o reconhecimento da autoridade do autor do discurso para que as representações atuem como marcas identitárias. Assim Bourdieu – in Reichel –:


O ato de categorização, quando consegue fazer-se reconhecer ou quando é exercido por uma autoridade reconhecida, exerce poder por si... A eficácia do discurso performático que pretende fazer sobrevir o que ele enuncia no próprio ato de o enunciar é proporcional à autoridade daquele que o enuncia... (p. 208)

Desse modo, na obra, temos evidentemente os fatos históricos narrados pelo autor, entretanto temos também a construção de uma identidade dos personagens com a terra e com o povo mexicano. Como exemplo disso, na narração do autor, podemos encontrar – sobretudo nos primeiros capítulos dos volumes – os seus personagens como herdeiros de uma terra de grandes personalidades, o solo mexicano como portador da mística de seus homens e de sua história. Podemos evidenciar esse fato no primeiro volume da coleção, quando Krauze descreve o estado de Oaxaca e os personagens Benito Juarez e Porfírio Díaz. Nas palavras do autor:


Era natural entonces que aquella región de intrincada orografía e “ídolos detrás de los altares”, fuese la “fábrica nacional de políticos y soldados”, zona de teocracia, tierra de “místicos de la política”, de acuerdo con la expresión de Alfonso Reyes. Allí nació, en 1806, el zapoteca descendiente de la nobleza indígena que encarnó a la nación mexicana antes que la nación mexicana tomase realmente lugar entre las naciones: Benito Juárez. Allí nació también, el 15 de septiembre de 1830, el mixteco casi puro cuya biografía se entrelaza e confunde con la biografía de México por casi 60 años: Porfirio Díaz. (Krauze, pp. 7-8, 1987, vol.: 1)

Assim, a obra figura não somente como uma construção histórica e social do México, mas também como uma obra de literatura – aqui entendida como o exercício de uma arte e conjunto de obras literárias de um agregado social – extremamente valiosa e narrativa dos acontecimentos que irão se desenrolar ao longo das primeiras décadas do século XX e que dará ao país as feições que o acompanhará ao longo de todo o século.

Contudo, e pelas razões apontadas acima, duas advertências devem ser levadas em consideração. A primeira diz respeito à complexidade da obra, não permitindo que tratemos de todos os personagens em um texto tão curto como este. A segunda advertência, é que o texto destina-se aos que já têm prévio conhecimento da Revolução Mexicana, entretanto, isso não impede que se possa entender, ao menos em parte, nesse texto, a Revolução de 1910.
Revolução Mexicana: antecedentes históricos
Desde os primeiros dias da conquista, as propriedades de bens e raízes do México se organizaram em três grupos diversos: a propriedade privada dos colonos espanhóis, a propriedade eclesiástica e a propriedade dos povos indígenas. Na Nova Espanha, a propriedade foi organizada em desigualdade, favorecendo o aumento das propriedades individuais dos espanhóis e das propriedades eclesiásticas, e por outro lado à decadência paulatina da pequena propriedade dos índios, até esta ser extinta em fins do século XIX.

Na guerra da Independência em 1810, a questão agrária figurou como um dos principais motivos. Alcançada a Independência, os novos governos procuram resolver o problema agrário considerando-o de um ponto de vista diferente do período colonial. A conquista e colonização do território mexicano se realizaram de maneira irregular, deixando áreas do país sem população e os índios completamente enterrados em latifúndios particulares e de propriedade da Igreja.

Durante o porfiriato6, as terras se encontram concentradas, 97% da superfície total nas mãos de aproximadamente 835 famílias e os outros 3% em propriedade de povoados e pequenos proprietários. A principal causa desta monopolização se deve à atividade das Companhias Deslindadoras7 e colonizadoras cuja atividade foi baseada na destruição da propriedade comunal dos índios. As Companhias declaravam vagas às terras, em seguida colocavam-nas à disposição para a colonização, para serem adquiridas por estrangeiros. O governo outorgava-lhes terras, transportes, implementos agrícolas e outros incentivos. O México foi colonizado, excluindo-se os verdadeiros donos das terras, os índios, a mercê dos estrangeiros que rapidamente monopolizaram o território mexicano.

Além do mais, segundo Garfias, as leis mexicanas raras vezes eram aplicadas dentro das fazendas, onde os trabalhadores eram vistos como objetos da propriedade, existindo praticamente uma espécie de feudalismo. Além disso, no campo atuava os chamados Cuerpo de Rurales, grupo miliciano encarregado de “resguardar a paz”, geralmente através de métodos brutais e recrutamento obrigatório.


México Revolucionário
Em 1910, o México foi sacudido pela primeira grande revolução do século XX, que levou à morte um milhão de mexicanos numa guerra civil que envolveu todas as classes sociais. A etapa armada somente foi concluída com a destruição do Estado porfirista em 1911 e a construção de um novo Estado.

Desde os primeiros anos do século XX8, havia se espalhado pelo México uma grande inconformidade com o governo de Porfírio Díaz, uma vez que seu regime deixou de lado temas fundamentais para o país, como por exemplo, o exercício da Democracia e a Justiça Social. Somados a isso, em 1908, Díaz havia expressado em entrevista a um jornalista estadunidense que se retiraria do poder, pois o México já estava pronto para a Democracia. Essa declaração desencadeou no México uma importante efervescência política.

Em seu livro La Sucesión Presidencial de 1910, Francisco I. Madero chamou a atenção para necessidade de uma mudança pacífica e democrática na política mexicana e lançou-se candidato presidencial, juntamente com Díaz, que não havia cumprido a promessa de se retirar da política. Diante do crescimento da popularidade de Madero, o governo determinou sua prisão. As eleições foram realizadas e mais uma vez Díaz triunfou, deixando bem claro ao povo mexicano e a Madero todo o poder da máquina governamental porfirista.

Madero conseguiu escapar e redigiu o Plan de San Luis Potosí, onde desconheceu o governo de Díaz e conclamou o povo a pegar em armas com a finalidade de instaurar a democracia. Com um lema que tomou conta do país, Sufrágio Efectivo, no reelección, Madero inicia a Revolução Mexicana de 1910, convocando à nação mexicana a se rebelar contra o governo de Porfírio Díaz no dia 20 de novembro às 18hs, transformando-se na primeira e única revolução com dia e hora marcada.


Conciudadanos: no vaciléis pues un momento: tomad las armas, arrojad del poder a los usurpadores, recobrad vuestros derechos de hombre libres y record que nuestros antepasados nos legaran una herencia de gloria que no podemos mancillar. Sed como eles fueron: invencibles en la guerra, magnánimos en la victoria. SUFRAGIO EFECTIVO, NO REELECCIÓN. (San Luis Potosí, octubre 5 de 1910 – Francisco I. Madero in: Krauze)

Participaram da revolução, mineiros, camponeses, trabalhadores, intelectuais e cidadãos da classe média. Frente ao clima beligerante, Díaz apresentou a sua renúncia em 1911 e exilou-se na França. Madero convocou novas eleições, elegendo-se presidente do México, pois queria assumir a presidência pela “vontade dos cidadãos”.

Entretanto esse fato não mudou a situação econômica, política e social do México, que continuou sendo muito difícil. A situação se agravou quando em Morelos, os zapatistas consideraram que Madero não apoiava sua luta em favor da terra e lançaram El Plan de Ayala9, contra Madero.

Meses antes, no dia 7 de junho de 1911, Zapata é um dos primeiros revolucionários a conversar com Madero. Dias mais tarde Madero visita Morelos e Guerrero. Em novo encontro no dia 21 de junho, Zapata expõe a Madero o seu ponto de vista.


Mire, señor Madero, si yo, aprovechándome de que estoy armado, le quito su reloj y me lo guardo, y andando el tiempo nos llegamos a encontrar, los dos armados con igual fuerza, ¿tendría derecho de exigirme su devolución?

Sin duda – le dijo Madero –; incluso le pedería una indemnización.

Pues eso, justamente – terminó diciendo Zapata – es lo que nos ha pasado en el estado de Morelos, en donde unos quantos hacendados se han apoderado por la fuerza de las tierras de los pueblos. Mi soldados (los campesinos armados y los pueblos todos) me exigen diga usted, con todo respeto, que desean se proceda desde luego a la restitución de sus tierras. ((Krauze, pp. 59-60, 1987, vol.: 3)

Todavia, Madero desejava um reforma social, política e econômica que fosse dentro da Lei, já que era um liberal e defendia com veemência essas idéias. Suas idéias também eram compartilhadas por seu sucessor Venustiano Carranza. Ambos, Madero primeiro e Carranza depois preconizavam que as reformas e a (re) distribuição das terras deveriam ser feitas dentro da letra da Lei. Porém diferentemente de Madero, Carranza utilizará a força do Estado para derrocar seus inimigos e impor a Lei.

Segundo Krauze (1987), o governo de Madero não lograria êxito na questão agrária, mas foi, sem dúvida, fundamental para a democracia mexicana:
Con ser tantos, los cambios mayores no ocurrieron en el aspecto material sino en el político. Madero respetó escrupulosamente la independencia de poderes: nunca intervino en el Poder Judicial, propició la más amplia pluralidad en el Legislativo y no movió un dedo para acallar al cuarto poder: la prensa. Mediante una ley electoral, introdujo el voto universal y directo. (Krauze, p. 92, vol.: 2)

Sobre su política agraria las opiniones de los historiadores se dividen. Comparada con la de Cárdenas, es cierto, la actividad de Madero palidece; pero en el económico su proyecto para el campo no era muy distinto del que llevaran a cabo Obregón y Calles, y en lo político era sin duda más respetuoso de la autonomía local.

“Estoy de acuerdo – escribió en 1909 – en que la división de la propiedad contribuirá gradualmente al desarrollo de la riqueza nacional (…) será una de las bases más fuertes de la democracia”. (Krauze, pp. 89-90, vol.: 2)
Porém, diferentemente de Madero e Carranza e segundo o que nos aponta a literatura, Zapata, a vertente camponesa da revolução defendia a imediata restituição das terras aos seus donos, os índios, ou seja, uma restauração das terras aos seus verdadeiros donos.
A mediados de 1910 Zapata cumple El destino de su pueblo y toma por la fuerza las tierras de Anenecuilco. Enterrados en un lugar secreto del pueblo y dentro de una caja de hojalata, descansaban los títulos, los mapas, los pedimentos, las copias, la merced, cuadernos enteros de litigios y dictámenes. Con el tiempo, al lanzarse a la Revolución, Zapata los encomendó a su fiel robledo con estas palabras: Si los pierdes, compadre, te secas colgado de un cazahuate. (Krauze, p. 47, 1987, vol.: 3)

Neste sentido, a Revolução deveria ser uma revolução do povo e para o povo. Devolver aos verdadeiros donos das terras suas possessões e imediatamente, era o que desejava a vertente camponesa da Revolução. Assim, para o México, o sentido atribuído por Copérnico à astronomia, seria um retorno das terras aos seus antecessores, os índios, o povo mexicano.

A outra vertente camponesa da Revolução, Francisco Pancho Villa, assim como Zapata deseja a restituição imediata das terras ao povo.
¿Puede hablarse de una utopia en Villa? La respuesta es ambigua. No, si se piensa en su falta de um plan orgânico como el de Ayala. Sí, si se atiende a su efímera gubernatura en el estado de Chihuahua. (...) Es entonces cuando toma su primera medida: confiscar los bienes de los potentados chihuahuenses enemigos de la Revolución. (…) Pero Villa no utiliza los fondos en su provecho personal: confisca los bienes “para garantizar pensiones a viudas y huérfanos, defensores de la causa de la justicia desde 1910”. Los fondos se emplean también para crear el Banco del Estado de Chihuahua. (Krauze, p. 37, 1987, vol.: 4)
Todavia, nem Madero pela via legal e nem Zapata e Villa pela via campesina lograram êxito em suas empreitadas, quando tomamos como exemplo, os governos revolucionários de Carranza, Obregón, Calles e Cárdenas. A situação se agravou ainda mais, quando Madero é obrigado a renunciar em 19 de fevereiro de 1913 e é assassinato em 22 de fevereiro do mesmo ano, colocando fim a um processo democrático inaugurado com a Revolução e dando início ao período dos caudilhos revolucionários não ligados aos camponeses.

A morte de Madero e a tomada do poder por Victoriano Huerta, levaram Venustiano Carranza, governador de Coahuila, a lançar el Plan de Guadalup. Este plano desconhecia o governo de Huerta e tinha como propósito restabelecer a ordem constitucional. Depois de mais de um ano de combate, Huerta renuncia, no entanto, o triunfo revolucionário não resolveu os grandes problemas nacionais, como a democracia, a Justiça Social, a propriedade da terra e a situação dos trabalhadores. Além de tudo isso, carranzistas, zapatistas e villistas não chegaram a um acordo sobre os rumos do país.

A partir de 1915 Carranza começa uma intensa campanha militar contra villistas e zapatistas. Com a situação militar a seu favor, Carranza convocou o Congresso para redatar a nova Constituição, promulgada em 5 de fevereiro de 1917. Ainda que a disputa pelo poder continuasse, a carta Magna marcou os destinos do país e o caminho a seguir nos próximos anos, uma vez que contemplava as principais demandas da luta revolucionária, como democracia, educação, questão agrária e direitos trabalhistas, todas essas demandas seriam o cerne da política mexicana, sobretudo, nas décadas de 20 e 30.

A Constituição de 1917 previa em seus artigos a distribuição de terra e a criação dos ejidos10, mas mesmo assim pouco se fez em relação ao que ela determinava e o que pregava a família revolucionária11; muito pelo contrário, quando Cárdenas chega ao poder em 1934, há uma campanha da família revolucionária no sentido de que os objetivos da Revolução de 1910 haviam sido cumpridos, e a partir de então a Revolução já se encontrava institucionalizada, porém, os ideais da Constituição de 1917 não haviam tido êxito.


Cuando a principios de 1915 Carranza exclama: “Hoy comienza la revolución social”, se refiere a una revolución social a través de las leyes. (…) Aunque habla de restitución de tierras y disolución de latifundios, lo hace con un espíritu de justicia, no con el propósito de crear un nuevo régimen de propiedad o abanderar un apostolado social. La insistencia en temas como la libertad municipal, la independencia de Poder Judicial o la igualdad ante la ley, son también signos claros de esa supervivencia liberal. ((Krauze, p. 75, 1987, vol.: 5)
No entanto, tudo isso mudaria alguns anos depois. Passado a década de 1920 e os governos de Obregón e Calles, assume em 1934 a presidência do México, o General Lázaro Cárdenas del Río. O governo de Cárdenas cobre o sexênio que vai de dezembro de 1934 a novembro de 1940. Seu desenvolvimento dividi-se em três etapas: durante a primeira consolida-se e ganha definição o poder “cardenista” frente à estrutura de poder estabelecida, encabeçada pelo chefe máximo da Revolução12, abarcando desde a sua nomeação como candidato do PNR até a disputa Cárdenas-Calles em abril de 1936, data em que o último é eliminado do jogo político; a segunda cobre o período em que Cárdenas consolida sua política: nacionalista e reformista com a presença das massas, preparada dentro da primeira etapa e incubada durante o crack de 1929; essa fase culmina com a transformação do partido de indivíduos e personagens em um partido de massas, o PRM, e com a nacionalização da indústria petrolífera, ambas as coisas em 1938. A última etapa, a do recuo do reformismo, foi produto da pressão e dos atos de poder desencadeados por grupos e organizações conservadoras, numa conjuntura internacional que lhes foi favorável.

Cárdenas, assim como os outros personagens, encarna a mística da história e do solo mexicano, neste caso Jiquilpan no estado de Michoacán.


Jiquilpan, Michoacán, 1908. Un grupo de parroquianos juega billar haciendo honor al nombre del establecimento que los acoge: Reunión de amigos. Es una tienda de abarrotes que vende algo más valioso que abarrotes y semillas: esparcimiento para las penas del alma y hierbas milagrosas para las del cuerpo. Su propietario, don Dámaso Cárdenas Pinedo, vivía entre la bohemia e la bonhomía. (…) En la espaciosa casa familiar, dotada del habitual huerto rodeado de arcadas, oficia otra persona: su mujer, doña Felícitas del Río Amezcua. (…) Con sus ojos dulces y profundos, ayudada por su cuñada Ángela, que ha quedado muda desde hace algún tiempo, y por la panchita, doña Felícitas vigila con piedad cristiana los pasos de su numerosa prole: Margarida, Angelina, Lázaro, Josefina, Alberto, Francisco, Dámaso y José Raymundo. (Krauze, p. 7, 1987, vol.: 8)
Além de personificar a história e o solo onde nasceu, lutar na Revolução e governar Michoacán, Cárdenas encarna uma mística pessoal, portadora de um futuro augusto que o esperava e que desde criança sabia ser portador. Assim escreveu em seu diário em meados de 1911, quando ainda era adolescente: Creo que para algo nasci... Vivo siempre fijo em la idea de que he de conquistar fama. ¿De qué modo? No lo sé. (Krauze, p. 9, 1987, vol.: 8)

Assim, Cárdenas chega à presidência do México em 1934 aos 39 anos de idade. Nesse período encarnará como nem um outro revolucionário os ideais maderistas, zapatistas e villistas, mas sobretudo, será o portador da mística da história mexicana do século XX.

A reforma agrária foi notavelmente acelerada a partir de 1935 e a nova divisão atingiu não apenas a periferia e sim o próprio coração da agricultura comercial. Antes da ascensão de Cárdenas à presidência da República, entre 1910 e 1934 somente 6% da superfície do país foram distribuídas, ou seja, aproximadamente 10 milhões de hectares para 800 mil trabalhadores do campo, uma razão de 300 mil hectares por ano.

Durante os primeiros vinte e um meses do cardenismo, foram entregues 2.999 dotações para 287.570 camponeses, num total de 4.482.000 hectares. Cárdenas dizia que o problema agrário reclamava uma pronta ação governamental a fim de que as necessidades de terra dos povos estivessem completamente satisfeitas nos dois primeiros anos13 de seu governo.

Em seu sexênio foram distribuídos mais de 18 milhões de hectares e criados os ejidos preconizados pela Constituição de 1917. Criou ainda, o Banco Nacional de Crédito Ejidal; nacionalizou o solo; o petróleo e todas as riquezas mexicanas. Também criou duas grandes centrais, a CTM (Confederação dos Trabalhadores de México) e a CNC (Confederação Nacional Camponesa), esta última com mais de 300 mil associados.

Cárdenas dizia:


Por el hecho de solicitar ejidos, el campesino rompe su liga económica com el patrón, y en estas condiciones, el papel del ejido no es de producir el complemento económico de un salario (...) sino que el ejido, por su extensión, calidad e y sistema de explotación debe bastar para la liberación económica absoluta del trabajador, creando un nuevo sistema económico-agrícola, en un todo diferente al régimen anterior (...). (Krauze, p. 109, 1987, vol.: 8)
Neste sentido, o cardenismo, segundo Medin (1992: 88), expressava os interesses nacionalistas dos rancheiros do centro e do sul que compreendiam que o desenvolvimento do país deveria dar-se através de uma série de reformas sociais radicais (nacionalizações e reforma agrária), firmemente implementadas pelo Estado, que aglutinasse toda a nova burguesia rural, as frações nacionalistas da burguesia industrial e financeira, e as massas obreiras e camponesas.
(in) Conclusões
Ao concluirmos essa análise, podemos perceber que a vasta literatura produzida sobre a Revolução Mexicana não esgota as possibilidades de investigação da mesma e muito menos a possibilidade de interpretação sob os mais variados prismas. Nesse sentido, o termo (in) conclusão é o mais adequado, já que não somente as possibilidades são muitas, como também a obra Biografia del Poder oferece uma gama de informações que nos permite interpretar a Revolução.

Sem dúvida, essa obra é fundamental para uma análise completa da Revolução Mexicana, uma vez que ao descrever e interpretar esses personagens, Enrique Krauze os situa no cenário econômico, político, cultural e social do antes, durante e depois do processo revolucionário. Ao descrever o nascimento de Porfirio Díaz em 1830 e a sua chegada à presidência em 1876, Krauze nos situa no século XIX. Com Madero, Zapata, Villa, Carranza, Obregón e Calles, nos brinda com toda a efervescência da Revolução, e fechando o ciclo com Cárdenas em 1940 nos apresenta todas as transformações que deram ao México o seu caráter nacional no século XX.





1 A obra de Enrique Krauze intitulada Biografia del Poder foi publicada no ano de 1987. Nela Krauze faz uma análise da Revolução Mexicana através de oito personagens centrais do processo revolucionário. Neste artigo procuro apresentar alguns aspectos da obra e de seus personagens, sem, contudo esgotar, as possibilidades de análise de uma obra vasta e extremamente detalhada sobre a Revolução.

2 Doutor em História Latino-americana – Professor do Departamento de Ciências Humanas – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – Campo Grande/MS

3 1 – Porfírio Díaz: místico de la autoridad; 2 – Francisco I. Madero: místico de la libertad; 3- Emiliano Zapata: el amor a la tierra; 4 – Francisco Villa: entre el ángel y el fierro; 5 – Venustiano Carranza: puente ente siglos; 6 – Álvaro Obregón: el vértigo de la victoria; 7 – Plutarco Elías Calles: reformador desde el origen; 8 – Lázaro Cárdenas: general misionero.

4 REICHEL, H. J. A identidade sul-rio-grandense no imaginário Érico Veríssimo. In: GONÇALVES, R. P. (org). O Tempo e o Vento: 50 anos. Editora UFSM/EDUSC. Santa Maria/RS, 2000.

5 Conceito extraído do texto A identidade sul-rio-grandense no imaginário Érico Veríssimo. Embora o artigo da autora analise a identidade do gaúcho a partir da obra O Tempo e o Vento, portanto de um romance, a discussão que faz sobre a autoridade de quem escreve um texto também pode servir como base para a interpretação que Krauze faz sobre a Revolução Mexicana e seus personagens.

6 Período que corresponde ao Governo de Díaz (1876-1880 e 1884-1911). (Krauze, p. 23, 1987, vol.: 1)

7 As Companhias Deslindadoras ou Demarcadoras eram empresas respaldadas na Lei, que tinham como objetivo declarar quais as terras do país estavam baldias, para que fossem demarcadas e vendidas posteriormente, porém a atividade das companhias foram ilegais, pois, declaravam baldias terras ocupadas e pertencentes aos povos indígenas, o que ocasionou a destruição da propriedade comunal no México, em detrimento da formação dos grandes latifúndios.

8 Fonte: Instituto Nacional de Estudios Históricos de las Revoluciones de México. Governo Mexicano.

9 Documento político promulgado pelo chefe revolucionário Emiliano Zapata em 28 de novembro de 1911, desconhecendo o governo de Madero e o acusando de trair aos camponeses. O Plano defendia a imediata restituição das terras aos camponeses.

10 O ejido é uma forma de pequena propriedade privada ou minifúndio. O ejido é o produto de um processo denominado dotação obtido gratuitamente e de procedência das fazendas expropriadas e terras do Estado. O ejido é propriedade da nação cedida a uma comunidade camponesa para usufruto. Adquire um caráter corporativo pela imposição de regras de organização e controle da população do núcleo ejidal.

11 Termo utilizado para designar o conjunto dos líderes da Revolução de 1910.

12 Termo utilizado para designar Plutarco Elías Calles, considerado pelos revolucionários o grande líder da revolução após a constituição de 1917.

13 (Krauze, p. 112, 1987, vol.: 8)


Referências
GARFIAS, Luis. La Revolución Mexicana: compendio histórico político militar. México, Editora Panoramica, 1997

KRAUZE, Enrique. Porfírio Díaz: místico de la autoridad. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 1.

________________. Francisco I. Madero: místico de la libertad. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 2.

________________. Emiliano Zapata: el amor a la tierra. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 3.

________________. Francisco Villa: entre el ángel y el fierro. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 4.

________________. Venustiano Carranza: puente ente siglos. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 5.

________________. Álvaro Obregón: el vértigo de la victoria. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 6.

________________. Plutarco Elías Calles: reformador desde el origen. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 7.

________________. Lázaro Cárdenas: general misionero. Biografia del Poder. México, DF, Fondo de Cultura Econòmica. 1987, volume 8.

MEDIN, Tzvi. Ideología y Praxis Política del Cardenismo. México, DF, Ediotra Siglo Veinteuno, 1973

REICHEL, Heloísa Jochims. A identidade sul-rio-grandense no imaginário Érico Veríssimo. In: GONÇALVES, R. P. (org). O Tempo e o Vento: 50 anos. Santa Maria/RS, Editora UFSM/EDUSC, 2000.

VILLA, Marco Antonio. A Revolução Mexicana: 1910-1940. São Paulo, Ática, 1993







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