A revolução não será televisionada Introdução



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A revolução não será televisionada
Introdução
Meu cara está prestes a se estraçalhar numa plantação de milho em Iowa.
Eu posso sentir. Eu sou sensível a essas coisas, especialmente em Iowa. Tenho algum tipo de clarividência em Iowa. Consigo sentir o cheiro da morte em Iowa.
Enquanto o candidato sorri e os funcionários sonham acordados com cargos na Casa Branca, nossa campanha adoeceu com todos os sintomas da velha política: brigas internas e ciúmes entre os funcionários de campanha, gafes cometidas pelo candidato, propaganda canibalesca dos outros candidatos Democratas – tudo isso sob os olhares atentos dos abutres da imprensa política, sempre à procura de restos de carne.
Nós estamos perdendo.
E a pior parte é essa: Não há mais nada que eu possa fazer. Depois de meses lutando, persuadindo, argumentando apenas para conseguir colocar o avião na pista, agora que estamos finalmente voando e o resto da tripulação está comemorando, eu olho pela janela e as asas estão caindo.
E eu sou o único que vê isso
Quero fugir desesperadamente.
Cada fibra do meu ser me diz para escapar.
Mas eu não posso.
Por quase um ano [1] eu fui a única pessoa na campanha presidencial de Howard Dean que dizia que tínhamos chances concretas de ganhar. Na época em que fui designado como gerente de campanha, quando tínhamos sete funcionários, US$100.000,00 no banco e, até onde sabíamos, apenas quatrocentas pessoas apoiando a campanha; na época em que, ou você mesmo atendia ao telefone ou ele continuava tocando; na época em que Howard Dean era pouco mais que um asterisco, o último nome em uma longa lista de candidatos democratas à presidência – eu era aquele que olhava as pessoas nos olhos e dizia: “Olha, nós vamos ganhar isso”.
Agora, 2003 está acabando e nós estamos no topo, à frente nas pesquisas, no processo de arrecadar mais de US$50 milhões; US$15,8 milhões somente nesse período de arrecadação de fundos – um recorde – a maior parte desse dinheiro vinha de pequenas doações de US$100,00 ou menos. E sabe qual recorde de arrecadação estamos batendo? O nosso! Do período de arrecadação anterior a este. Nós temos um exército de quase 600.000 partidários inflamados, não mais apenas meia-dúzia de pequenos doadores[2]; mas sim, pessoas mais ativistas e idealistas, que nunca tinham sido politicamente engajadas e agora estavam vivendo e respirando essa campanha. Através dessas pessoas adentramos uma veia completamente nova na democracia e provamos que a internet poderia ser uma excelente ferramenta política. Agora todas as atenções estão voltadas para nós. Os sindicatos estão começando a nos endossar. Al Gore nos apoiou. A mídia, à qual tínhamos que implorar para nos cobrir a alguns meses atrás, praticamente coroou Howard Dean como a indicação do Partido Democrata. Estamos nas capas da Time e da Newsweek. Nós somos a história. E finalmente as outras pessoas envolvidas na campanha estão começando a balbuciar o que eu já gritava há um ano: “Ei, nós vamos ganhar essa coisa”.
Sou o único que não acredita mais nisso.
Os caucus [3] de Iowa acontecerão em pouco mais de um mês e estamos sangrando. Nossa força acabou. Nossa mensagem está se perdendo. Estamos gastando todo nosso tempo e energia respondendo a ataques de outras campanhas. O nosso cara se tornou um implacável desastre prestes a acontecer. A franqueza espontânea que ajudou nosso candidato quando ele quase não tinha chance nenhuma, agora está funcionando como uma espécie de Síndrome de Tourette política[4]. A imprensa repetidamente mutila o contexto do que ele diz, deturpando as palavras dele em sua própria e cínica versão de “Twist and Shout” [5]. Não há outros adultos em campanha – nenhum político experiente – então, naturalmente, ele continua, cometendo gafe atrás de gafe durante a campanha em Iowa.
Os funcionários mais jovens de Dean – cheios de energia e ideais – não têm idéia do que está prestes a acontecer. Para a maioria deles é a sua primeira campanha presidencial e eles não entendem que a única coisa mais escassa que o tempo é a chance de ganhar. Alguns deles – os realmente loucos – contraíram o vírus da política e devem trabalhar em uma segunda campanha presidencial. Pode até haver entre eles os estranhos aficionados e os suicidas que poderão um dia esquecer o quanto tudo isso foi difícil e trabalhar numa terceira campanha.
Essa é minha sétima.
E eu posso vê-la se esfacelando. Posso ver que tomamos a dianteira cedo demais, que os outros candidatos estão nos empurrando para baixo. Eu sei qual é o preço que se paga quando um insurgente pega os principais líderes do partido com a guarda baixa. Eu posso praticamente ouvir o movimento das armas; as miras apontando nas nossas costas. Eu trabalhei em caucus demais em Iowa para ser incapaz de reconhecer imediatamente esses sinais: as disputas medíocres, os gastos, as propagandas negativas, o escrutínio constante da imprensa. Posso ver tudo isso começando a gerar conseqüências.
Acima de tudo, posso ver que nós simplesmente não estávamos prontos. Não para isso.
Antes de Howard Dean lançar sua campanha presidencial, ele tomou a suspeita decisão de lacrar muitos dos arquivos gerados por ele durante a época em que governou Vermont, por uma década – dizendo que ele não queria “nada embaraçoso aparecendo nos documentos em um ponto crítico de uma futura campanha”. Bem, agora é um momento crítico, e a decisão dele provou ser um tiro no pé. Este candidato, que prometia um estilo de democracia novo e aberto, está escondendo mais de onze anos de memorandos e documentos do único cargo importante que já ocupou.
Então, aqui estamos, no início de dezembro de 2003, e os altos funcionários de campanha tomaram a decisão de se encontrar com o governador para pedir que os registros fossem liberados. Aproximadamente 15 dos dirigentes da campanha, se reuniram na longa sala de conferência do terceiro andar de um velho edifício de escritórios em South Burlington, Vermont – onde essa campanha rebelde teve seu improvável crescimento. Nós explicamos que tudo está prestes a atingir um ponto crítico, e que estamos sob um novo tipo de pressão. Agora ele é o líder da corrida – tudo que ele faça ou diga irá atrair um novo escrutínio – e ele não pode falar por um canto da boca que quer moralizar a política, enquanto pelo outro canto ele diz que seus próprios arquivos estão intocáveis por uma década.
Nós dizemos a ele que isso está começando a transparecer nas pesquisas. Nós podemos sobreviver a muitas coisas, mas não podemos suportar que as pessoas o vejam, simplesmente, como outro político duas-caras. A campanha “Dean for America” é a antítese disso... uma candidatura enraizada em quebrar as antigas regras e em fazer o povo acreditar na política novamente.
“O senhor tem que liberar esses arquivos, Governador.”
“Mas não há nada lá.”
“Exatamente por isso nós temos que libera-los.”
“Mas porque deveríamos libera-los se não há nada lá?”
E vamos assim, em círculos, até que o governador Dean – de quem a teimosia poderia ser candidata à vice – acaba com o debate dizendo que ele não agüenta mais falar sobre aquilo. “Eu preferiria me retirar da corrida a liberar aqueles registros”.
Nós ficamos quietos. O líder da campanha presidencial Democrata de 2003 está ameaçando desistir, enquanto ele ainda detém o primeiro lugar. A reunião termina, o governador Dean olha em minha direção e engasga as palavras, “Siga-me, Joe”.
Eu tento acompanha-lo, mas ele está caminhando a passos largos pelo corredor em direção ao meu escritório, e eu andando de um lado para o outro, alguns metros atrás, acalmando assessores de campanha enquanto me movia pela passagem.
Meu escritório fica no canto do terceiro andar, uma sala pequena e alongada –com uma pilha de papel caída, caixas de CD e latas vazias de Diet Pepsi.
“Você fez isto muito fácil”, ele consegue dizer.
“O quê?”, eu pergunto.
“Isto. Eu nunca pensei que iria tão longe. Eu ia me apresentar, apontar a saúde pública como um problema, balançar o Partido Democrata. Ajudar a mudar o país. Mas nunca imaginei que isso fosse acontecer. Você não entende?” Ele se volta para mim. “Eu nunca pensei que realmente pudesse ganhar, Eu queria... mas nunca pensei que realmente pudesse acontecer”. 1
EXPLOSÃO DE PODER
Passei minha vida indo de uma eleição para a outra, vivendo de pastas, quartos de hotéis, carros alugados, dormindo em sofás, batendo em portas, distribuindo panfletos nas vizinhanças, escrevendo propagandas, discursos e respostas rápidas para debates tentando eleger uma sucessão de democratas para todo tipo de cargo imaginável – de procuradores a senadores, de prefeitos a diversas tentativas mal sucedidas de eleger alguém a presidência dos Estados Unidos.
Em vinte e oito anos eu provavelmente trabalhei em mais de 100 campanhas. Ganhei mais do que merecia, algumas que não deveria ter ganhado; e perdi algumas que, até hoje, partem meu coração. Eu quase dei a minha vida por alguns candidatos, uns poucos que pareciam nascidos para liderar e outros para os quais eu tive que abrir o tortuoso caminho sozinho.
Ocasionalmente eu trabalhava para algum candidato que me fazia relembrar o idealismo de quando eu comecei a me interessar por política – um garoto de 11 anos assistindo pela TV enquanto Bobby Kennedy saía do palco para seu assassinato. Um corredor de mãos, pretas e brancas e marrons, suplicando a ele, por mais do que apenas seu plano de sumir com a pobreza ou acabar com a guerra no Vietnam. Mãos que pareciam suplicar por algum tipo de salvação.
Como muitos dos insanos que praticam a política como uma carreira, para mim, antes de 2003, o candidato era sempre a coisa mais importante durante uma eleição. Eu faria qualquer coisa por um candidato. Trabalharia a exaustão. Usaria toda e qualquer ferramenta disponível. Escreveria propagandas acintosas para a televisão que fariam o oponente parecer um sociopata poluidor que aceita propinas, odeia o serviço de assistência social e se esgueira toda noite para encontrar-se com empresários inescrupulosos e assassinos condenados.
E aí isto aconteceu.
Quando a candidatura de Howard Dean finalmente se estraçalhou (não em uma plantação de milho, como eu havia previsto, mas no palco de uma casa de festas em Iowa), um cínico consultor de campanha de meia-idade, que pensou que já tinha visto de tudo, que já sabia de tudo, que era um profissional que vivia de ganhar eleições a todo custo; aprendeu a lição mais profunda e inesperada de sua existência.
Dessa vez não tinha nada a ver com o candidato. Tinha a ver com as pessoas. Isto nunca tinha tido nada a ver com ele. Elas é que eram importantes.
Algo espantoso aconteceu nas eleições presidenciais de 2004: pela primeira vez na minha vida, talvez a primeira vez na história, o candidato perdeu, mas sua campanha foi vitoriosa.

Quando o governador Dean parou no meu escritório e admitiu que nem ele esperava que confiassem nele como candidato democrata à presidência, ele disse o que eu já sabia há meses. Que isso era demais para ele. E certamente demais para mim também. Muito mais importante do que partido democrata. Mais importante até do que determinar quem concorreu contra George W. Bush nas eleições gerais.


Isto foi nada menos do que o primeiro tiro da segunda revolução americana. Nada menos do que o povo dando o primeiro passo para reclamar o sistema que há muito tinha esquecido da existência dele.
A campanha “Dean for America” chegou no momento certo – um ponto extremo em nossa história, quando 40 anos de um sistema corrupto tinha reduzido a política ao seu elemento mais básico – a corrida para levantar fundos provenientes de 0,25% dos americanos mais ricos e de doadores corporativos em troca do controle político do país. Então o lado com mais dinheiro simplesmente comprava a maioria das propagandas televisivas para manipular a maioria das pessoas – enquanto as pesquisas de opinião, grupos de foco, e testes de recepção refinaram a luta a alguns poucos eleitores indecisos em meia dúzia de localidades-chave em alguns Estados estratégicos - desfocando qualquer diferença significante entre os rígidos e impenetráveis partidos e destruindo a chance de um debate honesto sobre questões como o sistema público de saúde e a Guerra do Iraque – até que os discursos de todos os candidatos soassem exatamente iguais, e um membro de cada agremiação pudesse orgulhosamente ficar de pé e dizer que seu partido havia aprovado uma Lei pelos direitos dos pacientes – uma lei absolutamente insignificante que, incidentalmente, não irá prover cuidados médicos para nenhum americano.
Se existe um esquema para esse tipo minucioso, criterioso e cínico de política e governo, ele foi montado pela administração de George W. Bush. Simplesmente diga aos eleitores que você será misericordioso e então passe o comando para os ricaços que assinaram os cheques. Entregue a economia aos interesses pessoais. Ofereça o meio-ambiente às companhias petrolíferas. Trave uma guerra pelas pessoas que lhe deram o dinheiro.
Atrás da cortina dessa política negociada, campanhas se tornaram mais venenosas, mais conscientes do poder a mídia, mais tecnologicamente avançadas, mais caras, intensas, longas, maiores e mais fortes em todos os aspectos, exceto um.
Em algum lugar do caminho, eles perderam os eleitores.
Enquanto a televisão revolucionava as campanhas políticas, as pessoas começaram a ver as eleições da mesma forma que viam qualquer outro produto que alguém tentava vender a eles – um novo Chrysler, um novo hamburger, sapatos... Eles desligaram. Quando as redes de TV anunciam as eleições antes mesmo que as primeiras pesquisas sejam realizadas, quando eles transformam nosso sistema político em apenas outro programa televisivo (e nem tão bom assim, uma mistura entre o mundial de Luta Livre e o Big Brother) tudo o que eles conseguem é incentivar as pessoas a trocar de canal.
E é isso que nós fizemos. Trocamos de canal.
Desde aquele momento inicial quando assisti Robert Kennedy declarar a vitória e então caminhar em direção a morte – em 1968 – até agora, o envolvimento dos americanos em todos os níveis da política caiu abruptamente. Não estou apenas falando da diminuição do número de eleitores no pleito (que caiu de 62.8% em 1960 para menos de 50% atualmente). A porcentagem de pessoas que trabalham para partidos políticos também sofreu uma queda vertiginosa de cerca de 42% nos últimos 30 anos. O número de pessoas que auxiliam comitês para organizações locais caiu em 39%. Trinta e cinco por cento menos pessoas participaram de audiências públicas. E o número de espectadores em comícios ou discursos caiu em 34%.2
Por todo o país, americanos – afetados por um processo que sufoca qualquer esperança – têm abandonado a política em bandos.
Eu devia saber. Eu era um deles.
Enquanto continuei trabalhando na política pelos anos 90 – na maioria das vezes fazendo propagandas de TV para candidatos ao Congresso e ao Senado – eu me afastei da gerência de campanhas e comecei a perseguir outra paixão: tecnologia. Trabalhei para várias companhias de computadores e internet, um negócio arriscado, inovador e atual, que jogou fora os antigos padrões e começou a procurar por novos meios para fazer coisas.
Sendo um viciado em política de corpo e alma, no fim dos anos 90 comecei a sonhar com uma campanha que seria conduzida da mesma forma que essas empresas revolucionárias. Não de cima para baixo, com um orçamento de $200 milhões para propaganda televisiva e um comitê diretor distante. Mas de baixo para cima: uma campanha conduzida pelo povo.
E foi aí que apareceu Howard Dean. Uma zebra. Tão deslocado dentro da corrida, que não tínhamos outra chance senão testar essa estratégia, que misturava minhas duas paixões trazendo para o mundo da política os conhecimentos que adquiri no mundo da tecnologia. Levando a democracia ao último lugar onde ela ainda tinha uma chance.
A internet.
Estaria mentindo se dissesse que, quando tive a idéia de usar um site obscuro chamado MeetUp.com para conectar os apoiadores da campanha por todo o país, eu imaginava que em 1 ano teríamos 600.000 pessoas passionalmente comprometidas com a nossa causa. Que essas pessoas iriam erguer o único candidato que realmente parecia ter convicções, que rejeitava a velha politicagem, que levou o povo a sério, engajando-o e investindo autoridade a ele no único lugar onde as pessoas poderiam encontra-la, no único lugar onde a onipresença da televisão não podia distorcer sua mensagem: nos boletins online, sites, salas de bate-papo, e blogs.
Certamente eu sabia que os políticos eventualmente chegariam a esse ponto, assim como todos os outros aspectos da sociedade irão eventualmente se render ao espaço virtual. Por anos eu via que todos os ingredientes estavam lá para quebrar as regras de um sistema político decadente e instalar no lugar algo interativo e revolucionário.
Mas eu também estaria mentindo se dissesse que Howard Dean foi a única pessoa no meu escritório naquele dia, a ficar estupefata com a repentina explosão de energia dos americanos para tomar de volta o sistema que tinha falhado miseravelmente em atende-los.
MILAGRE.COM
Todos já sabem como a campanha de Dean terminou. Com o vídeo de um descabido entusiasmo de última hora (“E Oklahoma! E Arizona! E North Dakota”[6]). Desafiadas por algo que elas não criaram, nunca entenderam e não podiam controlar, as redes de TV e canais de notícia esticaram seus músculos atrofiados e repetiram o clipe inúmeras vezes, como aconteceu com as imagens do atentado a Ronald Reagan, da explosão do ônibus espacial Challenge, do Lincoln de John Kennedy fazendo seu triste trajeto pelas ruas de Dallas em 1963 e do míssil com sensores de temperatura na primeira Guerra do Golfo, movendo-se em zigue-zague pela escuridão e atingindo seu alvo, de novo e de novo. Às vezes em câmera lenta.
Foi difícil não perceber o prazer malicioso com o qual a velha mídia reproduziu aquela cena.3
Nos dias e semanas que se seguiram ao fim da campanha de Dean, as críticas contra o governador e seu exército de seguidores foram duras.
Seu breve momento de notoriedade tinha sido um acaso. Um pequeno susto. Acima de tudo, tinha sido apenas outra moda da internet, um desastre pontocom – de grande capital, mas pouca substância.
Isso está simplesmente errado. Foi, isso sim, um milagre pontocom.
Na verdade foi uma impressionante vitória que irá repercutir por muito tempo, mesmo depois que a eleição de 2004 já tiver sido esquecida.
Foi a primeira salva de tiros de uma revolução. O som de centenas de americanos desligando as suas televisões e adotando a única forma de tecnologia que lhes permite participar novamente, ganhar controle de um processo que os alienou décadas atrás. Nas próximas semanas, meses e anos, essas centenas de milhares de pessoas serão seguidas por milhões, e essa revolução não ficará satisfeita em subverter um sistema político corrupto e irresponsável. Não vai se resumir a uma reformulação política. E não se importará com fronteiras nacionais.
De fato, se todos os empresários e líderes civis de todos os setores da economia e da sociedade não esperarem por surpresas – como Howard Dean – das pessoas que eles têm tratado com total condescendência, eles não estão prestando atenção. Qualquer negócio que gaste $20 milhões com publicidade para TV e apenas $20.000 para colocar no ar um website estático que é atualizado uma vez por mês, deve tomar cuidado. Toda instituição que não entender que a tecnologia chegou para permitir que as pessoas rejeitem o que está sendo oferecido a elas e exijam o que elas querem deve começar a ficar atenta.
O próximo alvo da revolução é você.
Quando a campanha de Dean chegou ao fim e eu comecei a escrever esse livro, várias pessoas me perguntaram se seria um diário padrão de campanha. Uma confissão, contendo os detalhes sórdidos dos bastidores e sobre os erros e acertos que fizemos entre a dramática escalada e a queda repentina de Howard Dean.
Essas pessoas ainda não entenderam.
A verdade dessa campanha, a “confissão”, os detalhes sórdidos dos bastidores, são estes: uma mulher que vendeu sua bicicleta pela democracia e inspirou centenas, talvez milhares, de pessoas a fazer o mesmo; um homem que arrecadou $400.000,00 em uma semana não fazendo nada além de enviar e-mails; um senhor de 89 anos que disse ter perdido a razão de viver até que a campanha de Dean preencheu novamente sua vida com uma razão e um propósito cívico,
Sim, este livro é o relato de uma campanha presidencial arriscada. Mas vai muito além disso.
Para mim, é a história de uma pessoa que passou a vida conciliando dois mundos completamente diferentes – política e tecnologia – e de um dia para o outro descobre que está no lugar exato onde esses mundos estão prestes a se encontrar, a se chocar e começar a reverter 50 anos de cinismo político em uma gloriosa explosão de engajamento cívico.
É a história de dezenas de pessoas comprometidas que lançaram uma campanha política diferente de qualquer outra que já existiu. É sobre nossos acertos, nossos erros e as lições que aprendemos e que podem ser aplicadas a qualquer pleito, qualquer produto e qualquer problema nos Estados Unidos. É sobre o homem que nós apoiamos, um político que teve a coragem de questionar a história do país, quando todos os outros pareciam não querer nada além de escondê-la.
Acima de tudo é a história de pessoas que se ergueram e se fizeram escutar. É a história de como engajar esses americanos em um diálogo verdadeiro, como alcança-los dentro de suas casas, como parar de vender para eles e começar a ouvi-los. Como fazer uso da idéia mais revolucionária que surgiu desde que o primeiro homem acendeu uma fogueira.
Não. Não estou falando da internet. Nem de computadores. Ou de telecomunicações.
Estou falando de democracia.

Notas do autor:
1 Algumas versões um pouco diferentes dessa história têm aparecido na mídia com citações de Howard dizendo que ele não queria ser presidente. Aparentemente não é um fato importante que apenas eu e Howard Dean estávamos na sala naquele momento.
2 Robert D. Putnam, Bowlinig Alone: The Collapse and Revival of American Community (New York: Simon & Schuster, 2000).
3 Claro que a internet também teve um grande papel na difusão do discurso “I Have a Scream”[7], provando, de forma perversa, o quão poderosa essa nova mídia se tornou.
Notas de tradução:
[1] “For the better part of a year, (…)” Não conhecia bem essa expressão. Achei que o termo “Por quase um ano (...)” seria adequado no contexto.
[2] “(...) a bunch of chicken-dinner donors”. Não consegui nenhuma tradução para essa expressão. Eu entendo que seria algo como “pessoas que doam pequenos valores”.
[3] *Caucus: S. m. Pol. Nos Estados Unidos, reunião particular ou preliminar dos chefes de um partido político a fim de escolher candidatos, adotar medidas, etc.
[4] *Síndrome de Tourette: Síndrome de Tourette é uma desordem neurológica ou neuroquímica caracterizada por tiques involuntários, reações rápidas, movimentos repentinos (espasmos) ou vocalizações que ocorrem repetidamente da mesma maneira. Infelizmente a reação de muitas pessoas desinformadas perante manifestações da síndrome de Tourette é aquela de fobia ao diferente. Ainda mais, às vezes, a reação é de repreensão. Isso ocorre especialmente quando a pessoa afetada pela síndrome de Tourette manifesta sintomas de coprolalia. A coprolalia enquandra aqueles indivíduos que, além de outros sintomas de Tourette, se vêem obrigados a repetir palavras obscenas e/ou insultos. Obviamente as conseqüências desse tipo de comportamento geralmente se traduzem em diferentes graus de desvantagens no âmbito social.
A utilização desse termo faz referência à fama que Howard Dean tinha de ser uma pessoa nervosa, o que gerou muitas das gafes e constrangimentos citados no texto.
[5] “Twist and shout”: canção escrita por Phil Medley e Bert Russell, posteriormente gravada por várias bandas, inclusive os Beatles. Em tradução literal significa “torcer e gritar”. No texto ele faz referência à música para ilustrar que a imprensa distorce (twist) e anuncia/publica (shout) a frase distorcida.
[6] Essa citação foi tirada do discurso feito por Howard Dean em um comício logo após a inesperada derrota no caucus de Iowa, onde ele liderara as pesquisas na semana anterior. Howard fez um discurso exaltado que terminou com um grito eufórico. A opinião pública criticou severamente o discurso classificando-o como inadequado, embora essa classificação tenha gerado uma certa polêmica, já que algumas pessoas acreditam que ele foi coerente ao clima geral no auditório. Certos analistas acreditam que foi esse evento o principal responsável pela queda abrupta de Dean. O episódio ficou tão famoso que dele nasceu um jargão político: o “Dean Scream”.
[7] “’I Have a Scream’ speech” é um trocadilho com o famoso discurso de Martin Luther King “I Have a Dream” sobre segregação racial nos Estados Unidos.


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