A roupa nova do imperador



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DISCURSOS HISTÓRICO E POLÍTICO EM TEXTO DE JORNAL E LITERÁRIO-INFANTIL: RELAÇÕES INTERTEXTUAIS ENTRE “A ROUPA NOVA DO IMPERADOR”, “SARABANDALHA” E “O REI QUE NÃO SABIA DE NADA”
Leandro Tafuri – Bolsista ICV/ PET-Letras – letafuri@hotmail.com

Luciana Fracasse, e-mail: lfracasse@yahoo.com.br (orientadora)


PALAVRAS-CHAVE: Intertextualidade, Discursos Político e Histórico, Ironia.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo analisar as vozes que emanam dos textos “Sarambadalha” de Walcyr Carrasco, veiculado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 31 de julho de 2005, e “O rei que não sabia de nada”, livro infantil de Ruth Rocha, a fim de delinear os discursos histórico e político, bem como estabelecer as relações intertextuais com o conto “A Roupa nova do Imperador”, de Hans Christian Andersen.

INTRODUÇÃO
O presente trabalho tenciona, ancorado nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso de linha francesa perscrutar as vozes que ecoam nos textos “Sarambadalha” de Walcyr Carrasco, veiculado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 31 de julho de 2005, e “O rei que não sabia de nada”, livro infantil de Ruth Rocha (2003), publicado pela primeira vez em 1979. Estas obras trazem elementos intertextuais com o conto dinamarquês “A roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen (2001). No conto desenvolvido por Ruth Rocha percebemos elementos que delineiam implicitamente um discurso histórico, marcado pela ditadura militar pela qual a sociedade brasileira passava, entrecruzando-se com o lúdico e maravilhoso característicos da obra infantil.

Dentre os objetivos propostos nesse trabalho, destacamos a necessidade de se delinear e caracterizar os discursos político e histórico por meio da intertextualidade entre os textos “Roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen, “Sarabandalha”, de Walcyr Carrasco e “O rei que não sabia de nada”, de Ruth Rocha; evidenciar os elementos políticos e históricos contido nestas obras citadas inseridas em um determinado período da recente história brasileira; perscrutar as vozes, por ora silenciadas, de acordo com Orlandi (1989), no discurso de Walcyr Carrasco e no de Ruth Rocha; traçar um paralelo entre o “Príncipe Lulu”, de Sarabandalha, personagem figurativizador do presidente Luis Inácio Lula da Silva, e o “Rei”, de O rei que não sabia de nada.


MATERIAIS E MÉTODOS
Num primeiro momento, esta pesquisa de caráter qualitativo, contou com o levantamento bibliográfico e fichamentos deste material. Após esta etapa, confrontamos os corpus selecionados com as respectivas referências. Para tanto, mobilizamos os pressupostos teóricos da Análise do Discurso de linha francesa, em especial Orlandi (2001 e 2002) e Pêcheux (2002). Nosso corpus de análise consiste do conto maravilhoso “Roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen; “Sarabandalha”, de Walcyr Carrasco, veiculado pelo jornal Folha de S.Paulo em 31 de julho de 2005, no caderno Folha Ilustrada; e, “O rei que não sabia de nada”, de Ruth Rocha, publicado pela primeira vez em 1979.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
“Sarabandalha” foi escrito em conseqüência do episódio do escândalo do Mensalão, onde o Deputado Federal Roberto Jefferson declarou existir o pagamento mensal aos deputados do PP e do PL, no valor de R$30 mil. Após algum tempo das investigações da CPI dos Correios, Jefferson foi cassado, outros parlamentares renunciaram ao mandato. Outro fato que fica evidente no texto de Walcyr Carrasco é a dúvida que pairou sobre o presidente Lula, pois, afinal, ele sabia ou não do esquema? O discurso de Carrasco se pauta pelo humor para retratar o escândalo do mensalão que marcou o período no país, figurativizando a imagem do presidente Luis Inácio Lula da Silva através da personagem Príncipe Lulu. Por se tratar de um novelista, o autor “noveliza” seu discurso político/histórico.

Andersen, em “A Roupa Nova do Imperador” sintetizou simbolicamente as relações que regiam uma sociedade, as de poder e de cobiça. A aparência é eleita pelos nobres e, principalmente, pelo Imperador como verdade suprema, instaurando desse modo a hipocrisia nas relações sociais que expõem as mazelas de uma sociedade temerosa de sua própria estupidez e inutilidade.

Numa clara relação intertextual, de acordo com Fernandes (2007), com o conto do dinamarquês Hans Christian Andersen “A roupa nova do imperador”, a autora traz elementos da história de seu tempo, como a ditadura militar. Trechos da obra explicitam claramente esta fase “[A máquina] Controlava as aulas nas escolas, as estações de TV, os filmes nos cinema...”, ou “em vez de imprimir jornal, ela picou ele todinho. Deu outra encrenquinha nela, os sinais de trânsito do país inteirinho ficaram vermelhos”. Neste trecho, que se refere aos sinais vermelhos fechados, percebe-se outra relação intertextual com a música “Como os nossos pais”, de Belchior, composta em 1974. Maingueneau (1997) entende intertextualidade como a relação de um texto com outros previamente existentes, efetivamente produzidos. Neste caso, ocorre uma intertextualidade implícita, pois cabe ao interlocutor recuperar a fonte na memória para construir o sentido do texto.

O conceito de intertextualidade da Análise do Discurso se refere à relação que se estabelece entre dois ou mais textos, quando um deles faz referência a elementos existentes no outro, elementos estes que podem dizer respeito à forma, ao conteúdo, ou a ambos. Observa-se, diante desta relação intertextual, ainda, um dos elementos característicos da obra de Andersen que é a “derrota final” do personagem. Por detrás do maravilhoso, há a denúncia que o mal que assola os homens é forjado pelos próprios, e não por seres sobrenaturais. A “derrota final”, em “Sarabandalha” ocorre com a desmoralização do príncipe Lulu diante de um povo que percebe, por meio da “inocência” de uma criança, que estava sendo enganado. Evidenciando-se as relações intertextuais entre “Sarabandalha” e “A Roupa Nova do Imperador”, se observa a sátira às mentiras de que os homens se utilizam para enganarem-se uns aos outros.


CONCLUSÕES
Por meio do texto “Sarabandalha”, se constrói, com recursos parafrásticos e intertextuais, a imagem do presidente Lula, sob a perspectiva do personagem Lulu, como sendo uma pessoa manipulável, um verdadeiro cachorrinho de madame. O que é reforçado pelo nome dado ao personagem, que ganha tons caricatos, por seus gestos e ações.

No conto desenvolvido por Ruth Rocha ecoam vozes que delineiam implicitamente um discurso histórico, marcado pela ditadura militar pela qual a sociedade brasileira passava, entrecruzando-se com o lúdico e maravilhoso característicos da obra infantil.

A partir da breve análise destas obras, evidenciou-se que os discursos político e histórico nos saltam aos olhos somente após uma leitura mais atenta e que tais relações intertextuais somente são possíveis por meio das aproximações com outros textos, ou seja, na base do dizível.

REFERÊNCIAS
ANDERSEN, Hans Christian. A roupa nova do imperador. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

CARRASCO, Walcyr. Sarabandalha. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 jul 2005. Ilustrada, p. 6.

FERNANDES, Claudemar Alvez. Análise do Discurso: reflexões introdutórias. São Carlos: Claraluz, 2007.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. 3 ed. Campinas: Pontes, 1997.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. Silêncio e implícito. In: GUIMARÃES, Eduardo. História e sentido na linguagem. Campinas: Pontes, 1989, p. 39-46.

________. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 3 ed. Campinas: Pontes, 2001.

_____. As formas do silêncio: nos movimentos dos sentidos. . 5. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2002.

PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni P. Orlandi. 3. ed. Campinas: Pontes, 2002.



ROCHA, Ruth. O rei que não sabia de nada. São Paulo: Salamandra, 2001.


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