A sabedoria de integrar a sombra



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A SABEDORIA DE INTEGRAR A SOMBRA


Emma Martínez Ocaña

Tradução: Júlio Martin

Caderno 13



Curso organizado pela Fundação Betânia

7 e 8 Junho 2008
A SABEDORIA DE INTEGRAR A SOMBRA1

Lisboa, 7- 8 Junho 2008.


Orienta: Emma Martínez Ocaña
1. Conceito de sombra.
2. Diversas formas de sombra.
3. Como se forma a sombra.
4. O longo caminho para reintegrar a sombra.
4.1- Reconhecê-la.

A. Estratégias para reconhecer a própria sombra.

B. A projecção - um lugar privilegiado para reconhecer a sombra.

C. Diversas manifestações da projecção.

D. Como reconhecer a sombra do próximo.
4.2- Reconciliarmo-nos com ela.

A. Evitar três becos sem saída.

B. Voltar a tomar posse das próprias projecções.

       C. Saber manejar a emergência progressiva da sombra.


4.3- Reintegrá-la.  

  A. Condições para cumprir o trabalho de reintegração da sombra e do eu consciente.

 B. Estratégias para reintegrar a sombra.
5.  A sombra e o processo de crescimento espiritual.

5.1 Erros a combater na espiritualidade tradicional em relação à sombra.
5.2 A culpa e o processo de reintegrar a própria sombra.
5.3 A santidade e a aceitação dos aspectos não queridos de nós próprios.
5.4 A sombra como um tesouro escondido.
5.5 A integração da sombra - um caminho de tornar verdade a vocação cristã de ser plenamente pessoa.

1. CONCEITO DE SOMBRA.

 Na realidade este conceito é uma metáfora, introduzida por Jung, para descrever o material pessoal que, inconscientemente, temos rejeitado, relegado e enviado para o inconsciente pelo temor a não sermos aceites, reconhecidos, queridos… pelas pessoas que desempenharam um papel determinante na nossa vida e na nossa educação.


Jung narra assim como foi a sua descoberta da sombra:

Tive um sonho que me assustou e me animou ao mesmo tempo. Era de noite, e encontrava-me num lugar desconhecido. Avançava com dificuldade contra um forte vento. Uma densa bruma cobria tudo. Nas minhas mãos em forma de taça, tinha uma débil luz que ameaçava extinguir-se a todo o momento. A minha vida dependia dessa débil luz, que eu protegia preciosamente. De repente, tive a impressão de que algo avançava atrás de mim. Olhei para trás e apercebi-me da forma gigantesca de um ser que me seguia. Mas ao mesmo tempo estava consciente de que, apesar do meu terror, devia proteger a minha luz através das trevas e contra o vento. Ao acordar dei-me conta que a forma monstruosa era a minha sombra, formada pela pequena chama que tinha aceso no meio da tempestade. Sabia também que aquela frágil luz era a minha consciência, a única que possuía. Confrontada com o poder das trevas, era uma luz, a minha única luz”[1]

 

O conceito de sombra em Jung é incompreensível sem entender o seu conceito de “persona” ou “ego ideal”. A origem do conceito jungiano de persona é a noção de prosopon, com a qual se designa no teatro grego a máscara que os actores usavam para encarnar uma personagem. A partir de Jung, o conceito de “persona” significa mais precisamente o eu social resultante dos esforços de adaptação realizados para observar as normas sociais, morais e educacionais do seu meio. A persona lança fora do seu campo de consciência todos os elementos - emoções, traços de carácter, talentos, atitudes - julgados inaceitáveis para as pessoas significativas do seu meio. Esse mecanismo produz no inconsciente uma contrapartida de si mesmo a que Jung chamou “sombra”.



Para conseguir a aprovação dos outros, rejeitamos o que nós acreditávamos não ser aceitável para eles que, por esta razão se converteu em rejeitável para nós próprios. Esse não aceitável tanto pode ser positivo como negativo[2].

Por tanto a sombra está configurada por tudo aquilo que não encaixa com a imagem de nós próprios que queremos dar aos outros, não encaixa com as expectativas que acreditamos terem aqueles pessoas às quais queremos agradar, para conseguir a sua aprovação e carinho, ou então, não encaixam com os “princípios” que escolhemos para nós próprios.

Em contraste com a sombra, que é o rosto que ocultamos, a “persona” ou a máscara, é o eu público, o semblante que mostramos ante o mundo. Aferramo-nos à máscara porque acreditamos que é o mais valioso que possuímos. “Quanto mais brilha a nossa máscara, mais escura é a nossa sombra”.

Quanto maior for a distância entre a imagem do que queremos ser e o que na verdade somos, mais nos invadirá a ansiedade, por temor a que outros calem o nosso ser.

A sombra produz-nos medo porque, se aparece, ameaça a nossa imagem aceitável. Tanto mais ameaçar-nos-á quanto mais tenhamos lutado por conseguir uma imagem ideal de nós próprios.

Para Jung, a sombra é um tesouro escondido no nosso campo, uma fonte potencial de riqueza que não está ao nosso alcance porque a mantemos enterrada. O que não queremos ser contém precisamente aquilo que nos faz ser completos.

Martínez Lozano diz que na realidade a sombra é “o meu outro eu”.[3]. “É o pólo oposto à nossa personalidade consciente.”[4]

            Para nomear a sombra usa-se também a metáfora do “saco dos desperdícios”. [5] Metáfora que introduziu Robertt Bly, que sustenta que de cada vez que se rejeita uma emoção, qualidade, um traço de carácter, um talento, etc, é como se essas partes de si próprio fossem atiradas para um saco de desperdícios. Durante os primeiros 30 anos, o indivíduo está ocupado em enchê-lo com elementos ricos do seu ser; com o tempo, o saco torna-se cada vez mais pesado e difícil de encher. Será necessário rebuscar dentro, durante o resto da vida, para recuperar e tentar desenvolver os aspectos da pessoa, que nós próprios escondemos nele.

            Se não se forem recuperando essas partes de nós próprios, o conteúdo do saco acabará por esmagar-nos com o seu peso: a pessoa então encontrar-se-á sem forças, deprimida, sentirá um grande vazio interior, uma grande ansiedade, que às vezes acaba por gerar uma depressão.

Os elementos atirados para o “saco dos desperdícios” não estão inactivos mas sim “fermentando” e querendo sair. Isso consome uma grande quantidade de energia psíquica que fica aprisionada e provocará obsessões, angústias ou atormentar-nos-á projectando-se no exterior.

O fenómeno da sombra é muito complexo e a ela pertencem: o reprimido, o mecanismo específico de defesa que a protege, as reacções posteriores desencadeadas, tais como a tensão, o desgaste de energia, as projecções…

A sombra pugna sempre por sair para o exterior.

Tudo isso acontece através de mecanismos inconscientes, por isso a sombra é tão difícil de detectar e cada vez nos afasta mais do nosso autêntico ser. Uns mecanismos feitos de medo e de desprezo ao próprio ser, fazendo-o crer não tolerável, e por isso queremos dar uma imagem diferente.
2- DIVERSAS FORMAS DE SOMBRA.
Embora não seja original de Jung diversos autores, entre eles os dois que estamos a seguir[6] falam “da sombra negra e da sombra branca”.

A sombra negra provém de todo o instinto rejeitado, por considerá-lo negativo. Por exemplo, é frequente rejeitar a sexualidade e a agressividade como realidades perturbadoras. Manifesta-se sobretudo nas pessoas que adquiriram uma reputação de rectidão e de virtude. Às vezes, a sombra negra que quiseram ignorar subleva-se contra os valores transmitidos pelo meio envolvente assumidos pela pessoa, e revela-se como rebeldia, rivalidade, inveja, ciúmes, desejo de dominação, pulsões sexuais mal controladas…

A sombra branca provém da falta de desenvolvimento ou da rejeição de uma qualidade, tendência virtuosa e espiritual que a pessoa acreditou perceber ou percebeu como perigosa ou que não encaixava no seu entorno. Tem a sua origem na pressão que o meio familiar e social exerceu desde muito cedo na pessoa ao impor normas de conduta e atitudes determinadas que faziam valiosas umas condutas e não outras, reconhecia umas qualidades e rejeitava outras.
Monbourquette adiciona outras categorias de sombra de acordo com os meios que a engendraram.
Sombra familiar: as famílias transmitem não somente valores e convicções positivas, mas também zonas de sombra resultantes das rejeições colectivas. Há famílias onde algumas emoções são proibidas, ou a exploração de determinada qualidade ou talento. Estas proibições têm força de lei na família. Geram-se mecanismos de rejeição, inclusivamente não verbais, que trabalham de forma inconsciente, com uma maior força de persuasão.

Às vezes a sombra de uma família concentra-se num dos seus membros: “a ovelha negra” que não é mais do que um reflexo da disfunção familiar. Por exemplo, a irresponsabilidade e a frivolidade de um dos seus membros podem pôr de manifesto o lado demasiado sério e rígido da família.


Sombra institucional

As comunidades humanas inclinam-se a privilegiar alguns valores em detrimento de outros, que consideram inúteis ou inclusivamente maus.

A sombra de um fundador de uma comunidade, com os seus tabus e as suas proibições, deixa o seu rastro na sombra do grupo.

Uma instituição incapaz de reconhecer a sua sombra, desviar-se-á pouco a pouco dos seus objectivos. Mas, pior ainda, é que, fascinada completamente pela sua sombra, somente conseguirá promover o que tenta evitar.


Sombra nacional.

Também existem sombras à escala nacional. Quanto mais uma nação se isola mais cega se torna à sua sombra colectiva, quer dizer, os seus defeitos, deficiências, e tanto mais tenderá a projectar os seus medos e repugnâncias sobre as nações vizinhas.



3- COMO SE FORMA A SOMBRA.[7]
A sombra forma-se como exigência do processo de socialização e a necessidade de dar aos outros uma imagem que seja reconhecida e valorizada. O que a pessoa vive como não aceitável relega-o para a sombra. Procurando o amor e o reconhecimento dos outros, a pessoa, de forma inconsciente, renuncia a ser ela própria para ser o que acredita que esperam dela. Quando fomos crianças chamaram-nos bons se fazíamos uma série de coisas, e maus se fazíamos outras, e assim fomos aprendendo a esconder e a relegar aquilo que nos trazia desaprovação ou castigo. Na verdade todo o processo de socialização e adaptação à realidade, o fazemos deslocando para o inconsciente aquilo que vemos como um obstáculo para o êxito da aceitação e do reconhecimento na família, no grupo, na escola, no grupo de amigos…

Toda a sombra contém um núcleo muito doloroso porque a sua criação provém de uma necessidade infantil frustrada. Para compensar o vazio desta necessidade provocam-se convulsões e substituições das necessidades pendentes.

Se no processo de socialização se produzem feridas afectivas, a construção do eu social irá acompanhado de mecanismos muito dolorosos: culpa, indignação, vergonha, perfeccionismo. A criança sentiu: não é bom que eu seja eu próprio. Essa emoção provoca um sentimento de vergonha tóxica, sentimento de ser um ser imperfeito, de não estar à altura. O que se segue é um “luto crónico” por essa perda, juntamente com o esforço de construir um eu aceitável. Mas também não consegue o reconhecimento que necessita porque há sempre traços da sua pessoa que não agradam aos outros. O caminho que lhe resta é negar o que lhe repreendem.

Os traços negados - aqueles aspectos do seu falso eu que resultam ser demasiado dolorosos para serem reconhecidos como próprios – convertem-se num eu alienado.

A criança padece um processo no qual a natureza unificada e espontânea com que nasceu, se vai fragmentando até acabar convertendo-se em três entidades separadas:

· O eu perdido: tudo o que reprimiu, enviando-o para a sombra.

· O eu falso: a imagem que teve de criar para encher o vazio criado pela repressão.

· O eu alienado: o negativo do falso eu que é desaprovado e que tentou manter oculto enquanto o projectou sobre os outros.


Este mecanismo será a origem de muitas das reacções desproporcionadas, divisão interior, ansiedade, devida ao pânico que produz na pessoa que a sua máscara ou imagem ideal se venha abaixo.

Cuidar dessa imagem ideal ou máscara converte-se numa tirania. A máscara está protegida pelo perfeccionismo e alimentada pelo orgulho neurótico que não é mais do que medo à rejeição.



O perfeccionismo encerra o sujeito no emaranhado dos deverias e faz com que a pessoa se despreze porque se vê desde o prisma da perfeição.

O orgulho neurótico tem por debaixo a ameaça da culpa, reforçando a máscara e tornando cada vez mais pronunciada a distância com o seu ser. Aliena-se de si próprio e dos outros.

A sua luta para o desenvolvimento da sua máscara e não do seu ser provoca-lhe um profundo esgotamento psicofísico fonte de desequilíbrio e de perturbações.

Na sombra oculta-se uma criança ferida e angustiada porque não pôde ser como era, uma vez que se sentiu frustrado na sua necessidade de ser aceite como era, uma criança que se defendeu de mil maneiras, cindindo-se e tornando-se neurótica. [8]
Monbourquette como introdução a este capítulo [9] recolhe a seguinte citação de Robert Bly: “
 “Até aos trinta anos, passamos a maior parte do nosso tempo decidindo quais os aspectos de nós próprios que vamos lançar para o nosso saco dos desperdícios; depois passamos o resto da nossa vida a tentar retirá-los dele”
No processo da formação da sombra, este autor realça o mecanismo de formação de uma sombra virulenta e dissociada: Para o explicar recorda segundo a psicanálise as duas formas de inibição: rejeitar e reprimir.

Chama “rejeitar” ao facto da inibição voluntária, por ser consciente, reflexiva e voluntária não costumar criar sombra no sujeito.

No entanto “reprimir” seria o feito de lançar um potencial psíquico para o inconsciente sem ter consciência disso.

Distinguem-se dois tipos de repressão:

· O primeiro provém por falta de ocasiões favoráveis para a aprendizagem, por ignorância dos educadores… Neste caso, as pessoas não desenvolvem o seu potencial, por isso a sombra que se forma não será agressiva;

· O segundo resulta de proibições severas do entorno, acontece quase sempre como fruto de uma ferida profunda. A sua energia psíquica é atirada para as profundidades do inconsciente sem sequer se aperceber disso. Esta sombra terá uma forma virulenta e autónoma. O sujeito não a reconhece como sua e escapar-se-á ao seu controle. Uma pessoa confrontada com uma sombra deste tipo terá a impressão de estar “possuída” por uma força exterior que não pode dominar. A sombra da pessoa ferida adopta inconscientemente os traços de quem a feriu. Em consequência a pessoa ferida ver-se-á tentada a perpetuar a agressão que ela mesma sofreu. Acusar-se-á, culpar-se-á e chegará inclusivamente a mutilar-se e em casos extremos a suicidar-se. Além disso, sentirá às vezes uma necessidade compulsiva para atacar as pessoas do seu entorno.

 

Listas possíveis de proibições recebidas de maneiras directas ou indirectas:

Proibições de chegar a ser a própria pessoa: pensar por si próprio, ter tempo livre, originalidades, sentir-se amado por si próprio, estar orgulhoso de si próprio….

Proibições relativas às emoções. Quer dizer, ser proibido expressar algumas emoções, tais como: ciúmes, cólera, medo, ternura, tristeza, ser vulnerável, ter necessidades sexuais…

Proibições relativas a aprendizagens: proibido aprender, experimentar enganar-se, proibido ser inteligente e competente, proibido triunfar, etc.

Proibições relativas à intimidade: fazer amigos, ter vida íntima, manifestar afecto com palavras ou gestos, etc.

Proibições relativas à auto-afirmação: proibido expressar a opinião própria, projectos, discernir por si próprio, estar orgulhoso de si próprio, sentir-se amável, conceder-se o direito de desfrutar das suas qualidades…
É importante ter em conta que, por debaixo da sombra, há sempre medos vários: ao querer sobreviver ao meio em que cada um de nós está, tememos ser objecto de exclusão social ou familiar. Esse medo, quer seja real ou imaginário, apresenta diversas modalidades: medo de perder o afecto dos pais ou dos mais chegados, medo de ficar sozinho, medo do ridículo, medo de não ser correcto ou normal, medo de ter vergonha, etc.
O desenvolvimento da pessoa cria sempre problemas pelo dilema entre o eu social ou “pessoal” e o eu íntimo. Ou seja, o esforço que a pessoa faz para adaptar-se aos comportamentos “correctos” exigidos pela colectividade a que pertence. Existe sempre o perigo de que o eu íntimo se esconda na sombra para deixar todo o lugar e a energia à persona preocupada por ajustar-se ao mundo exterior… “A máscara não conhece a sua sombra”.

Ninguém pode escolher o ter ou não ter uma sombra. A necessidade de construir um eu social gera necessariamente a formação da sombra

Portanto o problema não é a formação da sombra, que é inevitável, mas sim que nos façamos conscientes dela. Por isso o caminho de cura é o da sua integração para unificar o nosso ser, e ser um eu total.
Em síntese a formação da sombra segue sempre, mais ou menos, o mesmo esquema:

1º A frustração mais ou mais menos importante das necessidades básicas da criança.

2º A frustração gera agressividade flutuante e generalizada em forma de sentimentos negativos que com frequência se costumam reprimir e enviar ao inconsciente (muitas vezes sentimentos dos quais ela própria se sentiu objecto).

3º Esses sentimentos fazem-na sentir a si própria como odiosa, não querida, reforçando assim a sua imagem negativa.

4º Aumenta assim a dificuldade para amar-se a si própria, que além disso geram sentimentos de culpa, com a consequente angustia e rejeição de si própria.

5º Ao longo de todo este processo vai-se formando tanto a sombra “negra” (a que é formada pelos sentimentos, atitudes negativas que teve de reprimir para sobreviver) como a sombra “branca” ou “dourada” (capacidades positivas não desenvolvidas ou que ficaram afogadas sob a laje dos sentimentos negativos da dor da frustração).


4 – O LONGO CAMINHO PARA REINTEGRAR A SOMBRA.
Não há luz sem sombra nem totalidade psíquica isenta de imperfeições. Para que seja redonda, a vida não exige que sejamos perfeitos mas sim completos; e para isso, necessita-se de um “espinho na carne”, o sofrimento dos defeitos sem os quais não há progresso nem ascensão” [10](Jung, sonhos)
Monbourquette trabalha com muita atenção este processo que é imprescindível para crescer e amadurecer unificadamente. O caminho que nos propõe é: reconhecer a própria sombra, fazer as pazes com ela, estabelecer amizade para poder reintegrá-la no nosso eu consciente e chegar a ser pessoas unificadas, integradas. Reincorporar a própria sombra é um trabalho fundamental para o crescimento psicológico, social, moral e espiritual.
O caminho que nos propõe é:

· 4.1 - Reconhecê-la, fazer-nos conscientes das piscadelas que nos faz em certos momentos especialmente significativos, como por exemplo na crise em torno da metade da vida; a sua aparição disfarçada através dos sonhos; a sua presença camuflada em muitas das nossas projecções.

· 4.2- Reconciliarmo-nos com ela, porque, como diz Jung: “é melhor ser completo do que ser perfeito”.

· 4.3 – Reintegrá-la isto é saber unificar no eu consciente as qualidades opostas da “persona” e da “sombra” à volta de “Si mesmo” ou o Eu profundo, em quem Jung vê a “imago Dei”, o princípio divino presente no coração de todo o individuo.


4.1- RECONHECER A SOMBRA
Não é fácil encontrar a sombra, porque o que é próprio dela é esconder-se no inconsciente. Já dissemos previamente que o que nos magoa não é a sombra, uma vez que todos a temos, mas sim negá-la, ignorá-la.

A meio da vida costuma acontecer de uma maneira inesperada o emergir da sombra, faz parte da crise profunda que ocorre nesta etapa da vida. O não vivido, o reprimido, começa a pedir o seu lugar na vida das pessoas, os desejos não reconhecidos revelam-se com uma força inusitada e frequentemente a pessoa perde o pé na sua própria identidade, como se tudo se lhe viesse abaixo: a imagem de si própria, crenças, desejos, valores, impulsos…




  1. ESTRATÉGIAS PARA RECONHECER A SOMBRA.

Os caminhos para reconhecê-la estão “fora” de mim”, quer dizer, que a posso ver através das minhas reacções e condutas, através dos meus sonhos e fantasias, piadas, etc.

            Vamos analisar alguns caminhos indirectos para aceder a ela:

· Deixar de negar a sua existência. É a primeira condição, pois geralmente a sombra é tão ignorada que se converte num componente oculto do ser. Portanto é fundamental reconhecer a sua presença em si próprio, como parte integrante do ser, embora seja escura, fugidia e misteriosa. Não é só deixar de negá-la, mas sim nomear como positivo o facto que nos mostre o seu rosto. A sombra é um tesouro escondido que se nos apresenta como ameaçador porque alberga o rejeitado, porque o acreditávamos ser inaceitável.

· Descobrir as nossas projecções: este é o caminho mais claro pois a sombra mostra-se sobretudo nas nossas projecções positivas e negativas, nas nossas fobias e filias, ambas sobretudo se são exageradas, falam-nos de nós próprios (a este aspecto dedicaremos uma atenção especial mais tarde). Podemos dizer quase com toda a certeza que se cumpre este axioma: verdade negada, verdade projectada.

· Analisar os sonhos. Os sonhos são os lugares privilegiados para nos encontrarmos com a sombra. A psicanálise atribuiu aos sonhos uma função compensatória dos comportamentos sociais. O inconsciente permite-se expressar aí sem moderação, tudo o que se reprime na sociedade por educação ou restrição mental. Jung diz que a sombra que habita os sonhos reveste, no geral, a forma de um personagem do mesmo sexo que o sonhador, e que faz alarde de um aspecto sinistro, ameaçador ou hostil… Outras vezes disfarça-se de animal. Outras vezes sente-se atacado, assaltado pela sua sombra… Tais sonhos indicam que um aspecto da sua pessoa está a querer manifestar-se.

· Estar atentos aos fantasmas e aos sonhos conscientes. É importante escutar os sonhos acordados e as fantasias, deixar que levantem voo, que aflorem à consciência… revelam inequivocamente a presença da sombra.

· Examinar de perto a natureza e o conteúdo do humor. Já se disse que o humor é “a verdade da sombra”. A análise do conteúdo do humor e mais ainda das reacções perante diversas formas de humor, permite identificar a natureza da sombra. O riso explica-se frequentemente pelas repressões. Vem desactivar a tensão entre a vontade de perfeição e as inclinações rejeitadas pelo super-eu. O humor descobre esse lado de si próprio que pensa ser inaceitável para o seu meio. Para captar melhor a nossa sombra através do humor, façamo-nos estas perguntas: Que situações me fazem rir mais? Em que âmbitos da actividade humana estala a minha hilaridade? As respostas a estas questões revelarão os lados reprimidos da nossa personalidade. Pelo contrário, se alguém não tem humor, é porque possui uma sombra tão bem escondida e com uma tal couraça que não consegue nem sequer manifestar-se pelo riso.

· Os actos falhados e os lapsos são para Freud um bom lugar para conhecer as nossas sombras. Os famosos “deslizes freudianos” que nos levam a dizer uma coisa diferente da que queríamos dizer.

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