A saúde de nossa boca gilson Carvalho1



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Encontro03.08.2016
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Gilson Carvalho


A SAÚDE DE NOSSA BOCA
Gilson Carvalho1
Diante do momento de análise da saúde bucal do brasileiro, decidi ajudar a disseminar os dados com alguns comentários. Dou início por uma divagação específica da história da minha saúde bucal, um brasileiro sessentão da classe média.

Como já disse outras vezes sou de uma família de 16 filhos. Eu e mais quinze que hoje são apenas 10. Meus pais funcionários públicos do então Departamento de Correios e Telégrafos do Ministério da Viação e Obras Públicas. Minha mãe uma professora de Escola Normal, para criar os primeiros não trabalhou fora. Depois do nono, eu, ela foi para os Correios para aumentar a renda. Teríamos nos mantido na classe média-média se não fossem tantos os usufruidores da renda do casal. Com os quinze (uma foi embora ainda bebê) a renda per capita caiu e vivíamos na base da média, classe limítrofe com a pobre mesmo gozando da avaliação de médios pela posição de filhos de funcionários públicos federais. A alimentação era a comum de interior mineiro: arroz, feijão, verduras/legumes e uma mistura (carne, ovo, sardinha... o que tivesse) tudo na banha de porco ou na gordura vegetal de coco. Havia quase sempre uma sobremesa que poderia ser frutas do quintal ou compradas na rua ou um doce, em geral caseiro. Os doces foram uma das causas concorrentes de minha má saúde bucal e de outros órgãos. Mas, como mineiro, só posso dizer: É bão dimais, sô!

Tudo isto para começar a história da saúde dos meus dentes. No serviço de meu pai tinha a denominada Assistência Social com médico e dentista (um em tempo parcial para muitos funcionários e familiares). Nada de prevenção além da escovação. Tratamentos, só depois da dor de dente!

Depois fui para colégio interno onde o tratamento dentário ainda seguia o critério do alarme da dor de dente. A dor com o frio. A dor com o buraco. A dor no tratamento dos canais e, vez por outra, o inchaço do abcesso.

Os equipamentos obedeceram as disponibilidades da época. Ainda, por um tempo, entre 10 e 15 anos, tratei-me em cadeira em que as brocas eram acionadas por pedal com todos aqueles fios e cordinhas a céu aberto! Depois dos vinte anos já me faltavam alguns dentes e comecei a fazer as próteses removíveis ou não. Depois de formado, já trabalhando como médico e em situação financeira melhor, dei um trato nas arcadas e cheguei a extrair os cisos o que explica em parte meus lapsos de juizo!

Desde então, faço isto, nem sempre da melhor maneira, mas frequento periodicamente o meu dentista Valério, substituto do Marcelo que se aposentou. Brinco com o Valério, que é um PhD da UNITAU: - “gosto tanto de você e seu trabalho que me honro de ter guardadas e catalogadas todas suas obturações que trago afetuosamente sempre comigo... no bolsinho da calça”. Ele quer me surrar, principalmente quando falo isto em público, ao nos encontrarmos na universidade. Brincadeiras à parte, é um competentíssimo profissional, amigo dileto e pai do Pedro, companheiro do meu Francisco.

Voltando aos dentes, hoje convivo com a falta de alguns deles fugindo de próteses e implantes. A odonto evoluiu muito. Dos canais de minha infância e juventude, tratados à prestação em idas e vindas durante várias semanas, o último que fiz em 2010 durou exatamente 37 minutos entre a remoção da polpa (“extração do nervo”), curativo e fechamento final. Dou vivas a esses avanços! Tive sorte melhor que um de meus irmãos que, aos quarenta anos, colocou prótese total.

Agora estou conhecendo o último diagnóstico da saúde bucal do brasileiro, feito por pesquisadores com financiamento do Ministério da Saúde e execução de professores universitários da mais alta estirpe bucaleira. A pesquisa é Saúde Bucal – Brasil 2010 – Pesquisa Nacional de Saúde Bucal – Ministério da Saúde.

A pesquisa deu ênfase ao indicador denominado de CPO que a partir do exame bucal aos 12 anos de idade analisa o número de dentes Cariados, Perdidos ou Obturados. Desde 1986 o Brasil vem fazendo, periodicamente, levantamentos nacionais de saúde bucal, que estão se aprimorando nos últimos anos. Antes dessa pesquisa de 2010, havia sido feita a de 2003 com a mesma metodologia, o que possibilita comparações. O paradigma é a OMS - Organização Mundial de Saúde que classifica os países segundo a prevalência de cárie na população de 12 anos de idade (dentição definitiva).

Para a pesquisa, foram coletados dados em 177 municípios entre todas as capitais e mais 30 municípios em cada região brasileira. Foram examinadas as bocas de 38 mil pessoas distribuídas por faixa etária.

Vamos aos dados que se destacam nos resultados desta pesquisa:


  • O Brasil fica classificado como de baixa prevalência de cárie, pois o índice foi de 2,1 (CPO) quando o paradigma da OMS para ser assim qualificado é de 1,2 a 2,6 aos 12 anos de idade.

  • O CPO caiu 26% entre 2003 (2,8) e 2010 (2,1).

  • O percentual de crianças livres de cárie foi de 31,6% para 44%.

  • O indicador foi de 3,2 na R.Norte e 2,1 na R.Sudeste.

  • Jovens entre 15 e 19 anos: 18 milhões de dentes deixaram de ser atacados pela cárie.

  • Caiu o percentual destes jovens que teve perdas dentárias entre 2003(27%) e 2010 (13%).

  • Em adultos caiu o número de dentes perdidos agora obturados.

  • Entre os idosos a estimativa é que existam 3 milhões deles necessitando prótese total e 4 milhões, prótese parcial.

Para mudar esta realidade o Brasil vem trabalhando a cada ano com mais intensidade. Várias ações foram feitas desde muitos anos atrás, com destaque para a fluoretação de águas de abastecimento. Um grande marco nesta abordagem foi, quando ainda na época do SUDS, se universalizaram cuidados preventivos via prefeituras municipais. Isto aconteceu no início dos anos 90, transição entre SUDS e SUS. O cuidado com saúde bucal foi crescente e um momento de alavancagem se deu no Governo Lula com o Programa Brasil Sorridente.

Abaixo estão alguns dados todos produzidos e divulgados pelo Ministério da Saúde:



  • O investimento financeiro (valores nominais) entre 2002 (56 mi) e 2010 (600 mi) cresceu mais de 10 vezes.

  • As equipes de saúde bucal junto ao PSF cresceram de 4.261 (2002) para 20.560 (2010).

  • A cobertura de municípios foi de 41% (2002) para 85% (2010).

  • Distribuição de 72 milhões de kits com escova e pasta de dente.

  • Os CEOS – Centros de Especialidades Odontológicas são 853 fazendo com que o atendimento especializado saísse de 6 para 25.

  • Foram distribuídas pelo MS aos municípios 5,5 mil cadeiras odontológicas.

  • As UMO – Unidades Móveis Odontológicas serão 160 até final de 2011 sendo que 51 já estão em funcionamento.

  • Os atendimentos cresceram de 86 milhões para 147 milhões.

  • Estima-se que neste período 2,5 milhões de dentes tenham deixado de ser perdidos por tratamento conservador, sem necessidade de extrações.

  • Foram implantados 600 sistemas de fluoretação de águas melhorando a saúde bucal de 5 milhões de brasileiros (estima-se que o risco de cárie com uso de água fluoretada caia em até 50%).

Concluindo podemos dizer que a saúde bucal da população brasileira vem melhorando bastante. Mas é preciso reconhecer que fazemos ainda muito pouco, sobretudo no SUS, quando levamos em conta as necessidades que os números oficiais indicam. Sei, pois convivo com muitos deles, que os “dentistas do SUS” são uns abnegados, fazem muito, lutam diariamente para fazer mais e melhor, e lutam até mesmo para poder fazer a prevenção possível nos dias de hoje. Mas muitos dentistas e auxiliares de saúde bucal do SUS se deparam, ainda hoje, infelizmente, com alguns dirigentes de saúde que parecem estar com a cabeça no tempo em que eu era menino, lá nas Minas Gerais. Esses dirigentes de secretarias, departamentos e unidades de saúde, precisam se atualizar sobre saúde bucal, entender que o trabalho odontológico de hoje em dia é muito diferente do que no passado, e que essa diferença é para melhor. Não há, atualmente, justificativa para que qualquer de nossos filhos, de qualquer classe social, perca algum dente por falta de acesso à prevenção e tratamento. Como sessentão e idoso fico cá pensando: o Brasil tem uma dívida com seus idosos, impagável. Mesmo se quisesse hoje se redimir, já não poderia recuperar o muito perdido por estes idosos. Entretanto, quero fazer um desafio para que, concomitante à prevenção e tratamento das crianças e jovens, façamos um mutirão para, em um, dois, três ou quatro anos, zerar a necessidade de próteses de nossos idosos. Isto é perfeitamente possível, segundo alguns dentistas sanitaristas com quem conversei sobre isso. Muitas próteses dentais, conforme disse, vêm sendo feitas no SUS e isso precisa continuar. Mas é preciso ampliar essa oferta. Zerar a necessidade de próteses de nossos idosos é viável, e isso deveria ser visto como uma meta do SUS. Para isto, seriam necessários, nestes anos, cerca de R$500 milhões. Conseguiremos atingir esta meta? Seríamos capazes desse gesto de generosidade e respeito aos nossos idosos? Não como filantropia, como se se tratasse de “dar algo a esses coitadinhos”, mas como uma ação de política pública, reconhecendo um direito. O que não se pode é dizer ou aceitar que está tudo bem, apenas porque muito já se faz. Temos o desafio constitucional, também na saúde bucal, de atingir o tudo para todos!

Faço minhas as palavras da Idiana Louvison:

“Um sistema de saúde universal, como o SUS quer ser, que faz milhares de transplantes todos os anos, que expande a atenção primária de modo notável, que avança em busca da integralidade e da equidade, NÃO PODE RECUSAR PRÓTESES DENTÁRIAS A MILHÕES DE BRASILEIROS, pois trata-se de algo de custo tão baixo e que atende a uma necessidade tão elementar, tão essencial para tantas pessoas. Isto é incompreensível e, por injusto, inaceitável.”



Idiana Louvison – Cirurgiã-Dentista do Grupo Hospitalar Conceição do Ministério da Saúde em Porto Alegre – Assessora da Coordenação Nacional de Saúde Bucal do MS.”

1 Gilson Carvalho - Médico Pediatra e de Saúde Pública - carvalhogilson@uol.com.br- o autor adota a política do copyleft podendo este texto ser multiplicado, editado, distribuído independente de autorização do autor - Textos disponíveis www.idisa.org.br



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