A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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A SAGA DOS FOXWORTH - O JARDIM DOS ESQUECIDOS
V. C. ANDREWS

No sótão estão escondidos quatro segredos - segredinhos louros, bonitos, inocentes e que lutam para sobreviver.

Os quatro filhos da família Dollanganger levavam vidas perfeitas - uma bela mãe, um pai amoroso e dedicado, uma linda casa. De repente, o pai morre num desastre automobilístico e a mãe fica endividada e não possui qualificações para ganhar a vida e sustentar a família. Assim, decide escrever aos parentes - seus parentes milionários, dos quais as crianças nunca tinham ouvido falar.

A mãe lhes fala dos avós ricos, de como Chris, Cathy e os gêmeos levarão vidas de príncipes e princesas na luxuosa mansão dos avós. As crianças deleitam-se com as perspectivas da nova vida, até descobrirem que existem algumas coisas que a mãe nunca lhes contou.

Nunca lhes contou que eram consideradas pelos avós como "produtos do demônio" e que jamais deviam ter nascido. Nunca lhes contou que era obrigada a ocultá-las do avô porque desejava herdar a fortuna dele. Nunca lhes contou que deveriam permanecer trancadas numa isolada ala da casa, tendo apenas o sótão escuro e abafado onde brincar.

Prometeu-lhes, porém, que seriam só poucos dias...

Contudo, os dias se transformaram em meses, os meses em anos.

Desesperadamente isolados, aterrorizados de medo da avó, Chris e Cathy tornam-se tudo um para o outro e para os gêmeos. Agarram-se ao amor mútuo como última esperança, única força sólida - uma força quase mais poderosa que a morte.

O Jardim dos Esquecidos é um romance de terror, traição e salvação através do amor. De grande força narrativa e maravilhosa imaginação, V.C. Andrews oferece ao leitor uma visão da vontade e adaptabilidade de crianças envolvidas numa situação bastante bizarra.

O Jardim dos Esquecidos ficou mais de 14 meses na lista de best sellers nos Estados Unidos e já vendeu mais de 2.000.000 de exemplares. Ele faz parte da trilogia - A Saga dos Foxworth.

V.C. Andrews era pintora profissional até começar a escrever O Jardim dos Esquecidos, seu primeiro romance. Reside em companhia da mãe, na Virgínia.

PRIMEIRA PARTE


"Porventura dirá o barro ao oleiro: O que fazes?"

Isaías, 45:9


Prólogo
É muito adequado colorir a esperança de amarelo, como o sol que tão pouco vemos. Quando começo a copiar as anotações dos diários que guardei por tão longo tempo, um título me vem à mente, como uma inspiração: "Abra a Janela e Fique ao Sol". Não obstante, hesito em dá-lo à nossa história, pois costumo pensar em nós como se fôssemos flores no sótão. Flores de papel, nascidas com um colorido tão brilhante e desbotando com o decorrer de todos aqueles longos dias sombrios, sinistros, de pesadelo, em que fomos prisioneiros da esperança, mantidos em cativeiro pela cobiça. Todavia, jamais colorimos de amarelo uma de nossas flores de papel.

Charles Dickens freqüentemente iniciava seus romances com o nascimento do protagonista e, como era um de meus autores prediletos, assim como também de Chris, gostaria de imitá-lo - se pudesse. Todavia, Dickens era um gênio; nasceu para escrever com facilidade, enquanto para mim é penoso escrever cada palavra, porquanto as escrevo com lágrimas, sangue amargo, bile azeda, misturados com vergonha e remorso. Julguei que jamais me sentiria envergonhada ou culpada, que tais cargas só pesassem sobre ombros alheios. Passaram-se anos e hoje estou mais velha, mais sábia e resignada. A tempestade de raiva que outrora me rugia no íntimo amainou, de modo que posso escrever - ao menos assim espero - com mais verdade e menos ódio e preconceito do que seria o caso alguns anos atrás.

Portanto, à semelhança de Dickens, ocultar-me-ei nessa obra de "ficção" sob um pseudônimo, viverei em lugares fictícios e pedirei a Deus que as pessoas que merecem sofram ao lerem o que tenho a dizer. Certamente Deus, em sua infinita misericórdia, fará com que algum editor compreensivo transforme minhas palavras num livro e me auxiliará a manipular o punhal que espero empunhar.
Adeus, Papai
Em verdade, na década de 50, quando ainda era muito jovem, eu acreditava que minha vida inteira seria um longo e perfeito dia ensolarado de verão. Afinal, foi assim que começou. Não existe muito que eu possa dizer a respeito de nossa infância, senão que foi muito boa e, por isso, deveria sentir-me eternamente grata. Não éramos ricos nem pobres. Se nos faltava algo necessário, jamais percebi; se tínhamos luxo, também não me dava conta disso sem comparar o que tínhamos com o que tinham os outros; e, no bairro residencial de classe média onde morávamos, ninguém tinha mais nem menos do que nós. Em outras palavras, simples e concisas, éramos apenas crianças comuns, como quaisquer outras.

Nosso pai era o homem de relações públicas de uma grande fábrica de computadores localizada em Gladstone, na Pensilvânia, uma cidade com 12.602 habitantes. Era um homem muito bem-sucedido, pois seu patrão freqüentemente vinha jantar conosco e elogiava o trabalho que papai parecia desempenhar tão bem.

- O que dobra todo mundo é essa cara tão tipicamente americana, sincera, bonita, somada às suas maneiras encantadoras. Por Deus, Chris, que pessoa sensata conseguiria resistir a um sujeito como você?

Eu concordava entusiasticamente. Nosso pai era perfeito. Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, pesava quase noventa quilos, com bastos cabelos louros ondulados; seus olhos, de um azul cerúleo, cintilavam de riso, do seu grande entusiasmo pela vida e por divertir-se. Tinha um nariz reto, perfeito, nem comprido, nem estreito ou largo demais. Jogava tênis e golfe como um profissional; nadava tanto que se mantinha bronzeado o ano inteiro. Estava sempre viajando de avião, a negócios, para a Califórnia, Flórida, Arizona, Havaí ou mesmo para o exterior, enquanto permanecíamos em casa aos cuidados de nossa mãe.

Quando ele entrava pela porta da frente no final das tardes de sexta-feira - todas as sextas-feiras (declarava-se incapaz de ficar longe de nós por mais de cinco dias seguidos) - o sol brilhava quando sorria largamente para nós, cheio de felicidade, mesmo que estivesse chovendo ou nevando.

Sua sonora saudação ecoava tão logo ele largava no chão a mala e a pasta:

- Se vocês me amam, venham receber-me com beijos!

Meu irmão e eu nos escondíamos em algum lugar perto da porta e, depois que papai pronunciava a saudação ritual, saíamos correndo detrás da poltrona ou do sofá, e nos atirávamos naqueles braços abertos que nos envolviam de imediato, apertando-nos, enquanto nos aquecia os lábios com seus beijos. Sextas-feiras eram os melhores dias da semana, pois traziam papai de volta para nós. Ele carregava nos bolsos pequenos presentes para nós; na mala, vinham os maiores, a serem distribuídos depois que ele saudasse nossa mãe, que se mantinha um pouco afastada e esperava pacientemente até que ele terminasse de nos abraçar.

Depois de tirarmos os pequenos presentes dos bolsos de papai, Christopher e eu recuávamos, a fim de observarmos mamãe avançar lentamente, com os lábios abertos num sorriso de boas-vindas que provocava faíscas nos olhos de nosso pai. Este a tomava nos braços, fitando-lhe o rosto como se não a visse há pelo menos um ano.

Às sextas-feiras, mamãe passava metade do dia no salão de beleza, lavando e penteando o cabelo, fazendo as unhas e, ao voltar para casa, tomava um demorado banho de imersão com sais perfumados. Eu me aninhava em seu quarto de vestir e aguardava que ela saísse do banheiro envolta num negligé transparente. Sentava-se à penteadeira e aplicava cuidadosamente a maquilagem. E eu, tão ansiosa por aprender, bebia avidamente com o olhar tudo o que ela fazia para transformar-se de uma mulher simplesmente bonita numa criatura de tão estonteante beleza que chegava a parecer irreal. O mais espantoso naquilo tudo era papai pensar que ela não usava maquilagem! Acreditava que a devastadora beleza de mamãe fosse natural.

Amor era uma palavra usada e abusada em nossa casa:

- Você me ama?... Porque eu amo você de verdade... Sentiu falta de mim?... Teve saudades?... Está feliz por ter-me de volta?... Pensou em mim enquanto estive fora? Todas as noites? Ficou rolando na cama, querendo que eu estivesse a seu lado para abraçá-la? Se não fosse assim, Corrine, eu preferiria morrer...

Mamãe sabia exatamente como responder a tais perguntas: com os olhos, com suaves murmúrios, com beijos.

Um dia, Christopher e eu chegamos da escola correndo, com o vento de inverno praticamente nos empurrando para dentro de casa.

- Tirem as botas no vestíbulo - disse mamãe da sala de visitas, onde estava sentada diante da lareira, tricotando uma pequena suéter que caberia numa boneca. Eu pensava que a suéter fosse presente de Natal para mim, a fim de vestir uma de minhas bonecas.

- E tirem também os sapatos antes de entrarem aqui - acrescentou.

Tiramos as botas e os pesados casacos com capuz no vestíbulo. Depois, calçando apenas meias, corremos para a sala forrada com um espesso tapete branco. Na maior parte do tempo, éramos proibidos de entrar naquela sala decorada em tons pastéis para realçar a beleza loura de nossa mãe. Era a nossa sala de cerimônia, a sala de mamãe, e nunca nos sentíamos realmente à vontade no sofá de brocado damasco ou nas poltronas de veludo cotelê. Preferíamos a sala de papai, com as paredes forradas de lambris escuros e o robusto sofá em grosso tecido escocês, onde podíamos brincar e lutar sem preocupação de estragar alguma coisa.

- Lá fora está um gelo, mamãe! - exclamei sem fôlego, estirando-me aos pés dela e estendendo as pernas na direção do fogo. - Mas a volta para casa de bicicleta foi linda. Todas as árvores estão cobertas de cristais de gelo em forma de diamantes, e os arbustos, de prismas de gelo. Lá fora parece um país de fadas, mamãe. Por nada desse mundo eu moraria no sul, onde nunca neva!

Christopher não falou no tempo nem na beleza do panorama gelado. Era dois anos e meio mais velho que eu e muito mais sábio; hoje, eu sei. Aqueceu os pés gelados, como eu, mas fitou o rosto de mamãe e juntou as sobrancelhas escuras, a testa franzida de preocupação.

Também olhei para ela, imaginando o que ele vira para ficar tão preocupado. Mamãe tricotava com rapidez e habilidade, lançando olhares ocasionais às instruções do modelo.

- Mamãe, você está passando bem? - indagou Chris.

- Sim, é claro - respondeu ela com um sorriso suave e carinhoso.

- Parece cansada.

Ela deixou de lado o minúsculo suéter.

- Hoje, fui ao médico - declarou, debruçando-se para acariciar o rosto rosado e frio de Christopher.

- Mamãe! - exclamou ele, alarmado. - Está doente?

Ela riu baixinho, passando os dedos compridos e esguios pelos cabelos louros e encaracolados de meu irmão.

- Ora, não me venha com essa, Christopher Dollanganger. Tenho percebido você olhar para mim com a cabeça cheia de idéias desconfiadas.

Em seguida, pegou a mão de meu irmão e a minha, colocando-as sobre seu ventre avolumado.

- Sentem alguma coisa? - perguntou, com aquela expressão misteriosa e feliz voltando-lhe ao rosto.

Christopher retirou bruscamente a mão, com o rosto muito vermelho, mas eu deixei a minha onde estava, esperando, tentando adivinhar.

- O que você sente, Cathy?

Sob minha mão, por debaixo das roupas de mamãe, algo estranho acontecia. Leves movimentos faziam-lhe estremecer a carne. Ergui a cabeça e olhei para o rosto dela; até hoje me lembro de como parecia tão bela, como uma madona de Rafael.

- Mamãe, seu almoço está andando aí dentro, ou você está com gases.

O riso provocou faíscas em seus olhos azuis e ela me pediu que tentasse outro palpite.

Depois, num tom suave e cheio de preocupação, revelou-nos a novidade:

- Meus queridos, vou ter um bebê no início de maio. Na verdade, quando fui ao médico hoje, ele declarou ter escutado dois corações baterem. Portanto, isso significa que terei gêmeos... ou, Deus me livre, trigêmeos. Nem mesmo seu pai sabe disso, de modo que não lhe digam nada até eu ter uma oportunidade de contar a ele.

Perplexa, lancei um olhar a Christopher para ver como ele estava reagindo. Parecia divertido e ainda embaraçado. Fitei novamente o belo rosto de mamãe, iluminado pelo fogo da lareira. Então, levantei-me de um salto e corri para o meu quarto!

Atirei-me de bruços na cama e chorei, de verdade! Bebês - mais dois! Eu era o bebê! Não queria ver bebês chorões chegarem para roubar-me o lugar! Solucei e esmurrei o travesseiro, desejando machucar algo, senão alguém. Então, sentei-me na cama e pensei em fugir de casa.

Alguém bateu de leve na porta fechada e trancada.

- Cathy - disse minha mãe. - Posso entrar para conversar com você sobre o assunto?

- Vá embora! - berrei. - Já odeio seus bebês!

Sim, eu sabia o que me estava reservado: a filha do meio, para quem os pais não ligam. Eu seria esquecida. Não haveria mais presentes às sextas-feiras. Papai só pensaria em mamãe, em Christopher, e naqueles detestáveis bebês que me roubariam o lugar.

Meu pai veio procurar-me naquela noite, logo após voltar para casa. Eu destrancara a porta, para a eventualidade de ele querer falar comigo. Lancei-lhe um olhar de esguelha, porquanto o amava muito, Papai parecia triste e trazia uma grande caixa embrulhada em papel de presente, com um enorme laço de fita de cetim cor-de-rosa.

- Como vai a minha Cathy? - perguntou suavemente quando o espiei por debaixo do braço. - Não correu para me receber quando cheguei em casa. Não disse alô; nem mesmo olhou para mim. Cathy, eu sofro quando você não corre para me abraçar e me beijar.

Não respondi, mas girei o corpo na cama e encarei ferozmente meu pai. Não sabia ele que eu deveria continuar sendo a filha predileta a vida inteira? Por que ele e mamãe tinham mandado buscar mais filhos? Dois já não eram suficientes?

Ele suspirou, sentando-se na beirada da cama.

- Sabe de uma coisa? É a primeira vez na vida que você me olhou assim, com tanta raiva. É a primeira sexta-feira em que não correu para me receber com abraços e beijos. Talvez você não acredite, mas só começo a viver quando volto para casa nos fins de semana.

Petulante, recusei-me a ser conquistada. Ele já não precisava mais de mim. Já tinha o filho e, agora, um monte de bebês chorões por chegar a qualquer momento. Eu ficaria esquecida entre a multidão.

- Sabe outra coisa - prosseguiu ele, observando-me com atenção. – Eu talvez fosse bastante tolo para imaginar que, se eu chegasse em casa às sextas-feiras e não trouxesse um presentinho para você e seu irmão... ainda assim vocês correriam como loucos para dar-me boas-vindas. Eu acreditava que vocês amavam a mim e não aos presentes. Julguei, erradamente, ser um bom pai que, de algum modo, conquistara o amor dos filhos e que vocês sabiam que sempre existirá no meu coração uma enorme fatia reservada para vocês, mesmo que eu e sua mãe tenhamos uma dúzia de filhos.

Fez uma pausa, suspirou, e seus olhos azuis ficaram sombrios.

- Pensei que a minha Cathy soubesse que continua sendo sempre a minha garota especial, porque foi a primeira.

Lancei-lhe um olhar raivoso e magoado. Então, exclamei com um nó na garganta:

- Mas se mamãe tiver outra menina você dirá o mesmo a ela!

- Direi?

- Sim - solucei, com um ciúme dilacerante que me fazia capaz de gritar. - Poderá até gostar mais dela do que gosta de mim, porque será pequenininha e engraçadinha!

- Posso amá-la tanto quanto amo você, mas não mais do que a amo - replicou ele, estendendo os braços fortes. Não consegui resistir por mais tempo. Joguei-me naqueles braços como se me agarrasse à própria vida. - Sshhh - acalmou-me ele enquanto eu chorava. - Não chore. Não sinta ciúmes. Além disso, Cathy, bebês de verdade são mais divertidos que bonecas. Sua mãe terá mais trabalho do que pode fazer sozinha, de modo que dependerá de você para ajudá-la. Quando eu estiver longe de casa, ficarei mais tranqüilo se souber que sua mãe pode contar com uma filha amorosa, que fará todo o possível para ajudar a melhorar a vida da família inteira.

Com os lábios cálidos colados ao meu rosto molhado de lágrimas, concluiu:

- Agora, vamos abrir sua caixa. Diga-me se gosta do que está lá dentro.

Antes, eu tive que cobrir o rosto dele com dúzias de beijos e abraçá-lo com força, para compensar a ansiedade que lhe provocara: no olhar. Na enorme caixa havia uma linda caixinha prateada de música, fabricada na Inglaterra. Enquanto a música tocava, uma bailarina vestida de cor-de-rosa fazia lentas piruetas em volta de um espelho.

- Serve também como caixa de jóias - explicou papai, enfiando-me no dedo um minúsculo anel de ouro com uma pequena pedra vermelha que ele chamou de granada.

- No instante em que avistei essa caixa, adivinhei para quem ela fora feita. E, com este anel, faço o juramento de amar eternamente a minha Cathy, um pouquinho mais do que amarei outra filha, desde que ela me prometa jamais falar com alguém sobre o assunto.

Chegou uma ensolarada terça-feira de maio em que papai ficou em casa. Havia duas semanas que ele não se afastava muito de casa, esperando que os bebês aparecessem. Mamãe parecia irritada e nervosa. A Sra. Bertha Simpson estava na cozinha, preparando nossas refeições e olhando Christopher e eu com uma expressão zombeteira. Era a nossa baby-sitter mais confiável. Morava na casa ao lado e estava sempre comentando que mamãe e papai pareciam mais irmãos que marido e mulher. Era uma pessoa carrancuda e mal-humorada, que raramente tinha um comentário agradável sobre qualquer pessoa. Além disso, estava cozinhando nabos. E eu detestava nabos.

Por volta da hora do jantar, papai entrou correndo na sala de jantar a fim de dizer a meu irmão e a mim que iria levar mamãe para o hospital.

- Agora, não se preocupem. Tudo correrá bem. Obedeçam à Sra. Simpson, façam seus deveres de casa e talvez dentro de algumas horas fiquem sabendo se ganharam irmãos, irmãs, ou um de cada.

Papai só voltou na manhã seguinte. Tinha a barba por fazer, um ar cansado, as roupas amarrotadas, mas exibiu-nos um sorriso feliz.

- Adivinhem! Meninos ou meninas?

- Meninos! - gritou Christopher, que desejava dois irmãos aos quais pudesse ensinar a jogar bola. Eu também queria meninos... nada de meninas para roubarem o afeto de papai pela filha mais velha.

- Um menino e uma menina - anunciou papai, orgulhoso. - As coisinhas mais lindas que vocês já viram. Vamos. Vistam-se e eu os levarei para verificarem pessoalmente.

Fui, rabujenta, ainda relutando em olhar quando papai me ergueu de modo que eu pudesse enxergar através do vidro do berçário os dois bebês que a enfermeira exibia para nós. Eram tão pequeninos! As cabeças não eram maiores que pequenas maçãs, e os pequenos punhos avermelhados esmurravam o ar. Um deles chorava como se picado por alfinetes.

- Ah! - suspirou papai, beijando-me o rosto e abraçando-me com força. - Deus foi bom para mim, enviando-me outro filho e outra filha tão perfeitos quanto os primeiros.

Imaginei que detestaria ambos, em especial a chorona Carrie, que choramingava e berrava dez vezes mais alto que o mais tranqüilo, chamado Cory. Passou a ser quase impossível ter uma noite inteira de repouso com os dois no outro lado do corredor, no quarto em frente ao meu. Não obstante, quando começaram a crescer e sorrir, os olhos brilhando quando eu me aproximava para pegá-los no colo, algo cálido e maternal substituía a frieza de meus olhos verdes. Quando dei por mim, corria para casa a fim de vê-los; de brincar com eles; de trocar fraldas, segurar mamadeiras e deixá-los arrotar no meu ombro. Eram mais divertidos que bonecas.

Logo aprendi que os pais têm lugar no coração para mais que dois filhos, e que eu também tinha lugar no coração para amá-los - até mesmo Carrie, que era tão bonita quanto eu, ou ainda mais. Cresceram depressa - como mato, dizia papai -, embora mamãe costumasse olhá-los com ansiedade, pois dizia que eles não se desenvolviam tão depressa quanto Christopher e eu. Apresentou o problema ao médico, que se apressou em afirmar que é normal gêmeos serem menores que crianças que nascem sozinhas.

- Está vendo? - comentou Christopher. - Os médicos sabem tudo.

Papai ergueu os olhos do jornal e sorriu:

- Eis meu filho médico falando... Mas ninguém sabe tudo, Chris.

Papai era o único da família que chamava meu irmão mais velho de Chris.

Possuíamos um sobrenome engraçado, muito difícil de aprender a soletrar. Só porque éramos todos louros, com cabelos lisos e pele branca - à exceção de papai, sempre bronzeado de sol -, Jim Johnston, o melhor amigo de papai, dera-nos um apelido: "As Bonecas de Dresden". Afirmava que parecíamos as exóticas criaturas de porcelana, tão usadas para enfeitar prateleiras e aparadores de lareiras. Em breve, toda a vizinhança passara a chamar-nos "bonecas de Dresden", pois, certamente, era mais fácil que pronunciar Dollanganger.

Quando os gêmeos tinham quatro anos - Christopher completara quatorze e eu terminara de fazer doze - houve uma sexta-feira muito especial. Foi o trigésimo sexto aniversário de papai, e preparamos uma festa-surpresa para ele. Mamãe parecia uma princesa de contos de fadas, com os cabelos recém-lavados e penteados, as unhas brilhando de verniz, o longo vestido do mais tênue tom azul, o comprido colar de pérolas balançando de um lado para outro quando ela se movimentava para arrumar a mesa da sala de jantar, de modo a que tudo ficasse perfeito para a festa de aniversário de papai. Os inúmeros presentes estavam empilhados sobre o aparador do bufê. Seria uma festa pequena, íntima, apenas para a família e os amigos mais chegados.

- Cathy - disse mamãe, lançando-me um rápido olhar. - Importa-se de dar banho nos gêmeos para mim? Eu lhes dei banho antes de dormirem à tarde, mas foram brincar no jardim e estão precisando lavar-se outra vez.

Eu não me importava. Nossa mãe estava elegante demais para lavar duas crianças sujas e travessas com quatro anos de idade, que adoravam espadanar água por todos os lados e estragariam o penteado, as unhas e o lindo vestido de nossa mãe.

- Quando terminar com eles, você e Christopher pulem também na banheira. Cathy, ondule os cabelos e coloque o vestido cor-de-rosa novo. Christopher, por favor, nada de blue jeans. Quero que vista uma camisa social branca, com gravata, usando o paletó esporte azul-claro e as calças cor-de-creme.

- Bolas, mamãe! Detesto me arrumar todo - reclamou ele, arrastando os pés calçados de tênis e franzindo a testa.

- Faça o que estou mandando, Christopher, por seu pai. Sabe que ele faz muito por você. O mínimo que você poderia fazer por ele é dar-lhe orgulho da família.

Meu irmão se afastou com relutância, deixando a meu cargo correr ao quintal para pegar os gêmeos, que começaram a chorar no mesmo instante.

- Já chega um banho por dia! - berrou Carrie. - Já estamos limpos! Pare com isso! Não gostamos de sabão! Detesto lavar a cabeça! Não faça isso conosco outra vez, Cathy, senão contamos à mamãe!

- Hah! - repliquei. - Quem vocês acham que me mandou aqui para lavar esses monstrinhos imundos? Ora, ora! Como conseguem sujar-se tão depressa?

Tão logo os corpinhos despidos mergulharam na água morna, os brinquedos de borracha começaram a flutuar e eles puderam jogar-me água, os gêmeos aquietaram-se o bastante para serem lavados, ensaboados, vestidos e penteados. Pois, afinal, iam a uma festa. E, sobretudo, era sexta-feira e papai voltaria para casa.

Primeiro, vesti Cory num bonito terninho com calças curtas. Por estranho que pareça, ele sempre se mantinha mais limpo que à irmã gêmea. Por mais que tentasse, eu nunca arranjava uma maneira para dominar a teimosa ondulação do cabelo que lhe caía sobre a testa. E, inacreditavelmente, Carrie desejava que seu cabelo ficasse igual ao dele!

Depois de vesti-los e arrumá-los como bonecas que ganhassem vida própria, entreguei os gêmeos aos cuidados de Christopher, com severas recomendações para vigiá-los com a mais constante e total atenção. Então, foi minha vez de embonecar-me.

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