A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



Baixar 1.32 Mb.
Página10/33
Encontro29.07.2016
Tamanho1.32 Mb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   33

Era mais difícil brincarmos com os gêmeos, que ainda não tinham idade para jogar jogos obedecendo regras. Nada lhes prendia a atenção durante muito tempo: nem os baralhos em miniatura que mamãe trouxera para eles, nem os pequenos caminhões basculantes, nem o trem elétrico que Chris montou de modo que os trilhos passassem por baixo das camas e da penteadeira, subissem pelo banquinho e descessem por baixo da cômoda. Para onde quer que nos virássemos, pisávamos em alguma coisa. Uma coisa era indubitável: os gêmeos detestavam o sótão - tudo lá em cima lhes causava susto e temor.

Todos os dias levantávamo-nos cedo. Não tínhamos despertador, apenas nossos relógios de pulso. Todavia, algum sistema automático de medir o tempo passou a controlar-me o corpo e não me permitia dormir até tarde, mesmo que eu quisesse.

Tão logo nos levantávamos, usávamos o banheiro; em dias alternados, primeiro os meninos, depois Carrie e eu, e vice-versa. Precisávamos estar inteiramente vestidos e arrumados antes que a avó entrasse, senão...

A avó entrava em nosso sinistro quarto escurecido. Postados em posição de sentido, esperávamos que ela deixasse no quarto a cesta de piquenique e fosse embora. Ela raramente nos dirigia a palavra e, quando o fazia, era apenas para indagar se dávamos graças antes das refeições, rezávamos antes de deitar e líamos uma página da Bíblia por dia.

- Não - respondeu Chris certa manhã. Ontem não lemos uma página, lemos vários capítulos. Se considera a Bíblia uma espécie de castigo para nós, pode mudar de idéia. Achamos que é uma leitura fascinante, mais sangrenta e sensual que qualquer filme que já vimos. E fala mais de pecados que qualquer outro livro que já encontramos.

- Cale a boca, menino! - rosnou ela. - Perguntei à sua irmã, não a você.

Em seguida, ela me ordenou que repetisse alguma citação que aprendera e, dessa forma, freqüentemente zombávamos dela em particular, pois bastava procurar com meticulosidade e paciência que a Bíblia fornecia frases aplicáveis a praticamente qualquer situação. Naquela manhã, eu respondi:

- "Por que tornastes vós mal por bem?" Gênesis, 44:4.

Ela fez uma carranca, girou nos calcanhares e saiu. Passaram-se alguns dias antes que ela dirigisse a palavra a Chris Com rispidez, sem olhá-lo, mantendo-se de costas para ele:

- Repita para mim uma citação do Livro de Job. E não tente me enganar que lê a Bíblia quando isso é mentira!

Chris parecia confiante e bem preparado.

- "Job, 28:12 - Mas a sabedoria, onde se acha ela? E qual é o lugar da inteligência? Job, 28:28 - Eis aí o temor do Senhor, ele é a sabedoria. E apartar-se do mal, é a inteligência. Job, 31.35 - Quem me dera que o Onipotente me ouvisse, e que escrevesse o livro o mesmo que me julga. Job, 32:9 - Não são os sábios os que têm muita idade, nem os anciãos que julgam o que é justo."

E Chris parecia disposto a prosseguir indefinidamente, mas o rosto da avó ficou rubro de raiva. E nunca mais ela mandou que Chris fizesse citações da Bíblia. Eventualmente, também parou de me pedir a mesma coisa, pois eu sempre conseguia lembrar-me de alguma citação que a irritava.

Todas as tardes, por volta de seis horas, mamãe vinha ao nosso quarto, sempre ofegante e com muita pressa. Vinha carregada de presentes para nós: roupas novas, novas coisas para fazermos, novos livros para lermos, novos jogos para nos divertirmos. Em seguida, corria para tomar banho e vestir-se em seu conjunto de aposentos para um jantar formal no andar térreo, onde um mordomo e uma criada serviam a mesa e, a julgar pelas apressadas explicações de mamãe, quase sempre havia visitas para jantar. Fomos informados de que "muitos negócios importantes são fechados à mesa".

As melhores ocasiões eram quando ela contrabandeava exóticos canapés e saborosos horas d'oeuvres, embora nunca trouxesse doces, a fim de não estragar nossos dentes.

Só aos sábados e domingos ela podia passar mais que uns poucos momentos conosco e sentava-se à nossa pequena mesa para almoçar. Certa vez, deu uma palmada no estômago:

- Vejam como estou engordando, pois almoço com meu pai e depois, com a desculpa de querer tirar um cochilo, subo para almoçar com meus filhos.

As refeições com mamãe eram maravilhosas, pois lembravam-me os velhos tempos em que morávamos com papai.

Certo domingo, mamãe entrou com o cheiro fresco do ar livre, trazendo um litro de sorvete de baunilha e uma torta de chocolate que comprara numa confeitaria. O sorvete derretera-se quase em uma sopa, mas nós o comemos assim mesmo. Imploramos-lhe que passasse a noite conosco, dormindo entre Carrie e eu, a fim de podermos vê-la conosco quando acordássemos de manhã. Mas ela olhou demoradamente para o quarto abarrotado de coisas e sacudiu a cabeça.

- Sinto muito, mas não posso. Realmente não posso. Entendam: as criadas ficariam curiosas se minha cama não fosse usada. E três numa só cama ficam muito apertados.

- Quanto tempo, ainda, mamãe? - indaguei. - Estamos aqui há duas semanas e parece que foram dois anos. O avô não a perdoou por ter-se casado com papai? Você já falou sobre nós?

- Meu pai me deu, por empréstimo, um de seus automóveis - replicou ela com o que considerei uma evasiva. - E creio que me perdoará, do contrário não permitiria que eu usasse seu carro, dormisse sob seu teto ou comesse da sua comida. Mas o fato é que ainda não tomei coragem bastante para contar-lhe que mantenho quatro filhos escondidos nesta casa. Tenho que calcular a hora exata com muito cuidado e vocês precisam ter paciência.

- O que faria ele se soubesse a respeito de nós? - perguntei, ignorando o olhar carrancudo que Chris me lançava.

Ele já me advertira que se eu insistisse em fazer muitas perguntas, mamãe deixaria de vir visitar-nos todos os dias. Então, o que seria de nós?

- Só Deus sabe o que ele faria - sussurrou mamãe, temerosa. - Cathy, prometa-me que não tentará fazer os criados escutarem. Ele é um homem cruel, desalmado, que possui muito poder. Deixe-me calcular cuidadosamente o momento em que acredito que ele estará pronto para ouvir.

Mamãe se foi por volta das sete e, pouco depois, nós nos recolhemos. Íamos cedo para a cama porque acordávamos cedo. E quanto mais tempo passássemos dormindo, mais curtos seriam nossos dias. Arrastávamos os gêmeos para o sótão logo após as dez horas. Explorar o gigantesco sótão era uma das melhores maneiras de ocuparmos nosso tempo. Lá em cima existiam dois pianos, tipo armário. Cory trepava num dos bancos giratórios que subiam e desciam por meio de um eixo com rosca e ficava rodando de um lado para outro. Martelava as teclas amareladas e tombava a cabeça de lado para escutar com grande atenção. O piano estava desarmado e o barulho era tão dissonante que nos causava dor de cabeça.

- Não toca direito - dizia ele. - Por que não toca direito?

- Precisa de armação - respondia Chris, que tentara afinar o instrumento mas só conseguira partir algumas cordas.

As cordas partidas foram o final da tentativa de tocar música nos dois velhos pianos. Havia cinco vitrolas marca RCA Victor, cada uma delas com um cãozinho branco que virava a cabeça de modo encantador, como se maravilhado pela música que escutava. Todavia, apenas um dos aparelhos funcionava bem. Dávamos-lhe corda, colocávamos no prato um velho disco empenado e escutávamos a música mais esquisita que já ouvíramos!

Havia pilhas e pilhas de discos de Enrico Caruso, mas, infelizmente, muito mal-cuidados, simplesmente empilhados no chão, sem mesmo terem as velhas capas de papelão. Sentávamo-nos em semicírculo para escutar a voz de Caruso. Christopher e eu sabíamos que ele era o maior cantor de óperas do mundo e ali estava nossa oportunidade de escutá-lo. A voz que ouvíamos era tão aguda que soava falso e ficamos sem saber o que ele tinha para ser tão famoso. Por algum estranho motivo, porém, Cory o adorava.

Então, bem devagar, a corda da vitrola ia terminando e transformava a voz de Caruso num simples gemido. Nesse momento, um de nós corria como louco para girar a manivela até o final, de modo que ele cantasse depressa e engraçado, como o Pato Donald estrilando raivoso - e os gêmeos caíam na gargalhada. É claro. Tratava-se do tipo de fala deles, de sua linguagem secreta.

Cory passava seus dias inteiros no sótão tocando os discos. Carrie, porém, era inquieta, sempre buscando algo, sempre insatisfeita, procurando sem cessar alguma coisa melhor para fazer.

- Não gosto desse enorme lugar horrível! - berrava pela bilionésima vez. - Tirem-me desse lugar mim! Levem-me para fora já! Imediatamente! Tirem-me daqui ou derrubo as paredes a pontapés! Derrubo! Sei que posso derrubar!

Corria para as paredes, atacando-as com os minúsculos pés e punhos, conseguindo arranhar-se seriamente antes de desistir.

Eu sentia pena dela e de Cory. Todos nós gostaríamos de arrombar as paredes e sair dali. No caso de Carrie, porém, era como se as paredes pudessem tombar ante a intensidade crescente de sua voz, como as paredes de Jericó ruindo ao som das trombetas de Josué.

Na verdade, era um alívio quando Carrie tomava coragem para atravessar o sótão e descer a escada até o quarto, onde podia brincar com suas bonecas, o fogão e as panelas em miniatura, a tábua de passar roupa com o pequeno ferro que não esquentava.

Pela primeira vez, Cory e Carrie eram capazes de passar algumas horas separados um do outro, e Chris afirmava que isso era bom. No sótão estava a música que encantava Cory; no quarto, Carrie podia conversar com as suas "coisas".

Tomar muitos banhos era outra maneira de gastarmos o excesso de tempo e ensaboarmos a cabeça prolongava o ritual. Oh, éramos as crianças mais limpas no mundo inteiro! Tirávamos um cochilo depois do almoço, que durava até quando conseguíamos prolongá-lo. Chris e eu fazíamos concursos de descascar maçãs de modo que a casca saísse inteira, numa comprida fita em espiral. Descascávamos laranjas e tirávamos todos os pedacinhos da pele branca que os gêmeos detestavam. Recebíamos pequenas caixas de bolachas de queijo, que contávamos e dividíamos em quatro porções escrupulosamente iguais.

Nossa brincadeira mais perigosa e divertida era imitar a avó - sempre temerosos de que ela entrasse de repente no quarto e nos pegasse envoltos em sujos panos cinzentos apanhados no sótão, que utilizávamos para representar seus uniformes de tafetá cinzento. Chris e eu éramos os melhores imitadores. Os gêmeos tinham tanto medo da avó, a ponto de nem mesmo ousarem erguer os olhos quando ela estava no quarto.

- Crianças! - dizia rispidamente Chris, parado junto à porta, com uma invisível cesta de piquenique na mão. - Comportaram-se de maneira decente, honrosa e adequada? Este quarto está uma balbúrdia! Menina - você aí! – alise direito aquele travesseiro antes que eu lhe esmague a cabeça com a simples fúria do meu olhar!

- Perdão, avó! - exclamava eu, rastejando para Chris com as mãos postas sobre o peito. - Eu estava morta de cansada de tanto limpar as paredes do sótão. Precisava descansar.

- Descansar! - rosnava a "avó" perto da porta, o vestido prestes a cair. - Não existe descanso para os maus, os corruptos, os pecadores e os impuros. Para vocês, só existirá trabalho, até morrerem e ficarem pendurados para sempre acima dos braseiros de churrasco do inferno eterno!

Então, Chris erguia os braços sob o pano em gestos horripilantes que faziam os gêmeos gritar de pavor - e, como uma bruxaria, a avó desaparecia, restando apenas um Chris sorridente.

As primeiras semanas foram como segundos transformados em horas, a despeito de tudo o que fazíamos para entreter-nos - e fazíamos muito. Eram as dúvidas e os temores, as esperanças e as expectativas, que nos mantinham sob constante tensão e suspense, esperando, esperando - e sabendo que não estávamos mais próximos de ser libertados e podermos descer.

Agora, os gêmeos corriam para mim com seus pequenos cortes e ferimentos, além das farpas apanhadas na madeira apodrecida do sótão. Eu retirava cuidadosamente as farpas com pinça, Chris aplicava o anti-séptico e o esparadrapo que eles adoravam. Um dedinho ferido era motivo bastante para exigir carinhos especiais e canções de ninar quando eu os colocava na cama, beijava-lhes os rostos e fazia cócegas nos locais que provocavam risadinhas, os bracinhos finos envolvendo-me o pescoço. Eu era amada, muito amada... e necessária.

Nossos gêmeos mais pareciam bebês de três anos que crianças de cinco. Não no modo de falar, mas na maneira como esfregavam os olhos com os pulsos minúsculos e faziam "beicinho" quando lhes negavam alguma coisa, bem como no jeito que davam de prender a respiração até ficarem roxos, obrigando-nos a darmos o que desejavam. Eu era muito mais susceptível a esse tipo de chantagem que Chris; este argumentava ser impossível alguém sufocar-se daquele modo. Não obstante, vê-los tão roxos era um espetáculo apavorante.

Chris disse-me em particular:

- Na próxima vez que se portarem assim, quero que você os ignore, mesmo que tenha que trancar-se no banheiro. E pode acreditar que eles não morrerão...

Foi exatamente o que eles me forçaram a fazer - e não morreram. Foi a última vez que tentaram utilizar tal truque para evitar comer coisas de que não gostavam - e não gostavam de nada, ou de quase nada.

Carrie possuía a postura de costas curvas de todas as meninas pequenas, com a barriga estufada para diante num arco acentuado, e adorava pular pelo quarto puxando a saia para os lados, de modo a exibir as calcinhas franzidas. (Ela só usava calcinhas de renda franzida.) E se as calcinhas tivessem pequenas rosas feitas com fitinhas, ou algum bordado na parte da frente, tínhamos que vê-las ao menos uma dúzia de vezes ao dia e comentar que ela ficava linda com aquelas calcinhas.

Cory, naturalmente, usava cuecas como as de Chris e se orgulhava muito disso. A memória das fraldas que usara até pouco tempo atrás devia estar ainda muito viva em sua mente. Se, por um lado, Cory tinha uma bexiga temperamental, por outro Carrie sofria de diarréia sempre que comia um pedacinho de qualquer fruta que não fosse cítrica. Na verdade, eu detestava os dias em que a avó nos trazia pêssegos e uvas, pois a querida Carrie adorava uvas verdes descaroçadas, pêssegos e maçãs... e todas elas faziam o mesmo efeito desastroso. Podem crer: toda vez que apareciam frutas à porta eu ficava desanimada, pois sabia quem tinha que lavar as calcinhas franzidas, a menos que me movimentasse com a rapidez do raio, correndo com Carrie sob o braço e largando-a no vaso sanitário em cima da hora. Chris ria às gargalhadas quando eu não chegava a tempo - ou Carrie não agüentava. Aliás, Chris sempre mantinha ao alcance da mão a jarra azul, pois quando Cory sentia a bexiga funcionar tinha que aliviar-se imediatamente e era um desastre se alguma das meninas estivesse no banheiro, com a porta trancada. Mais de uma vez ele molhara as calças curtas e depois enterrara o rosto no meu colo, morto de vergonha. (Carrie jamais se envergonhava - a culpa era sempre minha por não agir bastante depressa.)

- Cathy, quando iremos lá fora? - sussurrou Cory após um dos acidentes.

- Tão logo mamãe nos dê autorização.

- Por que mamãe não dá autorização?

- Lá embaixo mora um velho que não sabe que estamos aqui. E precisamos que ele volte a gostar de mamãe o bastante para aceitar-nos.

- Quem é o velho?

- Nosso avô.

- Ele é como a avó?

- Sim, creio que seja.

- Por que ele não gosta de nós?

- Ele não gosta de nós porque... porque, bem, porque não é sensato. Acho que é doente da cabeça, como do coração.

- Mamãe ainda gosta de nós?

Ora, eis uma pergunta que me tirava o sono.

Várias semanas já se haviam passado quando chegou um domingo em que mamãe não apareceu durante o dia. Doía-nos não a ter conosco, quando sabíamos que ela estava de folga na escola e se encontrava em algum lugar daquela mesma casa.

Eu estava deitada de bruços no chão, onde era mais fresco, lendo Judas, o Obscuro. Chris se encontrava no sótão, à procura de novo material de leitura, e os gêmeos engatinhavam pelo quarto empurrando pequenos carros e caminhões.

O dia arrastou-se até o cair da tarde antes que, afinal, a porta se abrisse e mamãe escorregasse para dentro do quarto, usando sapatos de tênis, shorts brancos e uma camisa branca com gola de marinheiro, debruada com uma lista azul e outra vermelha, trazendo uma âncora bordada. Tinha o rosto corado e bronzeado do ar livre. Parecia tão vibrante e saudável, tão incrivelmente feliz, enquanto nós murchávamos, doentios, no calor abafado daquele quarto escuro.

Roupas de velejar - oh, eu as conhecia - e era isso que ela estivera fazendo. Ressentida, olhei para ela, desejando que minha pele estivesse bronzeada pelo sol, as pernas de cor tão saudável quanto as dela. Seus cabelos estavam desfeitos pelo vento e ficavam-lhe muito bem, tornando-a dez vezes mais bela, saudável, sensual. E ela era quase uma velha; tinha quase quarenta anos.

Era bastante óbvio que aquela tarde lhe dera mais prazer que qualquer outra desde a morte de nosso pai. E eram quase cinco horas. Lá embaixo, o jantar era servido às sete, o que significava que ela teria muito pouco tempo para ficar conosco antes de precisar descer a seus aposentos, onde poderia tomar banho e vestir-se de modo mais adequado para a refeição.

Deixei o livro de lado e virei-me para sentar-me. Sentia-me magoada e desejava magoá-la também.

- Onde esteve? - perguntei num tom agressivo.

Que direito tinha ela a divertir-se enquanto permanecíamos trancados e impedidos das atividades juvenis que eram um direito nosso? Eu jamais teria na vida outro verão com doze anos de idade, nem Chris aproveitaria o seu verão de quatorze anos. Nem os gêmeos o seu quinto verão.

O tom agressivo e acusador de minha pergunta abateu-lhe a radiância. Ela empalideceu, seus lábios tremeram e talvez, naquele momento, nossa mãe se arrependesse de ter-nos trazido um grande calendário de parede no qual podíamos verificar se era sábado ou domingo. O calendário estava marcado com os grandes X vermelhos que fazíamos para contar nossos dias de aprisionamento - nossos dias quentes, solitários, cheios de expectativa e sofrimento.

Deixou-se cair numa poltrona e pegou uma revista para abanar-se, cruzando as pernas bonitas.

- Sinto tê-los deixado à minha espera - respondeu, enviando-me um sorriso carinhoso. - Eu queria fazer-lhes uma visita pela manhã, mas meu pai exigiu toda a minha atenção e eu já assumira compromisso para a tarde, embora os tenha interrompido antes da hora para poder passar algum tempo com meus filhos antes do jantar.

Embora não parecesse suada, ergueu o braço sem mangas e abanou a axila, como se não conseguisse suportar aquele quarto.

- Estive velejando, Cathy - continuou. - Meus irmãos me ensinaram a velejar quando eu tinha nove anos e depois, quando seu pai veio morar aqui, eu ensinei a ele. Costumávamos passar um bocado de tempo no lago. Velejar é quase como voar... uma diversão maravilhosa - concluiu desajeitadamente, percebendo que seu divertimento estragara o nosso.

- Velejando? - repliquei, quase gritando. - Por que não estava lá embaixo, falando com seu pai a respeito de nós? Por quanto tempo ainda tenciona manter-nos trancados aqui? Para sempre?

- Seus olhos azuis vagaram inquietamente pelo quarto; parecia prestes a erguer-se da poltrona que raramente usávamos, pois sempre a reservávamos especialmente para ela - o seu trono. Talvez ela tivesse ido naquele instante, se Chris não tivesse voltado do sótão com os braços carregados de enciclopédias tão antigas que não incluíam televisão ou aviões a jato.

- Cathy, não grite com nossa mãe - repreendeu ele. - Olá, mãe. Puxa! Você está linda! Gosto dessa roupa de velejar.

Largou a carga de livros sobre a penteadeira que usava como mesa de estudo e atravessou o quarto para abraçar nossa mãe. Senti-me traída não só por minha mãe, como por meu irmão. O verão estava quase terminando e não havíamos feito coisa alguma: nenhum piquenique, nem natação, nem passeios no bosque, nem mesmo avistado um barco ou vestido um maiô para vadear num tanque de quintal.

- Mamãe! - exclamei, erguendo-me de um salto, disposta a batalhar por nossa liberdade. - Creio que já é tempo de você falar com seu pai a nosso respeito! Estou cansada, enjoada de viver nesse quarto e brincar rio sótão! Quero nossos gêmeos ao ar livre e ao sol! E também quero sair saqui! Eu quero velejar! Se o avô a perdoou por ter-se casado com papai, então, por que não pode aceitar-nos? Somos tão feios, tão terríveis, tão estúpidos que ele se envergonhasse de sermos seus parentes consangüíneos?

Mamãe empurrou Chris para longe de si e afundou-se fatigadamente na mesma poltrona da qual acabava de levantar-se. Escondeu o rosto nas mãos. Intuitivamente, adivinhei que ela estava prestes a revelar alguma verdade que omitira anteriormente de nós. Chamei Cory e Carrie, e mandei que se sentassem perto de mim, um de cada lado, de modo a poder abraçá-los simultaneamente. E Chris, embora eu imaginasse que fosse permanecer em pé junto à nossa mãe, veio sentar-se na cama, ao lado de Cory. Voltávamos a ser, como antes, filhotes de pássaros pousados numa corda de varal de roupas, à espera de que uma rajada de vento forte nos soprasse para longe.

- Cathy, Christopher - começou nossa mãe, com a cabeça ainda baixa, embora colocasse as mãos no colo e passasse a movê-las nervosamente. – Não fui totalmente franca com vocês.

Como se eu já não tivesse adivinhado...

- Ficará para jantar conosco essa noite? - indaguei, desejando, sem saber por que motivo, adiar a verdade.

- Obrigada pelo convite. Eu gostaria de aceitar, mas fiz outros planos para esta noite.

E aquele era o nosso dia; nosso tempo com ela devia ir até o anoitecer.

E, na véspera, ela passara apenas meia hora conosco.

- A carta - murmurou, erguendo a cabeça, as sombras escurecendo os olhos azuis numa tonalidade verde. - A carta que minha mãe me escreveu quando ainda estávamos em Gladstone. Aquela carta nos convidava a morar aqui. Não lhes contei que meu pai escreveu um curto bilhete no pé da página?

- Sim, mamãe, Prossiga - encorajei. - Somos capazes de aceitar tudo que você tiver a contar.

Nossa mãe era uma mulher controlada, fria e composta, mas tinha uma coisa que jamais conseguira controlar: as mãos. Estas sempre lhe traíam as emoções. Uma mão sonhadora e caprichosa ergueu-se até pairar perto do pescoço, tateando, os dedos procurando um colar de pérolas para torcer e destorcer; como a jóia não estava ali, os dedos continuaram a movimentar-se no ar. Os dedos da outra mão, pousada no colo, esfregavam-se uns nos outros, como se tentassem limpar-se.

- Sua avó escreveu a carta e assinou-a, mas, no final, meu pai acrescentou um bilhete.

Hesitou, fechou os olhos, esperou alguns segundos e depois tornou a abri-los para lançar-nos um novo olhar.

- Seu avô escreveu para dizer que estava muito satisfeito com a morte do pai de vocês. Escreveu que os maus e os corruptos sempre recebem o que merecem. Escreveu que a única vantagem de meu casamento foi não gerar filhos do Demônio.

Outrora, eu teria perguntado o que significavam aquelas palavras. Agora, eu sabia. Filhos do Demônio ou gerados pelo Demônio eram a mesma coisa: algo ruim, podre, nascido para ser mau.

Sentada na cama, abraçando os gêmeos, olhei para Chris, que devia ser muito parecido com nosso pai quando tinha a mesma idade; passou-me de relance diante dos olhos a imagem de papai em seus trajes brancos de jogar tênis: alto, orgulhoso, de cabelos dourados e pele cor-de-bronze. O mal era escuro, retorcido, corcunda, baixo - não assumia uma postura altaneira e sorria com límpidos olhos azuis, da cor do céu, que nunca mentiam.

- Minha mãe fez os planos para ocultar vocês e escreveu-os numa página que meu pai não leu - concluiu ela, embaraçada, o rosto ruborizado.

- Nosso pai era considerado mau e corrupto apenas por ter-se casado com sua meia-sobrinha? - indagou Chris, no mesmo tom frio e controlado usado por nossa mãe. - Foi o único erro que ele cometeu na vida?

1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   33


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal