A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Sim! - exclamou mamãe, feliz porque ele, o seu filho predileto, compreendia. - Em toda a sua vida, seu pai cometeu um único e imperdoável pecado: apaixonar-se por mim. A lei proíbe o casamento entre um tio e uma sobrinha, mesmo que o parentesco seja apenas pela metade. Por favor, não nos condenem. Eu já lhes expliquei o que aconteceu. Dentre todos nós, seu pai era o melhor...

Interrompeu-se, prestes a chorar, e implorou-nos com os olhos. E eu adivinhei o que viria a seguir.

- O mal e a corrupção estão no olhar de quem acusa - prosseguiu ela depressa, ansiosa por fazer-nos ver as coisas a seu modo. - Seu avô seria capaz de encontrar esses defeitos num anjo. É o tipo de homem que espera, exige perfeição de todos os membros da família, mas está muito longe de ser perfeito. Todavia, não tente lhe dizer isso, porque ele o esmagará como a um inseto.

Engoliu nervosamente e depois, parecendo quase enojada pelo que era obrigada a dizer, acrescentou:

- Christopher, julguei que após você estar aqui eu poderia falar com meu pai a seu respeito, contando-lhe que você era o aluno mais brilhante da classe, sempre tirou as notas máximas; julguei que quando ele visse Cathy e soubesse de seu grande talento para a dança... julguei que essas duas coisas, por si, seriam suficientes para convencê-lo sem mesmo haver necessidade de mostrar-lhe os gêmeos, tão lindos e encantadores, sem falar nos talentos que possuem à espera de desenvolvimento. Tola, esperançosa, julguei que ele cederia facilmente e admitiria seu erro ao considerar nosso casamento tão errado.

- Mamãe - interpus, quase chorando. - Parece que você quer dizer que nunca falará com ele sobre nós; que ele jamais gostará de nós, por mais lindos que sejam os gêmeos, por mais inteligente que seja Chris, por melhor que eu seja capaz de dançar. Nada disso fará a menor diferença para ele. O avô continuará a detestar-nos e considerar-nos filhos do Demônio, não é mesmo?

Ela se levantou e se aproximou da cama, deixando-se cair novamente de joelhos e tentando abraçar-nos todos de uma só vez.

- Já não lhes disse antes que ele tem pouco tempo de vida? Fica sem fôlego ao menor esforço que faz. E se não morrer logo, encontrarei um meio de falar a respeito de vocês. Juro que arranjarei. Peço-lhes apenas que tenham paciência. Que sejam compreensivos. Eu os compensarei mil vezes pelos divertimentos de que vocês estão sendo privados agora!

Seus olhos lacrimosos imploravam.

- Por favor, por favor. Por mim, porque vocês me amam e eu os amo, continuem a ter paciência. Não demorará muito. Não pode demorar. E eu farei tudo para tornar-lhes a vida agradável, o mais agradável possível. E pensem na riqueza que herdaremos em breve!

- Está bem, mamãe - disse Chris, tomando-a nos braços exatamente como nosso pai o faria. - Você não está pedindo muito e nós temos muito a ganhar.

- Sim - disse mamãe, com entusiasmo. - Só mais um curto período de sacrifício e mais um pouco de paciência, e vocês terão tudo o que pode existir de bom e gostoso nessa vida.

O que me restava dizer? Como podia eu protestar? Já tínhamos sacrificado mais de três semanas. O que seriam mais alguns dias, ou semanas, ou até mesmo mais um mês?

Além do arco-íris o pote de ouro nos aguardava. Mas o arco-íris é feito da mais frágil filigrana e o ouro pesa uma tonelada. Desde o início do mundo, o ouro foi motivo para se fazer quase tudo.


Fazer um Jardim Crescer
Agora, conhecíamos toda a verdade.

Permaneceríamos naquele quarto até que nosso avô morresse. E ocorreu-me naquela noite, quando me sentia deprimida e desanimada, que talvez nossa mãe soubesse desde o início que seu pai não era do tipo que perdoa alguém de alguma coisa.

- Mas ele pode morrer a qualquer hora - disse o meu alegre otimista Christopher. - As doenças cardíacas são assim. Um coágulo pode soltar-se e chegar ao coração ou ao pulmão e extinguir-lhe a vida como se sopra uma vela.

Chris e eu trocamos comentários cruéis e irreverentes, mas nossos corações sangravam, sabendo que era, errado e estávamos faltando ao respeito como um meio de aplacar a dor de nosso amor-próprio ferido.

- Agora, veja bem - disse ele. - Já que vamos ficar aqui em cima por mais algum tempo, devemos ter mais determinação para acalmar os gêmeos, e nós mesmos, com coisas que nos entretenham melhor. E só Deus sabe que, se realmente nos aplicarmos, talvez possamos imaginar algumas coisas bem interessantes e fantásticas.

Naturalmente, quando se dispõe de um sótão cheio de trastes velhos e grandes armários abarrotados de roupas apodrecidas e fedorentas, mas nem por isso menos elegantes e antigas, surge logo a inspiração de montar peças teatrais. Já que um dia eu me tornaria uma estrela do palco, desempenharia as funções de produtora, diretora, coreógrafa e, é claro, a grande estrela da companhia. Chris, por sua vez, desempenharia todos os principais papéis masculinos. E os gêmeos poderiam participar como figurantes, desempenhando pequenos papéis.

Mas não queriam participar! Desejavam ser a platéia: sentar-se, assistir e aplaudir.

Não era má idéia; afinal, o que seria de uma peça sem platéia? Era uma pena eles não terem dinheiro para comprar entradas.

- Convocaremos um ensaio geral - disse Chris. - E já que você parece ser tudo na companhia e conhece todos os detalhes da produção teatral, escreva o roteiro.

Hah! Como se eu precisasse escrever um roteiro! Era a minha oportunidade de representar Scarllet O'Hara. Tínhamos todas as roupas da época, inclusive espartilhos e belas sombrinhas - embora furadas aqui e ali. E roupas adequadas para Chris, também. Os baús e armários ofereciam-nos uma ampla variedade de escolha e eu, naturalmente, escolhi a melhor roupa - tirada de um armário – com as respectivas roupas de baixo - encontradas num baú. Enrolei meu cabelo em trapos, de modo a fazê-lo cair em longos cachos espirais sob um velho chapéu de palha estilo Leghom, enfeitado com desbotadas flores de seda e uma larga fita de cetim verde, já pardacenta nas orlas. Meu vestido de babados, armado sobre aros metálicos, era de um tecido muito leve e transparente que parecia voile. Tenho a impressão de que outrora fora cor-de-rosa, mas agora era difícil definir a cor.

Rhett Butler usava uma bela roupa com calças cor-de-creme e um paletó de veludo marrom com botões de pérola sobre um colete de cetim onde ainda apareciam algumas rosas desbotadas.

- Venha, Scarlett - disse-me ele. - Precisamos fugir de Atlanta antes que Sherman tome a cidade e a incendeie.

Chris estendera cordas nas quais prendemos cobertores que faziam as vezes de cortinas do palco. Nossa platéia de dois espectadores batia impacientemente os pés no chão, ansiosa por ver Atlanta em chamas. Segui Rhett até o "palco" e estava pronta para tentá-lo, provocá-lo, flertar e encantar, colocando-o em chamas antes de fugir com um Ashley Wilkes de cabelos desbotados, quando uma de minhas anáguas rotas prendeu-se sob um de meus sapatos engraçados e grandes demais. Desmoronei de bruços numa posição pouco digna, que deixou à mostra meus calções encardidos enfeitados com rendas esfarrapadas. A platéia aplaudiu de pé, julgando que a queda era uma palhaçada que fazia parte do espetáculo.

- A peça terminou! - anunciei, começando a rasgar as velhas roupas fedorentas.

- Vamos comer! - gritou Carrie, que era capaz de dizer qualquer coisa para afastar-nos do sótão que ela tanto detestava.

Cory esticou o beicinho e olhou em volta.

- Eu queria que tivéssemos outra vez o nosso jardim - disse num tom tão tristonho e sonhador que chegou a causar-me dor - Não gosto de balançar quando as flores não balançam com o vento.

Seus cabelos louros tinham crescido até tocarem o colarinho da camisa e formavam pequenos anéis, enquanto os cabelos de Carrie iam-lhe até o meio das costas e moviam-se como uma cascata ondulante. Naquele dia, usavam roupas azuis, pois era segunda-feira. Tínhamos cores para cada dia da semana. Amarelo era a nossa cor de domingo, e vermelho a de sábado.

O desejo expresso por Cory trouxe idéias à cabeça de Chris, pois este girou lentamente sobre si mesmo, estudando o sótão com ar pensativo.

- É forçoso admitirmos que este sótão é sinistro e desolado - comentou, pensando em voz alta. - Todavia, por que não podemos, empregando nossos talentos criativos de modo construtivo, realizar uma metamorfose e transformar esta feia lagarta numa linda e brilhante borboleta?

Sorriu para mim e para os gêmeos de modo tão encantador e convincente que me deixei conquistar de imediato. Seria divertido tentar embelezar aquele local horrível, dando aos gêmeos um colorido jardim artificial onde poderiam balançar-se e ver coisas belas. Naturalmente, jamais terminaríamos de decorar o sótão inteiro, pois o espaço era imenso e o avô poderia morrer a qualquer momento - quando sairíamos dali para sempre.

Mal conseguimos esperar a chegada de mamãe naquela noite e, quando ela veio, Chris e eu ralatamos-lhe entusiasticamente nosso projeto de decorar o sótão e transformá-lo num alegre jardim artificial onde os gêmeos não sentiriam medo. A mais estranha das expressões brilhou nos olhos dela por um breve instante.

- Muito bem, então - disse, animada. - Se pretendem embelezar o sótão, primeiro precisam limpá-lo. E farei o possível para ajudar.

Às escondidas, mamãe nos trouxe panos de chão, baldes, vassouras, escovas e caixas de sabão em pó. Ajoelhou-se conosco para esfregar os cantos do sótão, as beiradas e embaixo dos móveis mais pesados. Maravilhei-me de mamãe saber como escovar e limpar as coisas. Quando morávamos em Gladstone, tínhamos uma faxineira que vinha fazer o trabalho pesado duas vezes por semana - trabalho que deixava as mãos de mamãe avermelhadas e quebrava-lhe as unhas. E ali estava ela, de quatro no chão, usando velhas blue jeans desbotadas e uma blusa velha, com o cabelo preso num coque sobre a nuca. Admirei-a de verdade. Fazia calor, o trabalho era duro e humilhante - mas ela não fez uma só reclamação; apenas ria e tagarelava, agindo como se aquilo fosse muito divertido.

Após uma semana de trabalho duro, limpamos da melhor maneira possível a maior parte do sótão. Então, mamãe trouxe-nos inseticidas para matar os insetos que haviam se escondido durante a limpeza. Recolhemos baldes cheios de aranhas e outros bichinhos rastejantes, derramando-os por uma janela dos fundos, onde rolaram para uma parte mais baixa do telhado. Posteriormente, a chuva os empurrou para as calhas, onde foram encontrados pelos pássaros. As aves fizeram um festim macabro, enquanto nós quatro, sentados no peitoril de uma janela, observávamos. Nunca encontramos um rato ou camundongo, mas víamos suas fezes. Presumimos que estivessem à espera de que toda a movimentação terminasse antes de se aventurarem a sair de suas tocas escuras e secretas.

Agora que o sótão estava limpo, mamãe trouxe-nos folhagens e até mesmo uma açucena que deveria florescer na época do Natal. Franzi a testa quando ela anunciou o fato, pois não ficaríamos trancados até lá.

- Levaremos conosco - disse ela, acariciando-me o rosto. - Quando formos embora, levaremos todas as nossas plantas, de modo que não precisa franzir a testa e fazer essa cara infeliz. Não deixaríamos nesse sótão qualquer coisa que goste de luz e sol.

Colocamos as plantas na sala de aulas do sótão, pois ali as janelas se abriam para o leste. Alegres e satisfeitos, descemos todos a estreita escada para nosso quarto; mamãe lavou-se em nosso banheiro e depois deixou-se cair, exausta, em sua poltrona especial. Os gêmeos se acomodaram no seu colo enquanto eu arrumava a mesa para o almoço. Foi um ótimo dia, pois mamãe ficou conosco até a hora do jantar; então, suspirando, declarou que precisava ir-se. Seu pai exigia muito dela, querendo saber aonde ela ia todos os sábados e por que se demorava tanto.

- Não pode dar uma fugidinha de volta até aqui antes de irmos para a cama? - indagou Carrie.

- Hoje à noite irei ao cinema - replicou mamãe, muito calma. - Antes de sair, porém, darei um pulo até aqui para vê-los outra vez. Tenho algumas daquelas caixinhas de passas que vocês podem mastigar entre as refeições. Esqueci-me de trazê-las.

Os gêmeos eram loucos por passas e senti-me alegre por eles.

- Vai sozinha ao cinema? - perguntei.

- Não. Existe uma garota que cresceu comigo; era minha melhor amiga e agora está casada. Vou ao cinema com eles. Moram a apenas algumas casas daqui.

Levantou-se, foi à janela e, depois que Chris apagou as luzes, abriu as cortinas e apontou na direção da casa onde morava sua melhor, amiga.

- Elena tem dois irmãos solteiros, um dos quais estuda advocacia. Cursa a Faculdade de Direito da Universidade de Harvard e o outro é jogador profissional de tênis.

- Mamãe! - exclamei. - Está namorando um dos irmãos?

Ela riu, tornando a fechar as cortinas.

- Acenda as luzes, Chris. Não, Cathy; não estou namorando ninguém. Para dizer a verdade, estou tão cansada que preferia ir direto para a cama. De qualquer maneira, não gosto muito de filmes musicais. Gostaria de ficar com meus filhos, mas Elena sempre insiste para que eu saia e, quando recuso, ela fica perguntando qual o motivo. Não quero que as pessoas comecem a imaginar por que razão fico em casa todos os fins de semana; por isso, às vezes tenho que velejar ou ir ao cinema.

Fazer que o sótão ficasse apenas bonito parecia altamente improvável - transformá-lo num belo jardim era algo muito acima do arco-íris. Exigiria uma enorme quantidade de trabalho penoso e capacidade criativa, mas o meu bendito irmão estava convencido de que podíamos fazê-lo num tempo insignificante! Em breve ele convenceu mamãe da idéia, a tal ponto que todos os dias, ao voltar do curso de secretariado, ela nos trazia livros de colorir, dos quais podíamos recortar flores previamente impressas. Mamãe nos trouxe caixas de aquarela, muitos pincéis, caixas de lápis de cor, enormes quantidades de cartolina colorida, bojudos vidros de cola branca e quatro pares de tesouras com pontas redondas.

- Ensinem os gêmeos a colorir e recortar as flores - instruiu ela. - E Deixem-nos participar de tudo o que vocês façam. Nomeio-os professores de jardim de infância de seus irmãos menores.

Mamãe regressava da cidade, que ficava a uma hora de distância de trem, radiante de saúde, a pele fresca e rosada pelo ar livre, as roupas tão lindas que me deixavam sem fôlego. Tinha sapatos de todas as cores e acumulava pouco a pouco peças de joalheria que ela chamava "de fantasia", embora as pedras de imitação parecessem, pelo brilho faiscante, brilhantes verdadeiros. Ela se deixava cair na "sua" poltrona, exausta, mas feliz, e relatava os acontecimentos do dia.

- Oh, como eu gostaria de que aquelas máquinas de escrever tivessem letras nas teclas! Parece que só consigo me lembrar de uma fileira. Tenho que olhar sempre para o quadro indicativo, na parede, e isso me atrasa. Também não consigo lembrar-me direito da fileira de baixo. Mas sei onde ficam todas as vogais. Como sabem, essas teclas são mais usadas que as outras. Até o momento, atingi a velocidade de vinte palavras por minuto, o que não é muito bom. Além disso, cometi quatro erros naquelas vinte palavras. E aqueles rabiscos de taquigrafia... - suspirou, como se eles também a deixassem perplexa. - Bem, creio que acabarei aprendendo. Afinal, outras mulheres aprendem; se elas conseguem eu também conseguirei.

- Gosta de suas professoras, mamãe?

Ela soltou uma risada juvenil antes de responder:

- Primeiro, deixem-me contar a respeito de minha professora de datilografia. Chama-se Sra. Helena Brady. Tem um formato semelhante ao da avó de vocês: é enorme. Só que seus seios são muito maiores! Na realidade, tem os seios mais notáveis que já vi! E as alças do sutiã não param de lhe escorregar dos ombros. E quando não são as alças do sutiã, são as da combinação, de modo que ela está sempre enfiando a mão pelo decote do vestido a fim de puxá-las de volta ao lugar, e os homens na classe sempre soltam risadinhas zombeteiras.

- Homens tomam aulas de datilografia? - indaguei, surpresa.

- Sim, temos alguns jovens na nossa classe. Alguns são jornalistas ou escritores, outros têm algum bom motivo para querer aprender a escrever à máquina. A Sra. Brady é divorciada e está de olho num desses rapazes. Flerta com ele que, por sua vez, procura ignorá-la. Ela é pelo menos dez anos mais velha que ele, que está sempre olhando para mim. Agora, Cathy, não fique imaginando coisas. Ele é baixo demais para mim. Eu jamais me casaria com um homem que não pudesse me pegar no colo para atravessar a porta do quarto nupcial. No caso, eu poderia carregá-lo no colo, pois tem apenas um metro e cinqüenta e cinco.

Todos nós soltamos gostosas gargalhadas, pois papai tinha pelo menos mais trinta centímetros de altura e carregava mamãe com facilidade. Nós o víramos fazer isso muitas vezes - em especial nas noites de sexta-feira, quando regressava de viagem e os dois se fitavam de modo tão esquisito.

- Mamãe, não está pensando em casar-se outra vez, está? - quis saber Chris, num tom muito tenso. Mamãe o abraçou depressa.

- Não, querido; claro que não. Eu amava muito seu pai. Seria preciso um homem muito especial para calçar os sapatos dele e até agora não encontrei um que fosse capaz de calçar-lhe as meias.

Brincar de professores de jardim de infância foi muito divertido - ou poderia ter sido, se nossos alunos demonstrassem um mínimo de disposição nesse sentido. Entretanto, tão logo terminávamos a refeição matinal, lavávamos e guardávamos a louça, colocávamos a comida restante no lugar mais fresco do quarto, esperávamos que as dez horas chegassem e se fossem com os criados do segundo andar, Chris e eu arrastávamos, cada um, um dos gêmeos que berravam, subindo a escada do sótão e levando-os à sala de aulas. Ali, podíamos sentar-nos nas carteiras dos alunos e fazer uma grande bagunça ao recortar flores de cartolina colorida, usando os lápis para ressaltar as cores com nervuras e pontinhos redondos. Chris e eu fazíamos as flores mais bonitas; as feitas pelos gêmeos pareciam mais manchas coloridas.

- Arte moderna - comentou Chris, batizando o tipo de flores que eles produziam.

Nas desoladas paredes cinzentas feitas de tábuas, colávamos nossas grandes flores coloridas. Chris voltou a subir na velha escada à qual faltavam alguns degraus, a fim de prender compridos barbantes nas vigas do sótão. Nesses barbantes estendidos, prendemos flores coloridas que se movimentavam incessantemente nas correntes de ar que cortavam o sótão.

Mamãe subiu para verificar os resultados de nossos esforços e sorriu satisfeita.

- Sim, estão conseguindo um resultado maravilhoso. Isto aqui está ficando bonito.

Aproximou-se pensativamente das margaridas, como se imaginasse algo que poderia trazer para nós. No dia seguinte, voltou com uma enorme caixa chata contendo contas de vidro colorido e lantejoulas, de forma a podermos acrescentar brilho e encanto ao nosso Jardim. Oh, trabalhamos como escravos para fazer aquelas flores, pois qualquer ocupação a que nos dedicássemos era alvo de um zelo fervoroso e diligente. Os gêmeos contraíram parte de nosso entusiasmo e pararam de berrar, morder e resistir sempre que mencionávamos a palavra sótão. Pois, afinal, o sótão se transformava lentamente, mas a passos firmes, num alegre jardim. E quanto mais ele mudava, mais decididos ficávamos a cobrir cada parede daquele espaço interminável.

Todos os dias, naturalmente, mamãe - ao regressar das aulas de secretariado - era obrigada a inspecionar as realizações do dia.

- Mamãe - reclamou Carrie, no seu peculiar gorjeio de pássaro sem fôlego. - Não fazemos outra coisa o dia inteiro: só flores. E às vezes Cathy nem quer que desçamos para almoçar!

- Cathy não deve preocupar-se tanto com o sótão a ponto de esquecer as refeições.

- Ora, mamãe, estamos fazendo isso para eles, de modo que não tenham medo de vir aqui.

Mamãe riu, abraçando-me.

- Ora, como você é persistente. E seu irmão também. Devem ter herdado isso de seu pai; certamente não foi de mim. Desisto com facilidade.

- Mamãe! - exclamei, inquieta. - Ainda está freqüentando a escola? Já melhorou sua datilografia, não é?

- Claro que sim.

Tornou a sorrir e recostou-se na poltrona, erguendo a mão e, aparentemente, admirando a pulseira que usava. Comecei a perguntar por que ela precisava de tantas jóias para freqüentar o curso de secretariado, mas mamãe falou antes de mim:

- O que vocês precisam agora é de animais para o seu jardim.

- Mas, mamãe, se não conseguimos fazer rosas, como vamos até mesmo desenhar animais?

Ela me lançou um sorriso misterioso, passando o dedo frio em meu nariz.

- Oh, Cathy, você é mesmo como São Tomé. Questiona tudo, duvida de tudo, mesmo já sabendo, agora, que vocês são capazes de fazer qualquer coisa desde que realmente queiram fazê-la. Pois vou contar-lhe um segredo que já conheço há algum tempo: nesse mundo onde tudo é complicado, existe um livro que nos ensina como tudo pode ser muito simples.

Isso eu viria a descobrir.

Mamãe trouxe-nos dúzias de livros didáticos de arte. O primeiro deles ensinou-nos a reduzir todos os desenhos complicados a formas geométricas básicas: esferas, cilindros, cones, prismas, cubos. Uma cadeira não passava de um cubo - o que eu não sabia anteriormente. Uma árvore de Natal era apenas uma casquinha cônica de sorvete invertida. - Eu também não sabia antes. As pessoas eram apenas combinações de todas aquelas formas básicas: as cabeças eram esferas; pescoços, braços, pernas, torsos superiores e inferiores eram simples prismas retangulares ou cilindros; os pés eram pirâmides triangulares. E, acreditem se quiserem, usando esse método básico, com uns poucos acréscimos bem simples, logo tivemos coelhos, esquilos e outras pequenas criaturas amistosas - todas elas feitas por nossas próprias mãos.

Tinham um aspecto peculiar, é verdade, mas achei que suas esquisitices tornavam-nas ainda mais engraçadinhas. Chris coloria todos os seus animais de modo realista, enquanto eu decorava os meus com bolinhas, desenhos quadriculados, padrões escoceses e colocava bolsinhos debruados com renda nas galinhas chocas. Quando nossa mãe fez compras numa loja que oferecia noções de costura, tínhamos rendas, cordões de todas as cores, botões, lantejoulas, feltro, contas e outros materiais decorativos. As possibilidades eram infinitas. Quando ela depositou aquela caixa em minhas mãos, sei que meus olhos devem ter demonstrado todo o amor que eu sentia por ela naquela época, pois aquilo provava que ela pensava em nós quando estava no mundo lá fora. Não pensava apenas em roupas novas, jóias e cosméticos para si mesma. Tentava tornar nosso confinamento o mais agradável possível.

Uma tarde chuvosa, Cory correu para mim com uma lesma de papel alaranjado na qual trabalhara laboriosamente a manhã inteira e metade da tarde. Comera apenas um pouco de seu almoço favorito - sanduíches de geléia e creme de amendoim - e estava ansioso por voltar ao "trabalho" e colocar "aquelas coisas que brotam da cabeça".

Numa atitude orgulhosa, estacou com as perninhas abertas, observando com atenção as menores alterações da expressão de meu rosto. O que ele fizera não se parecia senão com uma bola de praia entortada, com duas antenas tremulantes.

- Acha que a lesma está boa? - perguntou, com a testa franzida de preocupação, quando não encontrei o que dizer.

- Sim - repliquei rapidamente. - É uma lesma linda, maravilhosa.

- Você não acha que parece uma laranja?

- Não; claro que não. Laranjas não possuem anéis, como essa lesma. Nem sensores curvos.

Chris aproximou-se para examinar a pobre criatura que eu tinha nas mãos.

- Não se dá a isso o nome de sensores - corrigiu ele. - Uma lesma faz parte da família dos moluscos, que possuem corpos moles, sem espinha dorsal. E essas coisinhas são chamadas de antenas e estão ligadas ao cérebro. A lesma tem um intestino tubular que termina na boca e movimenta-se por meio de um pé com orlas dentadas.

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