A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Christopher - interrompi friamente. - Quando Cory e eu desejarmos saber algo a respeito dos intestinos tubulares das lesmas, enviar-lhe-emos um telegrama. Por favor, vá sentar-se num prego e aguardar o telegrama.

- Quer ser ignorante pelo resto da vida?

- Sim! - retruquei irritada. - Quando se trata de lesmas, prefiro não saber nada!

Cory foi comigo ver Carrie juntar pedaços de papel roxo e colá-los. Seu método de trabalho era atabalhoado, ao contrário do cauteloso labor de Cory. Carrie usou a ponta redonda de sua tesoura para abrir um buraco naquela... coisa roxa. Por detrás do buraco, colou um pedaço de papel vermelho. Quando terminou de montar a... coisa, batizou-a de minhoca. O objeto ondulava como uma gigantesca jibóia, faiscando o único e malévolo olho vermelho com cílios pretos semelhantes a pernas de aranhas.

- Chama-se Charlie - declarou, entregando-me a "minhoca" de quase um metro e meio. (Quando nos chegavam às mãos coisas ainda sem nome, nós lhes dávamos um nome começado por C, para que pertencessem à "família").

Numa parede do sótão, em meio ao nosso lindo jardim de flores de papel, colamos a lesma epiléptica ao lado da feroz e ameaçadora minhoca. Oh, formavam um belo par! Chris sentou-se e pintou um grande aviso vermelho: TODOS OS ANIMAIS: CUIDADO COM MINHOCAS!!!

Pintei outro aviso, achando que a pequena lesma de Cory era quem corria perigo: HÁ UM MÉDICO NESTA CASA? (Cory batizou sua lesma de Cindy Lou.) Mamãe riu ao ver as realizações daquele dia. Estava satisfeita por verificar que nos divertíamos.

- Sim, naturalmente há um médico nesta casa - declarou, curvando-se para beijar o rosto de Chris. - Este meu filho sempre soube como tratar um animal doente. E, Cory, adoro sua lesma, ela parece... tão... tão sensível.

- Gosta do meu Charlie? - quis saber Carrie, ansiosa. - Foi feito com capricho. Usei todo o roxo para torná-lo maior. Agora, não temos mais roxo.

- É uma linda minhoca; na realidade, uma minhoca maravilhosa - disse mamãe, pegando os gêmeos no colo e dando-lhes os beijos e abraços que às vezes esquecia de dar. - Especialmente aqueles cílios negros que você colocou em volta do olho vermelho, um grande efeito.

Foi uma cena íntima; acolhedora: os três na poltrona e Chris sentado no braço desta, com o rosto próximo ao de mamãe. Então, tive que me meter para estragar tudo, como era meu detestável costume.

- Quantas palavras por minuto você consegue bater agora, mamãe?

- Estou melhorando.

- O quanto?

- Estou fazendo o melhor possível, no duro, Cathy. Já lhe disse que o teclado não tem letras.

- E a taquigrafia? Com que velocidade consegue tomar um ditado?

- Estou tentando. É preciso ter paciência. Coisas assim não se aprendem da noite para o dia.

Paciência. Eu coloria a paciência de cinzento, com nuvens negras pairando acima. Coloria a esperança de amarelo, como o sol que só conseguíamos enxergar nas curtas horas matinais. Logo ele subia no céu e desaparecia de vista, deixando-nos desolados a fitar o céu azul.

Quando as pessoas crescem e têm uma porção de coisas adultas a fazer, esquecem o quanto pode ser comprido o dia para uma criança. Parecia que tínhamos vivido quatro anos no decurso daquelas sete semanas. Então, chegou outra temida sexta-feira, em que precisávamos pular da cama ao alvorecer e correr como loucos para livrar o quarto e o banheiro de qualquer vestígio de nossa existência. Eu tirava os lençóis das camas e os embolava juntamente com as fronhas e os cobertores, estendendo as colchas diretamente sobre os colchões - da maneira como a avó ordenara que fizéssemos. Na noite anterior, Chris já desmontara os trilhos do trem. Trabalhamos como alucinados para deixar o quarto arrumado e imaculadamente limpo; depois, o banheiro. Em seguida, a avó chegava com a cesta de piquenique e mandava que subíssemos com ela para o sótão, onde fazíamos a refeição matinal. Eu limpara meticulosamente, todas as nossas impressões digitais e os móveis de mogno brilhavam. A avó fez uma carranca terrível ao perceber o fato, e diabos me levem se ela não utilizou a poeira do aspirador de pó para deixar todos os móveis empoeirados novamente.

Às sete horas estávamos no sótão, mais precisamente na sala de aulas, comendo nosso mingau frio de cereais, acompanhado de passas e leite. Escutávamos levemente o barulho que as empregadas faziam ao empurrarem os móveis de nosso quarto. Nas pontas dos pés, avançamos até o vão da escada e nos encolhemos no último degrau, ouvindo o que se passava lá embaixo, embora mortos de medo de sermos descobertos a qualquer momento.

Escutar os movimentos, risadas e conversas das criadas, enquanto a avó permanecia junto à porta do armário mandando-as limpar os espelhos, polir os móveis e arejar os colchões - tudo aquilo me provocava a mais estranha sensação. Por que as criadas não percebiam algo diferente? Não tínhamos deixado ara trás algum odor que indicasse o fato de Cory fazer pipi na cama com freqüência? Era como se nós realmente não existíssemos, como se não estivéssemos vivos e nossos odores fossem imaginários. Abraçamo-nos com força, muita força.

As criadas não entraram no armário embutido; não abriram a porta alta e estreita. Não nos viram ou escutaram, nem pareceram achar estranho que a avó não tenha abandonado o quarto por um segundo, mesmo quando elas estavam no banheiro esfregando a banheira, limpando o vaso sanitário, limpando o chão de ladrilhos.

Aquela sexta-feira operou algo estranho em todos nós. Creio que murchamos as nossas avaliações de nós mesmos, pois mais tarde não encontramos o que dizer. Não tivemos prazer em nossas brincadeiras ou livros, permanecendo calados ao recortarmos nossas margaridas e tulipas de papel, à espera de que mamãe trouxesse de volta consigo a esperança.

Não obstante, éramos jovens e, nessa idade, a esperança tem raízes profundas e fortes, que descem até a ponta dos pés. Quando entramos no sótão e vimos nosso jardim que crescia a cada dia, conseguimos rir e fingir. Afinal, estávamos deixando nossa marca no mundo. Fazíamos uma coisa bela do que antes fora sujo e feio.

Os gêmeos decolaram como borboletas, voando por entre as flores pendentes das vigas. Chris e eu os empurramos bem alto nos balanços, criando correntes de ar que balançavam loucamente as flores. Escondíamo-nos atrás de árvores de papier-maché da altura de Chris e sentávamo-nos em cogumelos do mesmo material, cobertos com almofadas de espuma de borracha colorida que eram, com toda a franqueza, melhores que o artigo genuíno - ao menos para quem não tinha um apetite especial para comer cogumelos...

- É lindo! - exclamou Carrie, rodopiando sem parar, segurando a curta saia pregueada, de modo que éramos obrigados a ver as novas calcinhas franzidas de renda que mamãe lhe dera de presente na véspera. Todas as roupas e sapatos novos tinham que passar a primeira noite com Carrie e Cory em suas camas. (É horrível acordar à noite com o rosto colado a um sapatinho de tênis.)

- Também serei bailarina! - exclamou alegremente, continuando a girar até que, eventualmente, caiu.

Cory correu para verificar se ela se machucara. Carrie começou a berrar ao ver o sangue escorrer de um corte no joelho.

- Oh... se machuca, não quero ser bailarina!

Eu não ousava deixá-la saber que machucava - oh, Deus, como doía!

Tempos atrás, eu passeara em jardins de verdade, em florestas reais – e sempre sentira sua mágica aura - como se algo mágico e maravilhoso estivesse à espera logo após a primeira curva. Para tornar nosso jardim de sótão encantado, Chris e eu engatinhamos pelo chão desenhando margaridas com giz branco e traçando um círculo em volta delas. Do interior daquele círculo mágico com flores brancas todo o mal fora banido. Ali, podíamos sentar-nos no chão com as pernas cruzadas e, à luz de uma única vela, Chris e eu inventávamos compridas e complicadas estórias de fadas boas que cuidavam das crianças pequenas, bem como feiticeiras malvadas que sempre eram derrotadas.

Então, Cory falou. Como sempre, era ele quem fazia as perguntas mais difíceis de responder.

- Para onde foi toda a grama?

- Deus levou a grama para o céu - disse Carrie, livrando-me da obrigação de inventar uma resposta.

- Por quê?

- Para papai. Ele gosta de aparar o gramado.

Os olhos de Chris encontraram os meus. E julgávamos que eles tinham esquecido papai...

Cory franziu a testa, olhando as pequenas árvores de papelão feitas por Chris.

- Onde estão todas as árvores grandes?

- No mesmo lugar - respondeu Carrie. - Papai gosta de árvores grandes.

Dessa vez, desviei os olhos. Como eu detestava mentir para os gêmeos falar com eles daquela maneira era apenas uma brincadeira infindável, que eles pareciam suportar com mais paciência que Chris e eu. E eles nunca nos perguntaram por que motivo precisávamos fazer aquela brincadeira.

Nunca a avó subira ao sótão para perguntar o que estávamos fazendo, embora ela abrisse freqüentemente a porta do quarto da maneira mais silenciosa possível, esperando que não ouvíssemos o barulho da chave girando na fechadura. Espiava pela fresta, tentando pegar-nos fazendo algo "maldoso" ou "pecaminoso".

No sótão, ficávamos livres para fazer o que quiséssemos sem medo de represálias, a menos que Deus empunhasse um chicote. Nem uma só vez a avó se retirou de nosso quarto sem nos lembrar que Deus estava vendo tudo, embora ela estivesse ausente. De vez que ela nem sequer entrava no armário embutido para abrir a porta do vão da escada do sótão, minha curiosidade ficou espicaçada. Lembrei-me de perguntar a mamãe tão logo ela chegasse, a fim de não me esquecer mais uma vez.

- Por que a avó nunca sobe ao sótão para ver o que estamos fazendo? Por que apenas pergunta e julga que respondemos a verdade?

Mamãe, parecendo fatigada e desanimada, derreara-se em sua poltrona "especial". Seu novo costume de lã verde parecia muito caro. Fora ao cabeleireiro e mudara o penteado. Respondeu-me de modo distraído, como se pensasse em coisas mais agradáveis:

- Oh, não lhes contei antes? Sua avó sofre de claustrofobia, um distúrbio emocional que lhe causa falta de ar em qualquer ambiente confinado. Entendam: quando ela era criança, os pais costumavam trancá-la num armário como castigo.

Puxa! Como era difícil imaginar que aquela mulher enorme algum dia tivesse sido bastante jovem e pequena para ser castigada. Quase senti pena da criança que ela fora, mas lembrei-me de que parecia muito feliz em manter-nos trancados. Aparecia em seus olhos, sempre que nos encarava: a petulante satisfação de ter-nos capturado de modo tão hábil. Ainda assim, era peculiar que o destino lhe tivesse imposto tal medo, que nos dava bons motivos para beijarmos as estreitas paredes daquele vão de escada. Chris e eu costumávamos especular sobre o modo como móveis tão grandes e pesados tinham sido levados até o sótão. Certamente, seria impossível manobrá-los através do estreito armário embutido e subir com eles pela escada, que mal tinha trinta centímetros de largura. E, embora déssemos uma busca cuidadosa para encontrar outra porta maior no sótão, não conseguimos. Talvez existisse alguma escondida atrás de um dos gigantescos armários pesados demais para que pudéssemos movê-los. Chris julgava que os móveis maiores poderiam ter sido içados até o telhado e, depois, passados através de uma das janelas maiores do sótão.

Todos os dias a bruxa-avó entrava em nosso quarto para apunhalar-nos com aquele olhar duro e rosnar através dos lábios finos e retorcidos. Todos os dias, fazia-nos sempre as mesmas perguntas: "O que estiveram planejando? O que fizeram no sótão? Deram graças antes das refeições de hoje? Ajoelharam-se ontem à noite e pediram a Deus que perdoe seus pais pelo pecado que cometeram? Estão ensinando aos dois menores a palavra do Senhor? Usaram o banheiro juntos, meninos e meninas?" - nesse ponto, seus olhos faiscavam: "Têm sido sempre recatados? Ocultam as partes privadas de seus corpos dos olhares dos outros? Tocam seus corpos quando não é necessário por motivos de higiene?"

Oh, Deus! Como ela fazia a pele parecer algo sujo! Depois que ela saía, Chris ria.

- Acho que ela cola as roupas de baixo no corpo - pilheriava ele.

-Não! Usa pregos! - replicava eu.

- Já notou como ela gosta da cor cinza?

Se eu notara? Quem não notaria? Sempre cinza. Algumas vezes, o cinza tinha listras quase invisíveis de vermelho ou azul, por outras, um leve desenho em relevo quase imperceptível, ou jacquard, mas o tecido era invariavelmente o mesmo: tafetá, com o broche de brilhantes fechando a frente sem decote, suavizada apenas por debruns de crochê feito à mão. Mamãe sempre nos dissera que uma viúva da cidadezinha mais próxima confeccionava aqueles uniformes que pareciam armaduras blindadas.

- Essa tal senhora é muito amiga de minha mãe. E usa cinza porque é muito mais barato comprar tecido por peça do que por metro. E pensar que seu avô possui uma tecelagem que fabrica tecidos finos, em algum lugar da Geórgia.

Puxa vida! Até os ricos tinham que ser sovinas!

Uma tarde de setembro, desci correndo a escada do sótão para ir ao banheiro e esbarrei na avó! Ela me agarrou pelos ombros, fitando-me furiosamente.

- Olhe por onde anda, menina! - estrilou. - Por que tanta pressa.

Seus dedos pareciam aço através do fino tecido de minha blusa. Como ela falara primeiro, eu podia responder.

- Chris está pintando uma paisagem maravilhosa - expliquei, sem fôlego. – E preciso voltar logo com água fresca antes que a primeira demão seque. É importante manter as cores limpas e nítidas.

- Por que ele não vem buscar a água? Por que você serve de criada para ele?

- Porque ele está pintando e perguntou se eu me importava de vir buscar água fresca. Eu não estava fazendo nada, só observando. E os gêmeos derramariam a água.

- Idiota! Nunca sirva de criada para um homem. Obrigue-o a cuidar-se sozinho. Agora, diga logo a verdade: o que estão realmente fazendo lá em cima?

- Palavra de honra. Estou dizendo a verdade. Estamos dando duro para enfeitar o sótão, a fim de que os gêmeos não tenham medo de lá. E Chris é um artista maravilhoso.

Ela franziu os lábios zombeteiramente e indagou, desdenhosa:

- Como você poderia saber?

- Ele tem talento artístico; todos os seus professores afirmavam isso.

- Ele lhe pediu para posar... sem roupas?

Fiquei chocada.

- Não! Claro que não!

- Então, por que está tremendo?

- Estou... com medo... de você - gaguejei. - Todos os dias, vem perguntar-nos que coisas pecaminosas e más estamos fazendo. Na verdade, não sei o que pensa que estejamos fazendo. Se não nos explicar exatamente, como podemos evitar fazer ruim, não sabendo o que é ruim?

Ela me olhou de cima a baixo e sorriu, sarcástica.

- Pergunte a seu irmão mais velho; ele sabe o que quero dizer. O macho da espécie já nasce sabendo tudo que é ruim.

Rapaz, cheguei a piscar! Chris não era ruim ou mau. Havia ocasiões em que me irritava, mas não era pecaminoso. Tentei explicar isso à avó, mas ela nem quis escutar.

Mais tarde, naquele mesmo dia, ela entrou em nosso quarto trazendo um vaso de barro com crisântemos amarelos. Encaminhou-se diretamente a mim, colocou-me o vaso nas mãos.

- Eis aqui algumas flores de verdade para seu jardim de mentira - disse com indiferença.

Partindo dela, foi algo tão inesperado que me tirou o fôlego. Iria ela mudar - encarar-nos de modo diferente? Seria capaz de aprender a gostar de nós? Agradeci-lhe efusivamente as flores. Talvez tenha sido efusiva demais, pois ela girou nos calcanhares e saiu a passos rígidos, como se estivesse embaraçada.

Carrie veio correndo afundar o rostinho na massa de pétalas amarelas.

- Lindas - comentou. - Posso ficar com elas, Cathy?

Claro que podia ficar com elas. Com grande reverência, o vaso de flores foi colocado no peitoril da parte leste do sótão para receber sol. Nada podíamos ver senão colinas e as montanhas distantes, com as árvores no intervalo; acima delas, uma névoa azulada. As flores de verdade passavam as noites conosco, de modo que os gêmeos pudessem acordar de manhã e ver perto de si algo belo e vivo, que crescia com eles.

Sempre que me lembro de ser jovem, torno a ver aquelas colinas e montanhas cobertas de névoa azulada, e as árvores rigidamente perfiladas nas encostas. E sinto outra vez o cheiro do ar seco e poeirento que respirávamos no sótão. Vejo de novo as sombras do sótão, que se mesclavam tão bem às sombras de minha mente. E volto a escutar as silenciosas indagações sem resposta: Por quê? Quando? Por quanto tempo?

Amor... Eu depositava tanta fé nele.

Verdade... Eu continuava a acreditar que ela sai dos lábios da pessoa que mais amamos e em quem mais confiamos.

Confiança... Está intimamente ligada ao amor e à verdade. Onde termina um e começa outro? Como saber que o amor é o mais cego?

Mais de dois meses se haviam passado e o avô continuava vivo.

Ficávamos em pé, sentávamo-nos, deitávamo-nos nos largos parapeitos das janelas do sótão. Olhávamos, tristonhos e sonhadores, os topos das árvores que, do verde escuro de verão, assumiam da noite para o dia os brilhantes tons de vermelhos, dourados, alaranjados e marrons trazidos pelo início do outono. O espetáculo me comovia; creio que comovia a todos nós, inclusive os gêmeos, assistir à partida do verão e à chegada do outono. E só podíamos observar, mas nunca participar.

Meus pensamentos voavam freneticamente, desejando fugir daquela prisão e encontrar o vento que me desfizesse os cabelos, me fustigasse o rosto, fizesse com que eu me sentisse viva outra vez. Ansiava pela companhia de todas as crianças que corriam em liberdade pelos gramados pardacentos, esfregando os pés nas folhas secas que estalavam - como eu fazia outrora.

Por que eu nunca entendera, quando podia correr livremente, que estava experimentando a felicidade? Por que eu pensava, naquela época, que a felicidade estava sempre no futuro, quando eu fosse adulta, capaz de tomar minhas decisões, seguir meu caminho, ser dona de meu nariz? Por que me parecia que ser criança nunca era suficiente? Por que julgava que a felicidade estava reservada aos adultos?

- Você parece triste - comentou Chris, que estava junto de mim, com Cory sentado ao lado dele e Carrie ao meu outro lado.

Naqueles dias, Carrie era como minha pequena sombra, seguindo-me aonde eu fosse, fazendo tudo que eu fazia e imitando o modo como ela julgava que eu me sentia - exatamente como Chris também tinha sua pequena sombra em Cory. Para haver quatro irmãos mais unidos que nós, teriam que ser quádruplos siameses.

- Não vai responder? - indagou Chris. - Por que está tão triste? As árvores estão lindas, não estão? Quando é verão, eu penso que gosto mais do verão; entretanto, quando chega o outono, acho que gosto mais do outono; e no inverno, esta é minha estação predileta, mas na primavera acho que esta é a melhor época.

Sim, aquele era meu Boneco Christopher. Vivia o momento e sempre o achava bom, a despeito das circunstâncias.

- Eu estava relembrando a velha Sra. Bertram e sua enfadonha conversa sobre o famoso Chá de Boston. Fazia a história tão chata e as pessoas tão irreais. Mesmo assim, eu gostaria de voltar a ficar enfadada daquele modo.

- Sim - concordou ele. - Compreendo o que você quer dizer. Eu também achava a escola uma chateação e história uma matéria sem graça. Em especial a história dos Estados Unidos - com exceção dos índios e do velho Oeste. Mas, pelo menos, íamos à escola e fazíamos a mesma coisa que as outras crianças da nossa idade. Agora, estamos apenas perdendo tempo, sem fazer nada. Cathy, não desperdicemos um minuto! Preparemo-nos para o dia em que sairmos daqui. Se não estabelecermos com firmeza em nossas mentes os objetivos que desejamos alcançar e lutarmos sempre para atingi-los, jamais conseguiremos chegar lá. Eu me convencerei de que se não puder ser médico não desejarei ser qualquer outra coisa, nem vou querer qualquer coisa que o dinheiro possa comprar!

Fez a declaração com profunda intensidade. Eu desejava ser uma grande bailarina, mas aceitaria alguma outra coisa. Chris franziu a testa, como se lesse meus pensamentos. Fitou-me com os olhos muito azuis e ralhou porque eu não fizera uma só vez meus exercícios de balé desde que tínhamos vindo para aquela casa.

- Cathy, amanhã fixarei uma barra na parte do sótão que já terminamos de enfeitar. Você vai treinar cinco ou seis horas por dia, exatamente como na escola de balé!

- Negativo! Ninguém me obrigará a fazer coisa nenhuma! Além disso, não se pode fazer posições de balé sem usar roupas adequadas a isso!

- Que estupidez!

- Sou estúpida! Você, Christopher, é um gênio!

Comecei a chorar e fugi do sótão, correndo por entre a flora e a fauna de papel. Corri, corri, corri para a escada. Voei, voei, voei pelos degraus íngremes e estreitos, desafiando o destino a fazer-me cair. Quebrar-me uma perna ou o pescoço, deixando-me morta em um caixão. Então, todos ficariam tristes; chorariam pela grande bailarina que eu deveria ter sido.

Joguei-me na cama e solucei no travesseiro. Nada havia ali senão sonhos, esperanças - nenhuma realidade. Eu ficaria velha e feia, jamais voltaria a ver uma porção de pessoas. Aquele velho lá embaixo era capaz de viver até cento e dez anos! Todos aqueles médicos conseguiriam mantê-lo vivo para sempre - e eu perderia a Noite das Bruxas: nada de truques, brincadeiras, festas ou doces. Cheia de autocomiseração, jurei que alguém pagaria, e pagaria bem caro, por tudo aquilo - alguém pagaria!

Usando seus sujos sapatos brancos de tênis, eles vieram a mim - meus dois irmãos e minha irmãzinha - cada qual tentando reconfortar-me com pequenos presentes de suas queridas posses: os lápis de cor de Carrie, o livro das estórias de Pedro Coelho de Cory; mas Chris limitou-se a ficar sentado, olhando para mim. Nunca me senti tão pequena.

Uma noite, bem tarde, mamãe chegou com uma grande caixa e me entregou para abrir. Dentro dela, entre camadas de papel de seda, estavam roupas de balé: uma cor-de-rosa vivo, outra azul-turquesa, com malhas e sapatilhas combinando com os saiotes de tule. "De Christopher", estava escrito no cartão dentro da caixa. E havia, também, discos de música de balé. Comecei a chorar ao abraçar minha mãe e, depois, meu irmão. Desta feita, não eram lágrimas de frustração ou desespero. Agora, eu tinha um objetivo pelo qual lutar.

- Eu queria, acima de tudo, comprar uma roupa de balé branca para você - disse mamãe, ainda me abraçando. - Tinham uma linda, num tamanho maior que o seu, com uma touca de penas brancas que tapam as orelhas, especial para O Lago dos Cisnes. Encomendei uma do tamanho certo, Cathy. Três roupas devem ser o bastante para dar-lhe inspiração, não é mesmo?

Oh, sim! Quando Chris prendeu solidamente a barra a uma parede do sótão, passei a treinar horas a fio, enquanto a música tocava. Não existia um enorme espelho por detrás da barra, como havia nas escolas de dança que eu freqüentara; mas eu tinha na cabeça um gigantesco espelho natural, no qual via-me como Pavlova dançando diante de dez mil espectadores encantados. Repetia os números e curvava-me para receber dúzias de buquês de rosas, todas elas vermelhas. Com o tempo, mamãe trouxe-me discos de todos os bailados de Tchaikovsky, que eram tocados num toca-discos elétrico que, por meio de uma dúzia de fios de extensão, fora ligado a uma tomada em nosso quarto.

Dançar ao som da linda música transportava-me, fazendo-me esquecer momentaneamente que a vida passava depressa, deixando-nos para trás. O que importava, desde que eu dançasse? Era melhor fazer piruetas e simular que tinha um parceiro para amparar-me quando eu assumia as posições mais difíceis. Eu caía, levantava-me e recomeçava a dançar até perder o fôlego e sentir dores em todos os músculos. As malhas grudavam-se a meu corpo com o suor e meu cabelo ficava molhado. Eu permanecia estirada no chão para descansar. Ofegante; depois, levantava-me e voltava à barra para fazer os pliés. Às vezes, eu era a Princesa Aurora em A Bela Adormecida; outras, dançava também a parte do príncipe, pulando alto no ar e batendo os pés um contra o outro.

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