A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Certa feita, ergui os olhos em meus espasmos finais da morte do cisne e vi Chris nas sombras do sótão, observando-me com uma expressão muito estranha. Logo ele faria aniversário: o décimo quinto. Como se explicava que já parecesse um homem e não um menino? Seria apenas aquela vaga expressão em seu olhar que revelava a rápida mudança da infância para a maturidade?

Nas pontas dos pés, em pointe, realizei uma seqüência de pequenos passos, rápidos e iguais, que supostamente dão a impressão de que a bailarina está deslizando sobre o palco e criando o que é conhecido poeticamente por "colar de pérolas". Dessa forma, cheguei até Chris e estendi os braços para ele.

- Venha, Cnris, seja meu danseur; deixe-me ensinar-lhe.

Ele sorriu, aparentemente divertido, mas sacudiu a cabeça e declarou que era impossível.

- O balé não é para mim. Mas eu gostaria de aprender a valsar, se a música for de Strauss.

Aquilo me fez rir. Na ocasião, as únicas músicas de valsa que possuíamos (à exceção de bailados) eram velhos discos de Strauss. Corri ao toca-discos para tirar O Lago dos Cisnes e colocar Danúbio Azul.

Chris era desajeitado. Segurava-me erradamente, como se embaraçado. Pisou em minhas sapatilhas cor-de-rosa. Mas era tocante o esforço que ele fazia para tentar corretamente os passos mais simples. E senti-me incapaz de dizer-lhe que todos os seus talentos deviam residir no cérebro e na habilidade de suas mãos de artista, pois certamente nenhuma parcela deles lhe escorrera para as pernas e os pés. Não obstante, a música de Strauss tinha algo doce e encantador, era romântica e fácil de dançar, tão diferente das atléticas valsas de bailados que deixavam a gente suada e sem fôlego.

Quando mamãe finalmente entrou pela porta com a maravilhosa roupa branca especial para O Lago dos Cisnes, um lindo corpete justo coberto de penas, uma touca também de penas, sapatilhas brancas e uma malha branca tão fina que o rosado de minha pele aparecia através dela, mal consegui respirar!

Oh! Parecia que o amor, a esperança e a felicidade podiam ser trazidos ao nosso confinamento numa gigantesca caixa de cetim branco com um laço violeta entregues a mim por alguém que realmente se importara comigo quando outro alguém que gostava de mim lhe dera a idéia.

“Dança, bailarina, dança, e faz tuas piruetas

Em ritmo com teu coração ferido.

Dança, bailarina, dança, não deves esquecer

Que precisas o bailado terminar.

Uma vez, disseste que o amor tinha que esperar,

Pois querias antes a fama, o teu grande objetivo.

Vivemos e aprendemos... O amor se foi, bailarina; acabou".

Eventualmente, Chris conseguiu dançar valsa e fox-trot. Quando tentei ensinar-lhe o charleston, ele recusou:

- Não preciso aprender todos os tipos de dança, como você. Não trabalharei no palco; só quero aprender a entrar numa pista de danças com uma garota sem fazer papel de palhaço.

Eu praticamente nascera dançando. Não havia tipo de dança que eu fosse incapaz ou não quisesse dançar.

- Chris, você precisa saber uma coisa: não poderá passar o resto da vida dançando apenas valsa e fox-trot. Todo ano surge uma nova moda, como no caso das roupas. É preciso atualizar-se, adaptar-se. Venha, vamos dançar um pouco de jazz para desenferrujar suas juntas rígidas, que devem estar quase paralíticas de tanto você ficar sentado lendo.

Parei de valsar e corri ao toca-discos para colocar um novo número: "Você não passa de um cão de caça".

Levantei os braços e comecei a girar os quadris.

- Você precisa aprender a dançar o rock'n 'roll, Chris. Escute o ritmo, solte o corpo e aprenda a movimentar os quadris, como Elvis Presley. Vamos... fique com os olhos semi-cerrados, parecendo sonolento, sexy... e faça beicinho, porque senão nenhuma pequena se apaixonará por você.

- Então, nenhuma pequena se apaixonará por mim.

Foi assim que ele falou, uma declaração lacônica e muito séria. Chris jamais permitiria que alguém o forçasse a fazer algo que contrariasse a idéia que ele fazia de si mesmo e, sob certo aspecto, eu gostava dele por ser assim: forte, resoluto, decidido a ser ele mesmo, embora seu tipo já tivesse saído de moda há muito tempo. Meu Sir Christopher, o galante cavaleiro.

À maneira de Deus, mudávamos as estações no sótão. Retiramos as flores e penduramos folhas de outono, coloridas em tons de marrom, ferrugem, vermelho e dourado. Se ainda estivéssemos lá quando o inverno chegasse, substituiríamos as cores de outono por desenhos brancos rendados, que já estávamos recortando para tal eventualidade. Fizemos gansos e patos selvagens com cartolina branca, cinzenta e preta, pendurando-os em bandos, de asas abertas, virados na direção do sul. Era fácil fazermos aves: bastavam ovais alongados, com esferas fazendo as vezes de cabeça. Pareciam lágrimas aladas.

Quando Chris não estava sentado, com o nariz enfiado num livro, pintava a aquarela panoramas com colinas cobertas de neve e lagos congelados onde deslizavam patinadores. Inseria nas paisagens pequenas casas amarelas e cor-de-rosa, quase cobertas pela neve, com fumaça saindo das chaminés. E, ao longe, uma enevoada torre de igreja. Quando terminava a paisagem, pintava a moldura como se fosse uma esquadria de janela. Ao pendurarmos o quadro na parede, tínhamos uma sala com visão panorâmica!

Outrora, Chris sempre implicara comigo e eu nunca conseguia agradá-lo. Um irmão mais velho... Ali, porém, mudamos - tanto ele como eu - da mesma forma que alteramos o nosso mundo no sótão. Deitados lado a lado num colchão velho, manchado e malcheiroso, conversávamos horas a fio, fazendo planos para o tipo de vida que levaríamos quando estivéssemos livres e ricos como Midas. Viajaríamos o mundo inteiro. Chris conheceria e se apaixonaria pela mulher mais bela e sexy, que também era brilhante, compreensiva, encantadora, espirituosa e ótima companhia; ela seria a dona-de-casa perfeita, a mais fiel e devotada das esposas, a melhor das mães jamais brigaria, reclamaria, choraria ou duvidaria das decisões de Chris, nem ficaria desapontada ou desencorajada se ele cometesse enganos estúpidos no mercado de capitais e perdesse até o último vintém. Compreenderia que ele fizera o melhor possível e em breve, com sua brilhante inteligência, tornaria a ganhar uma fortuna.

Rapaz! Chris me deixava deprimida. Como, nesse mundo, eu conseguiria satisfazer as necessidades de um homem como ele? De um modo ou outro, compreendi que ele estava estabelecendo o padrão pelo qual eu julgaria todos os meus futuros pretendentes.

- Chris, essa mulher inteligente, encantadora, espirituosa, linda, não poderá ter um só pequenino defeito?

- Por que deveria ter?

- Veja nossa mãe, por exemplo: você acha que ela é isso tudo, exceto, talvez, brilhante.

- Mamãe não é estúpida! - defendeu ele, com veemência. - Ela apenas foi criada no meio ambiente errado! Foi reprimida quando criança; obrigaram-na a sentir-se inferior por ser do sexo feminino.

Quanto a mim, após ser uma prima ballerina por vários anos e estar pronta para casar-me e lançar raízes, não sabia que tipo de homem desejar se ele não estivesse à altura de Chris ou de meu pai. Desejava um homem bonito - isso eu sabia, pois queria ter filhos bonitos. E brilhante, sob pena de não respeitá-lo. Antes de aceitar o anel de noivado, eu me sentaria para jogar muitos jogos contra ele; se eu ganhasse uma vez ou outra, sorriria, sacudiria a cabeça e o mandaria devolver o anel à joalheria.

E enquanto fazíamos planos para o futuro, nossos vasos de filodendros murcharam; nossas folhas de trepadeira amarelaram antes de morrer. Trabalhávamos com ardor, dispensando às nossas plantas um tratamento carinhoso, conversando com elas, suplicando-lhes, implorando-lhes que fizessem O favor de parar de parecerem doentes, se animassem e erguessem a cabeça. Afinal, pegavam o sol mais saudável: o sol matinal do leste.

Dentro de poucas semanas, Cory e Carrie pararam de implorar para sair. Carrie já não esmurrava a pesada porta de carvalho e Cory deixou de tentar arrombá-la a pontapés com seus pezinhos miúdos calçados de tênis macios, que não impediam a formação de equimoses nos artelhos. Passaram a aceitar com docilidade o que antes renegavam com veemência - o "jardim" do sótão era o único "lá fora" de que dispunham. E com o tempo, por mais pena que isso causasse, esqueceram a existência de outro mundo que não aquele onde estávamos aprisionados.

Chris e eu arrastamos vários colchões velhos para perto das janelas do leste, de modo que podíamos escancarar as janelas e tomar banho de sol, absorvendo os raios benéficos que já não precisavam atravessar as vidraças suja para chegarem até nós. Crianças necessitam de sol para o crescimento. Bastava nos olhar para nossas plantas moribundas e verificar o que o ar do sótão estava causando às nossas folhagens.

Sem o menor embaraço, despíamo-nos inteiramente e tomávamos banho de sol durante o curto tempo em que ele entrava pelas nossas janelas. Víamos as diferenças anatômicas existentes entre nós e pouca importância lhes dávamos. Com a maior franqueza, contamos a mamãe o que fazíamos para evitar que morrêssemos por falta de sol. Mamãe olhou de Chris para mim e deu um sorriso amarelo.

- Está bem, desde que não deixem sua avó saber. Ela não aprovaria, como vocês bem sabem.

Atualmente, compreendo que ela olhou para Chris, e depois para mim, à procura de sinais que indicassem nossa inocência ou o despertar de nossa sexualidade. E o que viu deve ter-lhe dado alguma confirmação de que ainda éramos apenas crianças - embora ela devesse saber melhor das coisas.

Os gêmeos adoravam ficar despidos e brincar como bebês. Gargalhavam, soltavam risadinhas quando usavam termos incompreensíveis para nós e gostavam de olhar para os locais de onde vinha o "du-du", bem como imaginavam por que motivo o fazedor de "di-di" de Cory era tão diferente do de Carrie.

- Por que, Chris? - indagou Carrie, apontando para o que ele tinha, Cory também tinha, mas ela e eu não tínhamos.

Continuei a ler O Morro dos Ventos Uivantes e tentei ignorar aquela conversa tola.

Chris, porém, tentou dar uma resposta adequada e, também, verdadeira:

- Todas as criaturas do sexo masculino possuem os órgãos sexuais no lado de fora do corpo, e todas as do sexo feminino no lado de dentro, guardados.

- Guardados com bom gosto - comentei.

- Sim, Cathy; sei que você aprova seu corpo de tanto bom gosto e eu aprovo o meu de tanto mau gosto, de modo que devemos estar felizes pelo fato de serem como são. Nossos pais aceitavam nossos corpos despidos como aceitavam nossos olhos e cabelos; assim faremos nós, também. E esqueci um detalhe: os pássaros machos possuem os órgãos arrumados no lado de dentro do corpo, com bom gosto, da mesma forma que as fêmeas.

Intrigada, perguntei:

- Como sabe?

- Sabendo.

- Leu em algum livro?

- Que outra coisa poderia ser? Acha que apanhei uma ave e a examinei?

- Partindo de você, eu não duvidaria.

- Pelo menos, leio para aperfeiçoar o cérebro e não apenas para distraí-lo.

- Vai ser um homem muito chato, eu o previno... E se um pássaro macho tem órgãos sexuais guardados dentro do corpo, não é uma fêmea?

- Não!


- Mas não compreendo, Chris. Por que as aves são diferentes?

- Precisam de formas aerodinâmicas para voar.

Mais uma vez, eu ficava perplexa e ele tinha todas as respostas. Eu deveria saber que o cérebro dos cérebros tinha as respostas...

- Muito bem. Mas por que os pássaros machos são assim? E deixe de lado o detalhe da forma aerodinâmica.

Ele vacilou, com o rosto muito vermelho, e procurou um meio de responder delicadamente.

- Os pássaros machos ficam excitados e isso faz o que está dentro vir para fora.

- Como ficam excitados?

- Cale a boca e leia seu livro, e deixe-me ler o meu!

Alguns dias fazia muito frio para tomarmos banho de sol. Depois, o clima ficou gelado, de modo que até mesmo usando nossas roupas mais quentes e pesadas ainda tremíamos de frio, a menos que corrêssemos. Logo o sol matinal se afastou do leste, deixando-nos desolados e desejosos de que o sótão tivesse janelas no lado sudeste. Mas as janelas estavam com os postigos fechados e pregados com tábuas.

- Não importa - disse mamãe. - O sol da manhã é o mais saudável.

Palavras que não nos animavam, pois nossas plantas estavam morrendo, uma a uma, no sol mais saudável.

No início de novembro, o sótão começou a ficar frio como o Pólo Ártico. Batíamos dentes, espirrávamos com freqüência, e reclamamos a mamãe que precisávamos de um fogão com uma chaminé, pois ambos os fogões da sala de aulas tinham sido desligados. Mamãe falou em trazer um aquecedor elétrico ou a gás, mas temia que um aquecedor elétrico pudesse provocar um incêndio caso fosse ligado a muitos fios de extensão, e um aquecedor a gás também precisaria de um chaminé.

Trouxe-nos pesadas roupas de baixo e grossos casacos de esquiar, com capuzes, bem como calças de esquiar, em cores brilhantes e forradas com lã. Trajando essas roupas, íamos diariamente para o sótão, onde podíamos ficar à vontade, escapando ao olhar sempre vigilante da avó.

Em nosso quarto abarrotado, mal tínhamos espaço para andar sem esbarrar em alguma coisa e ficar cheios de equimoses. No sótão, ficávamos frenéticos, gritando enquanto nos perseguíamos mutuamente, brincando de esconder; montávamos pequenas peças teatrais numa atividade desenfreada. Às vezes, brigávamos, discutíamos, chorávamos e, depois, voltávamos às brincadeiras frenéticas. Tínhamos paixão por brincar de esconder. Chris e eu fazíamos planos para a brincadeira terrivelmente ameaçadora, apavorando – mas não muito - os gêmeos, que já temiam suficientemente as "coisas ruins" que se ocultavam nas escuras sombras do sótão. Carrie relatava ansiosamente ter visto monstros escondidos sob os móveis protegidos por capas de pano.

Um dia, percorríamos a zona polar do sótão à procura de Cory.

- Vou descer - declarou Carrie, com o rostinho cheio de ressentimento, o beicinho esticado.

Seria inútil tentar convencê-la a ficar para continuar a brincadeira, pois era teimosa demais. Afastou-se, petulante, em seu traje vermelho de esquiar, deixando-me com Chris para procurarmos Cory. Geralmente, ele era muito fácil de encontrar. O modo mais correto de procurá-lo era ir ao local onde Chris se escondera pela última vez; portanto, bastava-nos ir direto ao terceiro armário e lá estaria Cory, agachado no chão, escondido sob um monte de roupas velhas, sorrindo para nós. Dávamos-lhe um pouco de tempo para divertir-se, evitando o local durante um certo intervalo. Então, decidimos "encontrá-lo". E quando olhamos - ele não estava lá!

- Diabo! - exclamou Chris. - Afinal, resolveu ser criativo e escolheu um lugar original para esconder-se.

Era o resultado de ler tantos livros: falar difícil. Limpei o nariz e dei mais uma olhada em volta. Para quem fosse realmente criativo, existiam milhões de esconderijos nas múltiplas alas do sótão.

Podíamos levar muitas horas para encontrar Cory. Eu estava com frio, cansada, irritada, farta de brincar todos os dias da mesma maneira porque Chris insistia em manter-nos ativos.

- Cory! - berrei. - Venha de onde estiver! Está na hora do almoço!

Ora, aquilo deveria ser o bastante para fazê-lo aparecer. As refeições eram acolhedoras e dividiam os nossos longos dias em diversas partes.

Ele continuou a não responder. Olhei para Chris, furiosa.

- Sanduíches de creme de amendoim com geléia de uvas! - gritei.

Era a comida predileta de Cory e deveria trazê-lo correndo. Mesmo assim, nenhum ruído nem resposta - nada.

De repente, senti medo. Não podia acreditar que Cory tivesse perdido o temor do imenso sótão sombrio e estivesse, afinal, levando a brincadeira a sério. Contudo, suponhamos que estivesse querendo imitar Chris ou eu? Oh, Deus!

- Chris! - bradei. - Precisamos achar Cory, depressa!

Chris deixou-se contagiar por meu pânico; girou nos calcanhares e correu, chamando pelo nome de Cory, ordenando-lhe que parasse com a brincadeira de esconder. Ambos corremos, procurando, chamando repetidamente o nome de Cory. A brincadeira terminara e estava na hora do almoço. Nenhuma resposta. E eu estava quase gelada a despeito de todas as roupas que usava. Até minhas mãos pareciam azuladas.

- Oh, meu Deus! - murmurou Chris, estacando. - E se ele se escondeu num dos baús? A porta pode ter caído e o trinco fechado! Cory morreria sufocado!

Corremos como loucos, procurando, abrindo as tampas de cada um dos velhos baús. Jogamos longe pantalonas, anáguas, camisolas, espartilhos, camisas, temos, sempre impulsionados por crescente terror. E durante todo o tempo, eu rezava a Deus para que não deixasse Corry morrer.

- Eu o encontrei, Cathy! - gritou Chris.

Girei nos calcanhares e vi Chris tirando o pequeno corpo inerte de dentro de um baú cujo trinco caíra, fechando-o lá dentro. Com as pernas bambas de alívio, tropecei até eles e beijei o rosto pálido de Cory, que assumira uma coloração estranha por falta de oxigênio. Seus olhos entreabertos estavam fora de foco e ele praticamente perdera os sentidos.

- Mamãe - sussurrava. - Quero minha mamãe...

Mas mamãe estava a quilômetros de distância, aprendendo datilografia e taquigrafia. Só nos restava uma vó impiedosa, que não sabíamos como localizar numa emergência.

- Vá depressa e encha a banheira, em primeiro lugar - disse-me Chris. - Com água quente, mas não demais. Não queremos escaldá-lo.

Então, tomou Cory nos braços e correu atrás de mim na direção da escada.

Cheguei primeiro ao banheiro e corri à banheira. Olhei para trás e vi Chris depositar Cory na cama. Então, debruçou-se sobre o menino, tapou-lhe o nariz e abaixou-se até cobrir com a boca os lábios de Cory, que estavam abertos e azuis. Meu coração quase parou! Estaria morto? Deixara de respirar?

Carrie olhou de relance o que estava acontecendo, viu o irmão gêmeo azul e imóvel, e começou a berrar.

No banheiro, abri totalmente ambas as torneiras; a água correu com força. Cory ia morrer! A água correu com força e depois as torneiras começaram a lançar um jato constante. Eu sempre pensava na morte... e a maioria de meus sonhos se tornavam realidade! Como sempre, exatamente quando julgava que Deus nos voltara as costas e não se importava mais conosco, eu me agarrava desesperadamente à minha fé, implorando a Ele que não deixasse Cory morrer... por favor, Deus, por favor, por favor, por favor...

Talvez minhas desesperadas preces contribuíssem tanto para reviver Cory quanto a respiração artificial que Chris lhe aplicava.

- Está respirando outra vez - disse Chris, pálido e trêmulo, ao carregar Cory para a banheira. - Agora, tudo o que precisamos fazer é aquecê-lo.

Num piscar de olhos, despimos Cory e o mergulhamos na banheira de água quente.

- Mamãe - balbuciou Cory ao recobrar os sentidos. - Quero mamãe.

Repetia incessantemente aquelas palavras e tive vontade de esmurrar as paredes por causa de tal injustiça! Quem devia estar ali era a mãe dele, não uma mãe "faz-de-conta", que nem sabia como agir. Eu queria sair dali, mesmo que precisasse mendigar pelas ruas!

Todavia, repliquei num tom calmo, que levou Chris a erguer a cabeça para lançar-me um olhar de aprovação:

- Por que não faz de conta que eu sou mamãe? Farei por você tudo que ela faria, como segurá-lo no colo e embalá-lo para dormir enquanto canto uma canção de ninar. Farei isso logo que você almoçar e tomar um pouco de leite.

Chris e eu estávamos ajoelhados quando pronunciei essas palavras. Chris massageava os pezinhos de Cory, enquanto eu lhe esfregava as mãos frias para voltar a esquentá-las. Quando a pele de Cory voltou à cor normal, nós o enxugamos, vestimos-lhe seu pijama mais quente, depois o enrolamos num cobertor e o acomodamos na velha cadeira de balanço que Chris trouxera do sótão. Sentei-me com meu irmãozinho encolhido no colo, cobri-lhe o rosto de beijos e murmurei-lhe ao ouvido coisas que o fizeram soltar risadinhas.

Se podia rir, também podia comer; dei-lhe pequenos pedaços de sanduíche e goles de sopa morna, entremeados com longos sorvos de leite. Enquanto fazia isso, amadurecia, ficava mais velha. Em dez minutos, envelheci dez anos. Lancei um olhar de esguelha a Chris quando este se sentou para almoçar, e percebi que ele também mudara. Agora, sabíamos que havia real perigo no sótão, além do vagaroso enfraquecimento - por falta de sol. Todos nós enfrentávamos perigos muito piores que os camundongos e aranhas que persistiam em sobreviver, a despeito de todos os esforços que despendíamos para exterminá-los por completo.

Sozinho, Chris subiu os estreitos degraus da íngreme escada que levava ao sótão, o rosto sombrio ao entrar no armário embutido. Eu continuava a balançar na cadeira, segurando Cory e Carrie no colo, cantando uma cantiga de ninar. De repente, ouvi um feroz martelar lá em cima - um barulho enorme, que os criados poderiam escutar.

- Cathy - disse Cory bem baixinho, enquanto Carrie começava a cochilar. - Não gosto de não ter mais minha mãe.

- Você tem uma mãe: eu.

- Você é tão boa como uma mãe de verdade?

- Sim, creio que sou. Eu o amo muito, Cory, e é isso que faz uma mãe de verdade.

Cory me fitou com os olhos azuis muito abertos, para ver se eu era sincera ou apenas zombava de sua necessidade. Então, seus bracinhos me envolveram o pescoço e ele apoiou a cabeça no meu ombro.

- Estou com tanto sono, mamãe... mas não pare de cantar.

Eu ainda balançava a cadeira e cantava baixinho quando Chris retornou com uma expressão satisfeita.

- Nunca mais um daqueles baús se fechará inadvertidamente - declarou. - Quebrei todos os trincos. E as fechaduras dos armários também!

Assenti com a cabeça. Chris sentou-se na cama mais próxima e observou o ritmo da cadeira de balanço, escutando a canção que eu continuava a cantar. Seu rosto ruborizou-se vagarosamente e ele pareceu embaraçado.

- Sinto-me tão isolado, Cathy. Importa-se de eu sentar primeiro e depois vocês três ficarem no meu colo?

Papai costumava fazer isso: sentava-nos todos em seu colo, inclusive mamãe. Seus braços eram bastante compridos e fortes para envolver-nos todos de uma só vez e dar-nos a sensação mais gostosa e cálida de segurança e amor. Imaginei se Chris conseguiria fazer o mesmo.

Sentados na cadeira de balanço, com Chris abraçando-nos no colo, vi de relance nossa imagem no espelho do lado oposto do quarto. Fui invadida por uma sensação estranha, que fazia a cena parecer irreal. Chris e eu dávamos a impressão de pais de bonecas - edições mais jovens de papai e mamãe.

- A Bíblia diz que existe uma hora para tudo - disse ele num murmúrio, a fim de não despertar os gêmeos. - Hora de nascer, de plantar, de colher, de morrer, e assim por diante. E esta é a nossa hora de sacrifício. Mais tarde, chegará nossa hora de viver e aproveitar a vida.

Virei a cabeça, apoiando-a em seu ombro juvenil, sentindo-me grata por ele ser sempre tão otimista e entusiasta. Era gostoso ter seus jovens braços fortes em torno de mim - quase tão protetores e gostosos como tinham sido os de papai.

E Chris tinha razão. Nossa hora de felicidade havia de chegar, no dia e que saíssemos daquele quarto e descêssemos para assistir a um enterro.


Festas de Fim de Ano
No comprido talo da açucena apareceu um único botão - um calendário vivo que nos fez lembrar que o Dia de Ação de Graças e o Natal se aproximavam. A açucena era a nossa única planta que ainda continuava viva e, de longe em comparação com tudo o mais, constituía nossa posse mais querida. No final de cada dia, era levada para baixo, a fim de passar as noites em nosso quarto aquecido. Cory, o primeiro a levantar-se todas as manhãs, corria para examinar o botão, ansioso por verificar se este sobrevivera à noite. Carrie em breve se juntava a ele, postando-se a seu lado para admirar a planta rústica, valente e vitoriosa, que permanecia viva quando todas as outras tinham morrido. Em seguida, os gêmeos estudavam o calendário de parede, para ver o dia que estava marcado com uma circunferência verde, indicando que a planta deveria receber fertilizante. Depois, apalpavam a terra do vaso, sentindo a umidade e sabendo se era preciso regá-la. Confiavam na própria capacidade de julgamento, mas sempre vinham perguntar:

- Devemos regar Amaryllis? Acham que ela está com sede?

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