A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Jamais havíamos possuído alguma coisa, viva ou inanimada, à qual não déssemos um nome. E Amaryllis estava decidida a sobreviver. Nem Cory nem Carrie confiavam em suas forças infantis para carregarem o pesado vaso até a janela do sótão, onde o sol ainda batia, embora por tempo muito curto. Eu tinha permissão para levar Amaryllis ao sótão, mas era Chris quem descia com ela no final do dia. E, todas as noites, revezávamo-nos na tarefa de marcar com um grande X vermelho o dia que passara. Já tínhamos riscado cem dias.

As chuvas frias chegaram e os ventos fortes começaram a soprar – às vezes, um denso nevoeiro escondia o sol matinal. Os galhos secos das árvores roçavam na casa à noite e me acordavam, fazendo-me prender o fôlego e esperar, esperar, esperar que algo horrível entrasse no quarto para devorar-me.

Um dia em que chovia a cântaros e, mais tarde, nevaria, mamãe chegou ofegante ao nosso quarto, trazendo um caixa de belos artigos para decoração de festas para colocarmos em nossa mesa no Dia de Ação de Graças1 e torná-la festiva. Incluíra entre os objetos uma toalha amarelo-brilhante e guardanapos cor de laranja, com franjas nas bordas.

- Teremos convidados para o almoço de amanhã - explicou, largando a caixa sobre a cama mais perto da porta e fazendo menção de girar nos calcanhares para tornar a sair. - E vão assar dois perus: um para nós e outro para os criados. Mas não ficarão prontos a tempo de sua avó incluí-los na cesta de piquenique. Mas não se preocupem. Não permitirei que meus filhos passem um Dia de Ação de Graças sem uma festa digna da ocasião. Darei um jeito de trazer alguma comida quente - um pouco de cada coisa que nos servirem. Acho que farei uma grande encenação para servir pessoalmente meu pai e aproveitarei para preparar uma bandeja ao mesmo tempo que a dele, a fim de trazê-la para vocês. Devo chegar aqui por volta da uma hora.

E saiu da mesma forma como entrara - como o vento - deixando-nos na expectativa de uma lauta e quente refeição no Dia de Ação de Graças.

Carrie quis saber:

- O que é Dia de Ação de Graças?

Cory respondeu:

- O mesmo que dar graças a Deus antes das refeições.

Sob certo aspecto, creio que ele tinha razão. E já que dissera algo voluntariamente, longe de mim reprimi-lo com alguma crítica.

Enquanto Chris segurava os gêmeos no colo, sentado em uma das grandes poltronas, expliquei-lhes a respeito do primeiro Dia de Ação de Graças, muito tempo atrás, enquanto me ocupava como qualquer hausfrau muito feliz para arrumar uma mesa festiva no dia santificado. Os cartões que marcavam nossos lugares à mesa era quatro perus de roda aberta, a plumagem amarela e laranja feita de papel. Tínhamos duas grandes velas comemorativas para acender, dois casais de Peregrinos2 e duas velas índias - mas eu jamais acenderia velas tão lindas para vê-las derretidas e transformadas em massas disformes de cera. Coloquei velas comuns para acendermos na mesa e guardei as velas caras e bonitas para outras refeições do Dia de Ação de Graças, quando estivéssemos fora daquele lugar. Escrevi nossos nomes, com caligrafia caprichada, nos quatro pequenos perus e coloquei um em frente de cada prato. Nossa mesinha tinha sob o tampo uma prateleira onde guardávamos nossa louça e talheres. Após cada refeição, eu os lavava no banheiro, numa pequena tina de plástico. Chris os enxugava e depois os guardava na prateleira sob a mesa, à espera da próxima refeição.

Arrumei os talheres com extremo cuidado: garfos à esquerda, facas à direita, com as lâminas voltadas para os pratos, e as colheres. Nossa louça era porcelana Lenox, Com uma larga orla azul e friso de ouro de 24 quilates - tudo isso estava gravado no fundo das peças. Mamãe já me dissera que se tratava de louça velha, de que os criados não dariam por falta. Naquele dia, utilizamos copos de cristal, com pé. Não consegui resistir à tentação de recuar para admirar minha obra artística. A única coisa que faltava eram flores - mamãe deveria ter-se lembrado de trazer flores.

A uma hora chegou e passou. Carrie reclamou em altos brados:

- Vamos almoçar agora, Cathy!

- Tenha paciência. Mamãe vai trazer para nós comida quente especial e peru assado, com todos os acompanhamentos.

Com minhas tarefas de dona-de-casa terminadas temporariamente, deitei-me na cama, feliz, para ler mais um trecho de Lorna Doone.

- Cathy, meu estômago não tem paciência - disse Cory, trazendo-me de volta de meados do século XVII. Chris estava mergulhado num mistério de Sherlock Holmes, que seria rapidamente solucionado - na última página. Não seria maravilhoso se os gêmeos acalmassem os estômagos, cuja capacidade era de apenas alguns gramas, e lessem como Chris e eu?

- Coma algumas passas, Cory.

- Não tem mais nada.

- O modo correto de falar é: "não tem mais" ou "as passas acabaram".

- Não tem mais nada, palavra de honra.

- Coma amendoim.

- Os amendoins terminaram. Falei certo?

- Sim - suspirei. - Coma uma bolacha.

- Carrie comeu a última bolacha.

Naquela hora ele não queria mais bolachas.

Duas horas. Agora, estávamos todos mortos de fome. Nossos estômagos tinham sido acostumados a comer ao meio-dia em ponto. O que estaria detendo mamãe? Ia comer antes para depois trazer nossa comida? Não fora isso que ela dissera.

Pouco depois das três horas, mamãe entrou correndo, com uma bandeja de prata enorme, cheia de travessas. Trajava um vestido de jérsei azul e trazia o cabelo penteado para trás, preso na altura da nuca por uma travessa de prata. Rapaz! Como estava linda!

- Sei que estão mortos de fome - começou, desculpando-se logo de saída. - Mas meu pai mudou de idéia e resolveu, em cima da hora, usar a cadeira de rodas e comer à mesa com todo mundo.

Exibiu um sorriso contrariado.

- Sua mesa está linda, Cathy. Você fez tudo exatamente como devia. Desculpe-me por ter esquecido as flores; eu não devia. Mas temos nove convidados, todos conversando comigo e fazendo um milhão de perguntas a respeito de onde estive durante tanto tempo, que vocês nem podem imaginar como foi difícil esgueirar-me até a copa quando o mordomo não estava olhando. Puxa! John parece ter olhos até nas costas. E vocês nunca viram alguém tão impaciente como eu; os convidados devem estar pensando que fui indelicada, ou simplesmente fiquei louca. Mas consegui fazer os pratos de vocês e escondê-los. Depois, voltei à mesa, muito sorridente, e comi uma garfada antes de pedir licença para assoar o nariz em outra sala. Atendi a três telefonemas dados por mim mesma da linha particular que tenho no quarto. Fui obrigada a disfarçar a voz para ninguém perceber e desejava realmente trazer fatias de torta de abóboras para vocês, mas John já tinha cortado a torta e colocado as fatias em pratos de sobremesa, de modo que nada pude fazer. Ele notaria se faltassem quatro pedaços.

Soprou-nos um beijo, regalou-nos com um sorriso brilhante, mas contrafeito e desapareceu pela porta.

Puxa! Nós realmente lhe complicávamos a vida!

Corremos à mesa para comer.

Chris baixou a cabeça para dar graças com tanta pressa que Deus não deve ter ficado muito impressionado conosco naquele dia em que seus ouvidos deveriam vibrar com palavras mais eloqüentes.

- Obrigado, Senhor, por esta tardia refeição de Ação de Graças. Amém.

Sorri interiormente, pois era muito característico de Chris ir direto ao assunto; naquele momento, o assunto era fazer as vezes de anfitrião e colocar a comida nos pratos que lhe estendíamos, cada um por sua vez. Nos pratos de "Exigente" e "Melindrosa", colocou uma fatia de peito de peru, um pouco de legumes e uma quantidade mínima de salada. As porões médias cabiam a mim; naturalmente, serviu-se por último - grandes quantidades para aquele que precisava alimentar-se melhor: o cérebro da família.

Chris dava a impressão de estar morrendo de fome. Levava à boca enormes garfadas de um purê de batatas que já estava quase frio. Tudo estava quase frio; a salada de gelatina começava a derreter-se e a alface estava murcha.

- Não gostamos de comida fria! - berrou Carrie, fitando o belo prato servido por Chris, com pequenas porções arrumadas num círculo perfeito. Uma coisa não se podia negar a respeito de Chris: era meticuloso.

A julgar pelo modo como ela olhava para o prato, a Srta. Melindrosa parecia estar vendo cobras e lagartos; e o Sr. Exigente imitava a expressão enojada de sua irmã gêmea.

Falando com franqueza, cheguei a ter um pouco de pena de mamãe, que tanto se esforçara para trazer-nos uma gostosa refeição quente e, com isso, estragara seu almoço, além de fazer papel de tola perante os convidados. E, agora, aqueles dois não iam comer coisa alguma! Depois de passarem três horas reclamando e insistindo que estavam famintos! Crianças!

O gênio à minha frente fechou os olhos para deliciar-se com o prazer de ter algo diferente: comida deliciosa, preparada com esmero, em lugar daquela porcaria jogada apressadamente numa cesta de piquenique antes das seis da manhã. Todavia, para fazer-se justiça à avó, é preciso ressaltar que ela nunca nos esquecia; devia acordar ainda no escuro para chegar à cozinha antes do cozinheiro e das empregadas.

Então, Chris fez algo que realmente me chocou. Sabia muito bem que não devia espetar com o garfo um enorme pedaço de peito de peru e enfiá-lo inteiro na boca! O que havia com ele?

- Não coma assim, Chris. Dá mau exemplo você sabe a quem.

- Não estão olhando para mim - replicou ele com a boca cheia de comida. - E estou morto de fome. Nunca me senti tão faminto na vida e tudo está delicioso.

Delicadamente, cortei meu pedaço de peru em pedacinhos menores e coloquei alguns na boca, para mostrar àquele suíno em frente a mim a maneira correta de portar-se à mesa. Engoli primeiro e depois disse:

- Tenho pena de sua futura esposa. Ela se divorciará de você com menos de um ano de casamento.

Ele continuou a comer, surdo e mudo a qualquer coisa senão o prazer de sentir o gosto da comida.

- Cathy - disse Carrie. - Não seja malvada com Chris, porque não gostamos de comida fria e, de qualquer maneira, não vamos mesmo comer. Não queremos.

- Minha mulher me adorará tanto que ficará encantada ao pegar minhas meias sujas. E, Carrie, você e Cory gostam de mingau frio com passas; portanto, comam!

- Não gostamos de peru frio... e essa coisa marrom em cima das batatas parece esquisita.

- Essa coisa escura se chama molho e está delicioso. E os esquimós adoram comida fria.

- Cathy, os esquimós gostam de comida fria?

- Não sei, Carrie. Acho melhor gostarem, senão morrerão de fome.

Pelo que me é mais sagrado, não consegui ver qualquer ligação entre a comida dos esquimós e nossa refeição do Dia de Ação de Graças.

- Chris, não tinha algo melhor para dizer? Por que falar em esquimós?

- Esquimós são índios. E os índios fazem parte da tradição do Dia de Ação de Graças.

- Oh...


- Você sabe, é claro, que o continente norte-americano era ligado à Ásia - disse ele entre garfadas. - Os índios vieram da Ásia a pé e alguns deles gostaram tanto do gelo e da neve que simplesmente ficaram no círculo ártico, enquanto outros foram mais ajuizados e seguiram para o sul.

- Cathy, o que é essa coisa molenga que parece gelatina? Com caroços?

- É salada de uva-do-monte. Os caroços menores são uvas-do-monte e os maiores são nozes. A massa branca é creme de leite.

E estava uma delícia; tinha também abacaxi picado.

- Não gosto dessa coisa molenga.

- Carrie - interveio Chris. - Já estou cansado do que você gosta e não gosta. Coma!

- Seu irmão tem razão, Carrie. Está uma delícia. Os passarinhos adoram essas frutas e vocês são passarinhos, não são?

- Passarinhos não comem frutas. Ele comem aranhas e outros insetos. Nós vimos quando eles comeram as aranhas. Pegavam direto da calha e engoliam sem mastigar! Não podemos comer o que os passarinhos comem.

- Cale a boca e coma - ordenou Chris, com a boca cheia.

Ali estávamos nós, com a melhor comida (embora quase fria) que víamos desde que morávamos naquela casa detestável, e os gêmeos limitavam-se a olhar para os pratos, sem provar um só pedaço!

E Chris devorava tudo que estava à vista, como um porco premiado na exposição!

Os gêmeos provaram o purê de batatas com molho. O purê estava "encaroçado" e o molho "esquisito". Provaram o recheio absolutamente divino e o declararam "encaroçado e esquisito".

- Então, comam as batatas-doces! - quase gritei. - Vejam como estão bonitas. São macias porque foram passadas no liqüidificador e temperadas com marshmellow. Vocês adoram marshmellow; tem sabor de laranja e suco de limão.

E pedi a Deus para que eles não notassem as "encaroçadas" nozes.

Creio que somando os dois, sentados um em frente ao outro, remexendo a comida até transformá-la numa pasta, comeram o equivalente a três garfadas.

Enquanto Chris sonhava com uma sobremesa que não viera, comecei a tirar a mesa. Então, por algum motivo extraordinário, Chris passou a ajudar-me! Não consegui acreditar. Ele sorriu de um modo que me desarmou e até mesmo beijou-me o rosto. E se boa comida era capaz de causar tal transformação num homem, eu estava disposta a aprender a cozinhar para gourmets. Chris até mesmo apanhou suas meias usadas antes de vir ajudar-me a lavar e secar a louça, os cristais e os talheres.

Dez minutos depois que Chris e eu terminamos de arrumar tudo sob a mesa e cobri-la com uma toalha limpa, os gêmeos anunciaram simultaneamente:

- Nossos estômagos estão doendo! Estamos com fome!

Chris estava lendo na sua "escrivaninha". Deixei Lorna Doone de lado, levantei-me da cama e dei a cada um dos gêmeos um sanduíche de creme de amendoim e geléia, tirados da cesta de piquenique.

Enquanto eles comiam, dando pequenas dentadas nos sanduíches, atirei-me na cama e observei-os realmente perplexa. Como podiam gostar daquela porcaria? Ser pai ou mãe não era tão fácil ou delicioso como eu presumira anteriormente.

- Não se sente no chão, Cory .Aí faz mais frio que numa cadeira.

- Não gosto de cadeiras - replicou Cory.

E espirrou.

No dia seguinte, Cory adoeceu com uma forte gripe. Tinha o rostinho vermelho e febril. Reclamava de dores no corpo todo e nos ossos.

- Cathy, onde está minha mamãe? Minha mamãe de verdade?

Oh, como ele desejava a presença da mãe. Afinal, ela apareceu.

Ficou imediatamente ansiosa ao examinar o rosto de Cory e foi correndo buscar um termômetro. Voltou com ar infeliz, acompanhada pela detestada avó.

Com o fino tubo de vidro na boca, Cory olhava para a mãe como se um anjo dourado viesse socorrê-lo naquela hora de sofrimento. E eu, sua pretensa mãe, fiquei esquecida.

- Querido, meu amado filhinho - ninava ela, após pegá-lo na cama e levá-lo no colo para a cadeira de balanço, onde não parava de beijar-lhe a testa.

- Estou aqui, meu amor. Eu o amo. Tomarei conta de você e mandarei as dores embora. Coma direito, tome seu suco de laranjas como um bom menino e logo ficará bom.

Recolocou-o na cama e ficou por perto até enfiar-lhe uma aspirina na boca e dar-lhe água para engolir o comprimido. Tinha os olhos azuis toldados de lágrimas de preocupação, e suas esguias mãos brancas mexiam-se nervosamente.

Dois dias mais tarde, Carrie estava acamada ao lado de Cory, tossindo e espirrando como ele; sua temperatura subiu tão depressa que fiquei em pânico. Chris também parecia assustado. Desanimados e pálidos, os dois gêmeos jaziam lado a lado na enorme cama, com os dedinhos segurando as cobertas logo abaixo dos queixos arredondados.

Estavam tão brancos que pareciam feitos de porcelana, e seus olhos azuis ficavam cada vez maiores à medida que se afundavam nos rostos: abatidos. Olheiras cada vez mais profundas faziam-nos parecer crianças assombradas. Quando nossa mãe não estava lá, aqueles dois pares de olhos imploravam mudamente a Chris e a mim que os livrássemos do sofrimento.

Mamãe tirou uma semana de folga no curso de secretariado a fim de ficar com os dois gêmeos o máximo de tempo possível. Eu detestava que nossa avó julgasse necessário acompanhar mamãe toda vez que esta vinha ao nosso quarto. Estava sempre metendo o nariz onde não era chamada e dando palpites nos quais, não estávamos interessados. Já nos dissera que não existíamos e não tínhamos o direito de viver num mundo que Deus criara para os puros e santos - como ela. Vinha apenas com intuito de torturar-nos ainda mais e privar-nos do conforto de termos nossa mãe a sós?

O farfalhar de seus ameaçadores vestidos cinzentos, o som de sua voz, as batidas de seus passos pesados, a visão de suas enormes mãos pálidas, moles e carnudas, faiscando com anéis de brilhante e manchadas de marrom pela aproximação da morte... oh, sim, bastava vê-la para abominá-la.

Por outro lado, lá estava mamãe, visitando-nos com freqüência, fazendo o possível para restituir a saúde aos gêmeos. Também exibia olheiras ao dar-lhes aspirina e água, e mais tarde suco de laranja e canja de galinha bem quente.

Certa manhã, mamãe entrou apressadamente com uma grande garrafa térmica de suco de laranjas que ela acabava de espremer.

- É melhor que os sucos congelados ou enlatados - explicou. - Tem uma grande quantidade de vitaminas A e C, que são ótimas para curar gripes.

Em seguida, preparou uma lista das coisas que desejava que eu e Chris fizéssemos, acrescentando que devíamos dar suco aos gêmeos a intervalos freqüentes. Guardamos a garrafa no sótão, que, no inverno, era tão bom quanto qualquer geladeira.

Bastou um olhar ao termômetro retirado da boca de Carrie para deixar de lado a pose controlada e entrar em pânico.

- Trinta e nove graus e sete décimos! - exclamou ela. - Oh, Deus! Preciso levá-los a um médico, a um hospital!

Eu estava distante do grande guarda-roupas, apoiando-me de leve nele com uma das mãos, exercitando as pernas como vinha fazendo diariamente desde que o sótão se tornara frio demais. Lancei um rápido olhar de esguelha a minha avó, tentando ler sua reação.

A avó não tinha paciência com quem se descontrolava e fazia cenas.

- Não seja ridícula, Corrine. Qualquer criança tem febre alta quando adoece. Não quer dizer coisa alguma. Você já devia saber disso. Um resfriado é apenas um resfriado.

Chris ergueu bruscamente a cabeça do livro que estava lendo; achava que os gêmeos estavam seriamente gripados, ainda que não conseguisse imaginar como tinham contraído o vírus.

A avó prosseguiu:

- Sabe o que fazem os médicos para curar resfriados? Qualquer um sabe. Existem apenas três providências a tomar: ficar na cama, beber muito líquido e tomar aspirina. O que mais? E já não tomamos essas providências?

Olhou-me com ar malévolo:

- Pare de balançar as pernas, menina. Deixa-me nervosa.

Voltou a dirigir os olhos e a voz a mamãe:

- Ora, minha mãe tinha um ditado: os resfriados levam três dias chegando, três dias ficando e três dias indo embora.

- E se estiverem gripados? - indagou Chris.

A avó virou-lhe as costas, ignorando a pergunta. Não gostava do rosto de Chris; ele era parecido demais com papai.

- Detesto quando pessoas que deviam saber o que estão fazendo questionam a opinião de gente muito mais velha, experiente e sábia. Todo mundo conhece as regras dos resfriados: seis dias para começar e ficar, três dias para ir embora. É o que sempre acontece. Eles ficarão bons.

Como a avó previu, os gêmeos ficaram bons. Mas não em nove e sim em... dezenove dias. Bastaram repouso absoluto, líquidos e aspirina - nenhuma receita médica para ajudá-los a recuperar a saúde mais depressa. Durante o dia, os gêmeos ficavam na mesma cama; à noite, Carrie dormia comigo e Cory com Chris. Não sei por que Chris e eu não adoecemos também.

Passávamos a noite inteira levantando e tornando a deitar; corríamos para buscar água e o suco de laranja mantido gelado na escada do sótão. Os gêmeos choravam para pedir doces, a presença de mamãe ou algo que lhes desentupisse o nariz. Agitavam e tremiam, fracos e nervosos, preocupados por coisas incômodas que não sabiam expressar senão por meio daqueles olhos grandes e assustados que me partiam o coração. Enquanto estavam doentes, faziam perguntas que não costumavam fazer quando sãos... Não era esquisito?

- Por que ficamos aqui em cima o tempo todo?

- O andar de baixo foi embora?

- Foi para onde o sol se esconde?

- Mamãe nunca gosta mais de nós?

- Não gosta mais de nós - corrigia eu.

- Por que as paredes estão esquisitas?

- Elas estão esquisitas? - replicava eu.

- Chris também parece esquisito.

- Chris está cansado.

- Você está cansado, Chris?

- Um pouco. Eu gostaria que vocês dormissem e parassem de fazer tantas perguntas. E Cathy também está cansada. Nós gostaríamos de dormir sabendo que vocês também estão dormindo profundamente.

- Não ficamos profundos quando dormimos.

Chris suspirou, pegou Cory e carregou-o para a cadeira de balanço. Logo depois, Carrie e eu também estávamos sentadas em seu colo. Ficamos balançando e contando estórias até as três da manhã. Noutras noites, líamos estórias até quatro horas ou mais. Se os gêmeos choravam e queriam mamãe, como faziam quase sem cessar, Chris e eu fazíamos as vezes de pai e de mãe, fazendo o possível para aquietá-los com cantigas de ninar. Balançávamos tanto a cadeira que as tábuas do assoalho começavam a ranger e, certamente, alguém lá embaixo poderia ter escutado.

E durante todo o tempo escutávamos o vento soprando nas montanhas e colinas, raspando os galhos das árvores desfolhadas e fazendo a casa ranger, murmurando ameaçadoramente e, penetrando em frestas, uivava, gemia, soluçava e procurava, por todos os meios, fazer-nos compreender que não estávamos seguros.

Falamos e lemos tanto em voz alta que Chris e eu ficamos roucos e quase doentes de fadiga. Rezávamos todas as noites, ajoelhados, pedindo a Deus que curasse os gêmeos.

- Por favor, Senhor, faça-os voltar ao que eram.

Chegou o dia em que a tosse diminuiu e as pálpebras insones começaram a pesar até se fecharem num sono tranqüilo. As mãos frias e esqueléticas da morte haviam-se estendido para pegar nossos pequeninos irmãos e relutavam em largá-los, pois os gêmeos só recuperaram a saúde muito devagar. Quando ficaram "bons", já não eram o mesmo par robusto e cheio de vitalidade. Cory, que antes era calado, agora falava ainda menos. Carrie, que adorava o som da própria voz e tagarelava constantemente, tornou-se quase tão taciturna quanto Cory. E agora, eu que tinha o silêncio pelo qual tanto ansiara, queria de volta os gorjeios que antes se dirigiam sem parar a bonecas, carrinhos, trens, barquinhos, travesseiros, plantas, sapatos, vestidos, calcinhas, brinquedos, quebra-cabeças e jogos.

Verifiquei a língua de Carrie, achando-a pálida, esbranquiçada. Assustada, fitei os dois rostinhos lado a lado num travesseiro. Por que eu tanto desejara que crescessem e se comportassem como se fossem mais velhos? A longa doença trouxera-lhes um amadurecimento repentino, colocando-lhes olheiras escuras sob os grandes olhos azuis e roubando-lhes a cor saudável. A febre e a tosse haviam deixado atrás de si uma expressão de sabedoria, às vezes irônica, de pessoas velhas e cansadas que se contentam com permanecer na cama sem se importarem em saber se o sol nasceu, ou deitou-se, ou nunca mais nascerá. Os gêmeos me causavam medo; seus rostos abatidos faziam-me sonhar com a morte.

E durante todo o tempo o vento continuava a soprar.

Eventualmente, eles deixaram a cama e passaram a caminhar devagar pelo quarto. Pernas outrora tão gordas e rosadas, capazes de saltar e correr, estavam agora fracas e finas como talos de capim. Após a doença, os dois pareciam mais inclinados a apenas rastejar em vez de voar, a apenas sorrir em vez de gargalhar.

Fatigada, deixei-me cair de bruços na cama e pensei, pensei, pensei... Que podíamos Chris e eu fazer para restaurar o encanto infantil dos gêmeos?

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