A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Vitaminas! - proclamou mamãe quando Chris e eu fizemos questão de apontar-lhe as diferenças em nossos irmãos menores. - Vitaminas são exatamente do que eles necessitam. E vocês dois também. De agora em diante todos passarão a tomar uma cápsula de vitaminas por dia.

Enquanto fazia tal declaração, ela ergueu a mão esguia e elegante para ajeitar os lindos cabelos caprichosamente penteados.

- Ar fresco e sol vêm em cápsulas de vitaminas? - indaguei, sentada na cama e encarando uma mãe que se recusava a reconhecer o que havia de errado. - Depois que cada um de nós tomar uma cápsula diária de vitaminas, teremos de volta a saúde radiante de que gozávamos ao levarmos uma vida normal e passávamos a maior parte dos dias ao ar livre?

Mamãe estava usando um vestido cor-de-rosa - o rosa lhe caía maravilhosamente, realçando-lhe a cor saudável e emprestando um cálido tom róseo aos cabelos brilhantes.

- Cathy - replicou ela, lançando-me um olhar condescendente e movendo-se para ocultar as mãos. - Por que insiste invariavelmente em dificultar tanto as coisas para mim? Faço o possível. No duro. E a resposta é afirmativa: a pessoa pode ingerir, nas vitaminas, a saúde proporcionada pelo ar livre, é exatamente esse o motivo pelo qual se fazem vitaminas. Ou muitas delas, pelo menos.

Sua indiferença fez-me doer ainda mais o coração. Olhei para Chris, que se mantinha de cabeça baixa, escutando tudo sem fazer comentários. Afinal, indaguei:

- Mamãe, quanto tempo ainda vai durar nossa prisão?

- Pouco tempo, Cathy; só mais um pouco de tempo... pode crer.

- Mais um mês?

- Possivelmente.

- Você não podia arranjar um jeito de levar sorrateiramente os gêmeos para um passeio em seu carro? Tomaria providências para que os criados não vissem. Acho que isso faria uma diferença enorme para a saúde deles. Chris e eu não precisamos ir.

Ela girou para encarar meu irmão mais velho e verificar se ele era meu cúmplice naquele complô, mas o rosto de Chris expressava inequívoca surpresa.

- Não! Claro que não! Não posso correr tal risco! Nessa casa trabalham oito criados e, embora seus alojamentos sejam bastante isolados da casa principal, sempre existe alguém espiando por uma janela; e ouviriam o motor do carro. Como são curiosos, olhariam para ver que direção eu tomaria.

Repliquei num tom frio:

- Então quer fazer o favor de arranjar um modo de trazer frutas frescas? Bananas, em especial? Sabe que os gêmeos adoram bananas e não comeram uma só desde que estamos aqui.

- Trarei bananas amanhã. Seu avô não gosta delas.

- O que tem ele a ver com isso?

- Não compram bananas porque ele não gosta.

- Todos os dias úteis, você vai e volta de automóvel do curso de secretariado. Pare para comprar bananas. E mais passas e amendoins. E por que não pode trazer, de vez em quando, um bocado de pipocas? Certamente isso não estragará os dentes das crianças!

Ela meneou simpaticamente a cabeça, concordando verbalmente.

- E de que você gostaria? - indagou a seguir.

- Liberdade! Quero sair daqui. Estou farta de permanecer trancada num quarto. Quero que Chris saia; quero ver os gêmeos fora daqui. Quero que você alugue uma casa, ou compre uma casa... ou roube uma casa. Mas tire-nos aqui.

- Cathy - começou ela, implorando. - Estou fazendo o melhor possível. Não lhes trago presentes cada vez que passo por aquela porta? O que mais precisam, além de bananas? Diga!

- Você prometeu que ficaríamos aqui pouco tempo, e já se passaram meses.

Ela estendeu as mãos num gesto de súplica:

- Quer que eu mate meu pai?

Atordoada, sacudi a cabeça.

- Deixe-a em paz! - explodiu Chris no momento em que sua deusa fechou a porta atrás de si. - Ela faz por nós tudo o que pode! Pare de implicar com ela! É um milagre que ela ainda venha aqui, com você sempre a incomodá-la, não parando de fazer perguntas, como se não confiasse nela. Como sabe o quanto ela sofre? Acredita que esteja feliz sabendo que seus quatro filhos ficam trancados num quarto e só podem brincar num sótão?

Era difícil, no caso de uma pessoa como nossa mãe, perceber o que ela pensava ou o que sentia. Sua expressão era sempre calma, imperturbável, embora muitas vezes aparentasse fadiga. Se, por um lado, suas roupas eram novas, caras e ela raramente usasse o mesmo traje duas vezes, por outro também recebíamos muitas roupas novas e caras. Não que isso fizesse alguma diferença para nós. Ninguém nos via, exceto a avó, e esta pouco se importaria se vestíssemos trapos - o que, na verdade, talvez até lhe arrancasse um sorriso de satisfação.

Não subíamos ao sótão quando chovia ou nevava. Mesmo nos dias claros, o vento rosnava lá fora, gritando ao penetrar pelas frestas da casa.

Uma noite, Cory acordou e me pediu:

- Mande o vento embora, Cathy.

Saí da cama, onde Carrie dormia encolhida, e me enfiei sob as cobertas com Cory, abraçando-o. Pobre menino magro, desejando tanto ser amado por sua verdadeira mãe... e só tinha a mim. Parecia muito miúdo e frágil, com se aquele vento indomável conseguisse soprá-lo para longe. Encostei o rosto em seus louros cabelos encaracolados e cheirosos, beijando-o como costumava fazer quando ele era um bebê e substituí minhas bonecas por dois bebês de verdade.

- Não posso mandar o vento embora, Cory. Só Deus é capaz disso.

- Então, diga a ele que não gosto do vento - replicou Cory, sonolento. - Diga a Deus que o vento quer entrar e me pegar.

Abracei-o com mais força... nunca permitindo que o vento levasse Cory - nunca! Mas compreendi o que ele queria dizer.

- Conte-me uma estória, Cathy, para eu poder esquecer o vento.

Cory tinha uma estória predileta, que eu inventara para agradá-lo, à respeito de um mundo de fantasia em que criancinhas moravam numa casinha acolhedora, com o pai e a mãe que eram muito grandes e tinham força suficiente para colocar em fuga as coisas que causavam medo. Uma família de seis pessoas, com um jardim nos fundos da casa onde havia balanços pendurados em árvores gigantescas e plantas vivas floresciam - o tipo de plantas que sabiam como morrer no outono e renascer na primavera. Tinham um cão chamado Clover e um gato chamado Calico; um pássaro amarelo cantava o dia inteiro numa gaiola dourada e ninguém recebia gritos e surras; também não existiam portas trancadas e cortinas fechadas.

- Cante uma cantiga, Cathy. Gosto quando você canta para me fazer dormir.

Ajeitei-o bem nos meus braços e comecei a cantar a letra que eu escrevera para uma melodia que Cory costumava cantarolar... música saída de sua cabeça. Era uma canção destinada a afastar seu medo do vento e, talvez, também os meus temores. Foi minha primeira tentativa de fazer poesia.

Escuto o vento descer da colina,

Falando comigo na noite calada,

Murmurando ao meu ouvido

Palavras que não entendo

Mesmo quando ele está perto.


Sinto a brisa soprar do mar,

Desfazer-me o cabelo e me acariciar,

Mas nunca me pega pela mão

Para mostrar compreensão;

Nunca me afaga com ternura.
Sei que um dia subirei a colina

E encontrarei um novo dia,

E uma voz p'ra dizer o que preciso ouvir:

Se viverei mais um ano...


E o meu pequenino adormeceu em meus braços, respirando regularmente, sentindo-se seguro. Por cima de sua cabeça vi Chris, com os olhos abertos fixos no teto. Quando terminei a canção, voltou-se para encarar-me. Seu décimo quinto aniversário já passara, comemorado com um bolo de padaria e sorvete. Presentes, nós os recebíamos quase todos os dias. Agora, Chris possuía uma máquina fotográfica Polaroid e um relógio mais caro. Ótimo. Maravilhoso. Como podia satisfazer-se com tão pouco?

Não percebia que nossa mãe já não era a mesma? Não notava que ela já não vinha visitar-nos todo dia? Seria tão ingênuo a ponto de acreditar em tudo que ela dizia, em todas as desculpas que apresentava?

Véspera de Natal. Havia cinco meses que estávamos em Foxworth Hall. Nem uma única vez estivéramos nos pavimentos inferiores daquela mansão enorme e, muito menos, lá fora. Cumpríamos as regras: dávamos graças antes de todas as refeições; ajoelhados junto a nossas camas, rezávamos todas as noites; éramos recatados no banheiro; mantínhamos nossos pensamentos limpos, puros, inocentes... e, não obstante, parecia-me que a cada dia nossa comida piorava de qualidade.

Convenci-me de que realmente não faria diferença perdermos uma vez as compras de Natal. Haveria outros Natais em que seríamos muito, muito ricos e poderíamos entrar nas lojas para comprar tudo o que quiséssemos. Como ficaríamos lindos em nossos trajes elegantes, boas maneiras, vozes suaves mas eloqüentes, que proclamariam ao mundo sermos alguém... alguém especial... amados, queridos, necessários.

Naturalmente, Chris e eu sabíamos que Papai Noel não existia. Contudo, desejávamos que os gêmeos acreditassem em Papai Noel e não perdessem todo o glorioso encantamento de um homem gordo e jovial que percorria o mundo para entregar a todas as crianças exatamente o que elas queriam - mesmo quando não sabiam o que queriam até receberem o presente.

Como seria a infância sem acreditar em Papai Noel? Não o tipo de infância que eu desejava para os nossos gêmeos!

O Natal era uma época de grande ocupação, mesmo para quem vivia trancafiado - mesmo para quem começava a desesperar, duvidar, desconfiar. Em segredo, Chris e eu fizemos presentes para mamãe (que, na verdade, não necessitava de coisa alguma). E também para os gêmeos - gordos animais estofados, que costurávamos laboriosamente à mão e depois recheávamos com algodão. Eu fazia todo o trabalho de bordado nas caras, antes de os rechearmos. Em particular, trancada no banheiro, eu tricotava para Chris uma touca de lã vermelha; ela aumentava paulatinamente de tamanho, mas não parava de crescer - creio que mamãe se esquecera de ensinar-me algo a respeito de dimensões e arremates.

Então, Chris apresentou uma sugestão absolutamente idiota e horrível:

- Vamos fazer também um presente para a avó. Não é correto nós a deixarmos de fora. É ela quem traz nossa comida e leite; talvez um presente de Natal, prova de nossa consideração, seja exatamente o que falta para ganharmos sua afeição. E imagine como nossa vida seria muito mais agradável se ela ao menos nos tolerasse.

Era estupidez bastante pensar que aquilo daria resultado, mas acabei acreditando na idéia e trabalhamos como escravos, horas a fio, preparando um presente para a velha bruxa que nos detestava. Em todo o período desde que chegáramos à mansão, ela nunca - nem uma única vez - pronunciara nossos nomes.

Colamos linho numa moldura, a fim de esticá-lo bem, colamos nele pedras coloridas e depois aplicamos meticulosamente cordões dourados e marrons. Quando cometíamos um erro, tratávamos de refazer tudo com o máximo capricho, para que ela não notasse. A avó era perfeccionista e perceberia a mínima falha. E, na verdade, nós jamais daríamos a ela algo aquém do que nossos melhores esforços poderiam produzir.

- Escutem - disse Chris novamente. - Eu acredito, de verdade, que temos uma possibilidade de captar a simpatia da avó. Afinal, ela é nossa avó e as pessoas mudam. Ninguém permanece estacionário. Enquanto mamãe se esforça para encantar seu pai, devemos trabalhar no sentido de encantar sua mãe. Embora ela se recuse a olhar para mim, não faz o mesmo em relação a você.

Na realidade ela não olhava para mim; via apenas meus cabelos – por algum motivo, fascinava-se com meus cabelos.

- Não se esqueça, Cathy: ela nos deu crisântemos amarelos.

Chris tinha razão: o fato já era uma palha à qual nos agarrarmos.

No final da tarde, quase ao anoitecer, mamãe chegou ao nosso quarto com uma árvore de Natal viva, plantada numa pequena tina de madeira. Um pé de bálsamo o que poderia ter mais perfume de Natal? O vestido de mamãe era de jérsei vermelho e brilhante; colava-se ao corpo, realçando todas as curvas que eu esperava ter algum dia. Mamãe estava risonha e alegre, transmitindo-nos sua alegria ao ficar conosco para ajudar-nos a enfeitar a árvore com os ornamentos e pequenas lâmpadas que ela também trouxera. Deu-nos quatro pés de meia para pendurarmos nos pés das camas, a fim de que Papai Noel os encontrasse e enchesse de presentes.

- No próximo ano, passaremos o Natal morando em nossa própria casa - declarou sorridente. E eu acreditei.

- Sim - acrescentou, ainda sorrindo e enchendo-nos de alegria. - No ano que vem, nessa época a vida será maravilhosa para todos nós. Teremos muito dinheiro para comprar uma casa como essa para nós e vocês ganharão tudo o que desejarem. Logo esquecerão esse quarto e o sótão, E todos esses dias ruins que vocês enfrentaram com tanta coragem ficarão no esquecimento, como se nunca tivessem acontecido.

Beijou-nos, disse que nos amava e, quando a vimos sair, não nos sentimos abandonados, como antes. Mamãe encheu-nos os olhos, as esperanças, os sonhos.

Mamãe veio à noite, enquanto dormíamos. Pela manhã, acordei e encontrei os pés de meia cheios até a boca. E havia inúmeros presentes empilhados junto à mesinha onde estava a árvore de Natal; em cada espaço disponível no quarto, brinquedos grandes - difíceis de embrulhar. - para os gêmeos.

Meu olhar encontrou o de Chris. Ele piscou um olho, sorriu e pulou da cama. Pegou os sinos prateados presos às rédeas de plástico das renas e sacudiu-os vigorosamente acima da cabeça.

- Feliz Natal! - exclamou. - Acordem todos! Cory, Carrie, seus dorminhocos, abram os olhos, levantem-se e vejam! Venham ver o que Papai Noel nos trouxe!

Eles emergiram lentamente dos sonhos, esfregando os olhos sonolentos, fitando com incredulidade os muitos brinquedos, os lindos embrulhos com pequenos cartões identificando os destinatários, os pés de meia listrados estufados de doces, balas, nozes, frutas, chicles, pirulitos de menta e Papais Noel de chocolate.

Balas de verdade - afinal! Balas duras, do tipo colorido que as igrejas e escolas distribuem nas festas, a melhor espécie de balas para provocar cáries pretas nos dentes. Mas tudo tinha aparência e sabor tão natalinos!

Cory ficou sentado na cama, perplexo, e tornou a esfregar os olhos, parecendo por demais maravilhado para falar. Carrie, porém, sempre conseguia encontrar o que dizer:

- Como Papai Noel nos encontrou?

- Oh, Papai Noel possui olhos mágicos - explicou Chris, pegando Carrie e colocando-a no ombro.

Depois, estendeu a mão para pegar Cory também. Agia exatamente como papai teria agido, o que me trouxe lágrimas aos olhos.

- Papai Noel jamais esqueceria propositalmente uma criança - acrescentou. - Além disso, sabia que vocês estavam - aqui. Certifiquei-me disso, escrevendo-lhe uma longa carta fornecendo nosso endereço e acrescentando uma lista do que desejávamos. A lista tinha mais de um metro de comprimento.

Engraçado, refleti, pois nossa lista do que todos os quatro queriam era bem curta e simples: queríamos sair dali, queríamos liberdade.

Sentei-me na cama e olhei em volta, sentindo um nó agridoce na garganta. Mamãe realmente tentara - disso não havia dúvida. Tentara e, a julgar pela aparência, fizera o melhor possível. Amava-nos, importava-se conosco. Ora, devia ter levado meses para comprar tudo aquilo.

Sentia-me envergonhada e contrita por tudo de mal que pensara dela. Eis o resultado de querer tudo e, ao mesmo tempo, não ter paciência nem confiança.

Chris virou-se para mim com um olhar indagador.

- Não vai sair da cama? Pretende ficar aí o dia inteiro? Não gosta mais de receber presentes?

Enquanto Cory e Carrie rasgavam os papéis dos embrulhos, Chris se aproximou de mim, estendendo-me a mão.

- Venha, Cathy. Aproveite o único Natal que terá em seu décimo segundo ano de vida. Transforme-o num Natal ímpar, diferente de todos os outros que teremos no futuro.

Seus olhos azuis suplicavam. Usava um amarrotado pijama de flanela vermelha com pintas brancas e tinha os cabelos dourados em total desalinho. Eu usava uma camisola vermelha de lã e meus cabelos compridos estavam muito mais desgrenhados que os dele. Peguei-lhe a mão cálida e ri. Natal era Natal, não importava onde estivéssemos; quaisquer que fossem as circunstâncias, era um dia que devia ser aproveitado. Abrimos todos os embrulhos, experimentamos nossas roupas novas - o tempo todo enfiando balas e doces na boca, antes da refeição matinal. E "Papai Noel" deixara-nos um bilhete recomendando que escondêssemos as balas e doces "de vocês sabem quem". Afinal, coisas açucaradas ainda provocavam cáries dentárias. Até mesmo no dia de Natal.

Sentei-me no chão, usando um novo roupão verde lindo de morrer. Chris trajava um novo roupão vermelho que combinava com o pijama. Eu vestira os gêmeos, com seus novos roupões azul-brilhante. Não creio que pudessem existir quatro crianças mais felizes que nós naquele início de manhã. As barras de chocolate estavam diabolicamente divinas - e ainda mais doces por serem proibidas, Era um verdadeiro paraíso meter o chocolate na boca e devagar, muito devagar, deixá-lo derreter-se enquanto eu cerravas as pálpebras para melhor sentir o sabor. E, quando olhei, Chris também tinha os olhos fechados. Engraçado como os gêmeos comiam o chocolate, com os olhos arregalados, cheios de surpresa. Teriam esquecido as balas? Parece que sim, pois davam a impressão de estarem saboreando o paraíso. Quando escutamos o barulho da maçaneta, ocultamos rapidamente as balas e doces sob a cama mais próxima.

Era a avó. Entrou calada, carregando a cesta de piquenique. Colocou a cesta sobre a mesinha de jogos. Não nos desejou "Feliz Natal", nem disse "Bom dia", nem mesmo sorriu ou demonstrou por qualquer outro modo que se tratava de um dia especial. E não devíamos falar com ela a menos que nos dirigisse antes a palavra.

Foi com relutância e receio, mas também com grande esperança, que peguei o comprido pacote embrulhado em papel de alumínio vermelho tirado de um dos presentes que mamãe nos trouxera. Por baixo do lindo papel estava nosso trabalho de colagem, no qual nós quatro havíamos colaborado para criar uma versão infantil do jardim perfeito. Os velhos baús do sótão haviam-nos fornecido ótimos materiais, como filigrana de seda para fazer as borboletas que esvoaçavam sobre flores bordadas em cores brilhantes. Como Carrie insistira em fazermos borboletas cor-de-púrpura, com pintas vermelhas - ela adorava a combinação dessas duas cores! - tínhamos feito as borboletas em tons pastéis. Se existia alguma borboleta de cores mais estranhas que as de Carrie - uma borboleta artificial, é claro - certamente seria a imaginada por Cory: amarela, com manchas verdes e pretas, e olhos feitos com minúsculas contas vermelhas. Nossas árvores eram feitas de cordões castanhos, combinados com pequenos seixos pardos para imitar casca, e tinham os galhos graciosamente entrelaçados, de modo que pássaros de cores vivas podiam pousar ou voar por entre as folhas. Chris e eu tínhamos retirado penas de galinha de travesseiros velhos, mergulhando-as em tinta de aquarela e deixando-as secar, utilizando depois uma escova de dentes velha para alisá-las e devolver-lhes a beleza.

Talvez seja convencimento afirmar que nosso trabalho mostrava sinais de verdadeira arte e muito engenho criativo. Era uma composição equilibrada e, não obstante, possuía ritmo, estilo... e um encanto que trouxe lágrimas aos olhos de mamãe quando lhe mostramos o resultado final. Ela foi obrigada a nos dar as costas para que nós, também, não chorássemos. Oh, sim: aquela obra era, de longe, a melhor peça de trabalho artístico que já havíamos produzido.

Trêmula e apreensiva, aguardei o momento em que ela estivesse com as mãos vazias para aproximar-me. Desde que a avó jamais olhava para Chris, e os gêmeos tinham tanto medo dela que chegavam a encolher-se em sua presença, cabia-me fazer a entrega do presente... e eu simplesmente não conseguia obrigar meus próprios pés a avançarem. Chris empurrou-me com o cotovelo.

- Ande logo - sussurrou ele. - Ela irá embora a qualquer momento.

Meus pés pareciam pregados ao chão. Abracei o comprido embrulho vermelho com ambos os braços. Pela própria posição que assumi, dava a impressão de estar oferecendo algo em sacrifício, pois não era fácil dar alguma coisa a avó quando ela nada nos dera senão hostilidade e estava à espera de uma oportunidade para causar-nos dor.

Naquela manhã de Natal, conseguiu muito bem causar-nos sofrimento, mesmo sem empregar um açoite ou uma palavra.

Minha intenção era aproximar-me dela adequadamente e dizer: "Feliz Natal: vovó; desejamos dar-lhe um pequeno presente. Não precisa agradecer, pois não nos deu trabalho algum. É apenas uma coisinha para demonstrar o quanto somos gratos pela comida e abrigo que a senhora nos dá". Não, não; ela julgaria que estava sendo sarcástica se falasse dessa forma. Seria muito melhor dizer algo como: "Feliz Natal; esperamos que goste deste presente. Todos nós trabalhamos nele, inclusive Cory e Carrie, para que a senhora saiba, quando formos embora, que realmente tentamos ser bons meninos".

O simples fato de avistar-me perto dela, segurando o presente, apanhou-a de surpresa. Lentamente, após erguer os olhos com valentia a fim de encará-la, estendi-lhe a oferenda natalina. Não tencionava implorar-lhe com o olhar. Queria que ela aceitasse o presente, gostasse dele e agradecesse, mesmo que o fizesse com frieza. Desejava que ela fosse para a cama naquela noite pensando em nós e vendo que, afinal, não éramos tão ruins. Queria que ela saboreasse e digerisse o árduo trabalho que empregáramos na confecção do presente e refletisse sobre a correção ou erro da maneira pela qual nos tratava.

Do modo mais cáustico, seu olhar frio e desdenhoso fixou-se na comprida caixa que embrulháramos em vermelha. Na parte superior, havia um ramo artificial de pinheiro e um grande laço de fita prateada. Ao laço estava preso um cartão que dizia: "À avó, de Chris, Cathy, Cory e Carrie".

Os olhos cinzentos como pedra demoraram-se no cartão o tempo suficiente para ler os dizeres. Então, ela ergueu o olhar para encarar-me. Meus olhos, esperançosos, suplicavam-lhe, imploravam-lhe que compreendesse - e nos assegurasse - que não éramos maus, como às vezes eu chegava a temer. Ela tornou a lançar um olhar à caixa e depois, deliberadamente, deu-me as costas. Encaminhou-se rigidamente a porta, bateu-a com força e trancou-a por fora. Fui deixada no centro do quarto, segurando o produto final de muitas e longas horas de esforço para conseguirmos perfeição e beleza.

Idiotas! Eis o que éramos: malditos idiotas! Jamais conseguiríamos conquistá-la, cativá-la! Ela sempre nos consideraria filhos do Demônio! No que lhe dizia respeito, nós realmente não existíamos.

E isso nos magoava. Podem apostar que magoava muito. Eu sentia dor da cabeça até as solas dos pés descalços. Meu coração parecia um bola oca que latejava dolorosamente no peito. Escutei, atrás de mim, a respiração forçada de Chris. E os gêmeos começaram a choramingar.

Era a minha vez de ser adulta, de manter a pose que mamãe utilizava tão bem e com tanta eficiência. Procurei padronizar meus movimentos e expressões pelos de mamãe. Usei as mãos como ela usava as suas. Sorri como ela, lenta e cativamente.

E o que fiz para demonstrar minha maturidade? Joguei o embrulho no chão! Praguejei, pronunciando palavras que nunca empregara antes. Levantei o pé e pisei o presente, escutando o papelão estalar ao ser esmagado. Gritei! Desvairada de raiva pulei com ambos os pés sobre o presente, sapateando e pisando, até ouvir os estalos da bela moldura antiga que havíamos encontrado no sótão, restaurando-a e dando-lhe um esmerado acabamento que a fazia parecer nova. Odiei Chris por convencer-me de que poderíamos cativar uma mulher feita de pedra! Odiei mamãe por colocar-nos naquela situação! Ela deveria conhecer melhor sua própria mãe; devia trabalhar como balconista numa loja; certamente havia alguma coisa que ela pudesse fazer sem nos submeter a tais circunstâncias.

A velha moldura foi pulverizada sob o impiedoso ataque de uma menina desvairada e frenética; todo o nosso trabalho foi estragado.

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