A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Pare! - exclamou Chris. - Podemos ficar com o quadro!

Embora ele corresse para evitar a destruição total, a frágil colagem estava em ruínas. Irremediavelmente perdida. Comecei a chorar. Então, banhada em lágrimas e sacudida por soluços, abaixei-me para apanhar as borboletas de seda que Cory e Carrie haviam produzido tão laboriosamente, gastando tanto esforço para dar-lhe um colorido glorioso. Borboletas que eu guardaria pelo resto da vida.

Chris abraçou-me com força enquanto eu soluçava. Tentou reconfortar-me com palavras paternais:

- Está tudo bem. Não importa o que ela faça. Estamos certos e ela está errada. Nós tentamos. Ela jamais tenta.

Sentamo-nos no chão, calados, em meio a nossos presentes. Os gêmeos estavam quietos, os grandes olhos cheios de dúvidas, querendo brincar com seus presentes e, ao mesmo tempo, indecisos porque eram nossos espelhos e refletiam as nossas emoções - quaisquer que elas fossem. Oh, a pena que senti ao olhá-los feriu-me profundamente. Eu tinha doze anos. Em alguma ocasião de minha vida, devia aprender a comportar-me de modo educado e manter a compostura, deixando de ser uma banana de dinamite sempre pronta a explodir.

Mamãe entrou em nosso quarto, sorridente e saudando-nos pelo Natal. Trouxe mais presentes, inclusive uma enorme casa de bonecas que outrora fora dela... e de sua detestável mãe.

- Este presente não é de Papai Noel - anunciou, colocando com muito cuidado a casa de bonecas no chão e, hoje eu juro, não deixando um só centímetro quadrado de espaço livre. - É o meu presente para Cory e Carrie.

Abraçou os gêmeos, beijou-os e disse-lhes que agora poderiam fazer de conta que tinham uma casa, eram pais e anfitriões, como ela fazia quando criança.

Se percebeu que nenhum de nós demonstrou entusiasmo especial pelo presente, não fez comentários. Rindo muito, alegre e encantadora, ajoelhou-se no chão, sentando-se nos calcanhares para nos contar o quanto adorava aquela casa quando tinha cinco anos de idade.

- Além disso, é muito valiosa - disse aos borbotões. - No mercado certo, uma casa de bonecas como esta valeria uma fortuna fabulosa. Só as bonecas em miniatura, com juntas móveis, não têm preço. Os rostos são pintados à mão. As bonecas são feitas na mesma escala da casa, assim como a mobília, os quadros, tudo, enfim. A casa foi fabricada por um artista que residia na Inglaterra. Cada cadeira, mesa, cama, abajur, candelabro, e tudo o mais, é reprodução exata de antiguidades genuínas. Ao que sei, o artesão levou doze anos para completar o trabalho.

- Vejam como as pequenas portas abrem e fecham, perfeitamente encaixadas, o que é muito mais do que se pode dizer desta casa em que estamos morando - prosseguiu ela. - Todas as gavetas da mobília funcionam, abrindo e fechando. E existe uma chavinha para trancar a escrivaninha. Reparem como algumas das portas são de correr e se embutem nas paredes. Eu gostaria que essa mansão tivesse portas assim; não sei por que motivo saíram de moda. E vejam as sancas esculpidas à mão, perto do teto, e os lambris na biblioteca e na sala de jantar... e os livrinhos nas estantes! Acreditem ou não, se usarmos um microscópio poderemos ler os textos!

Com dedos cuidadosos e conhecedores, demonstrou todos os fascínios de uma casa de bonecas que só os filhos de gente extremamente rica podem ter.

Chris, é claro, teve que retirar um dos minúsculos livros da estante, a fim de examiná-lo meticulosamente para ver o texto tão pequeno que só podia ser lido com um microscópio. (Existia um tipo muito especial de microscópio que ele esperava possuir algum dia... e eu esperava poder presente-á-lo com o aparelho.)

Era impossível deixar de admirar a habilidade e paciência exigidas para fazer móveis tão pequenos. Na sala de estar da frente da casa de estilo elizabetano, havia um piano de cauda coberto com uma toalha de seda rendada com franjas de ouro. Uma jarra com pequeníssimas flores estava colocada no centro da mesa de jantar. Pequenas frutas feitas de cera enchiam a bandeja de prata sobre o aparador do bufê.

Dois candelabros de cristal pendiam do teto, e velas de verdade estavam enfiadas nos castiçais. Na cozinha, criados usando aventais preparavam o jantar. Um mordomo de libré branca postava-se junto à porta da frente para receber os convidados que chegavam, enquanto na sala de visitas principal damas com vestidos lindos estavam de pé junto a homens com expressões impenetráveis.

No andar superior, no quarto das crianças, estavam três meninos e, no berço, um bebê estendia os braços para ser levantado ao colo de quem aparecesse para pegá-lo. Na fachada lateral, quase nos fundos da casa, fora construído um anexo para guardar uma carruagem maravilhosa! E havia dois cavalos na cocheira! Puxa vida! Quem poderia imaginar que alguém fosse capaz de fazer objetos tão minúsculos e detalhados? Olhei para as janelas, embevecida com as elegantes cortinas e forros brancos, com os pratos e talheres na mesa de jantar, Com os potes e panelas nas prateleiras dos armários da cozinha – tão minúsculos que não ultrapassavam o tamanho de ervilhas verdes do tipo maior.

- Cathy - disse mamãe, passando o braço por minha cintura. - Veja esse pequeno tapete. É um persa genuíno, feito de pura seda. O tapete na sala de jantar é oriental.

E prosseguiu por longo tempo, exaltando as virtudes do notável brinquedo.

- Como pode ser tão velha e, apesar de tudo, parecer tão nova? - indaguei.

Uma nuvem escura passou sobre mamãe, sombreando-lhe o rosto.

- Quando ela pertencia à minha mãe, era mantida trancada numa enorme caixa de vidro. Minha mãe podia olhar à vontade, mas não tocava nela. Quando foi dada a mim, meu pai pegou um martelo e quebrou a caixa de vidro, permitindo-me brincar com tudo, sob a condição de eu jurar sobre a Bíblia que não quebraria um só objeto.

- Você jurou e depois quebrou alguma coisa? - perguntou Chris.

- Sim, eu jurei e depois quebrei alguma coisa - respondeu mamãe, com a cabeça tão baixa que não lhe podíamos ver os olhos. - Havia mais um boneco, um jovem muito bonito, cujo braço caiu quando tentei tirar-lhe o casaco. Levei um surra de chibata, não só por quebrar o boneco, como por querer ver o que existia por baixo das roupas.

Chris e eu permanecemos sentados e silenciosos, mas Carrie animou-se e demonstrou grande interesse pelos lindos bonequinhos com roupas tão elegantes e coloridas. Gostou especialmente do bebê no berço. Vendo a irmã tão interessada, Cory também se aproximou, a fim de investigar pessoalmente os inúmeros tesouros da casa de bonecas.

Foi então que mamãe voltou a atenção para mim:

- Cathy, por que estava com expressão tão solene quando entrei? Não gostou dos presentes que recebeu?

Não consegui responder e Chris falou por mim:

- Cathy está triste porque a avó recusou o presente que fizemos para ela.

Mamãe deu-me uma palmadinha no ombro, mas evitou meu olhar, Chris continuou:

- E muito obrigado por tudo; não há nada que você tenha esquecido de pedir a Papai Noel. Muito obrigado, acima de tudo, pela casa de bonecas. Creio que os gêmeos se divertirão mais com ela que com qualquer outra coisa.

Fitei os dois triciclos para os gêmeos pedalarem no sótão e fortalecerem as pernas finas e débeis. Chris e eu recebemos patins que só deveriam ser usados na sala de aulas do sótão, pois o local era isolado com paredes de alvenaria e assoalho de tábuas de madeira de lei, sendo mais à prova de som que o resto do sótão.

Mamãe se ergueu do chão, sorrindo misteriosamente antes de sair. Antes de fechar a porta, prometeu voltar num segundo - e foi então que nos deu o melhor de todos os presentes: um pequeno aparelho portátil de TV!

- Meu pai deu-me esse aparelho para usar em meu quarto. E adivinhei imediatamente quem o aproveitaria melhor que eu. Agora, vocês possuem uma janela de verdade, através da qual podem olhar para o resto do mundo.

Exatamente as palavras necessárias para que minhas esperanças subissem como um foguete.

- Mamãe! - exclamei. - Seu pai lhe deu um presente tão caro? Isso quer dizer que ele agora gosta de você? Perdoou-a por ter-se casado com papai? Podemos descer, agora?

Os olhos azuis de mamãe tornaram a turvar-se de preocupação e não havia sinal de alegria em sua voz ao responder que sim, seu pai se mostrava mais amistoso - perdoara a filha pelo pecado que cometera contra Deus e a sociedade. Então, ela disse algo que me fez o coração bater na garganta:

- Na próxima semana, meu pai mandará seu advogado redigir um novo testamento, incluindo-me nele. Vai deixar tudo para mim; até essa casa será minha depois que minha mãe morrer. Meu pai não tenciona deixar dinheiro para minha mãe porque ela possui a riqueza que herdou dos pais dela.

Dinheiro! O dinheiro pouco me importava. Tudo o que eu queria era sair dali! E, de repente, fiquei muito feliz - tão feliz, que abracei mamãe, beijando-a e estreitando-a contra mim Puxa vida! Aquele era o nosso melhor dia desde que chegáramos àquela casa... Então, lembrei-me: mamãe não dissera que podíamos descer. Não obstante, tínhamos avançado um passo em nosso caminho para a liberdade.

Mamãe sentou-se na cama e sorriu - mas apenas com os lábios e não com os olhos. Riu de algumas tolices que Chris e eu dissemos, mas era um riso áspero e duro, muito diferente do seu normal.

- Sim, Cathy; transformei-me na filha obediente que seu avô sempre desejou. Ele fala, eu obedeço, Ele ordena, eu corro para cumprir a ordem. Afinal, consegui agradá-lo.

Parou bruscamente de falar e olhou na direção das janelas e da luz desbotada que vinha lá de fora.

- Na verdade, consegui agradá-lo de tal maneira que ele me oferecerá esta noite uma festa destinada a reapresentar-me a meus velhos amigos e à sociedade local. Será uma festa grandiosa, pois meus pais não poupam esmero e despesas quando recebem convidados. Embora não tomem bebidas alcoólicas, não se incomodam de servi-las aos que não temem o inferno. Portanto, é evidente que contrataram um bufê e, também, uma pequena orquestra de danças.

Uma festa! Uma festa de Natal! Com bufê! E uma orquestra de danças! E mamãe seria incluída no novo testamento de seu pai. Já tivéramos algum dia tão maravilhoso e feliz?

- Podemos espiar? - perguntamos Chris e eu, quase ao mesmo tempo.

- Ficaremos bem calados.

- E escondidos onde ninguém possa nos ver.

- Por favor, mamãe. Por favor! Faz tempo que não vemos outras pessoas. E nunca fomos a uma festa no dia de Natal.

Suplicamos, imploramos, rogamos, até que ela não pôde mais resistir. Chamou-nos de lado, levando-nos a um canto afastado onde os gêmeos não conseguiriam escutar o que fosse dito, e sussurrou:

- Existe um local onde vocês dois poderão esconder-se e, ainda assim, espiar a festa, mas não posso arriscar com os gêmeos. São pequenos demais para merecerem confiança. Vocês sabem que eles são incapazes de ficar quietos por mais de dois segundos, e Carrie provavelmente gritaria de deleite, atraindo a atenção de todo mundo. Portanto, quero sua palavra de honra de que nada contarão aos gêmeos.

Prometemos. É claro que nada contaríamos a eles, mesmo sem uma promessa de guardarmos segredo. Amávamos nossos pequenos gêmeos e seríamos incapazes de magoá-los permitindo que soubessem o que perdiam.

Depois que mamãe saiu, cantamos canções de Natal e o dia passou de modo bastante alegre, embora a cesta de piquenique nada contivesse de especial para nós: sanduíches de presunto - de que os gêmeos não gostavam - e fatias de peru que ainda estavam geladas, como se retiradas do congelador. Restos do Dia de Ação de Graças.

Como a noite chegou muito cedo, passei longo tempo olhando para a casa de bonecas, onde Carrie e Cory brincavam alegremente com os pequenos bonecos de porcelana e as miniaturas de valor inestimável.

Engraçado o quanto se pode aprender a partir de objetos inanimados que uma menininha possuíra e podia olhar, mas nunca tocar. Então, viera outra menininha e a casa lhe fora dada, sem a caixa de vidro, de modo que ela PUDESSE mexer nos objetos e ser punida - quando quebrasse alguma coisa.

Uma idéia aterradora veio-me à mente: imaginei o que Cory ou Carrie quebrariam e qual seria o seu castigo.

Enfiei um pedaço de chocolate na boca, a fim de adoçar meus pensamentos errantes e traiçoeiros.
A Festa de Natal
Cumprindo a palavra, pouco depois que os gêmeos adormeceram profundamente, mamãe entrou silenciosamente em nosso quarto. Estava tão linda que meu coração se encheu de orgulho, admiração e, também, de uma ponta de inveja. Seu vestido longo tinha uma saia de esvoaçante chiffon verde; o corpete era de veludo verde mais escuro, bastante decotado para exibir uma boa parte do colo. Sob a pelerine de chiffon verde mais claro, apareciam os cordões brilhantes que amarravam as costas do corpete. Nas orelhas, ela trazia pingentes de esmeraldas. Seu perfume fazia-me lembrar o aroma de um jardim almiscarado em noite enluarada numa região qualquer do Oriente. Não era de admirar que Chris ficasse petrificado, fitando-a como se ofuscado. Suspirei, sonhadora. Por favor, meu Deus, deixe-me ser assim algum dia... deixe-me possuir todas essas curvas harmoniosas que os homens tanto admiram.

Quando ela se movimentava, o chiffon que lhe cobria os ombros flutuava como asas que nos conduzissem para fora daquela prisão pela primeira vez desde que ali chegáramos. Seguimos mamãe pelos largos e escuros corredores da ala norte da mansão, quase pisando em seus calcanhares calçados de prateado. Ela sussurrou:

- Existe um lugar onde eu costumava ocultar-me, quando criança, para observar as festas dos adultos sem que meus pais soubessem. Vai ficar apertado para vocês dois, mas é o único local de onde poderão ver sem serem notados. Agora, prometam-me que ficarão calados e, se tiverem sono, voltarão a seu quarto sem se deixarem ver... e não esqueçam o caminho de volta até lá, bem como o modo de entrar.

Recomendou-nos que não demorássemos mais que uma hora, pois os gêmeos teriam medo se acordassem e percebessem que estavam sozinhos. Nesse caso, era possível que saíssem pelos corredores à nossa procura - e só Deus sabe o que poderia acontecer se o fizessem!

Fomos escondidos dentro de uma enorme mesa oblonga com armários sob o tampo. O local era desconfortável e muito abafado, mas podíamos enxergar bastante bem através da fina tela de arame no fundo do armário.

Mamãe se afastou silenciosamente.

Muito abaixo de nós estava o gigantesco salão brilhantemente iluminado por velas colocadas em cinco filas sobrepostas em cada um dos três imensos lustres de ouro e cristal pendentes de um teto tão alto que não conseguíamos vê-lo. Eu jamais vira tantas velas acesas ao mesmo tempo! O cheiro das velas, o modo como sua luz bruxuleante era captada e brilhava nos prismas de cristal que a espalhavam, refratando raios iridescentes que faziam faiscar todas as jóias usadas pelas mulheres, transformavam a cena num espetáculo de sonho... ou, melhor ainda, num salão de bailes de um filme nítido e colorido, onde Cinderela e o Príncipe Encantado poderiam dançar!

Centenas de pessoas ricamente trajadas andavam pelo salão, rindo e conversando. E no canto erguia-se, como uma torre, uma árvore de Natal simplesmente inacreditável! Devia ter mais de seis metros de altura e brilhava com milhares de lâmpadas douradas que faiscavam nos enfeites coloridos e ofuscavam nossos olhos!

Dúzias de criados usando uniformes preto-e-vermelho entravam e saíam do salão carregando bandejas de prata cheias de canapés e colocavam-nas em mesas compridas, sobre cada uma das quais uma gigantesca fonte de cristal espargia um líquido cor de âmbar num receptáculo de prata. Muitos homens e mulheres vinham encher suas taças de cristal com o líquido borbulhante. Havia, também, duas poncheiras de prata com copos do mesmo material completando os jogos; cada uma delas era de tamanho suficiente para uma criança ali tomar banho... Era lindo, encantador, excitante, eufórico... e tão bom saber que continuava a existir vida feliz fora de nossa porta trancada.

- Cathy - sussurrou-me Chris ao ouvido. - Eu venderia minha alma ao Diabo só para tomar um gole daquela fonte de cristal e prata!

Era exatamente o que eu também estava pensando!

Nunca me senti tão faminta, sedenta, frustrada. Não obstante, estávamos ambos encantados, enfeitiçados, ofuscados por todo o esplendor daquilo que a grande riqueza era capaz de comprar e exibir. O assoalho onde os pares dançavam formava desenhos tipo mosaico e estava tão encerado que brilhava como um espelho. Enormes espelhos com molduras douradas refletiam os dançarinos de tal forma que era difícil distinguir entre as imagens e as pessoas reais. As partes de madeira das inúmeras cadeiras e sofás situados ao longo das paredes eram douradas, e os encostos e almofadas feitos de veludo vermelho ou brocado branco. Cadeiras francesas, é claro, estilo Luis XIV ou XV. Puxa vida, que fantástico!

Chris e eu observamos os pares que, em sua maioria, eram bonitos e jovens. Comentamos suas roupas, penteados, e especulamos sobre os relacionamentos entre eles. Mas, acima de tudo, observávamos nossa mãe, que era o centro das atenções. Ela dançava freqüentemente com um homem alto e bonito, de cabelo escuro e um basto bigode. Foi ele quem lhe serviu taças de bebida e levou um prato de canapés quando se sentaram num sofá de veludo vermelho. Na minha opinião; sentaram-se juntos demais. Desviei momentaneamente o olhar a fim de observar os três chefs que, por trás das compridas mesas, continuavam a preparar o que me pareceu serem panquecas e pequenas salsichas para serem recheadas. O aroma de tudo aquilo chegava até nós, fazendo nossas glândulas salivares trabalharem em excesso.

Nossas refeições eram monótonas e cansativas: sanduíches, sopas, a perene galinha frita e a eterna salada de batatas. Lá embaixo, víamos um festim de gourmet com as mais deliciosas iguarias. Lá, a comida era quente, enquanto a nossa raramente era morna. Basta dizer que guardávamos o leite no sótão para que não azedasse - e às vezes encontrávamos uma fina camada de gelo na superfície! Se deixássemos a cesta de piquenique com comida na escada do sótão, os ratos desciam para roer tudo.

De vez em quando, mamãe desaparecia com o homem de cabelo escuro. Aonde iam e o que faziam? Beijavam-se? Estaria ela se apaixonando por ele? Mesmo de minha posição alta e remota no armário da mesa, eu podia perceber que o homem estava fascinado por mamãe. Não conseguia tirar os olhos dela ou deixar de tocá-la com as mãos. E quando dançavam alguma música lenta, ele a segurava de modo a encostar o rosto no dela. Quando paravam de dançar, ele mantinha o braço passado pelos ombros ou pela cintura de mamãe - e uma vez ousou até mesmo tocar-lhe o seio!

Julguei que ela fosse esbofetear aquele rosto bonito - pois eu o faria! Mamãe, porém, limitou-se a virar-se e sorrir, afastando-o de si e dizendo algo que deve ter sido uma advertência para que não fizesse aquilo em público. Ele sorriu, tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios, enquanto seus olhares se encontravam prolongada e significativamente - ou, pelo menos, assim julguei.

- Chris, está vendo aquele homem com mamãe?

- Claro que estou. Ele é tão alto como papai.

- Você viu o que ele fez há pouco?

- Estão comendo, bebendo, rindo, conversando e dançando, como todo mundo. Cathy, pense numa coisa: quando mamãe herdar todo aquele dinheiro, poderemos ter festas assim no Natal e em nossos aniversários. Ora, no futuro poderemos ter até mesmo alguns desses convidados que estamos vendo - agora. Vamos mandar convites a todos os nossos amigos de Gladstone. Puxa, ficarão espantados com o que herdamos!

Naquele instante, mamãe e o tal homem se ergueram do sofá e saíram. Assim, pregamos o olhar na segunda mulher mais fascinante do grupo no salão e tivemos pena - pois como poderia competir com nossa mãe?

Então, nossa avó entrou no salão, andando sem olhar para os lados nem sorrir para os convidados. Não estava vestida de cinzento e isto, por si, bastou para deixar-nos espantados. Seu longo vestido de gala era vermelho, rubi, justo na frente e esvoaçante nas costas; trazia os cabelos penteados para cima num elaborado penteado; jóias de rubis e brilhantes faiscavam-lhe no pescoço, orelhas, braços e dedos. Quem jamais imaginaria que aquela mulher de aparência régia que atravessava o salão fosse a mesma avó ameaçadora que nos visitava todos os dias?

Relutantes, fomos forçados a admitir em sussurros:

- Ela parece magnífica.

- Sim, muito impressionante. Grande demais, como uma amazona.

- Uma amazona malvada.

- Sim, uma amazona guerreira, pronta para combater armada apenas com o faiscar dos olhos. Na verdade, não precisa de outra arma.

Foi então que o avistei: nosso desconhecido avô!

Fiquei sem fôlego ao olhar para o salão e ver um homem tão parecido com nosso pai, se este tivesse vivido até ficar velho e frágil. Sentado a uma cadeira de rodas esmeradamente polida, usava um smoking e sua camisa de gala era branca com pespontos pretos. Os cabelos ralos, antes louros, agora estavam quase totalmente brancos e brilhavam como prata às luzes do salão. Quase não tinha rugas - ou, pelo menos, foi essa a nossa impressão lá de cima.

Perplexos e, ao mesmo tempo, fascinados, Chris e eu não conseguimos despregar os olhos dele após avistá-lo.

Tinha aparência frágil, mas era excepcionalmente bonito para um homem na avançada idade de sessenta e sete anos e que estava às portas da morte. De repente, causando-nos arrepios de medo, ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para o nosso esconderijo! Por um momento terrível, amedrontador, deu a impressão de saber que estávamos ali, ocultos por detrás da tela de arame! Um leve sorriso lhe brincou nos lábios. Oh, Deus, o que significaria tal sorriso?

Não obstante, ele não aparentava ser impiedoso como a avó. Poderia ser realmente o tirano cruel e arbitrário que o imaginávamos? A julgar pelos sorrisos gentis e bondosos que distribuía a todos que se aproximavam para cumprimentá-lo, apertar-lhe a mão e dar-lhe palmadinhas no ombro, parecia bastante benigno. Ainda assim, fora ele quem ordenara que nossa mãe fosse despida e açoitada do pescoço aos calcanhares, enquanto ele observava. Portanto, como poderíamos algum dia perdoá-lo por isso?

- Eu não sabia que era tão parecido com papai - murmurei para Chris.

- Por que não? Papai era seu meio-irmão mais moço. O avô já era um homem maduro quando nosso pai nasceu; já era casado e tinha dois filhos quando isso aconteceu.

Lá estava Malcolm Neal Foxworth, o homem que expulsara de casa sua jovem madrasta com um filho pequeno.

Pobre mamãe. Como podíamos culpá-la por apaixonar-se por seu meio-tio, quando ele era tão jovem, bonito e encantador como fora nosso pai? Tendo pais como ela descrevera, precisava ter alguém para amar, necessitava ser amada em retribuição... Ela amava... ele também.

O amor surge sem ser chamado.

Ninguém pode escolher a pessoa por quem se apaixona - as setas do Cupido são atiradas a esmo.

Eis os comentários que Chris e eu trocávamos.

Então, repentinamente, calamo-nos ao ouvirmos passos e vozes de duas pessoas que se aproximavam de nosso esconderijo.

- Corrine não mudou nada - disse um homem que não podíamos ver. - Só se tornou ainda mais linda e misteriosa. É uma mulher verdadeiramente fascinante.

Hah! Você diz isso porque sempre teve uma queda por ela, Al - replicou sua companheira. - É pena que ela não estivesse de olho em você, como ocorreu em relação a Christopher Foxworth. Ora, eis um homem que era algo muito especial. Mesmo assim, espanto-me com o fato de aqueles dois preconceituosos lá embaixo se permitirem perdoar Corrine por casar-se com seu meio-tio.

- Tinham que perdoá-la. Quando sobra apenas uma dentre três filhos, os pais são forçados a recebê-la de volta.

- Não é engraçado como as coisas evoluem? - comentou a mulher, com a voz pastosa e gutural por excesso de bebida. - Três filhos... e só restou a filha desprezada e rejeitada, que herdará tudo.

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