A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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O homem semi-embriagado soltou uma risadinha.

- Corrine não foi sempre tão desprezada. Lembra-se de como o velho a adorava? Até fugir para casar-se com Christopher, tudo o que ela fazia era correto aos olhos do pai. Mas aquela megera, mãe dela, nunca teve muita paciência com Corrine. Ciúmes, talvez. Mesmo assim, que ameixa viçosa e madura foi cair logo nas mãos de Bartholomew Winslow. Gostaria que fosse minha! - concluiu Al, num tom sonhador.

- Aposto que gostaria! - replicou sarcasticamente a mulher, pousando em cima de nossa mesa algo que, pelo som, parecia um copo com gelo dentro. - Uma mulher jovem, rica e bonita é mesmo uma ameixa madura para qualquer homem. Demais para um palerma como você, Albert Donne. Corrine Foxworth jamais olhará para você; não olhava quando você era mais moço, muito menos agora. Além disso, você está preso a mim.

O par, ainda trocando comentários ácidos, afastou-se até deixarmos de escutá-los. Outras vozes fizeram-se ouvir enquanto as longas horas passavam. Meu irmão e eu já estávamos cansados de observar e muito necessitados de ir ao banheiro. Além disso, preocupados com os gêmeos deixados sozinhos no quarto. E se um dos convidados chegasse ao quarto proibido e visse os gêmeos adormecidos? Então, o mundo inteiro - e nosso avô - tomariam conhecimento de que nossa mãe tinha quatro filhos.

Um grupo se reunira em torno de nosso esconderijo para conversar, rir e beber. Levou uma eternidade para ir embora e dar-nos uma oportunidade de abrir a porta do armário com extrema cautela. Não avistando ninguém, saímos depressa e corremos na direção de onde viéramos. Ofegantes, com as bexigas prestes a estourar, chegamos ao nosso silencioso quarto sem sermos vistos ou ouvidos.

Nossos gêmeos dormiam profundamente em camas separadas, da mesma maneira como os havíamos deixado. Pareciam duas bonecas frágeis, pálidas e idênticas... como as crianças que ilustravam, há muito tempo, os livros de estórias infantis. Nada tinham em comum com as crianças atuais - embora anteriormente tivessem. E voltariam a ter, jurei para mim mesma!

A seguir, Chris e eu discutimos a respeito de quem precisava usar o banheiro com maior urgência. E o assunto foi facilmente resolvido: ele simplesmente empurrou-me para cima de uma cama, correu para o banheiro e bateu a porta atrás de si, trancando-a. Furiosa, esperei o que me pareceu uma eternidade até que ele terminasse de esvaziar a bexiga. Puxa, como conseguia reter tal quantidade de líquido?

Satisfeitas as necessidades fisiológicas e acabadas as discussões, sentamo-nos para comentar o que acabávamos de ver e ouvir.

- Acha que mamãe pretende casar-se com Bartholomew Winslow? - indaguei, torturada por minhas perenes preocupações e ansiedades.

- Como vou saber? - redargüiu Chris com indiferença. - Mesmo assim, parece que todos pensam realmente que ela se casará com ele e a conhecem melhor que nós sob esse aspecto.

Que declaração estranha! Nós, filhos dela, não sabíamos melhor que os outros o que mamãe pensava? Não a conhecíamos melhor?

- Por que diz isso, Chris?

- O quê?

- O que acaba de dizer... a respeito de outras pessoas a conhecerem melhor que nós.

- As pessoas têm muitas facetas, Cathy. Para nós, mamãe é apenas nossa mãe. Para os outros, é uma viúva linda e sensual, que deverá herdar uma imensa fortuna. Não é de espantar que as mariposas venham todas rodear o tipo de luz brilhante que ela é.

Puxa! E ele dizia tudo isso com a maior naturalidade, como se não lhe fizesse a mínima diferença - quando eu sabia que fazia. Eu julgava conhecer muito bem meu irmão. Ele devia estar sofrendo por dentro, como eu, pois não queria que nossa mãe tornasse a casar-se. Voltei para ele o meu olhar intuitivo... ah, não estava tão indiferente quanto desejava aparentar - o que me agradou bastante.

Suspirei, porém, porque gostaria muito de ser uma eterna otimista, como ele. No fundo, eu tinha quase certeza de que a vida sempre me colocaria entre Cila e Charibdis; e dar-me-ia sempre uma Opção de Hobson. Eu precisava modificar-me, aperfeiçoar-me e tornar-me como Chris - eternamente animado. Quando sofresse, teria que aprender a dissimular, como ele fazia. Tinha que aprender a sorrir e nunca franzir a testa, a não ser a eterna pitonisa dos maus presságios.

Já havíamos discutido entre nós a possibilidade de nossa mãe casar-se outra vez e nenhum de nós desejava que isso acontecesse. Considerávamos mamãe ainda pertencente a papai; queríamos que ela permanecesse fiel à lembrança dele, sempre constante para seu primeiro amor. E se ela tornasse a se casar, em que situação ficaríamos nós quatro? Aquele sujeito, Winslow, de rosto bonito e enorme bigode, estaria disposto a aceitar quatro filhos que não eram seus?

- Cathy - disse Chris, pensativo. - Já lhe ocorreu que esta é a oportunidade perfeita para explorarmos a casa? Nossa porta destrancada, os avós no salão, mamãe ocupada, a ocasião ideal para descobrirmos tudo que for possível a respeito da mansão.

- Não! - exclamei, assustada. - Suponhamos que a avó descubra? Ela nos esfolaria vivos!

- Então, você fica com os gêmeos - declarou ele, com espantosa firmeza. - Se eu for apanhado, o que não acontecerá, sofrerei o castigo e assumirei toda a culpa. Encare a coisa sob o seguinte aspecto: talvez precisemos, algum dia, saber como fugir desta casa.

Um sorriso divertido brincou-lhe nos lábios antes de acrescentar:

- De todo modo, vou disfarçar-me, para a eventualidade de ser avistado.

Disfarçar-se? Como?

Eu esquecera, porém, o verdadeiro tesouro de roupas velhas que tínhamos no sótão. Chris passou lá apenas alguns minutos antes de descer, usando um terno escuro, de feitio antigo, que não lhe ficava grande demais. Chris era robusto e alto para sua idade. Ajustou sobre os cabelos louros uma peruca escura e velha que encontrou num dos baús. Talvez ele fosse tomado por um homem raquítico, caso a iluminação estivesse bastante fraca - um homem de aparência ridícula!

Desfilou airosamente diante de mim. Então, curvou-se e imitou o andar de Groucho Marx, segurando um charuto invisível. Parou bem à minha frente, sorrindo encabulado ao fazer uma profunda reverência, tirando da cabeça uma cartola imaginária num amplo e cavalheiresco gesto de respeito. Tive que rir e ele também riu - não apenas com os olhos - antes de endireitar-se e dizer:

- Agora, diga-me com sinceridade: quem conseguiria reconhecer neste homenzinho moreno e sinistro um membro da família Foxworth?

Ninguém! Quem já vira um Foxworth como ele? Um homenzinho magro e desajeitado, com feições bem delineadas e cabelos desgrenhados, usando um fino bigodinho pintado a lápis? Nenhuma das fotografias existentes no sótão mostrava algo parecido com aquela figura que se postara diante de mim.

- Está certo, Chris, deixe de palhaçada. Vá descobrir o que puder, mas não se demore muito. Não gosto de ficar aqui sem você.

Ele se aproximou para dizer num furtivo e conspiratório sussurro de ator:

- Voltarei breve, minha beleza loura. E quando regressar, trarei comigo todos os segredos sombrios e misteriosos dessa imensa e velha mansão.

E, de repente, apanhando-me de surpresa, lascou-me um beijo no rosto.

Segredos? E ele afirmava que eu era dada a exageros! O que havia com ele? Não compreendia que nós éramos os segredos daquela casa?

Eu já tomara banho, lavara os cabelos e me vestira para deitar. Naturalmente, tratando-se de uma noite de Natal, não podia ir para a cama com uma camisola que já usara anteriormente - em especial quando "Papai Noel" me trouxera várias camisolas novas. Escolhi uma linda, branca, com mangas bufantes franzidas nos pulsos, com franzidos também na frente e costas do corpete, bordada com lindas rosas e folhas delicadamente desenhadas. Era uma linda camisola, que me fazia sentir bela e exótica pelo simples fato de vesti-la.

Chris baixou o olhar de meus cabelos até meus pés descalços que mal apareciam abaixo da bainha da comprida camisola e seus olhos me disseram algo que jamais haviam expressado antes com tanta eloqüência. Chris fitou-me o rosto e os cabelos que cascateavam até abaixo da cintura, e eu sabia estarem brilhantes de tanto serem escovados diariamente. Meu irmão parecia tão impressionado e ofuscado quanto ao fitar demoradamente o busto cheio de mamãe acima do decote de veludo verde.

E não era de espantar que ele me tivesse beijado voluntariamente - eu parecia uma princesa.

Parou junto à porta, hesitante, ainda olhando para mim, e creio que ficou muito feliz por fazer o papel de cavaleiro galante protegendo a bela donzela loura, as crianças pequenas e todos aqueles que confiassem em sua audácia.

- Tome cuidado até rever-me - sussurrou.

- Christopher - repliquei, igualmente num sussurro. - Você só precisa de um corcel branco e um escudo.

- Não - disse ele. - Preciso de um unicórnio e de uma lança com uma cabeça verde de dragão na ponta. Então, voltarei galopando, com minha brilhante armadura branca, enquanto a tempestade de granizo rugir no mês de agosto e for meio-dia. Quando eu desmontar, vereis um cavaleiro com três metros de altura. Portanto, quando falar comigo, fazei-o de modo respeitoso, minha Lady Catherine.

- Sim, meu Lord: Ide matar o hediondo dragão que se esconde algures, mas não tardeis muito, pois poderei ser vítima dos males que pairam sobre mim e os meus neste castelo frio como pedra, onde todas as pontes levadiças estão recolhidas e as grades fechadas.

- Adeus - segredou Chris. - Não temais. Logo regressarei para cuidar de vós e dos vossos.

Dei uma risadinha ao subir na cama para deitar-me ao lado de Carrie. O sono foi, naquela noite, um desconhecido esquivo; pensei em minha mãe e naquele homem, pensei em Chris, em todos os rapazes, em homens, em namoro, e em amor. Ao mergulhar suavemente nos sonhos, embalada pela música que vinha do salão, minha mão se ergueu para tocar o pequeno anel com a pedra de granada em forma de coração que meu pai me pusera no dedo quando eu tinha apenas sete anos de idade. Um anel que já ficara pequeno há muito tempo. Minha pedra de toque. Meu talismã, usado agora num fino cordão de ouro, ao pescoço.

Feliz Natal, papai.


A Exploração de Chris e Suas Repercussões
De repente, mãos brutas sacudiram-me pelos ombros, despertando-me aos safanões! Chocada, assustada, olhei temerosamente para uma mulher na qual quase não pude reconhecer minha mãe. Olhando-me raivosamente, ela quis saber com voz irada:

- Onde está seu irmão?

Perplexa por verificar que ela, tão descontrolada, era capaz de ter no rosto tal expressão e falar daquela maneira, encolhi-me para fugir ao ataque e virei a cabeça para olhar a cama ao lado, a menos de um metro de mim. Estava vazia. Oh, Chris demorara-se demais.

Deveria eu mentir? Protegê-lo, dizendo que estava no sótão? Não; aquela era nossa mãe, que nos amava, e compreenderia.

- Chris saiu para examinar os quartos deste andar.

Franqueza era a melhor política, não era? E jamais mentíamos para nossa mãe ou um para o outro. Só para a avó e, mesmo assim, apenas quando era absolutamente necessário.

- Diabo, diabo, diabo! - praguejou ela, rubra por nova onda de fúria que agora era dirigida contra mim. Certamente o seu precioso primogênito, a quem ela preferia acima dos demais, nunca a trairia sem ser impulsionado por minha influência demoníaca. Sacudiu-me como uma boneca de trapos, até que tive a impressão de que meus olhos rolavam descontroladamente fora das órbitas.

- Só por causa disto, eu jamais, sob pretexto algum ou em qualquer ocasião especial, tornarei a permitir que você e Chris saiam deste quarto! Ambos deram-me a palavra, e não a cumpriram! Agora, como poderei confiar em vocês outra vez? E julguei que podia confiar. Pensei que vocês me amavam, que jamais me atraiçoariam!

Arregalei ainda mais os olhos. Nós a tínhamos traído? Fiquei chocada por vê-la agir daquela forma. Parecia-me que ela nos traía.

- Mamãe, não fizemos nada de errado. Ficamos bem quietos no armário embaixo da mesa. Muita gente chegou lá e ninguém percebeu nossa presença. Ficamos quietos. Ninguém sabe que estamos aqui. E você não pode dizer que nunca mais nos deixará sair daqui! Não pode manter-nos escondidos e trancados para sempre.

Mamãe encarou-me de modo estranho, agoniado, sem responder. Pensei que fosse dar-me um tapa, mas não o fez. Largou-me os ombros e deu meia-volta para sair. O chiffon esvoaçante de seu modelo exclusivo parecia asas batendo com violência, exalando um doce perfume floral que não combinava com a fisionomia enfurecida.

Exatamente quando ela ia sair do quarto, parecendo disposta a procurar pessoalmente meu irmão, a porta se abriu e Chris entrou furtivamente no quarto. Fechou a porta com muita cautela e depois virou-se, olhando para mim. Seus lábios se abriram para falar. Foi então que avistou nossa mãe e a mais estranha expressão veio-lhe ao rosto.

Por algum motivo, seus olhos não se iluminaram como de costume ao verem mamãe.

Movendo-se com rapidez e decisão, mamãe chegou até ele, ergueu a mão e desferiu-lhe uma bofetada seca e violenta no rosto! Então, antes que Chris se recobrasse do choque inicial, a mão esquerda de nossa mãe fez o lado oposto do rosto dele sentir o peso de sua ira!

Agora, o rosto pálido e atordoado de Chris exibia duas grandes marcas vermelhas.

- Se você tornar a fazer algo semelhante a isso, Christopher Foxworth, eu o espancarei, e a Cathy também!

O pouco de cor que ainda restava no rosto muito pálido de Chris abandonou-o por completo, deixando apenas aquelas marcas de bofetadas na pele descolorida, parecendo impressões de sangue.

Senti meu sangue descer todo para os pés; uma sensação ardente oriunda de um ponto situado atrás de minhas orelhas aumentou à medida que as forças me faltavam. Fitei aquela mulher que agora parecia uma desconhecida, uma pessoa que nunca tínhamos visto e que eu não me interessava por conhecer. Onde estava nossa mãe, que só costumava falar-nos com bondade e amor? Aquela mulher era a mãe que compreendia o sofrimento que nos causava aquele confinamento tão prolongado? Estaria a casa provocando-lhe "coisas" - tornando a tão diferente? O fato ocorreu-me num repente... sim, todas as pequenas coisas se somavam... ela estava mudando. Mamãe já não vinha visitar-nos com a mesma freqüência inicial - nem todo dia e, certamente, não duas vezes por dia, como no princípio. Oh, fiquei amedrontada, como se tudo em que pudéssemos confiar, de quem pudéssemos depender, nos fosse arrancado de sob os pés - deixando-nos apenas os brinquedos, jogos e outros presentes.

Mamãe deve ter percebido algo na expressão perplexa de Chris, algo que dissolveu sua ira violenta. Abraçou meu irmão, cobrindo-lhe com uma série de beijos rápidos o pobre rosto marcado de vermelho, com o bigodinho pintado a lápis, como se procurasse remediar o mal que cometera. Beijou-o repetidamente, puxou-lhe a cabeça de encontro ao busto cheio e macio, permitindo-lhe afogar-se na sensualidade de ser acalentado contra aquela pele branca e sedosa que devia excitar até mesmo um jovem que mal chegara à puberdade.

- Sinto muito, querido - murmurou ela, com lágrimas nos olhos e na voz. - Perdoe-me, por favor, perdoe-me. Não fique tão assustado. Como pode ter medo de mim? Não falei de coração a respeito das surras. Eu os amo. Vocês sabem. Eu jamais bateria em você ou em Cathy. Já bati alguma vez? Estou um pouco fora do normal porque agora tudo está a meu favor, a nosso favor. Vocês não podem fazer algo que estrague tudo para nós. E foi esse o único motivo pelo qual lhe bati.

Tomando o rosto de Chris entre as palmas das mãos, beijou-o em cheio nos lábios que formavam um bico devido à pressão de suas mãos. Os brilhantes e esmeraldas continuavam a faiscar, faiscar... como luzes de sinalização, significando, querendo dizer alguma coisa. Fiquei sentada, observando e sentindo-me, oh... não sei como me sentia... estava confusa, atordoada e era muito, muito jovem. E o mundo que nos cercava era sabido e velho, muito velho.

É claro que Chris a perdoou, como eu também perdoei. E, naturalmente, precisávamos saber o que estava a favor dela e a nosso favor.

- Por favor, mamãe, conte-nos o que é. Por favor.

- Contarei depois - disse ela, terrivelmente apressada para voltar à festa antes que sua ausência fosse notada.

Mais beijos para nós dois. Então, ocorreu-me que eu nunca sentira o rosto encostado na maciez de seu busto.

- Depois, talvez amanhã, eu lhes contarei tudo - disse ela, tornando a beijar-nos afobadamente e dizendo outras coisas carinhosas para afugentar nossos temores.

Debruçou-se por cima de mim para beijar Carrie e depois foi à outra cama beijar Cory.

- Já me perdoou, Christopher?

- Sim, mamãe. Eu compreendo. Devíamos permanecer no quarto. Eu nunca deveria ter saído para explorar a casa.

Ela sorriu, desejando-nos feliz Natal e prometendo voltar em breve. Em seguida, saiu, trancando a porta por fora.

Nosso primeiro dia de Natal na prisão terminara. O relógio no corredor bateu uma hora. Tínhamos um quarto cheio de presentes, um aparelho de TV, o jogo de xadrez que pedíramos, um triciclo vermelho e outro azul, roupas novas, pesadas e quentes, muitas coisas para comermos, e Chris e eu tínhamos ido a uma magnífica festa - de certo modo. Não obstante, algo novo surgira em nossas vidas - uma faceta do caráter de nossa mãe que ignorávamos até então. Por alguns rápidos instantes, mamãe se parecera exatamente com nossa avó!

Chris e eu ficamos deitados lado a lado na cama, de mãos dadas, com Carrie dormindo no meu outro lado. O cheiro de Chris era diferente do meu. Pousei a cabeça em seu peito juvenil e percebi que ele estava perdendo peso. Pude ouvir seu coração pulsando como se acompanhasse o ritmo da música que chegava de leve até nós. Chris passava a mão em meus cabelos, anelando interminavelmente uma mecha entre os dedos.

- Chris, ser adulto é muito complicado, não é?

- Creio que sim.

- Sempre pensei que uma pessoa adulta fosse capaz de controlar qualquer situação, nunca tendo dúvidas quanto ao que é certo ou errado. Nunca imaginei que os adultos ficassem confusos, como nós.

- Se está pensando em mamãe, ela não pretendia dizer ou fazer o que disse e fez. Embora não tenha certeza, creio que, por algum estranho motivo, quando uma pessoa adulta volta a viver na casa dos pais, fica reduzida a ser novamente uma criança, dependente dos pais. Os pais de mamãe puxam-na para um lado e nós a puxamos para o outro. E, agora, surgiu aquele homem de bigode. Também deve estar puxando mamãe para o lado dele.

- Espero que ela nunca se case outra vez! Nós precisamos mais dela que aquele homem!

Chris ficou calado.

- E o aparelho de TV que ela, nos trouxe, esperou até seu pai lhe dar um de presente, quando poderia tê-lo comprado para nós há muitos meses, em vez de gastar tanto dinheiro com roupas para ela mesma. E jóias! Está sempre usando novos anéis, brincos, colares e pulseiras!

Muito devagar, Chris apresentou uma cuidadosa explicação para os motivos de nossa mãe:

- Encare as coisas da seguinte maneira, Cathy: se mamãe nos desse o aparelho de TV no primeiro dia que aqui chegamos, passaríamos dias inteiros sentados diante dele, assistindo aos programas. Nesse caso, não teríamos criado um jardim no sótão onde os gêmeos podem brincar satisfeitos. Não teríamos feito nada senão ficarmos sentados vendo os programas da televisão. E veja o quanto aprendemos durante nossos dias tão compridos, como fazer flores e animais, por exemplo. Atualmente, eu pinto melhor que quando cheguei aqui. E lembre-se dos livros que lemos para aperfeiçoar-nos mentalmente. E você também mudou, Cathy.

- Como? Mudei como? Explique.

Ele rolou a cabeça de um lado para o outro no travesseiro, exibindo uma espécie de impotência encabulada.

- Está certo. Não é obrigado a me dizer coisas agradáveis. Todavia, antes de sair desta cama e ir para a sua, conte-me tudo o que descobriu, tudo. Não omita nada, nem mesmo seus pensamentos. Quero que me faça sentir como se o tivesse acompanhado até lá, andando ao seu lado e sentindo o que você sentia.

Ele virou a cabeça para encarar-me de uma forma muito estranha.

- Você estava lá, a meu lado. Eu a sentia perto de mim, segurando-me a mão, segredando-me ao ouvido. Isso me fez olhar com ainda mais atenção, a fim de você poder ver o que eu via.

A gigantesca mansão onde imperava o ogre enfermo que víramos no salão intimidara Chris; percebi por sua voz.

- É uma casa enorme, Cathy, como um hotel. Existem quartos e mais quartos, todos mobiliados e decorados com objetos bonitos e caros, mas percebe se que nunca são utilizados. Contei quatorze quartos só neste andar e acho que não localizei alguns quartos menores.

- Chris! - exclamei desapontada. - Não me conte dessa maneira! Faça-me sentir como se estivesse a seu lado. Comece outra vez e conte tudo o que aconteceu a partir do instante em que saiu de minha visão.

- Bem - disse ele, suspirando, como se preferisse não aceder. – Caminhei furtivamente pelo corredor desta ala e cheguei ao ponto em que ele desemboca naquela grande rotunda central onde nos escondemos sob a mesa perto da balaustrada. Não me dei o trabalho de examinar os quartos da ala norte. Logo que cheguei a um local onde alguém poderia avistar-me, tive que proceder com cautela. A festa se aproximava do clímax. A barulheira e animação estavam ainda maiores e todos pareciam embriagados. Na verdade, um homem cantava uma tolice a respeito de querer os dois dentes da frente, que perdera em algum lugar. Soava tão engraçado que corri à balaustrada e espiei para o salão. Vistas de cima, as pessoas pareciam esquisitas, encurtadas, e pensei: "Preciso lembrar-me disso quando desenhar pessoas a partir de um ponto de vista mais elevado, a fim de que pareçam naturais". A perspectiva é o elemento mais importante numa pintura.

Se me pedissem opinião, a perspectiva era o elemento mais importante em tudo na vida.

- Naturalmente, a pessoa que eu procurava era mamãe - continuou ele, ante minha insistência. - Mas só consegui reconhecer nossos avós. O avô já aparentava cansaço e, enquanto eu espiava, uma enfermeira chegou a fim de empurrar a cadeira de rodas para fora do meu campo de visa-o. E prestei atenção, pois isso me informou a direção geral da biblioteca.

- Ela usava uniforme branco?

- Claro. Do contrário, como poderia eu adivinhar que era enfermeira?

- Está bem, prossiga. Não omita nada.

- Bem, logo depois que o avô saiu, a avó também se retirou e, então, escutei vozes de pessoas que subiam uma das escadas! Você nunca viu alguém se mover tão depressa como eu! Não poderia esconder-me sob a mesa sem que me avistassem antes, de modo que me encolhi num canto onde havia uma armadura antiga em cima de um pedestal. Sabe que aquela armadura deve ter pertencido a um homem adulto e aposto que não serviria em mim; não obstante, tive vontade de experimentá-la. E quanto a quem subia a escada, era mamãe, acompanhada por aquele mesmo homem moreno de bigode.

- O que fizeram? Por que subiram a este andar?

- Creio que não me viram escondido na sombra porque estavam tão preocupados um com o outro. Aquele homem queria ver uma cama que mamãe tem no quarto dela.

- A cama dela... ele queria ver a cama de mamãe? Por quê?

- É uma cama de tipo especial, Cathy. Ele disse a mamãe: "Vamos, você já se esquivou bastante tempo". Seu tom parecia provocante. E, logo em seguida, acrescentou: "Já é tempo de me mostrar aquela fabulosa cama de cisne sobre a qual tanto ouvi falar". Aparentemente, mamãe estava preocupada com a possibilidade de ainda estarmos escondidos sob a mesa. Olhou para o móvel, demonstrando nervosismo. Mas concordou, respondendo: "Está bem, Bart, mas só podemos demorar um pouco, pois você sabe que todo mundo desconfiará se desaparecermos muito tempo". Ele riu baixinho e brincou: "Não, eu não sei o que todo mundo desconfiará. Diga-me o que desconfiarão os outros". Para mim, pareceu um desafio para deixar todo mundo pensar o que bem entendesse. Fiquei com raiva quando ouvi aquilo.

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