A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Nesse ponto, Chris fez uma pausa e sua respiração se tornou mais rápida e forte.

- Você está escondendo alguma coisa - disse eu, conhecendo-o como um livro que já tivesse lido uma centena de vezes. - Está protegendo mamãe! Viu alguma coisa que não quer me contar! Ora, isso não é justo! Sabe que no dia em que viemos para cá combinamos ser sempre francos e dizer toda a verdade um ao outro... agora, conte-me o que viu!

- Ora essa - replicou ele, mexendo-se e virando a cabeça para o outro lado, recusando-se a enfrentar meu olhar. - Que diferença podem fazer alguns beijos?

- ALGUNS beijos? - explodi. - Você viu o homem beijar mamãe mais de uma vez? Que tipo de beijos? Na mão... ou beijos de verdade, boca-a-boca?

Chris ruborizou-se e até seu peito, onde minha cabeça descansava, aqueceu-se. Cheguei a perceber o fato através de seu pijama.

- Foram beijos apaixonados, não foram? - insisti raivosamente, convencida mesmo sem a sua confirmação. - Ele a beijou e ela permitiu. Talvez até mesmo o tenha deixado tocar-lhe os seios e acariciar-lhe as nádegas, como vi papai fazer uma vez, quando não sabia que eu estava no quarto, observando tudo! Foi isso que você viu, Christopher?

- Que diferença faz? - replicou ele com voz engasgada. - Ela não pareceu importar-se com o que ele fez, embora eu tenha sentido nojo.

Eu também fiquei enojada. Na época, mamãe estava viúva há apenas oito meses. Contudo, às vezes oito meses podem dar a impressão de oito anos-luz e, afinal, que valor tinha o passado quando o presente era tão emocionante e agradável... pois, podem apostar, eu presumia que se passara entre eles muita coisa que Chris jamais me contaria.

- Ora, Cathy, não sei o que você está pensando, mas mamãe ordenou que ele parasse porque, se não a obedecesse, ela não lhe mostraria o quarto.

- Puxa vida! Aposto que ele estava fazendo coisas do arco da velha!

- Beijos - disse Chris, fitando a árvore de Natal. - Apenas beijos e algumas carícias, mas os olhos dela chegavam a brilhar. Então, o tal Bart perguntou a mamãe se a cama de cisne pertencera a alguma cortesã francesa.

- Em nome de Deus, o que é uma cortesã francesa?

Chris pigarreou.

- É um substantivo que procurei no dicionário e significa uma mulher que reserva seus favores aos homens da aristocracia, ou da realeza.

- Favores... que tipo de favores?

- O tipo de favores pelos quais os homens ricos pagam caro – respondeu ele, tapando-me a boca Com a mão para calar-me, e continuou: - E, naturalmente, mamãe negou que existisse nesta casa uma cama dessa espécie. Declarou que uma cama com reputação pecaminosa seria queimada, por mais linda que fosse. Queimariam-na à noite, orando por sua redenção. A cama de cisne pertencera à sua avó e quando mamãe era menina a coisa que mais desejava neste mundo eram os aposentos da avó. Contudo, seus pais se recusavam a permitir que ela utilizasse os aposentos, temendo que fosse contaminada pelo espírito da avó, que não fora exatamente uma santa, mas, por outro lado, também não fora uma cortesã. Então, mamãe riu, um tanto aguda e amargamente, e disse a Bart que seus pais a julgavam atualmente tão corrompida que nada poderia torná-la pior do que já era. Sabe, Cathy, isso me fez mal. Mamãe não é corrompida, papai a amava... eram casados... e o que as pessoas casadas fazem em particular não é da conta de ninguém.

Prendi a respiração e não consegui soltá-la. Chris já sabia tudo, absolutamente tudo!

- Bem, então mamãe disse: "Apenas uma espiada, Bart, e depois voltamos à festa". Desapareceram numa ala suavemente iluminada e convidativa, o que, naturalmente, forneceu-me a direção geral do quarto de mamãe. Primeiro, espiei cuidadosamente em todas as direções, antes de sair do esconderijo. Afastei-me correndo da armadura e abri a primeira porta fechada que encontrei. Entrei depressa, julgando que o aposento, estando escuro, e com a porta fechada, também devia estar desocupado. Fechei a porta bem devagar e depois fiquei absolutamente imóvel, só para absorver o cheiro e impressões do ambiente, como você diz que costuma fazer. Eu levara minha lanterna e poderia acender o facho em qualquer direção, mas desejava saber como você pode ser tão intuitiva, alerta e desconfiada quando tudo me parece perfeitamente normal. E, afinal, você tinha razão. Se as luzes estivessem acesas ou eu utilizasse a lanterna, talvez não percebesse o esquisito cheiro, nada natural, que reinava no local. Um cheiro que me causou inquietação e um pouco de medo. Então, por Deus, quase caí duro de susto!

- O que... o quê? - indaguei, empurrando a mão que me tapava a boca. - Viu algum monstro?

- Monstro? Oh, pode apostar que vi monstros! Dúzias de monstros! Pelo menos, vi suas cabeças empalhadas e penduradas nas paredes. Por toda parte ao meu redor brilhavam olhos amarelos, verdes, cor de topázio e de limão. Puxa, foi de arrepiar os cabelos! A luz que entrava pelas janelas era azulada, por causa da neve, e refletia-se nos dentes brilhantes e nas compridas presas do leão que tinha a boca escancarada e soltava um rugido silencioso. Tinha uma basta juba castanha que lhe tornava a cabeça enorme, com uma muda expressão de angústia ou fúria. E, não sei por que, senti pena dele, decapitado, empalhado, pendurado - transformado em mero objeto de decoração quando deveria ter vivido até o final de seus dias caçando livremente na savana.

Oh, sim; eu entendia o que ele queria dizer. Minha angústia era sempre como um vulcão de raiva.

- Era um salão de troféus, Cathy; um enorme salão com muitas cabeças de animais. Havia um tigre. E um elefante com a tromba erguida. Todos os animais da África e Ásia estavam em exibição num dos lados do salão, enquanto a caça pesada da América estava na parede oposta: um urso pardo, um urso comum, um antílope, um leão da montanha, e assim por diante. Nenhuma ave ou peixe na coleção, como se não representassem um desafio digno do caçador que decorou aquele salão com suas vítimas. Uma sala sinistra, mas, mesmo assim, eu gostaria que você a conhecesse. Precisa conhecê-la!

Oh, diabo - que me importava uma sala de troféus? Eu desejava saber a respeito das pessoas - e de seus segredos.

- Havia uma lareira de pedra com pelo menos seis metros de largura, com uma janela em cada lado, e acima dela estava pendurado um retrato a óleo, em tamanho natural, de um Jovem tão parecido com papai que tive vontade de chorar. Mas não era o retrato de papai. Quando me aproximei, vi que o homem era muito semelhante a nosso pai, exceto quanto aos olhos. Usava uma roupa de caça cáqui e uma camisa azul. Estava apoiado no fuzil e tinha a perna sobre um tronco caído ao solo. Conheço um pouco sobre arte, o bastante para saber que aquele retrato é uma obra-prima. O artista conseguiu realmente captar a alma do caçador. Você nunca viu olhos azuis tão duros, frios, cruéis e impiedosos. Isso me bastou para perceber que não se tratava de nosso pai, antes mesmo de ler a pequena placa de metal fixada à parte inferior da grande moldura dourada. Era um retrato de Malcolm Neal Foxworth, o nosso avô. A data mostrava que papai tinha cinco anos de idade quando o retrato foi pintado. E, como você sabe, papai tinha três anos quando foi expulso, com sua mãe, Alicia, de Foxworth Hall. Naquela época, ele e a mãe residiam em Richmond.

- Prossiga.

- Bem, tive muita sorte por ninguém me avistar quando rondei furtivamente pelo andar, pois, efetivamente, investiguei todos os quartos. E, afinal, encontrei os aposentos de mamãe. Uma porta dupla acima de dois degraus e, quando olhei lá para dentro, julguei estar vendo um palácio! Os outros quartos faziam-me esperar algo esplêndido, mas os aposentos de mamãe estão mesmo além da imaginação! E só podiam ser dela, pois havia a fotografia de papai na mesinha de cabeceira e o ambiente cheirava ao perfume que ela usa. No centro do quarto, sobre um tablado, a fabulosa cama de cisne! Oh! Que cama! Você nunca viu coisa igual! Tem uma bela cabeça de marfim, virada de perfil e parecendo pronta a enfiar-se sob uma asa meio erguida. Possui um olho vermelho e sonolento. As asas curvam-se suavemente para envolver uma cama quase oval. Não sei como conseguem ajustar os lençóis, a menos que sejam feitos sob medida. Os projetistas desenharam as penas das pontas das asas para funcionarem como dedos que afastam as cortinas delicadas e transparentes em todos os tons de rosa, vermelho, violeta e roxo. É mesmo uma cama e tanto... e aquelas cortinas... ela deve sentir-se realmente como uma princesa dormindo ali. O tapete lilás claro é tão espesso que a gente se afunda nele até os tornozelos e sobre ele existe um tapete de pele branca ao lado da cama. Os abajures de cristal, com mais de um metro e vinte de altura, são decorados com ouro e prata e dois deles possuem cúpulas pretas. Há uma poltrona espreguiçadeira de marfim, com almofadas de veludo cor-de-rosa, semelhante a algo que vemos nas orgias romanas. E aos pés da grande cama de cisne, prenda a respiração, pois não vai acreditar, está uma pequena cama estreita com o mesmo formato! Imagine! Junto aos pés da cama, no sentido transversal. Tive que parar para imaginar um motivo pelo qual alguém necessitaria de uma cama enorme e larga e uma caminha estreita aos pés dela. Deve existir um bom motivo além de tirar um cochilo sem desarrumar a cama maior. Cathy, só vendo aquela cama para acreditar!

Eu sabia que ele vira muito mais coisas, que não mencionava. Mais do que eu veria posteriormente por mim mesma. Vi o bastante para conhecer a razão pela qual ele voltara ao nosso quarto para falar tanto naquela cama, sem me dizer tudo.

- Esta casa é mais bonita que a nossa em Gladstone? - indaguei, porque para mim a nossa casa de fazenda, com oito cômodos e dois banheiros, mais um lavabo, era a melhor possível.

Ele hesitou, levando algum tempo para encontrar as palavras adequadas, pois não era de falar atabalhoadamente. Naquela noite, pesava cautelosamente o que dizia e isso, por si, já indicava muita coisa.

- Não é uma casa bonita. É grandiosa, imensa, cheia de coisas belas, mas eu não diria que é uma casa bonita.

Julguei entender o que ele queria dizer: bonita era mais ligado a acolhedor que grandioso, lindo e rico, além de imenso.

E agora nada nos restava dizer senão boa noite - e não deixe as pulgas morderem. Beijei o rosto de Chris e o empurrei para fora da minha cama. Desta feita, ele não reclamou que beijinhos eram coisa de bebês, meninas - e maricas. Logo acomodou-se junto a Cory, a um metro de distância de mim.

No escuro, a pequena árvore de Natal viva, com sessenta centímetros de altura, brilhava com pequenas lâmpadas coloridas, como as lágrimas que eu vira brilhar nos olhos de meu irmão.

Os Longos Inverno, Primavera e Verão


Nunca nossa mãe pronunciara palavras tão verdadeiras como ao afirmar que agora possuíamos uma janela através da qual poderíamos observar o resto do mundo, a vida das outras pessoas. Naquele inverno, o aparelho de televisão assumiu o controle de nossas vidas. Como tantos outros - os inválidos, doentes e velhos - comíamos, tomávamos banho e nos vestíamos só para podermos observar outras pessoas viverem vidas imaginárias.

Durante janeiro, fevereiro e a maior parte de março, o sótão permaneceu frio demais para lá entrarmos. Um vapor gelado pairava no ambiente, embaçando tudo de forma fantasmagórica - e podem apostar que era assustador. E horrível; até mesmo Chris foi forçado a admitir o fato.

Tudo isso tornava-nos muito satisfeitos por podermos ficar no quarto mais aquecido, acomodados muito juntos, assistindo, assistindo, assistindo aos programas da televisão. Os gêmeos adoravam a TV e jamais queriam desligar o aparelho; mesmo à noite, enquanto dormíamos, desejavam que ele ficasse ligado, sabendo que os acordaria na manhã seguinte. Até mesmo os pontinhos que piscavam após os programas da madrugada eram para os gêmeos melhor que o aparelho desligado. Cory, em especial, gostava de acordar e ver as pequenas imagens de pessoas por detrás de mesas anunciando as últimas notícias ou falando sobre a previsão do tempo; não havia dúvida de que as vozes dos locutores acolhiam-no melhor para um novo dia que as janelas escuras e fechadas por cortinas.

A televisão nos formou, moldou, ensinou a soletrar e pronunciar palavras difíceis. Aprendemos o quanto era importante ser limpo, não ter odores corporais, não deixar cera acumular-se no chão da cozinha; nunca permitir que o vento nos desmanchasse o cabelo e, Deus nos livre, ter caspa! O mundo inteiro nos desprezaria. Em abril, eu completaria treze anos, aproximando-me da idade da acne! Examinava a pele diariamente, a fim de ver que coisas horríveis poderiam brotar dela a qualquer momento. Na verdade, tomávamos os comerciais de televisão ao pé da letra, acreditando em seu valor como um livro de regras que nos conduziriam com segurança através dos perigos que a vida nos reservava.

Cada dia que passava trazia mudanças em Chris e em mim. Coisas peculiares estavam ocorrendo em nossos corpos. Nasceram cabelos onde não os tínhamos anteriormente - cabelos engraçados, duros, cor-de-âmbar, mais escuro que os de nossas cabeças. Eu não gostava deles e usava uma pinça para arrancá-los sempre que surgiam, mas eles brotavam com a facilidade de ervas daninhas: quanto mais eu os arrancava, mais eles nasciam. Certo dia, Chris encontrou-me com o braço erguido, procurando diligentemente pegar com a pinça um único fio de cabelo cor-de-âmbar e arrancá-lo impiedosamente.

- Que diabo está fazendo? - indagou.

- Não quero ter necessidade de raspar as axilas e também não quero usar o mesmo creme depilador que mamãe usa, ele fede!

- Quer dizer que tem arrancado os cabelos que lhe nascem no corpo, sempre que eles aparecem?

- Claro que sim. Gosto do meu corpo limpo e harmonioso, embora você não goste.

- Está travando uma batalha perdida - disse ele com um sorriso malvado. - Esses cabelos devem crescer nos locais onde nascem, portanto, é melhor deixá-los em paz e parar de pensar em manter-se infantilmente limpa e harmoniosa; comece a pensar que esses cabelos são sexy.

- Sexy?

Seios grandes eram sexy; não pêlos duros e encaracolados. Mas preferi ficar calada, pois pequenas maçãs duras estavam começando a brotar-me no peito e eu esperava que Chris não tivesse notado. Agradava-me muito o fato de estar começando a crescer para a frente - quando estava sozinha, num local privado - mas não queria que ninguém mais o percebesse. Tive que abandonar a vã esperança, pois via Chris lançar freqüentes olhares ao meu busto e, por mais folgadas que fossem minhas blusas ou suéteres, creio que aquelas pequenas colinas atraiçoavam meu recato.



Eu começava a viver, tendo sensações que nunca tivera antes. Dores e anelos estranhos. Querendo algo e não sabendo o que me acordava durante a noite, pulsante, latejante, excitada e sabendo que havia um homem ali comigo, fazendo algo que eu desejava que ele completasse e nunca completando... nunca completando... pois eu sempre acordava cedo demais, antes de atingir as climáticas alturas às quais eu sabia que ele me elevaria - se ao menos eu não acordasse para estragar tudo.

Então, houve outra coisa intrigante. Era eu quem fazia a cama todas as manhãs, logo depois de nos levantarmos, antes que a velha bruxa chegasse com a cesta de piquenique. Via sempre manchas nos lençóis, mas não eram bastante grandes para indicar outro dos sonhos de Cory com o banheiro. Estavam sempre no lado que Chris ocupava na cama.

- Pelo amor de Deus, Chris, espero que você não se acostume a sonhar que vai ao banheiro enquanto ainda estiver dormindo na cama.

Simplesmente não pude acreditar na fantástica explicação que ele deu a respeito de algo que denominava de "polução noturna"!

- Chris, acho que você deve contar a mamãe, a fim de que ela o leve a um médico. O que você tem talvez seja contagioso, algo que Cory possa contrair, e ele já suja demais a cama sem precisar de outras complicações.

Ele me lançou um olhar desdenhoso, ao mesmo tempo que enrubesceu.

- Não preciso consultar um médico - disse com a maior severidade. – Já escutei meninos mais velhos conversando nas salas de repouso da escola e o que acontece comigo é perfeitamente normal.

- Não pode ser normal, é sujo demais para isso.

- Hah! - zombou ele, com os olhos brilhando de riso reprimido. - Sua época de sujar os lençóis está chegando.

- Que quer dizer com isso?

- Pergunte a mamãe. Já é tempo de você saber; tenho percebido que você está começando a desenvolver e isto é um sinal seguro.

Eu detestava o fato de Chris saber mais que eu a respeito de tudo! Onde aprendera tanto - nas conversas maldosas com que os meninos matavam o tempo no banheiro da escola? Eu também escutara conversas maldosas no banheiro das meninas, mas preferia morrer a acreditar numa só palavra daquilo tudo. Era grosseiro demais!

Os gêmeos raramente usavam uma cadeira e não podiam ficar nas camas, pois isso amarrotaria as colchas e a avó insistia em que tudo fosse mantido "impecável". Embora gostassem das novelas da TV, continuavam a brincar, parando ocasionalmente para assistir às cenas mais interessantes. Carrie tinha aquela enorme casa de bonecas, com todas as miniaturas e fascínios, para mantê-la entretida numa constante conversa com os objetos, a ponto de irritar-nos. Eu lhe lançava muitos olhares aborrecidos, esperando que ela se calasse ao menos por alguns segundos e me permitisse assistir à televisão sem aquele monólogo maçante - mas nunca lhe fiz qualquer advertência verbal, pois isso provocaria gritos muito piores que o perene murmúrio de suas estranhas conversas.

Enquanto Carrie mexia nas bonecas, falando pelos homens e pelas mulheres, Cory se distraía com suas inúmeras caixas de brinquedos de armar. Recusava-se a aceitar as instruções que Chris tentava ensiná-lo a cumprir, preferindo construir o que mais lhe convinha - e o que construía era sempre alguma coisa na qual ele pudesse bater para extrair notas musicais. Com a televisão para fazer barulho e apresentar uma interminável variedade de cenas, a casa de bonecas e seus muitos encantos para agradar Carrie e os brinquedos de armar que tornavam mais felizes as horas de Cory, os gêmeos conseguiam levar da melhor maneira possível sua vida de confinamento. As crianças são muito adaptáveis; aprendi isso observando os gêmeos. Claro que reclamavam um pouco, sobretudo a respeito de duas coisas. Por que mamãe não nos visitava tantas vezes como antes? Aquilo me magoava profundamente, pois eu nada podia fazer para remediar a situação. E havia também o problema da comida: eles nunca gostavam dela. Queriam os sorvetes em casquinha que viam na TV e os cachorros-quentes que as crianças da televisão estavam sempre comendo. Na verdade, desejavam tudo que fosse dirigido a satisfazer o apetite infantil por doces e brinquedos. Tinham os brinquedos, mas não recebiam doces.

E, enquanto os gêmeos engatinhavam pelo chão ou sentavam-se de pernas cruzadas, sempre fazendo seus irritantes barulhos, Chris e eu procurávamos manter nossas mentes concentradas nas complicadas situações que se desenrolavam diariamente ante nossos olhos. Víamos maridos infiéis enganarem esposas dedicadas, ou esposas do tipo megera, ou esposas por demais preocupadas com os filhos para darem aos maridos as atenções que estes necessitavam. E vice-versa. As mulheres eram capazes de ser tão infiéis quanto os homens, quer para maridos bons quer para maridos maus. Aprendemos que o amor era exatamente como uma bola de sabão, tão brilhante e colorida num dia, desfazendo-se em pleno ar no dia seguinte. Então, vinham as lágrimas, as fisionomias desoladas, a angústia afogada numa infinidade de xícaras de café à mesa da cozinha com um melhor amigo, ou amiga, que também tinha seus próprios problemas e complicações. Todavia, mal um amor terminava, logo surgia outro para lançar no ar aquela brilhante bola de sabão. Oh, com que persistência aquelas pessoas lindas se esforçavam para encontrar o amor perfeito e trancá-lo num lugar seguro - mas nunca conseguiam.

Uma tarde no final de março, mamãe entrou no quarto com uma grande caixa sob o braço. Estávamos acostumados a vê-la entrar no nosso quarto carregando muitos presentes, não apenas um. E o mais estranho foi que ela meneou a cabeça para Chris, que pareceu entender, pois levantou-se de onde se sentara para estudar, tomou as mãozinhas de nossos gêmeos e subiu com eles para o sótão. Fiquei sem entender nada. Ainda fazia frio lá em cima. Tratar-se-ia de algum segredo? Teria ela trazido um presente só para mim?

Sentamo-nos lado a lado na cama que Carrie e eu usávamos e, antes que eu pudesse olhar o "presente" trazido especialmente para mim, mamãe declarou que precisávamos ter uma conversa "de mulher para mulher". Ora, eu já ouvira falar de conversas "de homem para homem" nos velhos firmes da televisão e sabia que esse tipo especial de diálogo tinha alguma relação com crescimento e sexo, de modo que fiquei pensativa e procurei não demonstrar muito interesse, pois isso seria comportamento inadequado a uma moça direita e bem educada - embora, por dentro, eu estivesse morrendo de curiosidade por, afinal, tomar conhecimento de tudo.

E pensam que ela me contou o que eu esperara tantos anos para saber? Não! Enquanto eu permanecia sentada numa atitude solene, aguardando a exposição que revelaria todas as coisas maliciosas e pecaminosas que os meninos já nasciam conhecendo - segundo uma certa bruxa-avó -, fiquei aturdida e incrédula à medida que mamãe explicava como eu deveria, em breve, começar a ter corrimentos sangüíneos! Não em decorrência de algum ferimento, mas devido à maneira pela qual Deus projetara o funcionamento do organismo feminino. E, para aumentar meu espanto, eu não apenas sangraria uma vez por mês, a partir de agora até ser uma mulher idosa de cinqüenta anos, como também o sangramento mensal duraria cinco dias!

- Até eu fazer cinqüenta anos? - indaguei em voz fraca, sumida, com tanto medo de mamãe estar pilheriando às minhas custas.

Ela sorriu suavemente, com ternura.

- Às vezes, pára antes dos cinqüenta anos, outras vezes continua por mais algum tempo. Não existe prazo definido. Não obstante, em algum ponto dessa faixa de idade você pode esperar a "mudança de vida". É chamada menopausa.

- Vai doer? - Era a coisa mais importante que eu desejava saber naquele momento.

- Seus períodos mensais? Talvez ocorram algumas cólicas, mas não serão fortes e posso afirmar, por experiência própria e de outras mulheres que conheço, que quanto mais medo você tiver, mais forte será a dor.

Eu sabia! Nunca vi sangue sem sentir dor - a menos que fosse o sangue de outra pessoa. E toda aquela sujeita, dores, cólicas, só para que meu útero se preparasse para receber um "óvulo fertilizado" que se transformaria num bebê. Então, ela me deu a caixa que continha tudo o que eu precisaria para "aquela época do mês".

- Espere, mamãe! - exclamei, encontrando um meio de evitar tudo aquilo. - Você se esquece de que tenciono ser bailarina e que as bailarinas nunca devem ter filhos? E eu não quero ter filhos, nunca. Portanto, pode devolver tudo isso à loja e receber seu dinheiro de volta, pois não vou topar essa sujeira periódica mensal!

Ela deu uma risadinha, abraçou-me com mais força e beijou-me o rosto.

- Acho que me esqueci de lhe dizer alguma coisa, pois não existem meios de evitar a menstruação. É preciso aceitar a maneira pela qual a natureza altera o corpo de uma menina, transformando-a numa mulher. Certamente, você não vai querer ser uma menina a vida inteira, não é mesmo?

Titubeei, desejando profundamente ser uma mulher adulta, com todas as curvas que mamãe possuía, e, não obstante, despreparada para o choque de tamanha sujeira - uma vez por mês!

- E, Cathy, por favor, não se sinta envergonhada, ou embaraçada, ou temerosa de algum incômodo e trabalho, pois ter filhos é recompensa mais que suficiente para isso. Algum dia você vai se apaixonar; depois de casada, desejará dar filhos a seu marido, se o amar de verdade.

- Mamãe, existe alguma coisa que você não está me contando. Se as meninas têm que passar por tudo isso para se tornarem mulheres, o que Chris terá que suportar para tornar-se um homem?

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