A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Ela soltou uma risadinha quase infantil e apertou o rosto contra o meu.

- Os meninos também passam por alterações, embora nenhuma delas cause sangramento. Chris em breve terá que fazer a barba, e todos os dias também. E existem determinadas outras coisas que ele terá que aprender a conseguir e controlar, com as quais você não terá que se preocupar.

- O quê? - perguntei, ansiosa para que o gênero masculino compartilhasse de alguns dos problemas do amadurecimento. Quando ela não respondeu, insisti: - Chris lhe pediu para conversar comigo, não foi?

Ela confirmou com a cabeça, respondendo que ele pedira embora ela há muito tempo tencionasse contar-me tudo; mas as ocupações no andar inferior não lhe davam folga para fazê-lo.

- Chris... o que ele sofrerá de doloroso?

Ela riu, aparentemente divertida.

- Outro dia conversaremos, Cathy. Agora, guarde suas coisas para usá-las, quando for necessário. Não entre em pânico se a coisa começar quando você estiver dormindo, ou dançando. Eu tinha doze anos quando isso aconteceu e estava andando de bicicleta. Voltei em casa ao menos seis vezes, a fim de trocar as calcinhas, até que minha mãe percebeu e arranjou tempo para explicar-me do que se tratava. Acredite se quiser, mas logo se acostumará aos períodos e estes não farão a mínima diferença em seu modo de vida.

A despeito das caixas - contendo aquelas coisas detestáveis que eu esperava nunca ter que usar, pois não pretendia ter filhos, a conversa com mamãe foi íntima e muito gostosa para mim.

Não obstante, quando ela chamou Chris e os gêmeos do sótão e passou a beijar Chris, desmanchando-lhe os cabelos louros encaracolados e brincando com ele de modo provocante, praticamente ignorando os gêmeos, a intimidade de alguns momentos antes começou a desaparecer. Carrie e Cory pareciam pouco à vontade na presença de mamãe. Correram para mim e subiram-me ao colo; abraçados por mim, observaram Chris ser acariciado, beijado e mimado por ela. Preocupava-me profundamente a maneira pela qual ela tratava os gêmeos, como se nem desejasse vê-los.

Enquanto Chris e eu ingressamos na puberdade, a caminho de nos tornarmos adultos, os gêmeos estagnaram, permanecendo na mesma.

O inverno frio e prolongado cedeu lugar à primavera. Paulatinamente, o sótão ficou mais quente. Subimos até lá, todos os quatro, para retirar os flocos de neve de papel e substituí-los por nossas coloridas flores de primavera, alegrando o ambiente.

Meu aniversário foi em abril e mamãe não deixou de comparecer com presentes, sorvete e um bolo de confeitaria. Sentou-se para passar a tarde de domingo e ensinou-me a bordar com lã e costurar com agulha. Assim com os materiais que me deu de presente, eu tinha mais uma maneira de encher o tempo.

Meu aniversário foi seguido pelo dia dos gêmeos - seu sexto aniversário. Mais uma vez, mamãe trouxe o bolo, sorvete e muitos presentes, inclusive instrumentos musicais que fizeram brilhar os olhos azuis de Cory. O menino lançou um demorado olhar de encantamento ao acordeão de brinquedo, apertou-o uma ou duas vezes, acionando as teclas e virando atentamente a cabeça para escutar os sons emitidos. E diabos me levem se ele em breve não estava tocando uma melodia! Nenhum de nós conseguiu acreditar. Então, ficamos ainda mais perplexos quando ele foi ao piano de brinquedo de Carrie e repetiu a façanha, cantando:

- Parabéns pra você, querida Carrie. Parabéns pra nós dois!

- Cory tem bom ouvido para música - disse mamãe, parecendo pensativa e nostálgica ao fitar o filho mais moço. - Ambos os meus irmãos eram músicos. A pena é que meu pai não tinha paciência para com as artes ou o tipo de homens que são artistas, não só músicos como também pintores, poetas e assim por diante, julgando-os fracos e efeminados. Obrigou meu irmão mais velho a trabalhar num banco, pouco se importando com o fato de o filho detestar o emprego que não lhe era adequado. Tinha o mesmo nome que meu pai, mas nós o chamávamos de Mal. Era um jovem muito bonito e, nos fins de semana, fugia da vida que detestava e subia as montanhas em sua motocicleta. Em seu retiro particular, uma cabana de troncos que ele mesmo construiu, compunha músicas. Um dia, na chuva, pegou uma curva com velocidade excessiva, saiu da estrada e caiu num abismo de centenas de metros. Tinha vinte e dois anos quando morreu.

- Meu outro irmão se chamava Joel e fugiu de casa no dia do enterro de Mal. Eram muito unidos e creio que ele não conseguiu suportar a idéia de substituir Mal e herdar o império comercial do pai. Recebemos um único cartão postal de Paris, no qual Joel nos contava que arranjara emprego numa orquestra que excursionava pela Europa. Cerca de três semanas depois, fomos informados de que ele morrera num acidente de automóvel, na Suíça. Tinha dezenove anos. Caiu numa profunda ravina cheia de neve e até hoje seu corpo não foi encontrado.

Oh, Deus! Fiquei muito perturbada, sentindo-me atordoada interiormente. Tantos acidentes! Dois irmãos mortos e papai também - todos em acidentes. Meu olhar desolado cruzou com o de Chris, que estava muito sério. Tão logo nossa mãe partiu, fugimos para o sótão, procurando conforto em nossos livros.

- Já lemos tudo isso! - desabafou Chris, profundamente desgostoso, lançando-me um olhar aborrecido.

Eu não tinha culpa de ele ser capaz de ler um livro inteiro em poucas horas!

- Podíamos reler aquelas obras de Shakespeare. - sugeri.

- Não gosto de ler peças teatrais!

Ora, eu gostava de ler Shakespeare, Eugene O'Neill e qualquer obra que fosse dramática, fantasiosa e cheia de emoções tempestuosas.

- Vamos ensinar os gêmeos a ler e escrever - sugeri, quase frenética para fazer algo diferente. E, daquele modo, poderíamos dar aos gêmeos mais uma maneira de se divertirem. - Fazendo isso, Chris, evitaremos que eles tenham os cérebros transformados em papa de tanto olharem para aquele tubo luminoso. E também evitaremos que fiquem cegos.

Descemos, decididos, e fomos direto aos gêmeos, que assistiam a um desenho animado do Coelho Pernalonga.

- Vamos ensinar vocês dois a ler e escrever - anunciou Chris.

Ambos começaram a protestar com berros veementes.

- Não! - gritou Carrie. - Não queremos aprender a ler e escrever! Não escrevemos cartas! Queremos assisti a "Eu amo Lucy"!

Chris agarrou Carrie e eu peguei Cory, arrastando-os literalmente até o sótão. Fomos obrigados, pois era como se tentássemos segurar duas cobras escorregadias. E uma delas era capaz de mugir como um touro furioso!

Cory não falava, nem gritava, nem procurava esmurrar-me com os pequenos punhos; limitava-se a agarrar ferozmente o que lhe passasse ao alcance das mãos, usando também as pernas para prender-se em móveis e outros objetos.

Nunca dois professores amadores tiveram um corpo discente tão relutante. Mas, afinal, por meio de truques, ameaças e contos de fadas, começamos a interessá-los pelo estudo. Talvez tenha sido piedade de nós o que logo os levou a estudar laboriosamente os livros, decorando e recitando enfadonhamente as letras do alfabeto. Entregamos a eles um caderno de caligrafia e um livro do primeiro ano de onde copiavam palavras.

Como não conhecíamos outras crianças da mesma idade que nossos gêmeos, Chris e eu julgávamos que ambos progrediam de modo notável. Embora mamãe não viesse visitar-nos todos os dias, como no início - e nem mesmo dia sim, dia não - costumava aparecer uma ou duas vezes por semana. Com que ansiedade a aguardamos para entregar-lhe o curto bilhete que Cory e Chris escreveram para ela após se certificarem de que cada um tinha exatamente o mesmo número de palavras que o outro para escrever.

Em letras de fôrma com pelo menos cinco centímetros de altura e muito tortas, o bilhete dizia:

"Querida Mamãe,

Nós amamos você

E doces também.

Adeus,


Carrie e Cory".

Empregaram tanto esforço e diligência na sua mensagem, sem receberem instruções minhas ou de Chris - uma mensagem redigida por eles próprios, esperando que mamãe a recebesse. E ela não recebeu.

Cáries dentárias, naturalmente. Então, chegou o verão. E, mais uma vez, fazia um calor terrível, muito abafado, embora - por estranho que pareça - não fosse tão insuportável quanto o verão anterior. Chris chegou à conclusão de que nosso sangue estava mais ralo, de modo que podíamos tolerar melhor o calor.

Nosso verão foi cheio de livros. Aparentemente, mamãe simplesmente pegava livros nas estantes do andar inferior, sem dar importância aos títulos, sem querer saber se o assunto nos interessava ou se a leitura era adequada a mentes jovens e facilmente impressionáveis como as nossas. Na verdade, não fazia diferença. Chris e eu líamos tudo.

Um de nossos livros preferidos naquele verão era um romance histórico que fazia a história ficar mais interessante que o modo como era ensinada na escola. Ficamos espantados ao tomar conhecimento de que, nos velhos tempos, as mulheres não iam ao hospital para terem bebês. Tinham-nos em casa, deitadas numa cama estreita, de modo que o médico pudesse alcançá-las com mais facilidade que numa cama larga. E, às vezes, só contavam com a assistência de uma parteira.

- Uma pequena cama de cisne, para ter bebês - refletiu Chris em voz alta, erguendo a cabeça para fitar o espaço.

Rolei para ficar deitada de costas e sorri maliciosamente para ele. Estávamos no sótão, deitados em velhos colchões manchados colocados perto das janelas mantidas abertas para deixarem entrar a brisa suave e cálida.

- E reis e rainhas que recebiam os cortesãos em suas camas, ou aposentos reais, como diziam na época, e tinham coragem de se mostrar inteiramente despidos diante de todos. Você acha que tudo o que está escrito nos livros pode ser totalmente verdadeiro?

- Claro que não! Mas grande parte é. Afinal, as pessoas não costumavam usar camisolas ou pijamas para dormir. Apenas um barrete para aquecer a cabeça e o resto que se danasse.

Rimos juntos, imaginando reis e rainhas que não se envergonhavam de ficar despidos diante dos seus nobres e dos dignitários estrangeiros.

- Naquela época, pele nua não era pecado, era? Nos tempos medievais?

- Creio que não - replicou Chris.

- Pecado é o que a gente faz quando está despido, não é?

- Creio que sim.

Pela segunda vez, eu estava suportando o suplício que a natureza me infligia para tornar-me mulher; na primeira vez, doeu tanto que passei o dia de cama, alegando sofrer dores nas juntas.

- Você não acha repugnante o que está acontecendo comigo... acha? - perguntei a Chris.

Ele enfiou o rosto nos meus cabelos.

- Cathy, não acho que qualquer coisa relacionada com o corpo humano e seu funcionamento seja repugnante ou revoltante. Creio que é o médico que existe dentro de mim que fala dessa forma. Considero a sua peculiar situação da seguinte maneira: se bastam uns poucos dias por mês dessa coisa para transformar você numa mulher como mamãe, então vale a pena. E se lhe causa dores e você não gosta, lembre-se de que a dança também provoca dores, como você mesma me disse. Não obstante, no caso da dança você julga que o preço que paga vale a pena.

Abracei-o com mais força quando ele se interrompeu. Depois, acrescentou:

- E eu também pago um preço por tornar-me homem. Não tenho um homem com quem conversar, como você tem mamãe. Estou completamente sozinho numa situação complicada, cheia de frustrações, e às vezes não sei para que lado me voltar ou de que maneira fugir às tentações. Além disso, tenho muito medo de jamais conseguir formar-me em medicina.

- Chris - comecei, compreendendo logo que tropeçara num poço de areia movediça. - Você nunca tem dúvidas a respeito dela?

Vi-o ficar carrancudo e falei depressa, antes que ele pudesse replicar alguma advertência irada:

- Não acha... esquisito... que ela nos mantenha trancados aqui durante tanto tempo? Ela tem muito dinheiro, Chris; sei que tem. Aquelas jóias todas não são falsas como ela alega para nós. Sei que não são!

Ele se afastara logo que eu falara "nela".

Adorava a sua deusa de toda a perfeição feminina. Todavia, logo voltou a abraçar-me, encostando o rosto em meus cabelos e falando com a voz embargada pela emoção:

- Às vezes, não sou o eterno otimista cego que você me considera. Às vezes, tenho tantas dúvidas quanto você a respeito do que ela faz. Todavia, lembro-me da época anterior à nossa vinda para cá e sinto que preciso confiar nela, acreditar nela, ser como papai foi em relação a ela. Não se esqueça do que ele costumava dizer: "Existe um bom motivo para tudo que parece estranho. E tudo sempre tende a melhorar". É por isso que me obrigo a acreditar que... ela tenha bons motivos para manter-nos aqui em vez de enviar-nos às escondidas para algum colégio interno. Ela sabe o que está fazendo, Cathy. E eu a amo tanto. Não posso evitar. Não importa o que ela fizer, sinto que continuarei sempre a amá-la.

Ele a amava mais que a mim, refleti com amargura.

Agora, nossa mãe chegava e saía sem qualquer regularidade. Uma vez, passou uma semana inteira sem nos visitar. Quando finalmente apareceu, declarou que seu pai estava gravemente enfermo. Vibrei de euforia com a notícia.

- Ele está piorando? - indaguei, sentindo uma leve pontada de remorso. Sabia que era errado desejar a morte de nosso avô, mas sua morte seria nossa salvação.

- Sim - respondeu ela solenemente. - Piorando muito. Qualquer dia, agora, Cathy. Qualquer dia. Você não pode imaginar como está pálido, nem as dores que sente; tão logo ele se vá, vocês estarão livres.

Oh, meus Deus, pensar que era tão malvada a ponto de desejar que o velho morresse naquele mesmo instante! Deus me perdoe. Por outro lado, também não era direito ficarmos trancados o tempo todo; necessitávamos de ar livre, de sol quente; e ficávamos solitários, sem travar novos conhecimentos.

- Talvez seja a qualquer hora - disse mamãe, levantando-se para ir embora.

Cantarolei ao arrumar as camas, esperando a chegada da notícia de que nosso avô estava a caminho do céu - se sua riqueza valia alguma coisa - ou do inferno - se fosse impossível subornar o Demônio.

Mamãe surgiu à porta, com a fisionomia fatigada, enfiando apenas a cabeça no quarto para dizer:

- Ele superou a crise... Vai recuperar-se, desta vez.

A porta se fechou e ficamos a sós com nossas esperanças desfeitas.

Naquela noite, ajeitei os gêmeos na cama, pois agora mamãe raramente aparecia para fazê-lo. Era eu quem os beijava e escutava suas preces. E Chris também cumpria sua parte das tarefas. Os gêmeos nos amavam; era fácil ler isso em seus grandes olhos azuis. Depois que adormeceram, fomos ao calendário riscar um grande "X" sobre mais um dia. Já estávamos outra vez em agosto. Fazia um ano inteiro que vivíamos naquela prisão.

SEGUNDA PARTE


"Até o dia raiar e as sombras fugirem".

Os Cânticos de Salomão - 2:17


Crescendo e Aprendendo
Outro ano se passou, de modo muito semelhante ao primeiro. Mamãe vinha com cada vez menos freqüência, mas sempre trazendo as promessas que mantinham vivas nossas esperanças, fazendo-nos continuar a crer que a libertação era apenas uma questão de semanas. A última coisa que fazíamos cada noite era riscar o dia com um grande "X" vermelho.

Havia agora três calendários riscados com aqueles X. O primeiro tinha apenas metade dos dias riscados, o segundo estava inteiramente marcado de vermelho e o terceiro já tinha as mesmas marcas além da metade. E o avô moribundo, agora com sessenta e oito anos de idade e sempre prestes a exalar o último suspiro, continuava respirando enquanto esperávamos num limbo. Tudo indicava que ele viveria para completar os sessenta e nove.

Às quintas-feiras os criados de Foxworth Hall iam à cidade. Era quando Chris e eu saíamos sorrateiramente para o telhado escuro e nos estendíamos nas telhas íngremes, a fim de pegarmos a luz do sol e respirarmos ar puro sob a lua e as estrelas. Embora fosse um local alto e perigoso, era o lugar onde duas alas se juntavam para formar uma esquina, podíamos firmar os pés numa robusta chaminé e ficar em segurança. Nossa posição no telhado nos ocultava de quem pudesse estar no terreno.

Uma vez que a ira de nossa avó ainda não se materializara, Chris e eu nos tornamos descuidados. Nem sempre éramos recatados no banheiro, como nem sempre estávamos totalmente vestidos. Era difícil viver em perene confinamento e ocultar do sexo oposto as partes íntimas do corpo.

E, para usar de toda a franqueza, nenhum de nós se importava muito com quem via o quê.

Deveríamos importar-nos.

Deveríamos ter cautela.

Deveríamos manter viva na lembrança a imagem das costas açoitadas de mamãe e nunca, jamais, esquecê-la. Entretanto, o dia em que ela fora surrada já nos parecia tão distante. Uma eternidade se passara desde então.

Ali estava eu, uma adolescente, e jamais me vira inteiramente nua, pois o espelho na porta do armário do banheiro estava colocado num local alto demais para permitir uma visão perfeita. Eu nunca vira uma mulher nua, mesmo em fotografia; as pinturas e estátuas de mármore não revelavam detalhes. Assim, esperei uma ocasião em que fiquei sozinha no quarto e me despi completamente diante do armário, mirando-me no espelho da porta, examinando e admirando todo o meu corpo. Era incrível que os hormônios tivessem causado tantas alterações! Não havia dúvida de que eu era mais bonita que quando ali chegara, mesmo em meu rosto, cabelos e pernas - quanto mais no corpo torneado em curvas. Virei-me de lado para lado, mantendo os olhos grudados no espelho enquanto assumia posições de bailarina.

Uma sensação de arrepio na nuca preveniu-me de que havia alguém por perto, observando-me. Girei subitamente nos calcanhares e apanhei Chris oculto nas profundas sombras do armário que dava para a escada do sótão. Descera silenciosamente até ali. Há quanto tempo estaria me observando? Teria visto todas as coisas tolas e desavergonhadas que eu fizera? Oh, Deus, eu esperava que não!

Chris parecia petrificado. Uma expressão estranha velava-lhe os olhos azuis, como se nunca me tivesse visto sem roupas - como já vira muitas vezes. Talvez quando os gêmeos estavam presentes, tomando banho de sol conosco, ele mantivesse o pensamento puro e fraternal, sem me olhar de verdade.

Baixou os olhos de meu rosto corado para os seios e, cada vez mais para baixo, até chegar aos pés e tornar a subir vagarosamente.

Fiquei trêmula, hesitante, imaginando como agir sem parecer uma tola pudica aos olhos de um irmão mais velho que sabia como zombar de mim quando desejava. Chris parecia-me um desconhecido, mais velho, alguém que eu nunca encontrara antes. Também aparentava fraqueza, aturdimento, perplexidade. Se eu me movesse para vestir-me, roubar-lhe-ia algo que ele tanto ansiava por ver.

O tempo deu a impressão de parar enquanto ele permanecia no armário e eu continuava em frente ao espelho que lhe revelava também uma visão posterior, pois vi que seus olhos fitavam dissimuladamente a imagem ali refletida.

- Chris, vá embora, por favor.

Ele não deu sinal de escutar.

Limitou-se a fitar.

Corei da cabeça aos pés, sentindo o suor brotar das axilas e uma pulsação esquisita nas veias. Era como uma criança apanhada com a mão enfiada no vidro de doces, culpada de um crime leve e terrivelmente temerosa de receber um severo castigo por quase nada. Todavia, os olhos de Chris, sua expressão, haviam-me despertado para a vida; meu coração batia feroz e descompassadamente, cheio de temor. Por que ter medo? Era apenas Chris.

- Não - disse ele, quando peguei o vestido.

- Você não devia... - gaguejei, tremendo ainda mais.

- Sei que não devia, mas você é tão linda. É como se eu nunca a tivesse visto antes. Como se tornou tão bela, enquanto estive aqui esse tempo todo?

Como responder a tal indagação? Só consegui olhar para ele, implorando com os olhos.

Naquele instante, às minhas costas, uma chave girou na fechadura. Tentei enfiar rapidamente o vestido pela cabeça e puxá-lo para baixo antes que ela entrasse. Oh, Deus! Não consegui encontrar as mangas. Minha cabeça ficou coberta pelo vestido, com o resto do corpo exposto, inteiramente nu, e ela estava ali - a avó! Embora não pudesse vê-la, eu a sentia!

Afinal, encontrei os buracos das mangas e baixei rapidamente o vestido. Todavia, ela me vira em toda a minha beleza nua - estava escrito naqueles implacáveis olhos cinzentos e faiscantes. Tirou os olhos de mim e fitou Chris como se fosse capaz de atravessá-lo com o olhar furioso. Ele continuava no atordoamento que não o deixava fazer o menor gesto.

- Então! - exclamou ela. - Finalmente os apanhei! Tinha certeza de que os pegaria, mais cedo ou mais tarde!

Ela nos dirigira antes a palavra. A cena era exatamente como um de meus pesadelos... despida diante da avó e de Deus.

Chris sacudiu-se da perplexidade e avançou para retorquir:

- Apanhou-nos? Fazendo o quê? Nada...

Nada... Nada... Nada...

Uma palavra que reverberava. Aos olhos dela, fôramos apanhados fazendo tudo!

- Pecadores! - sibilou ela, voltando novamente para mim os olhos cruéis. Não havia neles o mínimo vestígio de clemência. - Julga-se bonita? Acha que essas curvas novas e jovens são atraentes? Gosta desses louros cabelos que tanto escova e penteia?

Então, sorriu - o sorriso mais aterrador que já vi.

Meus joelhos batiam nervosamente um contra o outro; as mãos se contorciam instintivamente. Sentia-me muito vulnerável sem roupas de baixo e com o zíper aberto nas costas. Lancei um olhar de esguelha a Chris, que avançava vagarosamente, procurando com os olhos algo que lhe servisse como arma.

- Quantas vezes permitiu que seu irmão usasse seu corpo? - vociferou a avó.

Só consegui permanecer imóvel, incapaz de falar, sem entender o que ela queria dizer.

- Usar? Como assim?

Os olhos dela se transformaram em meros riscos no rosto, que buscaram repentinamente Chris, surpreendendo-lhe no rosto um rubor de vergonha que demonstrava claramente, até mesmo para mim, que ele entendia o significado da pergunta, embora eu não compreendesse.

- Quero dizer uma coisa - declarou ele, ficando ainda mais vermelho. – Não fizemos nada realmente errado.

Agora, tinha uma voz adulta, forte e profunda.

- Vamos, pode me fitar com esses olhos odientos e desconfiados. Acredite o que quiser, mas Cathy e eu nada fizemos de errado, pecaminoso ou malicioso!

- Sua irmã estava nua. Permitiu que você lhe olhasse o corpo. Portanto, procederam mal.

Dirigiu o olhar para mim, carregado de ódio, antes de girar nos calcanhares e retirar-se raivosamente do quarto. Eu tremia como vara verde. Chris estava furioso comigo.

- Cathy, por que se despiu neste quarto? Sabe que ela nos espiona na esperança de pegar-nos cometendo alguma falta!

Tinha no rosto uma expressão selvagem e agitada que o fazia parecer mais velho, terrivelmente violento.

- Ela nos castigará. O fato de haver saído sem fazer nada não quer dizer que deixará de voltar.

Eu sabia... eu sabia. Ela ia voltar - com o chicote!

Sonolentos e irritados, os gêmeos desceram do sótão. Carrie acomodou-se diante da casa de bonecas. Cory agachou-se para assistir a televisão. Pegou sua cara guitarra de profissional e começou a tocá-la. Chris sentou-se na cama, virado para a porta. Eu fiquei alerta, pronta para fugir quando ela voltasse. Correria para o banheiro, trancaria a porta... eu...

A chave girou na fechadura. A maçaneta se moveu. Levantei-me de um pulo, como Chris.

- Vá para o banheiro, Cathy - disse ele. - E fique lá dentro.

Nossa avó entrou no quarto, alta como uma árvore e trazia não um chicote, mas uma tesoura, do tipo que as mulheres utilizam para cortar tecido quando costuram: cromada, brilhante, comprida e parecendo muito afiada.

- Sente-se, menina - ordenou rispidamente. - Vou cortar seus cabelos pela raiz. Então, talvez você se orgulhe quando olhar para o espelho.

Exibiu um sorriso desdenhoso e cruel ao perceber minha surpresa – o primeiro sorriso verdadeiro que eu vira em seu rosto.

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