A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Encontro29.07.2016
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Os gêmeos reclamaram e choramingaram enquanto tomei um banho apressado, lavei os cabelos e os prendi com grossos rolinhos. Olhei para a porta do banheiro e avistei Christopher fazendo o possível para distraí-los, lendo para eles em voz alta a história da Vovó Gansa.

- Oi - disse Christopher quando saí do banheiro usando meu vestido, cor-de-rosa e os rolinhos na cabeça. - Não está nada mal.

- Nada mal? É o melhor que você pode dizer?

- É mesmo, irmã - disse ele. - O melhor para uma irmã.

Lançou um olhar ao relógio, fechou o livro, pegou os gêmeos pelos pulsos gorduchos e exclamou:

- Papai chegará a qualquer momento. Ande depressa, Cathy!

Às cinco horas chegaram e passaram. Embora não parássemos de esperar, não vimos o Cadillac verde de papai entrar na alameda curva de acesso à casa. Os convidados sentaram-se pela sala, procurando conversar animadamente, enquanto mamãe levantou-se e começou a andar nervosamente de um lado para outro. Em geral, papai abria a porta às quatro horas - às vezes até mesmo antes disso.

O maravilhoso jantar que mamãe levara tanto tempo preparando já secava por permanecer demais no fogão. Os gêmeos costumavam ir para a cama às sete e começavam a sentir fome, sono, perguntando a cada minuto:

- Quando papai vai chegar?

Suas roupas brancas já não pareciam tão limpas. Os cabelos meticulosamente ondulados de Carrie começavam a encaracolar-se e parecer desfeitos pelo vento. O nariz de Cory começou a escorrer e ele o limpava com as costas da mão, até que corri para pegar um lenço de papel e enxugar-lhe o lábio superior.

- Bem, Corrine - pilheriou Jim Johnston. - Acho que Chris conseguiu encontrar outra supermulher.

A esposa lançou-lhe um olhar irritado pela brincadeira de tão mau gosto.

Meu estômago roncava e comecei a preocupar-me quando mamãe ergueu a cabeça. Ela estivera percorrendo ambos os sentidos da sala, até que parou junto ao amplo janelão olhando lá para fora.

- Oh! - exclamou, avistando um carro que entrava em nossa alameda orlada de árvores. - Talvez papai esteja chegando agora!

Todavia, o carro que parou diante de nossa porta principal era branco e não verde. Tinha na capota uma lâmpada giratória vermelha e trazia na porta um emblema com as palavras POLÍCIA ESTADUAL.

Mamãe abafou um grito quando dois policiais uniformizados de azul se aproximaram de nossa porta e tocaram a campainha.

- Mamãe parecia congelada, com a mão pairando sobre a garganta; o que lhe ía no coração toldou-lhe o olhar. Algo selvagem e atemorizador martelava-me o coração só de observar as reações de mamãe.

- Jim Johnston foi abrir a porta e permitiu que os dois patrulheiros estaduais entrassem. Olharam em volta, percebendo - estou certa - que a reunião se tratava de uma festa de aniversário. Bastava-lhes olhar para a sala de jantar e ver a mesa festiva, os balões pendurados no lustre, os presentes empilhados no bufê.

- Sra. Christopher Garland Dollanganger? - inquiriu o mais idoso dos policiais, correndo os olhos pelas senhoras presentes.

Mamãe assentiu rigidamente. Aproximei-me, acompanhada - por Christopher. Os gêmeos estavam no chão, brincando com minúsculos carrinhos, e demonstrando pouco interesse pela chegada dos policiais.

O policial com aparência bondosa e rosto muito vermelho aproximou-se de mamãe.

- Sra. Dollanganger - começou, num tom neutro que me causou imediato pânico no coração. - Sentimos muito, mas ocorreu um acidente na Rodovia Greenfield.

- Oh... - disse mamãe, estendendo os braços para puxar Christopher e eu para junto de si. Pude senti-la estremecer da cabeça aos pés, como eu. Meus olhos pareciam magnetizados pelos botões metálicos do uniforme do policial; conseguiam ver mais nada.

- Seu marido estava envolvido, Sra. Dollanganger.

Um longo suspiro escapou à garganta estrangulada de mamãe. Ela vacilou e teria caído se eu e Christopher não estivéssemos ali apara sustentá-la.

- Já interrogamos os motoristas que testemunharam o acidente e não foi culpa de seu marido, Sra. Dollanganger - prosseguiu a voz despida de emoção. - Segundo os depoimentos, que tivemos o cuidado de registrar, um motorista ao volante de um Ford azul costurava pela faixa da esquerda, aparentemente alcoolizado, e chocou-se de frente com o carro de seu marido. Tudo indica que seu marido percebeu a iminência do acidente, pois desviou-se a fim de evitar uma colisão frontal, mas uma peça de máquina caiu de outro carro, ou caminhão, impedindo-o de completar a manobra evasiva correta que, lhe teria salvo a vida. Na verdade, porém, o carro de seu marido, sendo muito mais pesado que o outro: capotou várias vezes. Talvez ele tivesse conseguido sobreviver, mas um caminhão que passava não pôde parar e bateu no carro; mais uma vez, o Cadillac capotou... e então... pegou fogo.

Jamais uma sala cheia de pessoas silenciou tão depressa. Até mesmo os pequenos gêmeos ergueram os olhos de sua inocente brincadeira e fitaram os dois policiais.

- Meu marido? - murmurou mamãe com voz tio fraca que mal se fazia ouvir. - Ele... não está... morto...?

- Madame - disse, muito solene, o patrulheiro de rosto vermelho. - É muito doloroso para mim trazer-lhe a notícia em meio ao que parece uma ocasião especial. - Interrompeu-se e olhou em volta, embaraçado. - Sinto muitíssimo, madame... Todos fizeram o possível para retirá-lo... mas, madame, bem... ele, bem, morreu instantaneamente, pelo que afirmou o médico.

Alguém sentado no sofá gritou.

Mamãe não gritou. Seus olhos ficaram vazios, escuros, assombrados. A despeito da cor radiante de seu belo rosto, dava a impressão de uma máscara mortuária. Fitei-a, tentando dizer-lhe com os olhos que nada daquilo era verdade. Não papai! Não o meu papai! Não podia estar morto... não podia! A morte era para pessoas velhas e doentes... não para um homem tão amado, tão querido, tão jovem!

Não obstante, ali estava minha mãe, o rosto cinzento, os olhos esbugalhados, as mãos torcendo invisíveis roupas molhadas. A cada segundo que eu a encarava, seus olhos afundavam-se ainda mais nas órbitas.

Comecei a chorar.

- Madame, temos alguns pertences dele que foram atirados longe pelo impacto. Salvamos o que foi possível.

- Vá embora! - gritei para o guarda. - Saia daqui! Não é meu papai! Não é ele, eu sei! Papai parou numa loja para compra sorvetes. Chegará a qualquer momento. Saia daqui!

Avancei correndo para esmurrar o peito do patrulheiro. Ele tentou esquivar-se e Christopher se aproximou, puxando-me para um lado.

- Por favor - disse o policial. - Alguém quer fazer o favor de ajudar essa menina?

Os braços de minha mãe envolveram-me os ombros, puxando-me de encontro a ela. Pessoas conversavam em murmúrios, num tom chocado. A comida no forno começava a cheirar a queimado.

Esperei que alguém viesse tomar-me a mão e dizer que Deus jamais tirava a vida de um homem como meu pai; todavia, ninguém se aproximou de mim. Só Christopher veio abraçar-me pela cintura e ali ficamos os três, num grupo isolado: mamãe, Christopher e eu.

Foi Christopher quem, afinal, conseguiu recobrar a voz e falar num estranho tom rouco:

- Tem certeza de que foi nosso pai? Se o Cadillac verde pegou fogo, o motorista lá dentro deve ter ficado muito queimado. Portanto, poderia ser outra pessoa e não papai.

Soluços profundos e ásperos saíam da garganta de mamãe, embora nem uma só lágrima lhe caísse dos olhos. Ela acreditava! Achava que os dois policiais diziam a verdade!

Os convidados, que tinham colocado roupas tão elegantes para a festa de aniversário, reuniram-se à nossa volta, pronunciando as frases de consolo que as pessoas costumam usar quando não encontram palavras adequadas.

- Sentimos tanto, Corrine... Foi um choque... É terrível...

- Que tristeza, acontecer isso a Chris...

- Nossos dias estão contados... É sempre assim, desde que nascemos: temos os dias contados.

Aquilo prosseguiu, interminável; pouco a pouco, como água infiltrando-se em concreto, o fato impregnou-se no meu consciente. Papai estava realmente morto. Nunca mais voltaríamos a vê-lo vivo. Só voltaríamos a vê-lo num caixão; estendido num caixão que acabaria enterrado no chão, sob uma lápide com seu nome, a data de seu nascimento e a de sua morte. O mesmo dia e mês; apenas os anos seriam diferentes.

Olhei em torno, a fim de verificar o que ocorria aos gêmeos, que não deviam estar sentindo o mesmo que eu. Uma pessoa bondosa os levara à cozinha, onde lhes preparava uma leve refeição antes de levá-los para a cama. Meu olhar se cruzou com o de Christopher, que parecia mergulhado no mesmo pesadelo que eu, a fisionomia jovem pálida e chocada. Uma vaga expressão de sofrimento ensombrecia-lhe os olhos, tornando-os mais escuros.

Um dos patrulheiros estaduais fora ao carro da polícia e, agora, voltava com uma trouxa de objetos que ele espalhou cuidadosamente sobre a mesinha de centro. Fiquei petrificada, observando a exibição de tudo o que papai tinha nos bolsos: uma carteira de couro de crocodilo que mamãe lhe dera como presente de Natal; a caderneta de anotações e a agenda encapadas com couro; o relógio de pulso; a aliança de casamento. Tudo enegrecido e chamuscado de fumaça e fogo.

Finalmente, os bichinhos destinados a Cory e Carrie, encontrados - segundo explicou o patrulheiro - espalhados pela estrada. Um gordo elefantinho com orelhas de veludo cor-de-rosa, um cavalinho escarlate, com sela vermelha e rédeas douradas... oh, aquilo tinha que ser para Carrie. Então, o mais triste de todos os objetos: as roupas de papai, que tinham saído das malas quando os fechos estouraram. Eu conhecia aqueles ternos, camisas, gravatas, meias. Ali estavam a mesma gravata que eu lhe dera como presente de aniversário.

- Alguém terá que identificar o corpo - anunciou o patrulheiro.

Agora, eu sabia com certeza. Era verdade: nosso pai nunca mais voltaria para casa com presentes para todos nós - nem mesmo no dia de seu aniversário. Saí correndo daquela sala! Fugindo daqueles objetos espalhados, que me dilaceravam o coração e provocavam-me uma dor tão forte como eu jamais sentira. Corri da casa para o jardim, onde fiquei esmurrando um velho bordo. Bati até que os punhos começaram a doer e o sangue brotou de inúmeros cortes pequenos; então, joguei-me de bruços na grama e chorei - chorei dez oceanos de lágrimas por papai, que deveria estar vivo. Chorei por nós, que precisaríamos continuar vivendo sem ele. E pelos gêmeos, que nem mesmo tiveram oportunidade de saber o quanto ele era ou fora - maravilhoso. E quando as lágrimas terminaram, deixando-me os olhos inflamados e vermelhos de tanto esfregá-los, escutei passos macios que se aproximavam: minha mãe.

Ela se sentou na grama ao meu lado e tomou-me a mão nas suas. A lua minguante surgira no céu e milhões de estrelas cintilavam; a brisa era gostosa, trazendo consigo os novos perfumes da primavera.

- Cathy - disse mamãe eventualmente, quando o silêncio entre nós prolongou-se de forma a parecer interminável. - Seu pai está no céu, olhando para você. E você sabe que ele desejaria que você fosse valente.

- Ele não está morto, mamãe! - neguei com veemência.

- Faz muito tempo que você está aqui fora; talvez não tenha percebido, mas já são dez horas. Alguém precisava identificar o corpo de seu pai e, embora Jim Johnston tenha se oferecido para fazê-lo, tive que ir sozinha. Porque, assim como você, também achava difícil acreditar. Seu pai está morto, Cathy. Christopher está na cama, chorando; os gêmeos já dormiram; ainda não entendem direito o que significa a palavra "morto".

Envolveu-me com os braços, descansando-me a cabeça em seu ombro.

- Vamos - disse ela, pondo-se de pé e puxando-me para cima, ao mesmo tempo que mantinha o braço em torno de minha cintura. - Passou tempo demais aqui fora. Pensei que estivesse dentro de casa, como os outros. E eles pensavam que você estivesse em seu quarto, ou comigo. Não é bom ficarmos sozinhas quando nos sentimos desorientadas. É melhor procurar a companhia de outras pessoas e desabafarmos nossas angústias, em vez de mantê-las trancadas dentro de nós.

Disse todas essas palavras com os olhos secos, sem derramar uma só lágrima, mas, em algum lugar de seu íntimo, ela chorava e gritava. Percebi o fato por seu tom de voz, pela absoluta falta de expressão que lhe velava os olhos fundos.

Com a morte de nosso pai, nossos dias foram tornados sombrios por um pesadelo. Eu fitava mamãe com reprovação, pensando que ela nos devia ter preparado previamente para uma situação assim, porquanto jamais tivemos permissão para possuir mascotes que morressem de repente e nos ensinassem um pouco da perda causada pela morte. Alguém, algum adulto, devia prevenir-nos de que os jovens, os bonitos e os necessários também podem morrer.

Como dizer tais coisas a uma mãe que dava a impressão de ser puxada pelo destino através de uma abertura estreita, esticando-se, ficando fina e chata? Como falar francamente com alguém que não deseja escutar, nem comer, nem escovar os cabelos, nem vestir as lindas roupas que lhe abarrotavam o armário? Ela nem mesmo queria cuidar de nossas necessidades. Foi bom que as caridosas senhoras da vizinhança viessem tomar conta de nós, trazendo-nos comida preparada em suas próprias cozinhas. Nossa casa transbordava de flores, de comida caseira, presuntos, pãezinhos quentes, bolos e tortas.

Vinham aos bandos, aquelas pessoas que amavam, admiravam e respeitavam nosso pai; admirei-me ao perceber que ele era tão querido. Não obstante, detestava cada vez que alguém indagava como ele morrera e comentava ser uma pena que alguém tão jovem morresse, quando tanta gente inútil, desajustada, que só constituía um peso para a sociedade, continuava viva.

Por tudo o que escutei e ouvi dizer, o destino era um ceifador implacável, desprovido de bondade, que não respeitava quem fosse amado ou necessário.

Os dias de primavera se tornaram verão. E a tristeza, por mais que se procure cultivar-lhe o lamento, possui o dom de diminuir até que a pessoa tão real e tão querida se transforme num vago vulto ligeiramente fora de foco.

Certo dia, mamãe sentou-se com o rosto tão triste que parecia incapaz de lembrar-se como sorrir.

- Mamãe - disse eu alegremente, esforçando-me por animá-la. - Vou fingir que papai está vivo, numa de suas viagens de negócios, e logo voltará para casa, entrará pela porta e gritará como costumava: "Se vocês me amam, venham receber-me com abraços e beijos!" E... você não entende?... todos nos sentiremos melhor, como se ele estivesse vivo em algum lugar, onde não podemos vê-lo, mas podemos esperá-lo de volta a qualquer momento.

- Não, Cathy - replicou mamãe, inflamando-se. - Você deve aceitar a verdade. Não deve procurar refúgio numa ilusão. Está ouvindo bem? Seu pai está morto e sua alma foi para o céu. Na sua idade, você deve compreender que ninguém jamais retorna do céu. Quanto a nós, faremos o melhor possível sem ele: e isso não significa fugir à realidade, recusando-nos a encará-la.

Observei-a levantar-se da cadeira e começar a tirar coisas de geladeira para preparar o café da manhã.

- Mamãe... recomecei, tateando cautelosamente o caminho, a fim de evitar que ela se zangasse outra vez. - Conseguiremos prosseguir, sem ele?

- Farei o possível para providenciar nossa sobrevivência - replicou ela com indiferença, desanimada.

- Agora, terá que trabalhar, como a Sra. Johnston?

- Talvez sim, talvez não. A vida nos reserva todas as espécies de surpresas, Cathy, e algumas delas são desagradáveis, como você está aprendendo a perceber. Contudo, lembre-se sempre que recebeu a bênção de possuir, durante doze anos, um pai que a considerava algo multo especial.

- Porque me pareço com você - interpus, ainda sentindo aquela pontinha de inveja que sempre me fustigava por estar em segundo lugar em relação a ela.

Mamãe lançou-me um olhar de esguelha ao mexer o conteúdo da geladeira.

- Agora, Cathy, vou contar-lhe uma coisa que nunca lhe contei antes. Você se parece muito comigo quando eu tinha a sua idade, mas tem uma personalidade bem diferente. É muito mais agressiva e muito mais decidida. Seu pai costumava dizer que você era como a mãe dele, e ele adorava a mãe.

- Todo mundo não adora a mãe?

- Não - replicou ela, com uma expressão esquisita. - Existem mães que simplesmente não podemos amar, pois não desejam o amor dos filhos.

Tirou o toucinho e os ovos da geladeira. Depois, Virou-se para tomar-me nos braços.

- Querida Cathy, seu pai e eu tínhamos um relacionamento íntimo muito especial e acredito que você deva sentir mais falta dele por causa disso. Mais que Christopher sente, ou os gêmeos.

Solucei em seu ombro.

- Detesto Deus por ter levado meu pai! Ele devia continuar vivo até envelhecer! Não estará presente quando eu dançar a valsa ou Christopher formar-se em medicina. Agora, que ele se foi, nada mais parece ter importância.

- Às vezes, a morte não é tão horrível como você imagina - respondeu ela com voz tensa. - Seu pai jamais ficará velho ou enfermo. Permanecerá sempre jovem; é assim que você sempre se recordará dele: jovem, forte, bonito. Não chore mais, Cathy, pois, como seu pai costumava dizer, existe um motivo para tudo e uma solução para cada problema. E eu estou tentando, desesperadamente, fazer o que julgo ser melhor.

Éramos quatro crianças andando a esmo, tropeçando nos cacos de nosso sofrimento e perda. Brincávamos no quintal, tentando encontrar consolo no sol, totalmente despercebidos de que nossas vidas em breve sofreriam alteração tão drástica, tão dramática, que palavras como "quintal" e "jardim" adquiririam para nós o significado de "paraíso" - e estariam tão remotas quanto este.

Uma tarde, pouco após os funerais de papai, Christopher e eu estávamos sentados, com os gêmeos, no quintal. Os gêmeos estavam na caixa de areia, brincando com minúsculas pás e baldes. Numa repetição infindável, transferiam a areia de um balde para outro, tagarelando naquele estranho idioma que só eles eram capazes de entender. Cory e Carrie, embora não fossem gêmeos idênticos, formavam uma unidade, mutuamente satisfeitos um com o outro. Erguiam em torno de si uma muralha, transformando-se em castelões bem protegidos, que guardavam ciosamente seus segredos ocultos. Cada um tinha o outro e isso lhes bastava.

A hora do jantar chegou e passou. Agora, tínhamos medo de que até mesmo nossas refeições fossem canceladas, de modo que, mesmo sem a voz de nossa mãe a chamar-nos para dentro de casa, pegamos as mãos gorduchas e cheias de covinhas dos gêmeos, puxando-os na direção da casa. Encontramos nossa mãe sentada à grande mesa de trabalho de papai; redigia o que parecia ser uma carta muito difícil, se a evidência de vários rascunhos iniciados, interrompidos, amarrotados e deixados de lado servia de indicação. Franzia a testa ao escrever, parando freqüentemente para erguer a cabeça e fitar o espaço.

- Mamãe - chamei. - Quase seis horas. Os gêmeos estão ficando com fome.

- Um minuto, um minuto - respondeu ela, entre afobada e indiferente. - Estou escrevendo para seus avós, que moram na Virgínia. Os vizinhos trouxeram-nos comida bastante para uma semana. Você poderia colocar uma das caçarolas no forno; Cathy.

Foi a primeira refeição que preparei praticamente sozinha. Arrumei a mesa, esquentei a caçarola, servi o leite e então mamãe chegou para ajudar.

Parecia-me que todos os dias após a morte de papai nossa mãe tinha carta a escrever, lugares aonde ir, deixando-nos aos cuidados da vizinha mais próxima. À noite, mamãe sentava-se à mesa de trabalho de papai, com um grande livro de registros de capa verde aberto diante de si, conferindo pilhas de notas fiscais. Nada mais era bom; nada. Agora, muitas vezes meu irmão e eu dávamos banho nos gêmeos, vestindo seus pijamas, e os colocávamos na cama. Então, Christopher retirava-se apressadamente para seu quarto, a fim de estudar, enquanto eu voltava rapidamente para perto de mamãe, a fim de buscar um modo de devolver-lhe a felicidade aos olhos azuis.

Algumas semanas depois, chegou uma carta em resposta às muitas que nossa mãe enviara a seus pais. Imediatamente, mamãe começou a chorar - antes mesmo de abrir o grosso envelope cor-de-creme. Manipulou desajeitadamente uma espátula de abrir cartas e, com dedos trêmulos, segurou as três folhas de papel manuscrito, relendo-as várias vezes. Durante todo o tempo, lágrimas escorriam-lhe lentamente pelo rosto, manchando a maquilagem com longas e úmidas marcas pálidas.

Chamara-nos do quintal tão logo pegara a correspondência na caixa postal próxima à porta de entrada e agora estávamos, os quatro, sentados no sofá da sala de visitas. Observei o rosto suave e claro de boneca de Dresden transformar-se numa fisionomia fria, dura e resoluta. Um arrepio de frio percorreu-me a espinha. Talvez fosse por ela nos encarar demoradamente demais. Em seguida, baixou os olhos para as folhas de papel seguras por seus dedos trêmulos e logo os desviou para as janelas, como se lá conseguisse encontrar alguma solução para o problema da carta.

Mamãe agia de modo muito estranho, que nos causava temor e nos deixava desusadamente quietos, pois já nos sentíamos bastante intimidados num lar sem pai, e não precisávamos que uma carta de três páginas em papel cor-de-creme viesse selar os lábios de nossa mãe e fazer surgir em seus olhos uma expressão tão dura. Por que olhava para nós de maneira tão esquisita?

Afinal, ela limpou a garganta com um pigarro e começou a falar, mas numa voz fria, totalmente diversa de sua costumeira cadência suave e amorosa:

- Afinal, sua avó respondeu minhas cartas - declarou naquele tom gelado. - Depois de todas as cartas que lhe escrevi... bem... ela concordou. Mostra-se disposta a permitir que moremos com ela.

Boas novas! Exatamente o que aguardávamos escutar - e devíamos estar felizes. Todavia, mamãe tornou a mergulhar naquele silêncio pensativo, limitando-se a permanecer imóvel, olhando para nós. O que haveria com ela? Não saberia que nós lhe pertencíamos? Que não éramos filhos de uma estranha, enfileirados como passarinhos empoleirados na corda do varal?

- Christopher e Cathy, com quatorze e doze anos vocês dois já devem ter idade suficiente para compreender e colaborar, ajudando sua mãe a escapar de uma situação desesperadora - disse ela, fazendo uma pausa para passar nervosamente os dedos no colar de pérolas e suspirar.

Parecia à beira das lágrimas. E senti-me tão penalizada da pobre mamãe, sem um marido...

- Está passando bem, mamãe? - perguntei.

- Sim, é claro, minha querida - disse ela, tentando sorrir. - Seu pai, que Deus o tenha, esperava viver até uma idade avançada e, nesse ínterim, adquirir uma volumosa fortuna. Vinha de uma família de pessoas que sabiam ganhar dinheiro, de modo que não me resta a menor dúvida de que teria alcançado seu objetivo, se dispusesse de tempo bastante para isso. Todavia, trinta e seis anos é muito pouca idade para morrer. As pessoas costumam acreditar que nada de horrível lhes acontecerá, mas apenas aos outros. Não prevemos acidentes nem esperamos morrer cedo. Ora, seu pai e eu pensávamos em envelhecer juntos e esperávamos conhecer nossos netos antes de morrermos juntos, no mesmo dia. Assim, nenhum de nós ficaria para lamentar sozinho o que partisse primeiro.

Suspirou outra vez.

- É forçoso confessar que levamos uma vida muito além de nosso padrão atual. Gastamos dinheiro antes mesmo de recebê-lo. Não o culpem; a culpa foi minha. Ele conhecia tudo a respeito da pobreza; eu não conhecia nada. Vocês se lembram de como ele costumava ralhar comigo? Ora, quando compramos essa casa, ele disse que precisávamos de apenas três quartos, mas fiz questão de quatro. Até mesmo quatro não me pareciam suficientes. Olhem em volta; sobre essa casa pesa uma hipoteca de trinta anos. Nada aqui é realmente nosso: nem os móveis, nem os carros, nem os aparelhos eletrodomésticos na cozinha e na lavanderia. Nem um único objeto está totalmente pago.

Parecemos amedrontados? Assustados? Mamãe interrompeu-se, com o rosto muito vermelho, e seus olhos percorreram a linda sala que tão bem lhe realçava a beleza. Suas delicadas sobrancelhas se contraíram numa expressão de ansiedade.

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