A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Meu maior temor! Eu preferia ser açoitada! Minha pele cicatrizaria, mas seriam necessários anos e mais anos para ter outra vez os lindos cabelos compridos de que eu tanto gostara e cuidara a partir da primeira vez em que meu pai afirmara achá-los lindos e gostar de meninas com cabelos longos. Oh, amado Deus, como podia ela adivinhar que eu sonhava quase todas as noites que ela entrava sorrateiramente no quarto e me tosquiava como a uma ovelha? E, às vezes, eu não sonhava apenas que ela me cortava os cabelos, como também me amputava os seios!

Sempre que ela olhava na minha direção, fixava um determinado detalhe. Não me via como um todo, uma pessoa inteira, mas como pedaços que lhe atiçavam a ira... e ela destruía tudo que lhe causava raiva!

Tentei correr para o banheiro e fechar-me lá dentro com a chave, mas minhas pernas de bailarina, tão bem treinadas, recusavam-se a fazer o mínimo movimento. Fiquei paralisada pela ameaça daquela tesoura brilhante e comprida; e, acima dela... os olhos cinzentos da avó faiscavam de ódio, desprezo e repugnância.

Foi então que Chris declarou com forte voz masculina:

- Você não tocará numa só mecha dos cabelos de Cathy, avó! Se avançar mais um passo na direção dela, quebro-lhe a cabeça com esta cadeira!

Chris empunhava uma das cadeiras que usávamos para comer, pronto para cumprir a ameaça. Seus olhos azuis cuspiam fogo, como os olhos cinzentos da avó faiscavam de ódio.

Ela o encarou com uma expressão devastadora, como se a ameaça de Chris fosse inócua e sua força desprezível jamais pudesse sobrepujar a montanha de aço que ela representava.

- Muito bem. Como prefiram. Ofereço-lhe uma escolha, menina: a perda dos cabelos ou uma semana sem leite e comida.

- Os gêmeos nada fizeram de errado - implorei. - Chris nada fez de errado. Ele não sabia que eu estava despida quando desceu do sótão. Tudo foi por minha culpa. Posso passar uma semana sem comida ou leite. Não morrerei de fome e, além disso, mamãe não permitirá que faça isso comigo. Elas nos trará comida.

Todavia, não declarei aquilo com inteira confiança. Mamãe estava sumida há muito tempo. Suas visitas eram raras; eu ia sentir muita fome.

- Seu cabelo, ou ficarão sem comida uma semana inteira - repetiu ela, empedernida e inflexível.

- Está agindo errado, velha - disse Chris, aproximando-se com a cadeira erguida. - Peguei Cathy de surpresa. Nada fizemos de pecaminoso. Nunca. Não nos julgue a partir de indícios circunstanciais.

- Seu cabelo, ou nenhum de vocês receberá comida por uma semana - disse-me ela, ignorando Chris, como sempre. - E caso se tranque no banheiro ou se esconda no sótão, nenhum de vocês comerá durante duas semanas! Ou só quando você aparecer com a cabeça raspada!

Em seguida, pregou em Chris os olhos frios e calculistas, encarando-o por um momento prolongado e cruciante.

- Creio que será você quem cortará os cabelos compridos e tão bem cuidados de sua irmã - disse com uma sombra de sorriso, pousando a tesoura em cima da cômoda. - Quando eu voltar e encontrar sua irmã sem cabelo, vocês quatro voltarão a comer.

Saiu, trancou a porta por fora, deixando-nos num dilema; Chris olhava para mim e eu para ele.

Sorriu.

- Ora, Cathy, não passa de um blefe! Mamãe chegará a qualquer hora. Contaremos a ela... não haverá problema. Eu jamais cortarei seu cabelo.



Aproximou-se, passando o braço pelos meus ombros, e acrescentou:

- Não foi sorte termos escondido no sótão aquele pacote de bolachas e meio quilo de queijo? E ainda temos a comida de hoje. A velha bruxa não se lembrou do detalhe.

Raramente comíamos muito. Naquele dia, comemos ainda menos, para o caso de mamãe não aparecer. Economizamos metade do leite e as laranjas. O dia terminou sem a visita de mamãe. Passei a noite inteira rolando e me mexendo na cama, dormindo e acordando com freqüência. Quando adormecia, tinha pesadelos terríveis. Sonhei que Chris e eu estávamos numa densa floresta escura, perdidos, procurando Carrie e Cory. Chamávamos seus nomes na voz silenciosa dos sonhos. Os gêmeos não respondiam. Em pânico, corremos para a mais profunda escuridão.

Então, de repente, surgiu, do escuro uma casa feita com bolo de gengibre! Também tinha queijo e o telhado era de doces; uma alameda de glacê levava à porta de chocolate. A cerca era feita com pirulitos de menta, os arbustos de sorvete com sete sabores diferentes. Comuniquei-me mentalmente com Chris: Não! É um truque! Não devemos entrar!

Ele respondeu: Precisamos entrar! Temos que salvar os gêmeos!

Entramos sorrateiramente e vimos as almofadas de pão-de-ló, pingando manteiga derretida, e o sofá era de pão fresco, também com manteiga.

Na cozinha, estava a bruxa para acabar com todas as bruxas! Nariz adunco, queixo proeminente, boca murcha e desdentada; sua cabeça parecia um pano de chão feito com trapos cinzentos eriçados em todas as direções.

Segurava nossos gêmeos pelos longos cabelos dourados. Estavam prestes a serem colocados num forno quente! Já tinham sido cobertos com glacê cor-de-rosa e azul; sua carne, mesmo sem ir ao forno, já se transformava em bolo de gengibre e os olhos azuis em passas escuras!

Gritei! Comecei e não parei mais de gritar!

A bruxa se voltou bruscamente para me encarar com os maldosos olhos cinzentos e sua boca murcha, fina como um talho de faca, escancarou-se para rir! Histericamente, gargalhou sem parar, enquanto Chris e eu nos encolhíamos de pavor. Ela jogou a cabeça para trás e a boca escancarada expôs amídalas semelhantes a caninos - e, de forma espantosa, aterradora, começou a deixar de ser a avó. Metamorfoseou-se de lagarta em borboleta, enquanto nós, petrificados, só conseguíamos observar... e daquele horror emergiu nossa mãe!

Mamãe! Seus cabelos louros caíam como longas fitas, avançando rastejantes pelo chão como serpentes para picar-nos! Anéis escorregadios de seus cabelos subiam-nos pelas pernas, enlaçando-nos, avançando para nossas gargantas... tentando estrangular-nos e silenciar-nos... para que não fôssemos uma ameaça contra sua herança!

Eu os amo, eu os amo, eu os amo, repetia ela silenciosamente.

Acordei. Chris continuava a dormir, como os gêmeos.

Comecei a ficar desesperada à medida que o sono aumentava, querendo envolver-me outra vez. Tentei resistir à terrível sonolência, ao torpor de afogamento, até que tornei a mergulhar profundamente em sonhos, em horríveis pesadelos. Corri loucamente na escuridão e caí numa poça de sangue. Sangue pegajoso como piche, com cheiro de piche. Peixes incrustados de brilhantes, com cabeças de cisne e olhos vermelhos mordiscavam-me os braços e pernas até ficarem dormentes e insensíveis. E os peixes com cabeças de cisne gargalhavam, alegres por me verem combalida e toda ensangüentada. Vejam! Vejam! Gritavam com vozes fanhosas que ecoavam prolongadamente: Você não pode escapar!

A manhã surgiu, pálida, no outro lado das pesadas cortinas que impediam a entrada da luz amarela da esperança.

Carrie virou-se dormindo, aconchegando-se a mim.

- Mamãe - murmurou. - Não gosto dessa casa.

Seus cabelos sedosos roçando em meu braço davam a impressão de penugem de gansos à medida em que minhas mãos e braços, pés e pernas retornavam à sensação normal.

Fiquei imóvel na cama enquanto Carrie se mexia, inquieta, querendo que eu a abraçasse; sentia-me tão dopada que não podia mover os braços. O que havia de errado comigo? Tinha a cabeça pesada, como se estivesse cheia de pedras que pressionavam meu cérebro por dentro; a dor era tão grande que meu crânio parecia prestes a estourar! Os dedos das mãos e dos pés ainda formigavam O corpo parecia de chumbo. As paredes avançavam e tornavam a recuar. Não existiam linhas retas verticais.

Tentei ver minha imagem no armário com espelho, mas quando experimentei virar a cabeça esta não obedeceu. Como sempre fazia antes de dormir, eu espalhava meus cabelos sobre o travesseiro, a fim de poder virar a cabeça e descansar o rosto na perfumada e sedosa maciez de cabelos fortes, saudáveis e bem cuidados. Era uma das coisas sensuais que me causava prazer: a sensação dos cabelos em meu rosto, transportando-me para doces sonhos de amor.

Todavia, naquela manhã não havia cabelos em meu travesseiro. Onde estava meu cabelo? A tesoura continuava em cima da cômoda; eu podia vê-la vagamente. Engolindo repetidamente para abrir caminho na garganta, soltei um grito forçado, chamando por Chris - e não por mamãe. Rezei a Deus que deixasse meu irmão escutar.

- Chris - consegui sussurrar, afinal, numa voz muito esquisita e áspera. - Estou passando mal.

Minhas palavras fracas e sussurradas despertaram Chris, embora eu não entenda como ele as escutou. Sentou-se na cama e esfregou os olhos, sonolento.

- O que deseja, Cathy? - indagou.

Balbuciei algo que o fez saltar da cama e, no seu pijama azul amarrotado, os cabelos dourados em desalinho, aproximar-se de mim. Estacou bruscamente. Prendeu a respiração, produzindo engasgados sons de choque e horror.

- Cathy... oh, meu Deus!

Seu grito me provocou arrepios de medo na espinha.

- Cathy... oh, Cathy... - gemeu ele.

Enquanto ele me fitava com olhos esbugalhados e eu tentava imaginar o que lhe provocara tal reação, procurei levantar os braços pesados como chumbo e apalpar a cabeça inchada. De algum modo, consegui levar as mãos à cabeça – e então encontrei uma voz alta para gritar! Gritar de verdade! Urrei sem cessar como uma demente, até que Chris correu para tomar-me nos braços.

- Pare, por favor, pare - soluçou ele. - Lembre-se dos gêmeos... não os assuste ainda mais... por favor, Cathy, não torne a gritar. Eles já passaram por muita coisa e sei que você não deseja marcá-los permanentemente. É o que acontecerá se você não se acalmar. Tudo bem. Eu a livrarei disso. Prometo-lhe por minha vida que, ainda hoje, darei um jeito de tirar o piche de seus cabelos.

Chris encontrou no meu braço uma pequena marca vermelha onde a avó aplicara a injeção para manter-me adormecida por meio de alguma droga. E, enquanto eu dormia, ela despejara piche quente nos meus cabelos. Deve tê-los juntado antes de passar o piche, pois nem uma só mecha escapara da maçaroca.

Chris procurou evitar que eu me olhasse no espelho, mas empurrei-o para um lado e, boquiaberta, com os olhos arregalados, fitei a horrenda bola preta que era a minha cabeça. Como uma grande massa de chicles de bola negro mastigado e cuspido, o piche escorria-me até mesmo pelo rosto, pintando-me as bochechas com lágrimas pretas!

Ao ver aquilo, compreendi que jamais conseguiria livrar-me do piche. Nunca!

Cory acordou primeiro, pronto para correr à janela e afastar as cortinas a fim de espiar o sol que se escondia dele. Pulou da cama e ia começar a correr quando me avistou.

Seus olhos se abriram desmesuradamente. Seus lábios tremeram. Suas pequenas mãos se cerraram em punhos para esfregar os olhos. Depois, tornou a olhar para mim com a mesma expressão de incredulidade.

- Cathy? - conseguiu dizer. - É você?

- Acho que sim.

- Por que seu cabelo está preto?

Antes que eu pudesse responder, Carrie acordou.

- Ooooooh! - berrou ela. - Cathy... sua cabeça parece engraçada!

Grandes lágrimas lhe brilharam nos olhos e escorreram pelo rosto.

Não gosto de sua cabeça assim! - gritou, soluçando como se o piche estivesse no seu cabelo.

- Acalme-se, Carrie - disse Chris no mais natural e corriqueiro tom de voz. - É apenas piche no cabelo de Cathy, e quando ela tomar um banho e lavar a cabeça, ele voltará a ser como ontem. Enquanto ela faz isso, quero que vocês dois comam laranjas como refeição da manhã e assistam à televisão. Mais tarde, faremos todos uma boa refeição, depois que Cathy lavar a cabeça.

Não mencionou a avó, temendo incutir neles um terror ainda maior que a nossa situação. Assim, os gêmeos sentaram-se no chão como dois aparadores de livros que se escorassem mutuamente, descansando e comendo laranjas, distraindo-se com os desenhos animados, violências e outras tolices da programação matinal de sábado.

Chris mandou-me entrar na banheira cheia de água quente. Mergulhei repetidamente a cabeça na água quase escaldante, enquanto Chris procurava amolecer o piche com xampu. O piche amoleceu, mas não se soltou para deixar-me os cabelos limpos. Os dedos de Chris se afundavam numa massa úmida de gosma. Ouvi-me choramingar. Chris tentou - oh, pomo tentou! retirar o piche sem me arrancar o cabelo todo. E eu só conseguia pensar na tesoura - a brilhante tesoura que a avó deixara em cima da cômoda.

Ajoelhado junto à banheira, Chris finalmente conseguiu atravessar com os dedos a maçaroca em minha cabeça, mas quando retirou as mãos, os dedos vieram cheios de cabelos negros e pegajosos teimosamente grudados.

- Terá que usar a tesoura! - gritei, cansada de tudo aquilo depois de duas horas.

Não, a tesoura era o último recurso. Chris argumentou que devia existir alguma solução química capaz de dissolver o piche sem me estragar o cabelo. Ele possuía um mini-laboratório de química bastante completo, que mamãe lhe dera de presente. Na caixa havia uma severa advertência: "Isto não é um brinquedo. Esta caixa contém substâncias químicas perigosas e só deve ser utilizada por profissionais".

- Cathy - disse ele, sentando-se nos calcanhares descalços. - Vou à sala de aulas do sótão, a fim de preparar uma mistura capaz de retirar o piche. Sorriu timidamente para mim. A luz do teto incidia sobre o buço que lhe cobria o lábio superior e eu sabia que, mais abaixo no corpo, ele tinha cabelos mais escuros, como eu também.

- Preciso usar a privada, Cathy. Nunca fiz isso diante de você e estou meio encabulado. Você pode virar as costas e tapar os ouvidos com os dedos. E se você urinar na água, talvez a amônia ajude a dissolver o piche.

Encarei-o, espantada. O dia assumia proporções de pesadelo. Sentar-me em água quente e usá-la como vaso sanitário para depois lavar o cabelo com aquilo? Seria verdade que eu procederia dessa forma enquanto Chris aliviava a bexiga no vaso às minhas costas? Disse comigo mesma que não, era um sonho e não a realidade. Carrie e Cory também não usariam o banheiro enquanto eu ali estivesse mergulhando a cabeça em água suja.

Mas era bastante real. De mãos dadas, Carrie e Cory vieram até a banheira e olharam espantados para mim, desejando saber por que motivo eu me demorava tanto.

- Cathy, o que é isso na sua cabeça?

- Piche.


- Por que passou piche na cabeça?

- Acho que fiz isso dormindo.

- Onde encontrou piche?

- No sótão.

- Por que quis passar piche no cabelo?

Eu detestava mentir! Queria dizer a Carrie quem me colocara piche na cabeça, mas não devia revelar às crianças. Ela e Cory já tinham medo suficiente da velha.

- Volte ao quarto para assistir à televisão, Carrie - repliquei, irritada com tantas perguntas e detestando ver-lhe o rosto magro e encovado e os olhos fundos.

- Cathy, você não gosta mais de mim?

- Bem...

- Gosta?


- Claro que gosto de você, Cory. Gosto de vocês dois, mas derramei piche no cabelo por engano e agora estou com raiva de mim mesma.

Carrie afastou-se para ficar sentada perto de Cory. Sussurravam entre si naquela estranha linguagem que só os dois conseguiam entender. Às vezes, penso que eram muito mais sabidos do que eu e Chris suspeitávamos.

Passei horas na banheira, enquanto Chris preparava uma dúzia de diferentes misturas, experimentando um pouco de cada em meu cabelo. Tentou tudo, fazendo-me trocar a água várias vezes, tornando-a sempre mais quente. Murchei como uma ameixa seca à medida que ele removia, pouco a pouco, a massa gosmenta de minha cabeça.

Eventualmente, o piche saiu junto com uma enorme porção do cabelo. Todavia, eu tinha muito cabelo e podia perder boa parte dele sem que a diferença fosse notável. Quando terminamos, o dia se acabara e nem Chris nem eu tínhamos ingerido uma migalha de comida. Chris dera aos gêmeos queijo e bolachas, mas não tivera tempo para comer.

Embrulhada numa toalha, sentei-me na cama e sequei os cabelos ralos. O que restava deles era frágil e quebradiço, desbotado até ficar quase cor de platina.

- Você bem poderia ter economizado tanto esforço - disse eu a Chris, que devorava avidamente duas bolachas com queijo. - Ela não trouxe comida, e não trará até que corte o cabelo todo.

Ele me trouxe um prato com queijo e bolachas, segurando também um copo de água.

- Coma e beba. Seremos mais espertos que ela. Se ela não trouxer comida amanhã, ou se mamãe não vier, cortarei apenas seu cabelo da frente, logo acima da testa. Então, você poderá envolver a cabeça numa toalha, ou lenço, como se tivesse vergonha de aparecer careca diante dos outros. O cabelo logo voltará a crescer.

Comi um pouco de queijo com bolachas, sem responder. Tomei um copo de água da torneira do banheiro para completar minha única refeição do dia. Então, Chris escovou os cabelos fracos e descorados que tanto haviam suportado. É engraçado como o destino ajeita as coisas: meu cabelo nunca brilhara tanto, nem fora tão sedoso - e senti-me grata por ainda me restar um pouco dele. Deitei-me de costas na cama, exausta, enervada pelas emoções dilacerantes, e observei Chris que, sentado na cama, olhava para mim. Quando adormeci, ele ainda estava ali, fitando-me, segurando uma mecha de meus cabelos sedosos e finos como teia de aranha.

Naquela noite, acordei e tornei a dormir repetidas vezes, inquieta, atormentada. Sentia-me impotente, furiosa, frustrada.

Então, avistei Chris.

Continuava com as roupas que usara durante o dia inteiro. Puxara a poltrona mais pesada do quarto, colocando-a de encontro à porta, e cochilava sentado nela, segurando a tesoura comprida e afiada. Barrava o caminho, de modo que a avó não poderia esgueirar-se para dentro do quarto e fazer uso da tesoura. Mesmo dormindo, protegia-me contra ela.

Enquanto eu o observava, abriu os olhos, sobressaltado, como se não pretendesse dormir e deixar-me desprotegida. Na obscuridade daquele quarto trancado nossos olhos se encontrara e fixaram. Chris sorriu muito vagarosamente.

- Olá.


- Volte para a cama, Chris - solucei. - Não pode ficar vigiando para sempre.

- Posso vigiar enquanto você dorme.

- Então, deixe-me ficar de sentinela. Faremos um revezamento.

- Quem é o homem aqui, eu ou você? Além disso, eu como mais que você.

- Que tem isso a ver com o caso?

- Você está muito magra atualmente, e passar a noite inteira em claro a emagrecerá ainda mais, enquanto eu posso perder alguns quilos sem que faça diferença.

Ele também estava muito magro e seu peso diminuto não impediria que a avó forçasse a porta se quisesse realmente entrar no quarto. Levantei-me e fui acomodar-me ao lado dele, embora ele protestasse de forma galante.

- Shhhh! - sussurrei. - Nós dois poderemos afastá-la melhor e, também, dormir.

Abraçados, mergulhamos no sono.

E o dia raiou... sem a presença da avó... sem comida.

Os dias de fome se arrastaram, intermináveis, cheios de sofrimento e desolação.

O queijo e as bolachas logo acabaram, embora comêssemos com a maior parcimônia possível. Foi então que começamos realmente a sofrer. Chris e eu tomávamos apenas água, guardando o pouco de leite que restava para os gêmeos.

Chris se aproximou de mim com a tesoura e, relutante, com lágrimas: nos olhos, cortou-me os cabelos da testa rente ao couro cabeludo. Recusei-me a olhar um espelho depois disso. A parte que continuou comprida eu enrolei na cabeça e, por cima de tudo, coloquei um lenço formando um turbante.

Então, ocorreu a ironia - a amarga ironia - de constatarmos que a avó não vinha verificar!

Não nos trouxe comida, nem leite, nem roupas de cama limpas, nem toalhas, nem mesmo sabonetes e pasta de dentes, que acabaram. Até o papel higiênico também terminou. Agora, eu me arrependia e ter jogado fora todos os papéis finos em que nossas roupas novas e caras vinham embrulhadas. Nada nos restava fazer senão arrancar páginas dos livros mais velhos existentes no sótão e utilizá-las no banheiro.

Então, o vaso sanitário entupiu, transbordou e Cory começou a gritar quando a sujeira extravasou e se espalhou pelo banheiro. Não tínhamos desentupidor. Frenéticos, Chris e eu tentamos imaginar uma solução. Enquanto ele corria para apanhar um cabide de arame e esticá-lo, a fim de empurrar pelo cano o que entupira o vaso, subi depressa ao sótão para pegar roupas velhas e limpar a inundação de sujeira.

Não sei como Chris conseguiu utilizar o arame, mas o vaso voltou a funcionar normalmente. Então, sem dizer uma palavra, Chris se ajoelhou a meu lado e, juntos, passamos a limpar e enxugar o chão com roupas velhas que eu pegara nos baús do sótão.

Agora, tínhamos uma porção de trapos sujos e fedorentos para encher um baú e acrescentar mais um segredo aos já existentes no sótão.

Fugimos ao horror de nossa situação evitando mencioná-la. Limitávamo-nos a sair da cama de manhã, lavar o rosto, escovar os dentes com água, beber um pouco de água, andar um pouco pelo quarto e depois deitar para assistir à televisão ou ler - e enfrentar uma encrenca dos diabos se a velha nos pegasse amarrotando as camas durante o dia. Que nos importava, agora?

Ouvir os gêmeos chorando de fome deixou-me no coração cicatrizes que trago até hoje e carregarei pelo resto da vida. E eu odiava - oh, como eu odiava! - aquela velha, e mamãe também, por submeter-nos àquilo!

Enquanto as horas das refeições se passavam sem termos comida, nós dormíamos. Dormíamos horas a fio. Adormecidos, não sentíamos dor ou fome, solidão ou amargura. Dormindo, podíamos mergulhar em falsa euforia e, ao acordarmos, não ligávamos para coisa alguma.

Houve um dia nebuloso e irreal em que estávamos deitados, os quatro, indiferentes a tudo; a única vida que persistia estava confinada no pequeno aparelho de televisão colocado num canto do quarto. Aturdida e fatigada, virei a cabeça sem motivo algum, apenas para fitar Chris e Cory. Continuei deitada e indiferente ao observar Chris pegar seu canivete e cortar o próprio pulso; em seguida, levou o pulso à boca de Cory, obrigando-o a beber o sangue, embora o menino protestasse. Depois, foi a vez de Carrie. Os dois gêmeos, que se recusavam terminantemente a comer qualquer coisa encaroçada, granulosa, muito dura ou muito mole, ou simplesmente "esquisita", beberam o sangue do irmão mais velho e o olharam sem compreender, mas aceitando suas instruções com olhos muito arregalados.

Virei a cabeça para o outro lado, enjoada ante o que ele tinha de fazer e cheia de admiração por ele ser capaz de fazê-lo. Chris sempre era capaz de solucionar um problema.

Chris veio até perto de mim, sentou-se na beira da cama e me encarou prolongadamente; então, baixou os olhos para o corte no pulso, que já não sangrava com tanta abundância. Pegou o canivete e preparou-se para fazer outro corte a fim de que eu também pudesse nutrir-me com seu sangue. Detive-o, pegando o canivete e jogando-o para longe. Chris correu para apanhá-lo e desinfetá-lo com álcool, a despeito de meu juramento de que jamais provaria seu sangue e o privaria de forças tão necessárias a nos todos.

- O que faremos se ela nunca mais voltar, Chris? - indaguei, aturdida. – Ela nos deixará morrer de fome.

Referia-me à avó, é claro. Havia duas semanas que não a víamos. E Chris exagerara ao dizer que tínhamos meio quilo de queijo escondido. Usávamos o queijo como isca para nossas ratoeiras e fôramos obrigados a pegar as iscas de volta quando tudo o mais acabou. Agora, fazia três dias que não tínhamos no estômago uma migalha de comida e passáramos quatro dias, antes disso, alimentando-nos apenas com um pouco de queijo e bolachas. E o leite que economizáramos para os gêmeos acabara há dez dias.

- Ela não nos deixará morrer de fome - declarou Chris, deitando-se a meu lado e tomando-me em seus braços enfraquecidos. - Seríamos idiotas e covardes se permitíssemos que ela nos fizesse tal coisa. Amanhã, se ela não trouxer comida e nossa mãe não aparecer, usaremos nossa escada de lençóis de chegar ao solo.

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