A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Com a cabeça apoiada em seu peito, eu podia ouvir-lhe as batidas do coração.

- Como pode saber o que ela vai fazer? Ela nos detesta. Quer ver-nos mortos. Não diz sempre que jamais deveríamos ter nascido?

- Cathy, a velha bruxa não é tola. Logo trará comida para nós, antes que mamãe regresse do lugar aonde foi.

Levantei-me para fazer um curativo em seu pulso cortado. Chris e eu devíamos ter tentado a fuga duas semanas antes, quando ambos ainda tínhamos forças suficientes para fazer a arriscada descida. Se tentássemos agora, certamente cairíamos para a morte - ainda mais com os gêmeos amarrados às nossas costas, para aumentar as dificuldades.

Todavia, quando o dia seguinte amanheceu e ninguém trouxe comida para nós, Chris obrigou-nos a subir para o sótão. Ele e eu carregamos os gêmeos, que estavam fracos demais para andarem sozinhos. Lá em cima, o ambiente era tórrido. Sonolentos, os gêmeos se deixaram cair no canto da sala de aulas onde os deixamos. Chris começou a improvisar alças com as quais podíamos amarrá-los seguramente às nossas costas. Não mencionamos a possibilidade de estarmos cometendo suicídio, e homicídio também, se caíssemos.

- Vamos fazer de outra maneira - disse Chris, reconsiderando. - Descerei na frente. Quando eu chegar ao chão, você colocará Cory numa destas armações, amarrando-o bem para que não consiga soltar-se, e o baixará até lá. Em seguida, fará o mesmo com Carrie. E descerá por último. Pelo amor de Deus, faça o maior esforço possível! Peça a Deus que lhe dê forças, não fique apática! Sinta raiva, ira, pense em vingança. Ouvi dizer que uma grande raiva nos dá uma força sobre-humana em caso de emergência!

- Deixe-me descer primeiro - repliquei debilmente. - Você é mais forte.

- Não! Quero estar lá, a fim de aparar caso alguém desça depressa demais. Seus braços não têm a força dos meus. Passarei a corda por uma chaminé, de modo que você não precise agüentar o peso todo. Cathy, isto é realmente uma emergência!

Meu Deus! Eu não podia acreditar no que ele esperava que eu fizesse a seguir! Horrorizada, fitei os quatro camundongos mortos em nossas ratoeiras.

- Precisamos comer esses camundongos para armazenarmos forças - declarou Chris com ar severo. - E se precisamos fazer alguma coisa, podemos fazê-la!

Carne crua? Ratos crus?

- Não - murmurei, repugnada pela visão dos pequenos animais mortos e rígidos.

Chris tornou-se autoritário, raivoso, declarando que eu podia fazer qualquer coisa que fosse necessária à preservação da vida dos gêmeos e da minha também.

- Ouça Cathy: comerei os meus primeiro, depois de ir ao quarto buscar sal e pimenta E também preciso apanhar aquele cabide de arame para apertar bem os nós. Alavanca, como você sabe. Minhas mãos não estão funcionando muito bem no momento.

Claro que não estavam. Achávamo-nos todos em tal estado de fraqueza que mal conseguíamos mover-nos. Chris lançou-me um rápido olhar de avaliação.

- No duro, acho que os camundongos poderiam ficar saborosos com sal e pimenta.

Saborosos...

Ele decapitou os ratos e, depois, retirou-lhes a pele e as entranhas. Observei-o abrir as pequenas barrigas e puxar compridos intestinos pegajosos, minúsculos corações e outras "entranhas" em miniatura. Eu teria vomitado - se tivesse algo no estômago.

E Chris não correu para buscar sal e pimenta, ou o cabide de arame. Limitou-se a andar devagar, enquanto me confessava que não se sentia ansioso por comer os camundongos.

Enquanto ele esteve ausente, meus olhos permaneceram pregados nos camundongos pelados que constituiriam nossa próxima refeição. Fechei os olhos e fiz um esforço de vontade para tirar a primeira dentada. Estava faminta, mas não o suficiente para gostar da perspectiva.

Então, pensei nos gêmeos que jaziam no canto com os olhos fechados, abraçados, as testas unidas; refleti que assim deveriam ter ficado no útero da mãe enquanto esperavam a hora de nascer para serem trancafiados num quarto e abandonados para morrerem de fome. Nossos pobres e doces irmãos gêmeos, que outrora tinham pais que os amavam tanto.

Ainda assim, restava a esperança de que os camundongos dessem a Chris e a mim forças suficientes para levar os gêmeos em segurança até o solo. E de que algum vizinho caridoso que estivesse em casa lhes desse comida – comida para todos nós, se conseguíssemos sobreviver à próxima hora.

Escutei os passos lentos de Chris, que retornava. Hesitou junto à porta, com um meio sorriso, os olhos azuis encontrando os meus... e brilhando. Com ambas as mãos, carregava a grande cesta de piquenique que tão bem conhecíamos. Estava tão abarrotada de comida que as tampas de madeira nem se fechavam.

Chris retirou da cesta nossas duas garrafas térmicas: uma com sopa de legumes e outra com leite frio. Senti-me tão aturdida, confusa, esperançosa. Será que mamãe chegara e nos mandara aquilo tudo? Então, por que não nos chamara ao quarto? Ou por que não viera procurar-nos?

Tive ímpetos de forçar a comida pela garganta de Cory abaixo, a fim de poder logo encher meu estômago faminto. Ele comia tão devagar! Mil e uma indagações me atravessavam o cérebro: Por que hoje? Por que trazer a comida hoje e não ontem, ou anteontem? Como raciocinava a velha?

Quando, finalmente, consegui comer, estava por demais apática para regozijar-me e desconfiada para sentir-me aliviada.

Após comer meio sanduíche e tomar um pouco de sopa, Chris abriu um embrulho de papel laminado, deixando à mostra quatro roscas cobertas com açúcar. Nós, que jamais ganhávamos doces, recebíamos - pela primeira vez - uma sobremesa da avó. Seria o modo de pedir-nos desculpas? Qualquer que fosse sua intenção encaramos o fato sob esse aspecto.

Durante nossa semana de quase inanição, algo peculiar ocorrera entre Chris e eu. Talvez tenha sido naquele dia que passei sentada na banheira de água quente enquanto ele batalhava tão arduamente para remover o piche dos meus cabelos. Antes daquele dia horrível, éramos apenas irmão e irmã, representando o papel de pais para os gêmeos. Agora, nosso relacionamento mudara. Já não representávamos um papel; éramos os verdadeiros pais de Carrie e Cory. Os gêmeos eram nossa obrigação, nossa responsabilidade, e nos dedicamos a eles de corpo e alma. E um ao outro, também.

Tudo se delineara nitidamente: nossa mãe já não se importava com o que nos acontecesse.

Chris não precisou dizer como se sentia ao reconhecer tal indiferença por parte dela. Seu olhar desolado revelava o suficiente. Seus movimentos desanimados, ainda mais. Antes, conservava a fotografia de mamãe perto da cama; agora, guardara-a em algum lugar. Sempre acreditara nela mais que eu; portanto, era natural que sofresse mais. E se sofria mais que eu, devia estar passando por uma terrível agonia.

Pegou-me a mão com ternura, indicando que já podíamos voltar ao quarto. Descemos a escada como fantasmas pálidos e sonolentos, em estado de choque, todos nos sentindo mal, debilitados - especialmente os gêmeos. Eu duvidava que cada um deles pesasse mais que quinze quilos. Podia ver a aparência deles e de Chris, mas não a minha. Olhei para o espelho alto e largo acima da cômoda, esperando ver a imagem de algum fenômeno de circo, com cabelos aparados na testa e compridos nas costas - longos cabelos escorridos e desbotados. Oh... quando olhei para o espelho, ele não estava no lugar!

Corri ao banheiro e encontrei o espelho do armário quebrado! Voltei correndo ao quarto para erguer o tampo da penteadeira que Chris usava como escrivaninha... e o espelho que havia ali também fora estilhaçado!

Podíamos olhar para os cacos de espelho e ver nossas imagens distorcidas. Sim, podíamos ver nossos rostos em facetas separadas, como uma mosca os veria, com um lado do nariz mais alto que o outro. Não era uma visão agradável. Dando as costas à cômoda, coloquei a cesta de piquenique no chão, onde estava mais fresco, e fui deitar-me. Não tinha dúvidas quanto ao motivo dos espelhos quebrados e do que fora removido; eu sabia por que ela fizera aquilo. Vaidade era pecado. E, aos olhos dela, Chris e eu éramos pecadores da pior espécie. A fim de castigar-nos, os gêmeos também sofreriam. Contudo, eu não atinava com a razão pela qual ela tornara a nos trazer comida.

As manhãs se sucederam, sempre com cestas de comida trazidas a nosso quarto. A avó se recusava a olhar para nós. Mantinha os olhos desviados de nós; entrava e saía depressa. Eu usava na cabeça um turbante improvisado com uma toalha cor-de-rosa, que revelava o cabelo cortado acima da testa. Se ela notou, não fez comentários. Observávamos seus movimentos, sem indagarmos onde estava mamãe ou quando voltaria. Os que são castigados com facilidade logo aprendem a lição e não falam sem que alguém lhes dirija antes a palavra. Tanto Chris como eu a fitávamos abertamente, com os olhos cheios de raiva e ódio, esperando que ela se voltasse para perceber o que sentíamos. Contudo, os olhos dela não encontravam os nossos. Então, eu chorava para fazê-la ver, para chamar-lhe a atenção sobre os gêmeos, a fim de que visse como estavam magros e as profundas olheiras que traziam em torno dos olhos. Mas ela recusava-se a ver.

Deitada na cama ao lado de Carrie, examinei-me interiormente e constatei que tornava as coisas piores do que deviam ser. Chris, antes o eterno otimista, agora se transformava aos poucos numa sombria imitação de mim. Eu o desejava de volta ao que fora antes - sorridente e animado, fazendo o pior parecer melhor.

Estava sentado à penteadeira, com o tampo baixado para formar uma mesa, tendo à sua frente livros de medicina. Mantinha os ombros caídos. Não lia ou fazia anotações; estava apenas sentado ali.

- Chris - chamei, sentando-me na cama para escovar os cabelos. - Na sua opinião, qual o percentual de adolescentes femininas no mundo inteiro que foram deitar-se com os cabelos limpos e brilhantes, e acordaram transformadas em bonecas de piche?

Girando no banquinho, ele me olhou, muito surpreso por eu ter mencionado aquele dia terrível.

- Bem - replicou devagar -, na minha opinião, desconfio de que você bem poderia ser a única... um caso ímpar.

- Ora, não tenho certeza. Lembra-se de quando asfaltaram a nossa rua? Mary Lou Baker e eu entornamos um balde daquele material e fizemos pequenas bonecas de piche, assim como caminhas e casas pretas. Então, o encarregado das obras nos expulsou de lá aos gritos.

- Sim - disse ele. - Lembro-me de você chegar em casa imunda, mastigando um bocado de piche para tornar os dentes mais brancos. Tudo o que conseguiu foi arrancar uma obturação, Cathy.

- Uma boa coisa a respeito deste quarto é não sermos obrigados a ir ao dentista duas vezes por ano.

Chris me lançou um olhar esquisito, mas prossegui:

- E outra coisa boa é dispormos de tanto tempo livre! Completaremos nosso campeonato de Monopólio. O perdedor será obrigado a lavar na banheira todas as nossas roupas de baixo.

Ele topou de imediato. Detestava debruçar-se sobre a banheira, ajoelhado nos ladrilhos do chão, para lavar as suas roupas e as de Cory também.

Armamos o jogo, contamos o dinheiro e procuramos pelos gêmeos. Tinham sumido! Aonde poderiam ter ido, senão ao sótão? Jamais iriam lá sem nós e o banheiro estava vazio. Então, ouvimos leves ruídos atrás do aparelho de TV.

Lá estavam eles, agachados no canto atrás do aparelho, aguardando que as minúsculas pessoas que apareciam na pequena tela saíssem pelos fundos.

- Pensamos que mamãe estava lá dentro - explicou Carrie.

- Acho que vou dançar no sótão - declarei, dirigindo-me ao armário embutido.

- Cathy! E o nosso jogo do campeonato de Monopólio?

Parei, olhando para ele.

- Ora, você ganharia. Esqueça o campeonato.

- Covarde! - provocou ele, como antigamente. - Venha. Vamos jogar.

Olhou prolongada e severamente para os gêmeos, que sempre eram os nossos banqueiros no jogo.

- E nada de roubos, desta vez - advertiu, muito sério. - Se eu pegar um de vocês passando dinheiro para Cathy quando pensarem que não estou vendo... comerei sozinho aquelas quatro rosquinhas!

Só passando por cima do meu cadáver! As rosquinhas eram a melhor parte de nossas refeições e ficavam reservadas para a sobremesa do jantar. Joguei-me no chão, cruzei as pernas e ocupei-me em imaginar meios de poder comprar primeiro os melhores imóveis, ferrovias e serviços públicos; compraria primeiro as casas vermelhas e, depois, os hotéis. Mostraria a Chris quem era capaz de fazer alguma coisa melhor que ele.

Jogamos durante horas seguidas, parando apenas para comer ou ir ao banheiro. Quando os gêmeos se cansaram de atuar como banqueiros, nós mesmos contávamos e distribuíamos o dinheiro, observando-nos mutuamente com grande atenção, a fim de verificar se havia alguma trapaça. E Chris ia sempre parar na cadeia, sendo obrigado a perder a vez e pagar multa, tinha que recolher doações à Caixa Comunitária e pagar imposto sobre heranças... mas ainda ganhou!

No final de agosto, Chris aproximou-se de mim certa noite e segredou-me ao ouvido:

- Os gêmeos estão dormindo e está muito quente aqui dentro. Não seria formidável se pudéssemos nadar um pouco?

- Vá embora... deixe-me em paz... Sabe que não podemos ir nadar.

Naturalmente, eu ainda estava emburrada por perder sempre no jogo de Monopólio.

Nadar - que idéia idiota! Mesmo se pudéssemos, eu não queria fazer coisa alguma em que ele fosse perito, como natação.

- Além disso, onde vamos nadar? Na banheira?

- No lago de que mamãe nos falou. Não fica longe daqui - sussurrou ele. - De todo modo, devíamos treinar a descida pela corda que improvisamos, para a eventualidade de um incêndio. Agora, estamos mais fortes. Podemos chegar ao solo com facilidade e não nos demoraremos muito fora daqui.

- Os gêmeos podem acordar e não nos encontrarão.

- Deixaremos um bilhete no banheiro, avisando que estamos no sótão. Além disso, eles nunca acordam antes do amanhecer, nem mesmo para irem ao banheiro.

Argumentou e suplicou até que me deixei convencer. Subimos ao sótão, saímos para o telhado e Chris amarrou seguramente a corda de lençóis em torno de uma chaminé - a que ficava mais próxima aos fundos da casa. Havia oito chaminés no telhado.

Enquanto experimentava cada um dos nós, Chris deu-me instruções:

- Utilize os nós como degraus de uma escada. Mantenha as mãos logo acima do nó superior. Desça devagar, sentindo com os pés o nó seguinte. E lembre-se de manter a corda torcida entre as pernas, a fim de não escorregar e cair.

Sorrindo confiantemente, Chris segurou a corda e avançou cautelosamente até a beira do telhado. Pela primeira vez em mais de dois anos, íamos descer ao solo.
O Sabor do Paraíso
Lenta, cautelosamente, mão a mão, pé a pé, Chris desceu para o solo enquanto eu, deitada de bruços, espiava pela beirada do telhado. A lua nascera e brilhava quando ele ergueu a mão e acenou: era o sinal para que eu iniciasse minha descida. Eu o observara com atenção, a fim de poder imitá-lo. Tentei convencer-me de que não era diferente de andar pendurada nas cordas que havíamos estendido nas vigas do sótão. Os nós eram grandes e fortes; judiciosamente, tínhamos procurado espaçá-los regularmente, a cerca de um metro e vinte de distância um do outro. Chris me recomendara não olhar para baixo após deixar o telhado e concentrar-me apenas em prender o pé no nó inferior antes de procurar o nó seguinte com o outro pé. Em menos de dez minutos eu estava no solo, de pé ao lado de Chris.

- Puxa! - exclamou ele, abraçando-me. - Você desceu melhor que eu!

Estávamos nos jardins situados nos fundos de Foxworth Hall, onde não havia luzes nos quartos, embora nos alojamentos dos criados, em cima da enorme garagem, todas as janelas estivessem brilhantemente iluminadas.

- Vai na frente, McDuff, até o lago. Se conheces o caminho - disse-lhe em voz baixa.

Claro que ele conhecia o caminho. Mamãe nos contara como ela e os irmãos fugiam sorrateiramente de casa para irem nadar no lago com os amigos.

Chris pegou-me a mão e, nas pontas dos pés, afastamo-nos da imensa mansão. Era uma sensação muito estranha estarmos fora de casa, no solo, numa cálida noite de verão. Deixando nossos irmãozinhos a sós num quarto trancado. Depois de atravessarmos uma pinguela, soubemos que agora estávamos fora da propriedade dos Foxworth e nos sentimos alegres, quase livres. Não obstante, devíamos proceder com cautela e não permitir que alguém nos visse. Corremos para os bosques, na direção do lago de que mamãe nos falara.

Eram dez horas quando saímos para o telhado; às dez e meia, encontramos o pequeno lago cercado de árvores. Temíamos que houvesse lá outras pessoas para estragar tudo e obrigar-nos a voltar frustrados, mas a superfície da água estava lisa, sem ser perturbada por vento, banhistas ou barcos.

Ao luar, sob um céu claro e estrelado, olhei para o lago e refleti que nunca vira uma cena tão linda ou sentira no corpo uma noite ao ar livre que me causasse tanto encantamento.

- Vamos nadar despidos? - perguntou Chris, olhando-me de modo estranho.

- Não. Vamos nadar com as roupas de baixo.

O problema era que eu não possuía um sutiã. Agora, porém, que já estávamos ali, nenhum pudor tolo me impediria de aproveitar aquela água iluminada pelo luar.

- Último lá é mulher do padre! - gritei.

E parti, correndo, em direção a um pequeno cais. Chegando à extremidade, porém, pressenti que a água poderia estar gelada e parei. Cautelosa, quase como se tivesse medo, toquei a superfície do lago com a ponta do dedão do pé - a água estava fria como gelo! Olhei para trás e avistei Chris, que tirava o relógio do pulso e agora avançava velozmente para mim. Tão depressa que, antes mesmo que eu pudesse tomar coragem para mergulhar na água fria, ele me empurrou! Caí de uma só vez, não centímetro a centímetro, como desejava!

Estremeci ao voltar à superfície e procurei por Chris. Avistei-o subindo numa pedra; por um instante, sua silhueta se projetou contra o fundo mais claro do céu. Ele abriu os braços e, graciosamente, deu um lindo mergulho, com os braços abertos no ar. Prendi a respiração! E se a água não tivesse profundidade suficiente? Se ele batesse no fundo, quebrando o pescoço ou a espinha?

E então... e então... ele não emergiu! Oh, Deus... estava morto... afogado!

- Chris! - gritei, soluçando.

Comecei a nadar na direção do local onde ele desaparecera na água fria.

De repente, fui segura pelas pernas! Gritei e afundei, puxada por Chris, que deu um forte impulso com as pernas e nos trouxe de volta à superfície, onde rimos e eu lhe joguei água no rosto para me vingar do truque sujo que ele me aplicara.

- Isso não é melhor que ficarmos trancados naquele maldito quarto quente? - perguntou, pulando na água como se estivesse demente, delirante, desvairado e louco!

Era como se aqueles poucos momentos de liberdade lhe tivessem subido à cabeça como uma bebida forte, embriagando-o! Começou a nadar em círculos ao redor de mim e tentou pegar-me novamente as pernas a fim de me puxar para baixo. Agora, porém, eu já estava prevenida contra ele. Voltou à superfície e nadou de costas. Depois, de peito, de crawl e de lado, ao estilo indiano. Experimentou todos os tipos de nado.

- Este é o crawl de costas - anunciou, fazendo uma demonstração.

Exibiu técnicas que eu jamais vira antes.

Emergiu após um mergulho e ficou boiando perto de mim.

- Dança, bailarina, dança... - cantou, jogando-me água no rosto.

Devolvi-lhe a agressão e ele continuou a cantar:

- E faz tuas piruetas...

Então, abraçou-me repentinamente. Rindo e gritando, lutamos como se tivéssemos enlouquecido por podermos voltar a ser crianças. Oh, Chris era maravilhoso na água, como um bailarino. De repente, fiquei cansada - extremamente cansada; tão cansada que me sentia como um pano de chão encharcado. Chris passou o braço em torno de mim, ajudando-me a subir na margem.

Deixamo-nos cair no capim e ficamos deitados de costas para conversarmos.

- Mais uma nadada e depois voltamos aos gêmeos - disse ele, estendido de costas a meu lado no suave declive.

Fitamos ambos o céu cheio de estrelas cintilantes. A lua crescente, com uma tonalidade prata e ouro, parecia esquivar-se e brincar de esconder com as nuvens compridas e escuras.

- Supondo que não consigamos voltar ao telhado?

- Chegaremos porque temos que chegar.

Aquele era o meu velho e querido Chris, o eterno otimista, estendido a meu lado com o corpo molhado e brilhante, os cabelos dourados colados à testa. Seu nariz igual ao de papai apontado para o céu, os lábios cheios e de formato tão belo que mesmo em repouso pareciam sensuais, o queixo forte e quadrado, com uma covinha no centro, o peito que começava a alargar-se... e aquela colina de masculinidade em desenvolvimento entre suas coxas fortes, que começavam a ficar musculosas. Havia algo que me excitava nas coxas fortes e bem formadas de um homem. Virei a cabeça para o outro lado, incapaz de regalar meus olhos na beleza de Chris sem me sentir culpada e envergonhada.

Os pássaros tinham ninho nos galhos das árvores acima de nós e emitiam leves pios sonolentos que me faziam lembrar os gêmeos, tornando-me triste e trazendo-me lágrimas aos olhos.

Os vaga-lumes surgiam com freqüência, piscando, fazendo sinais de macho para fêmea, ou vice-versa.

- Chris, o vaga-lume que pisca é o macho ou a fêmea?

- Não tenho certeza - replicou ele, como se não estivesse muito interessado. - Acho que ambos piscam, mas ela fica no chão fazendo sinais, enquanto o macho voa à sua procura.

- Quer dizer, então, que existem coisas sobre as quais você não tem certeza, Dr. Sabe-tudo?

- Não vamos discutir, Cathy. Eu não sei tudo, muito pelo contrário.

Virou a cabeça para mim; nossos olhares se encontraram e nenhum de nós parecia capaz de ver outra coisa.

Sopros suaves da brisa começaram a brincar com meus cabelos, secando os fios grudados em meu rosto. Senti-os roçar-me como leves beijinhos e senti novamente vontade de chorar, sem qualquer motivo além de ser uma noite tão doce, tão bela, e eu estar na idade de ansiar por um romance. E a brisa sussurrava-me palavras de amor ao ouvido... palavras que eu temia que ninguém jamais me dissesse. Ainda assim, a noite era linda sob as árvores à margem da água que faiscava ao luar e eu suspirei. Tinha a impressão de que já estivera ali antes, naquele gramado junto ao lago. Oh, que estranhos pensamentos me passaram pela cabeça enquanto os pássaros noturnos voejavam, os mosquitos zumbiam e uma coruja piava em lugar distante, levando-me de volta à primeira noite em que ali chegáramos, para vivermos como fugitivos, escondidos de um mundo que não nos queria.

- Chris, você tem quase dezessete anos, a mesma idade que papai tinha quando conheceu mamãe.

- E você tem quatorze, a mesma idade que ela - replicou ele com voz rouca.

- Acredita em amor à primeira vista?

Chris hesitou, ruminando a pergunta... a seu modo, não ao meu.

- Não sou autoridade no assunto. Sei que, quando estava na escola, via uma pequena bonita pela primeira vez e me apaixonava imediatamente por ela. Então, conversávamos e eu constatava que ela era burra; então, não sentia mais nada por ela. Todavia, se a beleza fosse acompanhada por outros predicados, creio que eu poderia amar à primeira vista, embora já tenha lido em algum lugar que essa espécie de amor não passa de atração física.

- Acha que sou burra?

Ele sorriu e estendeu a mão para tocar-me o cabelo.

- Claro que não. E espero que você não se ache burra, porque não é. Cathy, o seu problema é ter talentos demais; quer ser tudo e isso é impossível.

- Como soube que eu também gostaria de ser cantora e atriz?

Ele riu suavemente, baixinho.

- Menina tola, você passa noventa por cento do tempo representando e canta sozinha quando está satisfeita. Infelizmente, isso não acontece com freqüência.

- Você fica satisfeito com freqüência?

- Não.

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