A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Ficamos deitados, em silêncio, olhando ocasionalmente para algo que nos chamasse a atenção, como vaga-lumes que se encontravam no capim e se acasalavam, ou nuvens que passavam no céu, ou jogo de luz do luar na água. A noite parecia encantada e fez-me pensar novamente na natureza e seus estranhos desígnios. Embora eu não os compreendesse bem, por que sonhava à noite com as coisas que vinha sonhando atualmente? Por que acordava pulsando, ansiando por uma satisfação que nunca conseguia atingir?

Alegrava-me por ter permitido que Chris me convencesse a vir nadar. Era maravilhoso deitar-me outra vez no capim, sentindo-me fresca e limpa, e, sobretudo, tendo a sensação de estar viva novamente?

- Chris - comecei cautelosamente, temendo estragar a suave beleza daquela estrelada noite de luar. - Onde você acha que mamãe está?

Ele continuou a fitar a Estrela Polar.

- Não faço a menor idéia - respondeu finalmente.

- Nem desconfia?

- Claro que sim.

- Qual é seu palpite?

- Ela pode estar doente.

- Não está; mamãe nunca adoece.

- Pode ter viajado a negócios, para o pai.

- Então, por que não nos avisou que iria viajar e quando voltaria?

- Não sei! - retrucou ele, irritado, como se eu estivesse lhe estragando a noite e, obviamente, ele não podia saber mais que eu sobre o assunto.

- Chris, você ainda a ama e confia nela como antes?

- Não me faça tal pergunta! Ela é mãe. É tudo o que tenho. E se espera que eu fique aqui deitado escutando você falar mal dela, está muito enganada! Onde quer que ela esteja esta noite, pensa em nós e vai voltar. Pode estar segura de que ela deve ter um ótimo motivo para ir embora e demorar-se tanto tempo.

Eu não podia revelar a Chris o que realmente estava pensando - que ela poderia ter arranjado tempo para nos colocar a par de seus planos - pois ele sabia disso tão bem quanto eu.

Sua voz tinha o tom rouco que só ocorria quando ele estava sentindo dor - e não do tipo físico. Desejei corrigir o mal que lhe infligira com minhas perguntas:

- Chris, na televisão, as moças da minha idade e os rapazes da sua... começam a namorar. Você saberia como agir se saísse com uma pequena?

- Claro. Tenho assistido muito à televisão.

- Mas assistir é diferente de fazer.

- Ainda assim, nos dá uma idéia do que fazer e dizer. Além disso, você ainda não tem idade para namorar.

- Agora, Sr. Cérebro, permita que eu lhe diga uma coisa: na verdade, uma garota da minha idade é um ano mais velha que um rapaz da sua.

- Você está louca!

- Louca? Li isso num artigo de revista escrito por uma autoridade no assunto, um doutor em psicologia - declarei, julgando que ele não poderia deixar de ficar impressionado. - Ele afirma que as moças amadurecem emocionalmente muito mais depressa que os rapazes.

- O autor do tal artigo estava julgando toda a humanidade com base em sua própria imaturidade.

- Chris, você acha que sabe tudo, e ninguém pode saber tudo!

Ele virou a cabeça, encarou-me e franziu a testa, como costumava fazer com freqüência.

- Tem razão - concordou amavelmente. - Sei apenas o que leio e fico perplexo como uma criança ante o que se passa em meu íntimo. Estou furioso com mamãe pelo que ela nos fez e sinto tantas coisas diferentes, mas não tenho um homem com quem conversar.

Apoiou-se num cotovelo para olhar-me melhor.

- Gostaria que seu cabelo não demorasse tanto para tornar a crescer. Agora, estou arrependido de ter usado a tesoura... de todo modo, não adiantou coisa alguma.

Era melhor quando ele não dizia algo que me fazia relembrar Foxworth Hall. Eu desejava apenas olhar para o céu e sentir o ar fresco da noite na pele úmida. Meu pijama era de fina cambraia branca, bordada com botões de rosa e arrematada com rendas. Colava-se ao meu corpo como uma segunda camada de pele, da mesma forma que a sunga de Chris se grudava nele.

- Vamos embora, Chris.

Relutante, ele se ergueu e me estendeu a mão.

- Mais um mergulho?

- Não. Vamos voltar.

Calados, afastamo-nos do lago, caminhando lentamente através do bosque, absorvendo a sensação de estamos ao ar livre, pisando a terra.

Voltamos às nossas responsabilidades. Paramos por longo tempo ao lado da corda que tínhamos fabricado e prendido a uma chaminé lá no alto. Eu não pensava no modo pelo qual subiríamos, mas tentando imaginar o que havíamos ganho com aquela rápida fuga da prisão à qual precisávamos voltar.

- Sente-se diferente, Chris?

- Sim. Não fizemos muito mais que andar e correr na terra, bem como nadar um pouco, mas sinto-me mais vivo e esperançoso.

- Poderíamos fugir, se quiséssemos, esta noite sem esperarmos mamãe voltar. Podemos subir, fazer alças para carregar os gêmeos e trazê-los para baixo enquanto dormem. Podemos fugir! Ficaríamos livres!

Ele não respondeu, mas iniciou a subida para o telhado, uma mão de cada vez, mantendo a corda presa entre as pernas, elevando-se com esforço. Tão logo ele chegou ao telhado, comecei a subir, pois não confiávamos na corda para sustentar o peso de duas pessoas. Era muito mais difícil subir que descer. Minhas pernas pareciam muito mais fortes que os braços. Ergui a mão para alcançar o nó superior e levantei a perna direita. De repente, o pé esquerdo escorregou e fiquei solta no ar - pendurada apenas pelas mãos enfraquecidas!

Um leve grito me escapou dos lábios! Encontrava-me a mais de seis metros do solo!

- Agüente firme! - disse Chris do telhado. - A corda está diretamente entre suas pernas. Tudo o que tem a fazer é fechá-las depressa!

Eu não conseguia ver o que fazia. Fui obrigada a obedecer suas instruções. Segurei a corda entre as coxas, tremendo da cabeça aos pés. O medo me diminuía as forças. Quanto mais ficava no mesmo lugar, mais medo eu sentia. Comecei a ofegar, tremendo. Então, vieram as lágrimas... lágrimas estúpidas de criança pequena!

- Está quase ao alcance de minhas mãos - disse Chris. - Mais alguns palmos e conseguirei segurá-la. Não se afobe, Cathy. Pense no quanto os gêmeos precisam de você! Tente... faça o máximo esforço!

Precisei convencer-me a soltar uma das mãos para alcançar o nó superior. Repeti mil e uma vezes para mim mesma: Você pode subir! Pode!

Meus pés estavam escorregadios de pisar no capim - mas os de Chris também estavam e ele conseguira subir até o telhado. Se ele podia, eu também poderia.

Aterrorizada, galguei aos poucos a corda, até chegar a um ponto em que Chris pôde estender as mãos e agarrar-me pelos pulsos. Uma vez segura por suas mãos fortes, senti uma onda de alívio que me fez o sangue formigar nos pés e nas pontas dos dedos. Em poucos segundos, Chris içou-me para o telhado e me abraçou com força. Rimos juntos e, depois, quase choramos. Então, engatinhamos pelo telhado íngreme, sempre segurando a corda, até chegarmos à chaminé. Deixando-nos cair em nosso abrigo costumeiro, trememos como varas verdes.

Oh, que ironia - contentes por estarmos de volta!

Chris, deitado na cama, olhou para mim.

- Cathy, por alguns momentos, quando estávamos deitados na margem do lago, tive a impressão de me encontrar no paraíso. Depois, quando você escorregou, na corda, julguei que também morreria se você caísse. Não podemos repetir a façanha. Você não tem nos braços a mesma força que eu. Desculpe-me por ter esquecido isso.

A lâmpada fraca do abajur que deixávamos durante a noite lançava uma suave luminosidade rosada no ambiente. Nossos olhares se encontraram.

- Não me arrependo de termos ido. Estou contente. Fazia tanto tempo que eu não me sentia real.

- É assim que se sente? - indagou ele. - Eu também... como se me livrasse de um pesadelo que estava demorando demais.

Tornei a ousar - era preciso.

- Chris, onde você acha que está nossa mãe? Ela vem se afastando gradativamente de nós e nunca olha de verdade para os gêmeos, como se eles lhe causassem medo. Mas nunca demorou tanto anteriormente. Já faz mais de um mês que não aparece.

Escutei seu suspiro profundo, pesado.

- Sinceramente, não sei, Cathy. Simplesmente não sei. Ela não me disse nada que não tenha dito a você, mas pode apostar que existe um bom motivo.

- Mas que motivo poderia ter ela para ir embora sem uma explicação? Não é o mínimo que poderia ter feito, dar-nos uma explicação?

- Não sei o que dizer.

- Se eu tivesse filhos, nunca os abandonaria como ela nos abandona. Nunca trancaria meus filhos num quarto e os abandonaria lá dentro.

- Você não vai ter filhos, lembra-se?

- Chris, algum dia vou dançar nos braços de um marido que me ama e, se ele realmente quiser um filho, eu talvez concorde em tê-lo.

- Claro. Eu sempre soube que você mudaria de idéia quando crescesse mais um pouco.

- Você acha mesmo que sou bastante bonita para que alguém me ame?

- Mais que o bastante bonita - replicou ele, parecendo embaraçado.

- Chris, lembra-se de quando mamãe disse que é o dinheiro que faz o mundo funcionar, não o amor? Ora, acho que ela está enganada.

- É mesmo? Pois pense melhor no assunto. Por que não podemos ter ambas as coisas ao mesmo tempo?

Pensei no assunto. Pensei muito. Deitada, fitando o teto que era a minha pista de dança, ruminei idéias a respeito da vida e do amor, digerindo-as bem. E tirei de cada livro que li uma pérola de filosofia, formando com elas um rosário de sabedoria no qual passei a acreditar pelo resto da vida.

O amor, quando resolvesse bater à minha porta, seria o bastante. E quanto ao escritor que afirmava que a fama não era suficiente, que a fama e a riqueza não eram suficientes, que a fama, a riqueza e também o amor... ainda não eram suficientes - puxa, como eu sentia pena dele!


Uma Tarde Chuvosa
Chris estava à janela, ambas as mãos afastando as pesadas cortinas tipo tapeçaria. O céu cor-de-chumbo despejava chuva como uma lâmina sólida de água. Todas as lâmpadas de nosso quarto estavam acesas e o aparelho de televisão ligado, como de costume. Chris esperava para ver o trem que passaria por volta das quatro horas. Ouvíamos o apito lamentoso do trem antes do amanhecer, por volta das quatro da tarde e à noite, se estivéssemos acordados. Era possível ver, de relance, o trem que parecia de brinquedo, tão distante ficava a linha férrea.

Chris estava em seu mundo, e eu no meu. Sentada de pernas cruzadas na cama que Carrie compartilhava comigo, eu recortava ilustrações das revistas de decoração que mamãe trouxera para meu entretenimento antes de partir e demorar tanto a regressar. Cortava cuidadosamente cada fotografia e a colava num grande álbum. Planejava minha casa de sonho, onde eu viveria feliz para sempre com um marido alto, forte e moreno que me amava com exclusividade e não tinha mil e uma namoradas por fora.

Eu já estabelecera o roteiro de minha vida: primeiro a minha carreira, depois um marido e filhos, quando estivesse disposta a abandonar o palco e dar oportunidade às outras. E quando tivesse a casa dos meus sonhos, instalaria uma enorme banheira de vidro verde-esmeralda sobre uma parte elevada do piso, na qual eu poderia ficar imersa na água perfumada com óleos de beleza durante o dia inteiro, se tivesse vontade - e ninguém bateria à porta gritando-me para ter pressa! (Eu nunca tinha oportunidade de me demorar na banheira.) Sairia da banheira cor-de-esmeralda cheirando a perfumes florais, com a pele lisa como cetim e os poros livres para sempre do cheiro podre de madeira seca e velha, misturados com poeira de sótão e todas as misérias de coisas velhas... a tal ponto que nós, jovens, adquiríamos um cheiro de antigüidade igual ao da velha casa.

- Chris - disse eu, virando-me para fitar as costas de meu irmão. - Por que devemos ficar aqui indefinidamente, esperando o regresso de mamãe e, sobretudo, a morte daquele velho? Agora, que estamos fortes, por que não procuramos um meio de fugir daqui?

Ele não respondeu, mas percebi que suas mãos agarravam as cortinas com mais força.

- Chris...

- Não quero falar nisso! - explodiu ele.

- Por que está esperando o trem passar, se não pensa em fugir?

- Não estou esperando pelo trem! Estou apenas olhando para fora, nada mais!

Chris mantinha a testa encostada na vidraça, como se desafiasse qualquer vizinho mais próximo a olhar para a janela e vê-lo ali.

- Chris, afaste-se da janela. Alguém pode ver você.

- Pouco me importa quem me veja!

Meu primeiro impulso foi correr para ele, abraçá-lo, cobri-lo com milhões de beijos no rosto - os beijos que ele desejava de mamãe e não recebia. Eu lhe puxaria a cabeça de encontro ao seio e o acalentaria ali, como ela costumava fazer; então, ele voltaria a ser o alegre e sorridente otimista, que nunca passava um dia casmurro e raivoso como eu. Eu sabia, porém, que mesmo que agisse exatamente como mamãe, não seria a mesma coisa para ele. Era ela que ele queria. Depositara todas as suas esperanças, sonhos e fé numa única mulher: mamãe.

Havia mais de dois meses que ela desaparecera! Não compreendia que, para nós, um dia naquela prisão era equivalente a um mês de vida normal? Não se preocupava conosco, nem se interessava em saber como estávamos passando? Acreditava que Chris sempre a defenderia com denodo, mesmo que ela nos abandonasse sem dar uma explicação, um motivo, uma desculpa? Julgava realmente que o amor, uma vez adquirido, não podia ser dilacerado por dúvidas e temores, a ponto de nunca, nunca mais, se refazer?

- Cathy - disse Chris repentinamente. - Aonde iria, se tivesse escolha?

- Para o sul - respondi. - Para alguma praia quente e ensolarada, onde as ondas sejam suaves... não quero rebentação forte, com espuma branca... não quero o mar cinzento estourando nos rochedos... quero ir para um lugar onde o vento nunca sopre com força, mas brisas amenas e cálidas me acariciem o cabelo e me rocem no rosto, enquanto ficarei deitada na areia branca e limpa, absorvendo o sol.

- Sim - concordou ele, tristonho e sonhador. - Parece lindo, dito à sua maneira. Só que eu não me importaria com rebentação forte; eu gostaria de fazer surf na crista de uma onda grande. Seria como esquiar.

Larguei a tesoura, as fotografias e o vidro de cola, deixando de lado o álbum de ilustrações para concentrar-me totalmente em Chris, que sentia falta de tantos esportes que adorava, permanecendo trancado num quarto, envelhecendo e tomando-se triste prematuramente. Oh, eu desejava tanto reconfortá-lo, mas não sabia como.

- Afaste-se da janela, Chris, por favor.

- Deixe-me em paz! Já estou cansado, enjoado deste maldito lugar! Não façam isso, não façam aquilo! Não falem sem que alguém lhes dirija antes a palavra... comam essas malditas refeições todos os dias, mesmo frias e sem tempero... creio que ela faz isso de propósito, para não termos algo de que possamos gostar, nem mesmo a comida! Então, penso em todo aquele dinheiro, metade deve caber a mamãe e metade a nós. E digo a mim mesmo: "Não importa o que acontecer, vale a pena! Aquele velho não pode viver para sempre!"

- Todo o dinheiro do mundo não vale os dias de vida que perdemos! - retruquei acaloradamente.

Chris girou nos calcanhares, o rosto rubro.

- O diabo que não vale! Talvez você consiga viver à custa do seu talento, mas eu tenho anos a fio de estudo pela frente! Sabe que papai desejava que eu fosse médico e, seja de que modo for, terei o diploma de medicina! E se fugirmos daqui, jamais serei médico, você bem sabe disso. Diga-me o que posso fazer para ganhar o nosso sustento, depressa, faça uma lista dos empregos que posso arranjar sem ser lavador de pratos, bóia-fria ou garçom, algum deles pagará meus estudos preliminares e, depois, a faculdade de medicina? E, além de sustentar-me, terei que cuidar dos gêmeos e de você, uma família sob medida, aos dezesseis anos de idade!

Senti uma raiva feroz: ele não me dava crédito de ser capaz de contribuir com alguma coisa!

- Eu também posso trabalhar! - repliquei furiosa. - Juntos, daremos um jeito. Chris, quando estávamos morrendo de fome, você me trouxe quatro camundongos mortos e disse que Deus dá às pessoas força e capacidade extraordinárias em situações de grande aflição e necessidade. Pois bem, eu acredito: Ele dá. Quando sairmos daqui e ficarmos por nossa própria conta no mundo, abriremos caminho de um ou outro jeito e você será médico! Serei capaz de tudo para que você tenha aquele maldito "Doutor" antes do nome!

- O que pode você fazer? - indagou ele, de um modo detestável e irônico.

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e a avó apareceu! Parou sem entrar no quarto e fixou em Chris um olhar cheio de ódio. E ele, teimoso e tão relutante em cooperar quanto anteriormente, recusou-se a ser intimidado. Não se afastou da janela, mas virou-se para observar novamente a chuva.

- Menino! - bradou ela. - Afaste-se dessa janela, imediatamente!

- Meu nome não é "menino". Chamo-me Christopher. Dirija-se a mim por esse nome, ou não fale comigo, mas nunca mais me chame de "menino"!

Ela replicou às costas dele:

- Eu detesto esse nome! Era o nome de seu pai. Pela bondade de meu coração, advoguei a causa dele quando o pai morreu e ele ficou sem lar. Meu marido não o queria aqui, mas tive pena de um jovem órfão, sem meios materiais e privado de tantas coisas. Assim, insisti junto a seu avô até que ele concordou em acolher sob nosso teto o meio-irmão mais moço. E seu pai chegou... inteligente, bonito... e aproveitou-se de nossa generosidade. Traiu-nos! Iludiu-nos! Nós o enviamos às melhores escolas, compramos para ele de tudo o melhor, e ele nos roubou nossa filha, sua meia-sobrinha! Ela era tudo o que nos restava naquela época... a única sobrevivente... e fugiram durante a noite para se casarem, voltando duas semanas depois, sorridentes e felizes, pedindo-nos perdão por se terem apaixonado. Naquela noite, meu marido sofreu o primeiro ataque cardíaco. Sua mãe já lhes contou isso, que ela e aquele homem foram a causa da doença cardíaca do pai dela? Este a expulsou desta casa, disse-lhe para nunca mais voltar, e caiu ao chão.

Fez uma pausa, procurando recuperar o fôlego, levando à garganta uma mão enorme que faiscava de brilhantes. Chris virou-se da janela para encará-la, como eu estava fazendo. Aquelas palavras eram mais que a soma de todas as outras que ela nos dirigira desde que tínhamos chegado ao quarto, havia uma eternidade.

- Não somos culpados do que nossos pais fizeram - declarou Chris.

- São culpados do que você e sua irmã fizeram!

- O que fizemos de tão pecaminoso? - Quis saber Chris. - Acha que podemos viver no mesmo quarto, ano após ano, e não nos vermos? Você ajudou a trancar-nos aqui. Você isolou esta ala para impedir o acesso dos criados. Você deseja apanhar-nos fazendo algo que considere errado. Você quer que Cathy e eu provemos que sua opinião a respeito do casamento de nossa mãe está correta! Mire-se no espelho, parada aí com esse vestido cinzento, dizendo-se piedosa e santa enquanto deixa criancinhas morrerem de fome!

- Pare! - exclamei, aterrorizada pela expressão no rosto da avó. - Não diga mais nada, Chris!

Mas ele já dissera demais. A velha bateu a porta e meu coração veio parar na garganta.

- Vamos para o sótão - disse Chris, muito calmo. - A covardona tem medo da escada. Estaremos seguros e, caso ela procure matar-nos de fome, usaremos a escada para descermos ao solo.

A porta se abriu outra vez. A avó entrou, avançando com uma vara de salgueiro na mão e um sinistro brilho de determinação nos olhos cinzentos. Devia manter a vara escondida ali perto, para poder apanhá-la tão depressa.

- Corram para esconder-se no sótão e passarão mais uma semana sem comida! - bradou ela, estendendo a mão para agarrar o braço de Chris. - E se você resistir, açoitarei também sua irmã e os gêmeos!

Estávamos em outubro. Em novembro, Chris completaria dezessete anos. Ainda era um menino, em comparação com a enorme corpulência da velha. Pensou em resistir, mas olhou para mim e para os gêmeos que choramingavam, abraçados, e permitiu que a bruxa velha o arrastasse para o banheiro. Ela fechou a porta e passou a chave. Ordenou que ele se despisse e se debruçasse sobre a banheira.

Os gêmeos correram para mim, enterrando os rostos em meu colo.

- Obrigue-a a parar! - implorou Carrie. - Não permita que ela espanque Chris!

Chris não emitiu o menor som enquanto a vara lhe cortava a pele nua. Ouvi o barulho da vara verde de salgueiro fustigando-lhe a carne. Senti a dor de cada um dos golpes! Naquele último ano, Chris e eu nos tornáramos como uma só pessoa; ele era como a minha outra faceta, como eu gostaria de ser - forte e decidido, capaz de suportar os açoites sem um gemido. Odiei a velha. Sentei-me na cama e abracei os gêmeos; uma onda de ódio tão violento cresceu dentro de mim que fiquei sem saber como extravasá-lo a não ser gritando. Chris sentia as varadas e eu soltava seus gritos de dor. Esperava que Deus escutasse! Esperava que os criados escutassem! Esperava que aquele avô moribundo escutasse!

A velha saiu do banheiro empunhando a vara. Atrás dela vinha Chris, com uma toalha amarrada na cintura. Estava pálido como a morte. Não consegui parar de gritar.

- Cale-se! - ordenou ela, brandindo a vara diante de meus olhos. – Faça silêncio, imediatamente, se não quiser apanhar também!

Não pude parar de gritar, nem mesmo quando ela me puxou da cama e jogou os gêmeos para o lado quando tentaram proteger-me. Cory mordeu-lhe a perna, mas ela o jogou longe com um safanão. Dominando a histeria, fui para o banheiro, onde também recebi ordens para despir-me. Fiquei imóvel, fitando o broche de brilhantes que ela sempre usava e contando as pedras preciosas: dezessete. O vestido de tafetá cinzento tinha finas listras vermelhas e a gola branca era de crochê. Ela fixou o olhar nos cabelos cortados rente à testa, deixados à mostra pelo turbante improvisado, e seu rosto assumiu uma expressão de zombeteira satisfação.

- Dispa-se, ou arranco-lhe as roupas.

Comecei a despir-me, abrindo vagarosamente os botões da blusa. Na época, não usava sutiã, embora já precisasse de um. Percebi que ela me fitou os seios e o estômago chato, antes de desviar os olhos, aparentemente ofendida.

- Algum dia eu irei à forra, velha - declarei. - Chegará o dia em que a indefesa será você e eu terei a vara nas mãos. E na cozinha haverá comida que você nunca chegará a provar, pois, como não se cansa de afirmar, Deus vê tudo e tem seu método de fazer justiça: olho por olho, dente por dente, avó!

- Nunca mais fale comigo! - bradou ela.

Então, sorriu, confiante de que nunca chegaria o dia em que eu controlaria seu destino. Como uma tola, eu escolhera a pior ocasião possível para falar e ela não hesitou. Enquanto a vara me feria a carne tenra, os gêmeos gritavam do quarto:

- Faça ela parar, Chris! Não permita que machuque Cathy!

Caí de joelhos perto da banheira, enroscando-me bem para proteger o rosto e o seio, minhas partes mais vulneráveis. Como uma selvagem descontrolada, ela me espancou até que a vara se partiu. A dor me queimava como fogo. Pensei que tudo acabara quando a vara quebrou, mas a velha pegou uma vassoura de cabo comprido e bateu-me com ela na cabeça e nos ombros. Por mais que tentasse não gritar e imitar o corajoso silêncio de Chris, tive que ceder. Berrei:

- Você não é uma mulher! É um monstro! Não é humana!

Minha recompensa por isso foi uma terrível pancada na parte lateral da cabeça. Tudo escureceu.

Voltei lentamente à realidade, com o corpo inteiro doendo e a cabeça prestes a estourar. No sótão, alguém colocara um disco: "Rose Adiago", do balé “A Bela Adormecida”. Mesmo que eu viva cem anos, jamais esquecerei aquela música e o que senti ao abrir os olhos e ver Chris debruçado sobre mim, aplicando anti-séptico e pedaços de esparadrapo, as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto e pingando-me no corpo. Quando ele terminou de fazer por mim o que era possível com o inadequado suprimento de remédios de que dispúnhamos, cuidei-lhe das costas marcadas e sangrentas. Estávamos despidos, pois as roupas se colariam às feridas que purgavam. Eu tinha feias equimoses onde ela me atingira cruelmente com a vassoura; na cabeça, um enorme galo que Chris temia ser uma concussão.

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