A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Acabados os curativos, deitamo-nos de lado, de frente um para o outro. Nossos olhares se cruzaram e mesclaram-se num só. Chris tocou-me o rosto na mais suave e amorosa carícia.

- Não nos divertimos, irmão?... Não nos divertimos? - cantei parodiando a música a respeito de Bill Bailey. - Sentiremos dor o dia inteiro... Você faz os curativos e eu pago o aluguel...

- Pare! - gritou ele, parecendo magoado e indefeso. - Sei que a culpa foi minha! Fiquei perto da janela. A velha não tinha que bater em você, também!

- Não importa; mais cedo ou mais tarde ela acabaria fazendo isso. Desde o primeiro dia, ela vem planejando castigar-nos por alguma ninharia. O que me espanta é ela ter demorado tanto a fazer uso da vara.

- Quando ela estava me batendo, escutei você gritar, e eu não podia gritar. Você o fez por mim, Cathy, e me ajudou muito; não senti minha dor, só a sua.

Abraçamo-nos com cuidado. Nossos corpos despidos se estreitaram, meus seios se achataram contra o peito dele. Então, Chris murmurou meu nome e, puxando a toalha de minha cabeça, soltou-me os cabelos compridos antes de tomar minha cabeça entre as mãos e puxá-la carinhosamente para perto de seus lábios. Era esquisito ser beijada enquanto jazia nua em seus braços... e não me parecia correto.

- Pare - sussurrei, temerosa, sentindo sua masculinidade enrijecer-se de encontro a mim. - Isto é exatamente o que ela pensa que fizemos.

Chris soltou um riso amargo antes de afastar-se, dizendo-me que eu não sabia de nada. Fazer amor era algo mais que beijar e não tínhamos feito mais que beijar-nos. Nunca.

- E nunca faremos - disse eu, mas em voz fraca.

Naquela noite, adormeci pensando no beijo de Chris, sem me lembrar das varadas ou das pancadas com a vassoura. Dentro de nós dois crescia um torvelinho de emoções embaralhadas. Algo que estivera adormecido bem no fundo de mim despertara e se acelerava, exatamente como Aurora dormia até que o Príncipe chegava para dar em seus lábios silenciosos um prolongado beijo de amante.

Os contos de fada eram sempre assim - terminavam com um beijo e a felicidade para o resto da vida. Tinha que existir algum outro príncipe para proporcionar-me um final feliz.


Encontrar um Amigo
Havia alguém gritando na escada do sótão! Acordei sobressaltada e olhei em volta a fim de ver quem estava faltando. Cory!

- Oh, Deus, o que aconteceu agora?

Pulei da cama e corri na direção do armário embutido. Ouvi Carrie acordar e juntar seus berros aos de Cory, mesmo sem saber por que motivo ele gritava. Chris indagou:

- Que diabo está acontecendo aqui?

Atravessei o armário e galguei seis degraus. Estaquei, boquiaberta. Lá estava Cory, de pijama branco, berrando como um louco - e não via por que razão.

- Faça alguma coisa! - urrava ele. - Faça alguma coisa!

Afinal, apontou para o que lhe causava tamanha perturbação.

Oh... No degrau estava uma ratoeira, no mesmo lugar onde a armávamos toda noite com uma isca de queijo. Mas, desta feita, o camundongo não morrera. Tentara ser esperto e roubar a isca com a pata dianteira, em vez de usar os dentes; a forte mola de arame prendera-lhe a patinha. O minúsculo rato cinzento roia ferozmente a pata presa a fim de libertar-se, a despeito da dor que isso lhe devia causar.

- Cathy, faça alguma coisa depressa! - exclamou Cory, atirando-se em meus braços. - Salve a vida dele! Não deixe ele roer o pé! Quero ele vivo! Quero um amigo! Nunca tive um mascote; você bem sabe que nunca tive um animal de estimação! Por que você e Chris sempre matam todos os ratinhos?

Carrie aproximou-se pela retaguarda e começou a esmurrar-me as costas com os pequenos punhos.

- Você é malvada, Cathy! Malvada! Malvada! Não deixa Cory ter nada!

Pelo que me constava, Cory tinha praticamente tudo o que o dinheiro podia comprar, à exceção de um animal de estimação, da liberdade e do ar livre.

E, na verdade, Carrie seria capaz de assassinar-me na escada se Chris não acorresse em minha defesa e a obrigasse a abrir as mandíbulas que fechara em minha perna - que, felizmente para mim, estava protegida por uma grossa camisola que me chegava aos tornozelos.

- Parem com isso! - ordenou severamente Chris.

Curvou-se a fim de utilizar o pano de chão que apanhara às pressas para pegar um camundongo enfurecido e não ser mordido.

- Cuide dele, Chris - implorou Cory. - Por favor, não deixe ele morrer!

- Já que você parece desejar tanto este camundongo, Cory, farei o possível para salvar-lhe a pata, embora esteja bastante ferida.

Oh, quanta confusão e barulheira para salvar a vida de um camundongo, quando já havíamos exterminado centenas deles. Primeiro, Chris teve que levantar cuidadosamente a mola da ratoeira e, quando o fez, o pequeno animal furioso e ferido quase sibilou de alívio. Carrie gritou e Cory virou as costas, soluçando. Então, o camundongo deu a impressão de desmaiar - de alívio, presumo.

Descemos correndo para o banheiro, onde Chris e eu limpamos o animal quase morto, enquanto Cory o segurava, embrulhado no pano de chão e Chris aconselhava a não apertar com muita força.

Estendi uma toalha limpa na bancada e coloquei sobre ela todas as medicações disponíveis.

- Está morto! - gritou Carrie, agredindo Chris. - Você matou a única mascote de Cory!

- Esse camundongo não está morto - replicou Chris calmamente. - Agora, por favor, todos vocês fiquem calados e não se movam. Cathy, segure-o firme. Tenho que fazer o possível para remediar a carne dilacerada e, depois, imobilizar a pata inteira.

Em primeiro lugar, Chris empregou anti-séptico para limpar o ferimento, enquanto o camundongo permanecia como morto; apenas os olhos abertos me fitavam de modo a causar-me dó. Em seguida, Chris usou gaze, que precisou cortar pela metade no sentido do comprimento a fim de adaptá-la a um membro tão pequeno, e cobriu-a com algodão. Improvisou uma tala com um palito partido pela metade, fixando-a com esparadrapo.

- Vou chamá-lo de Mickey - anunciou Cory.

Seus olhos brilharam porque um pequeno camundongo continuaria vivo para ser sua mascote.

- Talvez seja uma camundonga - disse Chris, lançando um rápido olhar ao ratinho para verificar.

- Não! Não quero uma camundonga, quero um camundongo Mickey!

- É mesmo um camundongo macho - confirmou Chris. - Mickey sobreviverá para comer todo o nosso queijo - sentenciou o "médico", após completar sua primeira cirurgia.

Fez aquela previsão parecendo - devo admitir - bastante orgulhoso de seu trabalho.

Lavou o sangue das mãos. Cory e Carrie estavam felizes como se algo maravilhoso tivesse ocorrido em suas vidas, afinal.

- Agora, deixem-me segurar Mickey! -exclamou Cory.

- Não, Cory. Deixe que Cathy o segure por mais algum tempo. Como você pode ver, ele se encontra em estado de choque e Cathy tem mãos maiores que as suas, podendo aquecê-lo melhor. E você, por acidente, poderia apertá-lo demais.

Sentei-me na cadeira de balanço do quarto e acalentei um camundongo cinzento cujo coração batia tão depressa que dava a impressão de estar à beira de um colapso. Enquanto segurava o bichinho, sentindo nas mãos o corpo morno e minúsculo que se esforçava por sobreviver, desejei que não morresse e que se transformasse na mascote de Cory.

A porta se abriu e a avó entrou. Nenhum de nós estava completamente vestido; na verdade, todos nós ainda usávamos roupas de dormir, sem roupões que ocultassem o que poderia aparecer. Estávamos descalços, com os cabelos despenteados e os rostos por lavar.

Uma norma violada.

Cory encolheu-se a meu lado quando a avó correu o olhar penetrante pelo quarto em desordem e em total bagunça (para dizer a verdade). As camas desfeitas, nossas roupas penduradas nas cadeiras, meias espalhadas por todo lado.

Duas normas violadas.

Chris estava no banheiro, lavando o rosto de Carrie e ajudando-a a vestir-se, abotoando-lhe o macacão cor-de-rosa.

Três normas violadas.

Os dois saíram do banheiro. Carrie com o cabelo penteado para trás num rabo-de-cavalo atado com uma fita cor-de-rosa.

Assim que avistou a avó, Carrie ficou petrificada, os olhos azuis muito esbugalhados e cheios de medo. Virou-se e procurou proteção, agarrando-se a Chris. Este a pegou no colo, trouxe-a até a cadeira de balanço e a colocou no meu colo. Então, foi à mesa sobre a qual estava a cesta de piquenique e começou a retirar a comida que a velha nos trouxera.

Quando Chris se aproximou, a avó recuou. Chris ignorou-a, esvaziando rapidamente a cesta.

- Cory - disse ele, encaminhando-se para o armário embutido. - Vou ao sótão procurar uma gaiola adequada. Enquanto faço isso, veja se consegue vestir-se, calçar-se, lavar o rosto e as mãos, sem o auxilio de Cathy.

A avó permaneceu calada. Continuei sentada na cadeira de balanço, embalando o camundongo doente, e minhas criancinhas se sentaram comigo. Nós três mantivemos os olhos fixos na velha, até que Carrie não agüentou mais e escondeu o rosto em meu ombro. Seu corpinho estremecia da cabeça aos pés.

Fiquei perturbada por ela não ralhar conosco nem falar nas camas desfeitas, no quarto desarrumado que eu procurava manter sempre em ordem – e por que não admoestara Chris por vestir Carrie? Por que estava ali, olhando e vendo tudo, mas não dizia uma palavra?

Chris desceu do sótão com uma gaiola e um pedaço de tela de arame que, segundo informou, tornaria a gaiola mais segura.

Suas palavras levaram a avó a virar a cabeça bruscamente na direção dele. Depois, ela fixou o olhar em mim e no pano de chão azul que eu tinha nas mãos.

- O que está segurando aí, menina? - perguntou com voz glacial.

- Um camundongo ferido - respondi num tom tão gelado quanto o dela.

- Pretendem manter o camundongo como mascote e colocá-lo naquela gaiola?

- Pretendemos, sim - disse eu, fitando-a desafiadoramente, esperando que ela ousasse fazer alguma coisa. - Cory nunca teve um animal de estimação e já é tempo de arranjarmos um para ele.

Ela franziu os lábios finos e seus olhos frios pousaram em Cory, que estremeceu, prestes a chorar.

- Ora, fique com o rato - disse ela. - Uma mascote dessa espécie é adequada para você.

Com isso bateu a porta com força. Chris começou a mexer na gaiola, falando enquanto trabalhava.

- Os arames da gaiola são muito afastados entre si para manterem Mickey preso, Cory. Portanto, precisamos forrar a gaiola com a tela, a fim de evitar que sua mascote fuja.

Cory sorriu e espiou para ver se Mickey ainda vivia.

- Está com fome. Está mexendo o focinho.

A conquista de Mickey, o camundongo de sótão, foi um grande feito. Em primeiro lugar, ele não confiava em nós, a despeito de havermos libertado sua pata da ratoeira. Detestava o confinamento da gaiola. Mancava, em círculos, com a incômoda tala que lhe tínhamos aplicado, procurando um meio de fugir. Cory deixou cair pedacinhos de queijo e pão por entre as grades, para induzi-lo a comer e fortalecer-se. Mickey ignorou o queijo e o pão e, no final, afastou-se o máximo possível, com os olhinhos negros brilhando de medo e o corpo trêmulo quando Cory abriu a porta enferrujada da gaiola para botar lá dentro uma terrina em miniatura contendo água.

Depois, Cory enfiou a mão pela porta e empurrou um pedaço de queijo para perto do animal.

- Queijo gostoso - disse num tom convidativo, enquanto movimentava um pedaço de pão na direção do trêmulo camundongo, cujos bigodes sacudiam. - Pão gostoso.

Você ficará forte e saudável. Coma.

Passaram-se duas semanas antes que Cory tivesse um camundongo que o adorava e se aproximava ao ouvir seu assovio. Cory escondia pedaços de comida nos bolsos da camisa para tentar Mickey a entrar neles. Quando usava camisa com dois bolsos, Cory escondia um pedaço de queijo no bolso direito e um pedaço de sanduíche de creme de amendoim e geléia no bolso esquerdo. Mickey ficava indeciso no ombro de Cory, mexendo o nariz e sacudindo os bigodes. Logo percebemos que não tínhamos um camundongo gourmet, mas um guloso que desejava comer ao mesmo tempo o conteúdo de ambos os bolsos de Cory.

Então, quando chegava finalmente a uma conclusão a respeito de que bolso visitar primeiro, Mickey se enfiava rapidamente no bolso que continha o sanduíche, comia de cabeça para baixo e voltava correndo ao ombro de Cory, passando por detrás do pescoço e entrando no bolso onde estava o queijo. Achávamos graça por ele nunca passar diretamente pelo peito de Cory, de um bolso para outro, mas sempre dar a volta por trás do pescoço, fazendo cócegas em Cory.

A patinha ferida cicatrizou, mas o camundongo nunca mais voltou a andar perfeitamente e não conseguia correr com grande rapidez. Acho que era bastante inteligente ao deixar o queijo para depois, uma vez que podia segurá-lo com as patas dianteiras e roê-lo quase melindrosamente, enquanto o sanduíche lhe sujaria as patas.

E podem crer que jamais existiu um camundongo que farejasse melhor a comida, onde quer que estivesse escondida. Prazerosamente, Mickey abandonou seus amigos camundongos para juntar-se a seres humanos que o alimentavam tão bem, mimavam-no e o embalavam para dormir, embora - por estranho que pareça - Carrie nunca tivesse paciência em relação a ele. Talvez fosse por Mickey encantar-se tanto pela casa de bonecas quanto a própria Carrie. Os pequenos cômodos e escadas adequavam-se perfeitamente ao tamanho dele e, uma vez em liberdade, Mickey corria diretamente para a casa de bonecas. Subia por uma janela e corria pelo interior da casa; bonecos de porcelana, tão bem equilibrados, caíam para todos os lados e a mesa do salão de jantar tombava quando ele resolvia provar-lhe um pedaço.

Carrie berrava para Cory:

- Seu Mickey está comendo toda a comida da festa! Leve-o daqui! Tire-o de minha sala de visitas!

Cory capturava seu camundongo manco, que não conseguia ser muito ligeiro, e o aninhava de encontro ao peito.

- Precisa aprender a comportar-se, Mickey. Nas casas grandes acontecem coisas ruins. A velha dona da casa espancará você por qualquer coisinha sem importância.

Cory fazia-me rir baixinho, pois era a primeira vez que eu o ouvia fazer um comentário pouco lisonjeiro a respeito de sua querida irmã gêmea.

Era muito bom Cory possuir um pequenino e amável camundongo cinzento que mergulhava em seus bolsos para pegar os petiscos que o dono ali escondia. Era uma boa coisa todos nós termos algo com que ocupar nosso tempo e nossas mentes enquanto aguardávamos que mamãe tornasse a aparecer, pois tudo começava a dar a impressão de que ela jamais retornaria ao nosso convívio.
Afinal, Mamãe
Chris e eu nunca conversamos sobre o que se passara entre nós, na cama, no dia das surras. Peguei-o muitas vezes olhando para mim, mas logo que meus olhos se dirigiam a ele, os seus se desviavam. E vice-versa.

Ele e eu crescíamos a cada dia. Meus seios aumentavam de volume, os quadris se alargavam, a cintura diminuía e o cabelo curto acima da testa se tornava mais comprido, anelando-se de forma atraente. Por que eu não adivinhara que ele se encresparia ao crescer, sem peso para puxá-lo para baixo e deixá-lo ondulado?

Quanto a Chris, seus ombros se alargavam, o peito assumia aspecto mais masculino e adulto, os braços também. Certa vez, apanhei-o no sótão examinando aquela parte de seu corpo que tanto parecia encantá-lo - e medindo-a!

- Por quê? - indaguei, espantada pelo fato de que o comprimento fizesse uma diferença importante.

Chris deu-me as costas e explicou que, uma vez, vira papai despido e agora achava que seu órgão não era bastante desenvolvido. Até mesmo sua nuca estava ruborizada quando ele me deu tal explicação. Tentei imaginar que tamanho de sutiã mamãe usava!

- Não faça isso outra vez - murmurei. Cory tinha um órgão tão minúsculo, como se sentiria se tivesse visto Chris fazendo aquilo e achando que o dele não tinha um tamanho adequado?

De repente, parei de polir os tampos das mesas na sala de aulas e fiquei imóvel, pensando em Cory. Virei-me, a fim de olhar para ele e Carrie. Oh, Deus - como a proximidade excessiva nos diminui a perspectiva! Havia dois anos e quatro meses que estávamos prisioneiros - e os gêmeos continuavam quase iguais ao que eram antes de ali chegarmos! Não há dúvida de que as cabeças tinham aumentado de tamanho e, com isso, reduzido as dimensões dos olhos que, não obstante, ainda pareciam extraordinariamente grandes. Estavam sentados indolentemente nos colchões velhos que tínhamos puxado para perto das janelas.

Tive a impressão de que borboletas me voavam no estômago ao estudá-los objetivamente. Seus corpos pareciam frágeis talos de flores, fracos demais para suportar o peso das cabeças.

Esperei até que adormecessem ao sol fraco e comentei baixinho com Chris:

- Veja nossos queridinhos. Não crescem. Só as cabeças aumentaram de tamanho.

Chris suspirou pesadamente, semicerrou as pálpebras e aproximou-se dos gêmeos, observando-os e abaixando-se para tocar-lhes a pele transparente.

- Se ao menos pudessem sair conosco para o telhado, a fim de aproveitarem o sol e o ar puro... Cathy, por mais que eles resistam e gritem, temos que obrigá-los a sair daqui!

Como tolos, julgamos que se os carregássemos para o telhado enquanto dormiam, eles acordariam no sol, seguros em nossos braços, sentindo-se bem protegidos. Cautelosamente, Chris pegou Cory no colo e eu me abaixei para erguer o leve corpo de Carrie. Sorrateiramente, aproximamo-nos de uma das janelas abertas. Era quinta-feira, nosso dia de aproveitar o ar livre no telhado, enquanto os criados estavam na cidade. Não havia risco em utilizarmos a parte dos fundos do telhado.

Mal Chris se afastou do peitoril carregando Cory, este foi despertado bruscamente pelo ar puro e cálido. Olhou em volta e avistou-me com Carrie nos braços, na óbvia intenção de levá-la para o telhado. Soltou um berro! Carrie acordou sobressaltada. Avistou Chris, com Cory, no telhado íngreme. Viu-me e percebeu para onde eu a levava - e emitiu um grito que poderia ser ouvido a um quilômetro de distância!

Chris elevou a voz acima da berraria:

- Vamos! Temos que fazer isso, para o bem deles!

Os gêmeos não se limitaram a gritar, mas esperneavam e nos esmurravam com os pequenos punhos débeis! Carrie cravou-me os dentes no braço e eu também gritei. Embora pequenos, os gêmeos tinham a força de quem se sente em extremo perigo. Carrie esmurrava-me o rosto, mal me permitindo enxergar, além de berrar ao meu ouvido! Apressadamente, dei meia-volta e regressei à janela da sala de aulas. Trêmula e enfraquecida, depositei Carrie ao lado da mesa do professor e me apoiei no tampo da mesa, ofegante e fatigada, agradecendo a Deus por me ter permitido regressar em segurança. Chris devolveu Cory à irmã gêmea. Não adiantava. Forçá-los a sair para o telhado colocava em risco as vidas de todos nós.

Os gêmeos estavam furiosos. Emburrados, resistiram quando os empurramos na direção das marcas que fizéramos na parede para medir-lhes a altura no primeiro dia que ali estivemos. Chris segurou-os na posição adequada, enquanto eu media o quanto haviam crescido.

Fiquei perplexa, boquiaberta, sem acreditar que fosse possível. Em todo aquele tempo tinham crescido apenas cinco centímetros? Cinco centímetros, quando Chris e eu crescêramos várias vezes isso entre os cinco e sete anos de idade - mesmo levando em consideração que eram excepcionalmente pequenos ao nascerem, pois Cory pesara dois quilos e duzentos gramas e Carrie cinqüenta gramas a mais que ele.

Oh! Fui obrigada a esconder o rosto nas mãos para que eles não vissem minha expressão de perplexidade e horror. Quando isso não bastou, virei-lhes as costas e procurei reprimir os soluços que me engasgavam a garganta.

- Já pode soltá-los - consegui dizer, afinal.

Voltei-me a tempo de vê-los de relance, como dois camundongos louros, correndo para a escada em busca da amada televisão e da fuga que esta lhe oferecia - e do pequeno camundongo que os esperava para alegrarem o confinamento dele.

Chris ficou parado atrás de mim, esperando.

- Bem, quanto eles cresceram? - indagou quando me mantive imóvel e incapaz de falar.

Enxuguei rapidamente as lágrimas antes de me voltar para ele, a fim de poder ver-lhe os olhos quando lhe desse a resposta.

- Cinco centímetros - declarei num tom indiferente.

Mas Chris percebeu a angústia em meu olhar. Aproximou-se, passando o braço em meus ombros e segurando-me a cabeça contra seu peito. Então, chorei - de verdade! Odiava mamãe por ter feito aquilo! Odiava-a de verdade! Ela sabia que as crianças são como as plantas - precisam de sol para crescer. Tremi nos braços de meu irmão tentando convencer-me de que os gêmeos voltariam a ser lindos quando estivéssemos em liberdade. É claro que sim; voltariam ao normal, recuperando os anos perdidos - e, tão logo pudessem pegar sol novamente, brotariam como plantas... sim, é claro! Apenas os longos dias de confinamento num ambiente fechado eram a causa da magreza e olheiras. E tudo podia ser remediado, não é mesmo?

- Bem - comecei numa voz rouca e engasgada, ainda agarrando-me à única pessoa no mundo que parecia realmente importar-se. - É o dinheiro que faz o mundo funcionar, ou é o amor? Se a pessoa que devia dedicar amor aos gêmeos o fizesse, eu teria constatado uma diferença de quinze ou mesmo vinte centímetros, e não apenas cinco!

Chris e eu descemos à nossa obscura prisão a fim de almoçamos. Como sempre, mandei que os gêmeos fossem ao banheiro lavar as mãos, pois certamente não precisavam de germes de camundongo para aumentar os riscos que já corriam.

Enquanto estávamos silenciosamente à mesa, comendo nossos sanduíches e tomando goles de sopa morna e de leite, assistindo televisão a uma cena em que dois amantes se encontravam e faziam planos para fugir e abandonar seus respectivos cônjuges, a porta de nosso quarto se abriu. Detestei a idéia de afastar os olhos da tela e perder a seqüência da cena, mas foi o que fiz.

E nossa mãe entrou alegremente, a passo ligeiro e animado. Usava um belo costume de tecido leve, Com os punhos e a gola forrados de pele macia.

- Queridos! - exclamou, numa entusiástica saudação.

Então, hesitou, insegura, quando nenhum de nós quatro correu para recebê-la de braços abertos.

- Aqui estou eu! Não ficam felizes por ver-me? Oh, vocês nem imaginam o quanto me alegro por ver vocês todos outra vez. Senti muitas saudades, pensei em vocês, sonhei com vocês e lhes trouxe muitos presentes lindos, que escolhi com o maior cuidado. Esperem até vê-los! E fui obrigada a ser tão furtiva, como podia explicar que estava comprando presentes para crianças? Desejava compensá-los por ter ficado ausente durante tanto tempo. E quis explicar-lhes o motivo pelo qual viajei, mas era por demais complicado. Além disso, não tinha idéia de quanto tempo me demoraria fora. E, embora tivessem saudades, foram bem cuidados, não é mesmo? Não sofreram, não foi?

Tínhamos sofrido? Sentíramos apenas saudades dela? Quem era ela, afinal? Pensamentos idiotas me passavam pela cabeça enquanto eu a olhava fixamente e a escutava explicar como quatro crianças escondidas dificultavam a vida alheia. E, muito embora eu desejasse renegá-la, rejeitá-la, nunca mais permitir que voltássemos a ser íntimas, vacilei, desejando profundamente amá-la outra vez e confiar nela.

Chris se ergueu da cadeira e foi o primeiro a falar, numa voz que se livrara dos falsetes da puberdade e assumira um tom firme, profundo e masculino:

- Naturalmente que estamos felizes por revê-la, mamãe! E sentimos muita saudade de você! Mas errou ao afastar-se e demorar tanto tempo, a despeito de quaisquer complicações.

- Christopher - disse ela, arregalando os olhos de surpresa. - Você não parece o mesmo.

Os olhos de mamãe passaram de Chris para mim e, depois, para os gêmeos. Sua vivacidade murchou.

- Christopher, aconteceu algo errado?

- Errado? - repetiu Chris. - Mamãe, o que pode estar certo em vivermos trancados num único quarto? Você disse que não pareço mais o mesmo. Pois olhe para mim. Por acaso sou um menininho? Olhe para Cathy, ela ainda é uma criança? Observe melhor os gêmeos; repare, em especial, no quanto eles cresceram. Depois, tome a olhar para mim e diga-me que eu e Cathy somos crianças que devem ser tratadas como tal, pois não conseguimos entender assuntos de adultos. Ficamos à-toa, rodando os polegares, enquanto você saiu pelo mundo a divertir-se. Através dos livros, Cathy e eu vivemos um milhão de vidas... é o nosso meio substitutivo de nos sentirmos vivos.

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