A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Mamãe fez menção de interromper, mas Chris falou mais alto que ela, impedindo-a. Lançando um olhar desdenhoso aos inúmeros presentes que ela trouxera, acrescentou:

- Então, você voltou com oferendas de paz, como costuma fazer quando sabe que procedeu errado. Por que insiste em pensar que seus estúpidos presentes podem compensar o que perdemos e continuamos a perder a cada minuto? Naturalmente, antes nós ficávamos deliciados com os jogos, brinquedos e roupas que você trazia à nossa prisão. Agora, porém, estamos mais crescidos, presentes não são o bastante!

- Christopher, por favor - implorou ela, olhando nervosamente para os gêmeos e desviando rapidamente os olhos da direção deles. - Por favor, não fale como se tivesse deixado de amar-me. Eu não suportaria isso.

- Eu a amo - foi a resposta de Chris. - Obrigo-me a continuar amando, a despeito do que você faz. Preciso amá-la. Todos nós a amamos, confiamos em você e acreditamos que esteja fazendo tudo para cuidar de nossos melhores interesses. Entretanto, mamãe, olhe para nós e veja-nos realmente. Cathy acha, e eu também, que você se recusa a ver o que está nos fazendo. Chega-se a nós com sorrisos, acenando-nos aos olhos e ouvidos esperanças brilhantes para o futuro, mas elas nunca se realizam. Há muito tempo, quando nos falou pela primeira vez a respeito de seus pais e desta casa, você afirmou que só ficaríamos trancados neste quarto durante uma noite; depois, mudou para poucos dias. Em seguida, foi por mais algumas semanas, então por mais alguns meses... e mais de dois anos já se passaram enquanto aguardamos a morte de um velho que talvez viva para sempre, a julgar pelo modo como os médicos conseguem trazê-lo de volta do túmulo. Este quarto já não está melhorando a nossa saúde. Será que você não vê isso? - conclui ele, quase aos gritos, o rosto juvenil muito vermelho ao atingir, afinal, o limite do autocontrole.

Eu julgara que jamais chegaria o dia em que ele atacasse nossa mãe – a sua adorada mãe.

O tom elevado da voz de Chris deve tê-lo assustado, pois ele baixou a voz e continuou de modo mais calmo, embora suas palavras tivessem o impacto de tiros:

- Mamãe, quer você herde ou não a imensa fortuna de seu pai, queremos sair deste quarto! Não na próxima semana, ou amanhã, mas hoje! Agora! Neste instante! Entregue-me a chave e nós iremos embora, para muito longe. E você poderá enviar-nos dinheiro, se quiser; nunca mais precisará mandar-nos nada, se preferir. E não terá que voltar a ver-nos, se esta for a sua escolha e a solução para todos os seus problemas; sairemos de sua vida e seu pai nunca precisará saber que existimos, você pode ficar, sozinha, com tudo o que ele lhe deixar como herança.

Mamãe ficou branca de choque.

Permaneci sentada na cadeira, sem terminar o almoço. Tive pena de mamãe e, ao mesmo tempo, senti-me traída por minha compaixão. Fechei a porta sobre ela, batendo-a com força, só em pensar naquelas duas semanas em que passamos fome... quatro dias comendo queijo e bolachas, três dias sem uma migalha de comida, tendo apenas água para beber. E as surras, o piche em meus cabelos - e, sobretudo, o fato de Chris ser obrigado a cortar o próprio pulso para nutrir os gêmeos com seu sangue.

E Chris... o que ele dizia a ela, a maneira dura e decidida como ele falava, era obra minha.

Creio que ela adivinhou, pois lançou-me um olhar penetrante, carregado de ressentimento.

- Não me diga mais nada Christopher. É óbvio que está fora de si.

Erguendo-me de um salto, postei-me ao lado de Chris.

- Olhe para nós, mamãe! Observe nossas fisionomias saudáveis e radiantes, exatamente iguais à sua. Olhe com especial atenção para seus filhos menores, os gêmeos. Não parecem debilitados, não acha? Os rostos gordos não parecem abatidos, parecem? Os cabelos não perderam o brilho, perderam? Os olhos não estão sombrios e fundos, estão? Quando você olhar e reparar bem, verá o quanto cresceram, como estão vibrantes de saúde, não é mesmo? Se não consegue ter pena de mim e Christopher, tenha ao menos piedade dos gêmeos!

- Pare! - gritou ela.

Levantou-se de um pulo, deixando a cama onde se sentara à espera de que a rodeássemos como outrora. Girou nos calcanhares, a fim de não ser obrigada a ver-nos. Engasgou-se com soluços, mal conseguindo falar.

- Não têm o direito de falar assim com sua mãe! Se não fosse por mim, estariam morrendo de fome na sarjeta!

Não conseguiu prosseguir. Virou-se de lado, lançando a Chris um olhar desolado, suplicante.

- Não fiz o melhor possível por vocês? Em que errei? O que lhes falta? Vocês sabiam como tinha que ser até a morte de seu avô. Concordaram em ficar aqui até ele morrer. E cumpri minha palavra. Vocês vivem num quarto aquecido e seguro. Trago-lhes de tudo o melhor; roupas, livros, jogos, brinquedos, as melhores roupas que o dinheiro pode comprar. Recebem boa alimentação e dispõem de um aparelho de televisão.

Ficou de frente para nós, estendendo as mãos num gesto de súplica, parecendo prestes a cair de joelhos, implorando-me com o olhar.

- Escutem, seu avô está tão doente que agora passa o dia inteiro de cama. Nem mesmo lhe permitem sentar-se na cadeira de rodas. Os médicos afirmam que ele não pode durar além de alguns dias ou, no máximo, algumas semanas. No dia em que ele morrer, subirei até aqui, destrancarei a porta e descerei com vocês. Terei dinheiro suficiente para manter vocês quatro numa universidade. Christopher cursará a faculdade de medicina e você, Cathy, terá aulas de dança. Contratarei os melhores professores de música para Cory e farei por Carrie tudo que ela desejar. Vocês querem jogar fora todos os anos que sofreram e suportaram, sem esperarem a recompensa, exatamente quando estão atingindo o objetivo! Lembram-se de como costumavam rir e falar das coisas que fariam quando tivessem a bênção de possuir mais dinheiro do que saberiam como gastar? Esqueceram os planos que fizemos... a nossa casa, onde voltaríamos a viver todos juntos? Não joguem tudo fora perdendo a paciência no momento em que estamos com a vitória nas mãos! Digam-me que me diverti enquanto vocês sofriam e eu admitirei que é verdade. Mas eu os recompensarei regiamente por isso!

Oh, confesso que fiquei emocionada e desejei muito livrar-me da descrença. Quase consegui confiar nela outra vez, mas estremeci com a desconfiança de que tudo aquilo fosse mentira. Ela não nos dissera desde o início que nosso avô estava exalando o último suspiro... anos e anos exalando aquele último alento? Deveria eu gritar: Mamãe, não acreditamos mais em você? Eu queria feri-la, fazê-la sangrar como havíamos sangrado com nossas lágrimas, isolamento e solidão - sem falar nos castigos corporais.

Todavia, Chris fitou-me severamente, fazendo-me sentir envergonhada. Poderia eu ser tão cavalheiresca quanto ele? Quem me dera ser capaz de ignorá-lo e abrir a boca para gritar tudo o que a avó nos infligira a troco de nada! Por algum estranho motivo, fiquei calada. Talvez desejasse evitar que os gêmeos ficassem sabendo demais. Ou talvez esperasse que Chris contasse tudo a ela antes de mim.

Chris fitava mamãe com suave compaixão, esquecendo o piche em meus cabelos, as semanas sem comer, os camundongos temperados com sal e pimenta - e as surras. Tremia, indeciso, os olhos atormentados por visões de esperanças e desesperos, observando nossa mãe começar a chorar.

Os gêmeos vieram agarrar-se furtivamente à minha saia quando mamãe se deixou cair numa das camas, soluçando e esmurrando o travesseiro, como uma criança.

- Oh, mas vocês são filhos desalmados e sem coração! - lamentou-se, digna de pena. - Fazem isso comigo, sua mãe, a única pessoa que os ama neste mundo! A única que se importa com vocês! Vim procurá-los com tanta alegria, tão feliz por estar novamente com vocês, querendo dar-lhes as boas notícias e compartilhar com vocês minha satisfação... E o que vocês fazem? Atacam-me violenta e injustamente! Fazem-me sentir tão culpada e envergonhada quando, na realidade, tenho feito o melhor possível, e vocês não acreditam!

Descera ao nosso nível, agora, chorando com o rosto enterrado no travesseiro, como eu fazia tempos atrás e Carrie continuava a fazer.

Imediata e espontaneamente, Chris e eu nos sentimos contritos e arrependidos. Tudo o que ela dissera era a pura verdade: era a única pessoa que nos amava, que se importava conosco; e nela residiam a nossa salvação, as nossas vidas, nossos futuros e nossos sonhos. Corremos para ela, Chris e eu, abraçando-a como pudemos, implorando perdão. Os gêmeos ficaram calados, apenas observando.

- Mamãe, por favor, pare de chorar! Não quisemos magoar você. Estamos arrependidos, de verdade. Ficaremos. Acreditamos em você. O avô está mesmo moribundo, tem que morrer algum dia, não é mesmo?

Ela continuava a chorar, inconsolável.

- Fale conosco, mamãe, por favor! Conte-nos as boas notícias. Queremos saber. Queremos repartir sua alegria. Só dissemos aquelas coisas porque ficamos magoados quando você foi embora sem nos dizer o motivo. Mamãe, por favor. Por favor, mamãe!

Nossas súplicas, lágrimas e angústias finalmente lhe chegaram ao consciente. De algum modo, conseguiu sentar-se e enxugar os olhos com um lenço de linho branco cercado por uma franja de renda de cinco centímetros de largura e bordado em branco com um enorme monograma "C".

Empurrou-nos para um lado, livrando-se de nossas mãos como se estas a queimassem, e ficou em pé. Agora, recusava-se a fitar nossos olhos que imploravam, suplicavam, pediam.

- Abram os presentes que escolhi para vocês com tanto carinho - disse em voz entrecortada por soluços engasgados. - Então, digam-me se não são lembrados e amados por mim. Então, digam-me que não pensei em suas necessidades nem zelei pelos seus melhores interesses. Que não tentei satisfazer-lhes os mínimos desejos. Digam-me que sou egoísta e não me importo com vocês.

A maquilagem escura dos olhos escorria-lhe pelo rosto. O batom vermelho estava borrado. Os cabelos, que ela sempre mantinha impecavelmente penteados, estavam desfeitos e amassados. Ela entrara em nosso quarto como uma visão de perfeita beleza e agora parecia um manequim quebrado.

Por que eu tinha sempre que pensar que ela era uma excelente atriz, representando um papel com todo o esforço e talento?

Olhou para Chris, ignorando-me. E os gêmeos - a julgar pela preocupação que ela demonstrava pelo bem-estar e sensibilidade deles, bem poderiam estar na Conchinchina!

- Encomendei um novo conjunto de enciclopédias para seu próximo aniversário, Christopher - informou com voz embargada, ainda limpando o rosto e tentando remover as manchas de maquilagem. - Exatamente o que você queria: a melhor enciclopédia já publicada, encadernada em couro genuíno vermelho, gravado a ouro de vinte e quatro quilates e com lombadas de mais de um centímetro de relevo. Fui diretamente à editora, a fim de encomendá-la especialmente para você. Os volumes terão seu nome gravado, assim como a data, mas não serão enviados para cá, a fim de evitar que alguém os veja por acaso.

Engoliu em seco, guardando o lenço elegante.

- Pensei muito para escolher o presente que mais lhe agradasse, da mesma maneira que sempre lhe dei o melhor para sua instrução.

Chris parecia atordoado. O jogo de emoções contraditórias em seu rosto davam-lhe ao olhar uma aparência confusa, perplexa, aturdida e até mesmo indefesa. Oh, Deus, como ele devia amá-la, mesmo depois de tudo que ela nos fizera!

Minhas emoções eram simples e diretas, sem a menor indecisão: eu ardia de raiva! Agora, ela trazia enciclopédias em couro genuíno, gravado a ouro de vinte e quatro quilates! Livros assim deviam custar mais de mil dólares - talvez dois ou três mil! Por que ela não depositava aquele dinheiro no nosso fundo de fuga? Tive ímpetos de berrar e protestar como Carrie, mas algo nos olhos azuis de Chris me fez continuar calada. Ele sempre quisera possuir uma enciclopédia encadernada em couro genuíno vermelho e mamãe a encomendara para ele; agora, o dinheiro já não tinha significado para ela. E talvez apenas talvez - o avô morresse hoje ou amanhã e ela não precisasse alugar um apartamento ou comprar uma casa.

Mamãe pressentiu minhas dúvidas.

Mamãe ergueu a cabeça numa atitude régia e se voltou para a porta. Não abrira nossos presentes e não pretendia ficar para ver nossas reações. Por que eu chorava intimamente, quando a odiava? Eu não mais a amava... Não mesmo.

Depois de abrir a porta ela disse:

- Quando vocês tiverem pensado melhor na dor que me causaram hoje e puderem tratar-me novamente com amor e respeito, eu voltarei. Não antes disso.

Assim ela chegou.

E assim se foi.

Assim ela chegara e partira, sem tocar em Carrie e Cory, sem beijá-los nem mal falar com eles, mas lhes dirigindo um olhar. E eu sabia por que motivo: ela não suportava olhar e ver o que ganhar uma fortuna estava custando aos gêmeos.

Os dois pularam da mesa e correram para mim, agarrando-se à minha saia e fitando-me o rosto. Seus rostinhos estavam torturados por ansiedade e temor, estudando minha expressão como se também ficassem felizes se eu me sentisse feliz. Ajoelhei-me para dar-lhes todos os beijos e carinhos que ela esquecera – ou se sentira incapaz de dar aos filhos a quem causara tantos males.

- Estamos esquisitos? - indagou Carrie, preocupada, segurando-me as mãos.

- Não; claro que não. Você e Cory estão apenas pálidos, por não saírem ao sol.

- Crescemos muito?

- Sim, sim; claro que cresceram.

E sorri, mesmo enquanto mentia. Simulando alegria e usando aquele sorriso falso à guisa de máscara, sentei-me no chão com os gêmeos e Chris. Juntos, começamos os quatro a abrir nossos presentes, como se fosse dia de Natal. Todos os presentes embrulhados com papéis finos caros, ou com papel aluminizado cor de prata e de ouro, e amarrados com vistosos e enormes laços de cetim de todas as cores.

Rasgar os papéis, jogar fora as fitas e laços, arrancar as tampas das caixas, retirar o papel de seda... ver todas aquelas roupas lindas para cada um de nós. Olhar os livros novos... hurra! Examinar os novos brinquedos, os jogos, os quebra-cabeças... hurra! Oh, meu Deus, que enorme caixa com balas recobertas de açúcar, no formato de folhas!

Ali, ante nossos olhos, estava a demonstração da preocupação dela. Admito que ela nos conhecia bem: nossos gostos, nossos passatempos prediletos, nossos tamanhos para roupas. Com os presentes, pagava-nos por todos aqueles meses longos e vazios em que fôramos deixados aos cuidados da bruxa avó, que muito gostaria de nos ver mortos e enterrados.

E ela sabia que tipo de mãe tinha - sabia!

Por meio de jogos, brinquedos e quebra-cabeças, procurava subornar-nos e obter nosso perdão por fazer algo que - no fundo da alma - sabia ser errado.

Por meio de balas e doces, esperava tirar de nossas bocas, corações e mentes o amargo da bílis da solidão. Era evidente que, ao seu modo de ver as coisas, ainda não passávamos de crianças - embora Chris já precisasse barbear-se e eu necessitasse de um sutiã... Ainda crianças... e ela nos manteria sempre crianças, como bem indicavam os títulos dos livros que trouxera para nós. Livros que já lera muito tempo atrás. Contos de fadas dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen - que conhecíamos de cor. E Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre - outra vez? Por que ela não fazia uma lista dos livros que já lêramos? Dos que já tínhamos recebido?

Consegui sorrir ao enfiar pela cabeça de Carrie um novo vestido vermelho e atar-lhe no cabelo uma fita roxa. Agora, ela estava usando, como sempre desejara, suas cores prediletas. Calcei-lhe meias roxas e novos tênis brancos.

- Você está linda, Carrie.

E, de certa maneira, estava mesmo linda de tão feliz por ter roupas tão brilhantes e adultas, com as cores da realeza.

Em seguida, ajudei Cory a vestir as calças curtas de um tom vermelho brilhante e uma camisa branca com monograma vermelho bordado no bolso; o nó da gravata ficou a cargo de Chris, que aprendera com papai havia muito tempo.

- Agora, devo vestir você, Christopher? - indaguei com sarcasmo.

Ele replicou maliciosamente:

- Se você quiser, fico nu para que possa me vestir.

- Não seja indecente!

Cory tinha um novo instrumento para tocar - um banjo! Oh, Deus, como ele tanto desejava ganhar um banjo! Ela se lembrara. Os olhos de Cory faiscavam:

- Oh, Suzana, não chore por mim,

Pois eu vou pro Alabama,

Tocando bandolim...

Cory tocava a melodia e Carne cantava a letra. Era uma das músicas alegres prediletas de Cory e ele sabia tocá-la na guitarra, mas não conseguia tirar dela o som adequado. No banjo, ficava perfeita. Deus dotara Cory de dedos mágicos para a música.

Deus me dotara de pensamentos malvados que me tiravam o prazer de tudo. De que adiantavam roupas lindas se ninguém as via? Eu queria coisas que não vinham embrulhadas em papéis bonitos e amarrados com fitas de cetim na caixa de um loja cara. Eu desejava coisas que o dinheiro não podia comprar. Teria ela notado meus cabelos cortados tão rente na testa? Percebera o quanto estávamos magros? Achara-nos saudáveis apesar da palidez de nossa pele fina?

Pensamentos amargos, ruins, enquanto eu enfiava um doce na boca ávida de Carrie, depois outro na de Cory e, afinal, um na minha. Olhei raivosamente para as lindas roupas destinadas a mim. Um belo vestido de veludo, próprio para ser usado numa festa. Um conjunto rosa e azul de camisola e pegnoir com chinelas combinando. Fiquei sentada, com o doce derretendo na boca, e senti o gosto azedo do nó que havia na minha garganta. Enciclopédias! Íamos passar o resto da vida ali dentro?

Não obstante, doce feito com açúcar de bordo era o meu predileto; sempre fora. Ela trouxera aquela caixa de doces para mim, para mim - e só consegui engolir um pedaço, mesmo assim com grande dificuldade.

Cory, Carne e Chris estavam sentados no chão, com a caixa de doces no centro do triângulo que formavam. Enfiavam um pedaço atrás do outro na boca, risonhos e satisfeitos.

- Vocês deviam economizar esse doce - admoestei com amarga antipatia. - Talvez seja a última caixa de doces que verão durante muito, muito tempo.

Chris olhou para mim; seus olhos azuis brilhavam de felicidade. Era fácil perceber que toda a sua fé e confiança haviam sido restaurados por uma única rápida visita, de mamãe. Por que ele não entendia que os presentes não eram mais que um disfarce, para ocultar o fato de que ela já não se importava conosco? Por que não percebia - como eu - que já não éramos para ela tão reais quanto fôramos outrora? Agora, éramos apenas mais um daqueles assuntos desagradáveis sobre os quais as pessoas evitam conversar, como os ratos no sótão.

- Fique aí sentada, agindo como tola - disse Chris respingando sua felicidade. - Prive-se do doce enquanto nós três satisfazemos nosso apetite por açúcar antes que os camundongos comam tudo. Cory, Carrie e eu vamos escovar os dentes enquanto você fica aí sentada, chorando, sentindo pena de si mesma e fazendo de conta que poderá alterar nossa situação à custa de sacrificar-se. Vamos, Cathy! Chore! Faça papel de mártir! Sofra! Bata com a cabeça na parede! Grite! E continuaremos aqui até que o avô morra e todo o doce tenha acabado há muito tempo.

Detestei-o por zombar de mim! Levantei-me de um salto, corri para o lado oposto do quarto, virei-me de costas para eles e experimentei minhas roupas novas. Enfiei pela cabeça, um atrás do outro, três lindos vestidos. Abotoei-os facilmente na cintura, onde ficavam um pouco folgados. Todavia, o zíper não se fechava nas costas ao chegar à altura do busto. Despi o terceiro vestido e procurei as barbatanas do corpete. Nenhuma! Ela comprara para mim vestidos de menina - roupas infantis, demonstrando de forma gritante que ela se recusava a enxergar! Atirei os três vestidos no chão e pisoteei-os, amarrotando o veludo azul de tal forma que nunca mais poderia ser devolvido à loja.

E Chris continuava sentado no chão, em companhia dos gêmeos, parecendo diabólico e rindo com um encanto travesso e juvenil que também me faria rir - se eu permitisse.

- Faça uma lista de compras - pilheriou. - Já é tempo de começar a usar sutiã e parar de sacudir-se toda por aí. E, uma vez que está com a mão na massa, tome nota de comprar também cinta.

Senti ímpetos de esbofetear aquele rosto sorridente! Meu abdome era uma caverna oca. E se minhas nádegas eram arredondadas e firmes, isso se devia aos exercícios e não à gordura!

- Cale a boca! - berrei. - Por que preciso fazer uma lista de compras ou pedir alguma coisa a mamãe? Se ela realmente olhasse para mim, saberia que tipo de roupas que tenho e o que deveria usar! Como posso saber que tamanho de sutiã devo pedir? E não preciso de cinta! Você é que precisa de uma sunga, e de ter na cabeça um tipo de bom senso que não consta dos livros!

Fitei-o raivosamente, satisfeita ao ver sua expressão de atordoamento.

- Christopher! - gritei, incapaz de controlar-me. - Às vezes odeio mamãe! E não é só isso, às vezes odeio você também! Às vezes, odeio todo mundo, sobretudo eu mesma! Às vezes, gostaria de estar morta, porque seria melhor do que estar enterrada viva aqui neste quarto! Não passamos de vegetais que andam, falam e estão apodrecendo!

Meus pensamentos secretos tinham sido expulsos, vomitados como lixo, fazendo com que ambos os meus irmãos se encolhessem, empalidecendo. E minha irmãzinha tornou-se ainda menor, começando a tremer. Logo que as palavras me escaparam da boca, tive vontade de engoli-las de volta. Embora quase morta de vergonha, fui incapaz de pedir desculpas e retirar o que dissera. Girei nos calcanhares, correndo na direção do armário embutido, procurando a porta alta e estreita que me levaria à escada do sótão. Quando me magoava - e isso acontecia com freqüência - eu corria para a música, as roupas e sapatilhas de balé, nas quais eu podia girar e pular, dançando para afogar meus problemas. E em algum lugar daquele mundo vermelho imaginário onde eu piruetava loucamente, num esforço desvairado e desesperado para me exaurir até ficar insensível, eu via aquele homem - sombrio e distante, meio escondido por detrás das grandes colunas brancas que se elevavam até o céu cor-de-púrpura. Ele dançava comigo um apaixonado pas-de-deux sempre afastado de mim por mais que eu procurasse aproximar-me e lançar-me em seus braços, onde eu me sentiria protegida e amparada... e com ele eu finalmente encontraria um lugar seguro onde viver e amar.

De repente, a música acabou. Vi-me de volta ao sótão abafado e poeirento, no chão, com uma perna sob o corpo. Eu caíra! Quando tentei levantar-me com grande esforço, mal consegui firmar o pé no chão. Meu joelho doía tanto que lágrimas de outra espécie me saltaram aos olhos. Manquei através do sótão, chegando à sala de aulas, sem me importar se danificara irremediavelmente o joelho, para o resto da vida. Escancarei uma janela e passei para o telhado escuro. Cheia de dor, desci lentamente o forte declive, só parando quando cheguei à beirada das calhas entupidas de folhas secas. Lá embaixo, bem longe, ficava o solo. Com lágrimas de dor e autocomiseração escorrendo pelo rosto e toldando-me a visão, fechei os olhos e - deixei-me vacilar para perder o equilíbrio. Num minuto tudo estaria terminado e eu ficaria estendida sobre as roseiras espinhentas.

A avó e mamãe poderiam alegar que alguma menina desconhecida e idiota subira ao telhado e caíra acidentalmente. Mamãe choraria ao ver-me morta e quebrada, estendida num caixão ainda trajando a malha e o saiote de bailarina azuis. Então, dar-se-ia conta do que fizera, desejaria ter-me de volta, destrancaria a porta para libertar Chris e os gêmeos, permitindo que tomassem a viver de verdade.

Este era o lado dourado da moeda do suicídio.

Mas tive que virá-la para ver o lado manchado de azinhavre. E se eu não morresse? Se eu caísse e as roseiras me amortecessem a queda, deixando-me aleijada e cheia de cicatrizes pelo resto da vida?

Por outro lado, porém, se eu realmente morresse e mamãe não chorasse, não sentisse tristeza ou remorso, mas apenas alegria por ver-se livre de uma peste como eu? Como Chris e os gêmeos conseguiriam sobreviver sem que eu lá estivesse para cuidar deles? Quem faria o papel de mãe para os gêmeos, prodigalizando-lhes a afeição que Chris era às vezes incapaz de demonstrar de modo tão expansivo quanto eu? Quanto a Chris... talvez ele pensasse que não precisava realmente de mim, que livros e a nova enciclopédia encadernada em couro genuíno vermelho gravado a ouro de vinte e quatro quilates bastassem para tomar meu lugar. Quando ele se formasse em medicina e passasse a usar um "Doutor" antes do nome, isto seria o suficiente para satisfazê-lo pelo resto da vida. Contudo, eu sabia que nada daquilo seria o bastante se eu não estivesse a seu lado. E fui salva da morte pela minha capacidade de enxergar os dois lados da moeda.

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