A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Afastei-me cegamente da beira do telhado, sentindo-me tola e infantil, mas ainda chorando. Meu joelho doía tanto que fui obrigada a rastejar pelo telhado, subindo até nosso lugar especial perto da chaminé, onde duas águas do telhado se encontravam para formar um canto seguro. Deitei-me de costas e fitei o céu cego e indiferente. Duvidei que Deus morasse lá em cima; também duvidei que o paraíso fosse lá.

Deus e o paraíso estavam lá embaixo, no solo, nos jardins, nas florestas, nos parques, nas praias, nos lagos, em percorrer as estradas indo para algum lugar!

O inferno era exatamente ali, onde eu estava, perseguindo-me insistentemente, tentando derrotar-me e transformar-me no que minha avó me julgava - filha do Demônio.

Fiquei deitada no duro e frio telhado de ardósia até que a noite chegou e a lua apareceu, as estrelas cintilando raivosamente para mim, como se soubessem o que eu realmente era. Trajava apenas uma roupa de bailarina: malha e um daqueles ridículos saiotes rendados.

Arrepios de frio encresparam-me a pele dos braços, mas permaneci onde estava a fim de planejar a minha vingança - minha vingança contra todos os que me haviam transformado de boa em má, fazendo de mim o que eu passaria a ser daquele dia em diante. Convenci-me de que ainda chegaria o dia em que minha avó e minha mãe estariam à minha mercê... e eu brandiria o açoite, manipularia o piche e controlaria o suprimento de comida.

Tentei pensar no que faria exatamente com elas. Qual era o castigo adequado? Deveria trancá-las, ambas, e jogar a chave fora? Matá-las de fome, como haviam tentado fazer comigo?

Um leve ruído interrompeu o fluxo sombrio e tortuoso de meus pensamentos. Na escuridão do início da noite, Chris chamou baixinho o meu nome. Parecia hesitante. Eu não precisava dele - não precisava de ninguém. Ele me decepcionara ao não compreender e, agora, eu não necessitava dele. Não mais.

Não obstante, Chris se aproximou e deitou-se a meu lado. Trouxera consigo um pesado capote de lã e o estendeu sobre mim sem dizer uma palavra. Como eu, fitou o céu frio e sinistro. Um silêncio prolongado e amedrontador pairou entre nós. Nada havia em Chris que eu realmente detestasse ou mesmo não gostasse; tive uma vontade imensa de me virar de lado para lhe dizer isso e agradecer-lhe ter trazido o capote para mim, mas não consegui dizer uma só palavra. Queria que ele soubesse que me arrependia de haver agredido verbalmente tanto ele como os gêmeos, quando só Deus sabia que não precisávamos de outro inimigo além dos que já tínhamos. Meus braços, tremendo sob a quentura do capote, ansiavam por abraçá-lo e reconfortá-lo, como tantas vezes ele fizera comigo quando eu despertava de mais um pesadelo. Entretanto, só consegui permanecer deitada e esperar que ele compreendesse que me sentia como que amarrada em nós cegos.

Chris era capaz de sempre acenar a bandeira branca em primeiro lugar e lhe serei sempre grata por isso. Numa voz estranha e rouca, que parecia vir de muito longe, informou que os gêmeos e ele já. tinham jantado, mas minha porção estava separada.

- E só fingimos comer o doce todo, Cathy. Ainda sobrou muito para você.

Doce. Ele vinha falar de doce! Ainda vivia num mundo infantil em que doce representava algo suficiente para fazer calar o choro? Eu amadurecera mais e perdera o entusiasmo pelos deleites infantis. Desejava o que todos os adolescentes queriam - liberdade para desenvolver-me até ficar adulta, liberdade para assumir o completo controle de minha vida! Embora desejasse dizer isso a Chris, minha voz secara com as lágrimas.

- Cathy... o que você disse... nunca mais diga coisas tão feias e sem esperanças.

- Por que não? - repliquei, engasgada. - Cada palavra que eu disse é verdadeira. Só exprimi o que sinto no íntimo, desabafei o que você mantém escondido. Bem, continue a esconder-se de si mesmo e constatará que todas as verdades se transformam em ácidos que nos corroem interiormente!

- Nunca desejei estar morto! - exclamou ele, com a voz rouca de quem sofre de um resfriado permanente. - Nunca mais diga isso, ou pense na morte! Claro que tenho dúvidas e desconfianças ocultas dentro de mim, mas trato de rir, brincar, e me obrigo a acreditar, porque desejo sobreviver. Se você se matasse, levar-me-ia também. E logo os gêmeos nos seguiriam, pois quem cuidaria deles como verdadeira mãe?

Aquilo me fez rir. Foi um riso duro, metálico, feio - duplicando o riso de minha mãe quando ela se sentia amarga.

- Ora, Boneco Christopher, lembre-se de que temos uma mãe carinhosa e dedicada que, acima de tudo, pensa em nossas necessidades. Restaria ela para cuidar dos gêmeos.

Então, Chris virou-se para mim, segurando-me pelos ombros.

- Detesto quando você fala assim, como ela também fala às vezes. Acha que não sei que você é mais mãe para Cory e Carrie do que ela tem sido? Acha que não percebi que os gêmeos se limitaram a olhá-la como se fosse uma desconhecida? Cathy, não sou estúpido nem cego. Sei que mamãe cuida de si primeiro e pensa em nós depois.

A velha lua estava no céu para iluminar-lhe as lágrimas. Sua voz em meu ouvido soara áspera, abafada, vindo do fundo de seu íntimo.

Chris dissera tudo aquilo sem amargura, apenas com tristeza - da forma direta e sem emoção que os médicos empregam para informar um paciente de que está desenganado.

Então, a sensação me engolfou como uma onda cataclísmica: eu amava Chris - e ele era meu irmão! Ele me completava, dava-me o que me faltava, proporcionando-me estabilidade quando eu tinha ímpetos de me entregar ao frenesi e ao desvario. Que modo perfeito de me vingar de mamãe e dos avós! Deus não veria - fechara os olhos a tudo no dia em que Cristo foi crucificado. Mas papai estava lá em cima, observando-nos, e encolhi-me de vergonha.

- Olhe para mim, Cathy. Por favor, olhe para mim.

- Eu não falei sério, Chris; no duro que não falei sério. Você sabe como sou melodramática, desejo viver, tanto quanto qualquer pessoa, mas tenho muito medo de que algo nos aconteça, o tempo todo trancados. Por isso digo coisas horríveis só para sacudir você e obrigá-lo a enxergar. Oh, Chris, morro de vontade de estar cercada de gente. Quero ver novas caras, novos ambientes. Morro de medo pelos gêmeos. Quero sair para fazer compras, montar a cavalo, fazer tudo o que somos impedidos de fazer aqui.

Na escuridão, deitados no telhado íngreme, procuramo-nos instintivamente. Abraçamo-nos como se fôssemos uma só pessoa, nossos corações batendo com força um de encontro ao outro. Não choramos, não rimos. Já não havíamos chorado um oceano de lágrimas? E de nada adiantara. Já não havíamos rezado um milhão de orações e aguardando em vão o auxílio que não se materializava? E se as lágrimas não adiantavam e nossas preces não eram escutadas, como poderíamos chegar até Deus e obrigá-lo a fazer algo por nós?

- Chris, eu já disse uma vez e vou dizer novamente: precisamos tomar a iniciativa. Papai não dizia sempre que Deus ajuda a quem cedo madruga?

Com o rosto colado ao meu, ele refletiu durante longo tempo.

- Pensarei no assunto, embora, como disse mamãe, talvez herdemos todo aquele dinheiro a qualquer momento.
A Surpresa de Nossa Mãe
A cada dia dos dez que se passaram antes da visita seguinte de mamãe, Chris e eu especulávamos horas a fio a respeito do motivo pelo que ela viajara para a Europa, demorando-se tanto tempo e, sobretudo - qual era a grande novidade que ela reservava para nós?

Consideramos aqueles dez dias como mais uma forma de punição. Pois era mesmo uma punição, um castigo, sabermos que ela estava na mesma casa e apesar disso, era capaz de ignorar-nos e deixar-nos trancados, como se fôssemos mesmo camundongos do sótão.

Portanto, quando ela finalmente apareceu, após todo aquele tempo, estávamos completamente castigados e muito temerosos de que ela jamais tornasse a aparecer caso Chris e eu mostrássemos mais alguma hostilidade ou repetíssemos nossas exigências no sentido de sermos libertados. Permanecemos calados e tímidos, resignados com nosso destino. O que faríamos se ela nunca mais voltasse? Não podíamos fugir utilizando a "escada" feita de lençóis rasgados - não quando os gêmeos ficavam histéricos com o simples fato de saírem para o telhado.

Assim sendo, sorrimos para mamãe e não dissemos uma só palavra de queixa. Não lhe perguntamos qual o motivo que a levara a castigar-nos mais uma vez ao manter-se afastada durante dez dias, quando já ficara ausente durante meses. Aceitamos o que ela estivesse disposta a dar-nos. Fomos obedientes, como ela afirmara ter aprendido em relação a seu pai; portamo-nos como seus filhos disciplinados, obedientes e passivos. E, o que é mais, ela gostou de nós assim. Voltamos a ser seus "queridos" carinhosos e ternos.

Já que nos mostramos tão bem comportados, carinhosos e a aprovamos de forma tão respeitosa e aparentemente confiante, ela decidiu que o momento era propício para soltar a sua bomba.

- Queridos, alegrem-se por mim! Estou tão feliz!

Riu e rodou sobre si mesma, abraçando-se pelo busto, amando seu próprio corpo - ou, pelo menos, essa foi minha impressão.

- Adivinhem o que aconteceu... Vamos, adivinhem!

Chris e eu nos entreolhamos.

- Nosso avô morreu - disse Chris cautelosamente, enquanto meu coração dava cambalhotas, preparando-se para pular de verdade se ela confirmasse a boa nova.

- Não! - replicou ela bruscamente, como se sua felicidade houvesse diminuído.

- Foi levado para o hospital - arrisquei como segundo palpite.

- Não. Na realidade, agora já não odeio meu pai, de modo que não viria aqui para dizer a vocês que me alegro com a sua morte.

- Então, por que não nos dá logo a boa notícia? - indaguei com indiferença. - Nunca seremos capazes de adivinhar. Agora, não conhecemos bem a vida que você leva.

Ela ignorou minha insinuação e prosseguiu alegremente:

- O motivo pelo qual passei tanto tempo afastada e que foi tão difícil explicar a vocês... casei-me com um homem maravilhoso, um advogado de nome Bart Winslow. Vocês gostarão dele. E ele vai adorar vocês todos. É bonito, alto, atlético e tem cabelos escuros. E adora esquiar, como você, Christopher. Joga tênis e é inteligente, como você, querido.

Naturalmente, ela olhava para Chris.

- É encantador e todos gostam dele, inclusive meu pai. Fomos passar nossa lua-de-mel na Europa e os presentes que eu lhes trouxe foram comprados na Inglaterra, França, Espanha ou Itália.

E continuou a falar, interminavelmente, sobre o novo marido. Chris e eu permanecemos calados.

Desde a festa de Natal; Chris e eu comentáramos muitas vezes as nossas suspeitas. Por mais jovens que fôssemos na ocasião da festa, tínhamos discernimento bastante para compreender que uma mulher jovem, bela e tão necessitada de um homem como mamãe não deveria continuar viúva durante muito tempo. Não obstante, haviam-se passado quase dois anos sem um casamento, o que nos dera motivo para pensar que o homem bonito de cabelos escuros e basto bigode não era importante para mamãe - apenas um namorico passageiro, mais um dentre muitos pretendentes. E, no fundo de nossos corações ingênuos e tolos, convencemo-nos de que ela seria para sempre fiel e devotada à lembrança de nosso falecido pai - nosso pai louro de olhos azuis, belo como um deus grego, a quem ela amara tão desvairadamente a ponto de fazer o que fizera: casar-se com um parente tão próximo.

Fechei os olhos e procurei não escutar sua detestada voz, que nos anunciava o fato de que outro homem tomara o lugar de papai. Agora, ela era esposa de outro homem, um tipo de homem totalmente diferente, que estava em sua cama e dormia com ela, e passaríamos a vê-la ainda menos. Oh, meu bom Deus, quanto tempo ainda ia durar aquilo?

A notícia e o tom da voz dela fizeram nascer em meu peito um pequeno pássaro cinzento - o pânico - que se debatia desesperadamente na gaiola de minhas costelas... querendo sair, sair, sair!

- Por favor - implorou mamãe, enquanto seus sorrisos e risadas, alegria e felicidade, lutavam por sobreviver na atmosfera estéril e desolada de nossa reação à notícia. - Tentem compreender e sentir alegria por mim. Vocês sabem que eu amava seu pai, mas ele se foi e há muito tempo; eu precisava amar alguém e necessitava de algum que me amasse.

Vi Chris abrir a boca para dizer que a amava, que nós todos a amávamos; entretanto, ele comprimiu os lábios, compreendendo - como eu - que a espécie de amor a que ela se referia não era o dos filhos. E eu não a amava mais. Nem mesmo tinha certeza de gostar dela, agora. Contudo, consegui sorrir, simular, pronunciar as palavras para que os gêmeos não se assustassem com a expressão de meu rosto:

- Sim, mamãe, alegro-me por você. É bom saber que encontrou alguém para amá-la outra vez.

- Ele está apaixonado por mim há muito tempo, Cathy - prosseguiu ela rapidamente, encorajada e sorrindo confiantemente. - Embora estivesse firmemente decidido a continuar solteiro. E não foi fácil convencê-lo de que precisava de uma esposa. E seu avô nunca desejou que eu me casasse pela segunda vez, como outra punição pelo mal que cometi ao casar-me com o pai de vocês. Mas ele gosta de Bart e, depois que insisti muito, ele permitiu que eu me casasse com Bart e continuasse a ser sua herdeira.

Fez uma pausa para morder o lábio inferior. Depois, engoliu em seco, nervosa. Os dedos ornados de anéis subiram ao pescoço para brincar com o colar de pérolas verdadeiras que ela usava, traindo assim todos os trejeitos de uma mulher angustiada que, apesar de tudo, ainda conseguia sorrir.

- Naturalmente, não amo Bart tanto quanto amava o pai de vocês.

Hah! Com que voz fraca declarou isso! Seus olhos faiscantes e a pele radiante revelavam um amor tão grande como ela nunca sentira antes. Suspirei. Pobre papai.

- Os presentes que você nos trouxe, mamãe... nem todos eles vieram da Europa ou das Ilhas Britânicas. Aquela caixa de doces veio de Vermont. Vocês também estiveram em Vermont? Ele é de lá?

O riso foi vibrante de prazer, desinibido e até mesmo um pouco sensual, como se Vermont tivesse grande significação para ela.

- Não, Bart não é de Vermont, Cathy. Mas tem uma irmã que mora lá e passamos um fim de semana com ela antes de viajarmos para a Europa. Foi lá que comprei o doce, pois sei como você gosta dele. Bart tem duas outras irmãs que moram no Sul. Ele é de uma pequena cidade da Carolina do Sul... Greenglena, Grenglenna, ou algo semelhante. Mas passou tanto tempo na Nova Inglaterra, onde se formou na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, que fala mais como nortista que como sulista. Vermont é tão lindo no outono; cheguei a perder o fôlego, de verdade. Naturalmente, quando as pessoas estão em lua-de-mel, não desejam a companhia de terceiros. Por isso, fizemos uma visita rápida à irmã de Bart e sua família, e passamos algum tempo no litoral.

Lançou um rápido olhar de esguelha aos gêmeos e logo o colar de pérolas foi torcido a ponto de parecer prestes a arrebentar. Aparentemente, os colares feitos com pérolas verdadeiras são mais fortes que os de imitação.

- Gostou dos barquinhos que eu lhe trouxe, Cory?

- Sim, senhora - replicou o menino de modo muito educado, continuando a encará-la com os olhos grandes e rodeados por sombrias olheiras, como se ela fosse uma desconhecida.

- Carrie, querida... as bonequinhas, eu as comprei para você na Inglaterra, a fim de aumentar sua coleção. Tentei encontrar outro berço, mas parece que já não fabricam mais berços para casas de bonecas.

- Tudo bem, mamãe - disse Carrie, fitando o chão. - Chris e Cathy fizeram para mim um berço de papelão e gosto muito dele.

Oh, Deus, será que ela não via?

- Seu marido sabe a respeito de nós? - indaguei, muito séria.

Chris fitou-me raivosamente por ter feito a pergunta, parecendo dizer-me silenciosamente que, naturalmente, nossa mãe não era falsa e nem deixaria de contar ao novo marido que tinha quatro filhos escondidos - que alguém considerava filhos do Demônio.

Mais uma vez, as sombras toldaram a felicidade de mamãe. Mais uma vez, eu fizera uma pergunta inadequada.

- Ainda não, Cathy. Todavia, logo que papai morrer eu falarei com Bart a respeito de vocês quatro. Explicarei nos mínimos detalhes. Ele entenderá; é bondoso e delicado. Vocês gostarão dele.

Ela já dissera isto mais de uma vez. E eis ali mais uma coisa que teria que esperar pela morte do velho.

- Cathy, pare de me olhar assim! Eu não podia contar a Bart antes do casamento! Ele é o advogado de seu avô. Eu não podia permitir que tomasse conhecimento de meus filhos. Ainda não. Só depois que o testamento for lido e o dinheiro esteja em meu nome.

Eu tinha na ponta da língua as palavras para dizer que um homem tinha o direito de saber que sua futura esposa tinha quatro filhos do primeiro casamento. Oh, como eu desejava dizer isso! Mas Chris me olhava ferozmente e os gêmeos estavam muito juntos, encolhidos, os grandes olhos azuis fixados no aparelho de televisão. E eu não sabia se devia falar ou ficar calada. Pelo menos, quando se fica calado não se adquire novos inimigos. Além disso, talvez mamãe tivesse razão. Oh, Deus, permita que ela esteja certa. Deixe que minha fé seja renovada: Deixe-me acreditar que ela não é bonita apenas por fora, mas por dentro também.

Deus não estendeu o braço para pousar em meu ombro a mão cálida e reconfortante. Permaneci sentada e calada, compreendendo que minhas suspeitas esticavam ao máximo a corda entre nós.

Amor. Com que freqüência essa palavra aparecia nos livros. Insistentemente. Quando a pessoa tinha riqueza, saúde, beleza, talento... não tinha nada se não tivesse amor. O amor transformava tudo o que era comum em algo maravilhoso, poderoso, embriagador, encantador.

Esse era o caminho seguido pelos meus pensamentos num dia de início do inverno, quando a chuva fustigava o telhado e os gêmeos, sentados no chão do quarto, assistiam à televisão. Chris e eu estávamos no sótão, deitados lado a lado nos velhos colchões colocados perto das janelas da sala de aulas, lendo juntos um dos livros antigos que mamãe trouxera da grande biblioteca no andar térreo da mansão. Em breve o sótão estaria frio como um inverno polar, de modo que passávamos lá o maior tempo possível enquanto a temperatura ainda permitia. Chris gostava de correr os olhos pela página e logo virar para a seguinte. Eu preferia reler as frases mais bonitas, às vezes voltando atrás para tornar a lê-las. Discutíamos incessantemente a esse respeito.

- Leia mais depressa, Cathy! Você tenta absorver as palavras.

Hoje ele se mostrava paciente. Virou-se de costas e fitou o teto enquanto eu lia devagar, procurando e demorando-me nas frases belas e bem redigidas, absorvendo a sensação da era vitoriana, em que as pessoas usavam roupas tão lindas, falavam de modo tão elegante e encaravam o amor de forma tão profunda. Desde o primeiro parágrafo, a estória nos cativara com seu encanto místico e romântico. Cada página tecia vagarosa e elaboradamente um complicado entrecho envolvendo dois enamorados chamados Lily e Raymond, que se viam obrigados a sobrepujar obstáculos monumentais para encontrarem e alcançarem o mágico lugar onde todos os sonhos se transformam em realidade. Oh, Deus, como eu desejava encontrar aquele lugar! Então, descobri a tragédia da vida deles. Durante todo o tempo eles haviam pisado sobre a mágica grama cor de púrpura... Imaginem! Todo o tempo naquele lugar mágico e nunca tinham baixado o olhar para constatar isso. Eu detestava finais infelizes! Fechei raivosamente o detestável livro e o joguei contra a parede.

- É a estória mais estúpida, tola, ridícula! - exclamei furiosa para Chris, como se este fosse o autor do livro. - Não importa quem eu amar, aprenderei a perdoar e esquecer! - prossegui, gritando acima do barulho da tempestade que rugia lá fora, eu e a intempérie pulsando no mesmo ritmo crescente. - Ora, por que não poderia ser escrito de modo diferente? Como é possível duas pessoas inteligentes flutuarem com a cabeça nas nuvens, sem entenderem que ignorar a realidade sempre pode trazer má sorte? Nunca, nunca serei como Lily! Nem como Raymond! Tolos idealistas, que não têm o bom senso suficiente para olharem ocasionalmente o chão onde pisam!

Meu irmão pareceu divertir-se com o fato de eu levar tão a sério uma estória de ficção. Depois, reconsiderando, olhou pensativamente a chuva torrencial que caía lá fora.

- Talvez os enamorados não devem olhar para o chão. Esse tipo de estória é narrado através de símbolos: a terra representa a realidade, e a realidade representa frustrações, moléstias fortuitas, morte, homicídio, e todas as outras espécies de tragédias. Os enamorados devem olhar para o céu, pois lá em cima as belas ilusões não podem ser destroçadas.

Carrancuda, amuada, encarei-o pensativamente.

- Quando eu me apaixonar, erguerei uma montanha que tocará o céu - comecei. - Então, o meu amado e eu teremos o melhor que existe em ambos os mundos: a firme realidade sob nossos pés, a cabeça nas nuvens a fim d mantermos intactas todas as nossas ilusões. E a grama cor-de-púrpura crescerá por todos os lados, chegando-nos à altura dos olhos.

Chris riu, abraçou-me e beijou-me de leve, com ternura, os olhos muito suaves e carinhosos no ambiente turvo e frio do sótão.

- Oh, sim, a minha Cathy seria capaz disso: manter todas as suas fantasiosas ilusões, dançando na grama cor-de-púrpura da altura de seus olhos, usando roupas feitas com nuvens. Saltaria, fazendo piruetas, até que seu desajeitado amante também aprendesse a dançar com tanta graça quanto ela.

Vendo-me colocada em areia movediça, pulei depressa para terreno mais firme:

- Contudo, é uma estória bonita, a seu modo peculiar. Fico muito triste por Lily e Raymond terem que levar vidas separadas, quando poderia ter sido de outro modo. Quando Lily contou a Raymond toda a verdade, afirmando que fora virtualmente violentada por aquele homem horrível, Raymond não devia acusá-la de seduzi-lo! Ninguém em seu juízo perfeito pensaria em seduzir um homem que tivesse oito filhos.

- Oh, Cathy, às vezes você é mesmo demais!

A voz de Chris pareceu-me mais profunda que de costume ao dizer isso. Seu olhar delicado passeou-me vagarosamente pelo rosto, demorando-se nos lábios depois descendo para o busto e as pernas vestidas com a malha branca de bailarina. Sobre a malha eu usava uma saia curta de lã e um suéter também de lã. Então, o olhar de Chris tornou a subir, até se encontrar com meus olhos surpresos. Corou quando continuei a encará-lo e, pela segunda vez naquele dia, desviou o rosto para o lado. Eu estava bastante próxima dele para ouvir-lhe o coração bater cada vez mais depressa. E, de repente, as batidas de meu coração também se aceleraram, entrando no mesmo ritmo que o dele. Chris lançou-me um olhar de esguelha. Nossos olhos se encontraram. Encaramo-nos. Ele riu nervosamente, tentando disfarçar, fingindo que nada daquilo poderia ser sério.

- Você estava certa no início, Cathy. Uma estória estúpida, tola. Ridícula! Só gente louca morreria por causa de amor. Aposto cem contra um que essa besteira romântica foi escrita por uma mulher!

Pouco antes eu desprezara o autor por ter escrito um final tão infeliz, mas apressei-me em fazer sua defesa:

- T. M. Ellis bem poderia ser um homem! Embora eu duvide que qualquer escritora do século dezenove conseguisse publicar seus livros a menos que usasse iniciais ou um pseudônimo masculino. Por que todos os homens julgam que aquilo que é escrito pelas mulheres é banalidade, besteira, ou não passa de lixo imprestável! Os homens não têm idéias românticas? Não sonham com encontrar o amor perfeito? E, na minha opinião, Raymond era muito mais estúpido que Lily!

- Não me pergunte como são os homens! - esbravejou Chris com tanta amargura que chegou a parecer fora de si. Prosseguiu raivosamente: - Aqui em cima, vivendo como vivemos, como conseguirei saber algum dia o que um homem costuma sentir? Aqui em cima, sou proibido de ter idéias românticas. Tudo se limita a não fazer isto, não fazer aquilo, manter os olhos afastados, não ver o que desfila à minha frente, exibindo-se, fazer de conta que sou apenas um irmão desprovido de sentimentos e de emoções que não sejam infantis. Tenho a impressão de que algumas moças estúpidas pensam que um futuro médico não tem sexualidade!

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