A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Estendi a mão para tocar-lhe o braço.

- Chris - murmurei, quase chorando. - Acho que sei exatamente o que você precisa para senti-se homem.

- Sim - replicou ele, irritado. - E o que você pode fazer a respeito?

Agora, nem mesmo olhava para mim. Em vez disso, fixou o olhar no teto. Eu sofria por ele. Sabia o que o deprimia; Chris abria mão de seu sonho por minha causa, a fim de poder ser como eu e pouco se importar com o fato de herdarmos ou não uma fortuna. E para ser como eu, tinha que se tornar azedo, amargo, detestar todo mundo e desconfiar das motivações ocultas das outras pessoas.

Hesitante, estiquei o braço para acariciar-lhe os cabelos.

- Um corte de cabelo, é o que você precisa. Seu cabelo está bonito e comprido demais. Para sentir-se homem, tem que usá-lo mais curto. No momento, ele está parecido com o meu.

- E quem lhe disse que seu cabelo é bonito? - perguntou ele, com voz muito tensa. - Talvez fosse bonito antigamente, antes do piche.

No duro? Pois eu me lembrava perfeitamente das inúmeras ocasiões em que seu olhar dizia que meus cabelos eram mais que simplesmente bonitos. E lembrava-me, também, de sua expressão ao pegar a tesoura para cortar os cabelos tão delicados e quebradiços de minha testa. Cortou-os com tanta relutância que parecia estar amputando os próprios dedos e não apenas cabelos indolores. Então, um dia eu o surpreendera sentado ao sol que penetrava pela janela do sótão, manuseando compridas mechas do cabelo que cortara. Cheirou-as, passou-as no rosto, depois nos lábios, e guardou-as numa caixa que escondia sob o travesseiro.

Não foi fácil para mim forçar uma risada para iludi-lo e não revelar que o vira fazer aquilo.

- Oh, Christopher, seus olhos azuis são deveras expressivos. Quando escaparmos dessa prisão e estivermos livres no mundo, terei pena de todas as garotas que se apaixonarão por você. Em especial, terei pena de sua esposa, com um marido tão belo para encantar as clientes e induzi-las a namorá-lo. Se eu fosse sua esposa, seria capaz de matá-lo se soubesse que cometeu uma única infidelidade conjugal! Eu o amaria tanto, sentiria tanto ciúme... Seria até mesmo capaz de obrigá-lo a aposentar-se da medicina aos trinta e cinco anos de idade.

- Eu nunca disse que seu cabelo era bonito - replicou ele com rispidez, ignorando tudo que eu dissera.

Acariciei-lhe o rosto bem de leve, sentindo os fios que precisavam ser raspados.

- Não se mexa daí; vou buscar a tesoura. Sabe, faz muito tempo que não lhe corto o cabelo.

Por que me incomodar de cortar os cabelos de meus irmãos quando a nossa aparência não influía no tipo de vida que levávamos? Carrie e eu não aparávamos o cabelo desde que ali chegáramos. Só os cabelos de minha testa foram cortados como sinal de submissão a uma velha malvada e impiedosa.

Enquanto corria para buscar a tesoura, refleti como era esquisito que, embora nenhuma de nossas plantas crescessem, nossos cabelos cresciam depressa e com abundância. Parecia que em todos os contos de fadas que eu já lera as donzelas em perigo eram sempre louras, de cabelos compridos. Alguma morena já fora aprisionada numa torre - se um sótão pudesse ser considerado uma torre?

Chris sentou-se no chão. Ajoelhei-me atrás dele. Embora os cabelos lhe caíssem até abaixo dos ombros, ele não queria que eu os aparasse muito.

- Agora, devagar com essa tesoura - advertiu ele nervosamente. - Não corte demais de uma só vez. Sentir-me másculo de uma hora para outra nesse sótão, numa tarde chuvosa, pode ser perigoso - pilheriou sorrindo.

Então, soltou uma gostosa risada, exibindo dentes regulares, alvos e brilhantes. Eu conseguira trazê-lo de volta ao normal.

Imitando os barbeiros, prendi-lhe os cabelos com um pente e aparei-os, não me atrevendo a cortar mais que alguns milímetros de cada vez. Tinha uma imagem mental de como queria que ele ficasse - como alguém que eu admirava muito.

Quando terminei o serviço, escovei os pedaços de cabelos brilhantes que lhe haviam caído nos ombros e recuei para constatar que meu trabalho não fora nada mau.

- Pronto! - exclamei triunfante, satisfeita por ter dominado o que me parecia uma arte difícil. - Você não só está extremamente bonito, como também excepcionalmente másculo! Embora tenha sido sempre muito másculo, é uma pena que não tivesse consciência do fato.

Entreguei-lhe o espelho de prata com meu monograma gravado nas costas. O espelho representava um terço do conjunto de prata verdadeira que mamãe me dera como presente de aniversário: escova, pente e espelho - todos três cuidadosamente escondidos, para impedir que a avó tomasse conhecimento de que eu possuía valiosos objetos de vaidade e orgulho.

- Meu Deus! Você me deixou parecido com um Príncipe Valente louro! De início, não gostei, mas agora estou vendo que mudou um pouco o corte, de modo a não ficar tão quadrado. Fez o penteado em curva, para realçar-me o rosto. Muito obrigado, Catherine. Eu não imaginava que fosse tão hábil cabeleireira.

- Tenho muitos predicados que você ignora.

- Começo a desconfiar.

- E o Príncipe Valente devia ter a sorte de se parecer com meu irmão másculo, bonito e louro - brinquei, sem deixar de admirar minha obra de arte.

Oh, Deus, algum dia Chris partiria os corações femininos!

Ele colocou o espelho de lado, num gesto muito natural; antes que eu lhe adivinhasse a intenção, saltou sobre mim como um gato! Lutou comigo, arrastando-me de volta ao chão e, ao mesmo tempo, procurando agarrar a tesoura! Arrancou-a de minha mão e, depois, segurou um punhado do meu cabelo!

- Agora, minha bela, vamos verificar se não serei capaz de fazer o mesmo por você!

Gritei, aterrorizada!

Empurrei-o, jogando-o para trás, e me levantei de um pulo. Ninguém iria cortar um milímetro sequer de meu cabelo! Talvez ele agora estivesse liso e fino demais, talvez não fosse tão sensacional como antes, mas era todo o cabelo que eu possuía e, mesmo agora, mais bonito que o da maioria das jovens. Fugi, correndo, da sala de aulas. Passei pela porta que se abria para o imenso sótão, esgueirando-me por detrás de colunas, rodeando baús velhos, saltando mesinhas, pulando sobre poltronas e sofás cobertos com capas de pano. As flores de papel balançavam loucamente quando eu passava correndo e Chris me perseguia. As chamas das velas grossas e curtas que mantínhamos acesas durante o dia para alegrar e aquecer o vasto espaço frio e sombrio bruxuleavam à nossa passagem, quase se apagando.

E, por mais depressa que eu corresse, por mais astúcia que empregasse nas minhas esquivas, não conseguia livrar-me do perseguidor! Olhei por cima do ombro e nem consegui reconhecer-lhe o rosto - o que me amedrontou ainda mais. Estirando-se para diante, ele tentou agarrar os cabelos longos que esvoaçavam às minhas costas - parecendo muito decidido a cortá-los!

Chris passara a detestar-me? Por que gastara um dia inteiro tentando devotadamente salvar-me os cabelos? Apenas para ceifar minha beleza por mero divertimento?

Corri de volta na direção da sala de aulas, planejando chegar lá antes dele. Então, fecharia a porta com força, passando-lhe a chave; Chris voltaria ao normal e entenderia o absurdo da situação.

Talvez ele tenha pressentido minha intenção e dado mais velocidade às pernas compridas - pulou para a frente e agarrou minhas longas madeixas louras, fazendo-me gritar quando tropecei e caí de bruços!

Não caí sozinha: Chris também caiu - em cima de mim! Uma dor aguda penetrou-me o flanco! Berrei novamente - desta vez, não de terror mas de choque.

Chris estava em cima de mim, com as mãos apoiadas no chão, olhando-me com o rosto muito branco e amedrontado.

- Machucou-se? Oh, Deus! Você está bem, Cathy?

Eu estava bem? Movendo a cabeça, fitei o fluxo de sangue que me manchava rapidamente o suéter. Chris também viu. Seus olhos azuis ficaram vidrados, desvairados, consternados. Com dedos trêmulos, começou a desabotoar a frente do agasalho, a fim de abri-lo e examinar o ferimento.

- Oh, Deus... - sussurrou, antes de exalar um suspiro de alívio. - Puxa vida! Graças a Deus... Tive muito medo de que fosse um furo. Uma penetração profunda seria grave, mas é apenas um corte comprido, Cathy. É feio e sangra muito. Não mova um músculo! Fique onde está enquanto vou ao banheiro buscar remédios e curativos.

Primeiro, beijou-me no rosto e, em seguida, correu como um louco na direção da escada. Eu poderia ter ido com ele e poupado tempo, mas os gêmeos estavam no quarto e veriam o sangue. Bastaria isso para que começassem a berrar.

Chris voltou correndo, em poucos minutos, com o nosso estojo de pronto-socorro. Deixou-se cair de joelhos ao meu lado, com as mãos ainda úmidas da lavagem rápida que fizera no banheiro, apressado demais para enxugá-las direito.

Fiquei fascinada ao constatar que ele sabia exatamente o que fazer. Em primeiro lugar, dobrou uma toalha grossa e usou-a para comprimir o comprido talho. Parecendo muito sério e compenetrado, apoiou-se sobre a compressa, verificando a intervalos freqüentes se o sangue estancara. Quando isto aconteceu, Chris aplicou no corte um anti-séptico que ardia como fogo e doía mais que o ferimento.

- Sei que arde, Cathy... mas não posso evitar... tenho que usar isto para não haver infecção. Gostaria de ter materiais de sutura, mas talvez a cicatriz não seja permanente; rezo para que não seja. Seria tão bom que as pessoas pudessem atravessar a vida inteira sem sofrerem cortes no invólucro perfeito que trazem de nascença. E aqui estou eu, o primeiro a causar uma cicatriz em sua pele. Se você tivesse morrido por minha causa, o que poderia acontecer se a tesoura estivesse num ângulo diferente, eu também desejaria morrer. Terminara de fazer o papel de médico e enrolava meticulosamente o restante da gaze antes de tornar a embrulhá-la no papel azul e guardá-la de volta no estojo. Guardou também o esparadrapo e fechou a tampa da caixa.

Debruçado sobre mim, com o rosto acima do meu, seus olhos pareciam muito inquisitivos, preocupados, intensos. Olhos azuis, iguais aos de toda a família. Entretanto, naquele dia chuvoso, captavam as cores das flores de papel, transformando-se em duas límpidas poças iridescentes. Senti um nó na garganta, imaginando onde estaria o menino que eu conhecera, onde estaria meu irmão - e quem seria aquele jovem de barba loura que me fitava nos olhos de modo tão prolongado. Bastava aquele olhar para que eu mergulhasse numa espécie de encantamento. E maior que qualquer dor ou sofrimento pelos quais eu passara antes - ou passaria depois - foi a dor que me causou o sofrimento que divisei nas cores caleidoscópicas dos olhos torturados de meu irmão.

- Chris - murmurei, sentindo-me irreal, - Não me olhe assim. A culpa não foi sua.

Peguei-lhe o rosto entre as palmas das mãos e puxei-o de encontro ao seio, como vira mamãe fazer outrora.

- É apenas um arranhão que não dói (embora doesse terrivelmente). E sei que você não fez de propósito.

Ele replicou com voz rouca, engasgada:

- Por que você correu? Persegui-a porque correu. E estava apenas brincando. Seria incapaz de cortar um só fio de seus cabelos; foi só uma brincadeira. E você estava enganada ao dizer que achava seu cabelo bonito. É muito mais que bonito. Acho que você tem os cabelos mais lindos do mundo.

Senti uma punhalada no coração quando ele ergueu um pouco a cabeça, a fim de espalhar-me os cabelos, formando um leque que cobria o seio desnudo. Percebi que aspirava profundamente o meu cheiro. Permanecemos deitados em silêncio, escutando a chuva de inverno fustigar o telhado pouco acima de nossas cabeças. Silêncio profundo ao redor de nós. Sempre o silêncio. As vozes da natureza eram as únicas que nos chegavam até o sótão. E a natureza raramente falava num tom suave e amistoso.

A chuva no telhado foi diminuindo gradativamente até que o sol apareceu para incidir sobre nossos cabelos arrancando-lhes reflexos semelhantes a longos e faiscantes fios de brilhantes.

- Veja - disse eu a Chris. - Uma das tábuas do postigo da janela do oeste caiu.

- Ótimo - disse ele, parecendo sonolento e satisfeito. - Agora, teremos sol onde não tínhamos antes.

Então, acrescentou num sussurro:

- Estou pensando em Raymond e Lily; na busca que empreenderam pelo lugar onde crescia a grama cor-de-púrpura, onde todos os sonhos se tornam realidade.

- É mesmo? Sob certo aspecto, eu estava pensando na mesma coisa - repliquei, também num sussurro.

Torci incessantemente em volta do polegar uma mecha de seus cabelos louros, simulando não perceber que uma de suas mãos acariciava-me o seio que não ficara oculto sob sua cabeça. Uma vez que não protestei, ele se atreveu a beijar o bico do seio. Sobressaltei-me, espantada, sem saber por que razão aquilo me proporcionava uma sensação tão estranha, extraordinariamente excitante. O que era um bico de seio senão um montinho mais escuro na pele?

- Posso imaginar Raymond beijando Lily onde você me beijou - disse eu, sem fôlego, querendo que ele parasse e, ao mesmo tempo, desejando que continuasse. - Mas não consigo imaginá-los fazendo o que vem em seguida.

Palavras capazes de me fazerem a cabeça explodir. As palavras exatamente adequadas a fazê-lo fitar-me intensamente, com luzes estranhas faiscando nos olhos que pareciam mudar constantemente de cor.

- Cathy, sabe o que vem em seguida?

Senti o rosto esquentar.

- Sim; sei mais ou menos. Você sabe?

Ele deu uma risadinha seca, como se costuma ler nos romances.

- Claro que sei. No meu primeiro dia de escola, fui informado no banheiro dos meninos. Os mais velhos não sabiam falar de outra coisa. Escreviam nas paredes palavrões cujo significado eu desconhecia. Mas logo recebi explicações detalhadas. Garotas, beisebol, garotas, futebol, garotas, garotas, garotas. Só sabiam conversar sobre garotas e as diferenças que existiam entre elas e nós. É um assunto fascinante para a maioria dos rapazes e, suponho, dos homens também.

- Mas não é fascinante para você?

- Para mim? Não penso em garotas ou sexo, embora preferisse que você não fosse tão malditamente linda! E também ajudaria se você não estivesse sempre tão perto de mim, tão disponível.

- Então, você pensa em mim? Acha que sou bonita?

Um gemido abafado escapou-lhe dos lábios - mais como um lamento. Sentou-se num arranco, fitando o que meu suéter aberto deixava à mostra, pois o leque formado com meus cabelos se desfizera. Se eu não tivesse cortado a parte superior da malha de balé, ele não estaria vendo tanta coisa, mas eu fora obrigada a cortar o corpete justo demais para mim.

Com dedos trêmulos e desajeitados, Chris abotoou a frente do agasalho, mantendo os olhos desviados dos meus.

- Meta definitivamente uma coisa na cabeça, Cathy: é claro que você é bonita, mas irmãos não consideram as irmãs como garotas, nem sentem por elas qualquer tipo de emoção que não seja tolerância e afeição fraternal, e, às vezes, ódio.

- Quero que um raio me fulmine neste instante se você sentir ódio por mim, Christopher.

Ele ergueu as mãos para cobrir o rosto, escondendo-se. Quando baixou a proteção, estava sorrindo, alegre. Pigarreou e disse:

- Vamos. Já é tempo de descermos para junto dos gêmeos, antes que eles derretam os olhos de tanto fitarem aquele tubo luminoso.

Senti dor ao levantar-me, embora Chris me amparasse. Abracei-me a ele, com o rosto colado em seu peito. Embora de tentasse afastar-me imediatamente, agarrei-me com mais força.

- Chris... o que fizemos há pouco... foi pecado?

Ele tornou a pigarrear.

- Se você pensar assim, então foi.

Que espécie de resposta era aquela? Se os pensamentos sobre pecado ficassem de lado, aqueles momentos no chão, quando ele me tocara tão carinhosamente com dedos e lábios mágicos e excitantes, foram os melhores que passei desde que chegáramos à abominável mansão. Ergui os olhos para verificar o que ele estava pensando e vi nos dele aquela estranha expressão. Paradoxalmente, Chris parecia mais feliz e mais triste, mais maduro e mais jovem, mais sábio... ou apenas sentia-se agora um homem? Se fosse isso, eu me alegrava, pouco importando se o que fizéramos era ou não pecaminoso.

De mãos dadas, descemos para o quarto a fim de nos juntamos aos gêmeos. Cory dedilhava o banjo, com o olhar grudado na televisão. Então, pegou a guitarra e começou a tocar uma de suas composições. O banjo servia apenas para músicas alegres, que mexiam com os pés da gente. A melodia de Cory era como a chuva no telhado: prolongada, triste e monótona. Carrie cantava a letra simples que ele também compusera:

Vou ver o sol,

Vou encontrar meu lar,

Vou sentir o vento,

Vou tornar a ver o sol.

Sentei-me no chão, perto de Cory, e tirei-lhe a guitarra das mãos, pois também sabia tocar um pouco. Ele me ensinara - aliás, ensinara a todos nós. E cantei para ele a triste canção de Dorothy no filme “O Mágico de Oz” - um filme que os gêmeos adoravam toda vez que era exibido na televisão. Quando terminei de cantar sobre os pássaros que voavam acima do arco-íris, Cory indagou:

- Não gosta de minha canção, Cathy? –

- Pode apostar que gosto de sua canção, mas é muito triste. Que tal escrever uma letra alegre, com um pouco de esperança?

O pequeno camundongo estava enfiado no bolso da camisa de Cory, apenas o rabo do lado de fora, catando migalhas de pão que restavam no fundo. Afinal, Mickey torceu o corpo e a cabeça apareceu. Depois, parte do corpo. O ratinho segurava delicadamente nas patas dianteiras um pedaço de pão e começou a roê-lo. A expressão do rosto de Cory quando ele baixou a cabeça para fitar seu primeiro animalzinho de estimação comoveu-me tão profundamente que desviei o rosto para não chorar.

- Cathy, você sabe que mamãe nunca disse nada a respeito da minha mascote?

- Não reparou em Mickey, Gory.

- Por que não reparou?

Suspirei, sem saber ao certo quem ou o que minha mãe era agora, senão uma desconhecida a quem nós amáramos no passado.

Uma coisa eu aprendera: não é só a morte que nos rouba as pessoas que amamos e de quem necessitamos.

- Mamãe tem um novo marido - disse Chris num tom animado. - Quando a pessoa está apaixonada só repara em sua própria felicidade, mas não na dos outros. Em breve ela notará que você tem um amigo.

Carrie olhava para o meu agasalho.

- Cathy, o que é isso no seu suéter?

- Tinta - respondi sem a menor hesitação. - Chris estava tentando ensinar-me a pintar e ficou zangado quando meu quadro ficou mais bonito do que todos os que ele fez até hoje. Por isso, pegou uma tigelinha com tinta vermelha e jogou em mim.

Meu irmão mais velho limitou-se a continuar sentado e calado, com a mais esquisita expressão no rosto.

- Chris, Cathy pinta melhor que você?

- Se ela diz isso, deve ser verdade.

- Onde está o quadro dela?

- No sótão.

- Quero ver.

- Então, levante-se e suba para vê-lo. Estou cansado. Quero assistir à televisão enquanto Cory prepara o jantar.

Lançou-me um rápido olhar de esguelha.

- Minha querida irmã, por uma simples questão de conveniência, importa-se de vestir um agasalho limpo antes de nos sentarmos à mesa para jantar? A tinta vermelha tem algo que me provoca uma sensação de remorso.

- Parece sangue - declarou Cory .- Está duro como sangue quando a gente não lava.

- Tinta de cartazes - replicou Chris, enquanto me levantei para ir ao banheiro vestir um suéter vários números maior que meu tamanho. - As tintas de cartazes endurecem.

Satisfeito com a explicação, Cory começou a contar a Chris que este perdera os dinossauros na televisão.

- São maiores que essa casa, Chris! Saíram da água e engoliram o bote com os dois homens! Eu sabia que você ficaria triste por perder o programa!

- Sim - confirmou Chris com ar sonhador. - Eu gostaria muito de ter assistido.

Naquela noite, senti-me estranhamente nervosa e inquieta; meus pensamentos sempre voltavam à maneira como Chris me olhara no sótão.

Então, compreendi qual era o segredo que eu procurara durante tanto tempo - o interruptor secreto que ligava o amor... físico, o desejo sexual. Não era apenas a simples visão de corpos despidos, pois muitas vezes eu dera banho em Cory e vira Chris nu, sem sentir qualquer excitação especial pelo fato de eles terem algo diferente do que Carrie e eu tínhamos. A nudez nada significava.

Eram os olhos. O segredo do amor estava nos olhos, na maneira de uma pessoa olhar para outra, no modo como os olhos comunicavam e falavam enquanto os lábios ficavam imóveis.

Os olhos de Chris tinham-me dito mais do que dez mil palavras conseguiriam dizer. E não era apenas a maneira pela qual ele me tocara, com carinho e ternura; era o modo como ele me tocava enquanto me olhava daquele jeito - por isso a avó estabelecera a norma de não olharmos para pessoas do sexo oposto. Oh, imaginar que a velha bruxa conhecia o segredo do amor! Ela jamais poderia ter amado - não, não ela, com seu coração de ferro e espinha de aço... Seus olhos nunca poderiam ter sido suaves.

Então, à medida que refletia mais profundamente sobre o assunto, constatei que era o que existia por detrás dos olhos, no cérebro, desejando agradar, satisfazer, fazer feliz, dar prazer e afastar a solidão de nunca ter alguém que nos compreenda como desejamos ser compreendidos.

O pecado nada tinha a ver com o amor, o verdadeiro amor. Virei a cabeça e percebi que Chris também estava acordado, encolhido de lado, olhando para mim. Sorriu com a maior doçura e tive vontade de chorar por ele - e por mim.

Nossa mãe não nos visitou naquele dia, como não nos visitara na véspera, mas encontramos um meio de alegrar-nos tocando os instrumentos de Cory e cantando juntos. A despeito da ausência de uma mãe que se tornara muito, muito negligente, fomos para a cama mais esperançosos naquela noite. Cantarmos canções alegres durante várias horas convencera-nos todos de que o sol, o amor, o lar e a felicidade estavam logo depois da próxima esquina e nossos longos dias de jornada através de uma floresta densa e escura estavam quase terminando.

Algo escuro e aterrador se insinuou em meus sonhos alegres. Formas corriqueiras assumiam proporções monstruosas. Com os olhos fechados, vi a avó entrar sorrateiramente no quarto e, julgando-me adormecida, raspar-me completamente a cabeça! Gritei, mas ela não me ouviu - ninguém me escutou. Ela pegou uma comprida faca brilhante e amputou-me os seios, enfiando-os na boca de Chris. E ainda havia mais. Debati-me, esperneei e choraminguei, acordando Chris. Os gêmeos continuavam a dormir como se já estivessem mortos e enterrados. Sonolento, Chris se aproximou tropeçando e sentou-se na beira da cama. Tateando à procura de minha mão, indagou:

- Outro pesadelo, Cathy?

Nãooo! Não se tratava de um pesadelo comum! Era uma previsão, de natureza psíquica, espírita. Eu a sentia na medula dos ossos - algo terrível estava por acontecer. Debilitada e trêmula, contei a Chris o que a avó me fizera.

- E isso não é tudo. Foi mamãe quem entrou com uma faca e me arrancou o coração! Estava toda enfeitada com jóias de brilhantes!

- Cathy, sonhos nada significam.

- Significam, sim!

Relatei a meu irmão outros sonhos e outros pesadelos. Ele escutava, sorria, comentava que devia ser maravilhoso ter noites como filmes de cinema - mas não era assim. Num cinema, a pessoa senta e olha para uma grande tela, sabendo que está apenas assistindo a uma estória que outra pessoa escreveu. Nos sonhos, eu participava. Fazia parte do sonho, sentindo, sofrendo, e - sinto dizer - muito raramente gostando.

Já que estava tão acostumado a mim e minhas manias estranhas, por que Chris sentava-se imóvel como uma estátua de mármore, como se aquele meu último sonho o afetasse mais que qualquer um dos anteriores? Também estivera sonhando?

- Cathy, sob minha palavra de honra, vamos fugir desta casa! Fugiremos os quatro! Você me convenceu. Seus sonhos devem ter algum significado, do contrário não se repetiriam com tanta insistência. Está provado que as mulheres são mais intuitivas que os homens. O subconsciente trabalha durante a noite. Não mais aguardaremos que mamãe herde a fortuna de um avô que continua vivendo indefinidamente e se recusa a morrer. Juntos, você e eu encontraremos um meio de fugirmos. A partir desse instante, juro por minha vida, confiaremos apenas em nós dois... e nos seus sonhos.

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