A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Pela maneira intensa como fez a declaração, percebi que meu irmão não estava zombando de mim nem se divertindo - falava sério! Fiquei tão aliviada que tive vontade de gritar. Íamos fugir. Afinal, aquela casa não conseguiria derrotar-nos!

Na obscuridade e frio daquele quarto sombrio e abarrotado, meu irmão me olhou nos olhos. Talvez me visse como eu o estava vendo, parecendo maior que o tamanho normal, mais delicado que um sonho. Inclinou lentamente a cabeça sobre a minha e beijou-me em cheio nos lábios, como se procurasse selar seu juramento com algo forte e significativo. Foi um beijo tão demorado e peculiar que me senti cair, cair, cair - quando já estava deitada!

A coisa de que mais necessitávamos era uma chave da porta de nosso quarto. Sabíamos que era a chave-mestre, servindo para todos os outros aposentos da casa. Não podíamos utilizar a escada de lençóis por causa dos gêmeos e ambos sabíamos que nossa avó jamais seria tão descuidada a ponto de largar a chave ao nosso alcance. Ela nunca procedia assim; costumava abrir a porta e guardar imediatamente a chave no bolso do vestido. Seus detestáveis vestidos cinzentos sempre tinham bolsos.

Nossa mãe, por sua vez, era descuidada, esquecida e indiferente. E não gostava de ter nas roupas bolsos que prejudicassem sua elegante silhueta. Passamos a contar com ela.

E por que haveria ela de temer algo por parte de nós - os passivos, os obedientes, os silenciosos? Seus cativos "queridinhos" exclusivos, que jamais cresceriam e representariam uma ameaça. Ela estava feliz, apaixonada; seus olhos brilhavam e ela ria com muita freqüência. Era tão pouco observadora que nos dava vontade de gritar para obrigá-la a ver as coisas - ver os gêmeos tão quietos e com aparência tão doentia! Ela nunca mencionou o camundongo - por que não enxergava a mascote? Mickey ficava no ombro de Cory, mordiscando-lhe a orelha, e nossa mãe nunca disse uma palavra a respeito - nem mesmo quando as lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Cory porque ela não o elogiava por conquistar o afeto de um ratinho muito teimoso que teria ido embora no início, se pudesse.

Ela vinha, generosa, duas ou três vezes por mês, sempre trazendo presentes que lhe serviam de alívio, embora não nos mitigassem as aflições. Entrava graciosamente para sentar-se durante algum tempo, usando roupas caras e elegantes, forradas de peles e enfeitada com jóias valiosas.

Acomodava-se em seu trono como uma rainha e distribuía caixas de tintas para Chris, sapatilhas de balé para mim e roupas sensacionais para todos nós – apropriadas para usarmos no sótão, pois lá em cima pouca importância fazia o fato de que elas raramente nos serviam, sendo grandes ou pequenas demais; nossos sapatos às vezes eram confortáveis, às vezes não; e eu ainda aguardava o sutiã que ela continuava a prometer, mas sempre esquecia de trazer.

- Vou-lhe trazer uma dúzia, ou mais - declarava com um sorriso benevolente. - De todos os tamanhos e todas as cores, para que você experimente todos eles e escolha os que lhe agradarem mais e lhe servirem melhor. Os outros, eu darei às empregadas.

E não parava de tagarelar animadamente, sempre fiel à sua falsa fachada, simulando que ainda éramos importantes em sua vida.

Eu me sentava, fixava o olhar em seu rosto e esperava que ela perguntasse pela saúde dos gêmeos. Esquecera-se de que Cory sofria de febre alérgica que lhe provocava uma coriza constante e às vezes ficava com o nariz tão congestionado que só conseguia respirar pela boca? Ela sabia que ele precisava tomar injeções antialérgicas uma vez por mês e já se haviam passado anos desde que tomara a última. Não se magoava ao ver Cory e Carrie agarrados às minhas saias, como se fosse eu quem os dera à luz? Nada conseguia chegar ao seu consciente para fazê-la ver que havia algo errado?

Se chegava, ela não dava o menor indício de ver-nos senão como perfeitamente normais, embora eu me desse o trabalho de relatar todas as nossas pequenas moléstias: vomitávamos com freqüência, sentíamos dores de cabeça, cãibras no estômago e, às vezes, ficávamos sem energia.

- Guardem a comida no sótão, onde faz mais frio - replicava ela sem hesitação.

Tinha a coragem de falar-nos de festas, concertos, teatros, cinemas, bailes e das viagens que fazia com o seu "Bart".

- Bart e eu vamos fazer compras em Nova York - anunciava. - Digam-me o que desejam que eu traga. Façam uma lista.

- Mamãe, depois de fazer as compras de Natal em Nova York, aonde você irá? - indaguei, tendo a cautela de não olhar para a chave que ela largara com tanta displicência em cima da cômoda.

Ela riu, gostando da pergunta, e cruzou as mãos alvas e esguias antes de iniciar um relatório do que planejava fazer nos dias enfadonhos que se seguiam às festas natalinas.

- Uma viagem pelo Sul, talvez um cruzeiro, ou mais ou menos um mês na Flórida. E sua avó estará aqui para cuidar bem de vocês.

Enquanto ela continuava a tagarelar interminavelmente, Chris aproximou-se furtivamente e guardou a chave no bolso das calças. Depois, pediu licença e foi calmamente para o banheiro. Nem precisava preocupar-se; ela não notou sua ausência. Estava cumprindo uma obrigação: visitar os filhos - e, graças a Deus, escolhera a cadeira certa para sentar-se. Eu sabia que Chris, no banheiro, apertava a chave contra uma barra de sabão que ali mantinha especialmente preparada para tirar um molde da chave: mais uma das muitas coisas que havíamos aprendido ao assistirmos à televisão por horas e horas a fio.

Depois que nossa mãe saiu, Chris pegou o pedaço de madeira que escolhera previamente e começou imediatamente a esculpir com o canivete uma tosca chave de madeira. Embora dispuséssemos de metal à vontade nas trancas dos velhos baús, não tínhamos instrumentos adequados para cortá-lo e dar-lhe forma. Chris trabalhou como um escravo, por muitas horas, esculpindo meticulosamente a chave, comparando-a freqüentemente com a impressão que ficara gravada no sabão agora endurecido. Chris selecionara propositadamente uma madeira muito dura, temendo que madeira mais macia pudesse partir-se na fechadura e denunciar nosso plano de fuga. Precisou de três dias de trabalho árduo e cuidadoso antes de conseguir que a chave funcionasse.

Que euforia, a nossa! Abraçamo-nos, dançando pelo quarto, rindo, beijando-nos, quase chorando. Os gêmeos nos observavam, perplexos por nos verem tão cheios de júbilo devido a uma simples chavinha.

Tínhamos uma chave. Podíamos abrir a porta de nossa prisão. Todavia, por estranho que pareça, não havíamos planejado nosso futuro além da porta aberta.

- Dinheiro. Precisamos ter dinheiro - argumentou Chris, estacando no meio do nosso bailado triunfal. - Com muito dinheiro todas as portas se abrirão e poderemos viajar por todas as estradas.

- Mas onde conseguiremos dinheiro? - indaguei, franzindo a testa e sentindo-me infeliz.

Refleti que ele arranjara outra desculpa para adiarmos a fuga.

- Não há outro jeito senão roubarmos de mamãe, do marido dela e da avó.

Fez a declaração de modo muito tranqüilo, como se o roubo fosse uma profissão tranqüila e honrosa. E talvez fosse, em caso de necessidade premente. Ainda é.

- Se formos apanhados, seremos todos açoitados, inclusive os gêmeos - ponderei, lançando um olhar aos rostos amedrontados de nossos irmãos menores. - E quando mamãe viajar com o marido, ela poderá tentar matar-nos de fome mais uma vez. Só Deus sabe o que ela é capaz de fazer.

Chris deixou-se cair no banquinho da penteadeira. Apoiou o queixo nas mãos com ar pensativo e refletiu durante alguns minutos.

- Uma coisa é certa: não quero que você e os gêmeos sejam castigados. Portanto, eu farei os roubos e assumirei toda a culpa se for apanhado. Mas não serei apanhado; é arriscado demais roubar alguma coisa daquela velha - ela é muito observadora. Não há dúvida de que sabe, até o último centavo, quanto dinheiro tem na bolsa. Mamãe jamais conta o dinheiro. Lembra-se de como papai costumava reclamar disso? - comentou, sorrindo para reconfortar-me. - Serei exatamente como Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres e necessitados, nós! E só nas noites em que mamãe nos disser que sairá com o marido.

- Você quer dizer: quando ela nos avisar - corrigi. - E sempre podemos olhar pela janela, nos dias em que ela não vier aqui.

Quando nos atrevíamos a espiar pela janela, tínhamos uma boa visão da alameda curva de acesso à casa, que nos permitiria controlar as chegadas e partidas dos automóveis.

Em breve mamãe nos anunciou que ia a uma festa.

- Bart não liga muito para a vida social; prefere ficar em casa. Mas eu detesto essa casa. Então, ele pergunta por que não vamos morar em nossa própria casa, e o que posso responder?

O que podia ela responder? Querido, tenho um segredo a lhe contar: tenho quatro filhos escondidos lá em cima, nos confins da ala norte.

Foi bastante fácil para Chris encontrar dinheiro no quarto luxuoso e esplêndido de sua mãe. Ela não tinha o menor cuidado do dinheiro. Até mesmo Chris ficou chocado ao constatar com que displicência notas de dez e vinte dólares eram largadas em cima da penteadeira e da cômoda. Franziu a testa, desconfiado. Ela não afirmava estar economizando dinheiro para o dia em que sairíamos da nossa prisão... apesar de agora ter um novo marido? Mais notas em suas muitas bolsas e carteiras. Chris encontrou trocados nos bolsos das calças do marido. Não, ele não era tão descuidado com o dinheiro dele. Todavia, quando Chris procurou embaixo das almofadas da poltrona, encontrou mais de uma dúzia de moedas. Sentia-se como um ladrão, um intruso indesejável no quarto de sua mãe. Viu as roupas lindas, as chinelas forradas de cetim, os négligés com golas e punhos de pele ou plumas de marabu, fazendo com que sua confiança nela diminuísse ainda mais.

Naquele inverno, Chris visitou repetidamente o quarto da mãe, tornando-se cada vez mais descuidado, já que era tão fácil roubar. Voltava para perto de mim cheio de júbilo, mas, ao mesmo tempo, parecendo triste. Nosso tesouro escondido aumentava dia a dia - que motivo havia para tristeza?

- Venha comigo na próxima vez - replicou ele, à guisa de explicação. – Veja por si mesma.

Agora, eu podia ir com a consciência tranqüila, sabendo que os gêmeos não acordariam para se verem sozinhos. Dormiam tão profundamente que até mesmo de manhã acordavam de olhos inchados, preguiçosos, relutando em voltar à realidade. Às vezes, eu sentia medo ao vê-los adormecidos. Duas bonecas que não cresciam, tão mergulhados no esquecimento que mais parecia uma morte parcial que um repouso noturno normal.

Ir embora, fugir; a primavera estava chegando e precisávamos partir antes que fosse tarde demais. Uma voz interior, intuitiva, repetia-me constantemente tal advertência. Chris riu quando lhe contei.

- Cathy, você e suas idéias! Precisamos de dinheiro; no mínimo, quinhentos dólares. Para que tanta pressa? Agora, temos comida e não somos surrados; ela não diz uma palavra, até mesmo quando nos encontra semi despidos.

Por que a avó deixara de castigar-nos? Não havíamos contado a mamãe os outros castigos que ela nos aplicara, os pecados que cometera contra nós - pois, para mim, eram pecados que jamais teriam qualquer justificativa. Não obstante, a velha passara a controlar a mão. Trazia-nos diariamente a cesta de piquenique, cheia até a borda de sanduíches, sopas mornas em garrafas térmicas, leite e sempre - quatro rosquinhas cobertas de açúcar. Por que não variava o nosso cardápio e trazia biscoitos, bolinhos e fatias de torta?

- Vamos - apressou-me Chris, puxando-me ao longo dos corredores tão escuros e sinistros. - Demorar-nos num só lugar é perigoso. Daremos uma espiada no salão de troféus e depois correremos ao quarto de mamãe.

Na verdade, bastou-me um rápido olhar ao salão de troféus. Detestei - cheguei a odiar aquele retrato a óleo acima da lareira de pedra; tão parecido com papai e, ao mesmo tempo, tão diferente. Um homem tão cruel e desalmado como Malcolm Foxworth não tinha direito de ser bonito, mesmo quando jovem. Aqueles frios olhos azuis deveriam corromper-lhe o resto do corpo com úlceras e chagas. Vi todas aquelas cabeças empalhadas de animais e as peles de tigre e urso no chão. Refleti que era bem ao feitio do velho desejar um salão como aquele.

Se Chris permitisse, eu teria entrado em todos os quartos. Mas ele insistiu em ignorar as portas fechadas, deixando-nos apenas dar uma rápida espiada para dentro de uns poucos quartos.

- Intrometida! - ralhou num sussurro. - Não há nada de interessante aí dentro.

Tinha razão. Tinha razão em muitas coisas. Naquela noite, compreendi o que Chris quisera dizer ao comentar que aquela casa era grandiosa e rica, mas nada tinha de bonita ou acolhedora. Não obstante, fiquei deveras impressionada. Nossa casa de Gladstone parecia minúscula em comparação.

Depois de percorrermos silenciosamente muitos corredores compridos e mal iluminados, chegamos finalmente ao grandioso apartamento de nossa mãe. Naturalmente, Chris descrevera em detalhes a grande cama em forma de cisne, com a cama menor atravessada aos pés - mas escutar não era ver! Não se tratava de um quarto, mas de um aposento digno de uma rainha ou princesa! Perdi o fôlego. Louvado seja Deus! Mal consegui acreditar em tamanho esplendor e opulência! Estonteada, corri de um lugar para outro, deslumbrada ao tocar as paredes forradas de damasco, de cor-de-morango mais viva em contraste com o lilás do tapete de cinco centímetros de espessura. Apalpei a macia colcha de pele e atirei-me na cama, rolando sobre ela. Toquei o fino cortinado da cama e as cortinas mais pesadas, feitas de veludo vermelho. Pulei da cama e observei, admirada, o maravilhoso cisne que parecia manter o olho vermelho, sonolento, mas vigilante, fixo em mim.

Então, recuei, não gostando de uma cama onde mamãe dormia com um homem que não era nosso pai. Entrei no enorme closet, tendo a impressão de flutuar entre roupas saídas de um sonho de riqueza, que eu jamais possuiria - exceto em sonhos. Ela possuía mais roupas que uma loja de departamentos. Além de sapatos, chapéus e bolsas. Quatro casacos de pele longos, três estolas de pele, uma pelerine de arminho branco, outra de marta escura, além de chapéus e gorros de pele de diferentes feitios e animais, e um casaco de leopardo com lã verde entre os arremates de pele. Négligés, camisolas, conjuntos de pegnoir, de babados, bufantes, enfeitados com fitas, plumas, peles, feitos de veludo, cetim, chiffon, combinações - meu Deus! Ela teria que viver mil anos para usar apenas uma vez cada uma daquelas roupas!

O que mais me chamava a atenção, eu tirava do closet e levava ao quarto de vestir dourado que Chris me mostrara. Dei uma espiada no banheiro forrado de espelhos, com plantas naturais e dois vasos - um sem tampa (hoje em dia, sei que um deles era o bidê). O banheiro ficava num box à parte,

- Tudo isso é novo - explicou Chris. - Quando estive aqui pela primeira vez... na festa de Natal, você sabe... não era tão... bem, não era tão opulento como agora.

Girei nos calcanhares para encará-lo raivosamente, achando que sempre fora assim e ele não me contara. Protegera deliberadamente a mãe, não querendo que eu soubesse a respeito de todas aquelas roupas e peles, além da fabulosa quantidade de jóias que ela escondia num compartimento secreto da comprida penteadeira. Não, Chris não mentira - simplesmente omitira. Estava evidente em seus olhos esquivos e no rosto corado, bem como na maneira apressada com que se retirou para fugir às minhas indagações - não era de espantar que ela não quisesse dormir no nosso quarto!

Fiquei no quarto de vestir, experimentando roupas retiradas do vasto closet de mamãe. Pela primeira vez na vida, calcei meias de nylon e minhas pernas ficaram celestiais - divinas! Não era surpresa que as mulheres gostassem daquilo! Em seguida, experimentei pela primeira vez um sutiã que, para meu desgosto, era grande demais para mim. Enchi-o com papel de seda, até ficar firme e protuberante. Em seguida, sandálias prateadas, também muito grandes. Coroei meu esplendor com um vestido preto muito decotado na frente para mostrar aquilo que eu não possuía em tamanho adequado.

Então, chegou a parte divertida - o que eu costumava fazer quando criança, sempre que surgia uma oportunidade. Sentei-me à penteadeira de mamãe e comecei a aplicar seus cosméticos com mão bastante liberal. Ela possuía caminhões de cosméticos. Usei de tudo no rosto: base, ruge, pó de arroz, sombras, batom. Depois, puxei os cabelos para cima, de uma forma que considerei sexy e elegante, prendendo-os com grampos. Em seguida, peguei jóias. E, finalmente, perfume – em grande quantidade.

Vacilando desajeitadamente nos saltos, fui procurar Chris.

- Que tal? - perguntei com ar provocante, sorrindo e piscando os cílios lambuzados.

Na verdade, esperava elogios. Os espelhos já não me tinham dito que eu estava sensacional?

Chris revistava cuidadosamente uma gaveta, recolocando tudo no exato lugar onde encontrara, mas olhou por cima do ombro. Seus olhos se arregalaram de espanto e seu rosto ficou carrancudo, enquanto eu balançava para a frente, para trás e para os lados, procurando equilibrar-me sobre os saltos de dez centímetros, e continuava a piscar os cílios. Talvez não soubesse colocar direito os cílios postiços, pois tinha a impressão de estar vendo tudo por entre pernas de aranha.

- Que tal? - começou ele, sarcástico. - Deixe-me dizer exatamente: você está parecendo uma prostituta de rua, é isso aí!

Deu-me as costas com repugnância, como se não suportasse mais olhar para mim.

- Uma prostituta adolescente, é isso aí! Agora, vá lavar á cara e recolocar tudo onde encontrou! E trate de limpar a penteadeira!

Caminhei, com dificuldade, até o espelho comprido mais próximo. Tinha dobradiças em ambas as partes laterais, de modo que mamãe podia ajustá-las e mirar-se de todos os ângulos. Diante daqueles três espelhos tão reveladores, pude ver-me sob uma nova perspectiva - e era um espelho realmente fascinante; fechava-se como um livro com folhas de três páginas, transformando-se num painel com uma linda paisagem bucólica francesa.

Virando-me e contorcendo-me, examinei detalhadamente minha aparência. Não era assim que mamãe ficava naquele mesmo vestido. Qual fora o meu erro? É bem verdade que ela não usava tantas pulseiras ao mesmo tempo, nem três colares diferentes, além de longos pingentes de brilhantes que lhe roçassem os ombros e uma tiara; sem mencionar dois ou três anéis em cada dedo, inclusive os polegares!

Oh, mas eu estava realmente ofuscante. E meus seios protuberantes eram absolutamente magníficos! A bem da verdade, fui forçada a admitir que exagerara.

Tirei as dezessete pulseiras, os vinte e seis anéis, os colares, a tiara e o vestido de gala preto, de gaze, que não ficava tão elegante em mim como em mamãe, quando ela o usava com um simples colar de pérolas. Oh, mas as peles... ninguém conseguia deixar de sentir-se bela usando peles como aquelas!

- Depressa, Cathy. Deixe isso de lado e venha ajudar-me a procurar.

- Chris, eu adoraria tomar um banho na banheira de mármore negro.

- Deus do céu! Não dispomos de tempo para isso!

Despi as roupas de mamãe, o sutiã de renda preta, as meias de nylon e as sandálias prateadas. Vesti minhas próprias roupas. Depois, pensando melhor, tirei um simples sutiã branco da gaveta onde existiam tantos e o escondi dentro da blusa. Chris não precisava de minha ajuda; já estivera ali tantas vezes que podia encontrar dinheiro sem meu auxílio. Eu desejava saber o que havia dentro de cada gaveta, mas tinha que agir depressa. Abri uma pequena gaveta da mesinha de cabeceira de mamãe, esperando encontrar creme de limpeza e lenços de papel, mas nada de valor que as criadas pudessem roubar. E lá estava o creme de limpeza na gaveta, junto com lenços de papel e dois livros para distraí-la quando estivesse sem sono. (Haveria noites em que ela se mexia nervosamente na cama, sem conseguir adormecer porque pensava em nós?) Sob a duas brochuras estava um pesado livro grosso, encadernado com uma capa colorida. Como Criar Seus Próprios Desenhos de Bordar. Ora, eis um título capaz de causar-me espécie. Mamãe me ensinara alguns pontos de bordado e de crochê em meu primeiro aniversário naquele quarto que nos servia de prisão. Seria interessante eu aprender a desenhar meus próprios bordados.

Peguei o livro e comecei a folheá-lo a esmo. Atrás de mim, Chris produzia leves ruídos ao abrir e fechar gavetas, movimentando-se a passos macios. Eu esperava encontrar desenhos de flores - tudo, menos o que vi naquelas páginas. Calada, com os olhos esbugalhados, dominada por atordoado fascínio, olhei para as fotografias coloridas. Fotos incríveis de homens e mulheres despidos fazendo... as pessoas faziam realmente coisas assim? Aquilo era fazer amor?

Chris não fora o único a escutar estórias sussurradas, acompanhadas por muitas risadinhas das meninas mais velhas que se reuniam em grupos no banheiro da escola. Ora, eu acreditava que o amor devia ser feito como coisa sagrada, digna de respeito, na mais completa privacidade, com as portas trancadas. Aquele livro exibia fotos de muitos casais num só quarto, todos nus, todos se penetrando de alguma forma. Contra minha vontade - ou assim preferi pensar - minha mão virava cada página e eu ficava cada vez mais incrédula! Tantas maneiras de fazer aquilo! Tantas posições! Meu Deus, era aquilo que os enamorados Raymond e Lily tinham em mente desde a primeira página daquele romance vitoriano? Ergui a cabeça e fitei o espaço, sem enxergar. Desde o início de nossas vidas, estávamos todos destinados àquilo?

Chris me chamou, informando que já coletara dinheiro suficiente. Não podia roubar muito de uma só vez, para que não percebessem. Estava levando apenas umas poucas notas de cinco, muitas de um dólar e todas as moedas que achara Sob as almofadas.

- O que há com você, Cathy? Ficou surda? Vamos!

Não pude mover-me. Não podia sair; não podia fechar aquele livro sem olhá-lo da primeira à última página. Já que eu estava tão embevecida e incapaz de responder, ele se aproximou para espiar por cima do meu ombro e verificar o que me mantinha tão hipnotizada. Escutei-o prender bruscamente a respiração. Depois de uma eternidade, tornou a soltá-la num leve assovio. Não disse uma só palavra até que cheguei ao final e fechei o livro. Então, Chris o pegou de minhas mãos e começou da primeira página, examinando cada uma das páginas que deixara de ver. Fiquei a seu lado, vendo tudo outra vez. Havia texto, em tipo pequeno, nas páginas opostas às fotos de página inteira. Mas as fotos não precisavam de explicação - pelo menos, não para mim.

Chris fechou o livro. Lancei-lhe um olhar rápido. Parecia aturdido. Devolvi o livro à gaveta, colocando as brochuras por cima, exatamente como as encontrara. Chris tomou-me a mão, puxando-me na direção da porta. Tornamos a percorrer em silêncio os longos corredores escuros que levavam de volta à ala norte. Agora, eu compreendia muito bem por que motivo a bruxa avó fizera questão que Chris e eu dormíssemos em camas separadas, pois aquele irresistível apelo da carne era tão forte, tão exigente e tão excitante que podia levar as pessoas a agirem mais como demônios que como santos.

Debrucei-me sobre Carrie, fitando-lhe o rosto adormecido que, no sono, recuperava a inocência e infantilidade que a abandonavam quando acordada. Parecia um pequeno querubim, deitada de lado, encolhida, o rosto corado, o cabelo úmido e encaracolado na nuca e na testa. Beijei-a e seu rosto me pareceu quente. Então, fui até Cory para tocar-lhe os cabelos crespos e macios, beijando seu rostinho vermelho. Crianças como os gêmeos eram feitas de uma parte do que eu vira naquele livro de fotografias, de modo que nem tudo podia ser pecaminoso, do contrário Deus não teria feito o homem e a mulher como eles eram. Não obstante, sentia-me tão perturbada, tão insegura e, no fundo, tão aturdida e chocada, mas...

Fechei os olhos e rezei silenciosamente: Deus, mantenha os gêmeos em segurança e saudáveis até que estejamos longe daqui... permita que vivam até chegarem a um lugar ensolarado e belo, onde não existam portas trancadas... por favor.

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