A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Pode usar o banheiro primeiro - disse Chris, sentando-se no seu lado da cama, de costas para mim, com a cabeça baixa.

Era a sua vez de tomar banho primeiro.

Como se dominada por uma espécie de feitiço, fui ao banheiro, fiz o que tinha de fazer e voltei ao quarto usando minha camisola mais quente e recatada. Limpara toda a maquilagem do rosto. Meu cabelo recém-lavado ainda estava ligeiramente úmido e sentei-me na beira da cama para escová-lo até ficar ondulado e brilhante.

Chris se ergueu silenciosamente e entrou no banheiro sem olhar para mim. Quando saiu, muito depois, e eu ainda estava escovando o cabelo, evitou olhar-me. Nem eu queria que ele me olhasse.

Uma das normas estabelecidas pela avó obrigava-nos a nos ajoelharmos junto à cama todas as noites para fazer nossas preces. Apesar disso, naquela noite nenhum de nós se ajoelhou. Muitas vezes, eu ficava de joelhos ao lado da cama, com as mãos postas sob o queixo, e não sabia o que pedir a Deus, pois já fizera tantas orações e nenhuma delas fora atendida. Limitava a permanecer ajoelhada, com a mente vazia e o coração desolado, mas o corpo e os nervos sentiam tudo e berravam o que eu não tinha coragem de pensar muito menos dizer.

Estendi-me de costas ao lado de Carrie, sentindo-me imunda e mudada por aquele pesado livro que eu desejava ver de novo - e, se pudesse, ler todo o texto. Talvez fosse o mais correto recolocar o livro na gaveta logo que percebi do que se tratava - e, sem dúvida, deveria tê-lo fechado quando Chris veio espiar por cima do meu ombro. Eu já sabia que não era uma santa, ou um anjo, ou uma pudica puritana; sentia na medula dos ossos que algum dia, num futuro bem próximo, teria necessidade de saber tudo a respeito das maneiras de utilizarmos os corpos nos atos do amor.

Devagar, muito devagar, virei a cabeça para espiar através da rósea obscuridade do quarto e ver o que Chris estava fazendo. Ele estava deitado de lado, sob as cobertas, olhando para mim. Seus olhos refletiam alguma luz que penetrava através das pesadas cortinas, pois o brilho que neles havia nada tinha de cor-de-rosa.

- Você está bem? - indagou.

- Sim, estou sobrevivendo.

Então, dei-lhe boa noite numa voz que nem parecia a minha.

- Boa-noite, Cathy - replicou ele, também em voz estranha.
Meu Padrasto
Naquela primavera, Chris adoeceu. Parecia esverdeado em volta da boca e vomitava a cada poucos minutos, cambaleando de volta do banheiro para deixar-se cair molemente na cama. Queria estudar um compêndio de anatomia, mas jogou o livro para o lado, irritando-se consigo mesmo.

- Deve ter sido alguma coisa que comi - resmungou.

- Chris, não quero deixar você sozinho - declarei, parando junto à porta e preparando-me para enfiar a chave de madeira na fechadura.

- Escute aqui, Cathy! - berrou ele. - Já é tempo de você aprender a cuidar-se sozinha! Não precisa de mim a seu lado cada segundo do dia! Esse foi o problema de mamãe: pensar que sempre precisava de um homem no qual se apoiar. Apoie-se sozinha, Cathy, sempre!

O medo me encheu o coração, transbordando no olhar. Chris percebeu e acrescentou num tom mais suave:

- Estou bem, no duro. Posso cuidar-me sozinho. Precisamos do dinheiro, Cathy. Portanto, vá sozinha. Talvez não tenhamos outra oportunidade.

Corri de volta à cama de Chris, ajoelhando-me e apertando o rosto contra seu peito coberto pelo pijama. Ele me acariciou os cabelos com grande ternura.

- Vou sobreviver, Cathy, no duro. Não estou tão mal que você precise chorar por mim. Mas tem que entender uma coisa: não importa o que aconteça a um de nós, o que ficar tem que tirar os gêmeos daqui.

- Não fale assim! - protestei.

Só pensar que ele pudesse morrer deixava-me doente. Enquanto permanecia ajoelhada, fitando meu irmão, ocorreu-me que ficávamos doentes - um ou outro - com grande freqüência.

- Cathy, quero que você vá imediatamente. Levante-se. Faça um esforço. E quando estiver lá, pegue apenas as notas de cinco e de um dólar. Deixe de lado as maiores. Mas apanhe também todas as moedas que nosso padrasto deixa cair dos bolsos. E ele guarda no fundo do armário uma lata cheia de moedas. Pegue um punhado delas.

Chris parecia mais magro e pálido. Beijei-lhe rapidamente o rosto, detestando ser obrigada a sair quando ele estava passando tão mal. Lançando um olhar aos gêmeos adormecidos, recuei na direção da porta, segurando a chave de madeira.

- Eu o amo, Christopher - declarei em tom brincalhão antes de abrir a porta.

- Eu também a amo, Catherine - replicou meu irmão. - Boa caçada.

Soprei-lhe um beijo e saí, trancando a porta. Estaria bastante segura roubando o quarto de mamãe, pois naquela mesma tarde ela nos dissera que iria com o marido a uma festa na casa de um dos vizinhos mais próximos. Ao percorrer furtiva e silenciosamente os corredores, colando-me às paredes e escolhendo os locais mais sombrios, disse com meus botões que eu pegaria ao menos uma nota de vinte e outra de dez. Correria o risco de alguém notar. Talvez até mesmo tirasse algumas das jóias de mamãe. Jóias podiam ser empenhadas e serviam-nos tanto quanto dinheiro. Talvez até mais.

Firmemente decidida, não perdi tempo examinando o salão dos troféus. Fui direto ao quarto de mamãe, não esperando encontrar a avó, que se recolhia cedo, às nove. Já eram dez horas.

Cheia de bravura e determinação, entrei pela porta dupla do apartamento, fechando-a silenciosamente às minhas costas. Uma luz fraca estava acesa. Mamãe quase sempre deixava luzes acesas no quarto - às vezes, todas elas, segundo informava Chris. O que importaria a ela a despesa com eletricidade?

Hesitante e insegura, parei junto à porta e olhei em volta. Então, congelei-me de pavor.

Ali numa poltrona, com as pernas compridas esticadas diante do corpo e cruzadas nos tornozelos, estava o novo marido de mamãe! Eu estava bem em frente a ele, usando uma transparente camisola azul, muito curta, embora eu também tivesse vestido as calcinhas do conjunto. Meu coração disparou loucamente enquanto eu esperava que o homem soltasse um berro, querendo saber quem eu era e que diabo fazia em seu quarto sem ter sido convidada!

Mas ele não abriu a boca.

Trajava um smoking preto e a camisa de peito duro era cor-de-rosa, com babados pespontados de preto. Não berrou nem fez perguntas porque estava cochilando. Quase me virei e tomei a sair, de tanto medo que ele acordasse e me visse.

Todavia, a curiosidade sobrepujou meus temores. Nas pontas dos pés, avancei sorrateiramente a fim de espiá-lo melhor. Atrevi-me a ficar tão perto dele, ao lado da poltrona, que poderia estender a mão e tocá-lo, se quisesse. Bastante próxima para enfiar-lhe os dedos no bolso e tirar dinheiro, se preferisse. Mas não o fiz. Roubo era a última coisa que eu tinha em mente ao fitar o belo rosto adormecido.

Espantei-me com o que a proximidade me revelava a respeito do amado Bart de mamãe. Eu o avistara a distância em várias ocasiões: primeiro, na festa de Natal, depois, quando ele estava perto da escada, segurando um casaco para mamãe vestir. Ele a beijara na nuca e atrás da orelha, murmurando algo que a fez sorrir; abraçou-a com muita ternura contra o peito antes de saírem juntos.

Sim, sim; eu já o vira, já escutara tanto falar dele, sabia onde moravam suas irmãs, onde ele nascera e as escolas que freqüentara, mas nada me havia preparado para o que agora se revelava com tamanha nitidez.

Mamãe... como você foi capaz disso? Devia envergonhar-se! Esse homem é mais jovem que você - anos mais moço!

Por que ela não nos contara?

Um segredo. Como ela sabia guardar bem segredos tão importantes! E não era de espantar que o adorasse, idolatrasse - pois ele era o tipo de homem que qualquer mulher desejaria. Bastava olhá-lo naquela posição tão natural, estendido com elegância na poltrona, para adivinhar que era ao mesmo tempo terno e apaixonado ao fazer amor com ela.

Eu queria odiar o homem adormecido na poltrona, mas, não sei por que motivo, simplesmente não consegui. Mesmo adormecido ele me atraía, fazendo-me bater mais depressa o coração.

Bartholomew Winslow, sorrindo inocentemente no sono, correspondendo inconscientemente à minha admiração. Um advogado, um daqueles homens que sabia tudo - como os médicos - como Chris. Sem dúvida estava experimentando algo excepcionalmente agradável. O que se passava por detrás - daquelas pálpebras cerradas? Tentei adivinhar, também, se tinha olhos azuis - ou castanhos. O rosto era comprido e fino, o corpo esbelto, duro, musculoso. A cova em sentido vertical no queixo parecia brincar de esconder ao variar de formato com os vagos sorrisos sonolentos.

Usava uma larga aliança trabalhada em relevo, naturalmente o par da que mamãe tinha no dedo. No dedo indicador da mão direita, trazia um grande anel de brilhante com lapidação quadrada que faiscava apesar da pouca luminosidade reinante no quarto. No dedo mínimo, um anel do grêmio acadêmico da universidade. Os dedos longos tinham unhas quadradas, bem aparadas e polidas até brilharem como as minhas. Lembrei-me de que mamãe costumava polir as unhas de papai enquanto ambos se provocavam com os olhos.

Ele era alto... isso eu já sabia. E de tanta coisa que me agradava nele, o que mais me intrigou foram os lábios cheios e sensuais sob o bigode. Uma boca de formato tão lindo - a lábios sensuais que deviam beijar minha mãe... em toda parte. Aquele livro de prazeres sexuais educara-me bem quanto ao que os adultos davam ou recebiam quando despidos.

Fui repentinamente dominada pelo impulso de beijá-lo - só para verificar se o bigode provocava cócegas. E para verificar, também, como seria o beijo de um desconhecido que não fosse meu parente consangüíneo.

Aquele não era proibido. Não seria pecado estender a mão hesitante para acariciar-lhe bem de leve o rosto escanhoado, desafiando-o suavemente a despertar.

Mas ele continuava adormecido.

Debrucei-me sobre ele e colei muito de leve meus lábios nos seus. Então, afastei-me depressa, o coração pulsando como uma espécie de medo paralisante. Eu quase desejava que ele acordasse, mas ainda estava temerosa e assustada. Era por demais jovem e insegura do que possuía para acreditar que ele acorresse em minha defesa quanto tinha uma mulher como mamãe loucamente apaixonada por ele. Se eu lhe pegasse o braço e o acordasse, ele permaneceria calmamente sentado a escutar minha estória a respeito de quatro crianças seqüestradas e prisioneiras num quarto solitário e isolado, ano após ano, aguardando com impaciência a morte do avô? Compreenderia, teria piedade de nós e obrigaria mamãe a libertar-nos e abrir mão das esperanças de herdar aquela imensa fortuna?

Minhas mãos se ergueram nervosamente à garganta, como faziam as de mamãe quando ela se via num dilema, sem saber que direção tomar. Meu instinto berrava: Acorde-o! Minhas desconfianças murmuravam astuciosamente: Fique calada, não o deixe saber; ele não vai querer quatro filhos que não gerou... Vai detestá-los por evitarem que a esposa herde toda a riqueza e os prazeres que o dinheiro pode comprar.

Olhei para ele, tão jovem e belo. Embora nossa mãe fosse excepcionalmente bela e estivesse prestes a tornar-se uma das mulheres mais ricas do mundo, ele poderia ter escolhido alguém mais jovem que ela. Uma virgem imaculada, que nunca tivesse amado outro homem, nem dormido com alguém.

Então, minha indecisão se desfez. A resposta era muito simples: o que eram quatro filhos indesejáveis em comparação com uma fortuna incalculável? Nada. Mamãe já me ensinara isso. E uma virgem o entediaria. Oh, era injusto! Um jogo desleal! Nossa mãe tinha tudo! Liberdade de ir e vir à vontade! Liberdade para gastar abundantemente e fazer compras nas melhores e mais caras lojas do mundo! Tinha até mesmo o dinheiro suficiente para comprar um homem muito mais jovem a quem amar e com quem dormir. E o que tínhamos Chris e eu senão sonhos desfeitos, promessas quebradas e intermináveis frustrações?

E o que tinham os gêmeos senão uma casa de bonecas, um camundongo de estimação e uma saúde cada vez mais precária?

Voltei ao tristonho quarto trancado com lágrimas nos olhos, levando no peito desesperança que me pesava como pedra. Encontrei Chris adormecido, com o compêndio de anatomia emborcado sobre o peito. Marquei cuidadosamente a página, fechei o livro e o coloquei de lado.

Então, deitei-me ao lado de Chris, abraçando-o, e as lágrimas silenciosas me escorreram pelo rosto, molhando-lhe o pijama.

- Cathy - disse ele, acordando e voltando sonolentamente à realidade. - O que houve? Está chorando? Alguém viu você?

Não consegui encará-lo e, por algum motivo inexplicável, também não pude relatar o que acontecera. Não consegui pronunciar as palavras que lhe diriam que eu encontrara o novo marido de mamãe cochilando no quarto dela. E muito menos pude contar-lhe que eu fora tão infantilmente romântica a ponto de beijá-lo enquanto ele dormia.

- E não encontrou uma só moedinha? - indagou ele, incrédulo.

- Nenhuma - sussurrei em resposta, tentando ocultar o rosto de seu olhar.

Todavia, Chris colocou a mão sob meu queixo, obrigando-me a virar a cabeça para que ele pudesse ver no fundo de meus olhos. Oh, por que tínhamos que conhecer-nos tão bem? Continuou a fitar-me, enquanto eu procurava manter o olhar inexpressivo - mas não adiantou. Tudo o que consegui fazer foi fechar os olhos e agarrar-me ainda mais a ele, que enfiou o rosto em meus cabelos e me acariciou reconfortantemente as costas.

- Está bem. Não chore. Você não sabe onde procurar, como eu sei.

Eu tinha que sair dali, tinha que fugir; e quando fugisse levaria tudo aquilo comigo, não importa aonde fosse ou com quem eu terminasse.

- Agora, pode voltar à sua cama - disse Chris, com aquela voz rouca. - A avó pode abrir a porta e surpreender-nos, você sabe.

- Chris, você não tornou a vomitar depois que saí, não é?

- Não. Estou melhor. Agora, vá, Cathy. Saia daqui.

- Está mesmo melhor? Ou é só da boca para fora?

- Não acabei de dizer que estou melhor?

- Boa noite, Christopher - repliquei, beijando-lhe o rosto antes de sair de sua cama e ir para a minha, acomodando-me junto a Carrie.

- Boa-noite, Catherine. Você é uma ótima irmã para mim e mãe para os gêmeos... mas é péssima mentirosa e pior ladra!

Cada incursão de Chris no quarto de mamãe aumentava nosso tesouro escondido. Estávamos demorando muito a atingir nossa meta de quinhentos dólares. Agora, o verão tornara a chegar. Eu tinha quinze anos e os gêmeos haviam completado oito há pouco tempo. Em breve, agosto marcaria nosso terceiro ano de confinamento. Precisávamos fugir antes do próximo inverno. Olhei para Cory, que comia desanimadamente os grãos de feijão fradinho porque eram "feijão de sorte". Na primeira vez, um Ano Novo, ele se recusara comê-lo porque não queria "olhinhos" espiando em suas entranhas. Agora, comia-os porque cada grão representava um dia de felicidade - conforme conseguíramos convencê-lo. Chris e eu tínhamos que inventar estórias desse tipo do contrário Cory não comia coisa alguma exceto as rosquinhas. Terminando a refeição, Cory sentou-se no chão, dedilhando o banjo, com o olhar fixo num tolo desenho animado. Carrie, sentada a seu lado, o mais perto possível dele, observava o rosto do irmão e não a televisão.

- Cathy - disse-me ela no seu gorjeio de costume, - Cory não está passando bem.

- Como você sabe?

- Eu sei.

- Ele disse que está doente?

- Não precisa dizer.

- E como está você?

- Como sempre.

- E como é isso?

- Não sei.

Oh, sim! Precisávamos fugir - e depressa!

Mais tarde, acomodei os gêmeos numa das camas. Depois que ambos adormecessem, eu pegaria Carrie no colo e a passaria para a nossa cama, mas, por enquanto, era mais reconfortante para Cory pegar no sono com a irmã a seu lado.

- Não gosto desse lençol cor-de-rosa - declarou Carrie, dirigindo-me uma carranca. - Todos nós gostamos de lençóis brancos. Onde estão nossos lençóis brancos?

Oh, triste dia em que Chris e eu transformamos o branco na mais segura de todas as cores! Margaridas desenhadas a giz branco no chão do sótão afugentavam os demônios malvados, os monstros e todas as outras coisas que os gêmeos temiam que os pegassem se não houvesse por perto algo branco para protegê-los. Lençóis e fronhas de outras cores, ou mesmo estampados, não eram tolerados... os pequenos pedaços coloridos do estampado proporcionavam aos demônios menores um buraco através do qual podiam enfiar os rabos bifurcados, ou espiar com um olho malévolo, ou picar com uma pequena lança! Rituais, fetiches, hábitos, normas - oh, Deus! - nós os tínhamos aos milhões! Só para ficarmos seguros.

- Cathy, por que mamãe gosta tanto de vestidos pretos? - quis saber Carrie, esperando enquanto eu retirava os lençóis cor-de-rosa para substituí-los por brancos.

- Mamãe é loura e tem a pele muito clara; o preto a torna ainda mais loura e excepcionalmente bonita.

- Ela não tem medo de preto?

- Não.

- Que idade a gente precisa ter para o preto parar de nos morder com dentes compridos?



- Idade suficiente para saber que essa pergunta é absolutamente tola.

- Mas todas as sombras pretas no sótão têm dentes brilhantes e afiados - disse Cory, recuando para evitar que os lençóis cor-de-rosa lhe roçassem na pele.

- Agora, ouçam - disse eu, vendo os olhos risonhos de Chris observarem tudo, à espera da preciosidade que eu sem dúvida inventaria naquele momento. - As sombras pretas não têm dentes brilhantes e afiados a menos que nossa pele seja verde, que nossos olhos sejam vermelhos, que nossos cabelos sejam roxos, e que tenhamos três orelhas em vez de duas. Só então o preto constitui uma ameaça.

Reconfortados, os gêmeos se enfiaram sob os lençóis e cobertas brancos, adormecendo depressa. Então, tive tempo para tomar banho, lavar o cabelo e vestir um baby doll transparente. Corri ao sótão para escancarar uma janela, na esperança de pegar uma brisa que refrescasse o ambiente e me desse vontade de dançar, em vez de murchar. Por que o vento só entrava em pleno inverno? Por que não agora, quando mais necessitávamos dele?

Chris e eu compartilhávamos nossos pensamentos, aspirações, dúvidas e temores. Se eu tivesse pequenos problemas, ele era o meu médico. Felizmente, meu problemas eram de pouca importância: apenas aquelas cólicas mensais, que nunca vinham no período certo e que ele, como meu médico amador, afirmava que era de se esperar. Já que era de natureza quixotesca, toda a minha máquina interna devia acompanhar meu comportamento.

Assim, agora posso escrever a respeito de Chris e do que ocorreu numa noite de setembro, quando eu estava no sótão e ele descera para roubar, como se tivesse presenciado tudo, pois ele descreveu posteriormente - depois que o choque inicial de algo totalmente inesperado diminuiu um pouco - todos os detalhes daquela sua incursão ao grandioso conjunto de luxuosos aposentos de nossa mãe.

Chris contou-me que aquele livro na gaveta da mesinha de cabeceira sempre o atraía; chamava-o, iludia-o, e viria mais tarde a naufragá-lo - e a mim também. Tão logo ele encontrava sua cota de dinheiro - o bastante, mas não demais - dirigia-se à cama e à mesinha, como que magnetizado.

Enquanto ele contava, eu me indagava: "Por que ele precisa estar sempre olhando o livro, quando eu tenho gravado na mente cada detalhe daquelas páginas?"

A respeito daquela noite, Chris relatou:

- E lá estava eu, lendo algumas páginas de texto e pensando a respeito de certo e errado, da natureza e seus estranhos desígnios, das circunstâncias de nossa vida aqui em cima. Pensei em você e em mim, pois estes deveriam ser nossos anos de florescimento, e eu era obrigado a sentir vergonha e remorso de estar crescendo e de desejar o que os outros rapazes da minha idade aproveitam das garotas que se prestam a isso. E quando lá estava, folheando o livro e ardendo interiormente com tantas frustrações, desejando que você jamais tivesse encontrado aquele livro, cujo título banal nunca me chamara a atenção, escutei vozes que se aproximavam pelo corredor. Você sabe quem era: nossa mãe e o marido, voltando ao quarto. Enfiei depressa o livro na gaveta, coloquei sobre ele as duas brochuras que ninguém terminaria de ler, pois os marcadores estavam sempre nas mesmas páginas. Em seguida, corri para o closet de mamãe, você sabe, o maior, que fica mais perto da cama, e me agachei lá no fundo, perto das prateleiras dos sapatos, escondido por detrás dos longos vestidos de gala. Julguei que se ela entrasse não me veria. E duvidei que entrasse. Mas nem cheguei a me sentir em segurança, pois logo me lembrei de que esquecera a porta aberta. Foi então que ouvi a voz de nossa mãe, quando ela entrou no quarto e acendeu a luz, dizendo: "Realmente, Bart, é muito descuido de sua parte esquecer tantas vezes a carteira". E ele respondeu: "Não posso evitar esquecê-la, pois nunca está no lugar onde a deixo". Escutei-o mexer nas coisas, abrindo e fechando gavetas. Então, explicou: "Tenho certeza de que a deixei nessa calça... e não vou a parte alguma sem minha carteira de motorista". Mamãe comentou: "Do modo como você dirige, não posso culpá-lo. Mas chegaremos atrasados novamente. Por mais depressa que você dirija, ainda perderemos o primeiro ato". "Ei!", exclamou o marido dela. Sua voz expressava surpresa e gemi interiormente ao me lembrar do que fizera. "Aqui está a carteira, em cima da cômoda. Não me lembro de tê-la deixado aqui. Sou capaz de jurar que estava no bolso das calças".

Chris explicou:

- Na verdade, ele tinha escondido a carteira numa gaveta da cômoda, debaixo das camisas. Quando a encontrei, retirei algumas notas de pequeno valor e a deixei em cima da cômoda para ir olhar aquele livro. Então, mamãe disse, como se perdesse a paciência com ele: "Francamente, Bart!" - E ele replicou: "Vamos sair dessa casa, Corrine. Creio que as empregadas andam nos roubando. Tenho sentido falta de dinheiro e você também. Por exemplo: sei que tinha quatro notas de cinco dólares. Agora, tenho apenas três". Tornei a gemer por dentro. Pensei que ele tivesse tanto dinheiro que nunca se desse o trabalho de contá-lo. E o fato de mamãe saber quanto dinheiro tinha na bolsa foi realmente chocante para mim. "Que diferença faz uma nota de cinco dólares?", quis saber nossa mãe, bem a seu feitio, pouco se importando com dinheiro, como no tempo de papai. E acrescentou que os empregados eram mal remunerados e ela não os culpava por se apoderarem do que era deixado tão oportunamente ao seu alcance, "praticamente convidando-os a roubar".



O marido retrucou: "Minha querida esposa, o dinheiro pode ser fácil para você, mas sempre tive que dar duro para ganhar o meu e não admito que me roubem um centavo. Além disso, não posso dizer que o dia começa bem para mim quando vejo a sinistra cara de sua mãe no outro lado da mesa todas as manhãs". Sabe, eu nunca tinha pensado no que ele poderia sentir a respeito da bruxa velha. Aparentemente, sente o mesmo que nós. Então, mamãe se irritou um pouco e disse: "Não vamos começar tudo isso outra vez". Sua voz tinha um tom áspero; nem parecia dela, Cathy. Nunca me ocorreu antes que ela falasse conosco num tom e com as outras pessoas noutro. Depois, acrescentou: "Você sabe que não podemos sair dessa casa - ainda não. Portanto, se vamos ao teatro é melhor irmos logo; já estamos atrasados". Foi então que nosso padrasto declarou que preferia não ir, já que iam perder o primeiro ato, pois isso estragaria a peça inteira. Além disso, ele achava que poderiam encontrar algo mais interessante para fazer que ficarem sentados numa platéia. Percebi que ele estava sugerindo que poderiam ir para a cama fazer um pouco de amor. Se pensa que isso não me deixou repugnado, então você não me conhece bem. Eu preferia morrer a ficar ali enquanto aquilo acontecia. Entretanto, nossa mãe é capaz de mostrar muita voluntariedade - o que me surpreendeu. Ela mudou, Cathy; está muito diferente do que era com papai. Agora, quem manda é ela e homem algum pode lhe dizer o que deve fazer. E ela disse ao marido: "Como na última vez? Ora, foi realmente embaraçoso, Bart! Você voltou para buscar a carteira, jurando-me que não se demoraria, e acabou adormecendo - e deixando-me sozinha na festa, sem um acompanhante!" Foi quando nosso padrasto deu a impressão de irritar-se tanto com as palavras quanto com o tom de nossa mãe. Foi o que julguei - e você sabe que é possível perceber muita coisa pela voz das pessoas, mesmo quando não lhes vemos as fisionomias e expressões faciais. "Oh, como você deve ter sofrido!", replicou ele, parecendo sarcástico. Mas aquilo logo passou, pois ele parece um sujeito jovial. "Quanto a mim, tive o mais lindo sonho e voltaria sempre se tivesse certeza de que uma bela jovem de longos cabelos dourados entraria furtivamente no quarto para me beijar enquanto eu cochilasse. Oh, ela era linda e me olhou com tanto desejo, mas quando abri os olhos já tinha desaparecido e julguei que só podia ser um sonho". O que ele disse deixou-me estarrecido, Cathy - foi você, não foi? Como pôde ser tão atrevida e indiscreta? Fiquei tão furioso com você que seria capaz de explodir se a mínima coisa acionasse o detonador. Você acha que é a única que sente tensão, não acha? Acha que é a única que tem frustrações, dúvidas, suspeitas e temores. Bem, console-se por saber que também tenho - graças a você. E tive raiva de você. Uma raiva como nunca senti antes. Então, mamãe disse asperamente ao marido: "Oh, Deus! Já estou cansada de ouvir você falar dessa garota e do beijo que ela lhe deu. Ora, ouvindo você falar, é de se pensar que nunca foi beijado antes!" Pensei que fossem discutir e brigar ali mesmo, mas mamãe mudou o tom de voz, mostrando-se carinhosa e apaixonada, como costumava fazer com papai. Entretanto, isso provou que ela estava mais disposta a deixar esta casa que o marido, pois este seria capaz de utilizar a cama de cisne naquele mesmo momento. Mamãe disse. "Venha, Bart. Passaremos a noite num hotel e você não terá que ver a cara de minha mãe amanhã de manhã". E isso acabou com minha preocupação de encontrar um meio de fugir do quarto enquanto eles usassem a cama de cisne - pois não pretendia ficar ali para escutar ou espiar o que fariam.

Tudo isso se passou enquanto eu estava no sótão, sentada no peitoril de uma janela, aguardando o regresso de Chris. Pensava na caixa de música de prata que papai me dera e desejava tê-la de volta. Não sabia, então, que o episódio no quarto de mamãe teria repercussões.

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