A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Um rangido atrás de mim! Um passo macio na madeira apodrecida! Sobressaltei-me, assustada, amedrontada, virando-me e esperando deparar com... só Deus sabe o quê! Então, suspirei aliviada, pois era Chris quem estava parado no escuro, olhando silenciosamente para mim. Por quê? Estava mais bonita que de costume? Seria o luar, brilhando através de minhas roupas transparentes?

Todas as dúvidas esparsas se dissiparam quando ele disse em voz áspera e baixa:

- Você está linda, sentada assim. - Pigarreou para livrar-se do sapo que parecia haver em sua garganta. - O luar lhe desenha a silhueta em azul-prateado e posso ver as formas de seu corpo sob as roupas.

Então, assustadoramente, agarrou-me pelos ombros, apertando os dedos com muita força! Doeu.

- Maldita seja, Cathy! Você beijou aquele homem! Ele poderia acordar, ver você e exigir que se identificasse! E não pensar que você fosse apenas parte de um sonho!

Ele agia de modo estranho e eu sentia um medo inexplicável.

- Como sabe o que eu fiz? Você não esteve lá naquela noite; ficou na cama.

Ele me sacudiu novamente, com os olhos faiscando de fúria. Mais uma vez, pareceu-me um estranho.

- Ele viu você, Cathy, não estava dormindo!

- Ele me viu! - exclamei, incrédula; era impossível. Impossível!

- Sim! - berrou meu irmão, Chris, que costumava controlar tão bem as emoções. - Ele pensa que você foi parte de um sonho! Mas não compreende que mamãe pode adivinhar quem foi, simplesmente somando dois e dois, como eu somei? Ao diabo com você e suas idéias românticas! Agora, eles sabem a respeito de nós! Não deixarão dinheiro espalhado, como antes. Ambos estão contando o dinheiro e nós não temos o suficiente, ainda não!

Tirou-me do peitoril com um arranco! Parecia bastante desvairado e furioso para esbofetear-me - e nunca antes, em toda a vida, ele me encostara a mão, embora eu lhe tivesse dado motivos mais que suficientes para isso quando era menor. Entretanto, sacudiu-me até que meus olhos deram a impressão de saltar nas órbitas, até que fiquei tonta e exclamei:

- Pare! Mamãe sabe que não podemos passar por uma porta trancada!

Aquele não era Chris... era alguém que eu nunca vira antes... um selvagem, primitivo.

Gritou algo como:

- Você é minha, Cathy! Minha! Será sempre minha! Não importa quem surgir em seu futuro, você sempre me pertencerá! Eu tornarei você minha... esta noite... agora!

Não acreditei - não podia ser Chris!

Eu não compreendia bem o que ele tinha em mente nem creio que ele soubesse realmente o que dizia - dando crédito ao que afirmou depois -, mas a paixão tem o dom de assumir o controle.

Caímos ambos no chão. Tentei afastá-lo. Lutamos, rolando pelo assoalho, contorcendo-nos em silêncio, num combate frenético da força dele contra a minha.

Não foi uma batalha demorada. Eu tinha as pernas fortes de bailarina, ele possuía os bíceps, o maior peso e altura... e estava multo mais decidido que eu a utilizar algo quente, inchado e exigente - a tal ponto que perdeu todo o raciocínio e sanidade.

E eu o amava. Queria o que ele queria, certo ou errado - já que ele desejava tanto.

Não sei como, terminamos sobre aquele velho colchão - sujo, fedorento e manchado, que certamente conhecera outros amantes antes daquela noite. E foi onde Chris me possuiu, forçando para dentro de mim aquele seu órgão masculino rígido e inchado, que necessitava de satisfação. Penetrou-me na carne contraída e relutante, que foi rasgada e sangrou.

Agora, tínhamos feito aquilo que ambos juráramos jamais fazer.

Agora, estávamos condenados por toda a eternidade, condenados a sermos assados para sempre, nus e pendurados de cabeça para baixo sobre as chamas eternas do inferno. Pecadores, exatamente como a avó previra há tanto tempo.

Agora, eu tinha todas as respostas.

Agora, talvez houvesse um bebê. Um filho para obrigar-nos a pagar em vida, sem esperar pelo inferno e pelo fogo eterno que nos estava destinado.

Afastamo-nos um do outro, fitando-nos, nossos rostos aturdidos e pálidos de choque, mal conseguindo falar ao nos vestirmos.

Chris nem precisava dizer que se arrependia... estava escrito nele... no modo como tremia, em suas mãos trêmulas que tanto vacilavam e se atrapalhavam ao abotoarem a roupa.

Mais tarde, saímos para o telhado.

Compridas tiras de nuvens eram sopradas pelo vento e passavam de encontro à lua cheia, que dava a impressão de esquivar-se, esconder-se e tornar a aparecer no céu. E no telhado, numa noite feita para os amantes, choramos nos braços um do outro. Chris não tencionara fazer aquilo. E eu não tencionara permiti-lo. O medo do bebê que poderia resultar de um único beijo em lábios cobertos por um bigode subia-me à garganta, hesitando na ponta da língua. Era meu maior receio. Mais que o inferno ou a ira divina, eu temia dar à luz uma criança monstruosa, deformada, imbecil. Contudo, como poderia tocar no assunto? Chris já sofria bastante. Entretanto, seus pensamentos eram mais abalizados que os meus.

- Todas as probabilidades são contrárias a um bebê – declarou fervorosamente. - Apenas uma vez, não haverá concepção. Juro que não se repetirá, em hipótese alguma!

Então, puxou-me com tanta força de encontro a ele que me fez doer as costelas.

- Não me odeie, Cathy. Por favor, não me odeie. Juro por Deus que não pretendia violentá-la. Houve muitas vezes em que me senti tentado, mas sempre consegui dominar-me. Saía do quarto, ia para o banheiro, subia ao sótão ou enfiava o nariz num livro, até voltar ao normal.

Abracei-o com a maior força possível.

- Eu não odeio você, Chris - murmurei, apertando a cabeça contra seu peito. - Você não me violentou. Eu poderia impedi-lo, se realmente quisesse. Tudo o que precisava fazer era dar-lhe uma joelhada, como você mesmo me ensinou. A culpa também foi minha.

Oh, sim, a culpa também fora minha. Deveria ter juízo bastante para não beijar o jovem e belo marido de mamãe. Não deveria usar roupas curtas e transparentes perto de um irmão que sentia todas as fortes necessidades físicas masculinas, e era tão frustrado por tudo e por todos. Eu jogara, brincara com suas necessidades, testando minha feminilidade, sentindo meus próprios anseios ardentes de satisfação.

Era um tipo peculiar de noite, como se Deus a tivesse planejado muito tempo antes; aquela noite era nosso destino, certo ou errado. Era escuridão rompida por uma lua muito cheia e brilhante, as estrelas parecendo conversar entre si com cintilações em código Morse... o destino cumprido...

O vento farfalhava nas folhas, produzindo uma estranha música melancólica e sem melodia que, não obstante, ainda era música. Como poderia algo tão humano e cheio de amor ser feio e sujo numa noite tão bela?

Talvez nos demorássemos demais no telhado.

A ardósia era fria, dura e áspera. Estávamos no início de setembro. As folhas já começavam a cair e dentro em breve sentiríamos a mão gelada do inverno. Um calor infernal no sótão. No telhado, começava a fazer frio, muito frio.

Chris e eu nos aconchegamos mais, agarrando-nos mutuamente em busca de segurança e calor. Jovens amantes pecaminosos da pior espécie. Tínhamos caído quilômetros em nossa própria estima, derrotados por anseios tensos demais pela proximidade constante. Ultrapassáramos apenas uma vez a conta da brincadeira com o destino e nossos temperamentos sensuais... e na época eu nem sabia que era sensual, muito menos que ele o era. Julgava que fosse apenas a música bonita que me fazia doer o coração e provocava a estranha sensação de apetite em meu ventre; não imaginava tratar-se de algo muito mais tangível.

Como se partilhássemos o mesmo coração, martelávamos um terrível ritmo de auto-flagelação pelo que fizéramos.

Uma brisa mais fria ergueu uma folha morta até o telhado e soprou-a alegremente pelo ar até prender-se em meu cabelo. Ela estalou, seca e quebradiça, quando Chris a pegou para fitá-la como se sua própria vida dependesse de conhecer o segredo daquela folha morta e aprender a ser soprado pelo vento. Uma folha seca - sem braços, pernas ou asas... mas capaz de voar depois de morta.

- Cathy - disse ele numa voz seca que se assemelhava ao estalar da folha morta. - Agora, temos exatamente trezentos e noventa e seis dólares e quarenta e quatro centavos. A neve não demorará muito a começar a cair. Não possuímos roupas de inverno ou botas adequadas, e os gêmeos estão de tal forma debilitados que se resfriam com facilidade e podem passar de um resfriado para uma pneumonia. Acordo à noite preocupado com eles e já vi você acordada olhando para Carrie, de modo que também deve estar preocupada. Duvido muito que, de agora em diante, encontremos dinheiro espalhado no quarto de mamãe. Desconfiam que uma das empregadas esteja roubando, ou desconfiavam, pois é possível que mamãe já suspeite de que foi você... Não sei... Espero que não... Não importa o que eles possam pensar, na próxima vez que descer eu serei forçado a roubar as jóias dela. Farei uma limpeza: apanharei tudo de uma vez - e fugiremos em seguida. Tão logo estivermos bastante longe daqui, levaremos os gêmeos a um médico e teremos dinheiro suficiente para pagar as contas.

Levar as jóias - o que eu implorara a ele o tempo todo! Afinal, Chris concordava em roubar os prêmios que mamãe tanto lutara para conseguir. E, nesse processo, ela nos perderia também, Mas importar-se-ia com isso?

Uma velha coruja, que talvez fosse a mesma que nos saudara na parada do trem na primeira noite que ali chegáramos, piou a distância, parecendo um fantasma. Enquanto observávamos, nesgas finas e vagarosas de névoa cinzenta começaram a subir do solo úmido, condensadas pelo repentino frio da noite. O nevoeiro engrossou, subindo até o telhado... engolfando-nos como um mar turvo em ondas revoltas.

E a única coisa que conseguíamos ver por entre as nuvens cinzentas, úmidas e frias era o único e grande olho de Deus - brilhando lá em cima, na lua.

Acordei antes do alvorecer. Olhei para onde Cory e Chris dormiam. No momento em que abri os olhos sonolentos e virei a cabeça, senti que Chris também estava acordado, havia algum tempo. Ele já me fitava e lágrimas brilhantes faiscavam no azul de seus olhos, rolando para pingarem no travesseiro. Batizei-as à medida que escorriam: vergonha, remorso, culpa.

- Eu o amo, Christopher. Não precisa chorar. Se você puder esquecer, eu também poderei. E nada existe a perdoar.

Ele meneou a cabeça, sem falar. Mas eu o conhecia bem, até a medula dos ossos. Conhecia seus pensamentos, seus sentimentos, e todos os modos de ferir-lhe fatalmente o ego. Sabia que, por meu intermédio, ele se vingara da mulher que lhe traíra a confiança, a fé e o amor. Bastava-me olhar no espelho de prata com o monograma C.L.F. nas costas para ver o rosto de minha mãe como era quando ela tinha a minha idade.

Portanto, acontecera - exatamente conforme a avó previra. Filhos do Demônio. Criados por sementes ruins plantadas no solo errado, brotando novas plantas que repetiam os erros e pecados dos pais.

E das mães.


Pintem Todos os Dias de Azul, Mas Reservem um Para o Negro
Íamos fugir. A qualquer dia. Tão logo mamãe nos dissesse que pretendia sair à noite, seria despojada de todas as suas posses valiosas e transportáveis. Não voltaríamos a Gladstone, pois lá o inverno durava até maio. Iríamos a Sarasota, onde vivia o pessoal de circo, que tinha fama de ser bondoso para com as pessoas desamparadas. Uma vez que Chris e eu nos acostumáramos a lugares altos, como o telhado e as cordas estendidas nas vigas do sótão, sugeri a Chris em tom de brincadeira:

- Que tal sermos trapezistas?

Ele sorriu, achando a idéia ridícula - apenas no início, pois logo passou a considerá-la uma inspiração.

- Puxa! Você ficaria sensacional numa malha cintilante cor-de-rosa, Cathy!

E começou a cantar:

- Ela voa pelos ares como um pássaro,

A corajosa e bela jovem

Do trapézio voador...

Cory levantou bruscamente a cabeça loura, com os olhos azuis esbugalhados de pavor.

- Não!


Carrie declarou no seu tom mais prático:

- Seus planos não nos agradam. Não queremos que vocês caiam do trapézio.

- Jamais caímos - declarou Chris. - Cathy e eu formamos uma dupla imbatível.

Olhei para ele, relembrando aquela noite na sala de aulas e depois no telhado, quando ele sussurrara: "Nunca amarei ninguém senão você, Cathy. Tenho certeza... uma sensação... só nós dois, para sempre".

Eu rira com naturalidade:

- Não seja tolo; sabe que não me ama dessa maneira. E não precisa sentir remorso ou vergonha. A culpa também foi minha. Além disso, podemos fazer de conta que nunca aconteceu e tomar providências para que nunca mais torne a acontecer.

- Mas,Cathy...

- Se existissem outras pessoas para você e para mim, nós nunca, nunca nos sentiríamos assim.

- Mas quero sentir-me assim em relação a você e já é tarde demais para eu amar ou confiar em outra pessoa.

Como eu me sentia velha, olhando para Chris e os gêmeos, fazendo planos para todos nós, falando com tanta confiança em abrirmos caminho no futuro.

Apenas um artifício para consolar os gêmeos e pacificá-los, quando eu sabia que seríamos obrigados a fazer de tudo e qualquer coisa para ganharmos nosso sustento.

Setembro passou e outubro chegou. Em breve a neve começaria a cair.

- Esta noite - disse Chris depois que mamãe saiu do nosso quarto, despedindo-se apressadamente e não parando à porta para um último olhar.

Agora, ela mal conseguia ver-nos.

Enfiamos uma fronha na outra, para reforçá-la. Naquele saco, Chris meteria as preciosas jóias de mamãe. Eu já arrumara nossas duas malas, que estavam escondidas no sótão, onde mamãe nunca ia atualmente.

No final da tarde, Cory começou a vomitar repetidamente. No armário de remédios, tínhamos medicações caseiras para problemas digestivos.

Nada do que demos a Cory serviu para aliviar os terríveis vômitos que o tornavam pálido e trêmulo, fazendo-o chorar. Então, ele me abraçou o pescoço, murmurando:

- Mamãe, não me sinto bem.

- O que posso fazer para que se sinta melhor Cory? - indaguei, sentindo-me tão jovem e inexperiente.

- Mickey - sussurrou ele debilmente. - Quero que Mickey durma comigo.

- Mas você pode rolar na cama e esmagá-lo. Não quer que ele morra, quer?

- Não - disse ele, apavorado com a idéia.

Então, os terríveis vômitos recomeçaram e ele ficou gelado em meus braços, os cabelos grudados na testa úmida de suor frio, os olhos vagos pousados no meu rosto enquanto ele chamava repetidamente pela mãe:

- Mamãe, mamãe, sinto dor nos ossos.

- Está tudo bem - assegurei, pegando-o no colo para levá-lo de volta à cama, onde poderia trocar-lhe o pijama sujo de vômito. Como ele podia vomitar outra vez se nada mais lhe restava no estômago?

- Não se preocupe. Chris vai ajudar você.

Deitei-me a seu lado, abraçando o corpinho trêmulo e debilitado.

Chris estava sentado à escrivaninha improvisada, consultando livros de medicina, procurando usar os sintomas de Cory para diagnosticar a misteriosa moléstia que atacava cada um de nós de tempos em tempos. Embora já tivesse quase dezoito anos, ainda estava muito longe de ser médico.

- Não vão embora deixando Carrie e eu para trás - implorou Cory.

Mais tarde, exclamou bem alto:

- Não vá embora, Chris! Fique aqui!

O que queria ele dizer? Não queria que fugíssemos? Ou referia-se a ir novamente ao quarto de mamãe para roubar? Por que Chris e eu sempre julgávamos que os gêmeos nunca davam muita atenção às nossas conversas? Era evidente que Cory e Carrie sabiam que jamais fugiríamos sem os levarmos conosco; preferíamos morrer antes de fazer tal coisa.

Uma coisinha sombria, toda vestida de branco, aproximou-se da cama e fixou os grandes olhos azuis lacrimosos no seu irmão gêmeo. Tinha menos de um metro de altura. Era velha e jovem, como uma tenra plantinha mantida numa estufa aquecida, raquítica e murcha.

- Permitem-me - começou ela, muito educadamente (como tentávamos ensinar-lhe; ela se recusava terminantemente a empregar a gramática que lhe ensinávamos, mas tentou o melhor possível naquela noite das noites) - dormir com Cory? Nada faremos de errado, pecaminoso ou malvado. Quero apenas estar perto dele.

Que a avó chegasse e fizesse o pior possível! Colocamos Carrie ao lado de Cory. Depois, Chris e eu sentamo-nos em lados opostos da enorme cama e observamos Cory debater-se, inquieto, arquejando para respirar e gritando em seu delírio. Queria o camundongo, queria o pai, queria a mãe, queria Chris e queria a mim. As lágrimas umedeciam a gola de minha camisola e, ao erguer os olhos, percebi que também escorriam pelo rosto de Chris.

- Carrie... Carrie... Onde está Carrie? - repetia Cory, muito depois que a irmã já adormecera.

Os dois rostinhos abatidos estavam a apenas poucos centímetros um do outro e ele olhava diretamente para Carrie, mas mesmo assim não conseguia enxergá-la. Quando eu desviava os olhos para olhar Carrie, ela não me parecia em melhor estado de saúde que ele.

Castigo, pensei. Deus castigava Chris e eu pelo que havíamos feito. A avó nos prevenira... admoestara-nos diariamente, até o dia em que fomos surrados.

Chris passou a noite inteira lendo um livro de medicina após outro, enquanto eu me levantei e passei a andar pelo quarto.

- Intoxicação alimentar - disse Chris afinal, erguendo os olhos vermelhos de sangue. - O leite... devia estar azedo.

- Não tinha gosto nem cheiro de azedo - murmurei em resposta.

Eu sempre tinha o cuidado de cheirar e provar tudo antes de dar aos gêmeos ou a Chris. Não sei por que, achava que meu paladar era mais aguçado que o de Chris; este gostava e comia de tudo, até mesmo manteiga rançosa.

- O hambúrguer, então. Achei o gosto esquisito.

- Para mim, o gosto estava bom.

E para ele também devia estar, pois comera metade do hambúrguer de Carrie e todo o de Cory. Este não quisera comer nada durante o dia inteiro.

- Cathy, percebi que você também quase não comeu o dia todo. Está quase tão magra quanto os gêmeos. Ela nos traz comida suficiente. Você não tem necessidade de se privar da alimentação.

Sempre que me sentia nervosa, ou frustrada, ou preocupada - e agora estava sentindo as três coisas - eu começava exercícios de balé. Apoiei-me de leve na cômoda, que me servia de barra, e comecei a me aquecer fazendo pliés.

- Precisava fazer isso, Cathy? Já está que é só pele e osso. E não comeu hoje. Também está doente?

- Cory adora as rosquinhas e elas são a única coisa que tenho vontade de comer. Como ele precisa delas mais que eu...

A noite se arrastava. Chris voltou aos livros de medicina. Dei água a Cory e ele a vomitou imediatamente. Lavei-lhe o rosto com água fria uma dúzia de vezes e troquei-lhe três vezes o pijama. Carrie continuava a dormir profundamente.

Alvorada.

O sol nasceu e ainda tentávamos descobrir o que havia de errado com Cory, quando a avó chegou com a cesta de piquenique contendo a comida daquele dia. Sem dizer uma palavra, trancou a porta, guardou a chave no bolso do vestido e avançou até a mesinha de jogo. Tirou da cesta a grande garrafa térmica de leite, as garrafas menores com sopa, os embrulhos de papel aluminizado contendo sanduíches, galinha frita, salada de batatas e - por último - o embrulho com quatro rosquinhas cobertas com açúcar. Virou-se para sair.

- Avó - disse eu, hesitante.

Ela não olhara para Cory. Nem mesmo o vira.

- Não me dirigi a você - replicou friamente. - Espere até que eu o faça.

- Não posso esperar - declarei, sentindo a raiva crescer dentro de mim.

Levantei-me da cama de Cory e avancei para a velha.

- Cory está doente! Passou o dia de ontem e esta noite inteira vomitando. Precisa de um médico e da mãe dele.

Ela não olhou para mim nem para Cory. Saiu rigidamente do quarto e trancou a porta por fora. Nenhuma palavra de conforto. Nenhuma confirmação de que nossa mãe seria informada da situação.

- Destrancarei a porta e irei procurar mamãe - declarou Chris, ainda usando as mesmas roupas da véspera, que não despira para deitar-se.

- Então, elas descobrirão que temos uma chave.

- Então, elas descobrirão.

Naquele instante, a porta se abriu outra vez e mamãe entrou, seguida de perto pela avó. Debruçaram-se juntas sobre Cory, tocando-lhe o rosto frio e úmido, e trocando um olhar. Foram para um canto, onde conversaram em segredo, como se tramassem alguma coisa, lançando olhares ocasionais na direção de Cory, que jazia sobre a cama como à espera da morte. Apenas seu peito se movimentava espasmodicamente. Sons engasgados escapavam-lhe da garganta. Fui até lá enxugar as gotículas que se acumulavam em sua testa. Esquisito como ele podia estar tão frio e, ao mesmo tempo, transpirar.

A respiração ruidosa e irregular de Cory era o único som audível no quarto. E lá estava mamãe - sem fazer nada! Incapaz de tomar uma decisão! Ainda temerosa de permitir que alguém soubesse da existência dos filhos, pois estes não deveriam existir!

- Por que ficam aí segredando? - berrei. - Que outra escolha vocês têm a não ser levarem Cory para um hospital e o entregarem aos cuidados do melhor médico disponível?

Olharam-me com raiva - ambas. Pálida, trêmula, com uma expressão sinistra, mamãe fixou em mim seus olhos azuis. Então, desviou-os ansiosamente na direção de Cory. O que ela viu na cama provocou-lhe um tremor nos lábios e nas mãos, bem como um tique nervoso no rosto. Piscou repetidamente, como se tentasse reprimir lágrimas.

Vigiei atentamente os menores sinais que traíssem seus pensamentos calculistas. Ela avaliava os riscos de Cory ser descoberto e fazê-la perder a herança... pois aquele velho moribundo tinha que morrer um dia, não tinha? Não poderia sobreviver para sempre!

Gritei:


- O que há com você, mamãe? Vai ficar aí parada, pensando em si e no dinheiro, enquanto seu filho agoniza e morre naquela cama? Tem que tratar dele! Não lhe importa o que acontecer com ele? Já esqueceu que é mãe dele? Se não esqueceu, maldita seja, trate de agir como mãe! Pare de hesitar! Ele necessita de atenção agora, não amanhã!

O rosto de minha mãe ficou rubro de cólera. Tornou a olhar para mim.

- Você! - exclamou, cuspindo as palavras. - Sempre você!

Ergueu a mão pesada de anéis e esbofeteou-me o rosto! Duas vezes.

Era a primeira vez na vida que ela me batia no rosto - e por um motivo como aquele! Ultrajada, sem pensar direito, revidei - com a mesma força!

A avó, se manteve ao largo, observando. Maldosa satisfação contraiu-lhe a boca fina e feia numa linha retorcida.

Chris correu para segurar-me os braços quando eu ia esbofetear mamãe mais uma vez.

- Cathy, agindo assim você não está ajudando Cory. Acalme-se. Mamãe fará o que deve fazer.

Foi bom Chris ter-me segurado os braços, pois eu queria esbofeteá-la novamente e obrigá-la a ver o que estava fazendo!

O rosto de meu pai surgiu de relance aos meus olhos. Tinha a testa franzida, dizendo-me silenciosamente que eu sempre deveria ter respeito pela mulher que me trouxera ao mundo. Compreendi que ele pensaria assim; não desejaria que eu a agredisse.

- Que Deus a condene ao inferno, Corrine Foxworth, se você não levar seu filho para um hospital! - berrei a plenos pulmões. - Julga que pode nos fazer o que bem entende e ninguém descobrirá jamais! Pois pode jogar no lixo essa ilusão de segurança, porque juro que encontrarei um meio de vingança, mesmo que isso me tome o resto da vida! Farei você pagar bem caro, muito caro mesmo, se não tomar uma providência imediata para salvar a vida de Cory! Vamos, olhe para mim com raiva, chore e suplique, fale no dinheiro e nas coisas que ele pode comprar. Mas o dinheiro não pode comprar de volta a vida de uma criança morta! E se Cory morrer, não pense que deixarei de encontrar um modo de dizer a seu marido que você mantém quatro filhos escondidos num quarto trancado, dando-lhes como playground o sótão... e prendendo-os lá por anos e anos a fio! Então, veja se ele continuará a amá-la! Observe bem o rosto dele e veja quanto respeito e admiração ele passará a ter por você.

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