A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Embora seu pai me reprovasse um pouco, ele também queria viver assim. Fazia-me a vontade porque me amava e creio que, afinal, consegui convencê-lo de que o luxo era absolutamente necessário. E ele cedeu, pois tínhamos ambos uma propensão para satisfazer demais nossos desejos. Era outra dentre as muitas coisas que possuíamos em comum.

Sua fisionomia espelhou tristonhas reminiscências antes que ela prosseguisse naquele tom estranho:

- Agora, todas as nossas lindas coisas serão levadas. O termo legal é reintegração de posse. É o que fazem quando as pessoas não possuem dinheiro suficiente para pagar o que compraram a prazo. Tomem esse sofá como exemplo. Há três anos, custava oitocentos dólares. Já pagamos quase tudo; faltam apenas cem dólares. Mesmo assim, eles o tomarão de volta. Perderemos tudo o que já pagamos por cada objeto; não obstante, é legal. Não perderemos apenas a casa e os móveis, como também os automóveis; na verdade, perderemos tudo, exceto as roupas e os brinquedos de vocês. Permitirão que eu guarde minha aliança de casamento e escondi o anel de brilhante que seu pai me deu de noivado. Portanto, façam o favor de não mencionar um anel de noivado a qualquer pessoa que venha realizar uma inspeção.

Nenhum de nós indagou quem eram "eles". Não me ocorreu indagar, naquele momento. E mais tarde, não me pareceu fazer qualquer diferença.

Os olhos de Christopher encontraram os meus. Senti-me afundar no desejo de compreender e lutei para não me afogar na compreensão. Já estava afundando, afogando-me no mundo adulto de mortes e dívidas. Meu irmão estendeu o braço e pegou-me a mão, apertando-me os dedos num raro gesto de conforto fraternal.

Seria eu uma vidraça, tão transparente que até mesmo Christopher, o meu algoz de todas as horas, tentava confortar-me? Tentei sorrir, a fim de lhe provar o quanto eu era adulta e, dessa forma, zombar daquele ente trêmulo e frágil no qual me tornava porque "eles" iam levar tudo. Não queria que outra menina morasse em meu lindo quarto cor-de-rosa, dormisse em minha cama, brincasse com os brinquedos que eu adorava - minhas bonequinhas com biombos, minha caixa de música feita de prata de lei, com a bailarina cor-de-rosa... "Eles" as levariam, também?

Mamãe observou com grande atenção a troca de gestos e expressões entre meu irmão e eu. Retomou a palavra, deixando transparecer um pouco de sua antiga personalidade:

- Não fiquem tão acabrunhados. Na verdade, o quadro não é tão feio quanto o descrevi. Devem desculpar-me se não raciocinei direito e me esqueci do quanto vocês ainda são jovens. Dei as más notícias em primeiro lugar, guardando as melhores para o final. Agora, prendam a respiração! Não acreditara-o no que vou lhes dizer... pois meus pais são ricos! Não ricos da classe média, ou ricos da classe alta, mas muito, muito ricos! Podres de ricos! Incrivelmente, pecadoramente ricos! Moram numa bela e enorme mansão na Virgínia - uma casa como vocês jamais viram antes. Eu sei, pois nasci e fui criada lá. Quando avistarem aquela casa, esta aqui parecerá um barraco, em comparação. E eu não disse que vamos morar com eles, minha mãe e meu pai?

Ofereceu-nos aquela palha de ânimo com um sorriso nervoso e hesitante que não foi o bastante para dissipar-me as dúvidas causadas por sua fisionomia e pelas informações que acabava de fornecer. Não me agradava a maneira pela qual seus olhos desviavam-se com ar de culpa sempre que eu procurava encará-la. Julguei que ela ocultasse algo.

Mas era minha mãe.

E papai se fora.

Peguei Carrie e a sentei no colo, comprimindo-lhe o corpo miúdo e quente contra o meu. Alisei para trás os úmidos cachos dourados que lhe caíam na testa arredondada. Os olhos de Carrie se fecharam e seus lábios carnudos se uniram para formar um botão de rosa. Olhei para Cory, recostado em Christopher.

- Os gêmeos estão cansados, mamãe. Precisam jantar.

- Haverá tempo bastante para isso, mais tarde - replicou ela, irritada e impaciente. - Temos planos a fazer, roupas a arrumar, pois precisamos pegar o trem esta noite. Os gêmeos podem comer enquanto arrumamos a bagagem. Tudo que vocês quatro usam deve ser enfiado em apenas duas malas. Quero que levem apenas suas roupas prediletas e os brinquedos pequenos que não desejam deixar para trás. Levem apenas um jogo. Comprarei uma porção de jogos quando vocês chegarem lá. Cathy, escolha as roupas e brinquedos que julga agradarem mais aos gêmeos... mas apenas alguns. Não poderemos levar mais que quatro malas e preciso de duas para as minhas coisas.

Oh, meu Deus! Era verdade! Tínhamos que partir, abandonando tudo! Eu precisava enfiar tudo em apenas duas malas, que seriam compartilhadas também por meus irmãos. Só a minha boneca Ann ocuparia metade de uma mala! Não obstante, como poderia abandoná-la - minha boneca mais querida, que papai me dera de presente aos três anos? Solucei.

Assim, permanecemos chocados, fitando mamãe. Ela se mostrou terrivelmente nervosa, pois ergueu-se de um pulo e começou a andar de um lado para outro.

- Como eu disse antes, meus pais são extremamente ricos - declarou, lançando para mim e para Chris um olhar de esguelha, antes de virar-se depressa para ocultar novamente o rosto.

- Há algo errado, mamãe? - quis saber Christopher.

Espantei-me de que ele pudesse fazer tal pergunta, quando era por demais óbvio que tudo estava errado.

Mamãe continuou a andar de um lado para outro, as pernas bem torneadas aparecendo pela abertura na frente do negligé transparente. Mesmo em seu sofrimento, trajando luto, era linda - com rosto abatido, olhos fundos e tudo mais. Era tão bela e eu a amava - oh, como eu a amava!

Como todos nós a amávamos!

Bem em frente ao sofá, nossa mãe girou nos calcanhares e a gaze negra do negligé rodopiou como a saia de uma bailarina, revelando-lhe as belas pernas desde os tornozelos aos quadris.

- Queridos - disse ela. - O que poderia haver de errado em morarmos numa ótima casa como a de meus pai? Nasci lá; lá cresci e fui criada, exceto durante os anos que passei interna na escola. É uma casa grande, bonita, à qual estão sempre acrescentando novos quartos, embora só Deus saiba quantos ela já possui.

Sorriu, mas havia algo falso em sua expressão.

- Contudo, preciso dizer-lhes uma coisinha antes de apresentá-los ao meu pai, que é seu avô.

Mais uma vez, vacilou e exibiu aquele sorriso estranho e sombrio.

- Há alguns anos, quando eu tinha dezoito anos de idade, fiz algo muito grave, que seu avô reprovou; minha mãe também não aprovou, mas como se recusou a ficar contra mim, de qualquer maneira, isso não conta. Todavia, por causa do que fiz, seu avô mandou retirar meu nome de sua herança e, portanto, estou deserdada. Seu pai, em termos galantes, dizia que eu "caíra em desgraça". Seu pai sempre viu as coisas pelo lado bom e disse que não fazia diferença.

Caíra em desgraça? O que significaria isso? Não consegui imaginar minha mãe cometendo um erro tão grave a ponto de fazer seu pai voltar-se contra ela e tomar-lhe o que lhe pertencia por direito.

- Sim, mamãe, compreendo o que quer dizer - interpôs Christopher. – Você fez algo que seu pai desaprovou e, portanto, embora seu nome constasse do testamento, meu avô, em vez de pensar melhor, mandou que o advogado a eliminasse do documento. Agora, você não herdará nenhum de seus bens materiais quando ele passar desse mundo para o além.

Sorriu, satisfeito por saber mais do que eu. Sempre tinha resposta para tudo. Em casa, andava sempre com o nariz enfiado num livro. Lá fora, a céu aberto, era tão levado quanto qualquer outro menino da vizinhança. Dentro de casa, porém, afastado da televisão, meu irmão mais velho era um rato de livros!

Naturalmente, tinha razão.

- Sim, Christopher. Nenhuma parte da fortuna de seu avô virá para mim quando ele morrer; ou para vocês, através de mim. Foi por isso que precisei escrever tantas cartas para casa, enquanto minha mãe não respondia - tornou a sorrir, desta feita com ironia. - Mas, como sou a única herdeira de ambos, tenho esperança de reconquistar a aprovação de meu pai. Entendam: outrora tive dois irmãos, mas ambos morreram em acidentes e agora sou a única que restou para herdar.

Cessou de caminhar nervosamente. Ergueu a mão para cobrir os lábios; sacudiu a cabeça e, em seguida, continuou naquele novo tom, semelhante a um papagaio:

- Acho melhor contar-lhes uma outra coisa. Seu verdadeiro sobrenome não é Dollanganger; é Foxworth. E Foxworth é uma família muito importante na Virgínia.

- Mamãe! - exclamei, chocada. - É legal falsificar o próprio nome e colocar o nome falso num certificado?

A voz de minha mãe se tornou impaciente:

- Pelo amor de Deus, Cathy, é possível mudar-se legalmente de nome. E o nome Dollanganger foi mais ou menos escolhido por nós. Seu pai o tomou emprestado de algum ponto de sua árvore genealógica, considerava-o divertido, uma espécie de pilhéria, que atingiu plenamente o objetivo.

- Que objetivo? - indaguei. - Por que motivo papai mudaria um nome fácil de soletrar, como Foxworth, por outro comprido e difícil como Dollanganger?

- Estou fatigada, Cathy - replicou mamãe, deixando-se cair na poltrona mais próxima. - Tenho tantas coisas a fazer, tantos detalhes legais a tratar. Em breve vocês saberão tudo. Explicarei. Juro ser totalmente franca. Agora, por favor, permitam-me recobrar o fôlego.

Oh, que dia foi aquele! Primeiro, ouvimos dizer que os misteriosos "eles" viriam tomar-nos tudo, até a casa. Depois, descobrimos que nosso sobrenome não era realmente nosso.

Os gêmeos, encolhidos em nossos colos, já estavam meio adormecidos e, de todo modo, ainda eram pequenos demais para entenderem. Até mesmo eu, agora com doze anos e já quase uma mulher, não compreendia por que motivo mamãe não parecia realmente feliz por voltar à casa dos pais, os quais ela não via há quinze anos. Pais secretos, que julgávamos mortos - até depois dos funerais de papai. Só naquele dia ouvíramos falar de dois tios que haviam morrido em acidentes. Então, percebi nitidamente que nossos pais tiveram vidas cheias antes mesmo de terem filhos e que, afinal, não éramos tão importantes.

- Mamãe - disse Christopher devagar. - Sua linda e enorme mansão na Virgínia parece ótima, mas gostamos daqui. Nossos amigos moram aqui; todos nos conhecem, todos gostam de nós e eu não quero me mudar daqui. Não pode procurar o advogado de papai e lhe pedir para encontrar uma maneira de continuarmos morando aqui, com a nossa casa e os nossos móveis?

- Sim, por favor, mamãe, deixe-nos ficar - acrescentei.

Mamãe levantou-se rapidamente da poltrona e recomeçou a andar através da sala. Ajoelhou-se diante de nós, com os olhos no mesmo nível que os nossos.

- Agora, ouçam-me bem - ordenou, tomando a mão de meu irmão e a minha, comprimindo-as contra o próprio peito. - Eu tenho pensado muito a fim de encontrar uma maneira de conseguirmos permanecer aqui, mas não existe meio. Não existe absolutamente nenhum meio, porque não temos dinheiro para pagar as contas mensais e não possuo qualificações para ganhar um salário adequado a sustentar quatro filhos e eu. Olhem bem para mim - disse, abrindo os braços, parecendo vulnerável, linda, indefesa. - Sabem o que sou? Um enfeite inútil e bonito, que sempre acreditou que teria a seu lado um homem para cuidá-lo. Não sei fazer nada. Nem mesmo escrever à máquina. Não sou boa em matemática. Sei bordar muito bem, mas isso não serve para ganhar dinheiro. E é impossível viver sem dinheiro. Não é o amor que faz o mundo girar; é o dinheiro. E meu pai nem sabe o que fazer com todo o dinheiro que possui. Tem apenas um herdeiro vivo, eu! Houve um tempo em que dava mais importância a mim que aos dois filhos homens, de modo que não seria difícil recuperar-lhe o afeto. Então, ele mandará o advogado incluir-me outra vez no testamento e eu herdarei tudo! Ele tem sessenta e seis anos de idade e está morrendo de uma moléstia cardíaca. Pelo que minha mãe escreveu numa folha separada, que não foi lida por meu pai, seu avô não poderá sobreviver mais que dois ou três meses. Isso me proporcionará bastante tempo para agradá-lo e fazê-lo amar-me como outrora. E, quando ele morrer, toda a sua fortuna será minha! Minha! Nossa! Ficaremos livres para sempre de todas as preocupações financeiras. Livres para irmos aonde quisermos. Livres para viajarmos, para comprarmos o que quisermos, qualquer coisa que desejarmos! Não estou falando apenas de um milhão ou dois, mas de muitos, muitos milhões, talvez até mesmo bilhões! Gente que possui tanto dinheiro nem chega a saber o quanto realmente possui, pois está investido aqui e acolá, neste ou naquele negócio, incluindo bancos, companhias aéreas, hotéis, grandes lojas de departamento, linhas de navegação. Ora, vocês nem podem imaginar o tipo de império que seu avô controla, até mesmo agora, quando já tem um pé na cova! Ele é um gênio para ganhar dinheiro. Tudo o que toca se transforma em ouro.

Os olhos azuis brilhavam. O sol penetrava pelas janelas da frente, lançando faixas de luz cor de diamante em seus cabelos. Já parecia incalculavelmente rica. Mamãe, mamãe, por que tudo isso veio à tona depois da morte de papai?

- Christopher, Cathy, estão imaginando bem? Escutaram com atenção? O mundo, com tudo que nele existe, é de vocês! Entendem o que uma tremenda quantidade de dinheiro é capaz de fazer? Dá poder, influência, respeito. Confiem em mim. Em breve, recuperarei o amor de meu pai. Bastará um simples olhar para que ele compreenda de imediato que aqueles quinze anos de afastamento foram um desperdício. Está velho e doente; permanece num pequeno quarto ao lado da biblioteca, com enfermeiras para cuidá-lo dia e noite, empregados que lhe satisfazem todas as vontades. Todavia, só o próprio sangue e carne possuem algum significado. E sou a última que resta: só eu. Até mesmo as enfermeiras não precisam subir para tomar banho, porque possuem um banheiro particular. Uma noite, eu o prepararei para conhecer pessoalmente os quatro netos; descerei a escadaria com vocês, entraremos no quarto e ele ficará enfeitiçado, encantado com o que vir: quatro lindas crianças, perfeitas sob todos os aspectos. Ele terá que amá-los, cada um de vocês. Acreditem: dará certo, exatamente como estou dizendo. Prometo-lhes que farei qualquer coisa que meu pai exigir de mim. Pela minha vida, por tudo que considero sagrado e querido, e isso são os filhos que meu amor por seu pai gerou, prometo-lhes que em breve serei dona de uma fortuna inacreditável e que, por meu intermédio, todos os seus sonhos serão realizados.

Fiquei boquiaberta, perplexa ante a paixão de nossa mãe. Olhei para Christopher e percebi que fitava mamãe com incredulidade. Ambos os gêmeos já se encontravam nos suaves estágios iniciais do sono e não escutaram coisa alguma do que ali fora dito.

Íamos morar numa casa enorme e rica como um palácio.

Naquele palácio tão grandioso, onde os criados serviam como escravos, seríamos apresentados ao Rei Midas, que morreria logo em seguida e, em breve, nós teríamos todo o dinheiro para colocar o mundo a nossos pés. Alcançaríamos uma riqueza incrível! Eu seria como uma princesa!

Ainda assim, por que não me sentia feliz?

- Cathy - disse-me Christopher com um amplo sorriso. - Você ainda poderá ser bailarina. Não acredito que o dinheiro possa comprar talento, nem transformar um playboy em médico. Mesmo assim, até chegar o momento de agirmos com seriedade, vamos farrear bastante, não é mesmo?

Não pude levar a caixinha de música de prata com a bailarina cor-de-rosa. A caixinha de música era dispendiosa e fora relacionada como objeto de valor a ser levado por "eles".

Não pude retirar as molduras das paredes nem esconder as bonecas em miniatura. Na verdade, pouco pude levar do que papai me dera de presente, à exceção do anelzinho em meu dedo, com uma pedra semi-preciosa lapidada em forma de coração.

E, como dissera Christopher, depois que ficássemos podres de ricos, nossa vida resumir-se-ia num suntuoso baile, numa festa interminável. Era assim que viviam os ricos: felizes para sempre, contando dinheiro e fazendo planos para divertimentos.

Divertimentos, festas, jogos, fortuna incalculável, uma casa enorme como um palácio, com criados que moravam em cima de uma imensa garagem com lugar para ao menos nove ou dez automóveis de luxo. Quem imaginaria que minha mãe vinha de uma família assim? Por que papai discutia com ela para casa e pedisse, humildemente, algum dinheiro aos pais?

Caminhei devagar pelo corredor até a porta de meu quarto, onde parei diante da caixinha de música prateada na qual a bailarina cor-de-rosa em posição de arabesque fitava-se no espelho da tampa. Escutei a melodia: "Gire, bailarina, gire..."

Poderia roubá-la, se tivesse um lugar para escondê-la.

Adeus outra vez para você, papai, pois, quando eu me for, não mais poderei imaginá-lo sentado ao lado da cama, segurando-me a mão, nem o verei chegar do banheiro trazendo um copo com água. Na verdade, não sinto muita vontade de ir, papai. Prefiro ficar e manter sua lembrança junto de mim.

- Cathy! - Mamãe estava à porta. - Não fique aí, chorando. Um quarto é apenas um quarto como qualquer outro. Você morará em muitos quartos antes de morrer. Portanto, trate de andar depressa. Arrume suas coisas e a bagagem dos gêmeos, enquanto eu arrumo as minhas.

Antes de morrer, eu ainda moraria em mil quartos - ou talvez mais. Uma pequena voz me sussurrou isso ao ouvido... e acreditei.
A Estrada da Riqueza
Enquanto mamãe arrumava suas coisas, Christopher e eu enfiamos nossas roupas em duas malas, junto com um jogo e alguns brinquedos. No início do crepúsculo vespertino, um táxi levou-nos à estação ferroviária. Havíamos saído furtivamente de casa, sem nos despedimos de um só amigo - o que nos magoava. Eu não sabia por que razão devíamos agir assim, mas mãe insistiu. Nossas bicicletas foram deixadas na garagem, com tudo o mais de tamanho exagerado para ser trazido conosco.

O trem avançava por uma noite escura e estrelada, dirigindo-se a uma distante propriedade rural na Virgínia. Passamos por vilas e lugarejos adormecidos, bem como por fazendas isoladas nas quais retângulos dourados de luz eram o único indício de sua existência naquelas plagas. Meu irmão e eu não queríamos pegar no sono, a fim de não perdemos detalhe algum da viagem – e tínhamos muito o que conversar! Na maior parte do tempo, tecemos especulações sobre a enorme e luxuosa mansão onde viveríamos em esplendor, comendo em pratos de ouro servidos por um mordomo de libré. E eu julgava que teria uma empregada só para cuidar de minhas roupas, preparar meubanho, e pular quando eu ordenasse. Mas não pretendia tratá-la com severidade. Seria o tipo delicado e compreensivo de boa patroa que todos os criados desejam - a menos que ela estragasse algo de que eu realmente gostasse! Então, seria um inferno - eu teria um ataque de nervos e, ao menos, atiraria longe algumas coisas que não me agradassem.

Relembrando aquela viagem noturna de trem, dou-me conta de que foi exatamente naquela noite que comecei a crescer e filosofar. Com tudo o que se ganha, deve-se perder alguma coisa - de modo que era melhor eu me acostumar e tratar de aproveitar ao máximo.

Enquanto meu irmão e eu especulávamos sobre a maneira de gastarmos o dinheiro quando o recebêssemos, o portentoso condutor calvo entrou em nosso minúsculo compartimento, olhou apreciativamente da cabeça aos pés de mamãe e disse num tom suave:

- Sra. Patterson, dentro de quinze minutos chegaremos à sua parada.

Ora, por que a chamava de "Sra. Patterson"? Fiquei intrigada. Lancei um rápido olhar a Christopher, que também parecia perplexo.

Despertada repentinamente, parecendo assustada e desorientada, mamãe arregalou os olhos. Olhou do condutor, que permanecia perto dela, para, Christopher e eu; depois, com ar de desespero, fitou os gêmeos adormecidos. Logo começou a chorar, remexeu na bolsa e pegou lenços de papel, enxugando delicadamente os olhos. Depois, soltou um suspiro tão fundo, tão cheio de sofrimento, que meu coração começou a bater num ritmo nervoso.

- Sim, muito obrigada - disse ela ao condutor, que ainda a observava com grande aprovação e admiração. - Não tema. Estaremos prontos para desembarcar.

- Madame - disse ele, muito preocupado, consultando o relógio de bolso. - São três horas da manhã. Alguém virá buscá-los na estação?

Seu olhar de preocupação voltou-se para Christopher, para mim e, finalmente, para os gêmeos adormecidos.

- Tudo bem - assegurou mamãe.

- Está muito escuro lá fora, madame.

- Sou capaz de encontrar o caminho de casa com os olhos fechados.

O avuncular condutor não se satisfez com a resposta.

- Ouça, senhora - insistiu ele. - É uma hora de viagem até Charlottesville. Aqui, estaremos deixando a senhora e seus filhos num fim de mundo. Não existe uma só casa à vista.

A fim de evitar outras perguntas, mamãe replicou em seu tom mais arrogante:

- Alguém virá buscar-nos.

Engraçado como ela parecia capaz de tirar aquelas maneiras petulantes de uma cartola, descartando-se delas logo em seguida.

Chegamos à parada no fim do mundo e desembarcamos do trem. Ninguém à nossa espera.

Estava totalmente escuro quando descemos do trem e, como prevenira o condutor, não existia uma só casa à vista. Sozinhos na noite, longe de quaisquer vestígios de civilização, fizemos acenos de despedida para o condutor, que permanecia nos degraus do vagão, segurando-se com uma das mãos e acenando com a outra. Sua expressão revelava não sentir-se muito feliz por abandonar a "Sra. Patterson" e sua prole de quatro crianças sonolentas à espera de alguém que traria um carro. Olhei em torno e nada vi, à exceção de um enferrujado telheiro de zinco sustentado por quatro colunas de madeira, e um desengonçado banco pintado de verde. Eis nossa estação ferroviária. Não nos sentamos no banco, preferindo ficar em pé, observando até o trem desaparecer na escuridão, escutando um único apito lamentoso que parecia desejar-nos boa sorte.

Estávamos rodeados por campos lavrados e pastos. Das profundezas do denso bosque existente nos fundos da "estação", algo produziu um ruído. Sobressaltei-me, girando para ver o que era. Christopher riu.

- Uma coruja! Pensou que fosse um fantasma?

- Agora, vamos parar com essas conversas! - mamãe interpôs rispidamente. - E não é preciso falarem aos sussurros. Não há ninguém por perto. Estamos numa fazenda, principalmente de gado leiteiro. Olhem ao redor. Vejam as plantações de trigo, aveia e, também, um pouco de cevada. Os fazendeiros mais próximos fornecem legumes frescos às pessoas ricas que moram no morro.

Existiam morros em profusão, parecendo colchas de retalhos cobertas de calombos, com filas de árvores subindo e descendo as encostas, separando a terra em lotes distintos. Sentinelas da noite, passamos a chamá-las. Mamãe explicou que muitas árvores em linhas retas agiam como quebra-ventos, escorando as nevascas. Era o tipo exato de panorama capaz de deixar Christopher muito excitado. Ele adorava todos os tipos de esportes de inverno e nunca imaginara que um estado do Sul, como a Virgínia, tivesse nevascas.

- Oh, sim, neva por aqui - confirmou mamãe. - Podem apostar que neva. Estamos no sopé das Montanhas Blue Ridge e faz muito, muito frio por aqui; o mesmo frio que fazia em Gladstone. No verão, porém, faz mais calor durante o dia. O frio da noite sempre exige, no mínimo, um cobertor. Agora, se o dia amanhecer ensolarado, vocês regalarão os olhos com um panorama muito lindo; tão lindo quanto qualquer outra parte do mundo. Contudo, precisamos apressar-nos. É um longo caminho a pé até minha casa antes do amanhecer, que é a hora dos criados acordarem. Que estranho...

- Por quê? - indaguei. - E por que o condutor a chamou de Sra. Patterson?

- Cathy, não tenho tempo para lhe explicar tudo agora. Temos que andar depressa.

Abaixou-se para pegar as duas malas mais pesadas e ordenou com voz firme que a acompanhássemos aonde ela nos guiasse. Christopher e eu fomos obrigados a carregar os gêmeos, que estavam sonolentos demais para andarem ou mesmo tentarem fazê-lo.

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