A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Ela pestanejou, mas continuou a fixar em mim aquele olhar mortífero. Prossegui:

- Além disso, procurarei nosso avô e lhe contarei tudo! - berrei ainda mais alto. - Você não herdará um só tostão furado, e eu ficarei feliz, feliz, feliz!

A julgar pela expressão de seu rosto, ela seria capaz de matar-me. Todavia, por estranho que possa parecer, foi a velha bruxa que interpôs tranqüilamente:

- A menina está com a razão, Corrine. A criança precisa ir para um hospital.

Voltaram à noite. As duas. Depois que os criados se retiraram para os alojamentos sobre a enorme garagem. Ambas embrulhadas em pesados capotes, pois, de uma hora para outra, fazia um frio intenso. O céu ficara cinzento, esfriando com um inverno precoce que prometia neve. As duas puxaram Cory de meus braços, envolveram-no numa manta verde, e foi mamãe quem o pegou no colo. Carrie soltou um grito de angústia.

- Não levem Cory embora! - berrou ela. - Não levem! Não...

Atirou-se em meus braços, chorando, implorando que eu as detivesse, impedindo que levassem embora o gêmeo do qual ela nunca se separara antes.

Fitei-lhe o rostinho pálido e molhado de lágrimas.

- Cory pode ir - declarei, enfrentando o olhar de minha mãe. - Porque eu também irei. Ficarei com Cory enquanto ele permanecer no hospital. Quando as enfermeiras estiverem ocupadas demais para cuidar dele, eu estarei lá. Isso fará com que se recupere mais depressa e Carrie se sentirá melhor sabendo que estou com ele.

Eu dizia a verdade. Eu sabia que Cory melhoraria mais depressa comigo a seu lado. Agora, a mãe dele era eu - não ela. Cory já não a amava; era de mim que ele necessitava, era a mim que ele queria. As crianças são muito sábias, sob o ponto de vista da intuição; sabem quem as ama de verdade e quem apenas finge amá-las.

- Cathy tem razão, mamãe - interpôs Chris, fitando-a diretamente nos olhos sem qualquer sinal de afeto. - Cory precisa de Cathy. Por favor, deixem que ela o acompanhe, pois sua presença o ajudará a recuperar-se mais depressa. Além disso, ela pode descrever os sintomas aos médicos melhor que vocês.

O olhar vago e vidrado de mamãe procurou Chris, como se lutasse por entender o significado de suas palavras. Admito que ela parecia angustiada. Seu olhar passou de Chris para mim, em seguida para sua mãe, depois para Carrie e, afinal, voltou a Cory.

- Mamãe - disse Chris, com mais firmeza. - Deixe Cathy ir com vocês. Posso cuidar de Carrie, se é isso que a preocupa.

É claro que não me deixaram ir.

Nossa mãe carregou Cory para o corredor. A cabeça do menino estava caída para trás, o cabelo da testa balançando no mesmo ritmo que os passos dela, o corpo envolto numa manta verde, da mesma tonalidade que a grama primaveril.

A avó dirigiu-me um sorriso cruel de triunfo e zombaria, depois fechou e trancou a porta.

Deixaram Carrie desamparada, berrando, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Seus pequenos punhos me esmurravam como se a culpa me coubesse.

- Cathy, também quero ir! Obrigue elas a me deixarem ir! Cory não quer ir aonde eu não vou... e esqueceu a guitarra!

Então, toda a sua raiva se dissipou e ela caiu nos meus braços, soluçando.

- Por que, Cathy? Por quê?

Porquê?


Era a maior indagação de nossas vidas.

Aquele foi, sem comparação, o pior e mais longo de nossos dias. Tínhamos pecado e Deus não tardara em aplicar o castigo. Mantinha-se vigilante quanto a nós, como se soubesse desde o início que nos mostraríamos indignos, mais cedo ou mais tarde - exatamente com a avó já sabia.

Foi como no princípio, antes que o aparelho de televisão viesse ocupar a maior parte de nosso tempo. Passamos o dia inteiro sentados em silêncio, sem ligar a televisão, apenas aguardando notícias de Cory.

Chris sentou-se na cadeira de balanço e estendeu os braços para nós. Carrie e eu nos sentamos em seu colo e ele balançou vagarosamente a cadeira para frente e para trás, para frente e para trás, fazendo ranger as tábuas do assoalho.

Não sei por que as pernas de Chris não ficaram dormentes de tanto tempo que passamos sentadas em seu colo. Então, levantei-me para limpar a gaiola de Mickey, dar-lhe comida e água. Segurei-o, fazendo-lhe carinho e dizendo-lhe que seu dono logo estaria de volta. Creio que o camundongo percebia que alguma coisa estava errada, pois, ao contrário do costume, não brincou alegremente na gaiola e, apesar de eu ter deixado a porta aberta, não saiu para passear pelo quarto nem entrou na casa de bonecas de Carrie, que tanto o encantava.

Arrumei a mesa para as refeições, que mal beliscamos. Depois de terminada a última refeição do dia, o quarto arrumado, tomamos banho e nos preparamos para dormir. Nós três nos ajoelhamos em fila ao lado da cama de Cory e fizemos nossas preces a Deus, pedindo que Cory ficasse bom depressa e voltasse para nós. Se rezamos por alguma outra coisa, não me lembro.

Dormimos, ou tentamos dormir, os três na mesma cama, Carrie entre Chris e eu. Nunca mais algo indecente se passaria entre nós... nunca, nunca mais.

Deus, por favor, não castigue Cory como um meio de vingança contra Chris e eu, para fazer-nos sofrer, pois já estamos sofrendo e não pretendíamos fazer o que fizemos.

Realmente não pretendíamos. Aconteceu por acontecer, e foi uma vez só... e não deu prazer algum. Realmente, nenhum prazer.

Um novo dia amanheceu, feio, cinzento, ameaçador. Além das cortinas fechadas, começava a vida para os que viviam livres e que não conseguíamos ver. Arrastamo-nos de volta à realidade, andando a esmo pelo quarto, tentando encher o tempo, procurando comer e alegrar Mickey, que parecia tão tristonho sem o menino que deixava trilhas de migalhas de pão para ele seguir.

Troquei as capas dos colchões com o auxilio de Chris, pois era muito difícil enfiar um colchão enorme na capa acolchoada - o que precisava ser feito com freqüência devido à incontinência urinária de Cory. Depois, Chris e eu fizemos as camas com lençóis limpos e estendemos as colchas. Arrumamos o quarto, enquanto Carrie ficava sentada na cadeira de balanço, fitando o espaço.

Por volta das dez, nada nos restava fazer senão ficarmos sentados na cama mais próxima à porta do corredor, com os olhos pregados na maçaneta, querendo que ela girasse para dar passagem a mamãe, que nos traria notícias de Cory.

Pouco depois, mamãe entrou com os olhos vermelhos e inchados de chorar. Atrás dela vinha a avó de olhos de aço, alta, severa, sem sinal de lágrimas.

Nossa mãe vacilou junto à porta, como se suas pernas fossem ceder e deixá-la cair. Chris e eu nos erguemos de um salto, mas Carrie limitou-se a fitá-la com os olhos vazios de qualquer expressão.

- Levei Cory a um hospital que fica a quilômetros daqui; o mais próximo, na verdade - explicou nossa mãe numa voz tensa e rouca, que se embargava a intervalos. - Registrei-o sob nome falso, explicando que era meu sobrinho e estava sob minha guarda.

Mentiras! Sempre mentiras!

- Mamãe, como está ele? - indaguei impaciente.

Seus olhos azuis, vidrados, voltaram-se em nossa direção; olhos vazios, que olhavam vagamente; olhos perdidos, à procura de algo que se fora para sempre - talvez a humanidade dela.

- Cory teve pneumonia - recitou nossa mãe. - Os médicos fizeram todo o possível... mas era... tarde... tarde demais.

Teve pneumonia?

Fizeram o possível?

Era tarde demais?

Só pretéritos!

Cory estava morto! Nunca mais o veríamos!

Chris declarou-me mais tarde que a notícia o atingiu como um pontapé na virilha. Vi-o tropeçar para trás e girar para esconder o rosto, os ombros sacudidos por soluços.

A princípio, não acreditei nela. Permaneci parada, fitando-a, duvidando. Todavia, a expressão em seu rosto me convenceu - algo grande e oco me cresceu dentro do peito. Caí sentada na cada, aturdida, quase paralisada, sem mesmo perceber que estava chorando até que senti minhas roupas molhadas.

E mesmo sentada e chorando, ainda não queria acreditar que Cory se fora de nossas vidas. E Carrie, pobre Carrie, ergueu a cabeça, jogou-a para trás, abriu a boca e gritou!

Gritou e gritou, até perder a voz e não conseguir mais emitir um som. Encaminhou-se vagarosamente ao canto onde Cory deixava a guitarra e o banjo, arrumou meticulosamente todos os pares de surrados sapatos de tênis do irmão. E foi aquele o local que escolheu para sentar-se, junto dos sapatos, dos instrumentos musicais e da gaiola de Mickey. A partir daquele momento, nenhuma palavra lhe saiu dos lábios.

- Iremos ao enterro dele? - perguntou Chris num tom engasgado, ainda de costas para o quarto.

- Já foi sepultado - respondeu mamãe. - Mandei gravar um nome falso na lápide.

Então, muito depressa, fugiu do quarto e de nossas perguntas. A avó foi atrás, os lábios apertados numa linha fina e sinistra.

Diante de nossos olhos horrorizados, Carrie definhava dia a dia. Eu sentia que seria menor Deus ter levado Carrie também, sepultando-a ao lado de Cory numa longínqua cova com nome falso, sem o consolo de serem ao menos enterrados perto do pai.

Nenhum de nós conseguia comer muito. Tornamo-nos indolentes e cansados - sempre cansados. Nada nos interessava. Lágrimas - Chris e eu já tínhamos chorado cinco oceanos de lágrimas. Assumimos toda a culpa. Devíamos ter fugido há muito tempo. Deveríamos ter usado a chave de madeira e ido procurar socorro para Cory. Deixáramos Cory morrer! Ele era responsabilidade nossa, nosso querido menininho calado e tão talentoso, e nós o deixáramos morrer. Agora, tínhamos uma irmãzinha encolhida num canto, definhando a cada dia.

Em voz baixa para que Carrie não conseguisse escutar caso estivesse prestando atenção - embora eu duvidasse (nossa pequena tagarela ficara cega, surda e muda... diabo!) - Chris me disse:

- Precisamos fugir, Cathy, e depressa. Senão, morreremos todos como Cory. Há algo errado com todos nós. Ficamos trancados tempo demais. Levamos vidas anormais, como se estivéssemos numa câmara de vácuo livre de micróbio, sem as infecções com que as crianças normais costumam entrar em contato. Não temos resistência às infecções.

- Não entendo - repliquei.

Chris sussurrou, enquanto nos encolhíamos na mesma poltrona:

- Quero dizer, como os marcianos naquele livro A Guerra dos Mundos, podemos morrer todos por causa de um simples micróbio de resfriado.

Horrorizada, fitei-o sem conseguir falar. Ele sabia tanta coisa mais que eu. Olhei para Carrie, encolhida em seu canto. Seu doce rosto infantil, com olhos grandes demais e cercados de fundas olheiras, fitava o vácuo. Eu sabia que ela olhava para a eternidade, onde estava Cory. Todo o amor que eu dedicara a Cory, transferi agora para Carrie... temendo tanto por ela. Tinha um corpinho esquelético e o pescoço parecia fraco, incapaz de sustentar a cabeça. Seria assim que terminariam todas as bonecas de Dresden?

- Chris, se tivermos que morrer não será como ratos encurralados. Se os micróbios podem nos matar, então que sejam eles. Portanto, quando você for roubar, esta noite, pegue tudo de valor que conseguir encontrar e que possamos carregar! Embrulharei uma merenda para levarmos. Tirando as roupas de Cory, teremos mais espaço nas malas. Sairemos daqui antes do amanhecer.

- Não - disse ele. - Só se soubermos que mamãe vai sair com o marido, só então poderei pegar todo o dinheiro e todas as jóias, de um só golpe. Leve apenas aquilo de que temos absoluta necessidade. Nada de jogos ou brinquedos. E, Cathy, talvez mamãe não saia esta noite. Certamente não poderá freqüentar festas enquanto estiver de luto.

Como poderia ela ficar de luto se sempre precisava manter o marido no escuro a nosso respeito? E ninguém vinha ao quarto, exceto a avó, para contar-nos o que se passava lá fora. E ela se recusava a falar conosco ou mesmo olhar para nós. Quando ela entrou, minha mente já estava no caminho da fuga e eu a olhei como se ela fosse coisa do passado. Agora que o momento da partida estava tão próximo, sentia-me amedrontada. O mundo lá fora era imenso. Estaríamos por nossa conta. O que pensaria o mundo de nós?

Não éramos lindos como antes; agora, não passávamos de pálidos e doentios camundongos de sótão, com longos cabelos louros, usando roupas elegantes mas que não nos assentavam bem, como os pés calçados em tênis.

Chris e eu nos educáramos lendo muitos livros, e a televisão muito nos ensinara a respeito de violência, ambição e imaginação, mas quase nada que fosse prático e útil à nossa preparação para encarar a realidade.

Sobrevivência. Era isso que a televisão deveria ensinar às crianças inocentes: como viver num mundo em que ninguém se importa a mínima com os outros, exceto os seus - e às vezes, nem mesmo os seus!

Dinheiro. Se aprendêramos alguma coisa naqueles anos de confinamento era que o dinheiro vinha em primeiro lugar e todo o resto depois dele. Como mamãe bem nos dissera tanto tempo atrás: "Não é o amor que faz o mundo funcionar; é o dinheiro".

Retirei da mala as roupinhas de Cory - seu segundo melhor par de tênis, dois pijamas - e durante todo o tempo as lágrimas me escorriam pelo rosto. Numa das bolsas laterais da mala encontrei folhas pautadas para música, que ele mesmo devia ter arrumado ali. Oh, como doía pegar aqueles papéis e ver as linhas que Cory traçara com uma régua, e as pequenas notas pretas que ele desenhara com traços tortos. Por baixo da partitura (ele aprendera sozinho a escrever notações musicais, usando uma enciclopédia que Chris lhe arranjara), Cory escrevera a letra de uma canção inacabada:

"Quero que a noite termine,

Quero que o dia amanheça,

Quero que chova ou que neve,

Ou que o vento sopre,

Ou que o capim cresça.

Gostaria que fosse ontem,

Quando eu podia brincar..."

Oh, Deus! Alguma vez existira uma canção tão triste e melancólica? Então, aquela era a letra de uma música que eu o escutara tocar repetidamente. Desejando, sempre desejando algo que não podia ter. Algo que todos os outros meninos aceitavam como normal, como coisa corriqueira em suas vidas.

Tive vontade de gritar de angústia.

Adormeci pensando em Cory .E, como sempre acontecia quando estava muito perturbada, comecei a sonhar. Dessa vez, porém, no sonho eu era apenas eu mesma. Vi-me numa serpenteante trilha de terra, tendo à esquerda vastas pastagens planas onde cresciam flores silvestres vermelhas e cor-de-rosa, e à direita flores amarelas e brancas balançavam suavemente à brisa cálida de uma eterna primavera benfazeja. Uma criancinha segurava-me a mão. Baixei os olhos, esperando ver Carrie - mas era Cory!

Sorridente e feliz, saltitava a meu lado com um buquê de flores silvestres na mão, as perninhas curtas procurando acompanhar-me o passo. Sorriu para mim e estava prestes a falar, quando escutou o gorjeio de muitos pássaros coloridos nas árvores copadas à nossa frente.

Um homem alto e esbelto, com cabelos dourados e pele bronzeada de sol, avançou de um jardim belíssimo, cheio de árvores e flores radiantes, inclusive rosas de todas as cores. Parou a dez metros de distância e abriu os braços para Cory.

Mesmo no sonho, meu coração pulou de excitação e alegria! Era papai! Papai viera encontrar Cory, a fim de que este não tivesse que fazer sozinho o resto da jornada. Embora sabendo que devia largar a mãozinha quente de Cory, decidi segurá-la para sempre e mantê-lo comigo.

Papai me sorriu, sem pena ou censura, mas com orgulho e admiração. Então, larguei a mão de Cory e fiquei observando enquanto ele corria, feliz, para lançar-se nos braços de papai. Foi levantado pelos braços fortes que outrora costumavam envolver-me e fazer-me sentir que o mundo inteiro era maravilhoso. Resolvi seguir também a trilha e tornar a sentir aqueles braços em torno de mim, permitindo que papai me levasse para onde quisesse.

- Cathy! Acorde! - disse Chris, sentado na minha cama, sacudindo-me. - Está falando dormindo. Rindo e chorando, dizendo alô e adeus. Por que sonha tanto?

A narrativa do sonho escapou-me dos lábios aos borbotões, tão depressa que as palavras se misturavam. Chris ficou sentado, olhando para mim - da mesma forma que Carrie, que também acordara e escutava. Havia tanto tempo que eu não via meu pai que suas feições tinham-me desbotado na memória; contudo, olhando para Chris, senti-me muito confusa. Ele era muito parecido com papai, apenas mais jovem.

Aquele sonho se repetiu muitas vezes, agradável. Proporcionava-me paz. Dava-me conhecimentos que eu não tinha antes. As pessoas nunca morrem realmente. Passam apenas para um lugar melhor, onde aguardam a chegada de seus entes queridos. Então, voltam ao mundo, mais uma vez, como aconteceu no princípio.


Fuga
Dez de novembro. Aquele deveria ser nosso último dia na prisão. Já que Deus não nos libertava, nós nos libertaríamos.

Logo após as dez da noite, Chris cometeria o roubo final. Nossa mãe fizera-nos uma rápida visita, pouco à vontade em nossa presença - de modo muito evidente.

- Bart e eu sairemos esta noite. Eu não quero, mas ele insiste. Não entende por que razão pareço tão tristonha.

Aposto que ele não entendia, mesmo. Chris passou sobre o ombro as duas fronhas nas quais traria de volta as pesadas jóias. Parou no limiar da porta aberta para lançar-nos um demorado olhar antes de fechá-la e usar a chave de madeira para trancá-la, pois não podia deixá-la aberta e revelar nosso segredo à avó, caso ela viesse espionar. Não escutamos os passos de Chris no corredor, porque as paredes eram muito grossas e o tapete muito espesso, abafando todos os ruídos.

Carrie e eu nos deitamos lado a lado; abracei-a, protegendo-a.

Se aquele sonho não me tivesse dito que Cory estava bem cuidado, eu choraria por não tê-lo junto a mim. Mesmo assim, não podia deixar de sofrer por saudade de um menininho que me chamava de mamãe sempre que sabia que sua verdadeira mãe não o escutava. Sempre tivera muito medo de que Chris o considerasse um maricas se soubesse quanta saudade e necessidade sentia da mãe, a ponto de precisar substituí-la por mim. Muito embora eu lhe afirmasse que Chris jamais zombaria dele, pois também sentia muita falta da mãe, Cory mantinha a coisa em segredo entre ele, eu - e Carrie. Tinha que fazer-se de másculo e convencer-se de que não fazia diferença o fato de não ter mãe ou pai, quando, na verdade, fazia uma diferença enorme.

Abracei Carrie com força, jurando que se algum dia eu tivesse filhos estes jamais teriam uma necessidade sem que a pressentisse e satisfizesse. Eu seria a melhor mãe do mundo.

As horas se arrastaram como anos e Chris não regressava de sua última incursão predatória no grandioso apartamento de nossa mãe. Por que se demorava tanto, dessa vez? Acordada e ansiosa, eu sentia lágrimas nos olhos e imaginava as calamidades que poderiam detê-lo.

Bart Winslow... o marido desconfiado... pegaria Chris! Chamaria a polícia! Mandaria Chris para a cadeia! Mamãe ficaria placidamente de lado, expressando choque e leve surpresa ante o fato de que alguém se atrevesse a roubá-la. Oh, não, é claro que não tinha um filho! Por Deus, todo mundo sabia que ela não tinha filhos! Alguma vez alguém a vira com uma criança? Não conhecia aquele rapaz com olhos azuis tão parecidos com os seus. Afinal, tinha muitos primos espalhados pelo mundo - e um ladrão era “sempre um ladrão, mesmo que fosse um parente distante, de quinto ou sexto grau!”

E a avó! Se ela o apanhasse - o pior castigo possível!

O amanhecer não tardou, cinzento, anunciado pelo cantar de um galo.

O sol pairava, relutante, no horizonte. Em breve seria tarde demais para partirmos. O trem matinal passaria pela parada e necessitávamos de algumas horas de vantagem antes que a avó abrisse a porta do quarto para constatar que tínhamos fugido. Ela mandaria uma turma de busca? Daria queixa à polícia? Ou, mais provavelmente, deixar-nos-ia ir, satisfeita por finalmente ver-se livre de nós?

Desesperançada, subi ao sótão a fim de olhar para fora, Dia frio, nevoento. A neve que caíra na última semana ainda formava manchas brancas esparsas. Um dia sombrio, misterioso, que parecia incapaz de nos trazer alegria ou liberdade. Escutei o galo cantar outra vez; soava distante e abafado. Rezei silenciosamente para que Chris, onde quer que estivesse, também escutasse o galo e apressasse os passos.

Lembro-me - oh, como me lembro bem! - de quando Chris regressou ao nosso quarto naquela manhã fria. Deitada ao lado de Carrie, eu cochilava inquieta, de modo que foi fácil despertar de imediato quando a chave girou na fechadura. Eu me deitara inteiramente vestida, pronta para partir, aguardando entre sonhos intermitentes que Chris chegasse para levar-nos embora.

Chris hesitou junto à porta, fitando-me com olhar vidrado, Então, avançou vagarosamente na minha direção, sem demonstrar a pressa que devia. E eu só conseguia olhar para as fronhas enfiadas uma na outra - tão achatadas! Parecendo tão vazias!

- Onde estão as jóias? - perguntei. - Por que demorou tanto? Olhe para as janelas: o sol está nascendo! Nunca chegaremos à parada do trem a tempo de pegá-lo!

Então, minha voz assumiu um tom duro, raivoso:

- Ficou cavalheiresco novamente, não é? Por isso voltou sem as preciosas jóias de mamãe!

A essa altura, Chris já estava junto à cama, limitando-se a ficar imóvel, com as fronhas vazias pendentes da mão.

- Desapareceram - disse com desânimo. - Todas as jóias desapareceram.

- Desapareceram? - repeti asperamente, certa de que ele mentia, encobria alguma coisa, ainda relutando em roubar as jóias que sua mãe tanto adorava. Então, fitei-o nos olhos. - Desapareceram? Chris, as jóias estão sempre lá. E o que há com você, afinal? - Por que parece tão esquisito?

Ele se deixou cair de joelhos ao lado da cama, totalmente derreado, baixando a cabeça e apoiando o rosto em meu seio. Então, começou a soluçar. Meu Deus! O que dera errado? Por que ele chorava? É horrível ouvir-se um homem chorar - e eu o considerava um homem, não mais um menino.

Abracei-o, acariciando e alisando seus cabelos, o rosto, os braços, as costas. Depois, beijei-o, num desesperado esforço para remediar algo terrível que lhe ocorrera. Fiz tudo o que vira minha mãe fazer por ele em ocasiões de sofrimento, sabendo intuitivamente que suas paixões não se excitariam para exigir mais do que eu estivesse disposta a dar-lhe.

Na verdade, precisei forçá-lo a falar, a explicar.

Chris conteve os soluços, engolindo-os. Limpou as lágrimas e enxugou o rosto com a ponta do lençol. Então, virou a cabeça para fitar as horríveis pinturas que descreviam o inferno e todos os seus tormentos. Suas frases saíram quebradas, desconjuntadas, freqüentemente entrecortadas pelos soluços.

Foi assim que ele me contou tudo, ajoelhado junto à minha cama, enquanto eu lhe segurava as mãos trêmulas. Seu corpo estremecia e os olhos azuis estavam sombrios e desolados, prevenindo-me de que ficaria chocada. Não obstante estar prevenida, confesso-me despreparada para o que escutei a seguir.

- Bem - começou ele, respirando fundo. - Percebi que havia algo diferente tão logo entrei no apartamento dela. Sem acender luzes, corri o foco da lanterna pelo ambiente e simplesmente não consegui acreditar! A ironia... a detestável e profunda amargura de termos agido tarde demais! Foram-se, Cathy, mamãe e seu marido se foram! Não apenas a alguma festa na vizinhança, mas foram embora daqui! Levaram consigo todas as pequenas coisas que dão a qualquer aposento um toque pessoal: os enfeites de cima da cômoda, as coisas da penteadeira, cremes, loções, pós, perfumes, tudo que ali estava antes tinha desaparecido! Nada na penteadeira. Fiquei tão furioso que comecei a correr como um demente, de um lugar para outro, abrindo gavetas e esvaziando-as, esperando encontrar algo valioso que pudéssemos empenhar... e não achei nada! Oh, eles fizeram um trabalho perfeito, nem mesmo aquele pequeno pote de porcelana para remédios, ou um dos grandes pesos de papel de cristal veneziano que custam uma fortuna. Corri ao quarto de vestir e abri todas as gavetas. Claro que ela deixou algumas coisas: porcarias, sem nenhum valor para nós ou para qualquer pessoa: batons, cremes de limpeza e coisas desse tipo. Então, abri aquela gaveta especial, no fundo da penteadeira, da qual ela nos falou há muito tempo, nem imaginando que nós poderíamos tentar roubá-la. Retirei a gaveta do lugar e a coloquei no chão. Então, tateei atrás, procurando o botão escondido, que precisa ser apertado numa determinada combinação de números, os números do aniversário dela, do contrário ela acabaria esquecendo a combinação. Lembra-se de como ela riu ao nos contar isso? O compartimento secreto se abriu e deveria conter dúzias de anéis nas bandejas forradas de veludo, mas não havia um só lá dentro - nenhum! E as pulseiras, colares, brincos, tudo desapareceu. Tudo, Cathy, até mesmo aquela tiara que você experimentou. Ora, nem pode imaginar o que senti! Tantas vezes você me pediu que tirasse ao menos um pequeno anel e eu recusei porque acreditava nela!

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