A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Não chore de novo, Chris - implorei quando se engasgou e tornou a esconder o rosto no meu peito. - Você não podia imaginar que ela partiria tão pouco tempo depois da morte de Cory.

- Sim, ela está mesmo sofrendo muito, não é? - comentou com amargura, enquanto eu passava os dedos entre seus cabelos.

- Na verdade, Cathy, descontrolei-me por completo - prosseguiu finalmente. - Corri de um armário para outro arrancando todas as roupas de inverno e logo constatei que as roupas de verão tinham sumido, bem como dois conjuntos de elegantes malas de viagem. Esvaziei caixas de sapatos e as gavetas dos armários, procurei as latas onde ele guarda as moedas. Mas até isso eles levaram, ou esconderam num lugar melhor. Frenético, revistei tudo, procurando qualquer coisa. Até mesmo pensei em roubar um dos abajures, mas verifiquei que pesavam uma tonelada. Ela deixou os casacos de pele e ocorreu-me roubar um deles, mas lembrei-me de que você os experimentara e eram grandes demais para seu tamanho, alguém lá fora ficaria desconfiado de ver uma adolescente com um casaco de arminho grande demais para ela. As estolas de pele tinham sumido, e se eu trouxesse um casaco de pele comprido ele sozinho encheria uma de nossas malas; então, ficaríamos sem espaço para levar nossas coisas e os quadros que eu poderia vender lá fora, e vamos precisar de todas as roupas que conseguirmos levar. Na realidade, tive vontade de arrancar os cabelos, tão desesperado estava por encontrar algo de valor. Como poderemos arranjar-nos sem dinheiro? Sabe, naquele instante, quando parei no meio do quarto e pensei na nossa situação, na péssima saúde de Carrie, pouco me importei de vir ou não a ser médico. Tudo o que desejei foi cair fora daqui! Então, quando tudo parecia indicar que não encontraria o que roubar, examinei a gaveta inferior da mesinha de cabeceira. Nunca antes eu abrira aquela gaveta. Dentro dela, Cathy, encontrei uma fotografia de papai numa moldura de prata, a certidão do casamento dele com ela, e uma caixinha de veludo verde, que continha a aliança de casamento de mamãe e o anel de brilhante que papai lhe dera como presente de noivado. Doeu-me pensar que ela levasse tudo e deixasse para trás, como coisas sem valor, a fotografia de papai e os dois anéis que ele lhe dera. Então, ocorreu-me uma idéia muito estranha: talvez ela soubesse quem vinha roubando as coisas de seu quarto e tivesse deixado aquilo ali propositalmente.

- Nada disso! - zombei, eliminando a delicada hipótese. - Ela já se esqueceu de papai. Agora, tem o seu adorado Bart.

- Não importa, o fato é que fiquei grato por encontrar alguma coisa. Portanto, o saco não está tão vazio quanto parece. Temos a fotografia de papai e os anéis dela, mas será preciso atravessarmos uma crise insuportável para me obrigar a empenhar qualquer dos dois anéis.

Percebi a advertência em sua voz, mas não me soou sincera, como deveria. Tive a impressão de que ele apenas simulava ser o velho Christopher, que confiava cegamente em todo mundo.

- Continue. O que aconteceu a seguir?

Ele se demorara tanto e o que acabava de contar não lhe tomaria a noite inteira.

- Raciocinei que se não podia roubar nossa mãe, devia procurar o quarto da avó e tentar encontrar alguma coisa lá.

Oh, meu Deus, refleti, ele não... não podia! Não obstante, que vingança perfeita!

- Como você sabe, ela tem jóias: muitos anéis nos dedos e aquele maldito broche de brilhantes que usa a vida inteira como parte do uniforme, além dos brilhantes e rubis que a vimos usar na festa de Natal. Naturalmente, calculei que ela também teria muito mais coisas que eu poderia trazer. Portanto, percorri furtivamente todos aqueles compridos corredores escuros e, na ponta dos pés, aproximei-me da porta do quarto da avó, que estava fechada.

Oh, quanta coragem para fazer aquilo. Eu jamais...

- Uma fina fresta de luz aparecia por baixo da porta, mostrando que ela ainda estava acordada. Isso me deixou amargurado, pois a velha já devia estar dormindo. Em circunstâncias menos prementes, a luz seria o bastante para deter-me e evitar que eu agisse de forma tão arriscada, ou talvez você prefira usar o termo "audaciosa", agora que tenciona tornar-se algum dia uma mulher de palavras, após ter sido uma mulher de ação.

- Chris! Não se desvie do assunto! Prossiga! Conte-me que loucura cometeu! Se eu estivesse no seu lugar, daria meia- volta e retornaria diretamente para cá!

- Ora, mas eu não sou você, minha Catherine; sou eu... Usei muita cautela e, bem devagar, abri um pouco a porta, embora esperasse que ela estalasse ou rangesse a qualquer instante, denunciando minha presença. Todavia, alguém vem mantendo as dobradiças bem lubrificadas e, sem medo de que a velha fosse alertada, colei um olho à fresta e espiei para dentro do quarto.

- Viu a bruxa velha despida? - interpus.

- Não! - replicou Chris, impaciente e irritado. - Não a vi despida e me alegro por isso. Ela estava na cama, sob as cobertas, usando uma camisola de mangas compridas de algum tecido pesado, com gola, abotoada na frente até o pescoço. Mas, de certo modo, eu a vi despida. Você conhece aquele cabelo cor-de-aço azulado que tanto detestamos. Pois não estava na cabeça dela! Repousava enviesadamente numa cabeça de manequim sobre a mesa de cabeceira, como se ela quisesse ter certeza de tê-la ao alcance da mão em caso de emergência durante a noite.

- Ela usa peruca? - indaguei com total espanto, embora devesse ter desconfiado, pois alguém que sempre penteava os cabelos repuxados de tal maneira para trás teria que ficar careca, mais cedo ou mais tarde.

- Sim, pode apostar que ela usa peruca e que aquele cabelo com que a vimos na festa de Natal também é uma peruca. O pouco cabelo que lhe resta na cabeça é muito ralo, de um branco amarelado, e o couro cabeludo tem zonas em que não cresce cabelo, mas apenas uma fina penugem de bebê sobre manchas avermelhadas. Usava óculos sem aro, pousados quase na ponta daquele nariz comprido; você bem sabe que nunca a vimos de óculos. Seus lábios finos se franziam numa linha de desaprovação enquanto ela corria lentamente os olhos de linha para linha de um enorme livro negro que tinha nas mãos, a Bíblia, naturalmente. Ali estava ela, sentada na cama, lendo a respeito de prostitutas e outros pecadores que lhe franziam a testa numa carranca terrível. E enquanto eu observava, compreendendo que não poderia roubá-la naquele momento, ela deixou a Bíblia de lado, marcou a página com um cartão postal e depois colocou o livro em cima da mesinha de cabeceira. Desceu da cama e ajoelhou-se no chão. Baixou a cabeça, juntando as mãos sob o queixo, exatamente como costumamos fazer, rezando em silêncio por um tempo interminável. Afinal, disse em voz alta: "Perdoa-me, Senhor, por todos os pecados que eu tenha cometido. Sempre agi da maneira que julguei estar certa e se cometi algum erro foi por pensar que agia corretamente. Acredita-me, por favor. Que eu goze sempre de graça perante os teus olhos. Amém". Tornou a subir para a cama e estendeu a mão para apagar a luz. Fiquei no corredor, imaginando o que fazer. Simplesmente não podia voltar de mãos vazias, pois espero que jamais precisemos empenhar os anéis que papai deu à nossa mãe.

Então, ergueu as mãos para acariciar-me a cabeça e prosseguiu:

- Fui à rotunda principal, onde existia aquela mesa perto da balaustrada, e encontrei o quarto de nosso avô. Não sabia se teria coragem de abrir a porta do quarto dele e encarar o homem que está perpetuamente moribundo, ano após ano. Entretanto, seria minha única oportunidade e decidi aproveitá-la da melhor maneira possível. Desse no que desse, corri silenciosamente pela escada abaixo, como um ladrão de verdade, carregando a minha sacola de fronhas. Vi os salões enormes e suntuosos, tão grandiosos e opulentos, e imaginei, como você deve ter imaginado, como seria crescermos num ambiente como aquele, servidos por inúmeros criados que nos fizessem todas as vontades. Oh, Cathy, é uma casa linda e a mobília deve ter sido importada a de palácios da Europa, pois parece frágil demais para ser usada e bonita demais para ser confortável. Os quadros a óleo são originais, conheço o bastante para saber, assim como os bustos e estátuas, a maioria sobre pedestais, além de preciosos tapetes persas e orientais. E, naturalmente, eu conhecia o caminho da biblioteca, já que você fazia tantas perguntas a mamãe. Sabe de uma coisa, Cathy? Fiquei muito satisfeito por você ter indagado tanta coisa, do contrário eu bem poderia ter-me perdido; muitos corredores partem em todas as direções daquele salão central. Contudo, foi fácil encontrar a biblioteca: um salão escuro, realmente imenso, silencioso como um cemitério. O teto deve ter seis metros de altura. As estantes vão até lá em cima e existe uma escada de ferro em caracol que leva a uma espécie de passarela no nível superior, da qual é possível alcançar as prateleiras de cima. Nos níveis inferiores, há duas escadas de madeira providas de rodas e presas a uma espécie de trilho. Nunca vi tantos livros numa residência particular. Não é de espantar que não dessem falta dos livros que mamãe levava, embora, ao olhar com mais atenção, eu pudesse ver espaços vazios nas prateleiras, como falhas numa dentadura, onde faltavam alguns dos livros encadernados em couro gravado a ouro. Na biblioteca existe uma escrivaninha enorme, maciça, que deve pesar mais de uma tonelada, e uma grande poltrona giratória de espaldar alto. Imaginei nosso avô sentado àquela mesa, dando ordens a torto e a direito, e usando os telefones sobre a mesa, seis telefones, Cathy! Seis! Todavia, quando fui verificá-los, julgando que talvez pudesse trazer um deles, constatei que estavam todos desligados. À esquerda da mesa, uma fileira de janelas estreitas e altas permitia ver um jardim privativo, um panorama espetacular, mesmo à noite. Um arquivo feito em mogno escuro, para combinar com a mobília. Dois sofás macios, muito compridos, afastados cerca de um metro da parede, a fim de permitir livre circulação por trás deles. Poltronas perto da lareira e, naturalmente, uma porção de mesinhas e cadeiras para a gente tropeçar no escuro, além de grande quantidade de outros objetos.

Suspirei, pois Chris me contava muito do que tanto desejava ouvir e, não obstante, eu continuava a esperar por aquela coisa terrível que me mantinha em suspenso, aguardando a punhalada final.

- Julguei que houvesse dinheiro escondido na escrivaninha. Usando a lanterna, comecei a examinar todas as gavetas. Estavam todas destrancadas. E não era de espantar, pois estavam todas vazias, totalmente vazias! Aquilo me causou perplexidade, afinal, para que uma mesa de trabalho se não se utilizavam as gavetas? Documentos importantes são guardados em cofres de aluguel ou em cofres particulares; não são deixados em gavetas trancadas que qualquer ladrão hábil é capaz de arrombar. Portanto, as gavetas servem para guardar miudezas. E onde estavam os elásticos, clipes de papel, lápis, canetas, blocos de anotações e todas as outras coisas que deveriam estar naquelas gavetas vazias? Para que ter uma escrivaninha? Você nem imagina as suspeitas que me passaram pela cabeça. Foi então que tomei uma decisão. De onde estava, eu podia olhar através da comprida biblioteca e ver a porta do quarto de nosso avô. Vagarosamente, caminhei naquela direção. Afinal, eu ia vê-lo... estaria cara a cara com o odiado avô que também era nosso meio-tio. Imaginei nosso encontro. Ele estaria na cama, doente, mas ainda implacável, malvado e frio como gelo. Eu abriria a porta com um pontapé, acenderia a luz e ele me avistaria. Prenderia a respiração! Certamente me reconheceria... saberia quem eu era; um olhar seria o bastante para isso. Então, eu diria: "Aqui estou, avô, o neto que você desejava que nunca nascesse. Tenho duas irmãs, trancadas num quarto do andar superior da ala norte. E antes tinha um irmão mais moço, que morreu, e você ajudou a matá-lo!" Eu tinha tudo isso na cabeça, embora duvidasse que fosse capaz de dizer a ele. Você certamente gritaria isso para ele, e Carrie também, se soubesse falar como você. Não obstante, eu talvez chegasse a dizer tudo a ele, só pelo prazer de vê-lo sofrer e, talvez, demonstrar tristeza, piedade ou arrependimento... ou, mais provavelmente, feroz indignação por tomar conhecimento de nossa existência! De uma coisa, porém, tenho absoluta certeza: eu não podia suportar mais um minuto como prisioneiro e ver Carrie morrer como Cory!

Prendi a respiração. Que coragem a de Chris: defrontar-se com o detestado avô, embora em seu leito de morte, com o caixão já aberto à sua espera. Aguardei ansiosamente o que viria a seguir.

- Girei cautelosamente a maçaneta, planejando pegá-lo de surpresa, mas logo me envergonhei de minha timidez e resolvi agir abertamente: abri a porta com um pontapé! Lá dentro estava tão escuro que eu não conseguia enxergar nada. E não queria utilizar a lanterna. Estendi a mão e tateei ao longo da parede, procurando um interruptor. Não encontrei. Acendi a lanterna, com o facho dirigido à frente, e vi uma cama de hospital pintada de branco. Fiquei olhando, perplexo, pois via algo que não esperava: o colchão de listras vermelhas e azuis estava enrolado. Quarto vazio, cama vazia. Nenhum avô moribundo, arquejando ao exalar os últimos alentos, ligado a todos os tipos de tubos e aparelhos que o mantinham vivo. Cathy, foi como levar um murro na boca do estômago; ninguém ali, quando eu me preparara tanto para enfrentá-lo! Num canto próximo à cama, uma bengala. Perto da bengala, aquela cadeira de rodas em que o vimos na festa de Natal. Brilhava, parecendo ainda nova, ele não teve ter usado a cadeira muitas vezes. Não havia outros móveis no quarto além de duas cadeiras e uma cômoda... sem nada em cima. Nenhum pente, ou escova, nada. O quarto estava tão vazio e arrumado como o apartamento que mamãe abandonara; só que era um quarto simples, sem adornos, com paredes de lambris. E o quarto de morte do avô dava a impressão de estar desocupado há muito, muito tempo. O ar era abafado, com cheiro de mofo. A poeira se acumulara no tampo da cômoda. Corri em volta, à procura de algum objeto de valor que pudéssemos empenhar mais tarde. Nada, mais uma vez, nada! Fiquei tão frustrado e furioso que corri de volta à biblioteca e procurei a pintura de uma paisagem que, segundo mamãe nos informara, ocultava um cofre de parede. Ora, você bem sabe quantas vezes vimos na televisão os ladrões abrirem cofres de parede; pareceu-me coisa fácil quando o arrombador sabe como agir. Basta colar o ouvido à tranca de segredo e girar vagarosamente o disco, prestando atenção aos estalidos reveladores... e contá-los. Foi o que imaginei. Então, de posse dos números, gira-se o tambor corretamente e - voilá! - o cofre está aberto.

Interrompi:

- O avô... por que não estava na cama?

Chris prosseguiu como se não me escutasse:

- Foi o que fiz, escutando com atenção, ouvindo os estalidos. Pensei: “se eu tiver sorte, o cofre se abrirá, e se estiver vazio, também?” E sabe o que aconteceu, Cathy? Ouvi os estalidos que me revelavam a combinação do segredo, e não consegui contá-los com a rapidez necessária! Mesmo assim, arrisquei-me a girar a roda superior do trinco, na esperança de que, por acaso, acertasse os números adequados na devida seqüência. A porta do cofre não se abriu. Escutei os estalidos e consegui entender. Não se aprende a arrombar cofres lendo enciclopédias, é um dom natural. Então, olhei em volta, procurando algum objeto fino e resistente que eu pudesse enfiar na fechadura do segredo, contando com a possibilidade de soltar ou apertar alguma mola que abrisse a porta. Cathy, foi aí que escutei o barulho de passos!

- Diabo! - praguejei, frustrada como ele.

- Isso mesmo! Corri para trás de um dos sofás e deitei-me de bruços. Foi então que me lembrei de que esquecera a lanterna no quartinho do avô.

- Oh, meu Deus!

- Isso mesmo! Pensei: "Agora, estou frito". Mas permaneci imóvel. Um homem e uma mulher entraram na biblioteca. Ela falou primeiro, com uma voz suave de garotinha: "John, juro que não estou imaginando coisas! Ouvi barulhos vindo desta sala". Uma voz pesada e gutural replicou: "Você está sempre ouvindo alguma coisa". Era John, o mordomo careca. Em seguida, o par passou uma rápida revista na biblioteca e, ainda discutindo, entrou no quartinho do avô. Prendi a respiração, aguardando que encontrassem minha lanterna. Mas, por algum motivo, não encontraram. Desconfio que tenha sido porque John não queria olhar para coisa alguma exceto aquela mulher. Quando eu já me preparava para sair dali, eles voltaram e, juro por Deus, se jogaram no sofá atrás do qual eu estava escondido! Apoiei a cabeça nos braços cruzados e me preparei para tirar um cochilo, imaginando que você deveria estar muito preocupada comigo, sem saber o motivo de minha demora. Todavia, já que a porta estava trancada, não temi que saísse à minha procura. Foi bom eu não ter dormido.

- Por quê?

- Deixe-me contar a meu modo. Por favor, Cathy. Quando eles voltaram à biblioteca e se acomodaram no sofá, John disse: "Eu não lhe disse que não havia ninguém aqui nem lá dentro?" Parecia confiante, muito satisfeito consigo mesmo, e acrescentou: "Na verdade, Livvy, você fica tão nervosa o tempo todo que estraga nosso prazer". E ela. insistiu: "Mas escutei alguma coisa, John". Ao que ele replicou: "Como eu disse antes, você está sempre escutando coisas que não existem. Bolas! Ainda hoje de manhã, estava falando novamente de camundongos no sótão e reclamando do barulho que fazem". John soltou uma risadinha suave e deve ter feito alguma coisa com a pequena, pois ela começou a rir como uma tola e, se protestou, não empregou muita convicção. Então, o tal John resmungou: "Aquela puta velha está matando todos os camundongos do sótão. Leva comida para eles numa cesta de piquenique... em quantidade suficiente para liquidar um exército inteiro de camundongos".

Sabem, escutei Chris dizer aquilo e não notei nada de anormal... eu ainda era muito tola, ingênua e confiante.

Chris pigarreou antes de continuar:

- Tive uma sensação esquisita no estômago e meu coração começou a fazer tanto barulho que julguei que o casal no sofá acabaria escutando. E Livvy disse: “Sim, ela é uma velha durona e malvada. Para dizer a verdade, eu simpatizava mais com o velho - pelo menos, ele sabia sorrir. Mas ela... ela nunca aprendeu. Às vezes, eu venho fazer a limpeza e encontro a velha no quarto dele... sempre parada ali, olhando para a cama vazia, com um leve sorriso tenso e esquisito. Acho que está zombando, porque ele morreu e ela continua viva; está livre dele e não tem mais ninguém para montar nas suas costas e mandá-la fazer ou não fazer as coisas, obrigando-a a obedecer correndo. Puxa! Eu às vezes fico imaginando como os dois conseguiam aturar um ao outro. Mas agora ele morreu e ela ficou com o dinheiro dele.” “Sim, claro que ficou: mas apenas com uma parte”, disse John. "Ela tem dinheiro que herdou da família. Mas quem herdou todos os milhões deixados pelo velho Malcolm Foxworth foi a filha dela". "Bem," foi a resposta de Livvy, "aquela velha bruxa não precisa de mais dinheiro. Não culpo o velho por ter deixado a fortuna inteira para a filha. Esta aturou o diabo por parte dele, servindo-o como uma escrava quando ele tinha tantas enfermeiras à disposição e sendo tratada como uma cadela. Mas agora, também está livre e casada com aquele jovem tão bonito. Ela ainda é jovem, bonita e tem dinheiro para jogar fora. Como será que se sente? Há pessoas que têm toda a sorte do mundo. Eu... nunca tive sorte". "E quanto a mim, Livvy querida? Você me tem, pelo menos até aparecer por aqui outro rostinho bonito." E lá estava eu, escondido atrás do sofá, ouvindo tudo aquilo e sentindo-me atordoado de choque. Tive vontade de vomitar, mas fiquei muito quieto, escutando o casal conversar interminavelmente no sofá. Eu queria sair correndo e voltar para perto de você, Cathy, a fim de levarmos Carrie para algum lugar bem longe desta casa, antes que fosse tarde demais. Todavia, estava encurralado. Se eu me mexesse, eles me veriam. E o tal John é parente de nossa avó... primo em terceiro grau, segundo mamãe... Não acho que um parente de terceiro grau faça alguma diferença, mas parece que aquele tal John goza da confiança de nossa avó, ou ela não lhe daria tanta liberdade no uso dos automóveis. Você já o viu, Cathy: o homem careca, que usa libré.

Claro que eu sabia a quem Chris se referia, mas não consegui responder, pois também sentia um aturdimento e choque que me impediam de falar.

- Assim - prosseguiu Chris, naquele tom monótono que não revelava preocupação, temor ou surpresa - enquanto permanecia escondido atrás do sofá, com o rosto apoiado nos braços, e fechava os olhos tentando evitar que meu coração batesse tão ruidosamente, John e Livvy, a empregada, passaram a um assunto mais sério para eles. Escutei os movimentos quando ele começou a despi-la enquanto ela tirava as roupas dele.

- Despiram-se um ao outro? - perguntei. - Ela realmente o ajudou a tirar a roupa?

- Foi o que me pareceu - respondeu Chris secamente.

- E ela não protestou nem gritou?

- Claro que não. Gostou muito! E, por Deus, como demoraram! E os barulhos que fizeram, Cathy, você não acreditaria! Ela gemia, gritava, se engasgava, ofegava e ele grunhia como um porco; mas creio que ele deve ser perito no assunto, pois no final ela gritava como louca. Então, acabaram e ficaram deitados, fumando e trocando mexericos sobre o que se passa nessa casa, e pode crer que há pouca coisa que não saibam. Depois, fizeram amor outra vez.

- Duas vezes na mesma noite?

- É possível fazer.

- Chris, por que você parece tão esquisito?

Ele hesitou, afastando-se um pouco para estudar-me o rosto.

- Não estava ouvindo, Cathy? Fiz o máximo esforço para lhe contar tudo nos mínimos detalhes, exatamente como aconteceu. Você não escutou?

Escutar? Claro que eu escutara tudo. Ele esperara demais para roubar o monte de jóias colecionadas por mamãe. Devia tê-las tirado aos poucos, como eu recomendara, implorara que fizesse. Portanto, mamãe e o marido tinham partido em mais uma viagem de recreio. E isso era alguma novidade? Eles estavam sempre chegando e partindo. Fariam qualquer coisa para se afastarem daquela casa e eu não os censurava por isso. Não estávamos dispostos a fazer o mesmo?

Franzi a testa, dirigindo a Chris um longo olhar interrogativo. Obviamente, ele sabia algo que não me contara. Continuava a protegê-la, amá-la.

- Cathy... - começou ele, com voz embargada.

- Está bem, Chris. Não o censuro. Portanto, nossa doce, querida, devotada e amorosa mãe e seu jovem e belo marido partiram para mais uma viagem de recreio, levando consigo todas as jóias. Nós nos arranjaremos.

Dizendo adeus à segurança no mundo lá fora! Mas fugiríamos! Trabalharíamos, daríamos um jeito para ganhar nosso sustento e, além disso, pagar os médicos que cuidariam de Carrie. Não nos importava o que fora feito das jóias; não nos importava a indiferença de nossa mãe, partindo sem nos dizer aonde iria e quando regressaria. Naquela altura, já estávamos acostumados à indiferença brutal, à aspereza e à maldade. Por que tantas lágrimas, Chris - por quê?

- Cathy! - explodiu ele, virando o rosto banhado em lágrimas para me fitar nos olhos. - Por que não está ouvindo e reagindo? Onde estão seus ouvidos? Não escutou o que contei? Nosso avô morreu! Há quase um ano!

Talvez eu não estivesse realmente ouvindo; pelo menos, não com suficiente atenção. Talvez o estado de abalo em que Chris se encontrava não me deixasse escutar direito. Agora, dei-me conta do que ele dissera e, afinal, entendi. Se nosso avô realmente morrera, a notícia era ótima! Agora, mamãe herdaria a fortuna! Seríamos ricos! Ela destrancaria a porta, libertando-nos. Já não precisávamos fugir.

Outras perguntas me assomaram à mente, numa torrente de indagações devastadoras. Mamãe não nos contara que seu pai tinha morrido. Sabendo como aqueles anos foram penosos para nós, por que nos mantivera no escuro, sempre esperando? Por quê? Perplexa, confusa, eu não sabia direito o que sentir: felicidade, alegria ou tristeza. Fui invadida por um medo estranho, paralisante, que dissipou a indecisão.

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