A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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- Cathy - sussurrou Chris, embora eu não entendesse por que razão ele falava tão baixo. Carrie não nos ouviria; ela vivia num mundo à parte do nosso, suspensa entre a vida e a morte, inclinando-se cada vez mais no sentido de Cory a cada minuto em que se privava de alimentação, abandonando a vontade de viver sem ter ao lado a sua outra metade.

- Nossa mãe nos iludiu deliberadamente, Cathy. O pai dela morreu e o testamento foi homologado alguns meses depois, mas ela manteve segredo e abandonou-nos aqui para apodrecermos. Há nove meses nós éramos muito mais saudáveis que agora! Cory ainda estaria vivo se mamãe nos libertasse no dia em que seu pai morreu, ou mesmo quando o testamento foi homologado.

Combalida, deixei-me mergulhar no profundo poço de traição que mamãe cavara para afogar-nos. Comecei a chorar.

- Guarde suas lágrimas para depois - disse Chris, que chorara pouco antes. - Ainda não ouviu tudo e existe mais... muito mais e muito pior.

- Mais?

Que mais poderia ele contar? Nossa mãe se revelara uma mentirosa, uma trapaceira, uma ladra que nos roubara a juventude e matara Cory para adquirir uma fortuna que não desejava repartir com filhos que já não amava ou queria. Oh, como ela soubera explicar bem o que nos esperava na noite em que nos deu uma pequena litania para recitarmos quando nos sentíssemos infelizes! Naquela época, ela sabia - ou mesmo suspeitava - que se tornaria - exatamente a coisa na qual o avô a transformaria? Desabei nos braços de Chris, apoiando-me em seu peito.



- Não me diga mais nada! Já escutei o bastante... não me faça odiá-la ainda mais!

- Odiar... Você ainda nem começou a aprender o que é odiar. Contudo, antes que eu lhe conte o resto, meta na cabeça que vamos fugir para sempre daqui, aconteça o que acontecer. Iremos para a Flórida, exatamente como planejamos. Viveremos ao sol e arranjaremos nossa vida da melhor maneira possível. Nem por um só momento nos envergonharemos do que somos, ou do que fizemos, pois o que compartilhamos entre nós é muito pequeno comparado com o que fez nossa mãe. Mesmo que você morra antes de mim, recordarei para sempre nossas vidas aqui no sótão. Ver-nos-ei dançando sobre as flores de papel; você tão graciosa e eu tão desajeitado. Sentirei o cheiro de poeira e de madeira apodrecida, e para mim será tão doce como o perfume das rosas, porque sem você tudo seria tão desolado e tão vazio. Você me proporcionou o primeiro sabor do que pode ser o amor. Vamos mudar. Jogaremos fora o que existe de pior em nós e conservaremos o melhor. Mas, aconteça o que acontecer, nós três estaremos sempre juntos, um por todos, todos por um. Cresceremos, Cathy, física, mental e emocionalmente. Não apenas isso, mas atingiremos as metas que estabelecemos para nossas vidas. Eu serei o melhor médico que o mundo já conheceu e você fará Pavlova parecer uma desengonçada filha de camponeses.

Cansei de ouvir falar de amor e das possibilidades que o futuro nos reservava, quando ainda continuávamos trancados num quarto e a morte estava deitada a meu lado, encolhida na posição fetal, com as pequenas mãos postas em prece mesmo durante o sono.

- Muito bem, Chris, já me deu um tempo para respirar. Estou preparada para o que der e vier. E muito obrigada por dizer tudo isso, pois também não deixou de ser amado ou admirado.

Dei-lhe um rápido beijo nos lábios e disse-lhe para prosseguir e desferir o golpe que me deixaria sem sentidos.

- Na verdade, Chris, sei que você deve ter algo terrível para me contar, portanto, conte logo. Abrace-me enquanto fala e eu poderei suportar tudo que você tenha a dizer.

Como eu era jovem, tão sem imaginação - tão confiante e presumida!
Finais, Inícios

- Adivinhe o que ela disse aos outros - retomou Chris. - Diga-me que motivo ela alegou para não querer que esse quarto fosse arrumado na última sexta-feira de cada mês.

Como poderia eu adivinhar? Precisaria ter uma mente como a dela. Sacudi a cabeça. Há tanto tempo os criados não subiam ao quarto que eu já esquecera aquelas horríveis semanas iniciais.

- Camundongos, Cathy - disse Chris, com uma expressão dura e fria nos olhos azuis. - Camundongos! Centenas de camundongos no sótão, inventou nossa avó... camundongos espertos, que usavam a escada para virem ao segundo andar. Pequenos camundongos diabólicos, que a obrigavam a manter esta porta fechada, deixando no quarto comida coberta com arsênico.

Ouvi aquilo e refleti que era realmente uma desculpa maravilhosa para manter os criados afastados do quarto. O sótão estava cheio de camundongos, que desciam a escada.

- Arsênico é branco, Cathy, branco! Quando misturado com açúcar, é impossível distinguir-lhe o gosto amargo.

Meu cérebro começou a girar! Açúcar polvilhado nas quatro rosquinhas diárias! Uma para cada um de nós. Agora, só vinham três na cesta de piquenique!

- Mas, Chris, sua história não faz sentido. Por que haveria a avó de envenenar-nos aos pouquinhos? Por que não ministrar de uma só vez a quantidade suficiente para matar-nos todos e terminar logo com tudo?

Seus longos dedos se enfiaram em meus cabelos, até se cruzarem e permitirem que ele me segurasse a cabeça entre as palmas das mãos. Então, explicou em voz baixa:

- Lembre-se de um velho filme que vimos na televisão. Lembra-se da mulher bonita que trabalhava como governanta para cavalheiros idosos, e ricos, naturalmente, e depois de conquistar-lhes a confiança e afeição, induzia-os a incluí-la nos testamentos; então, ministrava-lhes diariamente pequenas doses de arsênico? Quando a pessoa digere diariamente uma pequena porção de arsênico, o veneno é lentamente absorvido por todo o organismo, de modo que cada dia a vítima se sente um pouco pior, mas não muito. Pequenas dores de cabeça, perturbações digestivas que podem ser facilmente explicadas, de modo que quando a vítima morre, num hospital, digamos, já está magra e anêmica, com um longo histórico de doenças como gripes,resfriados, e assim por diante. E os médicos não desconfiam de envenenamento, não quando a vítima apresenta todos os sintomas de pneumonia, ou simples envelhecimento, como foi o caso do filme.

- Cory! - exclamei, engasgada. - Cory morreu envenenado por arsênico? Mamãe disse que a pneumonia o matou!

- Ela não pode dizer-nos o que bem entende? Como podemos saber se diz a verdade? Talvez nem mesmo o tenha levado a um hospital. E se levou, é evidente que os médicos não desconfiaram de que a morte não teve causas normais, pois do contrário ela estaria na cadeia.

- Mas, Chris - protestei -, mamãe não permitiria que a velha nos desse arsênico! Sei que ela deseja o dinheiro e que não gosta de nós como gostava antigamente, mas seria incapaz de matar-nos!

Chris desviou o rosto.

- Muito bem. Precisamos fazer um teste. Vamos dar ao camundongo de Cory um pedaço de rosquinha polvilhada com açúcar.

Não! Não podíamos fazer isso - não com Mickey, que nos adorava e confiava em nós. Cory era louco pelo pequeno camundongo cinzento.

- Chris, vamos caçar outro camundongo, um bravo, que não confie em nós.

- Vamos, Cathy, Mickey é um camundongo velho e, ainda mais, aleijado. Você sabe que é difícil pegar um camundongo vivo. Quantos conseguiram sobreviver à ratoeira? E quando formos embora, Mickey não sobreviverá, pois agora é um animal de estimação e depende de nós para alimentar-se.

- Mas eu pretendia levá-lo conosco.

- Olhe a coisa sob o seguinte aspecto, Cathy: Cory morreu antes mesmo de começar a viver. Se as rosquinhas não estiverem envenenadas, Mickey não morrerá e nós o levaremos conosco, se você insistir. Uma coisa é certa: precisamos saber a verdade. Pelo bem de Carrie, temos que tirar a prova. Olhe para ela. Não percebe que também está morrendo? Definha dia a dia e nós também.

Ele se aproximou de nós andando em três patas e arrastando a pata aleijada; nosso querido camundongo mordiscou o dedo de Chris antes de tirar um pedaço da rosquinha. Arrancou um pedacinho e o comeu, confiante, acreditando em nós, seus deuses, seus pais, seus amigos. Doía-me observá-lo.

Mickey não morreu imediatamente. Tornou-se lento, indiferente, apático. Mais tarde, teve pequenos ataques de dores que o fizeram choramingar. Dentro de poucas horas estava caído de costas, frio e rígido, as patinhas rosadas curvadas em garra, os olhinhos negros embaçados e fundos. Portanto, agora sabíamos - com certeza. Não fora Deus quem levara Cory.

- Podíamos colocar Mickey num saco, com duas rosquinhas, e levá-lo à polícia - começou Chris, hesitante, mantendo o olhar afastado do meu...

- Eles meteriam a avó na cadeia.

- Sim - disse ele, dando-me as costas.

- Chris, você está escondendo alguma coisa. O que é?

- Mais tarde... depois que fugirmos. No momento, eu já disse tudo o que podia sem vomitar. Partiremos amanhã cedo - concluiu quando fiquei calada.

Tomou-me ambas as mãos, apertando-as com força.

- O quanto antes possível, levaremos Carrie a um médico, e nós também iremos.

Como foi longo aquele dia. Já tínhamos tudo pronto e nada nos restava fazer senão assistir à televisão pela última vez. Carrie em seu canto, cada um de nós em sua cama, assistíamos à nossa novela preferida. Foi quando eu disse:

- Chris, as pessoas das novelas são como nós, quase nunca saem ao ar livre. E quando o fazem, nós só ouvimos falar, mas nunca vemos. Aparecem em salas de visitas e quartos, sentam-se nas cozinhas para tomar café ou se levantam na sala para preparar martinis, mas nunca, nunca saem à rua diante de nossos olhos. E sempre que alguma coisa boa acontece, sempre que elas pensam que, afinal, serão felizes, ocorre alguma catástrofe para liquidar-lhes as esperanças.

Não sei como, pressenti uma presença estranha no quarto. Prendi a respiração! Ali estava a avó. Algo em sua postura, nos olhos cinzentos frios e cruéis, revelava-lhe o desdém irônico, zombeteiro, informando que já fazia algum tempo que ela estava ali em pé.

Disse num tom gelado:

- Como vocês dois se tornaram sofisticados mesmo isolados do mundo. Acreditam que exageraram, em tom de brincadeira, o modo como é a vida, mas não se trata de exagero. Sua previsão está correta. Nada acontece do jeito que achamos que vai acontecer. No final, sempre somos desapontados.

Chris e eu a fitamos, arrepiados. Para nós, foi como se a noite invadisse repentinamente o quarto. Ela terminou o que tinha a dizer, deu meia-volta e saiu, trancando a porta. Nós três continuamos nas posições: Carrie encolhida no canto, Chris numa cama e eu na outra.

- Não se deixe derrotar, Cathy. Ela estava tentando apenas amedrontar-nos. Talvez nada tenha dado certo para ela, mas isso não significa que nós estejamos condenados. Partiremos amanhã, sem muitas esperanças de encontrarmos a perfeição. Então, como esperamos apenas uma pequena parte da felicidade, não nos decepcionaremos.

Se Chris era capaz de dar-se por satisfeito com uma pequena colina de felicidade, melhor para ele; mas depois de tantos anos de lutar, alimentar esperanças, sonhar e ansiar, eu queria uma montanha bem alta! Uma colina não seria suficiente. Jurei a mim mesma que daquele dia em diante eu assumiria o controle de minha vida. Nem o destino, nem Deus, nem mesmo Chris tornariam algum dia a dizer-me o que fazer ou me dominariam de qualquer forma. Daquele dia em diante, eu pertencia a mim mesma, para pegar o que bem entendesse, quando bem entendesse, dando satisfações somente a mim Eu fora prisioneira, mantida em cativeiro pela ambição e avareza. Fora iludida, traída, usada, envenenada... mas tudo aquilo agora estava acabando.

Eu mal tinha doze anos de idade quando mamãe nos guiara através dos densos bosques de pinheiros numa noite estrelada, de lua prateada... no limiar da puberdade; agora, depois de três anos e quase cinco meses, eu atingira a maturidade. Era mais velha que as montanhas lá fora. A sabedoria do sótão penetrara-me até os ossos, gravando-se em meu cérebro, integrando-se à minha carne.

Como Chris citara num dia memorável, a Bíblia dizia que havia uma hora certa para tudo. Eu julgava que minha hora de ser feliz estava bem próxima, aguardando por mim.

Onde estava a frágil boneca de porcelana, com cabelos dourados, que eu fora outrora? Desaparecera. Sumira como a porcelana transformada em aço - metamorfoseada em alguém que sempre conseguiria o que desejasse, não importa quem ou o que se interpusesse em seu caminho. Voltei meu olhar decidido para Carrie, que permanecia encolhida no canto, a cabeça tão baixa que os cabelos compridos lhe ocultavam o rosto. Tinha apenas oito anos e meio, mas estava tão debilitada que andava arrastando os pés, como uma velha decrépita; não comia nem falava. Não brincava com o lindo bebezinho que morava na casa de bonecas. Quando eu lhe perguntava se queria levar consigo algumas daquelas bonecas, limitava-se a continuar de cabeça baixa, sem responder.

Nem mesmo Carrie, com seu temperamento teimoso e arrogante, poderia derrotar-me agora. Não havia ninguém, em lugar algum - muito menos uma criança de oito anos - capaz de resistir à força de minha vontade.

Fui ao canto, peguei-a no colo e, embora ela resistisse debilmente, seus esforços para livrar-se foram infrutíferos. Sentei-me à mesa e enfiei-lhe comida na boca, obrigando-a a engolir quando tentava cuspir. Levei-lhe um copo de leite aos lábios e, embora ela trincasse os dentes, forcei-a a abri-los e engolir o leite. Ela gritou que eu era malvada. Carreguei-a para o banheiro e limpei-a quando ela se recusou até mesmo a fazer isso.

Na banheira, lavei-lhe o cabelo com xampu. Depois, vesti com várias camadas de roupas quentes, como eu já estava vestida. E quando seu cabelo secou, escovei-o até brilhar e ficar um pouco como antes, embora muito mais ralo e menos belo.

E durante as longas horas de espera segurei-a no colo, sussurando-lhe ao ouvido os planos que Chris e eu fizéramos para o futuro - as vidas felizes que levaríamos ao sol dourado e líquido da Flórida.

Chris, sentado na cadeira de balanço, totalmente vestido, dedilhava distraidamente a guitarra de Cory.

- Dança, bailarina, dança.... - cantava.

Sua voz não era nada má. Talvez pudéssemos trabalhar como músicos - formando um trio, se Carrie se recobrasse o suficiente para querer cantar outra vez.

Eu tinha no pulso um relógio suíço de ouro de quatorze quilates que devia ter custado a mamãe várias centenas de dólares. Chris também tinha seu relógio. Não estávamos totalmente sem dinheiro. E tínhamos também a guitarra, o banjo, a máquina fotográfica Polaroyd de Chris e suas muitas aquarelas, para vendermos - além dos anéis que papai dera à nossa mãe.

A manhã seguinte nos reservava a fuga - todavia, por que eu continuava a ter a sensação de que estava esquecendo algo muito importante?

Repentinamente, dei-me conta de algo! Uma coisa que tanto Chris como eu não leváramos em consideração. Se a avó era capaz de abrir nossa porta trancada e ficar tanto tempo no quarto antes de percebermos sua presença... será que não fizera o mesmo em outras ocasiões? Em caso positivo, ela talvez tivesse conhecimento de nossos planos! E poderia traçar seus próprios planos para impedir nossa fuga!

Olhei para Chris, refletindo se deveria ou não trazer o assunto à baila. Dessa vez, porém, ele não poderia hesitar e arranjar mais uma desculpa para adiarmos a fuga... portanto, revelei-lhe minhas suspeitas. Ele continuou a dedilhar a guitarra, aparentemente imperturbável.

- No instante em que a vi aqui dentro, essa idéia me passou pela cabeça - respondeu. - Sei que ela deposita muita confiança naquele mordomo, John, e bem poderia postá-lo de vigia ao pé da escada para impedir nossa saída. Pois ele que tente, nada nem ninguém nos impedirá de sair desta casa amanhã cedo!

Contudo, a idéia de encontrarmos a avó e o mordomo à nossa espera na escada se recusava a me sair da cabeça e deixar-me em paz. Deixando Carrie adormecida na cama e Chris sentado na cadeira de balanço a dedilhar a guitarra, subi ao sótão para despedir-me.

Postei-me diretamente embaixo da lâmpada e olhei em volta. Meus pensamentos voaram de volta ao dia em que ali subimos pela primeira vez... vi-os, os quatro, de mãos dadas, olhando em torno, abismados pelo gigantesco sótão, com sua fantasmagórica mobília e acúmulo de trastes empoeirados.

Vi Chris lá em cima, na viga, arriscando a vida para pendurar dois balanços destinados ao divertimento de Cory e Carrie. Caminhei até a sala de aulas, olhando as velhas carteiras às quais os gêmeos se sentaram para aprender a ler e escrever. Não olhei para o velho colchão manchado e fedorento para imaginar-nos tomando banho de sol deitados nele. Aquele colchão me trazia à mente outras lembranças. Observei as flores brilhando - e a lesma torta, e a ameaçadora minhoca roxa, os avisos que Chris e eu tínhamos desenhado, e todo o emaranhado de nosso jardim. Vi-me dançando sozinha, sempre sozinha, exceto quando Chris ficava nas sombras a observar-me, transformando sua dor em minha dor. Pois quando eu dançava valsas com Chris, tornava-o uma pessoa diferente.

Ele me chamou da escada:

- Está na hora de irmos, Cathy.

Voltei correndo à sala de aulas. Usando giz branco, escrevi com letras grandes no quadro-negro:

"Vivíamos no sótão,

Christopher, Cory, Carrie e eu;

Agora somos apenas três".

Assinei meu nome e escrevi a data. No fundo do coração, sabia que os fantasmas de nós quatro sobrepujariam os fantasmas de todas as outras crianças isoladas numa sala de aulas do sótão. Deixei um enigma para alguém desvendar no futuro.

Com Mickey enfiado num saco de papel juntamente com duas rosquinhas cobertas de açúcar e guardado em seu bolso, Chris utilizou a chave de madeira para abrir pela última vez a porta de nossa prisão. Lutaríamos até a morte se a avó e o mordomo estivessem de tocaia no andar térreo. Chris carregava as duas malas com nossos objetos pessoais e as roupas que podíamos levar; levava a tiracolo a guitarra e o banjo que Cory tanto adorava. Mostrou o caminho pelos corredores escuros, chegando à escada dos fundos. Carrie estava em meus braços, parcialmente adormecida. Pesava apenas um pouco mais que quando a leváramos pelo mesmo caminho, ao chegarmos à casa, mais de três anos atrás. As duas malas levadas pelo meu irmão eram as mesmas que mamãe carregara naquela noite horrível, havia tanto tempo, quando éramos pequenos, tão amorosos e confiantes.

Pregados com alfinetes no lado interno de nossas roupas estavam dois saquinhos contendo as notas que Chris roubara no quarto de mamãe, divididas igualmente, para a eventualidade de algo inesperado separar Chris de mim - então, nenhum dos dois ficaria sem dinheiro. E Carrie certamente estaria com um de nós, devidamente cuidada. As moedas pesadas estavam nas duas malas, também divididas em partes iguais para distribuir o peso.

Tanto Chris quanto eu estávamos perfeitamente cônscios do que nos esperava lá fora. Não tínhamos passado tantas horas assistindo à televisão sem aprendermos que os sabidos e desalmados ficam de tocaia contra os ingênuos e inocentes. Éramos jovens e vulneráveis, debilitados e meio doentes, mas já não éramos ingênuos ou inocentes.

Meu coração parou enquanto esperei que Chris destrancasse a porta dos fundos, temendo que alguém aparecesse a qualquer momento para deter-nos. Chris saiu pela porta, sorrindo para mim.

Fazia frio lá fora. Trechos de neve derretiam-se no solo. Em breve tornaria a nevar. O céu cinzento prenunciava isso. Mesmo assim, não fazia mais frio que no sótão. A terra estava fofa sob nossos pés. Era uma sensação estranha, após passarmos tanto tempo andando em tábuas duras e planas de assoalho. Ainda não me sentia segura, pois John poderia seguir-nos e levar-nos de volta. Ou tentar levar nos.

Ergui a cabeça para inspirar o ar puro das montanhas. Era inebriante como champanha. Carreguei Carrie no colo durante algum tempo; depois coloquei-a em pé no solo. Ela tropeçou alguns passos e olhou em volta desorientada e atordoada. Fungou e limpou o narizinho vermelho, tão bem delineado. Oh!... Será que ia pegar logo um resfriado?

- Cathy - chamou Chris, que se adiantara. - Vocês duas precisam andar mais depressa. Não temos muito tempo e ainda há um bocado de chão a percorrer. Pegue Carrie no colo quando ela se cansar.

Peguei-a pela mão e puxei-a atrás de mim.

- Respire bem fundo, Carrie. Antes de você poder notar, o ar puro, a boa alimentação e o sol logo a deixarão forte e bem disposta outra vez.

Ela ergueu o rostinho pálido para mim - havia em seus olhos, afinal, um centelha de esperança?

- Vamos encontrar Cory?

Era a primeira pergunta que fazia desde o dia trágico em que recebêramos a notícia da morte de Cory. Olhei-a sabendo que o que ela mais desejava era a presença de Cory. Não pude negar. Não tive coragem de apagar mais uma chama de esperança.

- Cory está num lugar muito, muito longe daqui. Não se lembra quando eu disse que papai está num jardim muito lindo? Não se lembra quando contei que papai pegou Cory no colo e agora vai tomar conta dele? Estão esperando por nós e, algum dia, lá nos encontraremos. Mas só daqui a muito, muito tempo.

- Mas, Cathy - reclamou ela, franzindo a testa -, Cory não vai gosta daquele jardim se eu não estiver lá. E se ele voltar para nos procurar, não vai saber onde estamos.

Aquela ansiedade me trouxe lágrimas aos olhos. Peguei-a no colo, tentando abraçá-la, mas ela se desvencilhou, arrastando os pés e atrasando-se, torcendo o corpo para olhar a imensa casa que estávamos deixando para trás.

- Vamos, Carrie, ande mais depressa! Cory nos observa, quer que fujamos! Está ajoelhado, rezando para que consigamos escapar antes que a avó mande alguém para levar-nos de volta e trancar-nos novamente!

Acompanhamos os passos de Chris ao longo das trilhas tortuosas. E, como eu já previra, ele nos conduziu sem vacilação à pequena parada de trem que consistia apenas de uma coberta de zinco suportada por quatro estacas, protegendo um velho e desengonçado banco pintado de verde.

A orla do sol nascente espiou pela crista de uma montanha, dissipando a névoa da madrugada. Quando nos aproximamos da parada do trem, o céu assumia uma tonalidade rósea.

- Depressa, Cathy! - chamou Chris. - Se perdermos este trem, só teremos outro às quatro da tarde!

Oh, Deus, não podíamos perder aquele trem! Se isso acontecesse, a avó certamente teria tempo de sobra para recapturar-nos!

Avistamos uma camioneta do correio, um homem alto e magro como um cabo de vassoura em pé ao lado de três malas postais. Ele tirou o boné, exibindo uma carapinha ruiva e sorrindo amavelmente em nossa direção.

- Vão para Charlottesville?

- Sim! Vamos para Charlottesville - respondeu Chris, aliviado por poder finalmente pousar as malas no solo.

- Menina linda, vocês trazem aí - disse o esguio carteiro, observando com um olhar penalizado a pequena Carrie, que se agarrava à minha saia. - Se me perdoam o comentário, ela parece muito magrinha.

- Está doente - confirmou Chris. - Mas logo ficará boa.

O carteiro meneou a cabeça, aparentemente convencido do diagnóstico feito por Chris.

- Têm passagens?

- Temos dinheiro respondeu Chris, acrescentando astutamente, à guisa de treinamento para lidar com desconhecidos menos confiáveis: - Mas apenas o suficiente para pagarmos as passagens.

- Nesse caso, trate de pegá-lo, meu filho, porque aí vem o trem das cinco e quarenta e cinco.

Enquanto viajávamos no trem da manhã, com destino a Charlottesville, avistamos a mansão dos Foxworth, encarapitada numa encosta. Chris e eu não conseguimos despregar os olhos daquela imensa casa; pela primeira vez, víamos nossa prisão pelo lado de fora. Olhamos especialmente para as janelas do sótão, tapadas por postigos negros.

Então, minha atenção se transferiu para a ala norte, fixando-se no último quarto do segundo andar. Cutuquei Chris com o cotovelo quando as pesadas cortinas se afastaram e lá surgiu a silhueta sombria e distante de uma velha corpulenta, procurando por nós... mas logo desapareceu.

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