A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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É claro que ela podia ver o trem, mas sabíamos que não nos enxergava, da mesma forma que nunca conseguíamos enxergar os passageiros. Não obstante, Chris e eu escorregamos ainda mais nos assentos.

- O que estará fazendo lá em cima tão cedo? - sussurrei a Chris. - Normalmente, só leva o nosso café às seis e meia.

Ele riu, num tom que me pareceu amargo.

- Ora, apenas mais uma de suas tentativas de pegar-nos fazendo algo pecaminoso e proibido.

Talvez fosse isso, mas desejei conhecer-lhe os pensamentos, o que ela sentiu ao entrar naquele quarto e constatar que estava vazio, que desaparecera roupa do armário e das gavetas. E não escutar vozes ou passos que acorressem rapidamente - se é que nos chamou.

Em Charlottesville, compramos passagens de ônibus para Sarasota e fomos informados de que dispúnhamos de duas horas até a partida do próximo ônibus para o Sul. Duas horas durante as quais John teria tempo bastante para pegar um dos automóveis e alcançar o vagaroso trem!

- Não pense no assunto - recomendou Chris. - Você não sabe se ele tem conhecimento de nossa existência. A velha seria uma idiota se lhe contasse, embora ele provavelmente seja bastante bisbilhoteiro para ter descoberto.

Julgamos que a melhor maneira de evitar que ele nos encontrasse, caso fosse mandado em nossa perseguição, seria mantermo-nos em movimento. De mãos dadas, com Carrie entre nós dois, percorremos as ruas principais daquela cidade, onde sabíamos que os criados de Foxworth Hall vinham visitar os parentes nos dias de folga, bem como fazer compras, ir ao cinema ou divertir-se de outros modos. E se fosse uma quinta-feira, ficaríamos realmente receosos; mas era domingo.

Devíamos parecer visitantes chegados de outro planeta, com nossas roupas volumosas e mal ajustadas, tênis, cabelos mal aparados e rostos pálidos. Mas ninguém realmente nos deu muita atenção, ao contrário do que eu temia. Fomos aceitos apenas como parte da humanidade, não mais esquisitos que tantas outras pessoas. Era gostoso estarmos outra vez entre gente nas ruas, cada rosto diferente do outro.

- Onde será que todo mundo está indo com tanta pressa? - indagou Chris, exatamente quando eu estava pensando na mesma coisa.

Paramos numa esquina, indecisos. Cory devia estar enterrado nas proximidades. Oh, eu desejava tanto encontrar seu túmulo e nele depositar algumas flores... Algum outro dia voltaríamos, com rosas amarelas, e nos ajoelharíamos para rezar, quer isto fizesse ou não alguma diferença. Por enquanto, tínhamos que pensar apenas em nos afastarmos para muito, muito longe dali, a fim de não aumentarmos os riscos para Carrie... e sair da Virgínia antes de a levarmos ao médico...

Foi então que Chris tirou do bolso o saco de papel contendo o camundongo morto e as duas rosquinhas com açúcar. Seu olhar solene encontrou o meu. Ele me exibiu o saco diante dos olhos, interrogando-me mudamente: Olho por olho?

Aquele saco de papel representava tanta coisa: todos os nossos anos perdidos, a instrução, os colegas e amigos que deixáramos de ter, os dias que deveríamos ter tido de risos e não de lágrimas. Naquele saco estavam todas as nossas frustrações, humilhações, toneladas de solidão, além dos castigos e decepções - e, sobretudo, aquele saco representava a perda de Cory.

- Podemos ir à polícia e contar tudo - disse Christopher, mantendo os olhos desviados de mim. - A prefeitura cuidará de você e de Carrie; não precisarão fugir. Talvez sejam enviadas a um pensionato, ou um orfanato. Quanto a mim, não sei...

Chris nunca falava comigo desviando o olhar, a menos que ocultasse alguma coisa - aquela coisa especial que precisava esperar até que saíssemos de Foxworth Hall.

- Muito bem, Chris, já fugimos. Agora, desembuche. O que anda descondendo de mim?

Ele baixou a cabeça e Carrie se aproximou, agarrando-me a saia, embora arregalasse os olhos, fascinada, para observar o fluxo do tráfego e tanta gente que passava depressa sorrindo para ela.

- É mamãe - disse Chris em voz baixa. - Lembra-se de quando ela nos disse que seria capaz de tudo para reconquistar o pai e herdar sua fortuna? Não sei o que ele a obrigou a jurar, mas escutei os criados conversando. Cathy, alguns dias antes de morrer, nosso avô mandou acrescentar um codicilo ao testamento. Este codicilo estabelece o seguinte: caso fique provado que mamãe teve filhos do primeiro marido, ela será obrigada a abrir mão de tudo o que herdou, e a devolver tudo o que comprou com o dinheiro, inclusive roupas, jóias, investimentos... tudo, enfim. E isso não é tudo; ele estabeleceu também que se ela tiver filhos do segundo casamento o mesmo acontecerá. E mamãe julgava que ele a perdoara. Pois não perdoou, nem esqueceu: continua a castigá-la da sepultura.

Meus olhos se esbugalharam de choque quando comecei a juntar as peças do quebra-cabeças.

- Quer dizer que foi mamãe...? Foi mamãe, e não a avó?

Ele sacudiu os ombros com uma indiferença que eu sabia ser simulada.

- Escutei a velha rezar ajoelhada ao lado da cama. É malvada, mas duvido que fosse capaz de colocar veneno na nossa comida. Ela levava as rosquinhas para nós e sabia que as comíamos, mas sempre nos aconselhou a não comermos doces.

- Mas não poderia ter sido mamãe, Chris. Ela estava em lua-de-mel quando começamos a receber as rosquinhas.

Chris exibiu um sorriso amargo, irônico.

- Sim. Mas o testamento foi homologado há nove meses; nessa época, mamãe já tinha regressado. Só mamãe foi beneficiada pelo testamento de nosso avô; a avó não recebeu um centavo, tem seu próprio dinheiro. Ela apenas nos levava as cestas de comida todos os dias.

Eu tinha muitas perguntas a fazer, mas ali estava Carrie, agarrada à minha saia, olhando para mim. Eu não desejava que ela soubesse que Cory não morrera de causas naturais. Naquele momento, Chris depositou-me nas mãos o saco de papel contendo as provas.

- Cabe a você decidir. Sua intuição estava correta desde o início. Se eu tivesse escutado o que você dizia, Cory ainda estaria vivo.

Não existe ódio comparável ao gerado pelo amor traído - e meu cérebro clamava por vingança. Sim, eu queria ver mamãe e avó na cadeia, atrás das grades, condenadas por homicídio premeditado - por quatro crimes, se a intenção fosse levada em conta. Não passariam de camundongos engaiolados, trancafiados como nós, mas tendo a vantagem da companhia de viciadas em drogas, de prostitutas e de outras assassinas como elas. Mamãe não poderia ir ao salão de beleza duas vezes por semana; nada de manicures profissionais - e apenas um banho semanal. Perderia até mesmo a privacidade das partes mais íntimas de seu corpo. Oh, como ela sofreria sem poder usar agasalhos de pele nem jóias, sem cruzeiros de recreio nos mares do sul quando o inverno chegasse. Não teria um marido jovem, belo e apaixonado para rolar com ela na suntuosa cama de cisne.

Olhei para o céu, onde, supostamente, estava Deus - poderia Ele, à sua maneira, equilibrar a balança e tirar de meus ombros a carga de fazer justiça?

Achei cruel e injusto que Chris me lançasse nas costas o encargo da decisão. Por quê?

Porque seria capaz de perdoá-la por tudo - inclusive da morte de Cory e da tentativa de envenenar todos nós? Julgaria que pais como os dela seriam capazes de pressioná-la a fazer qualquer coisa - inclusive cometer homicídio? Haveria no mundo dinheiro suficiente para me obrigar a matar meus próprios filhos?

Vieram-me à mente cenas anteriores à morte de meu pai. Todos nós no jardim, risonhos e felizes. Na praia nadando ou velejando; nas montanhas, esquiando. E mamãe na cozinha, esforçando-se para preparar refeições que nos agradassem a todos.

Sim, certamente seus pais conheceriam maneiras de matar o amor que ela sentia por nós. Ou Chris pensava, assim como eu, que se fôssemos à polícia apresentar queixa nossas fisionomias seriam estampadas na primeira página de todos os jornais do país? As luzes da publicidade compensariam o que perderíamos com ela? Nossa privacidade - nossa necessidade de permanecermos juntos? Seríamos capazes de perder um ao outro só por vingança?

Tornei a olhar para o céu.

Deus. Não era ele quem redigia os scripts para os minúsculos atores que representavam no palco deste mundo. Nós mesmo redigíamos nossos roteiros com cada dia que vivíamos, com cada palavra que pronunciávamos, com cada pensamento que gravávamos em nossas mentes. E mamãe também redigira o dela - péssimo, por sinal, digno de piedade.

Em certa época, tivera quatro filhos que considerava perfeitos sob todos os pontos de vista. Agora, não lhe restava nenhum. Outrora, tinha quatro filhos que a amavam, considerando-a perfeita sob todos os pontos de vista - agora, nenhum deles a julgava perfeita. E ela nunca mais desejava ter outros filhos. O amor pelas coisas que o dinheiro podia comprar mantê-la-ia fiel para sempre ao cruel codicilio acrescentado ao testamento de seu pai.

Mamãe ficaria velha; seu marido era anos mais moço que ela. Teria bastante tempo para sentir-se solitária e desejar ter feito tudo de modo diferente. Se seus braços nunca mais ansiassem por abraçar-me, ansiariam por Chris e, talvez, Carrie... e, com toda a certeza, ela desejaria ter consigo os filhos que viríamos a gerar no futuro.

Daquela cidade, fugiríamos num ônibus para o Sul, a fim de nos tornarmos alguém. Quando voltássemos a ver mamãe - e o destino com certeza tomaria providências nesse sentido - nós a olharíamos diretamente nos olhos e lhe daríamos as costas.

Larguei o saco de papel na cesta coletora de lixo mais próxima, despedindo-me de Mickey e pedindo-lhe, por favor, que nos desculpasse pelo que lhe fizéramos.

- Vamos, Cathy - chamou Chirs, estendendo-me a mão. - Diga adeus ao passado e alô ao futuro. Estamos perdendo tempo, quando já perdemos tempo demais no passado. Temos tudo pela frente, à nossa espera.

As palavras exatas para fazer-me sentir real, viva, livre! Suficientemente livre para esquecer idéias de vingança. Ri e girei nos calcanhares para correr até onde ele me esperava com a mão estendida e segurá-la. Com o braço livre, Chris ergueu Carrie para o colo, abraçando-a e beijando-lhe o rostinho magro e abatido.

- Escutou isso, Carrie? Estamos a caminho de um lugar onde as plantas florescem durante o inverno. Na verdade, lá as plantas florescem durante o ano inteiro. Isso não dá vontade de sorrir? Uma sombra de sorriso pairou nos lábios pálidos que pareciam ter esquecido de como sorrir. Mas foi o bastante – por enquanto.

Epílogo
É com alívio que termino o relato dos anos que nos serviram de base, sobre os quais alicerçaríamos o resto de nossas vidas.

Após fugirmos de Foxworth Hall, abrimos caminho e conseguimos, de algum modo, prosseguir sempre em nossa luta para atingirmos nossos objetivos.

Nossas vidas seriam sempre tempestuosas, mas ensinaram a Chris e a mim que somos sobreviventes. Quanto a Carrie, foi diferente. Teve de ser persuadida a desejar uma vida sem Cory, embora estivesse cercada de rosas.



Mas como conseguimos sobreviver... isso é outra história.
FIM

1 *N. do T.: Nos Estados Unidos, a última quinta-feira de novembro.

2 N. do T.: Nos Estados Unidos, com iniciais maiúsculas, designa os Pais Peregrinos, 102 puritanos ingleses emigrados, que se estabeleceram em 1620 na região então denominada Nova Inglaterra, fundando a colônia de Plymouth (atualmente no Estado de Massachussetts).
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