A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Encontro29.07.2016
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- Mamãe! - gritei após darmos poucos passos. - O condutor esqueceu de entregar-nos as suas malas!

- Tudo bem, Cathy - respondeu ela, arquejante, como se as duas malas que carregava fossem suficientes para tirar-lhe as forças. - Pedi ao condutor que levasse minhas duas malas para Charlottesville e as guardasse no depósito de bagagens, onde irei buscá-las amanhã.

- Por que fez isso? - quis saber Christopher, tenso.

- Ora, em primeiro lugar, eu certamente não poderia carregar quatro malas, não acham? E, em segundo lugar, quero uma oportunidade para falar primeiro com meu pai, antes que ele tenha conhecimento dos meus filhos. E não ficaria bem se eu chegasse em casa de madrugada, após passar quinze anos longe de lá, não é mesmo?

Creio que parecia razoável, pois já cuidávamos de tudo que nos era possível desde que os gêmeos se recusavam a andar. Seguimos caminho, andando à retaguarda de mamãe, percorrendo um terreno irregular, acompanhando leves trilhas entre rochas, árvores e arbustos que nos agarravam as roupas. Andamos um longo, longo caminho. Christopher e eu ficamos cansados, irritados, à medida que os gêmeos se tornavam cada vez mais pesados e nossos braços começavam a doer. A aventura já estava perdendo a graça. Reclamávamos, atrasávamos o passo, arrastávamos os pés, desejando sentar e descansar. Queríamos estar de volta a Gladstone, em nossas camas, com nossas coisas; seria melhor que ali - melhor que a grande mansão cheia de criados e avós que nem conhecíamos.

- Acordem os gêmeos! - bradou mamãe, impaciente com nossas reclamações. - Coloquem-nos de pé, obriguem-nos a caminhar, queiram ou não!

Então murmurou de encontro à lapela do casaco uma frase que mal me chegou aos ouvidos:

- Só Deus sabe que é melhor eles andarem aqui fora enquanto podem.

Um arrepio de apreensão percorreu-me a espinha. Olhei para meu irmão, a fim de verificar se também tinha escutado. Naquele instante, Christopher virou a cabeça para me olhar. Sorriu. Sorri em resposta.

Amanhã, quando mamãe chegasse numa hora apropriada, de táxi, procuraria nosso avô doente e sorriria para ele, falaria - e ele ficaria encantado, dominado por ela. Um olhar àquele rosto lindo, apenas uma palavra daquela voz suave e maviosa, e o velho abriria os braços, perdoando-a pelo que fizera para "cair em desgraça".

Pelo que ela já nos dissera, seu pai era um velho rabugento, pois sessenta e seis anos parecia-me, então, uma idade incrivelmente avançada. E um homem à beira da morte não se podia dar o luxo de alimentar ressentimentos contra sua única filha, uma moça a quem ele outrora muito amara. Seria obrigado a perdoá-la, a fim de conseguir morrer feliz e tranqüilo, sabendo ter agido corretamente. Então, uma vez tendo vencido o velho com seus encantos, nossa mãe iria buscar nos no quarto - cada um de nós vestido com suas melhores roupas e portando-nos da melhor maneira possível - e o velho logo perceberia que não éramos feios ou malvados. Além disso, ninguém - absolutamente ninguém - que tivesse um pouco de coração seria capaz de resistir aos gêmeos. Ora, nos centros comerciais e supermercados as pessoas paravam para acariciar os gêmeos e cumprimentavam nossa mãe por ter filhos tão lindos. E quando vovô descobrisse a inteligência de Christopher! Um aluno nota dez! E o que era ainda mais notável: Christopher nem precisava estudar tanto quanto eu. Aprendia tudo com facilidade. Bastava-lhe correr os olhos uma ou duas vezes pela página e a informação permanecia indelevelmente gravada em seu cérebro, para nunca mais ser esquecida. Oh, como eu invejava aquele dom de meu irmão!

Eu também possuía um dom; não era uma moeda brilhante e polida como Christopher. Era o meu modo de revirar tudo o que brilhava e procurar as manchas de azinhavre.

Tínhamos coligido apenas algumas informações sobre nosso desconhecido avô, mas juntando as peças do quebra-cabeças, eu já fazia idéia de que ele não perdoava facilmente - partindo do fato de negar durante quinze anos uma filha que outrora amara tanto. Não obstante, seria tão duro a ponto de conseguir resistir aos insinuantes encantos de mamãe, que eram consideráveis? Eu duvidava. Vira e ouvira nossa mãe jogando tais encantos sobre papai quando discutiam a respeito de dinheiro, e era sempre papai quem cedia, deixando-se convencer pelos encantos de mamãe. Bastava um beijo, um abraço, uma leve carícia e papai se animava, sorridente, concordando que, de algum modo, conseguiriam pagar todas as coisas caras que ela comprara.

- Cathy, tire da cara essa expressão preocupada - disse Christopher. Se Deus não pretendesse que as pessoas envelhecessem, adoecessem e, eventualmente, morressem, evitaria que continuassem a ter filhos.

Senti o olhar de Christopher em mim, como se lesse meus pensamentos, e ruborizei-me. Ele sorriu alegremente. Era um otimista perpétuo e incorrigível, jamais sombrio, duvidoso ou pensativo como eu.

Seguimos os conselhos da mamãe e acordamos os gêmeos. Colocamos ambos em pé, dizendo-lhes que teriam que fazer um esforço para andar, estivessem ou não cansados. Puxamos os dois conosco, enquanto choramingavam, reclamavam e, afinal, começavam a soluçar de revolta.

- Não quero ir aonde estamos indo - soluçou a chorosa Carrie.

Cory limitava-se a chorar.

- Não gosto de andar no mato quando está escuro! - berrou Carrie, tentando livrar a minúscula mão da minha. - Vou para casa! Solte-me, Cathy! Largue-me!

Cory chorou mais alto. Tive vontade de tornar a pegar Carrie no colo e carregá-la, mas meus braços doíam demais para um novo esforço. Então, Christopher largou a mão de Cory e foi ajudar mamãe a carregar as duas malas pesadas. Assim, fui deixada a sós com dois gêmeos recalcitrantes, relutantes, sendo obrigada a puxá-los comigo na escuridão.

O ar era frio, áspero e pungente. Embora mamãe a denominasse região de colinas, as silhuetas escuras que se elevavam a distância pareciam-me montanhas. Olhei para o céu, que me deu a impressão de uma profunda cúpula de veludo azul-marinho, salpicado de flocos de neve cristalizados que faziam às vezes de estrelas - ou seriam lágrimas de gelo que eu derramaria no futuro? Por que pareciam fitar-me com piedade, fazendo-me sentir uma formiguinha assustada, completamente insignificante? Aquele céu, tão perto de mim, era imenso demais, lindo demais, enchendo-me com uma estranha sensação de presságio. Não obstante, compreendi que em outras circunstâncias eu teria adorado um panorama como aquele.

Chegamos, afinal, a um grupo de casas grandes e muito bonitas, aninhadas numa encosta íngreme. Furtivamente, aproximando-nos da maior e - evidentemente - mais grandiosa dentre as adormecidas mansões da montanha. Mamãe, num sussurro, explicou que o nome da propriedade era Foxworth Hall e a mansão devia ter mais de dois séculos.

- Há um lago por perto, para nadarmos e patinarmos no gelo? - quis saber Christopher, observando com atenção a encosta. - A região não serve para esquiar: árvores e pedras demais.

- Sim - respondeu mamãe. - Existe um pequeno lago, a cerca de quatrocentos metros.

E apontou na direção onde se situava o lago.

Quase nas pontas dos pés, circundamos a enorme casa. Quando chegamos à porta dos fundos, uma senhora idosa deixou-nos entrar. Devia estar à nossa espera, ou vira-nos chegar, pois abriu a porta tão prontamente que nem tivemos necessidade de bater. Como ladrões em plena noite, entramos furtivamente, sem fazer ruído. A velha não emitiu uma só palavra de boas-vindas. Seria uma das criadas? Fiquei imaginando.

Tão logo chegamos ao interior da casa, a mulher guiou-nos apressadamente para uma estreita e íngreme escada dos fundos, não nos permitindo parar para espiar os grandiosos aposentos que avistávamos apenas de relance ao passarmos rápida e silenciosamente por eles. A velha nos guiou por muitos corredores, passando por inúmeras portas fechadas, até que, afinal, chegamos a um quarto na extremidade de um corredor, onde ela abriu uma porta e gesticulou para que entrássemos. Foi um alívio perceber que nossa longa viagem noturna terminara; estávamos num vasto quarto de dormir, onde havia apenas um lampião aceso. Pesadas cortinas de tapeçaria vedavam duas altas janelas. A velha vestida de cinzento virou-se para nós ao fechar a porta do corredor e encostar-se a ela.

Quando falou, sofri um abalo:

- Exatamente como você disse, Corrine. Seus filhos são lindos.

Ali estava ela, fazendo-nos um elogio que deveria aquecer-nos o coração - mas congelava o meu. Sua voz era fria e indiferente, como se não existissem ouvidos para escutá-la ou mentes para compreender-lhe o desagrado, a despeito da lisonja que pronunciava. E acertei ao julgá-la assim. Suas palavras seguintes o provaram:

- Mas tem certeza de que são inteligentes? Sofrem de moléstias invisíveis, não aparentes ao olhar?

- Não! - bradou mamãe, tão ofendida quanto eu. - Como você bem pode ver, meus filhos são perfeitos, física e mentalmente!

Mamãe encarou raivosamente a velha antes de agachar-se e começar a despir Carrie, que estava cochilando em pé. Ajoelhei-me diante de Cory, desabotoando-lhe o casaquinho azul, enquanto Christopher pegava uma das malas e a colocava em cima de uma das enormes camas. Abriu a mala e dela retirou dois pares de pequenos pijamas amarelos, tipo macacão.

Furtivamente, enquanto ajudava Cory a despir-se e vestir os pijamas amarelos, observei aquela mulher alta e grandalhona que, segundo presumi, era nossa avó. Estudando-a à procura de rugas e pelancas, verifiquei que não era tão velha quanto eu julgara a princípio. Tinha cabelos fortes, cor de aço azulado, penteados para trás num estilo severo que lhe tornava os olhos um tanto alongados e felinos. Ora, pude até mesmo ver como cada mecha de cabelos repuxava-lhe o couro cabeludo - e, enquanto eu observava, um dos fios esticados soltou-se pela raiz!

O nariz era como um bico de águia, os ombros largos, a boca parecia a cicatriz fina e irregular de um corte de faca. O vestido de tafetá cinzento trazia um broche de brilhante na garganta, fechando a frente severa e sem vestígio de decote. Nada na mulher parecia macio ou flexível; até mesmo o peito parecia ser constituído de dois montes gêmeos de concreto. Com ela, não haveria as brincadeiras que costumávamos fazer com papai e mamãe.

Não gostei dela. Tive vontade de voltar para casa. Meus lábios tremiam. Queria papai vivo outra vez. Como poderia uma mulher como aquela produzir algo tão doce e lindo como nossa mãe? De quem mamãe herdara a beleza, a alegria? Estremeci, procurando reprimir as lágrimas que me saltavam aos olhos. Mamãe nos preparara com antecedência para um avô desprovido de carinho, afeição ou condescendência - mas a avó que providenciara nossa recepção... constituía uma surpresa brutal, assustadora. Pisquei para afastar as lágrimas, temendo que Christopher as percebesse e viesse zombar de mim posteriormente. Todavia, para reconfortar-me, lá estava nossa mãe, sorrindo carinhosamente ao colocar Cory, já de pijamas, sobre uma das camas e repetir o gesto para deitar Carrie ao lado dele. Oh, como eram lindos, ali deitadinhos como duas bonecas de rostos rosados. Mamãe debruçou-se sobre os gêmeos, beijando-lhes os rostinhos corados, ajeitando ternamente os cachos que lhes caíam nas testas e, afinal, aconhegando-os nas cobertas.

- Boa-noite, meus queridos - murmurou com a voz carinhosa que tão bem conhecíamos.

Os gêmeos nem escutaram, já profundamente adormecidos.

A avó, porém, mantendo-se ali plantada como uma árvore solidamente enraizada, mostrava-se obviamente contrariada ao olhar para os gêmeos numa das camas e, depois, para onde Christopher e eu nos encolhíamos, muito juntos. Estávamos cansados e nos apoiávamos mutuamente. Total desaprovação faiscou nos olhos cinzentos. Seu rosto mantinha uma expressão franzida e penetrante que mamãe pareceu entender, embora eu não conseguisse interpretar. O rosto de mamãe enrubesceu quando a avó declarou:

- Suas duas crianças mais velhas não podem dormir na mesma cama!

- São apenas crianças! - replicou mamãe com desusada veemência. – Você não mudou nem um pouco, não é, mamãe? Ainda tem a mente suja e desconfiada! Christopher e Cathy são inocentes!

- Inocentes? - retrucou a velha, com uma expressão maldosa tão afiada que parecia capaz de ferir alguém. - Era exatamente isso que seu pai e eu presumíamos a respeito de você e de seu meio-tio!

Com os olhos esbugalhados, olhei de uma para a outra. Lancei um olhar de esguelha a meu irmão, cuja idade parecera derreter-se em segundos; estava tão vulnerável e indefeso quanto eu, sem entender coisa alguma.

Uma tempestade de raiva violenta roubou a cor do rosto de mamãe.

- Se pensa assim, então dê-lhes quartos separados, com camas separadas! Deus sabe que isso existe de sobra nessa casa!

- Impossível! - replicou a mãe dela, naquele tom que queimava como gelo. - Este é o único quarto que possui um banheiro privativo e onde meu marido não os escutará andando sobre as tábuas do teto ou acionando a válvula da privada. Se os separarmos, espalhando-os pelo andar superior, ele ouvirá as vozes e os barulhos. Ou os criados escutarão. Ora, pensei muito nesse arranjo. Este é o único quarto seguro.

Quarto seguro? Dormiríamos, nós todos, num único quarto? Numa grandiosa e rica mansão, com vinte, trinta ou quarenta quartos, ficaríamos todos num mesmo quarto? Mesmo assim - agora que pude pensar bem no assunto – eu não desejaria ficar sozinha num quarto daquela casa imensa.

- Ponha as duas meninas numa cama e os dois meninos na outra – ordenou nossa avó.

Mamãe pegou Cory no colo e o depositou na outra cama de casal, estabelecendo assim, com naturalidade, a rotina que seguiríamos dali em diante. Os meninos na cama mais próxima à porta do banheiro, Carrie e eu na cama perto das janelas.

A velha olhou duramente para mim e, depois, para Christopher.

- Agora, ouçam o seguinte - começou, como um sargento-instrutor perante um bando de recrutas. - Caberá a vocês dois, os mais velhos, manter os menores quietos; os dois serão responsáveis se eles violarem qualquer uma das regras que estou estabelecendo agora e virei a estabelecer mais tarde. Mantenham sempre isso em mente: se o seu avô descobrir, antes do tempo, que vocês estão aqui em cima, expulsará todos sem um único tostão furado, após castigá-los severamente por estarem vivos! Vocês manterão esse quarto sempre limpo, varrido e bem arrumado, e o banheiro também, como se ninguém morasse aqui. E ficarão quietos; não gritarão ou chorarão, nem correrão pelo quarto, para evitar barulho nas tábuas do teto do andar inferior. Quando sua mãe e eu sairmos esta noite, fecharei a porta e trancarei à chave por fora, pois não admitirei que fiquem vagando pela casa ou cheguem às outras alas. Permanecerão aqui até o dia da morte de seu avô, mas, para todos os efeitos, vocês não existem.

Oh, Deus! Olhei para mamãe. Não podia ser verdade! Ela estava mentindo, não estava? Dizendo coisas malvadas apenas para assustar-nos. Aproximei-me de Christopher, comprimindo-me de encontro a ele, sentindo-me fria e trêmula. A avó ficou mais carrancuda e eu me afastei. Tentei olhar para mamãe, mas ela nos dera as costas e mantinha a cabeça baixa, os ombros caídos estremecendo, como se estivesse chorando.

Dominada pelo pânico, estive prestes a berrar alguma coisa, mas mamãe virou-se no momento exato, sentando-se na beirada de uma cama e estendendo os braços para Christopher e eu. Corremos para ela, gratos pelos braços que nos envolveram, as mãos que nos acariciavam os cabelos e as costas, que alisavam-nos os cabelos em desalinho.

- Tudo bem - sussurrou mamãe. - Confiem em mim. Só passarão uma noite aqui. Então, meu pai os receberá em seu lar e vocês poderão usá-lo como se lhes pertencesse, tudo, todos os quartos, os jardins também.

Então, olhou raivosamente para a mãe tão alta, severa, implacável.

- Mamãe, tenha alguma piedade e compaixão por meus filhos. Eles também são a sua carne e o seu sangue, não se esqueça. São ótimas crianças, mas também são crianças normais e necessitam de espaço para brincar, correr e fazer barulho. Espera que falem em murmúrios? Não precisa trancar a porta desse quarto; pode trancar a porta na extremidade do corredor. Ora, por que eles não podem usar todos os quartos dessa ala norte? Sei que vocês nunca se importaram muito com essa parte mais antiga da casa.

A velha sacudiu vigorosamente a cabeça.

- Corrine, quem toma as decisões aqui sou eu, não você! Acha que pode apenas trancar a porta de acesso a essa ala da casa e os criados não perceberão? Tudo deve permanecer exatamente como estava antes. Os criados entendem por que motivo mantenho esse quarto trancado, pois a escada para o sótão é aqui e não gosto que eles metam o nariz onde não devem. Todas as manhãs, bem cedo, trarei comida e leite para as crianças, antes que a cozinheira e a copeira cheguem à cozinha. Ninguém entra nessa ala norte, exceto na última sexta-feira de cada mês, quando é totalmente limpa e arrumada. Nesses dias, as crianças terão que ficar escondidas no sótão até as empregadas terminarem o serviço. E antes que as empregadas cheguem eu verificarei pessoalmente que não sejam deixados vestígios de ocupação do quarto.

Mamãe apresentou outras objeções:

- Impossível! É natural que eles se traiam, que deixem algum indício. Mamãe, tranque a porta na extremidade do corredor!

A velha rilhou os dentes.

- Dê-me tempo, Corrine; com o tempo, poderei inventar algum motivo pelo qual os criados fiquem impedidos de entrar nessa ala, até mesmo para limpá-la. Todavia, preciso agir com cautela e não levantar suspeitas. Eles não gostam de mim; correriam a seu pai, inventando histórias, esperando que ele os recompensasse. Não compreende? O fechamento dessa ala não pode coincidir com o seu retorno, Corrine.

Nossa mãe meneou a cabeça, cedendo. Ela e a avó continuaram a fazer planos, enquanto Christopher e eu ficávamos cada vez mais sonolentos. O dia parecia interminável. Eu desejava desesperadamente deitar-me ao lado de Carrie, aninhar-me na cama e mergulhar no doce esquecimento do sono, onde não existem problemas.

Eventualmente, quando eu julgava que ela jamais notaria, mamãe percebeu o quanto Christopher e eu estávamos fatigados. Tivemos permissão para trocarmos as roupas no banheiro e - afinal - deitarmo-nos nas camas.

Mamãe, parecendo muito pálida e preocupada, com fundas olheiras, aproximou-se de mim e colou os lábios na minha testa. Vi lágrimas brilharem nos cantos de seus olhos, e a maquilagem estava manchada e úmida. Estaria chorando novamente?

- Durma - disse em voz rouca. - Não se preocupe. Não dê atenção ao que acaba de escutar. Tão logo meu pai me perdoar e esquecer o que fiz para desagradá-lo, receberá os netos com os braços abertos, os únicos netos que ele poderá ver ainda vivo.

- Mamãe - franzi a testa, cheia de angústia -, por que você chora tanto?

Com movimentos espasmódicos, ela enxugou as lágrimas e tentou sorrir.

- Cathy, temo que seja necessário mais que um dia para recuperar a aprovação e afeto de meu pai. Pode levar dois dias, ou até mais.

- Mais?


- Talvez. Pode levar até uma semana, porém não mais que isso. Talvez leve menos tempo. Não sei exatamente... mas não demorará. Conte com isso - respondeu ela, alisando-me os cabelos. - Minha doce e querida Cathy, seu pai a amava muito e eu também amo.

Foi até Christopher, beijou-lhe a testa e acariciou-lhe os cabelos, mas não consegui escutar o que sussurrou para ele. Perto da porta, virou-se para dizer:

- Descansem bem essa noite e, amanhã virei vê-los o mais cedo possível. Conhecem meus planos: terei que andar até a parada do trem e pegar outra composição até Charlottesville, onde minhas malas estarão à espera. Amanhã de manhã, bem cedo, tomarei um táxi até aqui e virei visitá-los assim que puder.

A avó empurrou impiedosamente mamãe pela porta aberta. Todavia, mamãe conseguiu torcer o corpo para olhar-nos por cima do ombro, seus olhos tristes implorando antes mesmo que ela começasse a falar:

- Sejam bonzinhos, por favor. Comportem-se bem. Não façam barulho. Obedeçam as regras impostas por sua avó e nunca lhe ofereçam um motivo para castigá-los. Por favor, façam isso; por favor. Obriguem os gêmeos a obedecer e não os deixem chorar nem sentir muitas saudades de mim. Procurem transformar tudo num jogo; será bastante divertido. Façam o possível para distraí-los até que eu volte com mais brinquedos para todos. Voltarei amanhã e passarei cada minuto pensando em vocês, rezando por vocês, amando-os.

Prometemos ser meninos de ouro, silenciosos como ratos, obedientes como anjos, seguindo à risca todas as regras que nos fossem impostas. Cuidaríamos dos gêmeos e eu faria qualquer coisa - literalmente qualquer coisa - para afastar a ansiedade dos olhos deles.

- Boa-noite, mamãe - dissemos Christopher e eu, enquanto ela vacilava no corredor, com as mãos grandes e cruéis da avó segurando-lhe os ombros. – Não se preocupe conosco. Estaremos bem. Sabemos cuidar dos gêmeos e entreter-nos. Já não somos criancinhas pequenas.

Essas palavras partiram de meu irmão.

- Vocês me verão amanhã de manhã - declarou a avó antes de empurrar mamãe para o corredor e fechar a porta, trancando-a por fora.

Crianças sozinhas, com medo de ficarem trancadas. E se começasse um incêndio? Fogo. Eu sempre pensaria em fogo e num modo de escaparmos. Se íamos ficar trancados ali, ninguém escutaria se gritássemos por socorro. Quem poderia escutar-nos, trancados naquele quarto remoto e proibido do segundo andar, onde só entravam nas últimas sextas-feiras dos meses?

Graças a Deus, era uma providência apenas temporária - por uma noite. Então, no dia seguinte, mamãe convenceria o avô moribundo.

E ficamos sozinhos. Trancados. Todas as luzes apagadas. Ao nosso redor e embaixo de nós, aquela casa imensa parecia um monstro que nos mantinha presos em seus dentes pontiagudos e afiados. Se nos movêssemos, murmurássemos, respirássemos fundo, seríamos engolidos e digeridos por ele.

O que eu desejava, ali deitada, era dormir - e não o profundo silêncio que se prolongava interminavelmente. Pela primeira vez em minha vida, não mergulhei em sonhos no mesmo instante em que minha cabeça encostou no travesseiro. Christopher quebrou o silêncio e começamos, aos sussurros, a discutir nossa situação.

- Não pode ser tão ruim - disse ele baixinho, os olhos brilhando no escuro. - Aquela avó... ela não pode ser tão má como parece.

- Quer dizer que você não a julgou uma velhinha bondosa e simpática?

Ele soltou uma risadinha.

- Sim, pode apostar que é bondosa... como uma sucuri.

- Como ela é grande! Que altura acha que ela tem?

- Bem, é difícil adivinhar. Talvez um metro e oitenta. E cem quilos.

- Dois metros! E duzentos e cinqüenta quilos!

- Cathy, você precisa aprender uma coisa: pare de exagerar! Pare de aumentar tanto as pequenas coisas! Ora, examine nossa situação com cuidado e entenda que isso é apenas um quarto de uma casa grande: não há motivo para temores. Temos que passar uma noite aqui antes que mamãe venha buscar-nos.

- Christopher, você escutou o que a avó disse a respeito de um meio-tio? Entendeu o que ela quis dizer?

- Não. Mas suponho que mamãe explicará tudo. Agora, reze e trate de dormir. Não é tudo que podemos fazer?

Saltei da cama, ajoelhei-me e cruzei as mãos sob o queixo. Fechei os olhos com força e rezei, pedindo a Deus que ajudasse mamãe a ser encantadora e convincente como nunca.

- E, Deus, não permita, por favor, que nosso avô seja tão malvado e detestável quanto sua esposa.

Então, fatigada e afogada por tantas emoções, subi para a cama, abracei Carrie de encontro ao peito e, como desejava, mergulhei nos sonhos.


A Casa de Vovó
O dia raiou por detrás das grossas cortinas fechadas, que fôramos proibidos de abrir. Christopher foi o primeiro a sentar-se na cama, espreguiçando-se e sorrindo para mim.

- Olá, descabelada - cumprimentou.

- Seu cabelo estava tão despenteado como o meu - muito mais.

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