A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Encontro29.07.2016
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Não sei por que motivo Deus deu a Christopher e Cory cabelos tão encaracolados, enquanto os meus e os de Carrie são apenas ondulados. E quando ele, como menino que era, esforçava-se para esticá-los com a escova, eu rezava para que os cachos lhe saltassem da cabeça e viessem cair na minha.

Sentei-me na cama e com o olhar pelo quarto, que devia ter cerca de cinco metros por cinco. Grande, mas com duas camas de casal, uma cômoda maciça, uma grande penteadeira entre as duas janelas da frente, ladeada por duas poltronas estofadas, um guarda-roupas e mais uma mesa de mogno com quatro cadeiras parecia um aposento acanhado. Abarrotado de móveis. Entre as duas grandes camas de casal, havia outra mesinha com um abajur. No total, existiam quatro abajures no quarto. Por baixo da portentosa mobília escura, um desbotado tapete oriental com franja dourada. Outrora devia ter sido uma linda peça, agora velha e desbotada. As paredes eram forradas com papel creme e flocos brancos. As colchas eram douradas e feitas de um tecido pesado, como cetim forrado. Havia três quadros nas paredes. Oh, meu Deus, eram de tirar o fôlego! Demônios grotescos perseguiam pessoas despidas em cavernas subterrâneas cujo tom predominante era o vermelho. Monstros sobrenaturais devoravam criaturas indefesas, cujas pernas ainda se debatiam pendentes de enormes bocas que babavam, deixando à mostra dentes longos, brilhantes e afilados.

- Você está olhando para o inferno, do modo como alguns o imaginam - -informou meu irmão sabe-tudo. - Aposto dez contra um como nossa angelical avó pendurou pessoalmente essas gravuras nas paredes, só para ficarmos sabendo o que nos espera caso desobedeçamos suas regras. Parece-me trabalho de Goya - concluiu.

Meu irmão sabia tudo. Além de ser médico, desejava também ser pintor. Desenhava excepcionalmente bem, usando aquarelas, tintas a óleo e tudo o mais. Sabia fazer quase tudo com perfeição, exceto azucrinar-se ou prestar pequenos favores a si próprio.

Quando fiz menção de levantar-me e ir ao banheiro, Christopher pulou da cama e foi mais rápido que eu. Por que Carrie e eu ficávamos tão longe do banheiro? Sentei-me, impaciente, na beira da cama, balançando as pernas à espera de que ele saísse.

Com muitos movimentos inquietos, Carrie e Cory acordaram simultaneamente. Sentaram-se, bocejando, como duas imagens refletidas, esfregando os olhos e olhando sonolentamente em volta. Então, Carrie declarou em tom bem decidido:

- Não gosto daqui!

Não era de espantar, pois Carrie já nascera obstinada. Antes mesmo de aprender a falar - e falara com apenas nove meses - sabia do que gostava e o que detestava. Para Carrie, nunca havia um meio termo: era depressão ou euforia. Tinha uma voz engraçadinha quando estava satisfeita, muito semelhante ao gorjear feliz de um pássaro matinal. O problema era que gorjeava o dia inteiro, a menos que estivesse dormindo. Carrie conversava com bonecas, xícaras, ursinhos e outros animais de brinquedo. Tudo que ficasse sentado sem responder servia de alvo para suas conversas. Depois de algum tempo, eu nem mais escutava sua tagarelice incessante; limitava-me a desligar os ouvidos e deixá-la falar interminavelmente.

Cory era totalmente diferente. Enquanto Carrie não parava de falar, ele permanecia sentado, escutando com atenção. Lembro-me da Sra. Simpson dizer que Cory era um "rio de águas calmas e profundas". Ainda não entendo o que ela quis dizer com isso, exceto que as pessoas tranqüilas e caladas emanam certa ilusão de mistério que nos mantêm a imaginar como elas são realmente sob a superfície.

- Cathy - gorjeou minha irmãzinha com cara de bebê. - Você não me ouviu dizer que não gosto daqui?

Ao escutar essas palavras, Cory pulou da outra cama e correu para a nossa, abraçando-se à irmã gêmea com os olhos muito abertos e assustados.

No seu jeito solene, indagou:

- Como viemos para cá?

- De trem, ontem à noite. Não se lembram?

- Não. Não me lembro.

- E caminhamos através do mato sob o luar. Foi lindo.

- Onde está o sol? Ainda é noite?

O sol se escondia por detrás das cortinas, mas se eu ousasse dizer isso a Cory ele certamente desejaria abrir as cortinas e olhar pela janela. E após ver o que havia lá fora, desejaria sair do quarto. Fiquei sem saber o que dizer.

Alguém no corredor mexeu na fechadura da porta, poupando-me obrigação de responder. Nossa avó carregou para o interior do quarto uma enorme bandeja cheia de comida, coberta com uma ampla toalha branca. Num tom muito ríspido e severo, explicou que não podia passar o dia inteiro subindo e descendo escadas para carregar bandejas pesadas. Só uma vez por dia, Se ela viesse muitas vezes, os criados desconfiariam.

- Creio que, de agora em diante, usarei uma cesta de piquenique - declarou ao colocar a bandeja em cima da mesinha. Virou-se para encarar-me como se eu fosse a encarregada das refeições. - Tem que fazer esta comida durar o dia inteiro. Divida-a em três refeições. O toucinho, ovos, torradas e o mingau de cereais são para o café da manhã. Os sanduíches e a sopa quente na pequena garrafa térmica são para o seu almoço. A galinha frita, salada de batatas e ervilhas são para o jantar. E podem comer as frutas como sobremesa. No final do dia, se ficarem quietos e obedientes o tempo todo, talvez eu traga sorvete com doces, ou um bolo. Balas, nunca. Não podemos permitir que peguem cáries nos dentes. Não poderão ir ao dentista antes de seu avô morrer.

Christopher saíra do banheiro, inteiramente vestido, e também ficou imóvel, escutando e fitando aquela avó que falava com tanta facilidade sobre a morte do marido, sem qualquer demonstração de tristeza. Era como se falasse de algum peixe chinês dourado que em breve morreria num aquário.

- Escovem os dentes após cada refeição - prosseguiu ela. - Mantenham sempre os cabelos bem escovados, os corpos bem lavados e inteiramente vestidos. Detesto crianças sujas e com nariz escorrendo.

No momento em que ela disse isso, o nariz de Cory começou a escorrer. Disfarçadamente, usei um lenço de papel para limpá-lo. Pobre Cory, sofria de coriza alérgica a maior parte do tempo - e ela detestava crianças com o nariz correndo!

- Tenham pudor no banheiro - disse a avó, olhando com ar particularmente feroz para mim e, depois, para Christopher, que agora se recostara com ar insolente na esquadria da porta do banheiro. - Meninos e meninas nunca podem usar o banheiro juntos.

Senti o rosto queimar de raiva! Que tipo de crianças ela achava que éramos?

A seguir, ouvimos pela primeira vez algo que nos seria repetido como uma frase num disco quebrado:

- Não se esqueçam, crianças: Deus vê tudo! Deus verá o mal que cometerem às minhas costas! E Deus lhes aplicará o castigo, quando eu não souber!

Tirou uma folha de papel do bolso do vestido, prosseguindo:

- Aqui, nesse papel, fiz uma lista das normas que vocês devem seguir enquanto estiverem em minha casa.

Colocou o papel em cima da mesa e disse-nos que devíamos ler e decorar as regras. Então, virou-se para sair... mas, não! Encaminhou-se ao armário embutido, que ainda não tínhamos examinado.

- Crianças, além dessa porta, nos fundos do armário, existe uma porta ocultando a escada que leva ao sótão. Lá em cima, no sótão, há amplo espaço para vocês brincarem, correrem e fazerem uma quantidade razoável de barulho. Todavia, nunca devem subir a escada antes das dez horas. Antes das dez, as arrumadeiras estarão cumprindo suas tarefas no segundo andar e poderão escutar vocês correndo. Portanto, tenham sempre em mente que poderão ser ouvidos no andar de baixo se fizerem barulho demais. Depois das dez, as empregadas estão proibidas de usar o segundo andar da casa. Uma delas começou a roubar. Até que eu pegue a ladra em flagrante, fico sempre presente quando elas arrumam os quartos. Nessa casa, estabelecemos nossas próprias normas e executamos os castigos merecidos. Como eu disse ontem à noite, na última; sexta-feira de cada mês vocês irão bem cedo para o sótão e ficarão muito quietos, sem falar ou arrastar os pés, estão entendendo?

Olhou fixamente para um de nós de cada vez, sublinhando as palavras com os olhos duros e maus. Christopher e eu meneamos afirmativamente a cabeça. Os gêmeos limitaram-se a olhá-la numa estranha espécie de fascínio que raiava o pavor. Explicações subseqüentes nos informaram de que ela examinaria pessoalmente o quarto e o banheiro, a fim de verificar se não deixáramos vestígios de nossa presença naquela sexta-feira.

Terminando de falar, retirou-se. E tornou a trancar a porta por fora.

Então, pudemos respirar.

Imbuída de sinistra determinação, dispus-me a transformar aquilo num jogo.

- Christopher Doll, nomeio-o pai.

Ele riu e depois replicou com sarcasmo:

- O que mais? Como o homem e chefe dessa família, faço saber que de agora em diante serei um rei que deverá ser servido de todas as maneiras e modos, como um rei. Mulher, como minha subordinada e escrava, arrume a mesa, sirva a comida, apronte-se para seu amo e senhor.

- Repita o que disse, irmão.

- De agora em diante, não sou mais seu irmão, mas seu amo e senhor; você deverá cumprir minhas ordens, quaisquer que elas sejam.

- E se eu não as cumprir, o que fará o meu amo e senhor?

- O tom de sua voz não me agrada. Fale respeitosamente quando se dirigir a mim.

- Ó-la-lá! No dia em que me dirigir respeitosamente a você, Christopher, será por você merecer meu respeito, e, para merecê-lo, precisará ter três metros e meio de altura, a lua cheia terá que surgir no céu ao meio-dia e uma tempestade de granizo terá que trazer um galante príncipe com polida armadura branca, montado num unicórnio e trazendo na ponta da lança a cabeça verde de um dragão!

Acabando de falar e emitindo um grunhido de satisfação ante tal expressão de desalento, peguei a mãozinha de Carrie e puxei-a majestosamente para o banheiro, onde poderíamos levar o tempo que quiséssemos lavando o rosto, vestindo-nos e escovando os cabelos - ignorando o pobre Cory, que não parava de reclamar o uso das instalações sanitárias.

- Por favor, Cathy! Deixe-me entrar! Prometo não olhar vocês!

Eventualmente, o banheiro tornou-se enfadonho e saímos. Acredite quem quiser: Christopher vestira Cory dos pés à cabeça! E, ainda mais chocante: agora Cory nem tinha necessidade de ir ao banheiro!

- Por quê? - perguntei. - Não ouse dizer que voltou para a cama e fez nela!

Sem dizer uma palavra, Cory apontou para uma grande jarra azul sem flores dentro.

Christopher, indolentemente recostado na cômoda, cruzou os braços sobre o peito, muito satisfeito consigo mesmo.

- Isso lhe ensinará a não ignorar uma pessoa do sexo masculino em necessidades. Nós, homens, não somos como vocês, mulheres, que precisam sentar-se. Qualquer coisa nos serve, numa emergência.

Antes de permitir que alguém iniciasse a refeição matinal, tive que esvaziar a jarra azul e lavá-la meticulosamente. Na verdade, não seria má idéia deixá-la ao lado da cama de Cory, para um caso de emergência.

Sentamo-nos perto das janelas, à mesinha fabricada para servir como mesa de jogos. Os gêmeos sentaram-se em travesseiros dobrados, a fim de poderem enxergar a comida. Todos os quatro abajures estavam acesos. Não obstante, era deprimente termos que fazer a refeição matinal num ambiente que parecia mergulhado na obscuridade do crepúsculo vespertino.

- Anime-se, cara amarrada - disse meu imprevisível irmão mais velho. – Eu estava apenas brincando. Não precisará ser minha escrava. Eu apenas adoro as preciosidades que você pronuncia quando provocada. Sou forçado a admitir que, em questão de verbosidade, vocês mulheres são excepcionalmente dotadas, da mesma forma que nós homens temos o dom especial de um instrumento perfeito para fazer nossas necessidades ao ar livre.

E para provar que não pretendia comportar-se como um brutamontes dominador, ajudou-me a servir o leite - verificando, como eu, que levantar a pesada garrafa térmica de quatro litros e servir o líquido sem derramá-lo por todo lado não era um feito desprezível.

Carrie lançou um simples olhar ao toucinho com ovos e começou a berrar:

- Nós não gostamos de toucinho com ovos! Mingau frio! Gostamos de MINGAU frio! Não queremos comida quente, encaroçada, cheia de gordura! GOSTAMOS DE MINGAU FRIO! - chorava. - MINGAU COM PASSAS!

- Agora, escutem-me bem - disse o novo pai em tamanho menor. – Vão comer o que for colocado no prato à sua frente, sem reclamar, sem gritar, sem chorar, sem berrar! Estão ouvindo? E não é comida quente; é comida fria. Podem raspar e separar a gordura. É alimento sólido, de todo modo.

Christopher engoliu num piscar de olhos a comida fria e gordurosa, além da torrada fria e sem manteiga. Os gêmeos, por estranhos motivos que jamais entenderei, fizeram a refeição sem um murmúrio de protesto. Senti a inquietadora e desagradável premonição de que nossa sorte com os gêmeos não poderia durar muito. Talvez estivessem agora impressionados com a firmeza do irmão mais velho. Mais tarde, porém...

Terminada a refeição, empilhei cuidadosamente a louça na bandeja. Só então me lembrei de que havíamos esquecido de dar graças a Deus pela comida. Reagrupamo-nos depressa em volta da mesa, sentando-nos e baixando a cabeça, com as mãos cruzadas ao peito.

- Senhor, perdoa-nos por termos comido sem pedir tua permissão. Por favor, não permitas que a avó tome conhecimento disso. Prometermos agir corretamente na próxima vez. Amém.

Terminando a oração, entreguei a Christopher a lista de obrigações e proibições, cuidadosamente datilografada em letras maiúsculas, como se fôssemos estúpidos a ponto de não sabermos ler caligrafia manuscrita.

E só assim os gêmeos, que na noite anterior estavam por demais sonolentos para entenderem nossa situação, tomaram pleno conhecimento do que nos esperava. Meu irmão começou pelo topo da lista de regras que não podiam ser violadas, ou...

Primeiro, Christopher franziu os lábios numa boa imitação da detestável boca da velha avó. Era impossível acreditar que lábios tão bonitos como os dele pudessem parecer tão sinistros - mas, de algum modo, Christopher conseguia imitar a austeridade da velha.

- Um - leu em voz fria e desprovida de expressão. - Vocês sempre estarão completamente vestidos.

Rapaz! Ele conseguia dar ao termo "sempre" a conotação de impossível!

- Dois: vocês jamais tomarão o nome do Senhor em vão e sempre darão graças antes de cada refeição. Se eu não estiver presente para verificar, podem ter certeza de que Ele os estará observando e escutando.

- Três: vocês jamais abrirão as cortinas, nem para espiar pelas janelas.

- Quatro: vocês jamais me dirigirão a palavra, a menos que eu fale antes com vocês.

- Cinco: vocês manterão este quarto arrumado e em ordem, sempre com as camas feitas.

- Seis: vocês jamais ficarão à-toa. Devotarão cinco horas por dia ao estudo e empregarão o restante do tempo em desenvolver suas habilidades de uma forma proveitosa. Se possuírem capacidades, habilidades ou talentos, procurarão aperfeiçoá-los e, caso não os possuam, lerão a Bíblia; se não souberem ler, ficarão sentados, olhando para a Bíblia e procurando absorver, por intermédio da pureza de seus pensamentos, o significado do Senhor e Seus caminhos.

- Sete: todos os dias, vocês escovarão os dentes após o café da manhã e antes de se deitarem à noite.

- Oito: se alguma vez eu pegar meninos e meninas usando o banheiro ao mesmo tempo, arrancarei - de forma impiedosa e total - a pele de suas costas.

Meu coração virou uma cambalhota. Oh, Deus! Que tipo de avó tínhamos nós?

- Nove: vocês - todos os quatro - serão sempre recatados e discretos em qualquer ocasião, em termos de atitude, palavras e pensamentos.

- Dez: vocês jamais manusearão ou brincarão com as partes íntimas de seus corpos; nem olharão para elas através de espelhos; nem pensarão nelas, mesmo quando as estiverem lavando.

Imperturbável, com um leve brilho engraçado no olhar, Christopher prosseguiu a leitura, imitando a avó com certa habilidade:

- Onze: vocês jamais permitirão que pensamentos maus, pecaminosos ou obscenos lhes ocupem a mente. Manterão sempre seus pensamentos limpos, puros e afastados de assuntos capazes de corrompê-los moralmente.

- Doze: vocês evitarão sempre olhar para membros do sexo oposto, a menos que seja absolutamente necessário.

- Treze: os que saibam ler - espero que ao menos dois de vocês sejam capazes disso - alternar-se-ão em ler a Bíblia em voz alta, pelo menos uma página por dia, a fim de que as duas crianças menores se beneficiem com os ensinamentos do Senhor.

- Quatorze: vocês tomarão banho diariamente, limpando sempre a banheira e mantendo o banheiro tão impecável como estava quando o encontraram.

- Quinze: cada um de vocês, inclusive os gêmeos, aprenderá ao menos uma citação da Bíblia por dia. Quando eu assim exigir, vocês repetirão em voz alta tais citações, enquanto eu estiver acompanhando as passagens que vocês leram.

- Dezesseis: vocês comerão sempre toda a comida que eu lhes levar, sem desperdiçar, jogar fora ou esconder uma única migalha. É um pecado desperdiçar boa comida quando tantas pessoas nesse mundo estão morrendo de fome.

- Dezessete: vocês jamais andarão pelo quarto usando apenas roupas de dormir, mesmo que seja apenas para ir da cama para o banheiro ou deste para a cama. Usarão sempre algum tipo de roupão sobre as roupas de dormir ou sobre as roupas de baixo, caso surja necessidade de saírem do banheiro sem estarem totalmente vestidos, a fim de que outra criança possa entrar numa situação de emergência. Exijo que todas as pessoas que vivem sob este teto sejam recatadas e discretas - em tudo e por todas as formas.

- Dezoito: vocês assumirão posição de "sentido" sempre que eu entrar no quarto, com os braços colados ao longo do corpo; não cerrarão os punhos em silenciosa demonstração de desafio; não cruzarão seus olhares com o meu; não procurarão demonstrar sinais de afeição para comigo; nem esperarão angariar minha amizade, piedade, amor ou compaixão. Tudo isso é impossível. Nem seu avô nem eu podemos permitir-nos sentir qualquer coisa por aquilo que não seja puro.

Ohhhh! Aquelas últimas palavras feriam de verdade! Até mesmo Christopher fez uma pausa na leitura e uma expressão de desespero lhe passou pelo rosto, logo substituída por um sorriso quando seu olhar encontrou o meu. Estendeu a mão para fazer cócegas em Carrie, provocando-lhe uma risadinha, e torceu o nariz de Cory, que também riu.

- Christopher! - exclamei, alarmada. - Pelo que a velha escreve, nossa mãe não tem esperanças de reconquistar o pai! Ele muito menos desejará olhar para nós! Por quê? O que fizemos? Não estávamos aqui no dia em que nossa mãe caiu em desgraça por ter feito algo tão horrível que levou o pai a deserdá-la! Nem mesmo tínhamos nascido! Por que nos detestam?

- Fique calma - respondeu Chris, percorrendo com os olhos a longa lista. - Não leve nada disso a sério. Ela é biruta, piradinha. Ninguém esperto como nosso avô pode admitir as idéias da sua esposa. Do contrário, como conseguiria ganhar milhões de dólares?

- Talvez ele não tenha ganho dinheiro. Pode tê-lo herdado.

- Sim, mamãe nos disse que ele herdou algum dinheiro, mas multiplicou-o por mais de cem. Portanto, deve ter um pouquinho de miolo na cabeça. Não entendo como foi escolher a Rainha das Abelhas Loucas numa árvore maluca e casar-se com ela.

Sorriu para mim e depois retomou a leitura das normas:

- Dezenove: vocês jamais olharão para mim quando eu entrar no quarto para levar leite; nunca pensarão desrespeitosamente de mim ou de seu avô, pois Deus está presente e lerá seus pensamentos. Meu marido é um homem muito decidido e raras vezes alguém conseguiu vencê-lo. Dispõe de um exército de médicos, enfermeiras e técnicos para atenderem a todas as suas necessidades, bem como de máquinas que funcionam como órgãos humanos caso estes venham a falhar. Portanto, não julguem que um motivo tão reles quanto o coração seja capaz de derrotar um homem feito de aço.

Puxa! Um homem de aço para completar o par de aparadores de livros com a esposa biruta! Os olhos dele também devem ser cinzentos. Duros, implacáveis, cor de aço - pois, como provaram papai e mamãe, coisas semelhantes se atraem.

Christopher continuou a ler:

- Vinte: vocês jamais pularão, gritarão ou falarão em voz alta, para evitar que os empregados no andar de baixo os ouçam. E sempre usarão sapatos com solas de borracha; nunca solas de couro.

- Vinte e um: vocês jamais desperdiçarão papel higiênico e sabonete. Limparão a sujeira se entupirem o vaso sanitário e este transbordar. Se enguiçarem o vaso sanitário, ele assim ficará até vocês irem embora dessa casa; passarão a utilizar os urinóis que encontrarão no sótão e sua mãe poderá limpá-los para vocês.

- Vinte e dois: os meninos lavarão as roupas na banheira, assim como as meninas. Sua mãe cuidará das roupas de cama, mesa e banho que vocês utilizarem. As colchas serão trocadas uma vez por semana, e se uma criança sujar a colcha, mandarei que sua mãe providencie lençóis de borracha para vocês. A criança que não aprender a utilizar as instalações sanitárias será severamente espancada.

Suspirei e passei o braço pelos ombros de Cory, que choramingou e agarrou-se a mim quando ouviu aquilo.

- Shhhh! Não tenha medo. Ela nunca saberá o que você fizer. Nós lhe daremos cobertura. Nós o protegeremos. Daremos um jeito de encobrir seus erros, se você cometer algum.

Chris leu:

- Conclusão: não se trata de permissões ou proibições; é apenas uma advertência. Ela escreve: "Podem presumir, com razão, que eu adicionarei novos itens à presente lista, de acordo com as necessidades que venham a surgir, pois sou muito observadora e nada me escapa. Não julguem que conseguirão iludir-me, zombar de mim ou fazer piadas às minhas custas, pois se assim pensarem o castigo que receberão será tão severo que suas peles e seus egos carregarão cicatrizes pelo resto de suas vidas, e seu orgulho tombará por terra, definitiva e permanentemente derrotado. E fiquem desde já cientes de que jamais pronunciarão na minha presença o nome de seu pai ou farão a menor referência a ele. Pessoalmente, recusar-me-ei a olhar para a criança que mais se parece com ele”.

Terminara.

Lancei a Christopher um olhar interrogativo. Se ele estava interpretando como eu aquele último parágrafo, nosso pai fora - por algum motivo - o culpado de nossa mãe ter sido deserdada e, agora, abominada por nossos avós.

O mesmo raciocínio levava à conclusão de que passaríamos um longo, longo tempo trancafiados ali.

Oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus! Eu não suportaria uma semana!

Não éramos demônios, mas, certamente, também não éramos anjos! E necessitávamos uns dos outros, para ver-nos, tocar-nos mutuamente.

- Cathy - disse meu irmão com muita calma, um sorriso irônico retorcendo-lhe os lábios, enquanto os gêmeos nos observavam atentamente, prontos a imitar-nos no pânico, na alegria ou no desespero. - Somos tão feios e desprovidos de encantos que uma velha, que obviamente detesta nossa mãe e também nosso pai, por motivos que ignoro, seja capaz de resistir-nos para sempre? Ela é uma falsa, uma fingida. Nada disso deve ser levado a sério - concluiu, apontando para a lista que dobrara e jogara sobre a mesa, onde ela caíra como um aeroplano mal-construído.

- Devemos acreditar numa velha assim, que deve ser demente e merece ser trancada num manicômio, ou devemos acreditar na mulher que nos ama, na mulher que conhecemos e em quem confiamos? Nossa mãe cuidará de nós. Ela sabe o que está fazendo; podem ter certeza disso.

Sim, naturalmente Christopher tinha razão. Devíamos confiar e acreditar em mamãe, não naquela velha louca e ríspida com suas idéias idiotas, seus olhos de tiros de espingarda, sua boca retorcida de carne cortada a faca.

Em pouco tempo o avô sucumbiria à beleza e encanto de nossa mãe; então, nós desceríamos a escada, trajando nossas melhores roupas e exibindo nossos melhores sorrisos. Ele nos avistaria, perceberia que não éramos feios nem estúpidos, mas bastante normais para que alguém gostasse um pouco - senão muito - de nós. E talvez, quem sabe, talvez algum dia ele ainda encontrasse um pouquinho de amor para dar aos netos.

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