A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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O Sótão
As dez horas da manhã chegaram e se foram.

Guardamos o que restou de nossa ração diária de comida no local mais fresco que conseguimos encontrar no quarto: embaixo da cômoda. Os criados que faziam as camas e arrumavam os quartos do andar superior das outras alas já deviam ter descido para o térreo e não voltariam àquele andar durante mais vinte e quatro horas.

Naturalmente, já estávamos cansados de nosso quarto e ansiosos por explorar os limites exteriores de nossos acanhados domínios. Christopher e eu pegamos, cada um, a mão de um dos gêmeos e nos encaminhamos silenciosamente para o armário embutido onde estavam nossas duas malas, com todas as nossas roupas ainda dentro delas. Esperaríamos para desfazer as bagagens. Quando tivéssemos alojamentos mais espaçosos e agradáveis, os criados desfariam as malas - como sempre acontece nos filmes - enquanto nós iríamos brincar ao ar livre. Na verdade, nem mesmo estaríamos naquele quarto quando os criados viessem limpá-lo e arrumá-lo na última sexta-feira do mês. A essa altura, já estaríamos livres.

Com meu irmão mais velho à frente, segurando a mão de nosso irmão mais moço, a fim de evitar que tropeçasse ou caísse, segui nos calcanhares de Cory, com Carrie agarrada à minha mão, subindo os degraus escuros, estreitos e íngremes. As paredes da passagem eram tão estreitas que nossos ombros quase roçavam nelas.

E lá estava!

Eu já vira sótãos anteriormente. Quem não os vira? Mas nunca um sótão como aquele!

Permanecemos pregados ao chão, olhando em volta, incrédulos. Enorme, obscuro, sujo, empoeirado, aquele sótão se estendia por quilômetros! As paredes opostas estavam tão distantes que pareciam difusas, fora de foco. O ar não era limpo, mas denso; tinha um cheiro próprio, um desagradável odor de podridão, de velhos objetos carcomidos, de coisas mortas e desenterradas; uma vez que estava enevoado de poeira, tudo dava a impressão de se mexer e tremer - em especial, nos cantos mais escuros.

Quatro conjuntos de janelas de água-furtada davam para a fachada principal e quatro para os fundos. As partes laterais, ou o que conseguíamos avistar delas, não tinham janelas - mas existiam alas que não poderíamos enxergar a menos que ousássemos avançar e tivéssemos coragem de enfrentar o calor abafado que ali reinava.

Como uma só pessoa, avançamos passo a passo, afastando-nos da escada.

O assoalho era de largas pranchas de madeira, macias e apodrecidas. À medida que avançávamos cautelosamente, temerosos, pequenas criaturas corriam pelo chão, fugindo em todas as direções. No sótão estavam armazenados móveis suficientes para mobiliar várias casas. Mobília maciça e escura, urinóis, jarras em grandes bacias - cerca de vinte ou trinta conjuntos desse tipo. E havia também uma coisa redonda que parecia uma banheira com reforços de aço. Imaginem - guardar uma banheira como aquela!

Tudo que parecia ter valor estava protegido por capas sobre as quais a poeira se acumulara, dando-lhes uma coloração suja, acinzentada. E os objetos protegidos por capas causavam-me arrepios na espinha, pois eu via neles esquisitos e sobrenaturais fantasmas de móveis, sussurrando incessantemente. E não queira escutar o que diziam.

Dúzias de velhos baús reforçados com pesadas cantoneiras e trincos de bronze enfileiravam-se ao longo de toda uma parede, cada um deles coberto de variadas etiquetas de viagem. Deveriam ter dado volta ao mundo mais de uma vez. Baús enormes, que poderiam servir de caixões funerários.

Armários gigantescos guarneciam, numa fila silenciosa, a parede oposta. Quando fomos verificar, vimos que cada um deles estava cheio de roupas antigas. Encontramos uniformes do tempo da Guerra Civil, tanto da União como da Confederação, dando a Christopher e eu muito sobre o que especular, enquanto os gêmeos se encolhiam a nós e observavam tudo com os olhos muito abertos e amedrontados.

- Christopher, acha que nossos ancestrais foram tão indecisos durante a Guerra Civil que nem sabiam de que lado estavam?

- A Guerra entre os Estados soa melhor - replicou ele.

- Acha que eram espiões?

- Como posso saber?

Segredos, segredos - por toda parte! Imaginei irmão lutando contra irmão - oh, como seria divertido descobrir! Se ao menos encontrássemos diários!

- Olhe aqui - disse Christopher, puxando um terno masculino de lã cor de creme, com lapelas de veludo marrom e elegantes divisas de cetim marrom mais escuro.

Sacudiu a roupa. Repugnantes criaturas aladas esvoaçaram em todas as direções, a despeito do fedor de naftalina.

Soltei um grito, imitado por Carrie.

- Não sejam tão bobas - advertiu Christopher, sem se deixar perturbar pelos insetos. - O que vocês viram são cupins, cupins inofensivos. Os buracos são feitos pelo roer das larvas.

Para mim, não fazia diferença! Insetos eram insetos - larvas ou adultos. De todo modo, eu não sabia por que motivo aquela maldita roupa o interessara tanto. Por que precisávamos examinar a braguilha, a fim de sabermos se os homens daquela época usavam zípers ou botões?

- Puxa! - exclamou Christopher, finalmente perturbado. - Que dificuldade abrir esses botões todas às vezes!

Foi essa a opinião de meu irmão.

Na minha opinião, as pessoas de antigamente sabiam realmente como vestir-se! Como eu adoraria rodopiar numa blusa de babados, com uma saia rodada sobre pantalonas e dúzias de anáguas com armação de arame, toda enfeitada com pregas, rendas, bordados, esvoaçantes fitas de veludo ou cetim; sapatos de cetim; e, completando o fino traje, uma sombrinha de renda para proteger-me os cachos louros e a pele lisa, clara e sem máculas. Traria também um leque, para refrescar-me com gestos elegantes, e bateria as pálpebras com olhares sedutores. Oh, que beleza eu seria!

Carrie, até então impressionada com o imenso sótão, soltou um berro que me arrancou das doces especulações, trazendo-me de volta ao presente - que eu tanto detestava.

- Está quente aqui, Cathy!

- Está, sim.

- Detesto isso aqui, Cathy!

Lancei um olhar a Cory, cujo rosto miúdo denotava perplexidade ao observar o ambiente, agarrando-se a mim. Peguei uma das mãos de cada um deles e deixei para trás a fascinação das velhas roupas, partindo em busca das outras curiosidades que o sótão tinha a oferecer-nos. E não eram poucas. Milhares de livros arrumados em pilhas, velhos cadernos de registros contábeis, escrivaninhas, dois pianos tipo armário, rádios, fonógrafos, caixas de papelão cheias com os atavios indesejáveis de gerações desaparecidas. Moldes e manequins de todos os tamanhos e formatos, gaiolas de pássaros e seus respectivos suportes, pás e enxadas, retratos emoldurados de pessoas com peculiar aparência pálida e doentia, que presumi serem nossos parentes já falecidos. Alguns tinham cabelos claros, outros escuros; todos possuíam olhos penetrantes, cruéis, duros, amargos, tristes, sonhadores, ansiosos, desesperançados, vazios - mas não encontrei um só olhar feliz. Alguns sorriam. Outros não. A maior parte não sorria.

Senti-me particularmente atraída por uma bela jovem com cerca de dezoito anos; exibia um leve sorriso enigmático que me lembrava Mona Lisa, só que era mais bonita. O colo se projetava de um corpete pregueado, de forma deveras impressionante, fazendo Christopher apontar para um dos manequins e declarar enfaticamente:

- Dela!

Olhei. Chris prosseguiu com evidente admiração:



- Ora, aquilo é o que se chama de "formas de ampulheta". Está vendo a cintura fina, os quadris cheios e arredondados, o busto volumoso! Herde um corpo como aquele, Cathy, e ficará milionária!

- Francamente! - repliquei, - repugnada. - Você não entende dessas coisas. Aquelas não são as formas naturais da mulher. Está usando um espartilho, apertado na cintura de modo a empurrar a maior parte da carne para cima, no busto, e para baixo, nos quadris. E é exatamente o motivo pelo qual as mulheres desmaiavam com tanta freqüência e precisava cheirar sais.

- Como é possível desmaiar e, ao mesmo tempo, pedir sais para cheirar? - indagou ele, sarcástico. - Além disso, é impossível apertar para cima o que não existe.

Lançou um olhar à voluptuosa jovem e comentou:

- Sabe, ela se parece um pouco com mamãe... Se usasse o cabelo diferente e roupas mais modernas... seria mamãe.

Hah! Nossa mãe era por demais sensata para enfiar-se numa gaiola enfeitada com fitinhas e sofrer.

- Contudo, essa moça é apenas bonita - concluiu Christopher. - Nossa mãe é linda!

O silêncio naquele espaço imenso era tão profundo que eu podia ouvir as batidas do meu coração. Não obstante, seria divertido explorar cada baú; examinar o conteúdo de cada caixa; experimentar todas aquelas roupas apodrecidas, fedorentas, mas elegantes - e fingir, fingir, fingir! Mas estava tão quente! Tão abafado! Tão irrespirável! Meus pulmões já pareciam entupidos de poeira, sujeira e ar contaminado. Não apenas isso: teias de aranha bloqueavam os cantos e pendiam das vigas; criaturas rastejantes ou furtivas percorriam o chão ou subiam pelas paredes. Muito embora não os visse, pensei em ratos e camundongos. Certa vez, assistíramos a um filme na TV em que um homem enlouqueceu e enforcou-se numa viga do sótão. E, noutro filme, um homem enfiou a esposa num baú reforçado com cantoneiras e trinco de bronze, fechou a tampa e deixou-a morrer lá dentro. Olhei mais uma vez para os baús, tentando adivinhar que segredos guardariam eles que os criados ignoravam.

Desconcertante, o modo como meu irmão observava minhas reações. Virei-me, a fim de ocultar meus sentimentos - mas ele percebeu. Aproximou-se, tomou-me a mão e disse de maneira muito semelhante à de papai:

- Tudo vai dar certo, Cathy. Deve haver explicações muito simples para tudo que nos parece tão complexo e misterioso.

Voltei-me vagarosamente para encará-lo, surpresa por ele ter vindo reconfortar-me e não me provocar.

- Por que supõe que a avó também nos deteste? Por que o avô nos detesta? O que nós fizemos?

Ele sacudiu os ombros, tão intrigado quanto eu, e ainda segurando minha mão, girou comigo para olhar mais uma vez o sótão. Mesmo nossos olhos destreinados podiam perceber onde novas seções tinham sido adicionadas à velha casa. Grossas colunas verticais de madeira de seção quadrada dividiam o sótão em setores distintos. Tive a impressão de que, se procurássemos metodicamente, chegaríamos a um local confortável, onde nos seria possível respirar ar fresco.

Os gêmeos começavam a tossir e espirrar. Fixavam em nós olhares magoados por obrigá-los a permanecer num lugar que detestavam.

- Agora, escutem - disse Christopher, quando eles começaram realmente a reclamar. - Podemos abrir as janelas uns poucos centímetros, o bastante para deixar entrar um pouco de ar fresco sem que ninguém repare nas aberturas.

Então, soltou minha mão e correu à nossa frente, pulando por sobre caixas, baús e móveis, exibindo-se, enquanto eu permanecia pregada ao chão, segurando as mãos dos dois menores, que continuavam apavorados por se encontrarem naquele lugar.

- Venham ver o que encontrei! - chamou Christopher, de algum ponto onde não conseguíamos vê-lo, com a voz vibrante de excitação. - Esperem até ver minha descoberta!

Corremos, ansiosos por vermos algo excitante, maravilhoso, divertido – mas tudo que Christopher tinha para mostrar-nos era uma sala: uma sala de verdade, com paredes de alvenaria. Nunca fora pintada, mas tinha forro no teto, ao invés de apenas vigas. Parecia uma sala de aulas, com cinco carteiras de alunos de frente para uma grande mesa. Três das paredes eram forradas com quadros-negros acima de baixas estantes cheias de livros desbotados e empoeirados. O perpétuo caçador de qualquer tipo de conhecimento que era meu irmão mais velho teve que inspecioná-los imediatamente, engatinhando pelo chão e lendo em voz alta os títulos. Livros eram o suficiente para lançá-lo numa tangente, sabendo que encontrara um meio de fugir às palavras.

Fui atraída pelas pequenas carteiras dos alunos, onde estavam gravados nomes e datas como "Jonathan, 11 anos, 1864"! e "Adelaide, 9 anos, 1879"! Oh, como era antiga aquela casa! A essa altura, já existiria poeira em seus túmulos, mas os nomes haviam permanecido para fazer-nos saber que, outrora, eles também tinham sido mandados para o sótão. Contudo, por que os pais obrigariam seus filhos a estudarem num sótão? Tratava-se, certamente, de filhos queridos - ao contrário de nós, que éramos detestados pelos avós. Talvez, para eles as janelas fossem escancaradas. E para eles os criados trouxessem ao sótão carvão ou lenha para queimar nos dois fogões que víamos nos cantos.

Um velho cavalo de balanço, sem um dos olhos cor-de-âmbar, mal se agüentava em equilíbrio e a cauda amarela embaraçada era digna de pena. Mas o velho e desmantelado cavalinho branco de pintas negras foi o bastante para arrancar de Cory um brado de deleite. Subiu de imediato para a descascada sela vermelha, gritando:

- Galopa, cavalinho!

E o cavalinho, que não era montado há tantos anos, começou a galopar, rangendo, estalando, protestando com cada junta enferrujada.

- Também quero andar a cavalo! - berrou Carrie. - Cadê meu cavalo?

Corri para colocar Carrie na garupa de Cory, de modo que ela pudesse agarrar-se na cintura do irmão, rir e bater com os calcanhares a fim de obrigar o dilapidado animal a galopar mais depressa. Foi um milagre o pobre cavalo não se desmontar em questão de segundos.

Agora, tive oportunidade de examinar os livros que haviam encantado Christopher. Estiquei a mão a esmo e peguei um deles, sem ler o título. Virei rapidamente as páginas e legiões de insetos achatados, com pernas de centopéia, fugiram em todas as direções! Larguei o livro - e depois fitei as páginas soltas que se tinham espalhado. Eu detestava insetos: aranhas sobretudo, depois vermes. E os que brotaram daquelas páginas pareciam consistir de uma mescla de ambos.

Tal comportamento infantil e feminino foi o bastante para deixar Christopher histérico de riso. Quando se acalmou, classificou-me de melindrosa exagerada. Os gêmeos sofrearam seu fogoso corcel e fitaram-me perplexos. Fui obrigada a recobrar depressa a pose e até mesmo fingir que as mães não soltam gritinhos ao depararem com alguns insetos.

- Cathy, você tem doze anos; já é tempo de crescer. Ninguém grita só por ver algumas traças nos livros. Os insetos são parte integrante da vida. Nós, seres humanos, somos os senhores que reinam, supremos, sobre o resto da natureza. Essa sala até que não é má: bastante espaço, boa quantidade de janelas grandes, muitos livros e até mesmo alguns brinquedos para os gêmeos.

Sim. Uma velha carroça enferrujada, com um varal quebrado e sem uma roda - ótimo! Uma velha motocicleta verde, quebrada também - sensacional! Não obstante, lá estava Christopher, olhando ao redor e expressando sua satisfação por haver encontrado uma sala onde as pessoas ocultavam os filhos de modo a não vê-los, não ouvi-los e talvez mesmo nem pensar neles. E meu irmão a considerava uma sala cheia de possibilidades...

Naturalmente, alguém poderia limpar todos os cantos escuros onde se abrigavam os horripilantes insetos, e espargir tudo com repelente de modo que nenhum deles sobrasse para ser esmagado com os pés. Mas como esmagar a avó, ou o avô? Como transformar uma sala de sótão num paraíso onde as plantas desabrochassem em flor - e não apenas uma prisão como o quarto no segundo andar?

Corri para as janelas de água-furtada e trepei numa caixa para alcançar o elevado parapeito. Desejava desesperadamente ver o solo, medir a altura em que nos encontrávamos acima dele, calcular quantos ossos quebraríamos se saltássemos dali. Ansiava por avistar as árvores, o capim onde cresciam as flores, onde o sol brilhava, onde os pássaros voavam, onde havia vida. Todavia, só consegui ver o inclinado telhado de ardósia escura, que se estendia até bem longe da janela, bloqueando a vista do solo. Além do telhado, estavam os topos das árvores; além das árvores, as montanhas nos cercavam, parecendo pairar acima da névoa azulada.

Christopher subiu para o parapeito, ficando a meu lado. Seu ombro, roçando no meu, tremia como sua voz ao dizer baixinho:

- Ainda podemos ver o céu, o sol e, à noite, veremos a lua e as estrelas, E as aves e aviões que passem voando. Podemos observá-los, como diversão, até o dia em que não tornarmos a subir aqui.

Parou, aparentemente recordando a noite em que havíamos chegado – seria mesmo a noite anterior?

- Aposto que se deixarmos uma janela aberta por algum tempo, uma coruja será capaz de entrar. Sempre desejei ter uma coruja como mascote.

- Pelo amor de Deus! Por que haveria de querer um animal como aquele?

- As corujas conseguem dar uma volta inteira com a cabeça. Você consegue?

- Nem quero conseguir.

- Mesmo que quisesse, não conseguiria.

- Ora, nem você! - explodi, querendo obrigá-lo a encarar a realidade, como ele insistia em fazer comigo. Nenhuma ave esperta como a coruja haveria de querer ficar trancada conosco por um minuto que fosse.

- Quero uma pipa - declarou Carrie, esticando os braços a fim de ser içada a um local de onde também pudesse enxergar lá fora.

- Quero um cachorrinho - disse Cory, antes de olhar pela janela. Então, esqueceu imediatamente os mascotes, pois começou a cantarolar: - Lá fora, lá fora, Cory quer ir lá fora! Cory quer brincar no jardim! Cory quer um balanço!

Carrie não se demorou a imitá-lo. Também queria ir lá fora, para o jardim, brincar nos balanços. E, com sua voz forte, era muito mais persistente em seus desejos que o pobre Cory.

Agora, ambos estavam quase empurrando Christopher e eu pela parede acima, exigindo ir lá fora, lá fora, lá fora!

- Por que não podemos ir lá fora? - berrou Carrie, cerrando os punhos e esmurrando-me o peito. - Nós não gostamos daqui! Cadê mamãe? Cadê o sol? Para onde foram as flores? Por que faz tanto calor?

- Ouçam! - interrompeu Christopher, agarrando-lhe os pulsos e salvando-me de ficar coberta de equimoses. - Pensem nesse lugar como se fosse lá fora. Não há motivo para não balançarem aqui, como num jardim. Cathy, vamos procurar por aí e ver se achamos alguma corda.

Procuramos. E encontramos corda num velho baú que continha todos os tipos de quinquilharias. Era bastante óbvio que os Foxworth não jogavam coisa alguma fora: armazenavam o lixo no sótão. Talvez temessem ficar pobres algum dia e necessitar de uma hora para outra do que guardavam com tanta avareza.

Meu irmão mais velho trabalhou com muita diligência na fabricação de balanços para Cory e Carrie, pois quando temos gêmeos, nunca devemos lhes dar apenas um exemplar de coisa alguma, mas sempre um par. Como assentos para os balanços, utilizamos tábuas arrancadas da tampa de um baú. Christopher encontrou uma lixa e aparou as farpas das arestas. Enquanto ele fazia tal serviço, dei busca no sótão até encontrar uma velha escada com alguns degraus faltando, fato que não impediu Christopher de alcançar rapidamente as elevadas vigas que sustentavam o telhado.

Observei-o trepar com agilidade e movimentar-se lá em cima, rastejando com a maior naturalidade sobre as vigas quando cada gesto que fazia colocava-lhe a vida em perigo! Ficou em pé sobre uma viga para exibir seus dons de equilibrista. Balançou repentinamente, perdendo o equilíbrio! Reequilibrou-se depressa, abrindo os braços, mas meu coração deu um salto. Fiquei apavorada de vê-lo correr tanto perigo, arriscando a vida só para exibir-se! Nem mesmo um adulto conseguiria obrigá-lo a descer de lá. Ordenei-lhe que voltasse para o chão, mas ele riu e passou a fazer manobras ainda mais arriscadas. Portanto, calei-me e fechei os olhos, procurando apagar as visões em que ele tombava no espaço, chocando-se no chão para quebrar os braços, as pernas e - ainda pior - a espinha e o pescoço! E ele não precisava fazer aquilo. Eu sabia que era corajoso. Já dera nós firmes nas cordas dos balanços; portanto, por que não descia logo e dava-me ao coração uma oportunidade de voltar a bater em ritmo normal?

Christopher levara horas para fabricar os balanços e, agora, arriscava o pescoço para pendurá-los. Então, ele desceu e os gêmeos foram sentados nos balanços, movimentando-se para frente e para trás, revolvendo o ar empoeirado. Deram-se por satisfeitos durante... talvez... três minutos.

Então, tudo recomeçou.

Carne berrou:

- Tirem-me daqui! Não gosto desses balanços! Não gosto daqui! Esse lugar é ruim!

Mal seus berros cessaram, foi a vez de Cory:

- Lá fora, lá fora, queremos ir lá fora! Vamos para fora! Lá fora!

E Carne passou a imitá-lo. Paciência... Eu precisava ter paciência, grande autocontrole, agir como adulta, não berrar só porque desejava tanto quanto eles ir lá para fora.

- Agora, parem com esse barulho! - ralhou Christopher com os gêmeos. - Estamos jogando e todos os jogos têm suas regras. A regra principal desse jogo é permanecermos aqui dentro e ficarmos o mais quietos possível. Berrar e gritar é proibido.

Suavizou um pouco o tom de voz ao olhar para os rostinhos lacrimosos e sujos que o fitavam.

- Façam de conta que isso é o jardim sob um lindo céu azul, com as folhagens das árvores lá em cima e o sol brilhando no alto. E quando descermos para o andar abaixo, aquele quarto será nossa grande casa, com muitos quartos.

Lançou-nos a todos um sorriso espirituoso, que nos desarmou.

- Quando formos ricos como Rockefeller, nunca mais precisaremos voltar a esse sótão ou àquele quarto no andar de baixo. Viveremos como príncipes e princesas.

- Acha que os Foxworth têm tanto dinheiro quanto os Rockefeller? - indaguei incrédula.

Puxa vida! Poderíamos ter de tudo! Ainda assim... ainda assim, sentia-me terrivelmente perturbada... aquela avó, algo a respeito dela, o modo como nos tratava - como se não tivéssemos o direito de estar vivos.

E as coisas horríveis que ela nos dissera: "Estão aqui, mas, na verdade, não existem".

Vagamos pelo sótão, explorando indiferentemente isso e aquilo, até que o estômago de alguém roncou. Olhei meu relógio de pulso. Duas horas. Meu irmão mais velho lançou-me um olhar quando fitei os gêmeos. Devia ter sido o estômago de um deles, pois embora comessem tão pouco, seus aparelhos digestivos estavam automaticamente regulados para o café da manhã às sete horas, o almoço ao meio-dia, o jantar às cinco e um lanche às sete, antes de irem para a cama.

- Hora do almoço - anunciei alegremente.

Descemos a escada em fila indiana, voltando ao detestável quarto mal iluminado. Se ao menos pudéssemos abrir as cortinas para deixar entrar um pouco de luz e animação. Se ao menos...

Eu poderia ter pensado em voz alta, pois Christopher teve percepção suficiente para dizer que mesmo que as cortinas fossem escancaradas o quarto era voltado para o norte e a luz do sol jamais penetraria nele.

Oh, Deus! E aqueles limpadores de chaminés refletidos nos espelhos! Pareciam saídos das páginas de Mary Poppins - uma comparação que, feita em voz alta, trouxe sorrisos aos rostos sujos dos gêmeos. Adoravam ser comparados aos personagens encantados que viviam no seu tipo de livros ilustrados.

Uma vez que, desde os primeiros dias de vida, tínhamos sido ensinados a jamais nos sentarmos à mesa para comer se não estivéssemos escrupulosa e imaculadamente limpos, e já que Deus mantinha pregado em nós Seu olhar penetrante, obedeceríamos todas as regras e procuraríamos agradá-lo. Ora, Deus não se sentiria realmente ofendido se puséssemos Carrie e Cory juntos na mesma banheira - pois tinham crescido juntos no mesmo útero, não é mesmo? Christopher encarregou-se de Cory e eu ensaboei e enxagüei Carrie. Em seguida, vesti-a, escovei-lhe os cabelos sedosos até brilharem e enrolei-os com os dedos até ficarem espiralados em belos cachos. Dando o toque final, atei-os com um laço de cetim verde.

Por outro lado, também não faria mal a ninguém se Christopher conversasse comigo enquanto eu tomava banho. Não éramos adultos - ainda. Portanto, não era o mesmo que "usarmos” juntos o banheiro. Papai e mamãe nada viam de errado na pele nua. Todavia, ao lavar o rosto, a lembrança da expressão severa e intransigente da avó surgiu-me aos olhos. Ela acharia errado.

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