A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



Baixar 1.32 Mb.
Página7/33
Encontro29.07.2016
Tamanho1.32 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   33

- Não podemos fazer isso novamente - disse eu a Cristopher. - Aquela avó... ela poderia pegar-nos e, depois, pensar que foi maldade nossa.

Ele meneou a cabeça, como se não fizesse muita diferença. Deve ter visto algo em minha expressão que o levou a avançar para a banheira, de modo a poder abraçar-me.

Como adivinhou que eu estava necessitada de ombro no qual chorar? Foi o que fiz.

- Cathy - sussurrou, enquanto eu soluçava com o rosto enterrado em seu ombro. - Pense sempre no futuro e em tudo que teremos quando ficarmos ricos. Sempre desejei ser podre de rico para viver como playboy durante algum tempo - pouco tempo - pois papai dizia que todos devem contribuir com algo útil e significativo para a humanidade, e eu gostaria de fazê-lo. Todavia, antes de ir pata a universidade e cursar a Faculdade de Medicina, eu podia divertir-me um pouco, até começar a levar as coisas realmente a sério.

- Oh, percebo que você quer fazer tudo que um sujeito pobre não conseguiria. Bem, se é isso que deseja, vá em frente. Eu, porém, só quero um cavalo. Toda a minha vida sempre quis ter um pônei e nunca moramos numa casa com lugar suficiente para ter um cavalinho. Agora, estou crescida demais para um pônei, de modo que terá de ser um cavalo. E, naturalmente, durante todo o tempo eu estarei dando duro para ganhar fama e fortuna como a melhor bailarina, a grande prima bailarina do mundo inteiro. E você bem sabe que as bailarinas precisam comer muito, para não se transformarem num monte de pele e ossos, de modo que comerei cinco litros de sorvete por dia. E um dia comerei apenas queijo, todas as espécies existentes de queijo, espalhadas em bolachas. Depois, vou querer muitas, muitas roupas novas: um traje para cada dia do ano. Usarei cada um deles apenas uma vez e o darei de presente. Então, ficarei sentada, comendo queijo com bolachas, acompanhado de sorvete. E gastarei as banhas dançando.

Ele me acariciava as costas molhadas. Quando virei o rosto para ver seu perfil, parecia sonhador, pensativo.

- Ouça, Cathy: o curto período que seremos obrigados a passar trancados aqui não será tão ruim. Nem teremos tempo para nos sentirmos deprimidos, pois estaremos ocupados em imaginar maneiras de gastarmos todo o nosso dinheiro. Vamos pedir a mamãe que nos traga um jogo de xadrez. Sempre desejei aprender a jogar xadrez. E poderemos ler; ler é quase tão bom como fazer. Mamãe não permitirá que nos entediemos; trará novos jogos e inventará coisas para fazermos. Essa semana passará num piscar de olhos.

Presenteou-me com um sorriso brilhante:

- E, por favor, pare de me chamar de Christopher! Já não posso mais ser confundido com papai, de modo que daqui por diante serei apenas Chris. Está bem?

- Está bem, Chris - respondi. - Mas a avó... o que você imagina que ela fará se nos pegar juntos no banheiro?

- Um escândalo dos infernos... e só Deus sabe o que mais.

Não obstante, quando saí da banheira e passei a enxugar-me, comecei a dizer a Chris que não espiasse. Contudo, ele não estava olhando para mim. Vendo-nos mutuamente despidos desde que nos lembrávamos, conhecíamos bem nossos corpos. E, na minha opinião, o meu era mais bonito: mais harmonioso.

Todos usando roupas limpas e cheirando bem, sentamo-nos à mesa para comer nossos sanduíches de presunto e tomar a sopa de legumes morna que estava na garrafa térmica menor. E tínhamos mais leite para beber. Almoçar sem doces foi horrível.

Chris não parava de consultar furtivamente o relógio. Poderia passar-se muito, muito tempo antes que nossa mãe aparecesse. Os gêmeos andavam inquietos de um lado para outro após terminarmos o almoço. Irritados, expressavam o descontentamento com as coisas desferindo-lhes pontapés e, a intervalos, lançando olhares carrancudos a Chris e eu.

Chris encaminhou-se ao armário, tencionando subir para o sótão e ir à sala de aulas buscar livros. Fiz menção de acompanhá-lo.

- Não! - gritou Carrie. - Não subam para o sótão! Não gosto de lá! Não gosto daqui! Não gosto de nada! Não gosto que você seja minha mamãe, Cathy! Cadê minha mamãe de verdade? Aonde ela foi? Diga a ela para voltar e nos deixar brincar na caixa de areia!

Correu para a porta do corredor, girou a maçaneta e começou a guinchar como um animal aterrorizado quando a porta não se abriu. Bateu desvairadamente com os minúsculos punhos nas sólidas tábuas de carvalho, enquanto gritava por mamãe, pedindo-lhe que viesse buscá-la e levá-la para fora daquele quarto escuro!

Corri para tomá-la nos braços, enquanto ela esperneava e continuava a gritar. Era como segurar uma gata do mato. Chris agarrou Cory, que correra em socorro da irmã gêmea. Tudo que pudemos fazer foi colocá-los numa das grandes camas, tirar da mala seus livros de estórias ilustradas e sugerir que cochilassem um pouco. Lacrimosos e revoltados, ambos nos fitavam raivosamente.

- Já é de noite? - choramingou Carrie, rouca de tanto gritar inutilmente por liberdade e chamar uma mãe que não atendia. - Quero tanto a minha mamãe! Por que ela não vem?

- Pedro Coelho - repliquei, pegando o livro de estórias preferido de Cory, com ilustrações coloridas em todas as páginas, fato que, por si, era suficiente para torná-lo um grande livro. Livros ruins não tinham ilustrações. Carrie gostava de Os Três Porquinhos, mas Chris era obrigado a lê-lo como papai, fazendo uma sonoplastia completa e imitando a voz grossa do lobo. E eu não sabia se ele conseguiria.

- Por favor, deixem Chris ir ao sótão apanhar um livro para ele. Enquanto isso, eu lerei Pedro Coelho para vocês. Veremos se Pedro conseguirá entrar na horta da fazenda essa noite e comer uma porção de cenouras. Se vocês adormecerem enquanto eu estiver lendo, a estória terminará nos seus sonhos.

Passaram-se talvez cinco minutos antes que os gêmeos adormecessem. Cory segurava o livro de encontro ao peito, a fim de facilitar o mais possível a passagem de Pedro Coelho para os seus sonhos. Uma sensação suave e cálida me dominou, fazendo-me o coração sangrar pelos pequeninos que realmente necessitavam de uma mãe adulta e não com apenas doze anos de idade. Eu não me sentia muito diferente do que quando tinha dez anos. Se a condição de mulher adulta estava logo além da esquina, ainda não aparecera para me fazer sentir madura e capaz. Graças a Deus, nossa permanência ali seria curta, do contrário o que haveria eu de fazer se os gêmeos adoecessem? O que aconteceria se ocorresse um acidente, uma queda, um osso fraturado? Se eu batesse com força na porta trancada, a desprezível avó acorreria ao chamado? Não havia telefone no quarto. Se eu clamasse por socorro, quem ouviria minha voz daquela ala remota e proibida da casa?

Enquanto eu tremia, ansiosa, Chris estava na sala de aulas do sótão, escolhendo uma pilha de livros empoeirados e cheios de traças para trazer ao quarto, a fim de termos o que ler. Trouxéramos um tabuleiro de damas e era isso que eu queria jogar - em vez de enfiar o nariz num livro velho.

- Tome - disse ele, colocando-me nas mãos um velho livro e explicando que o limpara cuidadosamente de todas as traças que poderiam lançar-me novamente num estado de histeria. - Vamos deixar as damas para mais tarde, quando os gêmeos estiverem acordados. Você bem sabe como reclama quando perde.

Sentou-se numa confortável poltrona, passando a perna por cima do braço estofado, e abriu Tom Sawyer. Deitei-me na única cama desocupada e comecei a ler a respeito do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. E, por incrível que pareça, naquele dia abriu-se para mim uma porta de cuja existência eu nem suspeitava; um mundo maravilhoso, onde florescia a cavalaria, existia amor romântico, e lindas donzelas eram colocadas em pedestais e adoradas a distância. Naquele dia, iniciou-se para mim um caso de amor com a Era Medieval - um amor que nunca mais teve fim. Afinal, não eram quase todos os balés baseados nos contos de fadas? E todos os contos de fadas não eram extraídos do folclore medieval?

Eu era o tipo de criança que procurava fadas dançando nos gramados, que desejava acreditar em feiticeiras, magos, duendes, ogres, gigantes e encantamentos. Não queria ver toda a magia do mundo eliminada pela explicação científica. Naquela época, ainda não sabia que a mansão para onde nossa mãe nos trouxera era virtualmente uma fortaleza sombria, na qual imperavam uma bruxa e um ogre. Nem imaginava que os magos modernos eram capazes de tecer teias de dinheiro para criar feitiços...

À medida que a luz do dia esmaecia por detrás das pesadas cortinas cerradas, sentamo-nos à nossa mesinha para fazer uma refeição de galinha frita (fria) e salada de batatas (morna) com ervilhas (frias e engorduradas). Pelo menos, Chris e eu comemos a maior parte de nossa comida, por fria e pouco apetitosa que fosse. Os gêmeos, porém, limitaram-se a beliscar, reclamando o tempo todo que a comida estava ruim. Tive a impressão de que se Carrie reclamasse menos Cory teria comido mais.

Chris entregou-me uma laranja para descascar, dizendo:

- Laranjas não são esquisitas, nem servidas quentes. Na verdade, as laranjas são sol liquefeito.

Rapaz! Como ele sabia dizer as coisas certas na hora adequada! Agora, os gêmeos tinham algo que poderiam comer com prazer: sol liquefeito.

Embora já fosse noite, não havia muita diferença em relação ao dia que passara. Acendemos os quatro abajures e mais uma pequenina lâmpada cor-de-rosa, de cabeceira, que mamãe trouxera porque os gêmeos não gostavam de dormir no escuro.

Depois que os gêmeos tiraram o cochilo de costume, tornamos a vesti-los com as roupas limpa, escovamos-lhes os cabelos e lavamos-lhes os rostos, de modo que estavam lindos ao se sentarem no chão e começarem a montar as peças de um quebra-cabeças. Eram quebra-cabeças antigos e eles conheciam exatamente as peças que se encaixavam entre si; não se tratava propriamente de um jogo, mas de uma corrida para ver quem achava o maior número de peças no menor tempo possível. Logo a corrida para encaixar as peças cansou os gêmeos, de modo que fomos todos para uma das camas, onde Chris e eu contamos estórias que íamos inventando na hora. Isto também não demorou a cansar os gêmeos, embora meu irmão e eu fôssemos capazes de prosseguir, competindo para ver quem tinha mais imaginação. Em seguida, tiramos da mala os pequenos carros e caminhões, de modo que os gêmeos pudessem engatinhar pelo chão, empurrando veículos de Nova York a São Francisco por um itinerário que passava por debaixo das camas e por entre as pernas da mesa. Num piscar de olhos, estavam sujos outra vez. Quando cansamos daquilo, Chris sugeriu que jogássemos damas, enquanto os gêmeos podiam transportar cascas de laranja em seus caminhões e descarregá-las na Flórida - que era a cesta de lixo no canto da parede.

- Pode jogar com as vermelhas - disse Chris em tom condescendente. - Não acredito, como você, que as pretas sejam peças perdedoras.

Franzi a testa, amuando-me. Tinha a impressão de que se passara uma eternidade entre o amanhecer e o anoitecer - o bastante para mudar-me a ponto de jamais voltar a ser o que fora antes.

- Não quero jogar damas! - declarei numa voz malcriada.

Deixei-me cair numa das camas e desisti de lutar para impedir que minhas idéias vagassem por tortuosos becos de sombrios temores e suspeitas, de dúvidas insidiosas e incômodas, sempre a imaginar se mamãe nos contara toda a verdade. E, enquanto aguardávamos interminavelmente a chegada de mamãe, não houve calamidade que não me passasse pela mente. Principalmente incêndio. O sótão era povoado de fantasmas, monstros e outros espectros. Naquele quarto trancado, porém, a maior ameaça era o fogo.

E o tempo custava a passar. Chris, sentado na poltrona com seu livro, não parava de consultar disfarçadamente o relógio. Os gêmeos engatinhavam até a Flórida, descarregavam as cascas de laranja e, de repente, ficaram sem saber para onde ir. Não havia oceanos a cruzar, pois não tínhamos trazido os barquinhos. Por que não trouxéramos os barcos?

Lancei um olhar aos quadros que descreviam o inferno e todos os seus tormentos, admirando-me de quanto a avó era cruel e esperta. Por que tinha ela que pensar em tudo? Não era justo que Deus mantivesse o olhar vigilante pregado em quatro crianças, quando lá fora, no mundo, havia tanta gente fazendo pior. No lugar de Deus, com Sua perspectiva de visão total, eu não perderia tempo vigiando quatro crianças órfãs de pai trancafiadas num quarto; ocupar-me-ia em observar coisas muito mais interessantes. Além disso, papai estava no céu – ele faria Deus cuidar de nós e perdoar-nos alguns pequenos erros.

Ignorando minha atitude de amuo e minhas objeções, Chris deixou o livro de lado e foi buscar a caixa de jogos, que continha apetrechos suficientes para quarenta jogos diversos.

- O que há com você? - indagou ele, começando a arrumar as peças redondas, vermelhas e pretas, no tabuleiro de damas. - Por que está tão calada e temerosa? Tem medo de perder outra vez?

Jogos! Eu não estava pensando em jogos. Relatei-lhe o que pensara sobre um incêndio e minha idéia de rasgar os lençóis em tiras para fazer uma espécie de escada de cordas que alcançasse o solo, como costumávamos ver nos filmes antigos. Então, se houvesse um incêndio - talvez naquela mesma noite, quem sabe? - teríamos um meio de chegar ao solo se quebrássemos uma janela e cada um atasse às costas um dos gêmeos.

Eu nunca vira os olhos azuis de Chris demonstrarem tanto respeito e brilharem de admiração.

- Ora, que idéia fantástica, Cathy! Sensacional! É exatamente o que faremos se houver um incêndio, o que não acontecerá. De qualquer maneira, é bom saber que você não se portará como uma menina chorona, afinal. O fato de pensar no futuro e fazer plano para contingências inesperadas demonstra que você está crescendo e isso me agrada.

Puxa vida! Após doze anos de grande esforço, eu afinal conseguira captar seu respeito e aprovação, atingindo um objetivo que eu chegara a julgar impossível. Era gostoso saber que podíamos dar-nos bem trancados num local tão confinado. Os sorrisos que trocamos foram uma promessa de que, juntos, conseguiríamos sobreviver até o final da semana. Nossa recém-descoberta camaradagem trazia-nos alguma segurança, um pouco de felicidade à qual nos apegarmos, como se trocássemos um aperto de mãos.

Então, o que encontramos foi destruído, arrasado. Nossa mãe entrou no quarto, andando de modo muito esquisito, com uma estranha expressão no rosto. Esperáramos tanto seu retorno e, de algum modo, estarmos novamente juntos dela não nos proporcionava a alegria prevista. Talvez fosse simplesmente a avó, que entrou logo atrás dela, quem matou nosso entusiasmo com seus olhos cinzentos, duros, implacáveis e maus...

Ergui a mão aos lábios. Algo terrível acontecera. Eu sabia! Tinha certeza!

Chris e eu estávamos sentados numa cama, jogando damas e, a intervalos, encarando-nos enquanto amarrotávamos distraidamente a colcha.

Uma regra violada... Não, duas... Olharmo-nos era proibido, assim como amarrotarmos a colcha.

E os gêmeos tinham peças de quebra-cabeças aqui e acolá, carrinhos e bolas de gude espalhados por toda parte. Portanto, o quarto não estava exatamente arrumado e em ordem.

Três regras violadas.

E meninos e meninas tinham usado juntos o banheiro.

E talvez até mesmo tivéssemos violado outra regra, pois sempre pressentimos - não importa o que fizéssemos - que Deus e a avó mantinham entre si alguma comunicação secreta.


A Ira Divina
Naquela primeira noite, mamãe entrou no nosso quarto com os lábios comprimidos e as juntas rígidas, como se o menor movimento lhe provocasse dores. O rosto bonito apresentava-se pálido e inchado; os olhos inflamados e vermelhos. Aos trinta e três anos de idade, fora humilhada por alguém a ponto de não poder encarar outras pessoas. Parecendo derrotada, desolada, humilhada, ficou em pé no centro do quarto, como uma criança brutalmente castigada. Impensadamente, os gêmeos correram para recebê-la, abraçando-lhe entusiasticamente as pernas, rindo e gritando, cheios de felicidade:

- Mamãe! Mamãe! Onde você estava?

Chris e eu nos aproximamos, abraçando-a com certa hesitação. Mamãe parecia ter permanecido ausente por mais de uma década e não apenas por um dia, mas representava nossa esperança, nossa realidade, nosso elo de ligação com o mundo lá fora.

Será que a beijamos demais? Teriam nossos abraços ansiosos, ávidos, demorados, feito que ela franzisse a testa de dor, ou do peso das obrigações? Enquanto grossas lágrimas lhe escorriam vagarosamente pelo rosto pálido, julguei que ela chorasse apenas de piedade que sentia por nós. Quando nos sentamos, todos querendo ficar o mais perto dela possível, escolhemos uma das grandes camas de casal. Mamãe pegou os gêmeos no colo, de modo que Chris e e pudéssemos ficar bem perto dela, um de cada lado. Examinou-nos, elogiou nossa higiene e sorriu ao ver a fita de cetim verde que eu colocara nos cabelos de Carrie, para combinar com as listras verdes de seu vestido. Quando falou, tinha a voz rouca, como se estivesse gripada ou tivesse engolido o famoso sapo da fábula:

- Agora, falem com franqueza: como passaram o dia?

Cheio de ressentimento, Cory franziu os lábios, demonstrando mudamente que seu dia não fora bom. Carrie traduziu em palavras o ressentimento que vinha reprimindo até então.

- Cathy e Chris são malvados - berrou num tom que nada tinha de gorjeio. - Obrigaram-nos a ficar aqui dentro o dia inteiro. Não gostamos daquele lugar grande e sujo que eles acham maravilhoso! Não é maravilhoso, mamãe!

Perturbada, com aparência dolorida, mamãe tentou acalmar Carrie, dizendo aos gêmeos que as circunstâncias haviam mudado e agora eles teriam que obedecer os irmãos mais velhos, considerando-os como pais.

- Não! Não! - protestou a menina ainda mais furiosa, com o rosto muito vermelho. - Detestamos isso aqui! Queremos o jardim; aqui é escuro! Mamãe, não queremos Chris e Cathy, queremos você! Leve-nos para casa! Tire-nos daqui!

Carrie bateu em mamãe, em mim, em Chris, gritando que queria voltar para casa. Mamãe permaneceu imóvel, sem tentar defender-se, aparentemente surda e sem saber como controlar uma situação dominada por uma menina de cinco anos. Quanto mais mamãe ficava calada, mais Carrie berrava. Tapei os ouvidos com as mãos.

- Corrine! - ordenou a avó. - Obrigue essa criança a calar-se imediatamente!

Bastou-me olhar para o rosto da avó e compreendi, pela expressão fria como pedra, que ela sabia muito bem como obrigar Carrie a calar-se – e imediatamente. Todavia, sentado no outro joelho de mamãe estava um menino cujos olhos se arregalaram ao fitar a alta avó - alguém que lhe ameaçava a irmã gêmea. Esta pulara do colo de mamãe e se postara diante da avó, com os pequenos pés bem afastados e firmemente plantados no chão. Então, atirando a cabeça para trás, Carrie abriu a boquinha carnuda e deixou cair pra valer! Como uma estrela de ópera que reserva o melhor para o gran finale da ária, abriu o peito e seus berros anteriores pareceram simples miados de uma gatinha. Agora, Carrie era uma tigresa - enfurecida!

Oh, rapaz! Fiquei impressionada, estarrecida, apavorada com o que aconteceria em seguida.

A avó agarrou Carrie pelos cabelos, levantando-a o suficiente para fazer Cory pular do colo de mamãe. Com a agilidade e rapidez de um gato, ele deu um bote contra a avó! Mais depressa que consegui piscar, mordeu-lhe a perna! Encolhi-me instintivamente, sabendo que agora estávamos numa enrascada. A avó lançou um rápido olhar a Cory e sacudiu-o longe como se fosse um cãozinho recém-nascido. Contudo, a dentada obrigou-a a largar os cabelos de Carrie. A menina caiu ao chão, levantou-se depressa e desferiu um pontapé, errando por pouco a perna da avó.

Não querendo perder para a irmã gêmea, Cory levantou seu pequeno sapato branco, apontou com cuidado e chutou a canela da avó com toda a sua força.

Nesse ínterim, Carrie correra para o canto, onde se encolheu e começou a gritar como um fanático com as roupas em chamas!

Oh, foi mesmo uma cena digna de ser gravada e relembrada.

Até o momento, Cory não dissera uma palavra nem produzira um som, agindo ao seu modo silencioso e decidido. Mas ninguém ia machucar ou ameaçar sua irmã gêmea - mesmo que esse "ninguém" tivesse quase um metro e oitenta de altura e pesasse aproximadamente cem quilos! E Cory era bem pequeno para a idade que tinha.

Se, por um lado, Cory não gostava do que acontecia a Carrie nem da potencial ameaça contra ele próprio, por outro a avó também não gostava do que estava acontecendo a ela! Fitou enraivecida o rostinho desafiador e irado que a encarava. Esperou que Cory se encolhesse, mudasse a expressão do rosto, eliminasse o desafio dos olhos azuis; mas Cory permaneceu diante dela na mesma atitude decidida, ousada, provocando-a a fazer o pior. Os lábios finos e descoloridos da avó comprimiram-se numa tortuosa risca de lápis.

A mão dela se ergueu - uma mão enorme, pesada, faiscando de anéis de brilhante. Cory não se acovardou; sua única reação ante aquela ameaça tão óbvia foi tornar-se ainda mais carrancudo e cerrar os pequenos punhos, levantando-os na postura de um boxeador profissional pondo-se em guarda.

Oh, meu Deus! Julgar-se-ia ele capaz de enfrentá-la - e vencê-la?

Ouvi mamãe chamar o nome de Cory. Tinha a voz tão estrangulada que não passava de um sussurro.

Já decidida quanto à sua linha de ação, a avó desferiu contra o rostinho redondo, desafiador e infantil de Cory uma violenta bofetada, que o fez rodopiar! Cambaleando para trás, Cory caiu ao chão, mas levantou-se num átimo, girando à procura de um novo método de ataque contra aquela detestável e enorme montanha de carne. Sua indecisão foi digna de piedade. Ele vacilou, reconsiderou e, afinal, o bom senso prevaleceu sobre a raiva. Meio correndo, meio engatinhando, correu para o canto onde Carrie se encolhera e abraçou-a. Ficaram abraçados, de joelhos, os rostos unidos. Então, Cory somou seus gritos aos da irmã gêmea!

A meu lado, Chris resmungou algo que parecia uma prece.

- Corrine, são seus filhos, faça-os calar a boca! Já!

Todavia, era praticamente impossível conter os gêmeos depois que eles começavam. Argumentos jamais lhes chegavam aos ouvidos. Escutavam apenas o próprio terror e, como brinquedos mecânicos, berravam até a corda terminar, por pura exaustão física.

Quando papai era vivo e sabia como lidar com tais situações, pegava-os como sacos de milho, um sob cada braço, e carregava-os para o quarto, repreendendo-os severamente e prometendo que, se não calassem a boca, ficariam trancados no quarto, sem televisão, sem brinquedos, sem coisa alguma. Sem uma platéia para presenciar-lhes o desafio e os berros impressionantes, os gritos raramente perduravam por mais que poucos minutos após a porta do quarto se fechar sobre os gêmeos. Então, eles saíam cabisbaixos, calados e obedientes, subiam ao colo de papai e murmuravam com grande humildade:

- Desculpe.

Mas papai estava morto. Não existia um quarto afastado onde eles pudessem gastar a corda. Aquele único quarto era nossa mansão e ali os gêmeos se encontravam cativos, diante de uma platéia dolorosamente eletrizada. Berraram até que os rostos mudaram do rosa para o vermelho, do vermelho para o magenta e, finalmente, para o púrpura. Em conseqüência de seus esforços conjuntos, os olhos azuis se vidraram, perdendo o foco. Oh, foi mesmo um grande espetáculo - e uma grande tolice!

Aparentemente, até o momento nossa avó ficara mesmerizada por tal demonstração. Então, o que a mantivera imóvel desfez o feitiço. Reviveu repentinamente. Com ar decidido, encaminhou-se ao canto onde estavam encolhidos os gêmeos. Curvou-se para levantar impiedosamente pelas golas as duas crianças que berravam. Mantendo-as afastadas de si com os braços esticados, enquanto elas esperneavam, gritavam, golpeavam com os braços e tentavam inutilmente atingir a velha que as atormentava, levou-as à nossa mamãe. Então, os gêmeos foram largados no chão como lixo indesejável. Numa voz firme e sonora, que dominava os berros das crianças, a avó declarou implacavelmente:

- Se não pararem de gritar imediatamente, vou açoitá-los até arrancar-lhes sangue da carne!

1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   33


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal