A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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O tom desumano, somado ao frio poder daquela terrível ameaça, convenceu os gêmeos - e a mim, também - de que ela faria exatamente o que prometia. Perplexos e horrorizados, os gêmeos fitaram-na e – boquiabertos - engoliram os berros. Sabiam o que era sangue e conheciam a dor de um ferimento. Magoava-me vê-los tratados de forma tão brutal, como se a avó pouco se importasse de quebrar ossos frágeis ou ferir carnes tenras. De pé, ela nos dominava como uma torre. Então, girou e disse com aspereza à nossa mãe:

- Corrine, não admitirei a repetição de uma cena tão revoltante! É óbvio que seus filhos foram mimados, estragados e necessitam desesperadamente de boas lições de disciplina e obediência. Nenhuma criança que morar nessa casa desobedecerá, gritará ou mostrará desafio. Ouça bem! Eles só falarão quando lhes dirigirem a palavra. Pularão para obedecer minhas ordens. Agora, filha, tire a blusa e mostre aos que desobedecem como o castigo é aplicado nessa casa!

Enquanto ela falava, nossa mãe se pusera de pé. Empalideceu como cera, parecendo diminuir de tamanho em seus sapatos de salto alto.

- Não! - balbuciou. - Isso não é necessário, agora... Veja, os gêmeos se calaram... estão obedecendo.

O rosto da velha assumiu uma expressão muito dura.

- Corrine, será bastante insensata para desobedecer? Quando eu lhe disser para fazer alguma coisa, obedeça sem discutir! E imediatamente! Veja os filhos que criou: crianças fracas, mimadas, desobedientes, todas quatro! Pensam que basta gritarem para conseguir o que desejam. Aqui, os gritos de nada lhes servirão. É melhor saberem que não existe piedade para os que violam as regras estabelecidas por mim. Você devia saber, Corrine. Alguma vez já lhe dei perdão? Mesmo antes de você nos trair, alguma vez permiti que sua carinha bonita e maneiras insinuantes detivessem o peso da minha mão? Oh, lembro-me de quando seu pai lhe queria bem e se voltava contra mim para defendê-la. Mas esses dias terminaram. Você provou a seu pai que é exatamente o que eu sempre declarei que você era: um monte de lixo, falsa e mentirosa!

Voltou os olhos impiedosos para Chris e eu.

- Sim, você e seu meio-tio fizeram filhos muito bonitos. Sou forçada a admitir isso, embora eles jamais devessem ter nascido. Por outro lado, parecem-me não passar de molengões inúteis e insignificantes!

Seu olhar malvado examinou desdenhosamente nossa mãe, como se houvéssemos herdado dela todos esses defeitos imperdoáveis. Todavia, ela ainda não terminara.

- Corrine, decididamente seus filhos precisam de uma lição objetiva. Quando observarem o que aconteceu à mãe deles, não mais terão dúvidas quanto ao que poderá acontecer-lhes.

Vi minha mãe empertigar-se, enrijecendo a espinha, encarando bravamente a mulher grande e ossuda que era pelo menos dez centímetros mais alta que ela e muitos, muitos quilos mais pesada.

Em voz trêmula, mamãe declarou:

- Se for cruel para meus filhos, eu os levarei dessa casa ainda hoje e você nunca mais tornará a vê-los! Nem a mim!

Pronunciou as palavras em tom de desafio, erguendo o rosto lindo e encarando com alguma ferocidade a enorme mulher que era sua mãe!

O desafio de mamãe foi recebido com um leve sorriso, tenso e frio, Não; não era um sorriso, mas uma expressão de zombaria.

- Pois leve-os daqui - agora! E vá com eles, Corrine! Pensa que me importo de nunca mais ver seus filhos ou de ouvir falar de você?

Os olhos azuis de boneca de porcelana alemã de nossa mãe enfrentaram os olhos cinzentos de aço de nossa avó, enquanto nós, crianças, observávamos. Por dentro, eu gritava de alegria. Mamãe nos levaria dali. Íamos embora! Adeus, quarto trancado! Adeus, sótão poeirento! Adeus, milhões de dólares que eu não quero!

Todavia, enquanto eu aguardava, observando, que mamãe girasse nos calcanhares e fosse direto ao armário apanhar nossas malas, o que vi foi o desmoronar das coisas nobres e boas que existiam em nossa mãe. Esta baixou os olhos, derrotada, curvando lentamente a cabeça para ocultar a expressão de seu rosto.

Abalada e trêmula, vi a zombaria da avó transformar-se num largo e cruel sorriso vitorioso. Mamãe! Mamãe! Mamãe! Minha alma clamava. Não permita que ela lhe faça isso!

- Agora, Corrine, tire a blusa!

Devagar, relutantemente, o rosto branco como a morte, mamãe virou-se e nos apresentou as costas. Um violento tremor percorreu-me a espinha. Ela ergueu rigidamente os braços. Com grande dificuldade, cada botão de sua blusa branca foi aberto. Cuidadosamente, ela baixou a blusa, expondo as costas.

Não estava usando combinação ou sutiã por baixo da blusa e foi fácil perceber o motivo. Escutei Chris prender repentinamente a respiração. Carrie e Cory também devem ter visto, pois seus choramingos chegaram-me aos ouvidos. Agora, compreendi por que mamãe, normalmente tão graciosa, entrara tão rígida no quarto, os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

Suas costas estavam riscadas por compridas marcas vermelhas transversais, que desciam desde o pescoço e continuavam além do cós da saia azul. Algumas das marcas mais inchadas estavam cobertas de sangue coagulado. Praticamente não havia um centímetro quadrado de pele intacta entre as hediondas marcas de chibata.

A avó, insensível, ignorando nossas sensibilidades e não dando importância à situação de nossa mãe, proclamou novas instruções:

- Olhem bem e demoradamente, crianças. Saibam que essas marcas de chicote descem até os pés de sua mãe. Trinta e três chibatadas, uma por cada ano de sua vida. E quinze chibatadas extras por cada ano que ela viveu com seu pai, em pecado. Foi seu avô quem ordenou essa punição, mas fui eu quem manipulou o chicote. Os crimes de sua mãe são contra Deus e contra os princípios morais que regem a vida da sociedade. O casamento dela foi pecaminoso; um sacrilégio! Um casamento que constituiu uma abominação aos olhos do Senhor. E, como se isso não bastasse, eles tiveram que gerar filhos: quatro! Filhos gerados do Demônio! Filhos malditos desde o momento da concepção!

Meus olhos esbugalhavam-se à vista daquelas marcas terríveis na carne tenra e pele sedosa que nosso pai manuseara com tanto amor e ternura. Naufraguei num rodamoinho de incerteza, sangrando por dentro, sem saber quem ou o que eu era, se tinha o direito de estar vivendo numa terra reservada pelo Senhor para os que nasceram com suas bênçãos e permissão. Perdêramos nosso pai, nossa casa, nossos amigos, nossas posses. Naquela noite, eu já não acreditava que Deus fosse o juiz perfeito. Portanto, sob certo aspecto, naquela noite eu também perdi Deus.

Desejava ter nas mãos um chicote para açoitar aquela velha que arrancara impiedosamente tanto de nós. Olhei para os cortes nas costas de mamãe e jamais senti tanto ódio ou ira. Ódio não só pelo que ela fizera à nossa mãe, mas também pelas horríveis palavras que lhe brotavam da boca maldosa.

Então, a detestável velha me encarou, como se adivinhasse o que eu sentia. Devolvi-lhe desafiadoramente o olhar, esperando que ela pudesse ver como eu negava, daquele momento em diante, nossa relação de parentesco - não só com ela, mas também com aquele velho lá embaixo. Nunca mais eu me apiedaria dele.

Talvez, naquele instante, meus olhos fossem apenas de vidro, revelando as engrenagens de vingança que me funcionavam no íntimo e que eu jurava um dia libertar. Talvez ela percebesse algo vingativo neles, pois suas palavras seguintes foram dirigidas exclusivamente a mim, embora ela usasse o termo "crianças".

- Como estão vendo, crianças, essa casa é capaz de ser inflexível e impiedosa ao lidar com aqueles que desobedecem e violam nossas normas. Daremos alimento, bebida e abrigo, mas nunca bondade, compreensão ou amor. É impossível sentir algo além de repulsa pelo que não é puro. Obedeçam minhas regras e não sentirão a mordida do meu chicote, nem serão privados de suas necessidades. Atrevam-se a desobedecer-me e logo aprenderão tudo o que sou capaz de lhes fazer e tudo de que lhes posso privar.

Olhou sucessivamente para cada um de nós.

Sim, ela quis destruir-nos naquela noite, quando éramos jovens, inocentes e confiantes, pois só havíamos conhecido o lado bom da vida. Queria secar-nos as almas, murchar-nos totalmente, talvez para nunca mais tornarmos a sentir orgulho.

Mas não nos conhecia.

Ninguém jamais conseguiria fazer-me odiar meu pai ou minha mãe! Ninguém jamais teria poder de vida ou morte sobre mim - não enquanto eu estivesse viva e pudesse lutar!

Lancei um olhar de esguelha a Chris. Ele também fitava a velha. Seus olhos percorriam-na de alto a baixo, estudando os danos que ele poderia causar se a atacasse. Mas Chris tinha apenas quatorze anos. Precisaria tornar-se um homem adulto para derrotar uma mulher daquele tipo. Não obstante, suas mãos se cerraram em punhos, que ele se esforçava por manter colados ao corpo. A força que fazia para controlar-se comprimia-lhe os lábios numa linha tão fina e dura quanto os lábios da avó. Só seus olhos permaneciam frios, duros como gelo azul.

De todos nós, Chris era o que mais gostava de nossa mãe. Colocara-a no topo de um elevado pedestal de perfeição, considerando-a a mulher mais querida, mais carinhosa, mais compreensiva do mundo. Já me dissera que quando crescesse casar-se-ia com uma mulher como nossa mãe. Não obstante, agora só podia encarar ferozmente a velha, pois era jovem demais para fazer outra coisa.

Nossa avó nos lançou um último olhar prolongado e desdenhoso. Então, num gesto violento, colocou a chave da porta na mão de mamãe e saiu do quarto.

Uma indagação se elevava muito acima de todas as outras:

Por quê? Por que fôramos levados àquela casa?

Não era um porto seguro, não era um abrigo, não era um refúgio. Certamente, mamãe já deveria saber que seria assim e, não obstante, conduzira-nos até lá na calada da noite. Por quê?
A História de Mamãe
Depois que a avó saiu do quarto, ficamos sem saber o que fazer, dizer ou sentir, exceto deixar-nos dominar pelo sofrimento e amargura. Meu coração batia descompassadamente enquanto eu observava mamãe vestir a blusa, abotoá-la e enfiá-la pelo cós da saia antes de virar-se para exibir um sorriso trêmulo que tentava reconfortar-nos.

É lastimável que eu visse naquele sorriso uma palha para agarrar no meio do oceano... Chris fitava o chão; seu tormento interior traduzia-se no movimento do pé que acompanhava diligentemente, com a ponta do sapato, os intrincados arabescos do tapete oriental.

- Agora, escutem - disse mamãe com uma animação forçada. - Foi só uma vara de salgueiro e não doeu muito. Meu orgulho sofreu mais que a carne. É humilhante ser surrada como uma escrava, ou animal, pelos próprios pais. Mas não se preocupem com uma eventual repetição do fato, porque ela jamais ocorrerá. Foi só essa vez. Eu sofreria mais cem vezes essas marcas de espancamento para reviver os quinze anos de felicidade que tive com seu pai e com vocês. Embora me faça sangrar a alma, ela me obrigou a mostrar-lhes o que eles me fizeram...

Sentou-se na cama e abriu os braços, de modo que pudéssemos todos aninharmo-nos ali e sermos reconfortados por ela. Tive o cuidado de não tornar a abraçá-la, a fim de evitar causar-lhe mais dor. Mamãe colocou os gêmeos no colo e bateu com as palmas das mãos na cama, para indicar que devíamos ficar bem perto dela. Então, começou a falar. Obviamente, o que ela relatou foi difícil dizer e igualmente difícil para nós escutar.

- Quero que escutem com a máxima atenção e relembrem pelo resto da vida o que vou contar-lhes esta noite.

Fez uma pausa, hesitando ao correr os olhos pelo quarto e fitar as paredes como se fossem transparentes e, através delas, conseguisse ver todos os cômodos da gigantesca casa.

- Esta é uma casa estranha e as pessoas que nela moram são ainda mais estranhas, não os criados, mas meus pais. Eu deveria ter-lhes prevenido de que seus avós são fanáticos religiosos. Acreditar em Deus é uma boa coisa, é uma coisa certa. Mas, quando as pessoas reforçam essa crença com palavras meticulosamente rebuscadas no Velho Testamento e interpretadas do modo que lhes for mais conveniente, isso é hipocrisia. E é exatamente o que fazem meus pais. Meu pai está realmente moribundo, mas todos os domingos é levado à igreja; na cadeira de rodas, se estiver melhor, ou numa maca, se estiver pior. E paga o dizimo, um décimo de sua renda anual, que é considerável. Portanto, é natural que seja muito bem recebido. Ele pagou a construção da igreja, comprou os vitrais de todas as janelas, controla o pastor e os sermões, pois está pavimentando com ouro seu caminho para o céu e, caso São Pedro seja subornável, meu pai certamente já garantiu o direito de entrar. Naquela igreja, ele é tratado como um deus, ou como um santo vivo. Depois, volta para casa, sentindo-se completamente justificado em fazer tudo o que deseje, pois já cumpriu seu dever, pagou a pavimentação do caminho e, portanto, está livre do inferno. Quando eu estava crescendo, com meus dois irmãos mais velhos, éramos literalmente forçados a ir à igreja. Mesmo se estivéssemos doentes a ponto de ficar de cama, tínhamos que ir. A religião era enfiada por nossas goelas abaixo. Seja bom, seja bom, seja bom, eis tudo o que ouvíamos, sem cessar. Prazeres cotidianos, normais, que eram bons para outras pessoas transformavam-se em pecados para nós. Meus irmãos e eu não tínhamos permissão para nadar, pois isso significaria usar roupas de banho e expor grande parte de nossos corpos. Éramos proibidos de jogar cartas ou quaisquer outros tipos de jogos que se prestassem a apostas. Não podíamos ir a bailes porque, para dançar, teríamos de aproximar o corpo de alguém pertencente ao sexo oposto. Recebíamos ordens para controlarmos nossos pensamentos, afastando-os da luxúria e assuntos pecaminosos, pois nossos pais afirmavam que os pensamentos são tão maus quanto os atos. Oh, eu poderia continuar durante horas relatando as proibições a que estávamos sujeitos, pois parece que tudo o que poderia ser divertido e excitante era pecado para eles. E há algo nos jovens que os leva a revoltar-se quando a vida é tornada estrita e controlada demais, fazendo-nos desejar acima de tudo as coisas que nos são proibidas. Nossos pais, ao procurarem obrigar seus três filhos a se portarem como anjos, ou santos, só conseguiram tornar-nos pior do que teríamos sido se criados de outra maneira.

Arregalei os olhos, arrebatada pela narrativa. Todos nós estávamos assim. Até os gêmeos.

- Então - prosseguiu mamãe -, certo dia, em meio a essa situação, um belo jovem veio morar conosco. O pai dele era meu avô e morrera quando o rapaz tinha apenas três anos de idade. A mãe do rapaz chamava-se Alícia e tinha apenas dezesseis anos ao casar-se com meu avô, que, na época do casamento, tinha cinqüenta e cinco. Assim, quando deu à luz o menino, ela deveria ter vivido o bastante para vê-lo tornar-se um homem. Infelizmente, Alícia morreu muito jovem. O nome de meu avô era Garland Christopher Foxworth e, quando ele morreu, metade do espólio deveria caber a seu filho mais moço, então com três anos de idade. Mas Malcolm, meu pai, assumiu o controle do espólio do pai do menino, fazendo-se nomear curador, pois, naturalmente, uma criança de três anos não poderia ter voz ativa no assunto e Alícia não teve direito a voto que indicasse um curador para o filho. Meu pai, uma vez que ficou com a faca e o queijo nas mãos, deu um pontapé em Alícia e no menino. Estes fugiram para Richrnond, onde moravam os pais de Alícia. Esta residiu lá até casar-se pela segunda vez. Teve alguns anos de felicidade com um jovem que amava desde a infância e, então, este morreu também. Duas vezes casada, duas vezes viúva, com um filho pequeno e, agora, órfã de pai e mãe. Pouco depois, encontrou um caroço no seio e veio a falecer de câncer alguns anos mais tarde. Foi quando o filho dela, Garland Christopher Foxworth, o quarto do mesmo nome, veio morar aqui. Nunca o chamamos de outro nome senão Chris.

Mamãe hesitou e apertou os braços em torno de Chris e eu.

- Sabem de quem estou falando? Adivinharam quem era o tal jovem?

Estremeci. O misterioso meio-tio. E sussurrei:

Papai... você está falando de papai.

- Sim - confirmou ela, suspirando fundo.

Debrucei-me para olhar meu irmão mais velho, que permanecia imóvel, uma expressão muito esquisita no rosto e olhos vidrados.

Mamãe continuou:

- Seu pai era meu meio-tio, mas apenas três anos e meio mais velho que eu. Lembro-me da primeira vez em que o vi. Eu sabia que ele viria, o meio-tio que eu jamais vira e de quem não ouvira falar muito, e desejava dar-lhe uma boa impressão, de modo que passei o dia inteiro me arrumando, fazendo permanente no cabelo, tomando banho e vestindo-me com as roupas que eu julgava serem as mais bonitas e elegantes que possuía. Eu tinha quatorze anos e essa é a idade em que as garotas começam a sentir o poder que exercem sobre os homens. Eu sabia ser o que a maioria dos rapazes considerava bonita e creio que, de certo modo, estava madura para me apaixonar. Seu pai tinha dezessete anos. Era final de primavera e ele estava de pé no centro do vestíbulo, com duas maletas perto dos sapatos surrados. Suas roupas pareciam muito usadas e apertadas para ele. Meus pais estavam com ele, mas o rapaz virava-se para todos os lados, olhando tudo, perplexo ante a demonstração de riqueza. Eu, por mim, jamais prestei muita atenção ao que me cercava. Estava ali e eu aceitava como parte de minha herança, até que casei e passei a levar uma vida de pobreza, mal me dei conta de que fora criada num lar excepcional. Compreendam: meu pai é um "colecionador". Compra tudo que seja considerado uma obra de arte ímpar, não porque aprecie arte, mas porque gosta de possuir coisas. Gostaria de possuir tudo, se possível; especialmente coisas bonitas. Eu cheguei a pensar que fizesse parte de sua coleção de objets d'art... e ele pretendia guardar-me para si, não por prazer, mas a fim de evitar que os outros extraíssem prazer do que lhe pertencia.

O rosto corado, os olhos fitando o espaço, aparentemente revivendo aquele dia excepcional em que um jovem meio-tio entrou em sua vida, minha mãe prosseguiu:

- Seu pai veio até nós tão inocente, ingênuo, carinhoso e vulnerável, pois só conhecera afeição honesta, amor genuíno e uma grande pobreza material. Mudou-se de uma casa com quatro cômodos para essa mansão imensa e grandiosa, que lhe esbugalhou os olhos e lhe ofuscou as esperanças. Julgou ter tropeçado na boa sorte, num paraíso terrestre. Fitava meus pais com toda a gratidão a transbordar-lhe dos olhos. Hah! A pena que sinto pela sua gratidão ao ser recebido aqui dói-me no peito até hoje. Na verdade, metade do que ele estava vendo deveria pertencer-lhe, de pleno direito. Meus pais fizeram o possível para que ele se sentisse como um parente pobre. Avistei-o ali, parado à luz do sol, e estaquei no meio da escada. Uma aura de luz prateada formava um halo em torno de seus cabelos dourados. Era lindo. Não apenas bonito, mas lindo. Existe uma diferença, vocês sabem. A verdadeira beleza se irradia de dentro para fora e ele a possuía.

- Produzi algum leve ruído que o fez erguer a cabeça e seus olhos azuis se iluminaram, oh, eu bem me lembro de como se iluminaram! e, então, fomos apresentados e a luz de seus olhos se extinguiu. Eu era sua meia-sobrinha e, portanto, proibida. Ele ficou tão desapontado quanto eu. A partir daquele dia, eu na escada e ele no vestíbulo, acendeu-se entre nós uma centelha, uma minúscula brasa ardente que viria a crescer cada vez mais, até que nenhum de nós dois conseguiu continuar a negá-la. Não tenciono embaraçá-los com o relato de nosso romance - disse ela, meio sem jeito, quando mudei de posição e Chris virou a cabeça para esconder o rosto. - Basta dizer que, conosco, foi amor à primeira vista, pois isso às vezes acontece. Talvez ele estivesse no ponto para apaixonar-se, como eu estava, ou talvez fosse por estarmos ambos necessitados de alguém que nos desse carinho e afeto. A essa altura, ambos os meus irmãos mais velhos já tinham morrido em acidentes; eu tinha poucos amigos, pois ninguém "servia" para a filha de Malcolm Foxworth. Eu era a jóia, o deleite de meu pai; se algum dia um homem me tirasse dele, teria que ser por um preço muito elevado. Assim, seu pai e eu nos encontrávamos furtivamente nos jardins e ficávamos apenas sentados, conversando durante horas à fio; às vezes, ele me empurrava num balanço, ou eu o empurrava; às vezes, ficávamos em pé no balanço, impulsionando-o com as pernas, fitando-nos à medida que subíamos cada vez mais alto. Ele revelou todos os seus segredos e eu lhe revelei todos os meus. Em breve, tinha que acontecer: fomos obrigados a confessar que nos amávamos profundamente e, certo ou errado, precisávamos casar-nos. E tínhamos que fugir dessa casa e escapar ao domínio de meus pais antes que nos transformassem em duplicatas deles, pois era esse seu objetivo: tomar o pai de vocês e mudá-lo, fazendo-a pagar pelo mal que sua mãe cometera ao casar-se com um homem tão mais idoso que ela. Deram-lhe tudo; isso eu admito. Trataram-no como se fosse um filho, pois ele estava destinado a substituir os dois filhos homens que eles haviam perdido. Mandaram-no estudar na Universidade de Yale e ele foi um aluno brilhante. Sua inteligência foi herdada dele, Christopher. Formou-se em apenas três anos, mas nunca pôde utilizar o diploma conseguido, pois trazia o seu verdadeiro nome e tínhamos que ocultar do mundo nossa real identidade. A vida foi dura para nós durante os primeiros anos de casamento porque seu pai foi obrigado a negar sua formação universitária.

Mamãe fez uma pausa. Olhou pensativamente para Chris e, depois, para mim. Abraçou os gêmeos e beijou-lhes as cabeças louras. Então, seu rosto vincou-se de preocupação e ela franziu a testa.

- Cathy, Christopher, são vocês dois que eu espero que compreendam. Os gêmeos são pequenos demais para isso. Estão tentando entender o que houve entre seu pai e eu?

Chris e eu anuímos com a cabeça.

Mamãe agora falava minha língua: o idioma da música e do balé, do romance e do amor, de rostos belos em lugares bonitos. Os contos de fadas podem tornar-se realidade!

Amor à primeira vista. Oh, isso aconteceria comigo e eu tinha certeza de que ele seria tão belo quanto papai, irradiando beleza, tocando-me o coração. A gente precisava amar, ou acabava murchando e morria.

- Agora, ouçam com atenção - disse mamãe em voz baixa, que deu mais ênfase às suas palavras. - Estou aqui para fazer o possível a fim de que meu pai torne a gostar de mim; e que me perdoe por haver-me casado com seu meio-irmão. Entendam: tão logo completei dezoito anos, fugi com seu pai e, duas semanas mais tarde, voltamos casados e contamos a meus pais. Meu pai quase teve um ataque. Gritou, esbravejou, expulsou-nos dessa casa e disse-nos que nunca mais voltássemos! Por esse motivo, fui deserdada e seu pai também, pois acredito que meu pai tencionava deixar alguma coisa para ele; não muito, porém algum dinheiro. A parcela maior caberia a mim, porque minha mãe também possuía dinheiro de família. Ora, ouvindo-a falar, tem-se a impressão de que o motivo pelo qual meu pai se casou com ela foi o dinheiro que minha mãe herdou dos pais, embora na juventude ela fosse o que se chama de mulher vistosa; não uma grande beldade, mas possuía um porte régio, nobre e poderoso.

Não, pensei amargamente com meus botões... aquela velha já nascera feia!

- Portanto, estou aqui para fazer o possível para que meu pai goste novamente de mim e perdoe-me por haver-me casado Com meu meio-tio. A fim de atingir meu objetivo, serei obrigada a representar o papel de filha obediente, humilde, castigada e sinceramente arrependida. Às vezes, quando representamos um papel, assumimos o caráter do personagem. Portanto, desejo dizer agora, enquanto ainda sou completamente eu mesma, tudo o que vocês precisam ouvir. Por essa razão, estou relatando tudo e sendo tão franca quanto possível. Confesso que não possuo grande força de vontade e não sou do tipo que vence sozinha na vida. Só era forte quando tinha o apoio de seu pai e agora não conto mais com ele. E lá no térreo, num quartinho que se abre para uma gigantesca biblioteca, está um homem como vocês jamais conheceram. Já conhecem minha mãe e sabem um pouco como ela é; todavia, ainda não conhecem meu pai. E não quero que o conheçam antes que ele me perdoe e aceite o fato de que tenho quatro filhos gerados por seu meio-irmão. Será muito difícil convencê-lo a aceitar isso, mas não julgo que seja difícil demais, porque o pai de vocês morreu e não é fácil guardar ressentimentos contra quem já está morto e enterrado.

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