A saga dos foxworth o jardim dos esquecidos



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Não sei por que sentia tanto medo.

- Com a finalidade de induzir meu pai a incluir-me novamente em seu testamento, serei obrigada a fazer tudo que ele quiser.

- O que poderia querer ele além de obediência e demonstração de respeito? - indagou Chris em tom muito sóbrio e adulto, como se compreendesse todos os detalhes da situação.

Mamãe fitou-o demoradamente, cheia de carinhosa compaixão, erguendo a mão para acariciar-lhe o rosto juvenil. Chris parecia uma edição mais jovem e menor do marido que ela enterrara tão recentemente. Não é de espantar que ela tivesse os olhos cheios de lágrimas.

- Não sei o que ele desejará, querido, mas farei tudo que for necessário. Ele tem que me incluir no testamento, de qualquer modo. Agora, porém, vamos esquecer tudo isso. Vi seus rostos enquanto eu falava. Não quero que acreditem nas palavras de minha mãe. O que seu pai e eu fizemos não foi imoral. Casamo-nos devidamente numa igreja, como tantos outros casais jovens que se amam. Nada houve de "pecaminoso" entre nós. E não são malvados, ou "gerados pelo Demônio", seu pai diria que isso não passa de "baboseiras". Minha mãe gostaria que vocês se julgassem indignos, como mais um meio de castigar-me, e a vocês também. Quem estabelece as normas da sociedade são as pessoas, não Deus. Em algumas partes do mundo, parentes mais próximos se casam entre si e têm filhos; o fato é considerado perfeitamente normal. Todavia, não tentarei justificar o que fizemos, pois somos obrigados a obedecer as normas da sociedade em que vivemos. Uma sociedade que acredita que homens e mulheres de parentesco próximo não se devem casar entre si, pois, se o fizerem, podem gerar filhos mental ou fisicamente imperfeitos. Contudo, quem é perfeito?

Então, mamãe riu, ao mesmo tempo em que chorava, abraçando-nos todos.

- Seu avô profetizou que nossos filhos nasceriam com chifres, corcundas, rabos bifurcados e patas... Portou-se como um louco desvairado, tentando amaldiçoar-nos e deformar nossos filhos, porque desejava que fossemos malditos! Alguma dessas profecias se realizou? - perguntou, parecendo um tanto descontrolada.

- Não - prosseguiu, em resposta à própria pergunta. - Seu pai e eu nos preocupávamos um pouco quando eu estava grávida pela primeira vez. Ele andou a noite inteira pelos corredores da maternidade, quase até o amanhecer. Então, uma enfermeira anunciou-lhe que ele era pai de um menino perfeito sob todos os aspectos. Seu pai correu ao berçário, a fim de verificar pessoalmente. Vocês deveriam estar presentes para ver-lhe a felicidade estampada no rosto quando ele entrou em meu quarto sobraçando duas dúzias de rosas vermelhas; havia lágrimas em seus olhos quando ele me beijou. Seu pai tinha tanto orgulho de você, Christopher, tanto orgulho. Distribuiu entre os amigos seis caixas de charutos. Depois, saiu e foi comprar para você um bastão de beisebol feito de plástico, uma luva de jogador de beisebol e uma bola de futebol. Quando seus dentes começaram a nascer, você mordia o bastão e batia com ele no berço e na parede, a fim de avisar-nos que desejava sair do quarto.

- Depois, veio Cathy. E você, querida, era linda e tão perfeita como seu irmão. E sabe como seu pai a amava. Para ele, você era a doce bailarina Cathy, que empolgaria as platéias do mundo inteiro ao pisar o palco. Lembra-se de sua primeira apresentação de balé, quando tinha apenas quatro anos? Usou sua primeira roupinha cor-de-rosa de bailarina e cometeu alguns erros, mas todos na platéia aplaudiram e você também bateu palmas, como se estivesse orgulhosa apesar dos enganos. E seu pai lhe enviou uma dúzia de rosas, lembra-se? Ele jamais via os erros cometidos por você. E sete anos depois que você chegou como uma bênção para nós, nasceram os gêmeos. Agora, tínhamos dois meninos e duas meninas, desafiamos o destino quatro vezes e vencemos! Portanto, se Deus quisesse castigar-nos, teve quatro oportunidades para dar-nos filhos deformados física ou mentalmente. Assim, jamais permitam que sua avó, ou qualquer outra pessoa, os convençam de que lhes falta alguma competência, de que são menos dignos, de que não são totalmente agradáveis aos olhos de Deus. Se houve algum pecado, foi cometido por seus pais, não por vocês. Na verdade, vocês são as quatro crianças que todos os nossos amigos em Gladstone invejavam e chamavam de bonecas de Dresden. Bonecas de fina porcelana alemã. Lembrem-se sempre do que tinham em Gladstone, apeguem-se a isso. Continuem a acreditar em si mesmos, em mim e em seu pai. Apesar de ele ter morrido, continuem a amá-lo e respeitá-lo. Ele merece. Tentava tanto ser um bom pai para vocês. Não creio que existam muitos homens que se importem tanto com isso como ele se importava.

Exibiu um sorriso brilhante através das lágrimas:

- Agora, digam-me quem são vocês!

- As bonecas de Dresden! - bradamos Chris e eu.

- Agora, vocês algum dia acreditarão no que sua avó diz a respeito de terem sido gerados pelo Demônio?

- Não! Nunca, nunca!

Apesar de tudo, eu precisaria ponderar cuidadosamente, mais tarde, metade do que as duas mulheres nos disseram; ponderar profundamente. Eu queria acreditar que Deus estava satisfeito conosco, acreditar em quem nós éramos e no que éramos. Meneei afirmativamente a cabeça, disse com meus botões, diga que sim, como Chris disse; não seja como os gêmeos, que se limitam a fitar mamãe, sem entenderem nada. Não seja tão desconfiada - não! Chris declarou na mais firme das vozes:

- Sim, mamãe, acredito no que você diz porque se Deus desaprovasse seu casamento com nosso pai, certamente vocês seriam castigados através dos filhos. Não acredito que Deus tenha as vistas curtas e seja cheio de preconceitos, como são nossos avós. Como pode aquela velha dizer coisas tão horríveis, quando possui olhos e pode ver perfeitamente que não somos feios, deformados e, muito menos, retardados?

O alívio, como um rio represado e repentinamente libertado, fez as lágrimas escorrerem pelo belo rosto de mamãe. Ela apertou Chris de encontro ao peito, beijando-lhe o topo da cabeça. Então, tomou o rosto dele entre as palmas das mãos, fitando-o no fundo dos olhos, ignorando o resto de nós.

- Muito obrigada, meu filho, por compreender - disse num sussurro rouco. - Mais uma vez, muito obrigada por não condenar seus pais, não importa o que eles tenham feito.

- Eu a amo, mamãe. Não importa o que fez, ou o que fizer, eu sempre compreenderei.

- Sim, você compreenderá. Eu sei que você compreenderá - murmurou ela. Olhou, embaraçada, para mim. Eu me mantinha afastada, observando, pesando aquilo tudo, avaliando minha mãe.

- O amor nem sempre chega quando queremos. Às vezes, ele simplesmente acontece, contrariando-nos a vontade.

Baixou a cabeça, segurando as mãos de meu irmão, agarrando-se a elas.

- Meu pai me adorava quando eu era jovem. Queria guardar-me eternamente para si mesmo. Desejava que eu jamais me casasse com alguém. Lembra-me de que, quando eu tinha apenas doze anos, ele me prometeu legar-me todo o seu espólio se eu permanecesse a seu lado até ele morrer de velhice.

Repentinamente, ergueu a cabeça e olhou para mim. Teria percebido alguma dúvida, alguma indagação de minha parte? Seus olhos se tornaram sombrios, profundos, escuros.

- Juntem as mãos - ordenou com voz firme, empertigando os ombros e soltando uma das mãos de Chris. - Quero que repitam comigo: "Somos crianças perfeitas, mental, física e emocionalmente. Somos puras e obedientes a Deus em todos os aspectos. Temos tanto direito de viver, amar e desfrutar dos prazeres da vida quanto qualquer criança neste mundo".

Sorriu para mim e estendeu o braço para segurar-me a mão livre. Então, chamou Carrie e Cory para que se juntassem à cadeia formada pela família.

- Aqui em cima, vocês precisarão de alguns rituais que os sustentem no decorrer dos dias, algumas pedras onde possam firmar os pés. Deixem-me preparar alguns para usarem quando eu estiver afastada. Cathy, quando eu olhar para você, veja-me na sua idade. Ame-me, Cathy; confie em mim, por favor.

Hesitantes, fizemos o que ela mandava e repetimos a litania que deveríamos recitar sempre que sentíssemos alguma dúvida. Quando terminamos, ela sorriu para nós, com aprovação e apoio.

- Pronto! - exclamou, parecendo mais satisfeita. - Agora, não imaginem que passei o dia sem ter vocês quatro constantemente na cabeça. Pensei muito em nosso futuro e decidi que não podemos continuar a viver aqui, onde somos dominados por minha mãe e meu pai. Minha mãe é uma mulher cruel, sem coração, que, por acaso, me deu à luz, mas nunca me deu um pingo de amor, pois isto ela reservou aos dois filhos homens. Quando recebi a carta dela, fui o bastante tola para acreditar que ela me trataria de modo diferente de antes. Julguei que, a essa altura, ela tivesse suavizado um pouco com a idade e que, depois de ver vocês e passar a conhecê-los, seria como todas as avós desse mundo e os acolheria de braços abertos, encantada e deleitada por ter novamente crianças a quem amar. Eu esperava tanto que bastasse sua avó ver vocês... - engasgou-se, quase chorando outra vez, como se nenhuma pessoa de bom senso pudesse deixar de amar seus filhos. - Posso entender que ela não goste de Christopher - prosseguiu, abraçando-o com força e beijando-lhe o rosto. - Ele é por demais parecido com o. pai. E sei, Cathy, que ela é capaz de olhar para você e me ver. Nunca gostou de mim, não conheço exatamente o motivo, mas talvez papai gostasse demais de mim e ela sentisse ciúmes. Todavia, jamais me passou pela cabeça que ela poderia ser cruel para com qualquer de vocês e, muito menos, com meus queridos gêmeos. Obriguei-me a acreditar que as pessoas mudam com a idade e começam a reconhecer seus erros, mas agora compreendo o quanto me enganei.

Enxugou as lágrimas.

- Por isso, amanhã de manhã, bem cedo, irei à cidade grande mais próxima para matricular-me numa escola que me ensine a trabalhar como secretária. Aprenderei datilografia, taquigrafia, contabilidade, serviço de arquivo, e tudo mais que uma boa secretária precisa saber. Eu aprenderei. Quando souber fazer tudo isso, vou arranjar um bom emprego, que pague um salário adequado. Então, terei dinheiro suficiente para tirar vocês todos daqui. Encontraremos um apartamento em algum lugar aqui perto, de modo que eu ainda possa visitar meu pai. Em breve, estaremos todos vivendo sob o mesmo teto, o nosso teto, e voltaremos a ser uma família de verdade.

- Oh, mamãe! - exclamou Chris, cheio de alegria. - Eu tinha certeza de que você encontraria uma solução! Sabia que não nos deixaria trancados nesse quarto.

Debruçou-se para lançar-me um olhar de confiante satisfação, como se soubesse desde o início que sua amada mãe resolveria todos os problemas, por mais complicados que fossem.

- Confiem em mim - disse mamãe, agora sorridente e segura de si. Mais uma vez, teve beijos para Chris.

Desejei poder, de algum modo, ser igual a meu irmão Chris e tomar tudo o que nossa mãe dizia como uma promessa sagrada. Contudo, meus pensamentos traiçoeiros voltaram-se demoradamente para as palavras que ela própria dissera a respeito de não ter força de vontade e ser incapaz de começar tudo sem a presença de papai para dar-lhe apoio. Desanimada, fiz minha pergunta:

- Quanto tempo demora para se aprender a ser uma boa secretária?

- Depressa - depressa demais, na minha opinião - ela replicou:

- Só um pouquinho, Cathy. Mais ou menos um mês. Contudo, se demorar um pouco mais que isso, vocês devem ter paciência e não esquecer que eu não sou muito esperta nesse tipo de coisas. Na realidade, não é por minha culpa - acrescentou apressadamente, como se pudesse perceber que eu a culpava por ser incapaz. – Quando uma pessoa nasce rica e é educada em escolas tipo internato, reservadas apenas às filhas de gente extremamente rica e poderosa, para depois ser enviada a uma escola feminina de aperfeiçoamento, aprende as regras de polidez da etiqueta social, assuntos acadêmicos, mas, sobretudo, é preparada para o carrossel de namoros, festas de debutantes e, também, para receber em casa e ser uma anfitrioa perfeita. Nunca me ensinaram nada de prático. Jamais julguei que iria necessitar de habilidades comerciais. Pensei que sempre teria um marido para cuidar de mim e, se não arranjasse marido, meu pai se encarregaria disso. Ademais, apaixonei-me por seu pai e sempre o amei. Sabia que nos casaríamos quando eu completasse dezoito anos de idade.

Naquele minuto, ela me dava uma boa lição: eu jamais me tornaria tão dependente de um homem a ponto de não conseguir sobreviver sozinha no mundo, por mais cruel que fosse o golpe desferido contra mim pela vida! Mas, acima de tudo, sentia-me mesquinha, raivosa, envergonhada, culpada, por achar que ela era a culpada de tudo aquilo, quando, na verdade, como poderia prever o que o futuro lhe reservava?

- Tenho que ir, agora - disse ela, levantando-se para sair, enquanto os gêmeos explodiam em lágrimas.

- Mamãe, não vá embora! Não nos abandone! - gritavam, envolvendo as pernas dela com os bracinhos miúdos.

- Voltarei amanhã de manhã, antes de sair para a tal escola. No duro, Cathy - disse, fitando-me nos olhos. - Prometo fazer o melhor possível. Quero tirar vocês desse lugar tanto quanto vocês desejam sair dele.

Chegando à porta, comentou que fora bom nós termos visto as costas, pois agora ela sabia o quanto impiedosa era sua mãe.

- Pelo amor de Deus, obedeçam as regras estabelecidas por ela. Sejam recatados no banheiro. Entendam o quanto ela é capaz de ser desumana não apenas comigo, mas com qualquer pessoa que me pertença.

Abriu os braços para todos nós e corremos para abraçá-la, esquecendo-nos das costas chicoteadas.

- Eu amo tanto vocês todos! - soluçou minha mãe. - Apeguem-se a isso. Juro que me aplicarei como nunca fiz em minha vida. Sinto-me tão prisioneira quanto vocês, tão encurralada pelas circunstâncias, sob certo aspecto. Deitem-se esta noite com pensamentos felizes, sabendo que por pior que as coisas possam parecer, nunca são tão ruins. Vocês sabem que é fácil gostar de mim e, em outros tempos, meu pai me amava muito. Portanto, isso facilitará que ele volte a gostar de mim, não é mesmo?

Sim, era mesmo. Amar muito alguém num período da vida torna as pessoas vulneráveis a um novo ataque de amor. Eu sabia; já me apaixonara seis vezes.

- E enquanto estiverem deitados no escuro desse quarto, lembrem-se de que amanhã, após matricular-me na escola, vou comprar novos brinquedos e jogos para tornar as horas de vocês mais ocupadas e agradáveis aqui dentro. E não demorará muito até que meu pai me ame outra vez e me perdoe tudo.

- Mamãe - perguntei. - Tem dinheiro suficiente para comprar coisas para nós?

- Tenho, sim - respondeu ela, apressada. - Tenho o bastante. Além disso, meus pais são orgulhosos. Não permitiriam que seus amigos e vizinhos me vissem mal vestida ou desarrumada. Cuidarão de mim, e de vocês também. Vocês verão. E economizarei cada minuto de folga e cada dólar de sobra, guardando-os e fazendo planos para o dia em que pudermos ter a liberdade de vivemos em nosso próprio lar, como antes, e voltarmos a ser uma família.

Foram suas últimas palavras antes de soprar-nos beijos e sair, trancando a porta por fora.

Nossa segunda noite por detrás de uma porta trancada.

Agora, sabíamos muitas coisas mais... talvez demais.

Depois que mamãe saiu, Chris e eu acomodamos os gêmeos e nos deitamos. Ele sorriu para mim ao curvar o corpo de encontro às costas de Cory, e seus olhos já estavam sonolentos. Fechando-os, murmurou:

- Boa-norte, Cathy. Proteja-se das pulgas.

Como Christopher fizera com Cory, ajustei o corpo às pequeninas costas cálidas de Carrie, que se ajeitou em meus braços numa posição côncava de colher, com meu rosto colado a seus cabelos gostosos, macios.

Sentindo-me inquieta, pouco depois eu estava deitada de costas, olhando para cima e sentindo o grande silêncio da enorme casa que se acomodou e dormiu. Não escutei um sussurro de movimento na imensa mansão; nem os toques agudos do telefone; nem um aparelho doméstico sendo ligado e desligado na cozinha; nem mesmo um cão latindo lá fora, ou um carro passando para lançar um facho de luz capaz de penetrar as pesadas cortinas.

Pensamentos falsos vinham-me à mente para dizer-me que não éramos desejados, estávamos trancados... gerados pelo demônio. Tais pensamentos insistiam em vagar-me pela cabeça, fazendo-me sofrer. Era preciso encontrar um meio de livrar-me deles. Mamãe nos amava, desejava-nos, esforçar-se-ia por ser uma ótima secretária para um homem de sorte. Faria isso. Eu tinha certeza. Ela resistiria aos meios que seus pais empregavam para afastá-la de nós. Ela venceria, sem dúvida.

Deus - rezei - ajude mamãe a aprender depressa, por favor!

Fazia um calor horrível naquele quarto abafado. Lá fora, eu podia escutar o vento farfalhando as folhas, mas até nós não chegava um sopro de ar suficiente para refrescar-nos; apenas o bastante para insinuar que lá fora estava fresco e ali dentro também estaria - se ao menos pudéssemos abrir as janelas. Suspirei, pensativa, ansiando por ar fresco. Mamãe não nos dissera que as noites nas montanhas eram sempre frias, mesmo no verão? Estávamos em pleno verão e, com as janelas fechadas, fazia calor.

Na semi-obscuridade rosada, Chris murmurou meu nome.

- Em que está pensando?

- No vento. Parece o uivo de um lobo.

- Eu sabia que você estaria pensando em algo bem alegre. Puxa! Parece até a encarregada das idéias deprimentes.

- Pois tenho uma outra ótima para você: ventos sussurrantes, como almas penadas tentando dizer-nos alguma coisa.

Ele soltou um gemido.

- Agora, escute aqui, Catherine Boneca (o nome artístico que eu pretendia adotar algum dia), ordeno-lhe que não fique aí deitada a imaginar pensamentos tão sinistros. Encararemos cada hora como esta que se apresentar, jamais pensando na hora que virá depois e, empregando esse método, será muito mais fácil que pensar em termos de dias e semanas. Pense em música, em dançar, em cantar. Já não ouvi dizer que você nunca se sente triste quando a música lhe dança na cabeça?

- Em que pensará você?

- Se estivesse menos sonolento, seria capaz de produzir dez volumes de pensamentos, mas, agora, estou cansado demais para responder. E, de todo modo, você conhece meu objetivo. No momento, pensarei apenas nos jogos e brincadeiras que teremos para fazer - disse ele antes de bocejar, espreguiçar-se e sorrir novamente para mim.

- Que achou de toda aquela conversa a respeito de meios-tios se casarem com meias-sobrinhas e terem filhos com chifres, rabos e patas? Na qualidade de quem busca toda a espécie de conhecimento, e como futuro médico, acha que seja médica ou cientificamente possível?

- Não! - respondeu ele, como se fosse profundo conhecedor do assunto. - Se assim fosse, o mundo pulularia de monstros parecidos com o Demônio. E, falando com franqueza, eu gostaria de ver um demônio, ao menos uma vez.

- Eu os vejo o tempo todo, em meus sonhos.

- Hah! - zombou ele. - Você e seus sonhos loucos. A propósito, os gêmeos foram formidáveis, hem? Na verdade, senti-me bastante orgulhoso deles quando enfrentaram tão desafiadoramente aquela gigantesca avó. Puxa, eles são corajosos! Então, tive medo de que ela fizesse alguma coisa realmente horrível.

- E o que ela fez não foi horrível? Levantou Carrie pelos cabelos. Deve ter doído. E deu uma bofetada em Cory que o atirou longe. Deve ter doído, também. Que mais você queria?

- Ela podia ter feito pior.

- Acho que é maluca.

- Talvez tenha razão, Cathy - murmurou ele, tonto de sono.

- Os gêmeos não passam de bebês. Cory estava apenas protegendo Carrie, você sabe como eles são um para o outro - disse eu, hesitando antes de indagar: - Chris, nossos pais agiram corretamente apaixonando-se um pelo outro? Não poderiam ter feito algo para evitar?

- Não sei. Prefiro que não falemos nisso; fico nervoso.

- Eu também. Mas creio que isso explica por que motivo temos todos cabelos louros e olhos azuis.

- Sim - replicou ele, bocejando. - As bonecas de Dresden: eis o que somos. Você tem razão. Passei o dia inteiro querendo jogar alguma coisa. E não se esqueça: quando mamãe nos trouxer o novo jogo de Monopólio de luxo teremos tempo de terminar ao menos uma partida.

Nunca tínhamos acabado uma partida, porque o jogo era demorado.

- E as sapatilhas prateadas de bailarina serão minhas.

- Certo - murmurou ele. - Ficarei com a cartola ou o carro de corridas.

- A cartola, por favor.

- Está certo. Desculpe, mas esqueci. E poderemos ensinar os gêmeos a serem banqueiros e contar o dinheiro.

- Antes, teremos que ensiná-los a contar.

- Isso será fácil: os Foxworth conhecem tudo a respeito de dinheiro.

- Não somos Foxworths!

- O que somos, então?

- Dollangangers! Eis o que somos!

- Está bem. Como você preferir.

E, mais uma vez, deu-me boa-noite. Uma vez mais, ajoelhei-me ao lado da cama e coloquei as mãos sob o queixo em posição de prece. Em silêncio, comecei: "Agora, que me deito, rogo ao Senhor que mantenha minha alma..." Todavia, sem saber por que motivo, eu simplesmente não podia chegar às palavras que pediam ao Senhor para ficar com minha alma se eu morresse antes de acordar. Tornei a pular aquele trecho e pedi bênçãos divinas para mamãe, para Chris, para os gêmeos e para papai também, onde ele estivesse no céu.

Então, após voltar para a cama, tive que me lembrar do bolo, ou dos doces, e do sorvete que a avó praticamente prometera na noite anterior - se fôssemos bons. E tínhamos sido. Ao menos até Carrie começar a berrar - e, ainda assim, a avó não chegara ao quarto trazendo as sobremesas.

Como poderia ela adivinhar que, posteriormente, não mereceríamos os doces?

- Em que está pensando agora? - indagou Chris num tom monótono e sonolento.

Julguei que já estivesse adormecido e não me observasse.

- Nada demais. Apenas leves idéias relativas a sorvete e bolo, ou doces, que a avó disse que traria se fôssemos bem comportados.

- Amanhã será outro dia, de modo que não desista das recompensas. E talvez amanhã os gêmeos se esqueçam de quererem brincar lá fora. Não lembram das coisas por muito tempo.

De fato, não lembravam. Já tinham esquecido papai e este morrera apenas em abril. Com que facilidade Cory e Carrie abandonavam um pai que os amara tanto! Eu não conseguia abandoná-lo ou esquecê-lo; jamais o esqueceria e, embora não pudesse vê-lo com tanta nitidez, eu o... sentia.


Minutos que Pareciam Horas
Todos os dias se arrastavam. Monótonos.

O que fazer com o tempo que se tem em superabundância? Para onde olhar depois de já ter visto tudo? Em que direção orientar os pensamentos quando os devaneios podem causar tantas encrencas? Eu podia imaginar como seria correr livremente lá fora, através dos bosques, com as folhas secas estalando sob os pés. Podia imaginar-me nadando no lago ou vadeando num riacho da montanha. Contudo, os devaneios não passavam de teias de aranha, facilmente dilaceráveis, e eu logo seria trazida de volta à dura realidade. E onde estava a felicidade? No passado? No futuro? Não naquela hora, minuto e segundo. Possuíamos uma coisa, e só ela, para dar-nos uma centelha de alegria: a esperança.

Chris afirmava que era um pecado mortal desperdiçamos o tempo. Tempo era muito valioso. Ninguém tinha tempo bastante, ou vivia por bastante tempo, para aprender o suficiente. A nossa volta, o mundo caminhava para o fogo, gritando: "Depressa, depressa, depressa!" E vejamos nossa situação: tínhamos tempo de sobra, horas por encher, um milhão de livros para ler, tempo para dar asas à imaginação. O gênio criativo nasce no momento de lazer, sonhando com o impossível e, posteriormente, tornando-o realidade.

Mamãe veio visitar-nos, como prometera, trazendo novos jogos e brinquedos para ocuparmos nosso tempo. Chris e eu adorávamos Monopólio, dominó, xadrez chinês e damas; quando mamãe nos trouxe um par de baralhos de bridge e um livro que ensinava vários jogos de cartas, tornamo-nos verdadeiros profissionais do baralho!

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